Hot Cold Blood - Klaroline.

23 Capítulo 23 - Entre Vampiros, Lobos e Bruxas, Salvam-se Quase Todos


CAROLINE

Davina começou a recitar o feitiço e à medida que a nossa concentração aumentava o clima de tensão pairava no ar.

Aposto que nem nos mais de mil anos de existência dos Mikaelson eles já viram algo do tipo. Todos reunidos em um único objetivo: destruir não só a casa e os membros, mas apagar todo o legado da família. Mikael, ao menos, só queria acabar com alguns, não todos. O alvo dele sempre foi Klaus e a linhagem criada por eles. Mas eles não, eles querem tudo e pretendem fazer de tudo para conseguir. Começando pelo bebê prestes a nascer. E isso era o que mais apavorava todos nós.

O jeito que eles espreitavam a movimentação daqui nos deixava cada vez mais alerta. Eu via a hora que eles fincariam uma bandeira no meio do pátio antes mesmo de tudo começar. Na cabeça deles, é claro. Na nossa, a possibilidade de isso acontecer era quase nula.

Quase.

E aquilo não seria bom de forma nenhuma. Enquanto todos tinham o corpo acelerado pela adrenalina, os Mikaelson estavam sorrindo. Não um sorriso aberto por uma piada malfeita de Damon ou quando Stefan está bêbado o suficiente para gargalhar, mas do tipo que é discreto o suficiente para mal ser notado. Um sorriso diabólico que arrepia a sua alma. E Klaus tinha o pior deles juntamente com aquele olhar de quando fazia algo sangrar por prazer, de quando torturava, maltratava e matava alguém da pior maneira possível por diversão.

Droga!

Ou Não...

Não posso dizer muito sobre isso, visto que me peguei sorrindo também. Não como eles, é claro, mas disposta o suficiente para seguir em frente e não parar até tudo ter acabado. Mesmo que nesse processo de acabado eu esteja desta maneira. Mesmo não sabendo até que ponto minha hipocrisia captou essa realidade distorcida onde eu acredito estar fazendo o que é certo, o que é justo. Mesmo eu tendo a coragem e a covardia de arriscar tudo por isso.

A minha vida, principalmente.

Não, não acredito que vivi tempo o suficiente. Mas acredito que deveria estar aqui, exatamente onde estou, entre pessoas que aprendi a ter afeto e a confiar para proteger a única coisa da qual daria a quem não teve oportunidade de amar a fazer isso de forma incondicional. E eu estaria disposta a arriscar perder para isso. Chame de burrice, ingenuidade, ou até de nobreza, mas... sim, eu estaria. A única irracionalidade daqui foi tudo acontecer tão rápido ao ponto de não dar tempo de nem seque eu conseguir me despedir da minha mãe e dos meus amigos. Mesmo que fosse com um “adeus” ou um “até logo”. Não tinha como saber. E se dependesse de mim, a segunda opção era a qual eu mais me agarrava. Mas se depender deles... das facções, do ódio e da vingança... Hoje seria o dia do meu último suspiro.

Preferi sacudir minha cabeça para afastar os pensamentos suicidas e prestar atenção no momento em que Davina virou para nós e disse:

— Eu realmente espero que isso seja resolvido em um minuto. — E abaixou os braços. – Ou morreremos antes de saber.

O maldito véu desceu e, ao contrário do que pensei ser um cenário de invasão brutal, nada aconteceu.

Eu, obviamente, estranhei e a qualquer momento perguntaria que palhaçada era aquela, mas não precisei. Assim que um vampiro, ou lobo ou sei lá o que, pôs vagarosamente e com certo receio seus pés para dentro da até então derrubada barreira e percebeu que não seria violentamente repelido, ele sorriu.

E finalmente tudo começou.

KLAUS

O primeiro. A cobaia se aproximou de Caroline e mostrou os dentes. A ingenuidade foi tanta que ele nem nos deu o trabalho de nos fazer tentar adivinhar a facção da qual pertence. E o máximo que ela precisou fazer foi mexer foi o braço direito, o mesmo que eu quase quebrei em Vegas, para segurar a garganta desse vampiro idiota e aperta-la ao ponto de arrancar sua jugular sem o menor esforço.

Sorri de lado com a cena.

No fim, Caroline era exatamente igual a mim. Com um senso moral um pouco mais apurado e irritante, mas igual a mim.

Se não fosse a atual situação provavelmente a Miss Mystic Falls estaria reclamando de manchar sua jaqueta e um dos jeans que dei a ela com o sangue que espirrou, mas sua reação foi diferente. Ela respirou fundo quando o corpo atingiu o chão e olhou para mim como se dissesse secretamente que era para eu não me preocupar. Mas a verdade é que não importa o quão forte, determinada e destemida Caroline seja, eu sempre me preocuparei com ela porque eu tenho medo de perceber ser tarde demais quando eu me pegar observando a varanda de um quarto vazio e um berço cheio porque eu sei que teria ganhado a batalha, mas perdido a mulher que eu am...

Fui atingido por uma fecha no ombro.

Verbena.

Maldito e estúpido clichê.

Arranquei essa droga que eles pensam que pode me derrubar e notei algo tipicamente cômico. Rebekah foi o alvo da vez. Um lobo invadiu o espaço e tentou mordê-la e como Caroline, ela não precisou de muito esforço para girar sua cabeça tão rápido ao ponto de soltá-la do tronco.

Não sei porque diabos todos tem essa terrível mania de subestimar mulheres sempre como mais fracas. Se eles soubessem o que minha doce irmãzinha fez durante os séculos e Caroline faz quando tem algo maior que ela própria em jogo pensariam duas vezes antes de achar que são mais frágeis que nós.

Bom, ao menos dois idiotas já foram. Agora só faltam as outras muitas centenas lá fora. E o contrário do que pensei, eles vieram aos poucos. Acredito que mesmo em um número desproporcionalmente maior que o nosso, temos fama o suficiente para fazê-los tremer na base. E isso só não era melhor que deixá-los se aproximar e aguardar uma morte dolorida e agoniante enquanto continuávamos praticamente parados no mesmo lugar.

Elijah se movia apenas o suficiente para torcer alguns pescoços e Rebekah se abaixava para se certificar que alguns lobos não respiravam mais.

Com o semblante aflito e confuso, Davina aguardou mais um pouco até começar a tentar refazer a barreira. Mas o tempo passou e tudo o que ela fez foi se retirar da varanda e voltar para dentro.

— O que essa maldita bruxa pensa que está fazendo? — Esbravejei. – DAVINA! — Minha voz saiu tão alta e rouca de ódio que eu pude sentir todo o Quarter tremer. Mas ela não respondeu e nem ao menos se deu ao trabalho de retornar.

Ao perceberem que Davina abandonou o campo de batalha, a festa começou de verdade e não tivemos a chance de terminar a dança e cumprimentar os convidados. Não conseguimos nem ao menos sair do lugar para saber o que diabos estava acontecendo.

Vindo do telhado, dos fundos e das laterais, eles formaram um cerco e entraram com tudo. Ao mesmo tempo. De uma só vez. Todos eles.

O alvo da vez foi o exército de Marcel para nos deixar em menor número. Mas quando se tem um grupo treinado por um guerreiro como ele que foi treinado por mim, os seus seguidores se tornam devotos e fortes o suficiente para lutarem até o fim pelo o que acreditam ser o melhor para o seu grupo. Assim como uma matilha, assim como um coven, eles permaneceram unidos protegendo uns aos outros sem pestanejar. Alguns foram abatidos, outros gravemente feridos e em geral estávamos em vantagem tática. Até que para me desestabilizar, um grupo de lobos atacou Rebekah e mordeu-a em diversos lugares. E finalmente entendi o motivo deles esperarem. A paciência não era uma estratégia de combate. Era a noite de lua cheia a responsável por tamanha serenidade. Eles não tinham se transformado e tinham a força de um híbrido. O meu sangue... Terem me cortado e despejado meu sangue em uma bacia não poderia ser a toa. Davina e Genevieve pagariam por isso. E a quantidade de mordidas em Rebekah me deixou enfurecido o suficiente para eu querer tortura-las o mais rápido possível, mas eles lançaram correntes grossas para me impedir de chegar até Rebekah para tirá-la dali. Dessa forma, o veneno se espalharia muito mais rápido e o sofrimento seria inevitável.

Não posso reclamar de covardia quando eu mesmo já fiz incontáveis vítimas nesse meu modo de ser sádico, cruel, impiedoso. Mesmo preso e apanhando além do que qualquer um pode aguentar, permaneci de pé apenas para gravar a cara de cada um desses malditos filhos da puta porque eu não sou qualquer um. Eu sou Niklaus Mikaelson. Klaus, O Híbrido. Único de minha espécie. Eu sou um Original. E eu não caio.

— Eu não acredito que eles trouxeram alhos e cruzes. — Gargalhei quando vi um grande grupo se aproximar atrás de alguns lobos, bruxas e vampiros que atacavam Elijah, Marcel e Caroline e recebi algumas estacas embebecidas de verbena atravessadas em meu corpo em troca da minha sinceridade.

Quando se está em um campo de batalha você precisa observar mais do que sentir e agir. E embora as minhas atitudes demonstrem que não tenho muito controle sobre a minha impulsividade, isso nada tem a ver com a minha habilidade em suportar dor. É necessário ter perícia para destruir seu inimigo. E ali estavam. Bravos soldados do que podemos chamar de inteligência, mas sabemos que não podemos chamar de inteligentes humanos que se metem em uma briga como essa. É como jogar carne fresca para tubarões. Aqui, no caso, sangue fresco para vampiros.

— Alguém avisa a esses imbecis que estamos no séc. XXI e isso sempre foi a droga de um mito?! — Rebekah sibilou com certa dificuldade antes de soltar uma gargalhada com sangue e desmaiar.

Eu passei mais de mil anos protegendo a minha irmã do mundo. Mesmo quando a empalava e deixava-a alguns séculos adormecida, foi porque eu quis que ela não experienciasse a crueldade de um mundo do qual eu fazia parte para ser do jeito que sempre foi. Mas Caroline, a mesma ao qual está ajoelhada tentando acudir Rebekah enquanto Elijah as protege, me mostrou que o erro é não deixar que as pessoas errem. Mesmo se forem da sua família, mesmo que as queira para sempre porque não consegue lidar com a solidão, mesmo que as ame. E perceber que todo esse milênio passou com um piscar de olhos me fez abri-los para entender que, se eu ganhar essa batalha, se eu acabar com essa guerra, é por um lugar ao qual eu queria que minha irmã viva onde ela quiser, com quem ela quiser, da forma que quiser. Assim como Elijah. Assim como Caroline e a minha filha.

— Vocês só não são mais burros porque falta espaço no mundo. — Consegui falar em meio aos risos após cuspir sangue algumas vezes. – Mas isso, graça ao Deus de vocês, é algo que pode ser resolvido facilmente.

Sei que esse exército é fraco quando o assunto é fome, afinal, eles não são liderados por Marcel e eu utilizaria todo o potencial que um corpo humano possui para despejar líquido vermelho dessas bolsas ambulantes. Tudo o que eu precisava era deixar alguns dos ossos do meu corpo estalarem, meu corpo se eriçar e meus olhos se tornarem focados em um alvo, ou um grupo deles. Com o rosnado alto, como no dia em que enfrentei Marcel, todos se afastaram. No final, eu distrairia os vampiros bebês enquanto acabava com o plano estratégico que os humanos fizeram para as facções, já que são terríveis e perfeitamente vulneráveis.

Pronto para acabar com isso sem piedade, gritei para Caroline se afastar. Não porque estava preocupado em ela me ver dessa maneira, porque ela mesma já estava banhada em um tom escarlate que não era dela, mas porque eu poderia feri-la em meio a isso tudo e eu sabia que eles a usariam, minha fraqueza, para me debilitar.

CAROLINE

Diante de todo o cenário, eu estava muito mais preocupada com Rebekah do que comigo. Nossas implicâncias e pequenas desavenças não faziam mais sentido ali. Tudo o que eu queria era dar um jeito de tirá-la daquele lugar porque não havia outra maneira de continuar dessa forma. As feridas se abriram rápido tamanha a quantidade de veneno das mordidas e cada minuto passado era uma tortura. Elijah eliminou alguns deles, Marcel manteve-nos na retaguarda e me preparei para arrastar Rebekah quando escutei algo já conhecido e olhei para trás. Aquilo me assustou. Klaus preso em correntes grossas de um material que eu sabia que foi feito para detê-lo. Mas seu semblante maligno, seu rosnado de alfa e o olhar psicopata me dizia que aquilo não iria acabar bem. No momento em que Klaus se levantou e observou o lugar por algum tempo, ele gritou para eu não ficar ali e eu entendi que a partir daquele momento, ele tomaria sua forma híbrida e as coisas começariam a sair completamente do controle.

Me desvencilhei de alguns lobos que nos cercavam e consegui correr para a parte superior com Rebekah mesmo ainda um pouco machucada pela verbena que não tinha cicatrizado por completo. Andei pelos corredores até chegar na parte do escritório e depósito do atelier de Klaus. Uma pequena passagem que demoraria para alguém descobrir e deixei Rebekah ali, permanecendo com ela até acordar. Logo as alucinações começariam.

— Ca... Ca-ro-li-ne. — Rebekah chamou após acordar, ainda fraca e tentando manter a sobriedade e olhei para ela em meu colo. Ela segurou na minha mão com o pano com água que coloquei em sua testa e as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Eu nunca tinha visto a corajosa, abusada e destemida vadia Rebekah Mikaelson daquela forma. – Obr... Obrigada...

— Pelo o que? Seu cabelo ainda está horrível. — E arranquei uma risada dela.

Levantei para limpar o pano e pegar mais água. Quando voltei para o cômodo Rebekah apareceu de pé na minha frente. No susto, joguei o tudo no chão.

— Nik. Vá lá e conserte isso, por Deus! Você é um idiota completo mas ainda tem salvação. — Ela segurou o meu rosto perto do seu assustadoramente e eu paralisei. – Não deixe Caroline conhecer o amor e a cama de outro ou você será como sempre foi... sozinho, porque você se afastou da única pessoa que ainda tem coragem de te amar e permanecer aqui. — E fechou os olhos e deu uma pausa como se estivesse em um diálogo e continuou a falar. – Como assim?! Você é burro demais para entender que você só seguiu com tudo isso para proteger minha sobrinha, sua filha, por ela ter ficado ao seu lado ou estúpido por pensar que ninguém percebeu? — Rebekah soltou o meu rosto e se afastou. – Não interessa o que ela falou Nik! Pare de me dizer que agora resolveu respeitar a vontade das pessoas! — Em seguida se aproximou repentinamente como se estivesse em uma calorosa discussão me dando um outro susto. – Já que é assim, use uma desculpa qualquer! Invente um maldito baile! Se vira! — E caiu no chão reclamando de Klaus e de dor.

Seria cômico se não fosse trágico porque nem em uma situação de merda como essa, a família Mikaelson não consegue deixar de agir como uns desajustados.

Se Rebekah estivesse sóbria eu perguntaria que porra tinha sido aquilo. É sério que Klaus inventou aquele baile para isso? Me fazer voltar? Me convencer que o melhor lugar era aqui? E foi ela que deu essa maldita ideia? Mas que droga ela estar chapada de veneno justo agora. Mas se não estivesse, eu jamais saberia disso... Bom, essa é uma das coisas da qual terei que discutir com o Sr. Klaus caso eu sobreviva. Isso e o fato dele ter comido o último pedaço de pudim que escondi na geladeira. Mas deixaria para depois, para a sorte dele.

Rebekah deu um grito e apertou as têmporas tão forte que entendi que as alucinações começariam a piorar. E eu não estava disposta a virar saco de pancada da Original mais sonsa existente no universo.

Saindo do depósito e passando pelo corredor, notei que estava vazio. Tinha uma guerra acontecendo lá embaixo. Por Deus! Já era estranho demais não ter no mínimo umas 30 viaturas da polícia e uns carros de bombeiros aqui na frente, mas um corredor sem alguém era ainda pior que a inércia dos humanos nessa situação.

Com cuidado e evitando uma possível morte surpresa, caminhei com os olhos e ouvidos atentos quando escutei um grito tão alto que me arrepiou por completa. Seguindo os grunhidos de dor, dei de frente com a porta da qual Genevieve auxiliava Hayley no parto, mas ao tentar girar a maçaneta fui surpreendida com uma dor de cabeça tão intensa que comecei a desconfiar ter trocado de lugar com Rebekah.

Ao ter meu corpo revirado no chão, percebi que estava cercada por um grupo de bruxas que não se importariam nem um pouco em brincar comigo até eu virar literalmente pó e a minha única reação foi gritar tão alto quanto a pessoa do outro lado da porta. Um som abafou o outro e quanto pensei que meu corpo não suportaria mais tanto sangue desperdiçado, duas mulheres muito familiares apareceram e fizeram o mesmo, só que com as bruxas que tentavam derreter meu cérebro com um gesto muito simplista para um poder tão grande. Uma delas se aproximou de mim, me ajudou a levantar com um sorriso e enfim entendi. Aquele sorriso... Elas eram Bennett. Sorri de volta, e antes de eu conseguir agradecer elas desceram novamente. Talvez no andar abaixo de mim estivesse um pouco pior que um grupo de mulheres tentando exterminar uma vampira curiosa.

Não suportando o apelo, empurrei a porta sem cerimônias e congelei com a cena. Hayley se debatia muito e gritava alto como se estivesse sendo violentada. E realmente estava. Genevieve tinha um punhal estranho em mãos e fazia um ritual ainda pior que com certeza estava matando Hayley e a bebê. Sem ao menos pensar na consequência, andei rápido em sua direção, que ao notar minha presença, imediatamente fez um sinal à distância com as mãos fazendo meu corpo se contorcer de uma forma que pensei que todos os meus ossos fossem partir em milhões de pedacinhos. Com muito mais sangue e pior que a dor anterior eu tentava resistir ao máximo.

Por sorte, Davina acenou para Genevieve e ela parou subitamente de tentar me transformar em farelo e eu ataquei-a novamente. Eu sei que ser violentamente espancada sem nem ter alguém encostando em você não é a maneira mais inteligente de lidar com a situação e humilhante, mas essa Impulsividade Klaus foi a única saída já que pedir “por favor” não resolveria o problema. Então tudo o que eu senti foi meu sangue ser expulso do meu corpo manchando minha camiseta e jeans novos mais uma vez por poros que eu nem sabia que existiam.

— Apenas dê um jeito nela. — Foi o que consegui ouvir antes de sentir meu sangue ferver por dentro e Davina nem ao menos precisar me segurar pelo braço para me arrastar com facilidade até um outro cômodo da casa e meu conceito de sorte mudar naquele momento.

Ela abriu a porta violentamente com meu corpo e com um único movimento da mão me jogou contra a parede. Droga! Não sabia que as paredes da mansão eram tão resistentes. Malditos arquitetos! Aquilo doía tanto que nem ao menos vi sua aproximação e quando percebi, não podia me mover e o pior aconteceu quando ela tirou algo familiar de algum lugar que não prestei atenção no momento.

DAVINA

Ancians. Lliurar a les seves mans aquest nen. I aquest sacrifici, perdona les nostres ànimes.— Ouvi Genevieve recitar no outro cômodo e sorri com a minha confirmação.

Tranquei a porta e lacrei o lugar com magia. Agora ninguém poderia nos ouvir, mesmo se quisesse, mesmo se fosse híbrido como Klaus ou bruxa como Genevieve ou qualquer Bennett.

Estava ali eu e Caroline. Ninguém mais.

Aquele era o limite. O limiar. O anúncio do fim.

CAROLINE

Ela se aproximou lentamente e se eu já não estivesse imobilizada por magia meu próprio corpo se encarregaria de fazer esse trabalho a princípio. E eu me concentrava ao máximo em conseguir me mexer, mas nada adiantava. Em minha mente, eu esperneava, me debatia, xingava, fazia um escândalo e a real era que eu permanecia inerte apenas assistindo os próximos passos de Davina em minha direção com aquele pedaço de madeira perfeitamente esculpido com um único objetivo: acabar comigo e reduzir qualquer Original a pó.

Como se já não bastasse, a dor se tornou ainda mais excruciante quando senti pedaço por pedaço, farpa por farpa atravessar lentamente meu peito em direção ao que eu mais temia que me atingissem.

Ao menos não posso dizer que não morri tentando.

Mas Davina parou por um instante e eu realmente perguntaria que droga era aquilo se eu ao menos pudesse esboçar alguma reação. Ela segurou em meus cabelos com força e sibilou algumas frases sem sentido em meu ouvido. Seria sexy se não fosse tão perturbador e quando ela quebrou um pedaço da estaca e penetrou-a em meu peito, entendi que era uma questão de tempo para tudo acabar para mim. E pensar que não tive sequer tempo de me despedir da minha mãe, dos meus amigos, de Klaus... Imaginar isso fez uma lágrima escorrer e Davina, por vontade, tédio, pena ou por querer me poupar de agonizar até o fim, quebrou meu pescoço sem um único adeus.

KLAUS

Com Elijah ocupado demais defendendo a parte superior da casa com as Bennett, Marcel com poucos soldados, Rebekah ferida e Caroline ausente, eu estava mais uma vez solitário e à mercê da minha própria sorte. O que esses malditos não contavam, é que depois de mil anos você acostuma a batalhar sozinho. E não há nada maior de meu interesse que a vida da minha filha e da minha família.

O estalar do meu corpo fez todos se afastarem e ao soltar as correntes da parede que prendiam meus membros, arrastei alguns vampiros comigo.

Em meio ao caos, todo o sangue e dor, as facções se confundiram ao ponto de ferir os próprios membros. A verdade é que um pouco de desordem nunca fez mal a ninguém. E enquanto isso eu despejava entranhas e sangue no chão, paredes e até teto. Eu queria sentir o caos. Eu queria ouvir o alvoroço. Um pequeno pandemônio. Sei que não sou o único. E não me importava nem um pouco se na nova estação vermelho não fosse a moda. Tudo estava lindo nesse tom e era isso que interessava. Isso e chegar ao outro lado.

Maníaco, sádico, monstro, impiedoso. Nunca essas palavras puderam me definir tão completa e inteiramente. O peso delas era inútil com a demonstração da realidade sobre o seu significado. Eu sou um e jamais mudarei. Eu sou tudo isso e se eu não fosse assim, todos esses idiotas acreditando ser guerreiros de um bem maior não estariam estirados ao chão na minha frente. E os gritos de medo e dor me motivavam ainda mais a continuar com toda a selvageria de mutilar quem atravessasse meu caminho. Alguns acabavam sem coração, outros sem braços ou pernas, outros tinham seus órgãos espalhados pelo hall e outros dignos de dar inveja ao melhor estripador que conheci, o sonso Salvatore mais novo. Havia sangue e vísceras por todo lado e a minha única reação era um sorriso no rosto, uma satisfação imensa e revigorante sobre o meu feito.

Durante a luta eles tiraram as minhas correntes, me deixaram sem armas, me enfraqueceram o suficiente para eu não conseguir mais lutar, mas já tinha feito vítimas o suficiente para deixá-los sem soldados.

Vidas miseráveis deveriam ser dignas de pena e poupadas tamanha a inutilidade, mas ao invés disso, prefiro fazê-los sofrer tão quanto merecem viver miseravelmente.

Ao atingir o outro lado tudo que eu pude sentir foi o desespero no ar, o cheiro do medo e o pavor estampado no rosto dos humanos que por fim, se esconderam atrás das bruxas que me impediam de chegar mais perto.

Com uma troca de sorrisos entre eu, Elijah e as Bennett, tudo aconteceu da melhor forma. Do jeito Mikaelson de resolver as coisas. E do meu jeito de torturar pessoas.

As sobras ficaram para os vampiros que precisavam se recuperar da degradação a sua existência patética.

CAROLINE

Acordei com meu rosto contra o chão gelado. Meu corpo ainda doía e eu estava desnorteada pelo zunido ensurdecedor que ecoava da minha cabeça. Minha visão embaçada me impedia de enxergar alguns metros a diante, mas consegui ver Genevieve sibilando algumas palavras em frente a Hayley enquanto forçava-a ter o bebê.

Ainda sem conseguir me mover, assisti tudo calada. E pior, quieta.

Eu, Caroline Forbes, quieta. Não, isso não podia ser verdade.

Com um enorme esforço e concentração da minha parte, consegui mover meu braço para frente e sorri. Mas parei de tentar assim que Davina entrou no quarto. Droga!

Ela carregava um balde de água com algumas toalhas e aparentemente tentava acalmar Hayley que continuava gritando sem trégua. Mas estranhamente Davina manteve a serenidade para ajudar Hayley a respirar e fazer força. Alguns torturantes minutos depois, foi inevitável não abrir os olhos.

A respiração, o bater do pequeno coração, o choro... Como eu queria que estivéssemos em outra situação. Talvez em uma cama de hospital ou até em uma banheira morna confortável em casa onde a primeira experiência da pequena fosse um beijo e o olhar de alegria dos seus pais, dos seus tios e de mim. Uma família nada tradicional. Mas a realidade era outra. Uma da qual eu faria tudo para tentar mudar.

Ainda não conseguia enxergar perfeitamente depois que a menina finalmente nasceu, mas pude ver claramente que Hayley estava desmaiada, ou pior. Não consegui escutar seu coração batendo, apenas o da pequenina e o da bruxa maldita.

Davina se aproximou, depositou o balde com a água ensanguentada ao meu lado e percebeu que eu não disfarçava estar acordada e chorando tão ou mais que a bebê e ela. A bruxinha estava com os olhos inchados por se forçar a engolir o choro e eu usei a mão estendida para segurar a sua. Ela apertou minha mão, recitou alguma coisa para mim e saiu do quarto dando uma desculpa qualquer. E eu me senti disposta mesmo gravemente ferida.

Levantei devagar de modo que Genevieve não me percebesse. Ela estava convicta demais de que eu ainda estaria apagada. Ao completar a última frase e repousar o punhal sobre o tórax da pequena Klaus de cabeça para baixo, me posicionei atrás dela e fiz o que tinha que ser feito.

O golpe final. O golpe sem a misericórdia que existe em mim. Sem piedade. Sem escrúpulos. Sem remorso.

Eu abri um buraco em suas costas e puxei seu coração sem dó.

Antes do seu corpo atingir os meus pés, segurei a bebê Klaus em meu colo e usei um dos cobertores para protege-la.

Agora o único coração a bater naquele cômodo, mesmo que fraco, era o da menina em meus braços.

KLAUS

Olhei para Elijah, Marcel e as Bennett e percebi que ao acabarem os gritos de desespero e dor, eles estavam tão satisfeitos quanto eu. Finalmente algo digno de uma família tradicional-não-tradicional como a nossa. Finalmente algo terrível do qual podemos nos orgulhar juntos.

Um pouco mais distante, no canto entre o meu banco preferido e a parede desbotada pintada de magenta pela quantidade de corpos espalhados, algo, ou alguém, lutava entre grunhidos pela sua vida.

Me aproximei enquanto o inútil se escorava no canto e abaixei segurando em seu rosto o suficiente para ver a quantidade de ferimentos que essa terrível barbárie o causou. Pobre humano. Desesperado em agarrar sua vida a esperança de que poderia sobreviver naquele estado com a respiração cortada e a dor que o dominava mais que qualquer oração. Me aproximei para ajudá-lo em suas preces quando alguém segurou em meu ombro e eu me virei.

— Rebekah. — Pela primeira vez senti uma enorme vontade de abraçar minha insuportável irmã e recebi o olhar confuso com um sorriso sincero dela. Olhei para os lados e quando vi que estava sozinha comecei a me preocupar de verdade. – Onde está Caroline? Ela devia estar com você enquanto sofria merecidamente com o veneno — Indagei.

— Muito engraçadinho, Nik. Vamos acha-la, não se preocupe. — Pronunciou com certa cautela e virou de costas. Quando abaixei mais uma vez, ela me impediu de matar o homem. – Ele não merece nosso desperdício de tempo. Deixe esse imbecil aí s-o-f-r-e-n-d-o para aprender onde é o lugar de humanos dentro das nossas regras de conduta. — E sorriu como só ela faz.

Sorri de lado junto com ela. Crueldade. Sinônimo de Mikaelson. E caminhamos em direção as escadas principais.

— Niklaus! Rebekah! — Elijah apareceu aflito e com os olhos lacrimejados. – Hayley... — Coloquei a mão em seu ombro e ele olhou para mim. Estava tão ou mais agoniado que eu, mas entendeu, antes de eu abrir a boca, o que eu queria. – Eu sinto muito, irmão. — E se rendeu ao desespero.

— Ei! — O bolsa de sangue ambulante deu um grito fazendo-nos olhar para trás. – Quem é o imbecil agora?

E como se não bastasse, o pior aconteceu.

CAROLINE

Desci pela parte dos fundos com cuidado visando fugir do conflito entre as facções e nós. Mas antes de conseguir atingir a metade da escada, um clarão tomou conta do ambiente e fomos atingidas pelas chamas e destroços lançados no ar.

Eu conseguia ouvir Klaus, Rebekah, Elijah e até Marcel, mas não tinha forças para chama-los. Ainda cambaleando e me esforçando imensamente para permanecer de pé, andei até o pátio onde, mais uma vez, via-se sangue e entranhas do teto ao chão. Ao contrário do que deveria estar, permaneci calma. Eu estava fraca demais para me abalar e desnorteada o suficiente para não ligar para aquilo no momento. Então segui até a fonte e me recostei protegendo instintivamente a menininha, que no meio desse caos, conseguiu arrancar um sorriso largo de mim mesmo com os dentes ainda muito sujos de sangue. E apesar de ela estar ferida, respirei aliviada por ter conseguido protege-la de um estrago maior e aguardei alguém aparecer pelo o que parecia um século e pensei que não resistiria a tempo. Senti cada ferimento esvair-se em sangue e esperei pelo pior. Mas aguentando firme o bastante para que nada de ruim acontecesse a ela. Eu não deixaria. Eu morreria antes disso. Literalmente.

Suas mãos pequenas, que por reflexo agarraram meu dedo, seus olhos claros, seus poucos cabelos loirinhos, sua perfeição, me fez derramar lágrimas teimosas que insistiam em cair sobre ela. Por que tinha que ser assim?

A dor se intensificou e não conseguia me curar. Talvez fosse o feitiço que a vagabunda da Genevieve lançou sobre mim e a estaca andando em meu peito. E eu sentia o deslizar lento e torturante centímetro por centímetro. Mas olhar para baixo novamente fez o mundo ser pequeno demais e até a dor pareceu insignificante quando a segurei mais firme em meus braços e me peguei tempo em excesso admirando-a como uma boba.

KLAUS

As chamas ficaram ainda mais altas e ofuscaram nossa visão. Por um momento me veio a lembrança de quando Caroline perdeu a humanidade e me deixou para queimar no meio do nada. E então eu procurei por ela e pela minha filha.

Mesmo feridos nos organizamos. Elijah subiu para vasculhar a parte de cima mais uma vez, dessa vez na esperança de dar um funeral digno para Hayley, Rebekah ficou pela área central, Marcel espalhou seus homens pelas redondezas da mansão e eu segui para a parte de onde a explosão aconteceu.

Concentrado em tudo a minha volta, mesmo em meio a fumaça e o fogo alto, escutei ao fundo uma respiração entrecortada e baixa. Alguns gemidos de dor denunciaram ser quem eu realmente pensava que fosse.

Caroline estava jogada no chão de cabeça baixa segurando um cobertor marrom firmemente entre os braços. Ao me aproximar, ela abaixou a guarda e eu pude ver o que tinha ali. Meus olhos se fixaram na pequena lobinha e eu a peguei no colo. E o mundo pareceu parar de girar só para apreciar o quanto ela era encantadora. Eu mal consegui prestar atenção em todo o resto de caos a nossa volta. Mas ao afrouxar um pouco mais a coberta, me preocupei.

— Ela está ferida. Você também... — Retirei o cobertor de cima de Caroline e me assustei. – A explosão conseguiu atingir as duas. — Comentei um pouco mais alto do que gostaria.

— Mesmo nesse estado ela é linda. — Caroline riu baixo e pude perceber o quanto estava machucada pela quantidade de sangue que esvaía pelos seus ferimentos. – Mas nada seria mais irritante que ela puxando o cinismo do pai, não é? — Caroline e seu dom de manter o humor apesar de tudo. Foi inevitável não rir junto. – A não ser que ela mantenha esse seu sorriso que te faz esquecer a irritante frase anterior. — Ela colocou a mão em meu rosto e rimos novamente. Com isso, ela tossiu sangue.

Cada minuto que passava Caroline ficava mais fraca e sem reação. Sem esperar, rasguei meu pulso e dei a ela, que bebeu a contragosto e me preparava para fazer o mesmo com a minha lobinha quando ela apontou para o seu próprio e me interrompeu.

— Não adianta, Klaus. Até sua filha está rejeitando o sangue. Parece não surtir efeito, como se houvesse um feitiço impedindo de nos curarmos com isso ou algo assim. Eu e ela... – Falou tão baixo que se eu não fosse híbrido jamais conseguiria ouvi-la e olhou para um buraco em seu peito que não se fechava.

— O que é isso, Caroline? — Perguntei e ela não esboçou reação alguma. – O que fizeram com você? — Peguei-a por um ombro e a sacudi. Em vão. – Quem foi? Caroline? – Praticamente gritei. Meu ódio era nítido. Se Caroline tivesse em seu estado normal gritaria de volta comigo, mas tudo o que ela fez foi respirar cansada.

— Car...va...l. Carva...lho branco. — Sussurrou com dificuldade.

— Parece que temos uma bruxa para caçar. — Segurei em seu rosto e sorri para ela. Queria dizer que ficaria tudo bem, que ela não precisaria se preocupar. Mas ambos sabíamos que era apenas uma questão de tempo.

— Você tem.

— O que quer dizer, amor?

Caroline fez o máximo de esforço que seu corpo aguentava para me encarar firme nos olhos e se aproximou de mim o suficiente para me dar um beijo. O leve toque dos seus lábios foi o prelúdio de que o tempo nos pregou uma peça.

— Klaus, eu...

E a eternidade pareceu um grão de areia no universo.