Horror em Serra Branca

4 Capítulo 3 — Cabeça de Porco




A badalada única do relógio demorou a morrer, espalhando-se pelas paredes tal qual um sopro que não achou saída. A cozinha ficou mais fria. O ar tinha gosto de ferrugem.


Kenny manteve a mão na porta da geladeira, sentindo o metal vibrar levemente sob a pele. Lívia recuou um passo, a respiração curta.


— Eu ouvi passos — sussurrou a estagiária. — No corredor.


— Eco — disse Kenny, sem convicção.


A chama do isqueiro varreu o interior da geladeira: prateleiras enferrujadas, potes rachados, água parada em poças leitosas. E, sobre uma bandeja torta, algo ainda levemente rosado, inchado, o couro esverdeado pelo mofo.


— Ah, não… — ele murmurou.


A cabeça de porco ocupava o centro na única prateleira de dentro, com os olhos afundados em órbitas vazias e a boca costurada por uma linha preta e grossa. O cheiro que saiu dali era engordurado e podre, um hálito de necrotério esquecido.


Lívia cambaleou até a pia, abriu a torneira e vomitou. O som reverberou pela cozinha e voltou em atraso, como se outra pessoa vomitasse depois dela.


— Tá tudo bem — disse Kenny, abafado, sem tirar os olhos da bandeja. — Isso não é nada macabro. Apenas respira.


Ele tirou do bolso um canivete pequeno, hesitou um segundo, e então tocou a linha. O primeiro ponto cedeu com um estalo mole. O segundo arrebentou, deixando um fio negro pendendo como baba. Ao cortar o último, a boca abriu-se num bocejo sem músculo — e um olho humano caiu no metal com um som úmido.


Azul. Fresco. Vivo demais para combinar com a cabeça podre.


Lívia levou a mão à boca. Kenny deixou o canivete cair, e por um instante ficou olhando para o ponto exato onde a íris o encarava.


Tique-taque.


No andar de cima, o corredor parecia mais comprido do que antes. A madeira rangia com notas finas, um piano sem cordas.


— Quarto dela — disse Maya, empurrando a porta.


Lençóis brancos cobriam móveis e formas, como fantasmas disciplinados. No canto, o pequeno piano antigo expunha teclas amareladas; sobre a escrivaninha, um caderno de capa escura coberta de pó.


Augusto aproximou a câmera e fotografou o diário. O clique estalou seco. Maya apanhou e folheou o caderno, que na verdade era um diário. Reconhecer a caligrafia deixou suas pernas dormentes.


— Parece a letra da Ana — murmurou feito uma confissão.


Lembrava-se dos bilhetinhos trocados na sala de aula. Lembrava-se do pingo do “i” em formato de gota.


— “As vozes pedem que eu toque” — leu Maya, baixo. — “Dizem que o relógio é a chave. Mas o tempo… o tempo está quebrado.”


— Continue — disse Augusto, os olhos no visor da câmera.


Maya virou a página. A caligrafia tremeu.


— “Eles querem que eu abra a porta.” — Ela ergueu o rosto. — Que porta?


— Espera — disse Augusto, sem respirar. — Olha isso.


No display, o quarto aparecia com o canto escuro ao fundo. Ali, onde não havia nada, uma silhueta tomava forma: uma máscara de lobo-guará, fendas vazias no lugar dos olhos. Um esboço de corpo por trás, indistinto. Parado. Observando.


Augusto ergueu a câmera para conferir com os próprios olhos. O canto estava vazio.


— Mas que merda é essa? — sussurrou mais para si mesmo do que para a cientista ao lado.


— Não sei — respondeu Maya, encarando seu reflexo no vidro encardido da janela.


Ela calou. Pelo vidro trincado, viu uma mulher de branco atravessar o corredor, arrastando o tecido no piso com um som de chuva fina. Maya correu até a porta, sentindo as pernas tremerem com a sensação de que alguém havia de fato passado atrás de si. A câmera escorregou da mão de Augusto e bateu no chão; continuou gravando, tremida, e no canto do quadro, por um instante, dois chifres desenharam sombra sobre a parede — como se brotassem da madeira.


Tique-taque.


No porão, a luz da lanterna de Gabriel fazia um feixe estreito, cortando poeira e umidade. O ar cheirava a pedra molhada e vinho antigo.


— Ali — disse Hanako.


Sobre uma mesa de pedra, uma taça de prata esperava. O vinho cravado na borda deixava um semicírculo escuro, recente o bastante para manter o brilho nos sulcos. Gabriel a tocou com a ponta da luva. Tão frio quanto o ar.


— Alguém esteve aqui — disse ele.


— Ou nunca saiu — disse ela.


O silêncio ficou pesado até ceder.


— Você não ligou — disse Gabriel, ainda olhando a taça. — Nem uma vez. Depois que a Beatriz sumiu.


— Não seja injusto.


— Injusto é você dizer que chorou por ela e nem olhar pra mim. Ela era sua amiga.


— Eu chorei por vocês — Hanako respondeu, seca. — Mas você não estava disponível pra ser chorado. Fez o que sempre fez. Fugiu.


— Fugi de quê?


— De mim. Da minha família que você vivia criticando. Da cidade. De qualquer coisa que pedisse que você ficasse.


— Eu fiquei com a Beatriz até o fim.


— E nunca mais ficou com ninguém — disse, sem levantar a voz. — Ou você se esqueceu que eu e você éramos amigos muito antes dela?


Gabriel apertou a lanterna. A luz tremeu. Por um segundo ele jurou ver um filete escuro escorrendo entre as pedras do chão, ondulando como respiração.


— Você viu isso? — perguntou, tenso.


— Não tem nada — Hanako disse, firme, mas demorou a piscar.


Também sentiu o cheiro — vinho novo e… sangue. O porão pareceu umedecer, um manto de umidade se desenhando no canto da visão. Ao focar, não havia nada.


— A casa está ouvindo a gente remexer a terra do passado — disse ela, estremecendo ao fim da frase.


Tique-taque.


O som parecia vir de dentro deles.



— A gente precisa sair daqui — disse Lívia, ainda pálida, encostada na pia. — Agora.


Kenny respirou fundo. Retirou um saco de evidências do bolso interno do paletó e guardou o olho. Mesmo atuando como legista há quase uma década, sua mão tremeu ao encarar a íris azul levemente manchada de sangue.


Lívia viu a cena por sobre o ombro e só sabia balançar a cabeça em negativa. Kenny estava mesmo fazendo aquilo? Era realmente um olho humano?


— Não — disse Lívia, meio soluço, meio palavra. — Não, não, não…


A cozinha devolveu o “não” com demora, um “não” antigo, de outra voz.


Tique-taque.



— Augusto! — Maya chamou, do corredor. — Rápido.


Ele pegou a câmera do chão e a ergueu enquanto saíam do quarto. O corredor, comprido, parecia se alongar com cada passo. A lente captou algo à direita: a sombra de chifres acompanhando o movimento sobre as paredes, no compasso dos batimentos de alguém — ou de alguma coisa.


— Isso tá gravando — disse Augusto, para si.


— Não olha pra trás — disse Maya, sem saber por quê.


Eles correram, e o corredor respondeu com ondas de madeira: o som de passos apareceu atrás, perseguindo-os.


Tique-taque.


— Gabriel! — Hanako apontou a escada. — Ouviu?


Ele não respondeu. Ouviu outra coisa. Uma respiração antiga. Um nome que atravessou o frio:


— Gabriel… — soprou uma voz, um vestígio de vinho e perfume.


— Beatriz? — escapou, baixo, estúpido. — É você?


— Não é — disse Hanako. — E é isso que a casa quer. A Beatriz não está aqui!


Ele piscou. A taça, sobre a mesa, parecia recém-erguida. O vestido vermelho, o sorriso branco estonteante.


Tique-taque.



Encontraram-se no saguão, como quem sobe à superfície depois de muito tempo. Kenny abaixou a cabeça, ainda tomado de incredulidade; Lívia encostou as costas na parede, tentando puxar o ar que a casa não queria devolver. Maya chegou com o diário contra o peito, e Augusto, com a câmera ereta, respirando pela boca.


— O que aconteceu com você? — perguntou Gabriel, olhando as mãos de Kenny sujas de sangue.


— A geladeira — ele disse. — Uma cabeça de porco. A boca costurada. Tinha… um olho.


— Azul. Humano — disse Lívia, como quem confessa culpa.


Kenny ergueu o saco plástico lacrado com o olho que nunca parava de olhar de volta.


Maya abriu o caderno, a voz baixa:


— “Eles querem que eu abra a porta.” — leu. — “As vozes pedem que eu toque. Dizem que o relógio é a chave.”


— Que porta? — perguntou Hanako.


Um vento frio correu pelo corredor, levantando pó como véu. O pêndulo do relógio vibrou sem se mover, e o metal devolveu um resmungo grave. Os retratos nas paredes pareciam ter trocado discretamente o ângulo dos olhos.


— A porta que separa o que a gente deixou aqui do que veio buscar — disse Augusto, sem perceber que falava em voz alta.


Tique-taque


O ponteiro dos minutos tremeu. Gabriel sentiu — não ouviu — o estalo da engrenagem, íntimo como um osso recolocado no lugar.


Tique-taque.


A badalada foi única e funda, um sino enterrado. 00h14.


As janelas estremeceram. Alguma fechadura travou dentro da casa; as portas fizeram força para se manter no lugar. O ar mudou de temperatura, como se a casa tivesse exalado.


— O tempo andou — disse Lívia, quase sem som.


— O dela, não o nosso — completou Hanako.


A luz do saguão oscilou. Augusto baixou a câmera só um instante. No reflexo da lente, algo com chifres atravessou o corredor ao fundo, sem pressa, e desapareceu na parede como quem retorna a um quarto conhecido. Um cachorro uivou ao longe, perdido entre as árvores que cercavam a propriedade.


Kenny olhou para as próprias mãos e percebeu que tremiam de novo. Não de medo, exatamente. De reconhecimento. Ele contou sobre a cabeça de porco com a boca costurada e o que havia dentro, dando mais detalhes sobre o momento em que a encontraram.


— A casa está escutando — disse Maya.


— E respondendo — disse Gabriel.


Tique-taque.


Lá fora, a chuva recomeçou. Ou talvez fosse só o som do relógio saturando o ouvido de todos, por dentro. Eles permaneceram imóveis, respirando no mesmo compasso, enquanto o casarão se acomodava em torno deles — satisfeito, por ora, com o fato simples e terrível de que ninguém sairia dali tão cedo.


— Precisamos descer ao porão novamente — Hanako cortou o silêncio. — Há vinho recente derramado e eu vi uma marca de mão. Talvez possamos recolher digitais.


Encarou Kenny.


— Porões são sempre uma péssima ideia — Augusto esfregou o rosto e suspirou. — Mas algo me diz que podemos encontrar algo lá. Outra evidência além dessa.


Olhou em direção à evidência na mão enluvada do legista.


— Espero que você tenha outros desses, Kennyson.


Maya deu um tapinha no ombro do amigo e a leve descontração que começou a surgir foi bruscamente levada quando uma porta bateu com um estrondo forte.


Eles se entreolharam com desconfiança e medo.



Estavam parados em fila na escada que descia para o porão numa ordem pouco provável: Maya, Kenny, Augusto, Hanako e Gabriel.


— A casa está brincando com a nossa cara? — Maya falou com raiva, tentando, mais uma vez, girar a maçaneta da porta do porão.


— Não adianta, está emperrada — Kenny alertou, mas sabia que era inútil.


— Não, está trancada! — retrucou, girando a maçaneta com raiva. Podia jurar que sentia o trinco se mexer.


— Isso não faz sentido. Nós acabamos de sair do porão e não trancamos a porta — Gabriel olhou para Hanako, buscando seu apoio.


— Não sei, talvez você tenha trancado sem querer enquanto estava alucinando, chamando pela Beatriz.


Augusto e Kenny trocaram um olhar de desconforto.


Uma estranha nostalgia os tomou, lembrando-os de quando eram adolescentes e as discussões de Hanako e Gabriel os deixavam sem graça. Até Maya parou de lutar contra a maçaneta e encarou suas luvas de látex.


O grito estridente de Lívia vindo de cima fez os cinco pularem sobressaltados. Gabriel correu para verificar a estagiária e a encontrou sorridente, os olhos marejados e as mãos segurando uma chave antiga.


— Eu consegui abrir o relógio e achei essa chave!


Gabriel a pegou com dedos cuidadosos e examinou. O desenho da chave condizia com a fechadura da porta do porão.


— E estava dentro do relógio?


Lívia assentiu rapidamente, um pouco envergonhada.


Gabriel retornou e entregou a chave à Maya. Ela a usou, e a porta destrancou com um ruído alto que fez os degraus da escada vibrarem abaixo de seus pés.


Antes de abrir a porta, Maya encarou o grupo, incerta sobre prosseguir.


— Vocês têm certeza? Nós podemos apenas ir embora e esquecer que tudo isso aconteceu.


— Abre logo, Maya! — implorou Hanako.


E ela assim o fez.


Do porão, veio um único estalo — seco, calculado — como se alguém lá embaixo tivesse acabado de dar boas-vindas ao grupo que retornava às entranhas da casa.


Notas finais
Se leu até aqui, vale um comentário! Pode ser só um "oi" :) Até o próximo! XXX