How To Save A Life
27 Don't Look Back In Anger
Notas iniciais
"Você está péssima!" Brittany disse a Quinn assim que ela se sentou à sua frente.
A loira imaginou se todas as vezes que encontrasse a amiga, ela lhe diria isso. Do jeito que a sua vida estava um caos, provavelmente sim.
Elas tinham combinado de se encontrar para descontrair em algum bar que fosse a meio caminho do apartamento das duas. Quinn estivera tão desligada que acabara por marcar com Brittany no bar do Tom, esquecendo completamente da possibilidade de toparem com Santana e Rachel por lá.
Quinn olhou a sua volta e respirou aliviada ao perceber que nenhuma das duas estavam ali aquela noite, finalmente encarando a amiga. "Obrigada pelo elogio." Ela falou ironicamente. "Você também parece ótima, obrigada."
Logo Tom apareceu na mesa, sorrindo para as duas. "Então você é amiga da Quinn?" Ele perguntou simpático.
A loira de olhos azuis sorriu e confirmou.
"Está em boa companhia então. Rachel e Santana?" Ele perguntou.
"Hoje é só nós duas mesmo, Tom. Mas falo com elas que você mandou um abraço." Quinn disse.
"Fale! Minhas mesas de sinuca andam estranhamente livres de marcas." Ele riu. "Duas cervejas?" Ambas confirmaram e com um último aceno ele se foi.
"Frequentadoras assíduas?" Brittany questionou.
"Você não faz ideia." Quinn respondeu e logo duas cervejas foram abertas diante delas por Samuel.
"É impressão minha ou você tem aparecido mais aqui do que a Rachel e a Santana?" O rapaz perguntou, sorrindo. "Opa, essa aí eu não conheço." Ele comentou, olhando para Brittany.
"Sam, Brittany. Brittany, o pior bartender e jogador de sinuca que eu já conheci, Samuel." Quinn brincou.
Ele revirou os olhos para Quinn, mas cumprimentou alegremente a loirinha. "Visitando?"
"Me mudei para cá, na verdade."
"Espero que goste de NY e que volte aqui mais vezes, então! Qualquer coisa só chamar." Ele enfim se despediu.
"Simpáticos, né?" Brittany comentou.
"Eles são os melhores. Espere até você conhecê-los melhor." Quinn disse, tomando um gole da sua cerveja e dando um suspiro de satisfação. "Estava realmente precisando disso." Comentou.
"O que houve com você, Q? Você mal respondeu minhas mensagens essa semana e agora aparece aqui com a cara de quem nem dormiu hoje."
"Eu te falei da minha amiga Jean, não falei?"
Brittany confirmou com um aceno e Quinn então contou tudo o que havia acontecido desde o encontro entre elas.
"Por que você não foi lá pra casa ao invés de ir para o Brody?" Brittany questionou. "Sem querer desmerecer sua amizade com ele, claro."
"Eu sei que de noite é o único tempo que você tem para falar direito com a Carter. Achei melhor não incomodar vocês." Quinn esclareceu.
"Que bobeira, Q. Minha casa está sempre aberta pra você e a Carter é uma pessoa bastante compreensiva." Ela disse, sorrindo ao se lembrar de sua namorada. Ela sentia muito a falta da morena.
"Falando nela, como vocês estão?" Quinn perguntou, percebendo a mudança na expressão de Brittany.
"Está tudo bem. Relacionamentos à distância são sempre difíceis, mas até agora a gente tem conseguido levar tudo numa boa. Ela deve vir pra cá ainda esse mês ou no começo do outro e vocês vão finalmente poder se conhecer!"
Quinn achou graça da animação da amiga, retribuindo o sorriso. "Finalmente!"
"Voltando ao assunto... não acredito que você fez isso com a Rachel!" Ela balançou a cabeça em descrença, parecendo bastante surpresa com a atitude da amiga, mas o tom não era de censura.
"Sem sermão?"
"Qual é, Quinn! Isoladamente, claro que foi errado o que você fez. Mas levando em conta o contexto e deixando claro que eu gosto muito da Rachel, ela meio que mereceu, não foi? E fico feliz também que você tenha dito tudo isso pra ela, mostrado um pouco o seu lado. Não deve ter sido fácil pra você." Brittany alcançou a mão de Quinn e apertou, solidária.
"Não, não foi. Mas ela precisava ouvir certas coisas e eu precisava falar algumas outras."
"Como vocês vão ficar, agora?"
"Eu realmente não sei, Britt. Tem dias que eu quero sumir, sabe? Mas tem dias que eu quero que tudo simplesmente volte a ser como era antes." Quinn confessou.
Quinn realmente estava dizendo a verdade ali. Cada dia que passava a vontade de passar uma borracha em cima de tudo ficava cada vez maior. Mesmo magoada, ela tinha visto nos olhos da morena que ela se arrependera de verdade do que havia feito. Não seria fácil, mas se ela fosse sincera consigo mesma, ela queria a amizade da morena de volta.
Ela sentia muito a falta de Rachel como amiga. Não daquela Rachel que se acabava em noitadas e sexo sem compromisso, mas da Rachel que ela convivia no dia a dia. Ela sentia falta da morena doce que tomava café da manhã com ela todos os dias, que se sentava ao seu lado no sofá e conversava por horas sobre qualquer coisa, que se juntava a ela para implicar com Santana e rir até perder o fôlego, que sempre se preocupava quando ela estava trabalhando muito, que sabia somente com um olhar que ela não estava bem, se ela queria companhia ou se ela queria ficar sozinha.
Antes mesmo disso, ela sentia falta da morena que a recebia em NY sempre com um sorriso no rosto e que fazia de tudo para diverti-la sempre que ela estava de mau humor, que a tinha visitado tantas vezes em New Haven e que aceitava qualquer coisa que ela estivesse a fim de fazer, mesmo a contragosto de uma latina insuportavelmente irritante, que havia escutado ela desabafar sobre suas decepções amorosas mesmo guardando uma em seu peito.
"Você quer voltar ao que era antes quando vocês eram amigas ou antes quando vocês estavam se envolvendo?" A voz de Brittany ecoou em seus ouvidos, dispersando seus pensamentos.
"Como amigas, B. Só amigas. Eu aprendi a minha lição. A verdade é que nunca deveríamos ter deixado de ser só amigas." Quinn disse, tentando aparentar uma certeza que não sentia.
A verdade é que ela sentia falta de outras coisas em relação a Rachel, coisas que ela estava tentando guardar tão fundo que um dia ela tinha certeza que nem se lembraria mais. Brittany não precisava saber que ela ainda não tinha obtido sucesso em suas tentativas desesperadas de apagar a morena de dentro dela, ninguém precisava saber disso.
Brittany estreitou o olhar para a amiga, que tentou manter uma expressão impassível no rosto. Mas a loira de olhos azuis desistiu de inquirir Quinn mais profundamente sobre o assunto, pelo menos aquele dia. A advogada realmente parecia estar precisando de um descanso.
"Só mais uma pergunta para encerrar o assunto Rachel e eu prometo que depois disso nós vamos nos divertir por aqui." Brittany pediu.
Quinn riu e a Brittany interpretou aquilo como um sim. "Como vocês vão conseguir voltar ao que era antes depois de tudo o que aconteceu?"
"Eu dava tudo pra saber, Britt. Simplesmente não faço ideia. Não faço ideia..."
...
Os próximos dias haviam sido uma tortura para Rachel. Ela queria mais do que tudo encontrar um momento em que ela estivesse a sós com Quinn no apartamento, mas aquilo parecia ter se tornado impossível de acontecer.
A loira estava claramente fugindo dela, parecendo sempre estar no trabalho até mais tarde ou com Brittany. Quando acontecia dela estar em casa quando Rachel chegava dos ensaios, ela e Santana sempre estavam fazendo alguma coisa e a loira parecia escapar por entre os seus dedos no minuto em que a morena decidia encurralar a loira em algum canto do apartamento, se trancando em seu quarto.
A morena sabia que estava sendo boba, mas ela simplesmente não conseguia reunir coragem o suficiente para bater na porta do quarto de Quinn, a lembrança do que acontecera a última vez que ela fizera aquilo ainda martelando em sua cabeça.
Rachel fingia não perceber o revirar de olhos de Santana toda vez que era flagrada no corredor em frente a porta da loira, imóvel, antes de suspirar e desistir mais uma vez, mas a latina, estranhamente, não falava nada, apesar de Rachel pensar ter ouvido uma ou duas vezes a amiga sussurrando alguma coisa em espanhol.
Para coroar a sua situação, Finn tinha adquirido a péssima mania de lhe enviar mensagens a todo momento, sempre comentando algo da sua vida ou alguma coisa aleatória na tentativa de criar uma conversa com a morena e por mais que Rachel enviasse sempre respostas curtas ou o ignorasse, ele continuava insistindo.
Ela estava tão aflita com toda aquela situação que em um dos seus ensaios a sua voz simplesmente começou a falhar. Uma ida ao consultório médico e alguns exames depois e Rachel recebeu a notícia de que suas cordas vocais estavam em perfeito estado, não havendo outro motivo para sua voz ter falhado a não ser seu estado emocional. Os diretores da peça rapidamente sugeriram que ela tirasse o resto da semana de folga para descansar, dizendo a ela que esse incidente era mais frequente do que se imaginava em um teatro quando se estava perto da data de estreia.
Incapaz de convencer os diretores do contrário e com uma receita de calmante em mãos, Rachel voltou para casa bem mais cedo aquele dia, um ligeiro gosto de derrota em sua boca. Ela odiava o fato de ter que se afastar do teatro enquanto todos continuavam trabalhando e odiava mais ainda a possibilidade de alguém pensar que ela não estava sabendo lidar com a pressão de estrear na Broadway.
Ela retirou lentamente o sobretudo e o cachecol, olhando ao redor do apartamento e se sentindo estranhamente vazia, como se ela estivesse vivendo uma vida que não era a sua, em um corpo que não era o seu. Ela nunca havia se sentido menos ela mesma quanto naquele momento em que até mesmo o teatro, a única coisa que permanecera intocável em sua vida, fora temporariamente tirado dela.
Ela até tentou se distrair, tomando um demorado banho e vestindo uma roupa confortável o bastante para aguentar o frio nova iorquino, mas o seu quarto parecia sufocante demais e ela foi para sala, na esperança de que um pote de sorvete e um filme repetido na televisão fizesse por ela o que o seu ensaio deveria estar fazendo: a desviando de pensar no que as suas escolhas erradas haviam transformado a sua vida.
Bastou somente que ela ligasse a televisão para que aquela esperança se partisse. Matrix passava justamente no canal em que ela havia ligado e o pote de sorvete de morango a sua frente faziam com que somente uma pessoa viesse a sua mente: Quinn.
Ela e Quinn, vendo exatamente aquele filme, ela e Quinn, sempre disputando aquele mesmo sorvete, ela e Quinn, trocando beijos e carícias naquele mesmo sofá...
Quinn abriu o pote de sorvete que jazia esquecido entre elas, fechando os olhos ao se deliciar com a primeira colherada. Rachel riu.
"Não ria de mim!" Quinn pediu, enquanto a morena também se servia de uma colherada.
Rachel estalou um beijo completamente gelado na bochecha da loira, que deixou escapar um gritinho de protesto.
“Não brinque comigo, Berry. Você sabe que irá perder.”
“Ninguém mais tem medo de você, Fabray. Sinto muito lhe informar.” Rachel comunicou desafiadoramente.
Alguns minutos depois e Rachel ainda sentia as consequências de seu pequeno atrevimento. O seu nariz estava coberto de sorvete.
“Isso é sacanagem, Q...” A morena disse rindo, tentando limpar o nariz.
“É uma pena que depois de tantos anos você ainda não tenha aprendido que não se provoca Quinn Fabray.” A loira voltou a comer calmamente o sorvete.
Rachel se rendeu, pegando uma das almofadas e botando nas pernas da loira, que arqueou a sobrancelha com o gesto.
“Você está comendo todo o sorvete, Q... você não é a única que gosta dele por aqui.” A morena reclamou.
Quinn riu. Estavam parecendo duas adolescentes novamente. Para evitar mais protestos, passou a servir a morena na boca, deixando claro o quanto Rachel era folgada e que ela definitivamente havia aprendido aquilo com Santana.
O sorvete já havia acabado, mas elas permaneciam naquela mesma posição. Naquele momento, deitada nas pernas de Quinn e sentindo a loira lhe carinhar suavemente a cabeça enquanto falava sem parar sobre um assunto que ela já não sabia mais qual era, perdida em cada gesto e sorriso daquele rosto perfeito que inusitadamente lhe fazia se sentir em paz com o mundo, simplesmente não conseguiu evitar que um pensamento passasse pela sua cabeça...
Ela e Quinn... Por que não?
A resposta para aquela pergunta se fazia fácil naquele momento.
Porque ela havia estragado tudo. Porque ela havia sido covarde demais para assumir seus sentimentos. Porque ela havia feito tudo errado e afastado a loira para bem longe dela. Ela fechou os olhos e escorregou para o chão, um choro sofrido escapando por entre seus lábios. Era um choro necessitado. Ela precisava daquilo, ela precisava daquele choro para pôr tudo o que a estava sufocando por dentro para fora.
Porém, a sorte parecia ter a abandonado de vez. A porta do apartamento se abriu, revelando a dona de todos os seus pensamentos, a dona de todas as suas vontades e a última pessoa que ela queria que a visse naquele estado. Depois de todos aqueles dias pedindo para que caísse dos céus um momento em que ela estivesse a sós com a loira, era assim que Quinn a encontrava. Sentada no chão e chorando, enquanto um pote de sorvete derretia na mesa a sua frente e Matrix passava na tv.
Por um momento, Quinn pareceu congelar diante daquela cena. Mas a loira se recuperou logo depois, indo em direção a morena só para pegar o controle e desligar a tv e, em seguida, retirar o sorvete da mesinha e guardá-lo novamente no congelador, enquanto Rachel tentava desesperadamente limpar as lágrimas que ainda insistiam em cair e manter o que lhe restava da sua dignidade.
Ela ouviu os passos da loira retornando para a sala e viu pelo canto do olho Quinn sentar na beirada da poltrona a sua direita.
"O que houve?" A voz rouca de Quinn chegou aos seus ouvidos, um tom latente de preocupação. "Por que você não está no teatro?"
"Eu..." Rachel tentou dizer, mas sua voz falhou. Ela limpou a garganta para tentar outra vez, mas Quinn se levantou de repente, a abandonando por alguns momentos antes de voltar com um copo de água em mãos, oferecendo-lhe. Rachel tomou com vontade. "Obrigada."
A loira acenou com a cabeça, ainda esperando por uma resposta.
"Eu fui forçada a tirar uns dias de folga do teatro." Ela disse, percebendo a surpresa estampada no rosto da loira. "Minha voz começou a falhar ligeiramente ontem à tarde." Ela explicou.
"Sua voz falhou?" Quinn foi surpreendida mais uma vez. "Rachel, você foi ao médico?"
"Na mesma hora. A questão é que minhas cordas vocais estão em perfeito estado e o fato da minha voz ter falhado mesmo assim significa que o problema, na verdade, é emocional. É comum os atores terem isso antes de estreias. Pelo menos foi o que os meus diretores disseram antes de me dispensarem pelo resto da semana." Ela deu de ombros.
"Eu entendo que é normal sentir um nervosismo antes da estreia e que isso possa ser comum. Mas Rachel... você é você. Você jamais perderia a sua voz por causa disso." Quinn argumentou.
Ela poderia estar magoada com a morena, mas aquilo não a impediria de ser sincera em relação a coisa mais importante do mundo para Rachel. Era impossível não se preocupar ao ver a morena parecer tão derrotada daquela forma.
"A questão é justamente essa, Quinn. Minha voz não falhou por causa disso." Rachel negou com a cabeça, mordendo os lábios. "Acredite quando eu digo que a minha estreia tem sido a última coisa que tem me causado nervoso nos últimos tempos." A morena falou de forma corajosa, sem desviar seu olhar dos olhos avelãs.
Se aquele era o único momento e a única forma, despedaçada e com o seu emocional à beira de um colapso, que ela teria para fazer a loira ouvir o que ela tinha a dizer, então que fosse. Ela não deixaria qualquer chance que fosse escapar.
"Não faça isso, Rachel. Não se atreva a pôr a culpa disso em mim. Nem você poderia ser tão egoísta." Quinn rebateu, balançando a cabeça.
"Não, não. Você entendeu errado. Nem por um segundo eu estou pondo a culpa disso em você. A culpa é e sempre foi toda minha, Quinn. Por tudo." A morena assumiu, mais lágrimas descendo pelo rosto.
"Rachel... olha o seu estado... não vamos discutir sobre isso agora, ok?" Quinn pediu, uma expressão angustiada em seu rosto. Ela não conseguiria discutir vendo a morena naquele estado.
Mas Rachel balançou a cabeça freneticamente, se ajoelhando e tentando mais uma vez limpar as lágrimas de seu rosto. "Eu não quero discutir, Quinn. Não mais. Eu só quero que você me escute. Por favor." Ela implorou.
Quinn nada disse, mas o suspiro que escapou por entre os lábios rosados foi resposta o suficiente para a morena, que ajeitou sua postura o melhor que pôde, tentando se lembrar de tudo o que queria dizer, mas encontrando sua mente em um completo branco ao finalmente estar diante de Quinn.
Não havia ensaio para o que acontecia na vida real. Rachel teria que finalmente deixar que seu coração falasse por ela e a morena assim o fez.
"Eu preciso que você me escute, porque, como eu disse, eu não estou assim pela minha estreia. Eu não disse isso querendo culpar você de nada. Eu só quis dizer que eu estou ficando louca. Louca por finalmente estar sentindo e tendo que lidar com todo o peso das escolhas erradas que eu fiz não só em relação a você, mas durante todos esses anos da minha vida. Só que o fato de eu ter errado tanto com você e ter te magoado da forma que eu magoei, faz com que tudo seja milhões de vezes pior. Eu poderia ter cometido mais centenas de erros, mas eu não podia ter cometido um erro sequer com você. E são eles, Quinn, os erros que eu cometi com você, que me tiram o sono à noite, que fazem eu me corroer com um culpa tão grande, mas tão grande, que às vezes, acredite, é difícil respirar."
Era difícil para morena respirar até mesmo naquele momento, com o rosto vermelho e inchado pelas lágrimas e a garganta seca pelas suas insistentes tentativas de impedir que o choro tomasse conta de si mais uma vez.
"Eu não estou querendo medir meu sofrimento com o seu. Eu sei que não tem qualquer tipo de comparação. Eu só posso imaginar o que você sentiu com todas as minhas atitudes estúpidas e egoístas. Porque você está certa, Quinn. Eu fui egoísta. Eu só pensei em mim e nas minhas próprias feridas. Eu fui incapaz de parar e por um único momento pensar em você, no que eu estava fazendo com você, com a nossa amizade, com nós. Eu tive medo, muito medo e eu deixei esse medo me transformar em uma pessoa covarde. Eu fui covarde e eu fui leviana com você. E além disso tudo, eu ainda me recusei a assumir os meus erros. Eu fugi da responsabilidade de assumir as consequências das minhas atitudes. Nada, nada justifica a forma com que eu agi com você. Eu sei disso agora."
"Rachel..." A voz falha de Quinn ecoou pela sala e a morena viu uma trilha de lágrimas escorrendo pelo rosto alvo e perfeito. E se odiou ainda mais por aquilo.
"Por favor, deixa eu terminar. Eu preciso terminar." Rachel disse, fechando os olhos e reabrindo logo em seguida e o que quer que a loira fosse dizer se perdeu no ar e Quinn se calou.
"Mas eu não sei disso agora porque eu acordei um dia e percebi o quanto eu estava sendo cruel com você, eu sei disso agora porque você finalmente desistiu de mim, de entender as minhas atitudes e foi viver a sua vida e eu... eu pude sentir na pele como era perder você."
"Rachel, por favor..." Quinn pediu, sem se aguentar, num fio de voz.
Mas a morena continuou, incapaz de parar agora que tinha começado. "Só assim eu me dei conta do quanto você é importante na minha vida, de tudo que você representa pra mim e do quanto eu sentia a sua falta. Eu nunca me senti tão sozinha e perdida em toda a minha vida, Quinn. Eu e a Santana, nós somos duas perdidas e fodidas nessa vida. Mas você, Quinn... você é o meu chão. Assim como a Brittany é o da Santana. Você é quem me mantém sã quando tudo a minha volta não faz sentido. Você é quem me traz paz quando dentro de mim só existe o caos. Você precisou me bagunçar inteira pra eu perceber que tudo estava fora do lugar e que, na verdade, você não estava me bagunçando, você estava voltando com todos os meus pedaços para o lugar, me fazendo inteira novamente."
Em meio aquele discurso, Rachel sequer percebeu que havia se aproximado da loira e agarrado suas mãos entre as suas, seu olhar teimoso se recusando a deixar que o olhar de Quinn se afastasse do seu. Apesar das lágrimas, Quinn tentava manter uma expressão impassível e eram os olhos avelãs que a inundavam com uma miríade de emoções indecifráveis. A loira não acreditava que Rachel havia acabado de comparar ela à Brittany. Brittany era o amor da vida de Santana e ela não era... ela não poderia...
Rachel precisava parar de falar aquelas coisas antes que o coração de Quinn saísse pela boca e ela nunca mais o visse.
"Eu quis tanto ouvir isso de você, Rachel." Quinn falou, fechando os olhos, esperando tirar de Rachel todo o acesso as suas verdadeiras emoções. "Não precisava de muitas palavras, bastava um pedido de desculpas e que eu visse a sinceridade nos seus olhos."
"Eu estou sendo sincera, Quinn. Eu estou sendo mais sincera do que eu já fui em anos." Rachel disse, agoniada com a possibilidade de Quinn não acreditar nela.
"Eu sei que sim." O olhar da loira era sofrido. "Eu olho pra você e eu sei que você está sendo sincera." Quinn admitiu e uma ponta de esperança se acendeu na morena. "Mas você chegou tarde demais, Rachel. Eu não sei o que você está esperando de mim, mas nem que eu quisesse eu conseguiria dar o que quer que fosse a você nesse momento." Quinn confessou.
Rachel respirou fundo, tentando não se perder naquele momento, toda a sua esperança em pedaços. Doía. Como doía ouvir aquelas palavras! Mas ela precisava ser forte. Ela precisava ser mais. Ela estava ali para recuperar a amizade de Quinn, para ter a loira de volta em sua vida.
Todo o resto podia esperar.
"Eu entendo e respeito, Quinn." Rachel falou com dificuldade, a voz trêmula. "Eu só quero uma coisa de você. Eu preciso, na verdade. Eu sei que é muita pretensão minha ainda achar que tenho o direito de pedir qualquer coisa a você depois de tudo, mas eu preciso que você me perdoe. Eu preciso que você me perdoe porque eu preciso que você volte para a minha vida. Seja como for. A gente pode fazer isso do seu jeito, no seu ritmo e eu vou respeitar qualquer coisa que você impuser, mas por favor, por favor me diz que eu não perdi a sua amizade."
Quinn a olhou intensamente, mas não disse nada e Rachel sentiu como se uma pedra tivesse acabado de se instalar em seu estômago.
"Eu sinto tanto a sua falta, Q. Todos os dias. Simplesmente não é a mesma coisa sem você. Eu prometo nunca mais fazer isso com a nossa amizade. Eu sei que o que eu fiz não tem perdão. Não tem mesmo. Acima de tudo, você era minha amiga, minha melhor amiga. E eu não tinha o direito de fazer o que eu fiz com você."
"Sua melhor amiga é a Santana, Rachel. Sempre foi vocês duas. Eu só sou a outra amiga, deslocada e chata, que tenta pôr um pouco de juízo em vocês de vez em quando." A loira disse.
"Você não ouviu nada do que eu falei, Quinn? A Santana é sim minha melhor amiga e você também é. A única diferença é que a Santana estava aqui enquanto você passou quatro anos em New Haven. Ela passou por algo parecido com o meu e nós deixamos que isso nos definisse muito mais do que deveria. Eu preciso de você. Ela precisa de você, mesmo que ela nunca admita. Mas nunca foi eu e ela, Quinn. Sempre foi eu e você. Você sabe disso. Desde... desde sempre a gente esteve na vida uma da outra, eu sempre quis a sua amizade, eu sempre desejei que você me enxergasse, que você me incluísse. E mesmo com tudo de ruim que aconteceu entre a gente, ainda estamos aqui. Ainda nos tornamos amigas, ainda mantivemos uma amizade mesmo com você morando em outra cidade. Nós moramos no mesmo apartamento, pelo amor de Deus! Você sempre acreditou em mim, sempre me botou pra cima, sempre esteve ao meu lado. Olha quantas coisas vivemos juntas! Me perdoe por ter te afastado tantas vezes quando eu sei que você só queria que eu me abrisse com você, mas você é uma das únicas pessoas que me conhece de verdade... não pelo que eu tentei ser por tanto tempo, mas pelo que eu realmente sou."
"E quem você realmente é, Rachel?"
"Eu sou aquela que passou noites e mais noites ouvindo você desabafar sobre Beth, aquela que sempre odiou ver você triste, aquela que sempre acreditou que você era muito, mas muito mais do que a garota mais linda que eu já conheci, aquela que queria esganar todos os seus ex namorados e namoradas por magoarem você, aquela que chorou de orgulho ao ver você receber o seu diploma, aquela que odeia toda a sua família por tudo que eles fizeram a você, aquela que sempre enxergou muito além do que você queria mostrar às outras pessoas e viu o seu coração bondoso e a sua alma inocente e romântica, mesmo com tudo o que você já teve que enfrentar. Aquela que viu você se transformar em uma das mulheres que eu mais admiro em todo o mundo. A Rachel Berry que você julgava perdida está aqui, Quinn." Rachel disse, pegando uma das mãos da loira e fechando-a junto da sua no lado esquerdo do peito. "Pedindo a você uma segunda chance, uma segunda chance para provar o quanto você significa pra mim."
As lágrimas escorriam agora livremente pelo rosto pálido e Rachel viu os olhos avelãs se transformarem em um verde intenso. Era lindo. Mesmo com toda a tristeza do momento, Quinn parecia um anjo diante de si. Os verdes encontraram os castanhos e por um momento o mundo parou em volta delas e Rachel sentiu-se preencher por algo que ela não sabia definir. Ela só sabia que era bom, muito bom se sentir assim.
Mas Quinn logo desfez o momento, privando Rachel do seu olhar e do seu toque e se afastando por completo da morena, mas a expressão em seu rosto era suave, tenra. "Eu também senti a sua falta, Rach." Quinn admitiu, baixinho. "Mas eu não posso e não vou negar a minha mágoa. Eu não vou fingir que ela não existe para facilitar a sua vida." Ela fez questão de enfatizar. "Dito isso..." Quinn pausou. "Eu acho que nós merecemos uma segunda chance. A nossa amizade merece." Quinn terminou, com um leve sorriso no rosto.
"Claro, a nossa amizade.” A morena confirmou, seu coração se apertando por dentro, em um misto de tristeza e felicidade, correspondendo ao primeiro sorriso que lhe era direcionado depois de semanas.
Quinn então ofereceu sua mão e levantou-se da poltrona, levantando também a morena, ambas ficando de pé, de frente uma para a outra.
"Seria muito eu pedir um abraço?" A morena perguntou, tímida e incerta.
O coração de Quinn pareceu dar um salto e ela quase se arrependeu em ter dado uma chance à morena. Ela parecia tanto a Rachel Berry que tinha aprendido a admirar no colegial que Quinn se perguntou se era mesmo possível que a morena estivesse falando a verdade, que aquela Rachel Berry não se fora, mas estava de volta, mais visível do que nunca.
Aquilo era perigoso, muito perigoso, porque, como sempre, Quinn não conseguia dizer não a essa Rachel Berry. "Claro." Ela respondeu.
Rachel não titubeou por um só momento, juntando seus corpos em um abraço apertado que transmitia, acima de tudo, saudade. A sensação de familiaridade era tão grande que a morena sentiu como se tivesse tirado todo o peso das costas. Aquela sensação também não passou despercebida por Quinn, um conforto inundando seu peito sem permissão.
Quando a loira fez menção de quebrar o contato, Rachel a apertou ainda mais contra si. "Você é uma pessoa incrível, Quinn. Obrigada por não desistir. Eu prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para curar toda essa mágoa que eu causei, dia após dia. Eu sei que não vai ser fácil, mas eu não vou cansar e eu não vou desistir." Rachel finalizou, finalmente deixando a loira ir.
"Vocês são minha verdadeira família, Rach. A gente sempre encontra um jeito de perdoar nossa família." A loira respondeu.
Antes que Rachel pudesse responder, o celular de Quinn começou a tocar e a loira pegou o aparelho, silenciando a chamada e guardando o aparelho de volta no bolso.
"Eu sei que não é o ideal, mas eu realmente preciso ir. Só passei em casa para pegar umas coisas que acabei esquecendo e estou muito atrasada." A advogada informou.
O ânimo de Rachel pareceu despencar com o que a loira disse. A última coisa que ela queria era que Quinn fosse embora naquele momento, mas o destino era a última coisa que parecia estar ao seu favor e, mais uma vez, ela teria que deixar a loira ir quando tudo que ela mais queria era pedir para que ela ficasse.
Antigamente, Rachel tinha certeza que a loira ficaria caso ela pedisse. Mas certeza não era mais um luxo do qual ela dispunha em se tratando delas. "Tudo bem. Eu não quero atrapalhar os seus compromissos." Rachel disse.
Quinn então pegou sua bolsa esquecida no sofá e foi para o quarto, voltando rapidamente. "Nos vemos à noite?" Quinn perguntou, já na porta e com o celular em mãos enquanto o aparelho tocava mais uma vez.
"Nos vamos à noite." Rachel respondeu com um leve sorriso no rosto.
Quinn então acenou e fechou a porta atrás de si, finalmente atendendo a ligação de quem quer fosse, sua voz ecoando pelo corredor do prédio, mas distante demais para que Rachel entendesse o que a loira dizia.
A morena permaneceu naquela mesma posição muito tempo depois da voz da loira ter se perdido, pedindo a quem quer que fosse que a estivesse ouvindo que, um dia, Quinn pudesse olhar para trás e não sentir qualquer rancor que fosse dela.
“So Sally can wait, she knows it’s too late as she’s walking on by. My soul slides away, but don’t look back in anger, I heard you say...”
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