Notas iniciais
Meu deus, quanto tempo! Alguém aí ainda? Rs Eu disse em outras fics que esse seria o ano de finalizar essa história e realmente será! Espero que vocês ainda estejam dispostos a nos acompanhar! Não há desculpas que justifiquem todo esse tempo sem atualização, mas quero deixar registrado aqui que essa história nunca foi abandonada, só estávamos com muita dificuldade em escrevê-la. Dito isso, HTSAL is back, bitches! Hahahaha O capítulo de hoje ficou incrivelmente imenso, então dividimos em dois. Então esperem mais uma atualização em breve! Espero que vocês gostem!

"E é como se então, de repente, eu chegasse ao fundo do fim, de volta ao começo, ao fundo do fim, de volta ao começo."

Rachel chegou em casa depois do ensaio e se jogou no sofá, exausta. Acordara um caco e tentara durante o dia inteiro juntar seus pedaços e não pensar no que tinha acontecido na noite anterior, o que se mostrou uma tarefa quase impossível. Ela ainda não tinha encontrado com Quinn, que provavelmente devia ter saído bem cedo pela manhã e faria de tudo para voltar bem tarde do escritório.

Só aquele pensamento a deixava com uma raiva crescente que ela estava tentando controlar a todo custo. Claro que Quinn iria fugir, era típico da loira lidar com seus problemas daquela forma. Uma risada irônica e sem vida escapou de seus lábios e ela olhou para as próprias mãos. Não era isso que ela mesma andara fazendo com Quinn desde... desde sempre? Quando elas tinham voltado ao ensino médio?

Rachel se levantou de súbito, pensar significava que ela teria que lidar com tudo aquilo e ela simplesmente não estava preparada ou não queria estar. Ela atravessou a sala e entrou no corredor, com a intenção de ir para o próprio quarto, mas seus pés estacaram contra a sua vontade na porta do quarto de Quinn.

A porta estava entreaberta e a morena deu uma rápida olhada para a sala antes da curiosidade levar a melhor e ela escancarar a porta do quarto da loira. A cama estava impecavelmente arrumada como sempre e a calcinha que ela jogara no chão na noite anterior não estava mais ali. Era como se nada tivesse acontecido.

Mas acontecera.

Quinn quase a havia possuído naquela cama e ela tinha esperado por aquilo, de forma ávida, sedenta. A raiva cresceu novamente em seu peito, as imagens daquele momento invadindo sua cabeça. Lágrimas quentes desceram pelo seu rosto e ela tentou segurá-las a todo custo. Era o sentimento de quem havia se entregado e sido rejeitado. Quinn a abandonara propositalmente, a deixando ali, despida e humilhada. Seu celular tocou em seu bolso e ela o pegou com raiva.

"Santana, eu já disse que..." A morena já estava prestes a explodir com a latina.

"Rach? Eu... É o Finn."

Rachel congelou no lugar. Por que ela atendera sem olhar quem era? Ela estava tão certa que se tratava de Santana, que havia ligado o dia inteiro para garantir que ela estivesse bem. E por que merda Finn estava ligando pra ela?

"Oi, Finn." Ela cumprimentou educadamente.

Um silêncio incômodo tomou conta da linha. "Você deve estar se perguntando porque eu liguei... eu só queria, não sei, conversar com você." O moreno disse com cautela. "Está tudo bem? Você atendeu com uma voz estranha..."

Rachel fechou os olhos. A última coisa que ela queria era ter que lidar com Finn naquele momento. "Finn... não é uma boa hora. Eu não estou podendo falar no momento."

"Oh... Eu... Ok. Desculpe pelo mau momento." Ele disse, parecendo desapontado, mas ela desligou antes que ele pudesse falar mais alguma coisa.

Rachel respirou fundo, suas costas deslizaram pela parede e ela sentou no chão, sem conseguir segurar as lágrimas dessa vez. Passado e presente se entrelaçavam em sua cabeça de uma forma dolorosa e sensações e sentimentos se confundiam entre si, implorando por libertação, por alguma coisa, por qualquer coisa...

"Rachel?" A voz de Santana ecoou pelo corredor escuro, mas ela permaneceu onde estava. A latina já tinha presenciado muitas vezes aquela cena para que ela se importasse em esconder.

Santana não disse mais nada. Ela ajudou a morena a se levantar e a levou para o quarto, sentando ao seu lado na cama e esperando que ela se acalmasse. As lágrimas secaram e ela não percebeu que ainda segurava o celular em uma das mãos até Santana retirá-lo de lá.

"O que houve, Rach?" Santana perguntou em uma voz suave e preocupada.

"Eu cheguei em casa e parei por um minuto no corredor e..." Rachel não sabia como terminar aquela frase. Ela teria que explicar porque ela tinha parado ali e o que acontecera na noite anterior e isso levaria a uma conversa sobre Quinn que ela estava tentando evitar há meses. Além disso, Rachel tinha quase certeza que Santana tinha uma boa ideia do que havia acontecido. "Finn me ligou." A morena disse ao invés disso.

Rachel logo percebeu que mencionar esse fato havia sido um erro e o suficiente para Santana se levantar da cama e a encarar duramente. "Você o atendeu?"

"Eu..." A morena pestanejou, sabendo o que viria a seguir.

"Eu não acredito, Rachel!" A latina se indignou, aumentando o tom de voz.

"Não foi minha culpa, ok?" Ela se apressou em dizer. "Eu atendi sem ver quem era, pensando que fosse você, já que você me ligou o dia todo, mas era ele."

"E o que aquela anta queria com você?" Ela não tinha dito pra ele ficar bem longe de Rachel? Talvez um soco na cara não tivesse sido suficiente, talvez ela tivesse que quebrar ele inteiro.

"Nada. Só conversar, segundo ele."

"Conta outra, Rachel. Por que merda você estava chorando no meio do corredor se ele só queria conversar?"

"Eu desliguei, Santana. Eu disse a ele que não era uma boa hora e desliguei. E então eu..." Ela queria explicar, queria dizer que já estava assim antes dele ter ligado e não por ele ter ligado. Mas as palavras pareciam presas, sua garganta parecia seca e dizer certas coisas em voz alta a assustava tanto quanto senti-las.

"Você nem sabe mais pelo que você chora..." A latina a acusou, frustrada com aquele silêncio. "Essa Rachel, essa que está na minha frente agora, ela só aparece quando você chora por ele. Mas eu não tenho mais certeza se você chora por ele ou pelo vazio que você sente." Ela provocou.

Santana estava errada. Santana estava completamente errada, pensou a morena. Mas a sua falta de resposta fez com que a latina continuasse a provocá-la. Santana estava farta daquele silêncio melancólico e das palavras não ditas pela morena, ela queria que Rachel reagisse, ela queria que Rachel se defendesse, ela queria que Rachel falasse, gritasse, batesse, qualquer coisa!

"Estamos há anos nessa, Rachel! Você sabe que eu sinto o mesmo. Mas eu daria tudo para estar com a Brittany. Tudo! Você daria tudo para estar com o Finn? É isso que você quer? Me diz, Rachel!" A latina gritou.

A morena se levantou, completamente lívida, morrendo de raiva. Dela, de Santana, de Quinn, do mundo inteiro. "Você não sabe porra nenhuma do que você está falando, Santana! Claro que não é isso que eu quero!" Rachel gritou.

"Então por que desgraça você estava chorando por ele?" A latina insistiu.

"EU NÃO ESTAVA CHORANDO POR ELE, MERDA!" A morena explodiu. "Você está certa, ok? Há anos que eu não choro por ele! Eu choro por tudo o que ele arrancou de mim, pelo que foi embora de mim depois do que ele fez comigo, pelo que eu me tornei por causa disso, por..." por tudo estar tão fodido com a Quinn, ela completou a lista mentalmente. Lembrar da loira fez sua raiva ser substituída por um enorme cansaço e ela se jogou na cama. "Eu estava em um momento ruim e ele me ligou. Foi só isso. Satisfeita?"

Santana sentou ao seu lado, parecendo mais aliviada do que nunca. Elas ficaram algum tempo em silêncio, até a latina resolver quebrá-lo. "Então agora você vai me dizer o que aconteceu ontem entre você e a Quinn?"

Rachel suspirou e fechou os olhos. Ela sabia que dessa vez Santana não admitiria que ela fugisse do assunto. "Eu perdi o controle, San." Ela confessou num sussurro. "Nós estávamos discutindo sobre a vadia da Jean e ela me disse que não tinha dormido com ela e eu..." Ela pausou.

"Você a beijou, não foi?" Santana completou.

"Ela me deixou. Ela correspondeu e depois... foi embora." Rachel falou, o orgulho ferido transparecendo em cada palavra dita.

Santana assobiou. "Wow... quem ia imaginar que a Fabray ainda tinha isso dentro dela?"

"San..."

"Olha, eu não estou escolhendo lados aqui e nem dizendo quem está certa ou quem está errada, mas Rach, não foi isso que você fez com ela? Foi embora quando tudo o que ela queria era mais de você?”

Rachel não disse nada. Ela não queria admitir que a latina estava certa porque isso significava também admitir que Quinn tivera seus motivos para fazer o que fez e ela não estava pronta para abandonar sua raiva da loira, pelo menos não ainda. "E agora?" Ela perguntou à latina.

"E agora?" Santana riu ironicamente e se deitou ao lado da morena, encarando o teto. "E agora eu não faço ideia, Rach... não faço ideia..."

...

Quinn subiu as escadas do prédio cansada, já era tarde da noite. Ao chegar de frente para a porta, ela hesitou por alguns momentos, mas acabou por bater. Ela tinha ido até ali afinal e a última coisa que queria era voltar pra casa. Um homem abriu a porta e a expressão em seu rosto denunciou a surpresa em vê-la ali.

"Quinn? O que houve?" Brody perguntou de imediato, abrindo para que a loira entrasse.

Quinn entrou no loft e se virou para o moreno. "Posso dormir aqui hoje?" Pediu, evitando a pergunta.

"Você pode dormir aqui sempre que quiser, Quinn." Ele respondeu. "Vou arrumar a cama pra você. Acho que tem umas roupas da Santana aqui caso você queira tomar um banho."

Uma onda de gratidão por Brody invadiu a loira e seus ombros antes tensos relaxaram. "Brody, eu..." Ela começou a dizer para as costas do moreno, que já ia em direção ao quarto.

"Nem pense em agradecer, Quinn." O moreno lhe gritou de costas.

A loira sorriu e se encaminhou para o banheiro, retirando lentamente suas roupas e abrindo o chuveiro. A água escorria por entre seu corpo cansado e ela fechou os olhos, apreciando o momento de paz.

Mas logo seus pensamentos a traíram...

E tudo que Quinn conseguiu fazer foi se render ao beijo. Aqueles lábios, aquela boca, aquele cheiro, aquele corpo... tudo em Rachel chamava, gritava por ela e ela se viu completamente incapaz de resistir, uma de suas mãos se perdendo por entre os cachos castanhos e a outra invadindo por baixo da blusa da morena, segurando a pele nua da cintura de Rachel.

"Diz de novo..." Rachel disse ofegante. "Diz que você não dormiu com ela..." Pediu a morena num tom que beirava uma súplica.

"Eu não dormi com a Jean, Rachel." A loira sussurrou entre suas bocas.

Por que a morena tinha que fazer isso com ela? Já não tinha sido bastante ruim tudo o que acontecera, Rachel ainda tinha que fazer aquele joguinho? Rachel já tinha deixado bem clara sua intenção antes de viajar para Lima e Quinn sabia que aquele suposto ataque de ciúmes não passava de uma forma de disputa com Jean, o orgulho da morena falando mais alto e a transformando em um objeto de disputa, como já acontecera outras vezes entre as duas morenas.

E Quinn estava morrendo de raiva de si mesma, por ter cedido, por ter caído naquele jogo, por ter se deixado levar pelo beijo da morena e ter se perdido em tudo o que Rachel ainda lhe causava. Ela havia esquecido por um lindo breve momento o motivo pelo qual beijar Rachel era uma péssima ideia...

Assim que Rachel gemeu mais uma vez o seu nome, os lábios que haviam descido até o seu colo subiram mais uma vez até o ouvido da morena, a voz completamente rouca e despida de qualquer emoção. "Você não se acha tão autossuficiente, Rachel? Então se satisfaça sozinha."

Ela não se orgulhava de ter feito o que fez, mas a raiva pela morena tinha falado mais alto. Ver a morena entregue, como ela mesma estivera por tantas vezes, tinha feito explodir dentro dela uma vontade de vingança, uma vontade de fazer Rachel pagar pelo o que fizera. Mas a vingança, de fato, nunca era plena. E agora ali estava ela, aos pedaços, dividida entre uma parte de si que insistia que Rachel havia merecido aquela atitude e outra parte sussurrando que independente de qualquer coisa, ela agira errado, agira de propósito, com a intenção de ferir e por isso não tinha conseguido ir para casa enfrentar a morena aquela noite.

Ela saiu do banho e, como prometido, Brody havia arrumado a cama e separado uma roupa de Santana para ela. Depois de se vestir, Quinn queria mais do que tudo se jogar na cama e dormir, mas o cheiro gostoso que vinha da cozinha a lembrou de que não comia nada há horas e foi pra lá que ela se dirigiu.

"Fome?" Brody perguntou enquanto finalizava a salada.

"Muita." Quinn respondeu, indo ajudar o moreno.

Eles jantaram ao som de uma conversa leve e Quinn mais uma vez agradeceu mentalmente o moreno, que não fizera uma pergunta sequer e a tinha feito se sentir em casa.

"Bom, já está tarde e amanhã acordamos cedo. Estou indo dormir." Ele disse assim que eles terminaram de arrumar a cozinha, percebendo a vontade de Quinn de ficar sozinha. "Boa noite, Quinn."

Ela sorriu e o abraçou. "Obrigada, Brody. Por tudo." Ela agradeceu.

"Disponha, loira. Qualquer coisa estou no quarto ao lado." Ele disse, piscando para Quinn e indo embora.

Quinn fez o mesmo, apagando as luzes e finalmente se deitando, pedindo para que os seus pensamentos não atrapalhassem o sono que ela tanto precisava. Amanhã seria um longo dia.

...

Era de manhã bem cedo quando Quinn voltou para o apartamento. Ela não poderia ir para o trabalho com a mesma roupa do dia anterior e lá também estavam alguns documentos que ela precisava. Ela esperava encontrar Rachel só a noite, mas foi surpreendida pela morena sentada em uma das poltronas da sala assim que ela abriu a porta.

Quinn não parecia a única surpreendida, no entanto, a julgar pelo olhar surpreso de Rachel ao vê-la entrar pela porta. "Você não dormiu em casa." Rachel disse, a voz rouca e cansada.

"Não, não dormi." Quinn confirmou o óbvio, retirando o sobretudo.

"Posso perguntar onde você passou a noite?" A morena disse com cuidado, um tom de preocupação em sua voz.

"Não, não pode." Quinn respondeu, atravessando a sala.

Ela não estava preparada para conversar com Rachel, não naquele momento. E apesar do tom preocupado da morena, Quinn não conseguiu conter seu lado orgulhoso.

Aquela resposta pareceu acender algo em Rachel, que se levantou e assumiu uma expressão indignada, em contraste com a postura cansada de momentos atrás. "Eu só estava preocupada com você, Quinn. Não que eu tivesse qualquer motivo para estar depois do que você fez comigo." Rachel acusou com raiva.

Direta ao ponto e transparecendo suas reais emoções, do jeito que a antiga Rachel costumava ser. A morena só estava atrasada demais e a loira não teve dificuldades em também trazer para superfície a antiga Quinn Fabray, se virando para a morena e largando sua pasta no chão.

"Eu só te dei de volta o que você me deu, Rachel." A loira falou, firme. "Eu sempre tratei você com todo o respeito e consideração, independente do que estivesse acontecendo entre nós, porque antes de tudo somos amigas e, acima disso, eu enxergo em você uma pessoa que tem sentimentos. Ao contrário de você, que em nenhum momento teve qualquer respeito ou consideração por mim, pela nossa amizade, como se eu fosse um objeto de alívio sexual! Mas eu não sou, Rachel, eu não sou essas mulheres que você leva para a cama e não sabe nem o nome, eu sou a Quinn, lembra? Em algum momento você levou isso em consideração?"

"É claro que eu levei! Como você pode achar isso?" Rachel respondeu de imediato.

"Como eu posso achar isso?" A loira riu em descrença. "Talvez por TODAS as atitudes que você tomou desde aquele maldito dia no banheiro daquela boate!" Quinn gritou.

"Como você não vê que tudo com você foi diferente, Quinn?" A morena insistiu. "Eu posso ter feito tudo errado, mas eu disse pra você que queria tentar, eu tentei... eu-" Rachel travou, a dificuldade em falar daquele assunto ainda visível.

Se fosse qualquer outro dia, talvez Quinn tivesse se desarmado vendo a angústia da morena, mas não aquele dia. Dessa vez ela lutaria, lutaria por ela mesma e não pouparia Rachel de nada. "Você tentou? Você não tentou, Rachel, você brincou comigo durante alguns dias até se cansar e agarrou uma mulher na minha frente! Eu estava lá, lembra? Você sequer falou comigo, Rachel! NADA! Você simplesmente passou por cima dos meus sentimentos e fez o que quis e ainda foi para Lima se sentindo no direito de me tratar daquele jeito, como se eu fosse um incômodo na sua vida. Como você acha que eu me senti?" A loira pausou, visivelmente balançada. "E até hoje, até hoje Rachel, eu não ouvi de você qualquer palavra, qualquer explicação, nem uma simples desculpa pelo o que você fez! Ao menos pela nossa amizade! Então o que dá você o direito de ficar com raiva de mim pelo o que eu fiz?"

"Eu não fiz nada com a intenção de magoar você, Quinn." A morena se defendeu. "Não é possível que você não saiba disso! O que aconteceu... eu não brinquei com você. Foi tudo real, por mais que eu tenha tentado negar e afastar você de mim. E como eu tentei, Quinn!" A morena confessou, um certo tom de desespero em sua voz.

"A única coisa que eu sei é que você me desejava. Nada mais." A loira afirmou.

"Então o que aconteceu dois dias atrás foi o que pra você?!" Rachel questionou, estupefata.

"O que aconteceu foi um joguinho idiota entre você e a Jean. Você se sentiu provocada por ela, mordida. A incrível Rachel Berry não poderia ficar atrás, não é mesmo? Só que você esperava a mesma Quinn de sempre, mas nada foi como você quis... Eu fiz você provar do seu próprio veneno e agora você está vendo o quanto dói, Rachel. O quanto dói ser tratada como um nada, como um objeto, por uma das pessoas que você mais confiava!" Quinn extravasou.

Rachel precisou de toda a força de vontade que tinha para engolir o nó gigante que tinha tomado conta de sua garganta e permanecer ali. A vontade de fugir, de correr, de se esconder latejando em suas veias. Mas ela não faria isso, não mais. "Você está errada." Rachel falou com uma calma que não sentia. "Não foi isso o que aconteceu. Você nunca foi um nada, um objeto pra mim. Nunca! Você pode achar que são apenas desculpas, que não justifica, mas você sabe pelo que eu passei e o quanto isso me custou. Ou eu deixei que custasse. Eu só não soube lidar com isso, com nós. Eu sei que fiz tudo errado, que fui egoísta, que sequer comecei a consertar tudo o que causei, mas eu não quero mais ser assim, Quinn! Acredite em mim quando eu digo que o que aconteceu no seu quarto não foi um jogo, não foi uma disputa, foi inteiramente e somente eu, Rachel, finalmente lidando com os meus sentimentos ao invés de fugir deles." Rachel confessou.

Por mais que a morena estivesse falando a verdade, Quinn duvidava. A loira não sabia no que acreditar. Não sabia sequer se fazia agora qualquer diferença ser verdade ou não o que Rachel se esforçava em dizer. Antes teria feito toda a diferença do mundo, mas ela havia se machucado.

Quinn percebeu que as palavras de Rachel não bastavam mais. "Nós já tivemos essa conversa. Lembra?" Ela perguntou. "Foi de outra forma, através de outras palavras, mas foi a mesma conversa. E eu... eu fui idiota o suficiente para acreditar em você, Rachel." Quinn cravou seus olhos avelãs na morena, toda a sua mágoa impressa neles.

O olhar magoado não era novo, mas era a primeira vez que Quinn também vocalizava aquele sentimento. E a culpa que a morena carregava por tudo que fizera queimou como nunca antes, ardeu até dissipar toda a sua raiva pelo que Quinn havia feito e continuou queimando, fazendo com que ela não conseguisse dizer uma só palavra para se defender.

Todas as suas defesas estavam caídas ao chão, derrubadas pela decepção de Quinn. Por quanto tempo mais ela usaria do seu passado para justificar todo o seu futuro? Por quanto mais ela assumiria a posição de vítima das suas próprias atitudes?

Será que ainda lhe restava algum recomeço?

"Você sabe que eu também tenho meus fantasmas, minhas próprias decepções. E você nunca sequer parou para pensar nisso." Quinn sorriu tristemente, os olhos avelãs brilhando contra as lágrimas. "Você me deixou sozinha para lidar com as merdas que você deixou pra trás, egoísta demais para pensar em outra pessoa além de você mesma. Você não quer mais ser assim? Ótimo, já era tempo." A loira deu de ombros. "Mas isso não muda em nada o que aconteceu."

Quinn respirou fundo ao terminar, o rosto de Rachel com uma expressão indecifrável. Talvez tristeza, talvez arrependimento, talvez os dois ou nenhum dos dois. Ficar trocando acusações com a morena não as levaria a lugar algum. Rachel havia feito suas escolhas. Ela precisava considerar aquilo passado agora.

Foi esse pensamento que fez Quinn respirar pesadamente e retomar a fala. "Eu quero que você saiba que eu não estou querendo justificar minha atitude, porque sei que agi errado. Você ter me beijado trouxe à tona todas as minhas mágoas com o que aconteceu, mas isso não me dava o direito de fazer aquilo com você. Ficar discutindo o que passou não vai nos levar a lugar nenhum. Me desculpe por ter feito o que eu fiz, prometo que isso não vai se repetir, nada daquilo vai se repetir."

Rachel queria responder, queria pedir suas próprias desculpas, mas não sabia como diante de uma Quinn tão distante e irredutível. "Me perdoa, Quinn." Ela finalmente disse. "Me perdoa por tudo. Eu só-"

“Eu realmente preciso ir trabalhar agora.” Quinn a cortou, desesperada para sair dali, para não ter que olhar por mais tempo para o rosto moreno, para não ter que ouvir o que Rachel tinha a dizer e correr o risco de fraquejar mais uma vez.

Os olhos castanhos pareceram implorar para que ela não fosse, mas ela foi. Ela se virou e foi para o seu quarto. Provavelmente aquele olhar era fruto da sua imaginação, assim como tinha sido todo o resto em relação a Rachel.

...

Brody se despediu da recepcionista e saiu pelas portas duplas, surpreendendo-se ao encontrar Rachel sentada em um dos bancos que adornavam o lado de fora do centro comercial em que ficava a Hart. "Rach?"

Rachel logo levantou o olhar e sorriu, apesar daquele sorriso jamais ter chegado aos seus olhos. A morena parecia visivelmente abalada e triste. Brody nunca a tinha visto parecer tão derrotada quanto naquele momento, seu coração doendo pela morena. Ainda assim ela levantou e o abraçou. Ele correspondeu ao abraço, segurando a morena por mais alguns segundos do que o usual.

"A Santana já foi embora. Ela teve que sair mais cedo e resolver alguns problemas com um patrocinador nosso." Ele disse, desfazendo o abraço.

"Eu vim ver você, na verdade." A morena respondeu. "E não faça essa cara de surpresa como se eu sempre te abandonasse pela Santana. Você sabe que não." Ela alertou, batendo de leve em seu braço.

"Café?" Brody propôs, oferecendo o braço para a morena, ambos saindo dali.

"Podemos pegar o café no caminho e ir para a sua casa?" Rachel pediu.

O moreno estranhou, mas assentiu, sem questionar a morena. "Não é como se tivesse uma mulher nua me esperando em casa mesmo." Ele brincou, fazendo a morena rir enquanto eles atravessavam a rua.

Algum tempo depois eles entraram no loft, um suspiro nostálgico deixando os lábios da morena. Brody revirou os olhos e sorriu de lado, sempre que ela entrava ali era a mesma reação.

A conversa fluía levemente entre eles, ambos já sentados confortavelmente no sofá, a morena com as costas apoiadas em um dos abraços e as pernas esticadas e Brody sentado do outro lado com os pés da morena apoiados em suas pernas. Rachel fitou o moreno seriamente.

"A Quinn dormiu aqui ontem, não dormiu?" Ela sabia que pareceria loucura se falasse, mas Rachel simplesmente havia sentido o cheiro da loira pela casa.

Brody hesitou por um segundo antes de responder. "Dormiu."

"Ela disse alguma coisa pra você?" A morena perguntou, olhando para o lado.

"Não, não disse. E eu também não perguntei. Ela só perguntou se podia dormir aqui. Quando eu acordei ela já tinha ido embora."

"Foi realmente só isso?" O tom da morena era de dúvida.

"Mesmo que ela tivesse me falado qualquer coisa, eu não falaria pra você, Rach. Se é isso que você quer saber." O moreno foi direto ao ponto, censurando a morena. "Da mesma forma que o que você me fala também sempre fica entre nós."

"Eu te odeio." A morena disse, cruzando os braços.

"Não, você não me odeia. Você só está frustrada porque está morrendo de ciúmes da Quinn ter te deixado pra vir dormir aqui comigo." Brody provocou, brincando.

"Eu realmente te odeio."

Brody sorriu. "Você não vai me contar o que aconteceu entre vocês?"

"Como se você não soubesse." Rachel revirou os olhos.

"Oh, sim. Eu sei. A Santana realmente não consegue segurar a língua por muito tempo." Ele disse, rindo. "Eu só queria ouvir de você."

Rachel ficou calada por algum tempo, fitando o teto. Brody respeitou seu silêncio, sabendo o quanto era difícil para a morena se abrir. "Como era a sensação de ser um garoto de programa?"

A pergunta pegou Brody de surpresa, fazendo ele arregalar os olhos e depois franzir a testa. "Acho que já conversamos sobre isso."

"Sim, eu sei. Você sabe que eu nunca liguei pra isso e que jamais te julgaria. É mais uma curiosidade. Não sobre o que os outros pensavam de você, mas sobre o que você pensava de você mesmo. Ser garoto de programa fazia você se sentir diminuído? Com vergonha de você mesmo?"

"Quando eu estava solteiro, não. Quando eu realmente gostava de alguém ou quando eu namorei, muito." Brody respondeu de forma sincera. "A verdade é que é muito fácil se sentir bem quando não tem ninguém esperando alguma coisa de você e muito difícil continuar se sentindo assim quando alguém com quem você se importa começa a ter expectativas sobre quem você é ou suas escolhas. Ou a forma com que você leva a vida, no meu caso."

O moreno deu um suspiro, parecendo ter ido para longe dali. Rachel sabia que ele estava pensando na ex-namorada e no que suas escolhas haviam lhe custado. "Mas no fim..." Ele continuou. "No fim quem continua fazendo as escolhas é você e ninguém pode te julgar por isso, porque é você e mais ninguém que vai responder pelas consequências delas."

A morena fez menção de dizer alguma coisa, mas Brody foi mais rápido.

"Dito isso..." Ele aumentou um pouco a voz. "E considerando que sou seu amigo..."

"Ok." Rachel disse conformada. "Pode dizer."

"É bem ruim quando suas escolhas machucam outras pessoas."

"Eu sei." A morena olhou derrotada para baixo. "E eu não quero mais fazer isso. Eu só não sei como."

"Rachel, me escuta, ok?" Brody pediu e ela assentiu. "Tudo na sua vida é perfeito. Você é realizada profissionalmente, mora na cidade que você sempre sonhou, tem dois pais que te amam, amigos que você pode chamar de família, você é linda, você é gostosa, tem homens e mulheres babando por você onde quer que você vá. A única coisa na vida em que você é fodida, é na sua vida amorosa. Aliás, nem vida amorosa você tem. Você tinha e se ferrou e depois poderia ter tido e aí você ferrou com isso."

"Como se você tivesse alguma vida amorosa pra poder falar da minha."

"Eu estou solteiro e em paz comigo mesmo, Rachel. Eu nunca precisei fazer o que você e a Santana faziam."

"Eu me divertia." Rachel se defendeu.

"Eu não estou julgando vocês, mas não era só isso que vocês faziam. Era como se vocês estivessem em um carro a 200 quilômetros por hora e sem dar qualquer sinal de que iriam parar. A Quinn e a volta da Brittany só mostrou a vocês que existia um freio. Mas você estava tão cega que você simplesmente não sabia como usá-lo. Você tentou parar e continuar correndo ao mesmo tempo, freiar e acelerar. E você capotou. Você capotou, mas não capotou sozinha. Você se machucou e machucou outra pessoa."

"Eu sei, ok? Eu sei que eu magoei ela e sei que depois de tudo que eu fiz, eu ainda consegui magoá-la ainda mais. Não tem mais volta, Brody. Eu fodi com tudo, até com a nossa amizade. Ela está certa. Eu fui egoísta e fui orgulhosa e ela tem todo o direito de não querer mais nada de mim."

"Ok. Vamos pôr assim então. Você capotou e agora você está na cama de um hospital, se recuperando. É claro que a outra pessoa não quer mais entrar em um carro com você, porque ela acha que você vai capotar de novo. Ela perdeu a confiança em você. Eu sei que tudo o que você quer agora é provar que você consegue dirigir de novo sem capotar, que você quer que ela acredite que você consegue. Mas ela não vai fazer isso do dia pra noite, Rachel. Ela não vai entrar em um carro com você amanhã. Primeiro você precisa sair da cama do hospital e reaprender a dirigir. Reaprender a dirigir, Rachel, ao invés de só saber acelerar sem rumo."

As lágrimas de Rachel haviam começado a cair antes mesmo de Brody terminar de falar. Ela sentiu o moreno puxá-la para si e não resistiu, deixando-se levar. Ele deitou sua cabeça em seu colo, confortando-a. "Desculpa se eu me excedi, Rach. Não queria deixar você assim." Brody disse, arrependido pelas lágrimas que havia causado.

"Você não me deve nenhuma desculpa, Brody. Você só me falou as verdades que eu precisava ouvir." Seu tom de voz era anasalado pelo choro, mas firme. "Você está certo. Eu preciso arcar com as consequências dos meus atos, preciso consertar tudo o que eu fiz antes de qualquer coisa."

"Você vai saber fazer a coisa certa, Rach. Você está diferente. Antes você só sacudia a poeira e ia adiante, fingindo não se abalar. Prefiro você assim, mais verdadeira." Ele confessou, um sorriso enorme no rosto.

Ela retribuiu o sorriso. "Eu costumava ser assim sabia? Eu era tão verdadeira comigo mesma, me conhecia tão bem. Eu não tinha vergonha de ser quem eu era, de me impor, de dizer o que eu estava sentindo ou pensando. Eu sempre era sincera com todo mundo, mesmo que doesse. Eu era transparente, sem medo de me arriscar, de querer. E me importava. Me importava com as pessoas ao meu redor, ainda que elas não fizessem o mesmo comigo. Me importava com meus pais. Me importava até mesmo com quem eu não conhecia. Eu era tão apaixonada pela vida, pelos meus sonhos! Mal podia esperar para realizá-los, para vir para Nova Iorque. Cada detalhe da minha vida era cuidadosamente pensado e planejado, cada pedaço do futuro que eu queria pra mim era minuciosamente desenhado na minha cabeça."

"Você nunca falou de como você era pra mim. Aliás, acho que você nunca sequer tocou nesse assunto comigo." O moreno disse, surpreso.

"Eu estava no ensino médio, Brody." Um sorriso saudoso adornou seus lábios. "Era uma época onde a poderosa Quinn Fabray me odiava e as coisas eram muito mais fáceis do que são agora."

Brody franziu a sobrancelha. "A Santana já comentou isso comigo uma vez, mas nunca me contou de fato como era a relação entre vocês no ensino médio."

Rachel riu. "Era um desastre. Eu, ela e a Quinn fomos, literalmente, do ódio ao amor. A gente brigava tanto! É engraçado lembrar dessa época. E irônico também. A gente era tão jovem."

"Você vai me contar ou não?" Brody perguntou, arqueando a sobrancelha.

Então Rachel contou. Ela falou sobre tudo e sobre todos. Sobre o Glee, sobre as brigas e amizades, sobre tudo que eles passaram juntos, sobre sua história com Finn, sobre Santana e Brittany, sobre seus sonhos e NYADA e tudo sobre Quinn, do início ao fim. Ela falou sobre tudo isso e mais.

"O resto você já sabe." Rachel falou ao final.

Brody estava sem palavras, parecendo ainda absorver tudo que a morena havia dito.

"É, eu sei." Ela riu. "É muita coisa. Difícil agora imaginar eu e a Quinn amigas, eu e Santana. Nós três morando juntas. Eu e a Quinn... nos envolvendo. Não é à toa que os nossos amigos ficaram tão chocados com a nossa amizade. Imagina se soubessem do resto..."

"Com você me contando tudo isso eu acho ainda mais difícil de entender porque você deixou se abalar tanto pelo babaca do seu ex-noivo..." Brody falou, sem conseguir se segurar.

"Eu amava o Finn. Podia não ser o namoro mais perfeito do mundo ou o amor mais forte que já existiu. Mas eu o amei. E sei que ele também me amou. Mas os defeitos, os defeitos a gente só enxerga depois. Quando eu estava com ele era fácil passar por cima de várias coisas que estavam erradas e seguir em frente. No fim, eu acabei me culpando pelo que aconteceu. Eu pensava que o odiava e que morria de raiva dele, mas, na verdade, eu passei a me odiar, eu estava com raiva de mim mesma. Eu não conseguia aceitar que eu havia me iludido aquele tempo todo, sem querer admitir que eu e ele sempre fomos destinados a caminhos diferentes. Eu deixei toda a minha história ser escrita através da minha história com ele e eu não queria mais isso."

Rachel fez uma pausa, sentindo profundamente tudo aquilo que havia acabado de confessar. Não era uma confissão fácil de fazer.

"Eu tinha quase desistido dos meus sonhos para ficar com ele e os meus sonhos eram tudo pra mim. Então quando terminamos, eu não queria dar mais nada de mim a ninguém. Por isso a indiferença, a necessidade de mudar, de me mostrar diferente, inalcançável, inabalável, intangível. Mas no fundo eu só estava sendo covarde, covarde demais. A Quinn foi a pessoa certa na hora errada. E, apesar de tudo e mesmo sem saber, ela me mostrou que aquela Rachel que eu pensava não existir mais ainda existia. Ainda estava aqui. Eu só precisava deixar cair a máscara desses anos, minhas defesas contra mim mesma, minhas próprias armadilhas que não sabotavam ninguém a não ser eu."

Brody deixou o silêncio pairar entre eles por um bom momento. Ele sabia que não estava sendo fácil para a morena, mas ele também sabia que era necessário. Assim como era necessário ele esclarecer algumas coisas que a morena parecia não enxergar ainda...

"Eu não concordo com você." Ele disse calmamente. "Primeiro, eu não acho que toda sua história foi escrita através dele. Com tudo que você acabou de me contar, o Finn é só uma parte da sua história. E talvez nem seja a mais importante. Você, Rachel, fez suas próprias escolhas, mesmo que erradas. Mesmo sendo namorada ou noiva dele. É isso que eu vejo quando eu olho pra você. Eu vejo o orgulho com que você fala dos seus amigos de colégio e eu vi como os seus olhos brilharam enquanto você contava cada pedaço da sua história com a Quinn. O Finn pode ter te influenciado em uma ou outra escolha, mas isso já foi há tanto tempo que nem importa mais."

Rachel não conseguiu esboçar qualquer reação. Era uma nova perspectiva, um novo olhar sobre sua vida.

"Eu também não acho que a Quinn tenha sido a pessoa certa na hora errada. Eu acho que ela foi a pessoa certa na hora certa."

"Na hora certa? Como pode ser a hora certa? Eu fiz tudo errado!" Rachel disse, balançando a cabeça.

"Vamos ser simples aqui. Esquece o agora, o que vocês estão passando. Só fecha os olhos e pense. Pense em quem você é e no que a Quinn significa pra você."

"Eu não consigo fazer isso. Simplesmente não consigo." Rachel disse.

"Sim, você consegue. Pense nisso que eu falei. Não precisa ser agora e também não precisa me dizer. Só pense e tire suas próprias conclusões."

A morena assentiu e depois sorriu. "Quando foi que você ficou tão esperto?"

Brody gargalhou. "Vocês que nunca apreciaram minha inteligência e sensibilidade."

"Oh, Deus. É só elogiar." A morena falou, antes que uma almofada acertasse em cheio o seu rosto.

...

Depois de voltar do loft, Rachel chegou em casa e encontrou Santana sozinha no sofá com uma caixa de pizza aberta na mesinha de centro e uma cerveja em mãos.

"Onde você estava?" A latina logo perguntou.

"No Brody." Rachel respondeu, sentando ao seu lado no sofá.

"Me dá seu celular." Santana disse, estendendo a mão para a morena.

Rachel franziu a testa, mas entregou o aparelho para a amiga mesmo assim. Santana se limitou a pegá-lo e guardar no bolso de sua calça.

"Posso perguntar o porquê disso?" A morena questionou, completamente confusa pela atitude da amiga.

"Estou precisando de uma grana e vou vender o seu celular. Você não usa ele mesmo."

Rachel riu, incrédula. "Aham, sei. Devolve."

"Eu estou falando sério." Santana se limitou a responder.

"Você não pode estar falando sério." A morena rebateu, cruzando os braços.

"Não posso? Claro que eu posso!" A latina afirmou, largando a cerveja na mesa com uma forte batida e se virando para a morena. "Ontem você estava chorando sentada na merda do chão do corredor e passou a noite inteira se revirando na cama, sem deixar eu dormir e acordou parecendo a porra de um zumbi anão. E hoje você decide simplesmente sumir depois do ensaio e me deixar que nem a porra de uma idiota te ligando e te mandando mensagem sem parar, preocupada com você. Então sim, eu vou vender a droga do seu celular e vou usar o dinheiro pra comprar a porra de um GPS e enfiar ele na porra do seu-"

"Santana!" Rachel exclamou, visivelmente surpresa com a reação da latina.

Santana bufou e cruzou os braços. "Eu só me preocupo com você, ok? Você sabe disso. Não precisa me fazer dizer. Duas vezes ainda."

Rachel riu docemente para a latina, descruzando os braços dela com as mãos e deitando em seu ombro. "Desculpa." Ela disse baixinho. "Não queria chatear você. Prometo que não vou mais esquecer de checar meu celular depois de um dia ruim." Ela sorriu, mas sentia que a latina ainda estava tensa. "O que foi?" Ela perguntou suavemente.

"Por que você se abre com o Brody e não comigo?" A latina perguntou de forma rápida e em um tom extremamente baixo, como se não quisesse que a morena escutasse sua pergunta.

Rachel levantou a cabeça e se endireitou no sofá. "Eu me abro com você."

"Não sobre a Quinn. Eu sei que não é fácil pra você falar sobre o que te incomoda e eu entendo e respeito isso, mas uma hora ou outra você sempre se abria comigo, mesmo que fosse aos poucos."

"Eu sei." Rachel admitiu.

"Mas dessa vez não." Santana continuou. "Eu estou aqui todos os dias com você por todos esses meses e ontem foi a primeira vez que você de fato contou algo pra mim. Sempre é a Quinn que deixa escapar as coisas ou sou eu mesma que adivinho o que está acontecendo."

"Me desculpa."

"Eu não quero suas desculpas, Rachel. Eu só quero entender porque quando você achou que podia conversar sobre isso, você procurou o Brody e não a mim." Santana explicou, apontando para si.

"Não foi assim." Rachel balançou a cabeça. "Eu só queria perguntar algo pra ele e uma coisa levou a outra. Eu não decidi que estava pronta para conversar com alguém e te deixei de fora."

"Você teve mil oportunidades para falar comigo sobre o que estava acontecendo. E mesmo assim não o fez. Eu estou tentando respeitar seu espaço, Rachel, mas é muito difícil te ver passando por um momento difícil e ter que ir juntando peça por peça para tentar entender o que realmente está acontecendo com você. Eu não sei como te ajudar porque eu não faço a mínima ideia do que passa pela sua cabeça." Santana terminou de falar, uma expressão de angústia em seu rosto.

"Nunca foi minha intenção fazer você se sentir assim, San. Eu quis tantas vezes me abrir com você, botar pra fora tudo isso que está preso dentro de mim." A morena confessou.

"E o que te impediu?"

"No início era só a minha relutância em admitir o que estava acontecendo. Se eu conversasse com você, era como se tudo finalmente se tornasse real e eu não estava preparada pra isso." Rachel esclareceu.

"E depois?"

"Sinceramente? Eu não queria te envolver nisso. Eu sei que sou sua melhor amiga, mas a Quinn também é. Você brigou comigo em Lima, defendendo a Quinn e você estava coberta de razão, mas eu não queria pensar sobre as minhas atitudes."

"Eu jamais teria me voltado contra você, Rach."

"Não é isso. Eu sei que você teria ficado do meu lado não importa o quão errada eu estivesse, mas ainda assim você seria sincera comigo e me cobraria por não tomar as atitudes certas com a Quinn. E eu não queria isso."

"Então você não se abriu comigo por meses com medo de levar esporro pelas merdas que você fez? Isso é ridículo! Não tem ninguém que faça mais merda na vida do que eu e eu sempre soube que eu podia contar o que quer que fosse pra você." Santana argumentou.

"Mas dessa vez é diferente." Rachel insistiu.

"Diferente porque é a Quinn?"

"Claro que é diferente porque é a Quinn, Santana! Não estamos falando de alguém que você não gosta como o Finn ou de uma pessoa qualquer com quem você não se importa! Estamos falando de uma pessoa que é uma das suas melhores amigas!" A morena contra-argumentou.

"E por isso é melhor me deixar no escuro e lidar com tudo isso sozinha?"

"Você não ia querer ver o quão fodida eu estava. Eu acabei magoando uma das pessoas mais importantes da minha vida por causa disso."

"Eu poderia ter te ajudado, Rachel. Eu teria te ajudado."

"Eu sei que sim. Mas você também iria querer ajudar a Quinn. Você iria fazer de tudo para que nenhuma de nós se machucasse. Mas era impossível, Santana." A morena pausou, olhando para baixo. "Impossível." Ela repetiu, falando mais para si do que para a latina.

"Você tem que conversar com ela, Rachel. Você tem que dizer a ela tudo que você acabou de me dizer."

"Eu já tentei, S. Ela não está interessada no que eu tenho pra dizer." Rachel disse com desânimo.

"Claro que ela vai mostrar que não está interessada no que você tem a dizer." Santana revirou os olhos. "Ela é tão teimosa quanto você quando quer."

Rachel mordeu os lábios. Santana estava certa. Não era surpresa alguma o distanciamento de Quinn ou sua atitude fria. Se ela estava disposta a recuperar a amizade de Quinn, ela teria que ser mais, muito mais do que estava sendo.

...

A morena saiu do banho, uma toalha em volta do corpo e outra que ela estava usando para secar os cabelos. Depois de um dia como aquele, tudo o que ela queria era deitar na cama e dormir, mas ela sabia que não conseguiria. Ela queria conversar com Quinn o quanto antes, ela não conseguia mais suportar aquela situação.

E talvez por isso ela não conseguisse parar de pensar na loira o dia inteiro. Estava sendo assim há dias. Há semanas, talvez. Mas ela não queria que a conversa que ela tivera mais cedo com a loira se repetisse. Dessa vez, ela queria pensar com cuidado em tudo o que diria para Quinn e estar preparada para tudo que a loira pudesse lhe dizer.

O problema era que ela não fazia ideia de por onde começar, do que deveria dizer, de como... Ela sabia lidar com a Quinn que tinha se tornado sua amiga, ela não sabia lidar com essa Quinn de coração ferido e isso a assustava.

No fundo, ela achava que Quinn estava mais magoada com ela pelo fato delas serem amigas e a forma com que ela a havia tratado, do que qualquer sentimento que a loira pudesse ter desenvolvido por ela ao longo do que elas tinham vivido. O fato é que Quinn jamais havia dito quais eram seus reais sentimentos para ela. Claro que as suas atitudes davam a entender que ela havia se envolvido muito mais do que a morena, mas Rachel não sabia até que ponto.

Uma parte dela se recusava a acreditar que alguém pudesse ter qualquer sentimento mais profundo por ela. Muito menos se esse alguém fosse Quinn Fabray. Ela sabia que as mulheres que corriam atrás dela o faziam pelo desejo carnal, pela satisfação sexual, porque era isso que ela oferecia. O que ela oferecia era passageiro, efêmero, frágil.

Como alguém poderia se apaixonar por ela?

Rachel tinha sido orgulhosa demais para admitir em voz alta, mas era isso. Ela era Rachel Berry. E isso significava um talento único nos palcos, nada mais. Ela não era mais aquela garota inocente do colegial com brilho nos olhos, ela era uma mulher completamente ferrada emocionalmente cujo maior feito fora dormir com metade das mulheres de NY sem sequer saber seus nomes. E cujo pior feito fora machucar e afastar uma das pessoas mais importantes da sua vida porque ela simplesmente não conseguia ser mais que isso. Mais do que nada.

O que isso dizia sobre ela?

E então tinha Quinn. E ela não conseguia se lembrar de como respirar. Quinn havia se tornado uma mulher incrível, mesmo depois de tudo que havia passado. Rachel se lembrava de olhar para qualquer pessoa com quem Quinn estivesse namorando ou se relacionando e pensar em como ela merecia mais, em como ninguém aos seus olhos era bom o suficiente para estar com a loira. Ela lembrava de sempre se perguntar o porquê da loira se envolver com pessoas que nunca chegavam aos seus pés, o porquê de aceitar menos do que deveria de pessoas que não deveriam sequer ter tido a chance de tê-la.

Ainda que nem mesmo a própria Quinn acreditasse, ela sempre acreditou que a loira um dia encontraria alguém que, assim como ela, se destacasse no meio da multidão, que fosse capaz de valorizá-la e amá-la de verdade, que fizesse a loira esquecer de todas as decepções sofridas. Mas esse alguém não poderia ser ela. Nem em um milhão de anos seria ela. Rachel sabia que havia ocupado o mesmo lugar dessas outras pessoas que antes ela pensava não merecer Quinn. Ela não havia merecido a loira nem por segundo. Ela não havia chegado nem perto disso. Ela havia feito pior do que muitas delas.

Ela havia sido burra. Estupidamente burra. Ela tivera Quinn Fabray em seus braços e a tratara como uma qualquer. Quinn jamais seria uma qualquer. O pior de tudo era que Quinn havia agido justamente da forma contrária. Ela havia feito Rachel se sentir única, desejada, respeitada. Quinn tinha feito tudo o que podia para que a morena se sentisse bem e Rachel não havia se dado ao trabalho de fazer o mesmo.

A verdade é que mesmo que Quinn a perdoasse, Rachel ainda não havia se perdoado. Talvez jamais se perdoaria. Ela fechava os olhos e só conseguia pensar no sorriso gentil da loira, sempre disposta a ajudá-la, em como Quinn sempre se preocupava com ela, mesmo que ela repelisse todas as suas tentativas de fazê-la enxergar o quanto estava fazendo mal a si mesma. Ela pensava no companheirismo e na amizade que elas tinham conquistado ao longo daqueles anos e se sentia envergonhada pelas atitudes que havia tomado. Ela pensava em todo o carinho que Quinn sempre tinha com ela, fosse em lembrar do seu restaurante favorito a um abraço no meio da cozinha simplesmente porque ela tinha lembrado de comprar o chá que ela havia pedido.

Ela pensava na risada rouca de Quinn, que sempre a contagiava e que agora lhe causava arrepios por todo o corpo. Ela pensava no corpo esguio e perfeito da loira e sentia seu rosto esquentar. Ela lembrava daquele mesmo corpo em suas mãos e uma doce pressão em seu ventre não deixava com que ela esquecesse o quanto ela ainda desejava Quinn Fabray.

Ela desejava tantas coisas.

Ela desejava ser mais uma vez aquela que provocava suas risadas roucas. Ela desejava apagar a decepção e a tristeza impressas naqueles olhos avelãs, antes sempre tão acolhedores e agora tão frios e distantes. Ela desejava jamais ter causado a mágoa que causou. Ela desejava uma segunda chance. Não, ela não desejava... ela precisava de uma segunda chance. Ela precisava de uma segunda chance para provar a Quinn o quanto ela era importante em sua vida, o quanto ela se arrependera de tudo que havia feito e o quanto ela tinha precisado passar por tudo aquilo para enfim compreender que não valia a pena viver da forma que ela estava vivendo.

Fora preciso ela alcançar o fundo do poço, fora preciso que Quinn se afastasse por completo dela, para ela perceber tudo o que Quinn representava em sua vida. Ela estava tão acostumada à presença da loira, a sua amizade e ao mesmo tempo tão envolta em seu próprio mundo, que não havia se dado conta que loira tinha, pouco a pouco, se entranhado por entre seus vazios, em seu dia a dia. A falta dela doía.

Estava tudo tão confuso que a morena não sabia traçar uma linha separando somente a sua amizade com a loira e todos os outros momentos em que elas eram mais que isso. Era disso que ela tinha medo. Sempre que ela pensava na loira, ela não conseguia evitar todos os sentimentos que envolviam ter provado a boca de Quinn Fabray, ter se deliciado com a sua intimidade, o fogo causado pelos seus toques, a sensação de ter seus corpos colados, a forma com que Quinn a olhava...

Mas o que mais a assustava era que não havia durado muito. Elas mal tiveram tempo para viver qualquer coisa que fosse e ainda assim a loira havia tomado conta dos seus pensamentos, sua voz rouca ecoando em sua mente, seus olhos avelãs a perseguindo onde quer que ela estivesse, os momentos juntas repassando mais uma vez e outra em sua cabeça.

Aquilo era muito. Muito com o que lidar em tão pouco tempo. Naquele momento, ela precisava se ater as coisas das quais ela tinha certeza. E a principal delas era que ela queria Quinn de volta em sua vida. Não importava como ou o que ela tivesse que fazer. O problema era que ela não sabia nem mesmo como Quinn estava se sentindo em relação a tudo aquilo e não era como se a loira fosse se abrir com ela. A morena teria que ir aos poucos, pacientemente.

Estaria Quinn disposta a deixá-la?