Hot Like Ice, Cold Like Fire.
19 Ela Não Se Ajoelha.
Notas iniciais
Um enorme cão infernal de três cabeças abria caminho por entre os mortos. Ninguém parecia notá-lo. Havia monstros e guardas do mundo inferior por todos os lados, mas nenhum parecia se importar com o enorme cão escuro que se misturava as sombras enquanto passava. Seus pelos estavam estranhos, mais escuros do que o normal e conforme andava e balançava os pelos pareciam fazê-lo desaparecer.
Clarisse se forçou a olhar com mais atenção. Não sabia o porque, mas o cão de três cabeças era importante por algum motivo.
Aos poucos a imagem do grande cão foi ficando mais clara. Ele estava caminhando pelas sombras, assim como Nico Di Angelo quando veio visitá-la a pouco tempo atrás. E o mais impressionante era que não estava sozinho.
Nico estava ao lado dele envolvido em fumaça negra assim como o resto do grupo. Annabeth vinha na frente os comandando, tinha as feições sérias e preocupadas. Percy vinha junto dela com a espada na mão sempre atento a qualquer movimentação. Silena Beauregard, Edward Teach e uma garota de cabelos curtos que Clarisse não conhecia vinham junto do Cérbero. Uma agitação aconteceu em algum ponto do mundo inferior e todos eles pararam de andar, mas assim que perceberam que se tratava de algo além do propósito deles decidiram continuar andando e aproveitar a distração para avançarem mais rapidamente.
– Estamos quase lá. – Disse Nico Di Angelo quase que inaudível.
– Ótimo, vamos continuar. – Annabeth falou com a voz visivelmente abalada. O provável era que Nico tivesse dito a ela as condições nas quais encontrou Clarisse e isso a tenha feito perder a calma.
A imagem começou a perder o foco e Clarisse acordou assustada vendo o deus do inferno parado frente a ela.
***
– Você esta com uma aparência ótima para quem já esta aqui a dois meses. – Disse o deus Hades em um tom de sarcasmo.
– Sou durona, difícil de abater. – Respondeu ela, se levantando ficando de frente a ele, estavam quase da mesma altura.
– Claro que é. Então pensou na minha proposta? Posso mandar que lhe preparem o posto? – Hades caminhou até uma das paredes e com um aceno fez uma cadeira negra se materializar, ele se sentou e cruzou as pernas, seus olhos fixos nos de Clarisse.
– Porque acontecerá a Cérbero? – Perguntou ela tentando arrancar alguma informação do deus, sabia que precisava ganhar tempo.
– Ah, meu bem eu não sabia que você fazia do tipo sentimental. Porque o futuro de um cão infernal importa para você, Clarisse filha de Ares? – Ele mostrou os dentes numa tentativa falha de um sorriso.
– Não me importa, só estou curiosa. Ainda não tenho certeza se quero fazer isso. – Ela sabia que não podia dizer sim, pois dessa forma nunca poderia sair daquele lugar e agora que sabia que estavam vindo por ela não podia se entregar, mas também não podia dizer não, pois Hades a mataria na mesma hora.
– Dois meses e você ainda não sabe o que quer. Interessante. Mas temo não poder dar a você mais tempo para pensar. – Ele disse descruzando as pernas e uma espada negra de ferro estígio, provavelmente maior que a lança de Clarisse apareceu do nada.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou ela com cara de boba, sabia muito bem o que ele queria dizer, mas precisava de tempo.
– Que você precisa me dizer agora o que quer. Deuses garota, sempre soube que filhos da guerra era estúpidos. – Ele se levantou. – Agora faça o juramento.
Clarisse respirou fundo, sabia que eles estavam chegando, se tivesse uma maneira de distrair Hades, mas presa naquela cela com ele era impossível.
Eles estão vindo. Pensou ela. Aguente só mais um pouco.
– Sabe, conheci um de seus filhos. – Ela falou fingindo indiferença. – Em Vegas.
– Conheceu? Em Vegas? – O assunto pareceu chamar a atenção do deus.
– Sim, Di Angelo. Garoto encantador. – Sua lança estava bem perto, ela a pegou tentando não parecer nervosa e ficou girando-a pelas mãos como se só estivesse entediada.
– Di Angelo? Um garoto somente? – Ele se levantou e agora estava bem mais alto que ela, Clarisse nunca havia notado o quão alto era aquele teto, na verdade não via teto algum.
Um tremor desviou a atenção do deus, Clarisse segurou a lança firme com as mãos. Seus olhos esperançosos a entregaram.
– Ajoelhe-se e faça o juramento. – A voz áspera do deus arrepiou todos os seus pelos. Talvez fosse ele usando seus poderes, pois suas pernas começaram a se dobrar desintencionalmente.
Ela quase pode ouvir a voz de Annabeth falando na sua cabeça. Seus olhos acinzentados brilhavam na sua frente, mas ela não estava lá.
Mais um tremor e dessa vez as paredes também tremeram derrubando poeira e pedaços de pedra em cima deles.
– Ajoelhe-se! – Gritou o deus e Clarisse caiu de joelhos no chão.
Hades ergueu a espada.
– Faça o juramento agora.
A voz de Clarisse havia sumido, poderia morrer, mas não serviria a deus nenhum além de seu pai.
Escutou a batalha sendo travada lá fora, o barulho de ferro batendo em ferro, ossos se despedaçando, gritos de guerra e enfim escutou a voz dela, era só o que estava esperando. O grande deus idiota, afinal, havia se desconcentrado por alguns segundo, ficara tão assustado com o fato de Clarisse conhecer um de seus filhos que nem ligara pro fato de ela ter pego a lança, ou talvez fosse muito arrogante para pensar que ela o enfrentaria.
Sentiu a energia da batalha chegar até ela, passar por suas veias e carregar a lança que explodiu em eletricidade, a luz fez o deus do mundo inferior recuar surpreso.
– Hoje não, agente funerário do inferno, hoje não.
Ele avançou contra ela com aquela espada que poderia parti-la ao meio se a acertasse, mas ela desviou o golpe. Ele poderia ser grande e forte, mas ela era rápida e esperta. Ele girou a espada num golpe horizontal e ela se curvou para trás sentindo o vento passar pelo seu rosto. Ele desapareceu e reapareceu atrás dela, avançou, mas ela o bloqueou com a lança, tentou contra atacar, mas ele voltou a se desfazer em fumaça e reaparecer atrás dela. Os movimentos dele eram previsíveis e não demorou muito até que ela conseguiu conhecer o jeito como ele lutava, sempre apelando para seus poderes quando via que ela o acertaria. Foi quando Clarisse começou a brilhar que conseguiu acertá-lo, ele desapareceu e com um golpe muito bem calculado ela saltou para trás com a lança exalando eletricidade e golpeou o vazio onde ele apareceu misturando a fumaça negra, a eletricidade no bronze celestial e o corpo do deus.
Mas Hades é um deus e deuses não morrem, certo? Certo. Mas podem ser feridos e aquele ali foi bastante ferido.
Ele desapareceu a deixando ali sozinha e em poucos minutos a luz da espada de Percy brilhou ao longe.
***
Ele quebrou as correntes que prendiam a cela de Clarisse e ela saiu. Ele usava a camisa laranjada do acampamento meio sangue que estava bastante rasgada e ele coberto de poeira negra.
– Você devia ter se vestido melhor se ia me fazer uma visita Jackson. – Disse ela tentando controlar a excitação na sua voz.
– Imaginei que ficaria feliz em me ver. – Falou ele avançando e a abraçando, ela hesitou, é claro. Percy sabia que ela era grata, mas também sabia que ela não o abraçaria.
***
Os dois correram silenciosamente, passando por varias outras celas vazias, Clarisse nunca imaginou que elas seriam tantas.
– Quem diria que as celas do inferno estariam todas vazias. – Sussurrou Percy.
– O que eles vão fazer? Prender os mortos? – Respondeu ela soando rabugenta como sempre.
Subiram um enorme escadaria e os sons da batalha começaram a chegar a seus ouvidos. Clarisse se perguntou como poderia tê-los ouvido quando estava tão longe.
Entraram em uma câmera circular que parecia ter sido abandonada a séculos, o lugar era feito de pedra e terra e havia três saídas, Clarisse não sabia onde daria nenhuma delas. O cão infernal não estava lá, assim como Nico e Silena. De uma das portas soldados esqueléticos brotavam feito água em torneira quebrada. Annabeth, o meio irmão de Clarisse Edward e a garota de cabelos curtos que Clarisse não conhecia lutavam lado a lado em perfeita sincronia, ela se permitiu admirar Annabeth por alguns segundos antes de entrar na batalha.
Passara tanto tempo sem fazer nada que achou que poderia estar enferrujada, mas a luta com Hades a mostrou que isso jamais aconteceria, ela era uma guerreira, havia nascido para lutar. Começou a matar soldados como brinquedos, do mesmo jeito que fez quando chegou ali, eles não eram nada para ela. Mas o problema era que eles não paravam de chegar.
– Precisamos sair daqui. – Gritou Annabeth que só o que teve tempo de fazer foi dar uma boa olhada em Clarisse.
– Qual é a saída? – Perguntou Clarisse cravando a lança na cabeça de um soldado esquelético.
– Nico foi por aqui, vamos. – Eles seguiram para a saída onde Edward apontou.
Tudo o que fizeram por longos minutos foi correr, correr e correr.
Encontraram Nico Di Angelo com Silena e Cérbero.
– Ele esta quase esgotado, nos escondeu por todo esse tempo e não poderá continuar levando todos nós. – Disse Nico passando a mão nos pelos pêlos do animal.
– Não precisamos que leve todos, só uma. – Disse Annabeth olhando para Clarisse como se a examinasse. Clarisse entendeu na hora o que ela queria dizer.
– Fique a vontade para ir. – Respondeu Clarisse tentando soar sarcástica.
– Estamos quase lá. Esse túnel leva ao mundo mortal, mas pode demorar. – Disse Nico colocando a mão na parede de pedra.
Clarisse não desviava os olhos de Annabeth, imaginou que quando a visse seria abraçada ou beijada ou sei lá, qualquer demonstração de que ela sentiu a sua falta. Se sentia egoísta em pensar assim, afinal, Annabeth havia guiado todas aquelas pessoas até o inferno para resgatá-la.
– Vamos todos juntos, então. – Disse a garota e somente então Clarisse prestou alguma atenção nela. Tinha cabelos negros, rebeldes e curtos. Uma expressão vazia que abrigava olhos azuis escuros e vestia roupas escuras como uma punk.
Nenhum dos outros seis discordou e então eles seguiram rumo ao mundo mortal, rumo ao sol, rumo a vida.
Clarisse esperava que a qualquer momento Hades fosse aparecer e matá-la antes que conseguisse sair dali, mas isso não aconteceu. Provavelmente estava chorando feito uma garotinha no colo de Perséfone agora mesmo.
***
Quando chegaram ao final do túnel o sol estava brilhando, o céu era de um azul limpo como os olhos de Annabeth, sem nuvens.
Clarisse respirou o ar puro e sorriu, sabia que os outros estranhariam aquilo porque ela raramente sorria na frente das pessoas, mas ela estava feliz de ter saído daquele sanatório. Annabeth a olhava com uma expressão triste, mas solidária. Ela também estava feliz, mas estava cansada. Dois meses que elas não se viam, Clarisse tentou imaginar como seria se estivesse no lugar de Annabeth. Dois meses com a mulher que você ama presa no inferno depois de ter desafiado o deus dos trapos. Dois meses sem saber se ela estava sendo torturada, sem saber ao menos se ela estava viva, sem saber se a veria novamente.
Clarisse sorriu pra ela mostrando que estava bem. Não queria pensar em mais nada naquele momento, na verdade gostaria de ficar o resto da semana sem pensar, se fosse possível.
Andou até Annabeth e a abraçou, não se importava se ela ia retribuir ou não. Passou os braços pela cintura dela e a apertou, o calor de seu corpo era tão reconfortante, tão prazeroso que quando ela passou seus braços pelo pescoço de Clarisse a apertando ainda mais forte ela teve vontade de chorar, mas se conteve é claro. Clarisse La Rue pode até sorrir na frente das pessoas, mas chorar é outro nível.
Separou aquele abraço somente centímetros o suficiente para lhe alcançar os lábios, o beijo foi urgente, quase grosseiro, cheio do calor que Clarisse precisava tanto. Fechou as mãos nas costas de Annabeth a apertando mais contra si, sentiu tanta falta daquele contato, não poderia perder aquilo nunca mais, decidiu durante aquele beijo que nunca mais faria mal a Annabeth, que pra sempre seria sua e que pra sempre a faria feliz.
Quando se desgrudaram a procura de ar os olhos de quase todos estavam virados para elas. Percy sorria bobamente, até Silena parecia feliz. Edward tinha uma expressão de aprovação que Clarisse conhecia muito bem, ele era o irmão a qual ela menos odiava. Nico tinha sua própria maneira de demonstrar sentimento, mas ninguém sabia qual era. A garota estranha era a única que não as olhava, ela tinha um mapa nas mãos e fingia estudá-lo, Clarisse não lhe deu atenção.
– Vamos pra casa? – Perguntou Annabeth e dessa vez estava sorrindo.
– Casa. – Repetiu Clarisse, nunca imaginou que aquela para simples tivesse tanto significado...
Fim?
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