How Things Began...
18 David's open heart
Notas iniciais
Ufa! Demorei mas cheguei, hein? x33
Então, sobre o capítulo... Ele é bastante triste *pega lencinho*, mas espero que vocês gostem.
Ah, e poxa vida, gente... Tô sentindo a falta de muitas leitoras sumidas ): poxa vida, eu não quero falar isso nem nada, mas querendo ou não, esse tipo de coisa desanima o escritor. Queria muito ver essas lindas de volta aqui, por que, sério, se não fosse pelos comentários lindos que me inspiram tanto, eu acho que essa fic nunca teria ido pra frente. Voltem, tá? Por favor! (:
PS.: Já comecei a postar a história no AnimeSpirit, pra quem quiser :33
Estávamos em um hospital em Sept-Îles á exatas 23 horas e 32 minutos. Tínhamos pego o primeiro vôo da madrugada — pouco importando quanto isso ia custar — até de volta para Montreal e então um trem até a cidade natal de David. Foi uma viagem extremamente longa, um dia que já começou assim… Cansativo.
Mas acho — aliás, tenho toda certeza — de que o sono e o cansaço não chegavam aos pés da dor que eu sentia de ver aquele garoto lindo por quem sou apaixonado, sofrendo em prantos.
De fato eu já não via David a algum tempo. Ele se recusava a sentar um minuto sequer e corria o prédio inteiro atrás de qualquer pessoa que se identificasse com um jaleco branco ou qualquer mínima informação que conseguiria na secretária, por mais mínima que fosse.
Eu nunca gostei de hospitais. Acho que, como qualquer pessoa normal, é possível sentir a tristeza solta por aqueles corredores de um branco tão limpo que chega dá tonteira. Mesmo assim, um hospital nunca me pareceu tão triste e depressivo. Sabe o quanto dó ter alguém que você ama tanto, provavelmente a pessoa mais importante da sua vida, completamente ferido e você ser totalmente impotente para fazer alguma coisa? Qualquer coisa.
Imagino que minha expressão estava imutável desde o momento que pisamos dentro do avião. Eu estava… Tão frustrado comigo mesmo. Eu simplesmente não sabia o que dizer e David não parava de chorar, mesmo que em um silêncio ensurdecedor, e eu estava tão sem jeito com aquela situação. Eu o abraçava. Esse era o máximo que eu conseguia fazer. Eu tentava apertá-lo forte e no início ele simplesmente se entregava, o que me fazia sentir ao menos levemente útil… Mas depois de um certo tempo, sempre que eu tentava qualquer tipo de aproximamento dele, ele se esquivava, ou simplesmente me empurrava para um pouco mais longe.
David queria sofrer sozinho. Eu queria que ele ficasse bem, mas eu realmente não sabia o que fazer… Além de estar lá pra ele.
E eu sabia que isso não bastava.
O caso era esse: Julie é a irmã mais velha de David. Ela cuidou dele quando seus pais se separaram, e desde então eles são bastante próximos. Então apenas imagine o que deve ser, ser acordado às 3 horas da manhã por uma tia distante que você não fala anos — e não parece estar dando a mínima nem pra você e muito menos para o que está acontecendo, de todo modo -, dizendo que, 'hey, sabe a sua irmã? Aquela que você ama e não consegue se ver sem? Então, ela entrou em colapso nervoso e teve um derrame cerebral.' Simples assim.
E da mesma forma simples, porém dolorosa, pegamos nossas coisas nos quartos do hotel, deixamos um bilhete — que mais lembrava uma carta — para os meninos, com todos os telefones possíveis de conseguirem falar com a gente, e saímos em disparada para o aeroporto.
– Mas você deve saber alguma coisa… Quer dizer, como ela está? Quando eu vou poder vê-la de novo? — A voz de David perseguindo um médico senhor de idade, soando pelos corredores me fez acordar de meus devaneios. A dor era tão ridiculamente palpável em sua voz, que me fazia estremecer cada vez mais e mais. Me lembrei então que a última vez que ele me tocou foi antes de entrar no quarto para ver Julie. Ele apertou minha mão tão forte que eu realmente desejei ser capaz de absorver toda a dor dele e passar para mim, de alguma forma. Eu dei um sorriso fraco e ele mordeu o lábio inferior antes de dar as costas e me soltar. — Anda… Me fala qualquer coisa. Qualquer coisa serve!
– Senhor Desrosiers, como eu já disse, assim que tivermos qualquer coisa, vamos lhe informar. — O médico grisalho falou calmamente. O tom de cansaço também presente na sua voz rouca — Não adianta tentar apressar qualquer coisa. Porque não se senta, vá na cafeteria comer alguma coisa. Eu vou avisar quando puder ver sua irmã de novo. — E assim o médico foi embora, deixando um sorriso de pena (que tenho certeza que David odiou) para ele.
David continuou andando em círculos encarando os pés como se fossem a coisa mais interessante do mundo.
– David… — Chamei ainda encostado na parede, segurando seu casaco. Ele continuou a girar e girar, e eu estava vendo apenas a hora que ele ia acabar vomitando com aquilo — David! — Chamei-o um pouco mais alto, um pouco de irritação saindo juntamente. Eu não estava irritado, eu estava realmente muito preocupado com ele.
– O que é? — Ele respondeu igualmente alto e com a mesma irritação. Suspirei fundo.
– Quer ir na cafeteria? — Voltei ao tom mais calmo.
– Não. Eu quero ficar aqui. — Ele respirou fundo. A expressão amarga nunca deixando seu rosto angelical — Se quiser ir, fique à vontade.
– Certo… — Mais um suspiro. Mais um giro dele. Eu estava me controlando com todas as forças pra não mandá-lo parar com isso — Quer que eu pegue algo pra você? — Mais uma volta — David! — Mais uma volta, com olhos turvos na minha direção. Mais um suspiro — Quer?
– Não.
– David, pelo amor de Deus, faz o que o médico mandou. Senta aqui. — Apontei para o banco de espera ao meu lado. Ele simplesmente negou com a cabeça e voltou a girar. Juro que ele seria capaz de abrir uma cratera no chão daquele jeito — David! Senta aqui! — Puxei-o daonde estava, praticamente jogando-o na droga do banco.
– Pierre, 'que porra? — Ele ameaçou se levantar, mas eu lancei-lhe um olhar irritado e então ele bufou cruzando os braços — Qual o seu problema?
– Estou preocupado com você. Esse é meu problema! — Coloquei as mãos no bolso, bufando também, em direção a cafeteria do hospital — Não saia daí.
Aquilo tudo era bizarro demais. Em um segundo estávamos super bem. Melhor que bem. Em um segundo estávamos nos divertindo juntos no palco, no momento que me dei conta do quanto eu o amava. E agora, um segundo depois, estamos em um hospital milhas distante de onde deveríamos estar. Em um segundo David perdeu a cor, perdeu o brilho. Em um segundo David decidiu me manter longe dele, quando ele deveria ser capaz de contar comigo. Em um segundo estávamos sendo irracionais um com o outro; eu por que, Deus vê-lo daquele jeito estava me destruindo, e ele por… Bem, é compreensível.
Voltei e não pude conter um suspiro aliviado ao ver que David ainda estava onde eu havia deixado-o. Eu havia pego um café — por mais que eu soubesse que seria um erro — e uns biscoitos, que só tem em hospital, pra ele.
Meu alívio durou muito pouco, assim que notei que ele estava com o rosto enterrado nos próprios joelhos e as costas tremiam denunciando um soluço descompassado. David chorava de novo.
Sentei-me do seu lado e para até mesmo acariciá-lo eu estava inseguro, mas fiz da mesma forma. Ao sentir meu toque, David estremeceu e meio que se forçou a parar de chorar. Mas o que raios estava acontecendo afinal?
– David, amor… Eu… — Comecei um carinho leve em suas costas e ele não mudou de posição — Eu trouxe comida… Tem café! Você gosta, ham? Eu… Deixo você tomar hoje. — Ok, talvez minhas tentativas de tentar deixar o ambiente agradável e David rir um pouco, não estivessem ajudando em nada, mas hey! Eu estava realmente tentando.
Ele acabou por virar o rosto enfim pra mim, seus olhos esverdeados agora completamente vermelhos, e sua face com rastros molhados — Hmm… Obrigado, Pierre. — Ele sorriu fracamente, pegou o copo de café da minha mão e então voltou seu olhar vazio para as paredes.
– Me desculpe… — Peguei em sua mão, que repousava na estofado do banco, e seus olhos me seguiram com uma pontada de interrogação — Por… Ter, hã… Perdido a cabeça? Não queria falar com você daquela maneira, anjo. Eu só… — Minha voz morreu na garganta, mas mesmo assim, me forcei a continuar — Eu estou muito preocupado com você, David… E… Te ver nervoso daquela forma… Bem, eu não sei, só acho que você ficar assim, não ajuda em nada… E, bem, eu quero você okay, certo? — Eu acho que nunca estive tão sem jeito com as palavras quanto eu estava agora.
David soltou uma risadinha curta — e eu poderia jurar: levemente sarcástica — e então levou o olhar as mãos nervosas, brincando com seus próprios dedos — Não precisa se desculpar, está bem? Só não posso te prometer ficar bem quanto a isso. Quanto a Julie, quero dizer. Não posso ficar bem apenas por que você quer. Ela precisa ficar bem para que isso aconteça. — Apenas concordei de leve com a cabeça, por mais que não gostasse da ideia de David entrando em algum tipo de depressão caso… E falo isso batendo na madeira, Julie… Bem, não conseguisse resistir…
– David? David Desrosiers? — Um homem de jaleco branco, bem mais jovem que o médico anterior, apareceu com uma prancheta na mão.
– Sou eu. — David levantou em um pulo, deixando que o copo que segurava caísse no chão. Não quer qualquer um de nós estivesse se importando realmente.
– Pode entrar. — O médico disse simplesmente, e estava subentendido sobre o que ele se referia. David tremeu levemente, virou a cabeça pra mim e sorri parco. Apenas retribui o olhar e deixei que ele fosse ver o estado de sua irmã.
[…]
Não sei quanto tempo se passou, só sei que acabei adormecendo de muito mal jeito naquele mesmo banco. Fui acordado por uma mão pesada que balançava meu ombro levemente.
– Pierre? Hã… Pierre Bouvier? — Abri os olhos com um pouco de dificuldade e pude notar o mesmo médico, o mais novo, que levou David mais cedo com o olhar tão cansado quanto o meu provavelmente estava. Balancei a cabeça concordando simplesmente — Você pode me acompanhar, um minuto? — Concordei novamente e ele sorriu antes de me fazer seguí-lo até sua sala.
Fui descobrir o nome dele só depois que me sentei na cadeira detrás a uma grande mesa com uma placa em cima — "Dr. Willis" em letras douradas -. Aquela sala era tão grande que me fez sentir raiva do médico naquele instante. Por algum motivo de ter uma sala tão confortável como aquela, ele me passou a impressão de ser um verdadeiro esnobe arrogante — coisa que ele não apresentava ser -, quando deveria estar… Salvando a vida de Julie.
– Te chamei aqui porque… Não me pareceu a ideia mais saudável conversar com David a respeito disso… Acho… Acho que você o faria melhor que eu. — Ele apoiou o queixo nas mãos juntos e logo tive certeza de que aquilo não iria prestar.
[…]
Doutor Willis me contou basicamente tudo — usando praticamente sempre termos médicos que eu não fazia ideia dos signifcados — sobre o estado da Julie. Bem, derrames cerebrais já são péssimos por si só, mas ele deixou bastante claro que o caso dela era bem sério. Explicou que ela teria que ficar internada por bastante tempo e não tinha certeza se ela teria alguma melhora, mas ela precisaria fazer muitos exames e não seria bom manter David a par de tudo aquilo. Quer dizer, no sentido de acompanhar aquilo de bem perto. Julie ainda não havia acordado desde o 'incidente' — como o médico se referiu — e respirava apenas através de aparelhos. Nisso tudo eu só conseguia pensar em como eu iria contar para David que a irmã dele estava correndo risco de morte, que ele não poderia continuar ali até o fim do tratamento, que ele teria que conviver com apenas visitas mensais — mensais! Quanto tempo aquilo poderia durar? -. Pensava também aonde diabos aquela tia havia ido parar? E eu me senti ainda mais porque eu finalmente me dei conta que David tinha uma droga de família. Eu não vi a mãe dele em momento algum e o pai dele… Bom, esse nem David vê desde que era criança, certo? A irmã dele estava em coma com uma AVC, e nenhum dos pais deles estavam lá. Eu me perguntava que, por mais escrota que a tia dele tenha sido por lidar com aquilo com tanta frieza, se ela não estivesse com Julie naquele momento… Ela não teria ninguém pra levá-la ao hospital e… Céus, Julie poderia estar morta? Sim, ela estaria morta com toda certeza. E meu Deus… David sequer iria saber.
Eu senti minha garganta fechar e doía como inferno só pensar nisso. Doía ainda mais pensar que para David tudo isso era um trilhão de vezes pior. Doía o fato de eu não ter noção de tudo isso antes que uma tragédia como essa acontecesse.
E doía andar por aqueles corredores brancos, sabendo que eu iria encontrar a pessoa que eu amo — e sequer teve a chance de ouvir isso ainda — e contar todas as coisas horríveis que estavam por vir.
Estremeci ao encontrá-lo, balançando os pés nervosamente no banco de frente para o quarto de sua irmã. Ele já não chorava, e eu sabia que era por que não tinha mais o que chorar. Sabia que era porque, a essa altura, ele estava completamente seco por dentro. De qualquer forma, a expressão de abandono que ainda jazia em seu rosto falava bem mais do que possíveis lágrimas.
Assim que notou minha presença no mesmo ambiente, David fez a última coisa que eu esperava que fizesse, depois de agir do modo como agiu o dia inteiro comigo: Ele se levantou e correu até mim se jogando em um abraço que por pouco — e muito equilíbrio da minha parte — não resultou em um tombo muito feio.
Eu o apertei bem forte contra meu corpo, afagando seu cabelo enquanto ele afundava o rosto no meu peito, ficando nas pontas dos pés, quase largando o chão. David estava tão… Entregue a mim naquele momento, e eu possivelmente nunca estive tão apaixonado por ele. Tão necessitado do seu corpo tão perto do meu, do seu cheiro invadindo minhas narinas novamente.
– Me desculpe… — Ele falou em um tom abafado, quase inteligível, depois de longos minutos apenas preso àquele abraço.
– Você não tem motivos pra se desculpar… — Comecei mas logo seu indicador pousou na minha boca, calando-me. Ele se afastou apenas o suficiente para que pudesse me olhar nos olhos.
– Não, Pierre, por favor, me deixa falar… — Ele pediu e eu concordei com a cabeça — Estou pedindo desculpas porque… Porque eu não posso, Pierre. Não posso, simplesmente.
O sondei confuso mas ele voltou a se calar — Não pode o quê, David?
– Não posso… Eu queria… Realmente queria ser capaz disso, mas eu não consigo, Pierre. Eu vou ter que ser egoísta com você.
– David, que merda você está fa...
– Eu queria ser capaz de te mandar embora, droga! — Ele se afastou completamente de mim, bastante alterado. Eu apenas o fitava confuso e surpreso — Mas eu não vou ser um daqueles caras que sabem o que é melhor, e por mais que isso o machuque, ele vai lá e faz a coisa certa. Eu preciso de você aqui, eu não posso fazer a coisa certa e terminar com você, droga! Eu queria ser capaz de ser perfeito pra você, mas eu não sou. Mas mesmo assim, eu preciso de você aqui, entendeu? Você não pode me abandonar! Eu vou ser egoísta e dizer que não importa mais merda nenhuma e por mais que me machuque, preciso de você comigo e não vou deixar que você me abandone! — E então ele voltou a chorar, soluços tão altos que poderia se escutados por todo o corredor. Mas eu não me importei, dane-se que aquilo era um hospital. Eu não fazia ideia do que David estava falando, mas ele estava sofrendo demais. Ele tinha total direito de chorar e berrar o quanto quisesse. Mais uma vez tudo que eu pude fazer — e dessa vez pareceu o bastante — foi abraçá-lo. Dessa vez, tão forte que eu poderia jurar que seu corpo poderia se juntar ao meu. E naquele momento, era tudo que eu queria.
Na verdade queria que David ficasse bem.
E eu sempre quero isso.
Esperei que ele realmente se acalmasse e assim que senti sua respiração regulada sussurrei bem perto do seu ouvido, de modo que ele estremeceu um pouco aos meus braços — David… — Beijei o topo da sua cabeça — Amor… Eu não faço ideia do que você está falando, mas que fique claro que essa história de "te abandonar" é a coisa mais ridícula que eu já ouvi. Por favor, que isso nem passe pela sua cabeça de novo...
– Mas é o que você deveria fazer, Pierre! E eu, supostamente, deveria deixar. Mas eu não vou. Porque eu sou egoísta. — Ele voltou a afundar o rosto no meu peito, como se, de alguma forma, fosse capaz de se esconder de mim.
– David, que história é essa de "ser egoísta", também? Me explica o que está acontecendo. — Empurrei ele levemente — ainda segurando-o -, apenas o suficiente para que pudesse olhá-lo no rosto.
– Eu passei a droga do dia inteiro pensando nisso. Desde o momento que fiquei sabendo da Julie até agora. — Ele suspirou firme, como se se não fizesse isso, fosse voltar a chorar — Não é justo com você ficar comigo. Não é justo porque… Esse é o tipo de coisa que eu causo! — Ele apontou para longe ao corredor, se referindo ao quarto de Julie — E eu não quero que nada de ruim te aconteça, mas eu não consigo mais me ver sem você Pierre! — Ele já falava alto de novo, palavras misturadas com lágrimas incontroláveis. David começou a me dar vários socos pelo meu tórax. Não doía tanto, realmente. E eu sabia que David precisa daquilo, que ele precisava descarregar tudo que estava sentindo de alguma forma, então eu simplesmente deixei que o fizesse — Não vai fazer nada? Estou sendo um idiota aqui! Estou batendo em você!
– Eu não me importo. Você não é um idiota. Faça o que tem que fazer. — Sorri-lhe doce e ele despencou no meu corpo mais uma vez. Encharcava minha blusa e me abraçava.
– Pare de ser perfeito, Pierre! — Ele resmungou puxando um punhado da minha camiseta para si — Pare com isso.
– David, me conte o que está havendo. Pode ser? — Mais alguns minutos apenas me abraçando e então ele concordou com a cabeça, se afastando apenas o suficiente, novamente.
– Eu estou muito mal pela minha irmã. — Ele disse de uma forma que soava óbvio — Mas eu fiquei mais devastado porque… Estou tão cansado de sempre acabar causando algo ruim pra… Todo mundo que eu deixo se aproximar. – Ele falou a última frase bem lentamente, com medo e olhando para mim — Meus pais viviam brigando, e eu sei que eu era o culpado, porque antes de eu nascer não era assim. E então eles se separaram, mais uma vez: culpa do David. Nunca mais voltaram a se falar, minha mãe se tornou miserável e sem vida depois desse casamento falido, meu pai nunca mais quis saber de mim e a família estava arruinada por completo. Tudo culpa minha. Então Julie, como a pessoa incrível que ela é, me cria como se eu fosse alguma responsabilidade dela. Ela cuidou tão bem de mim… E o que eu fiz? Fui embora, deixei ela sozinha e agora ela está aqui, quase morrendo porque estraguei tudo de novo. — Ele escondeu o rosto entre as mãos, um choro agonizante. Eu não conseguia acreditar naquilo tudo que estava ouvindo. — Tudo é minha culpa. Sempre é minha culpa.
– David! — Puxei seus pulsos, segurando-os na altura de seu rosto. Ele me olhou espantado, surpreso — Tente entender, por favor! Nada disso é sua culpa, ok? Pare de se martirizar tanto! Não seja tão injusto consigo mesmo! Essas coisas são horríveis, claro que são. E elas tendem a acontecer com quem não merece, e isso é uma merda, mas é a verdade. Me magoa muito ouvir você dizer todas essas coisa ruins a sem próprio respeito, porque… Elas não condizem com a realidade. — Soltei seus pulsos — que eu apertava bem fortemente — e segurei seu rosto com as duas mãos. David tremia, tremia muito — Você nunca vai ter noção do quão incrível e fantástico você é, sei disso. Mas pelo menos não seja capaz de se rebaixar tanto assim. E eu não quero saber de você dizendo que é egoísta porque não quer ficar sem mim. Porque se esse fosse o caso, eu seria o cara mais egoísta de todo o mundo, porque não consigo, não quero e não vou me imaginar sem você jamais. Só de você ter passado o dia inteiro considerando se deveria ou não ficar sem mim, me destrói todo por dentro. Isso Saber que você passou o dia tentando me manter longe de você porque… Pensou que seria o 'certo a fazer'… Não faça isso de novo, David. Por favor, nunca mais considere algo assim. — E então, pela segunda vez, em menos de um ano, eu estava em prantos. Pela segunda vez, David era capaz de me fazer chorar, de me fazer tão imbecilmente fraco que eu sequer me reconhecia. Pela segunda vez eu temi perdê-lo e fui incapaz de lidar com isso de uma maneira racional.
– Eu… — Ele fungou seu rosto completamente molhado. O meu não tão diferente provavelmente - Eu tenho tanto medo de te amar, Pierre…– Eu provavelmente virei gelo quando ele falou isso. — Desde que você me beijou, pra falar a verdade. Você me beijou, você escreveu uma música para mim, você deixou claro o quanto gostava de mim e… Eu não sabia de nada disso. Eu não tinha nem ideia de nada disso. Eu nunca poderia imaginar que você sentisse qualquer coisa além de amizade por mim… Eu fiquei bastante, hã… Surpreso. — Ele deixou que um sorrisinho curto brincasse no canto de sua boca. Ele não estava feliz de verdade, sabia que era apenas pelas lembranças que ele estava tendo naquele momento. Então não me atrevi a sorrir de volta — Eu acordei no meio da madrugada aquele dia, e eu não sei o que deu em mim, mas eu sai de casa e comecei a andar em direção a sua casa, sem que eu sequer soubesse como. E durante todo o caminho, eu fiquei pensando em tudo que havia acontecido mais cedo… E então eu vi a sua casa e instantaneamente eu sorri. Sorri porque olhei pra janela do seu quarto e vi a luz fraca de um abajur sendo acendido de lá, no momento em que disquei seu número. Sorri porque só de olhar para aquela luz fraca saindo da janela do seu quarto, senti uma coisa… Familiar? Naquilo tudo. Eu percebi, naquele momento o quanto você poderia me fazer bem. Foi naquele momento que me dei conta de que eu também gostava tanto de você… E também… — Suspirou fundo, o sorriso fraco sumindo por completo do seu rosto — Foi o momento que comecei a temer a possibilidade de te amar. Porque não quero ficar tão dependente de você, Pie. Não mais do que já sou, e já sou por um país inteiro. Porque eu tenho medo de estragar tudo, como eu geralmente faço, e eu não quero magoar você. E eu não quero me magoar também. — Sorriu triste e voltou a afundar o rosto em mim.
Certo, o que eu poderia dizer depois daquilo tudo? David havia acabado de abrir seu coração pra mim. De um forma que ele nunca havia feito. De uma forma que ele nunca se permitiu. Por um lado isso era bom, era bom saber como ele realmente se sentia. Mas era horrível ter tanta certeza de que aquele garoto perfeito que eu amava tanto, tinha a auto estima tão baixa. Se culpava tanto assim, por coisas que ele não pode controlar, que não pode interferir ou realmente ser o culpado, de qualquer forma. Era horrível saber que eu tinha tanta certeza do que eu sentia por ele e estava apenas esperando a hora certa de falar-lhe e ele temia tanto sentir algo assim por mim.
Levantei o queixo dele com a mão, com o intuito de começar alguma frase. Qualquer uma! Mas nada que prestasse vinha na minha cabeça. Ele me olhou curioso como se esperasse qualquer coisa, e em um ato de pura paixão, me inclinei até que meus lábios alcançassem os seus, iniciando um beijo que começou calmo, mas logo se tornou desesperado, como se ele fosse capaz de curar todas as feridas que estávamos sentindo naquele momento.
Foi um beijo realmente longo.
E tremendamente molhado.
E me refiro as lágrimas de David que não pareciam ter hora para acabar.
– Não vamos falar sobre isso está bem? Seu medo é bobo e desnecessário, mas vamos apenas ignorar a verbalização de qualquer sentimento por agora, pode ser? Não precisamos disso. — Falei com um sorriso fraco no canto da minha boca, enquanto acariciava sua bochecha, limpando as lágrimas que ainda teimavam em cair silenciosamente.
David apenas concordou.
[...]
Por fim, tive que explicar tudo que estava acontecendo e tudo que o médico havia dito para mim mais cedo. Foi mais uma sessão de conversa difícil de se lidar; de falar e de ouvir. David acabou por chorar mais um pouco, mas dessa vez confiando totalmente me mim e me abraçando sem nenhum receio estúpido que ainda pudesse existir.
Ele entrou no quarto de Julie uma última vez, e ficou apenas conversando amenidades para ela. Por mais que estivesse em como, aquilo era bom. Tanto para a, possível, melhora de Julie, quanto para o coração despedaçado de David.
Ele repetiu uma centena de "eu te amo", prometendo que voltaria em breve, antes de deixar a irmã sozinha com aquele tanto de fios presos ao seu corpo.
Depois disso, estávamos a caminho do aeroporto.
Quer dizer... Só de corpo, David estava, eu sabia disso.
Sua mente estava por completo naquele quarto com paredes brancas em Sept-Îles.
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