Horror em Serra Branca

5 Capítulo 4 — O Homem na Parede




O porão estava bem mais frio do que antes. Mais úmido. O ar era pesado de se respirar.


A escuridão oprimia cada um deles. Sentiam na pele, nos ossos e nos pulmões que, a cada inspiração, tragavam um pouco dos horrores impregnados naquela construção.


A lanterna de Gabriel cortava o escuro em feixes estreitos que pareciam engolidos pelo concreto. Nenhum deles falava. O tique-taque do relógio vinha abafado, como se estivesse enterrado sob seus pés.


Kenny se abaixou para examinar as marcas de vinho no chão, e Gabriel aproximou-se do amigo, usando a lanterna para iluminar as evidências.


— Estranho. — Gabriel coçou o queixo, ansioso.


Os respingos secos não condiziam com o estado recente do líquido que encontrara mais cedo — havia ali algo que não combinava com o tempo.


— Quando descemos aqui antes, as marcas pareciam recentes, como se o vinho tivesse sido derramado pouco antes de chegarmos.


— Parece bem seco pra mim. — Maya esticou o celular para ver melhor com a lanterna. — Mas não consigo deduzir há quanto tempo.


Hanako passou os dedos pela parede e franziu o cenho.


— Vê isso? — apontou.


A alvenaria, à primeira vista uniforme, escondia uma linha irregular. Gabriel aproximou-se, apoiou as mãos nas laterais e empurrou com força. A parede oscilou — não parecia muito firme. Mas o som que veio não era de parede; era oco, molhado.


— Espera… — murmurou Augusto, sentindo o estômago apertar. Preparou a câmera, já gravando, em um ângulo perfeito. — Agora pode ir.


Kenny, que observava tudo apertando o isqueiro entre os dedos enluvados, fez um sinal com a mão para que Gabriel não empurrasse a parede novamente.


Sua concentração em analisar os tijolos era evidente — era como se estivesse diante dos puzzles que secretamente jogava no computador do laboratório quando terminava os relatórios. Seus olhos brilhavam por trás dos óculos. Ele não sorria, mas havia fascínio quando se aproximou da parede e empurrou um único tijolo — um que escolheu meticulosamente por instinto.


O tijolo deslizou para dentro, engolido pela escuridão. O cheiro que escapou da cavidade era agridoce e podre. Lívia tapou a boca, cambaleando um passo para trás. Augusto conteve uma ânsia de vômito. Maya virou o rosto; não queria encarar — já sabia o que havia dentro da parede.


Lá estava ele.


O empregado desaparecido da família Villalobos, Sr. Antônio Flores Crispim. Emparedado. A pele já em decomposição. Os olhos encarando o vazio da morte, opacos e amedrontados, a boca aberta num arco permanente de silêncio — ou grito. A posição contorcida do corpo fazia parecer que havia tentado sair. E falhado.


Lívia soltou um gemido e correu para a escada, tentando respirar. Hanako e Maya se afastaram. Gabriel ficou imóvel, os punhos cerrados para controlar o tremor causado pelo horror do que via. Augusto ergueu um pouco mais a câmera com a mão trêmula.


— Meu Deus… — murmurou. — Esse take ficou perfeito.


Tirou uma foto, e o flash capturou mais do que a cena. No fundo, atrás da parede, por um segundo congelado, um vulto mascarado apareceu no visor — máscara de lobo, olhos ocos, cabeça inclinada.


Quando ele abaixou a câmera, o canto estava vazio.


Tique-taque.



— Eu ainda não acredito que passou tanto tempo — Kenny comentou, encarando o relógio de pulso. — Nós chegamos de manhã, não se passaram nem duas horas e agora já são quase seis!


Hanako suspirou, sentando-se na soleira da entrada do casarão. Maya, Lívia e Augusto também fizeram o mesmo.


— Kennyson — suspirou, cansada — não tenta entender. Esse lugar não faz o menor sentido.


Gabriel estava ao telefone, perto dos portões trancados da casa, falando baixo e rápido.


— O que acha que ele vai dizer?


Maya encarava Gabriel, mas a pergunta era para Kenny, sentado ao seu lado.


— Pra polícia? Provavelmente que viu algo suspeito que nos forçou a entrar. Ele é bem quisto por aqui — não vai ser difícil enrolar os detetives.


Um sorriso nostálgico surgiu nos lábios da cientista.


— Vocês realmente eram melhores amigos, não é?


— Éramos. Mas… depois da Beatriz… bem, ele se afastou bastante. Ela o afastou, e ele gostou de fugir. Gabriel sempre foi bom nisso.


O silêncio pesado se instalou e durou longos minutos.



Viaturas encostaram diante do portão de ferro enferrujado. O grupo se manteve reunido no jardim, com os ombros próximos, quase colados, como quem busca calor no frio que não vinha de fora.


Kenny estava certo: Gabriel deu um jeito em tudo.


Os policiais entravam e saíam carregando câmeras, lanternas, fita amarela — até que o corpo saiu coberto diretamente para dentro do carro do IML.


Lívia tentava manter a compostura profissional, mas sua respiração denunciava o medo. Kenny falava pouco, concentrado. Hanako observava tudo — inclusive os olhares trocados pelos policiais — enquanto tragava lentamente um cigarro. Não fumava, mas estava tão tensa que aceitou quando um detetive lhe ofereceu o maço.


— Dizem que tem mais corpos aí dentro, debaixo da casa e nos fundos, onde era a senzala — cochichou um dos agentes. — Os Villalobos eram bons em esconder segredos.


Ninguém respondeu.



No laboratório, a claridade era agressiva. O branco excessivo fazia os olhos arderem, como se tivessem atravessado para outro mundo. O cadáver emparedado repousava sobre a maca de metal, coberto até o pescoço por um lençol cirúrgico. O cheiro de formol, ferro e desinfetante dominava o ar.


Kenny e Maya haviam sido autorizados a acompanhar a análise preliminar por estarem presentes no achado do corpo e por serem os únicos capacitados na cidade — além do outro legista estar de férias. Quando passaram pela porta de vidro, ele a viu.


Manu.


Cabelos escuros presos, jaleco gasto, luvas de vinil e um sorriso involuntário — de surpresa ou nervosismo. Fazia anos desde que haviam se visto. Anos desde que estudavam na mesma escola, dividindo corredores, trabalhos de ciências, olhares tímidos que nunca foram a lugar algum.


Ela tirou as luvas por um instante para cumprimentá-lo.


— Kenny? — disse, com uma risada baixa e incrédula. — Você não mudou nada.


Ele tentou sorrir, mas o rosto falhou no meio do caminho.


— Você também não. Continua b… bem nerd.


Eles riram.


Maya ficou de lado, em silêncio, observando o jeito como os olhos dele tremiam. Aquilo não era só reencontro — era algo que ele havia enterrado com o tempo, e que agora, assim como o corpo na parede, ressurgia do escuro.


Vestiram-se adequadamente com o EPI laboral.


— Vamos começar — disse Manu, profissional, ajustando a máscara.


O lençol foi afastado, e o ar pareceu se retrair. A posição dos ossos contorcidos contava a história sem palavras. Kenny engoliu seco. Manu leu o relatório em voz baixa.


— Morte por asfixia… — Ela olhou para Maya. — Emparedado vivo.


Um instrumento de aço escorregou da bancada e caiu, ecoando pelo corredor.



Augusto fumava do lado de fora, apoiado no capô da viatura. O cigarro tremia entre os dedos, mas não de frio. A história inteira — corpo emparedado, casa amaldiçoada, família Villalobos — poderia render uma matéria que pagaria todas as suas dívidas.


E tinha as filmagens, as fotos… Todo o material estava absolutamente incrível.


Pegou o celular, abriu a tela do jornal sensacionalista. Mas antes que digitasse qualquer coisa, Hanako surgiu na penumbra, os braços cruzados, o cigarro queimando sem que tragasse.


— Não faça isso — disse ela, firme. — Se você vender essa história… você não sai daqui.


— Eu só tô pensando — ele respondeu, com falsa leveza.


— A casa não perdoa quem a entrega. Nem os que vivem nela.


— Alguém já disse que você parece uma seguidora fanática da Ana quando fala essas coisas? Eu hein.


O telefone vibrou sozinho. A câmera, pendurada no pescoço dele, acendeu a luz vermelha e começou a gravar — sem que ninguém a tivesse ligado.



A chuva caía fina sobre o para-brisa. O relógio do painel marcava 19h23.


Gabriel ficou sentado em silêncio, observando o celular sobre o banco. A notificação piscava: uma mensagem de voz. Era de seu filho.


Ele apertou o play.


“Papai… Eu sonhei com você essa noite! Mas não foi um sonho muito legal. Tinha uma casona estranha e um relógio grande… e você estava chorando, muito triste, segurando uma foto da mamãe.”


A voz pequena atravessou o carro como faca em tecido. Lívia, ao lado, o olhava sem saber se tocava ou não o ombro dele. Gabriel inspirou fundo — o rosto tenso, a mandíbula travada.


— Ele sonhou… com o casarão e o relógio. Como ele poderia…?


A culpa se acumulava no peito. Ele sentia falta da esposa, mas sentia falta ainda maior do filho — e a avó materna tornava tudo mais difícil, junto dos horários absurdos do trabalho.


— Eu devia estar lá com ele, Lívia — murmurou, socando o volante. — Não aqui, nesse inferno.


Ela não respondeu. Em vez disso, aproximou-se devagar, até que o toque das mãos se encontrou no banco entre eles. Foi simples, quase imperceptível. Mas bastou.


Quando seus olhos se encontraram, o beijo veio silencioso. Não era um beijo de paixão — era de desespero. De quem tenta encontrar abrigo quando o mundo desaba e nada mais faz sentido.



O casarão estava quieto. O buraco na parede do porão fora coberto com lona plástica e fita de evidência. As lanternas tinham sido apagadas, mas algo permaneceu desperto lá embaixo.


No carro de Augusto, esquecido no banco traseiro, a câmera piscou sozinha. A gravação iniciou. No vídeo, a lente lentamente focou a parede coberta.


Uma mão pressionou a lona como se respirasse. Lenta. Precisa.


Lá fora, Cazuza começou a tocar, abafado pelo carro em movimento.


Augusto desapareceu na neblina de Serra Branca.


Notas finais
Se leu até aqui, vale um comentário! Pode ser só um "oi" :) Até o próximo! XXX
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.