Horizonte Eterno

15 Você Ainda Deseja Lutar?


A lâmina do julgamento cresceu de forma estrondosa em seu percurso, eliminando tudo em seu caminho. O som do vento oscila durante seu trajeto. Lena e Elmond simplesmente não tem o necessário para escapar daquele ataque brutal.

O olhar de medo da maga elemental não impediu que ela tocasse o solo com seu cajado e tentasse erguer alguma barreira, mas… Foi inútil. Esgotada, seu braço perdeu a força e seu corpo congelou conforme ela sente o fim se aproximar.

O elfo mago com seu braço restante segurou Lena e pensou em correr, mas a lâmina era tão grande que escapar seria impossível. O terror tomou seu rosto e num ato puramente instintivo, restou a ele abraçar a maga e dar suas costas ao ataque que os atingiu em cheio.

Aether só percebeu o ataque direcionado a seus companheiros quando a lâmina se chocou com eles, e não era como se pudesse fazer algo mesmo se tivesse notado antes. Desesperado, gritou:

— Elmond! Lena!!

Inútil.

A lâmina os acertou com tamanha violência que arrastou o elfo e a Drakrothiana por quase cinco metros, realizando diversos cortes profundos em seus corpos e explodindo em uma tempestade negra e sangrenta.

O arqueiro correu a toda velocidade na direção de seus dois companheiros. Ofegante, não por exaustão, mas pelo pavor do que ocorreu com seus companheiros. Em sua perspectiva o tempo desacelerou, em sua mente imagens de momentos em que esteve com o elfo, aquele que veio a se tornar seu melhor amigo no último ano.

A gentileza dele tem o contagiado a ser melhor com as pessoas, em tentar entender elas tão bem quanto ele é capaz. Uma pessoa de bom coração como ele não poderia acabar dessa forma.

— Elmond...! — seu grito falhou.

Mesmo a explosão final do ataque não os separou. O braço restante do usuário das estruturas de mana praticamente em carne viva, ainda cobre o pequeno corpo da maga de terra.

Ver o estado terrível deles apertou o coração do arqueiro que se agachou próximo a eles ao terminar sua corrida. Inicialmente levou a mão ao ombro do amigo, mas ele não deu qualquer resposta. Seus olhos se encontram fechados, assim como os de Lena, encolhida em seu braço. Não só os cortes, mas a quantidade de sangue que desce pelas feridas acaba com a esperança de qualquer um que ainda tivesse vida ali.

Aether apertou os dentes com força segurando o corpo do amigo. Por pior que estivessem, ele ainda acreditaria que houvesse algo a ser feito, algo que pudesse salvá-los, mas… O que? Porque ele não consegue pensar em nada?

— Elmond… — em um sussurro cheio de súplicas, ele mordeu o lábio inferior. Lembrando também da maga, ele olhou para o estado terrível dela — Lena…

Considerando a violência do ataque, é um milagre que seus corpos não foram separados em diversos pedaços, e mesmo que pouco, o mago elfo conseguiu reduzir ainda mais os danos de Lena, talvez ele tenha visto que não havia mais nada a ser feito.

Sem conhecimento mágico ou de medicina, como o Elrohir poderia salvá-los? Queria pensar em algo, mas sua mente se colocou num limbo sem fim. De cabeça baixa, ele segurou a mão de seus companheiros. Ele chora.

Elise sentiu o impacto do ataque de Claus. Apenas assistiu incapaz de fazer qualquer coisa, pois mesmo que tentasse correr e se atirar na frente, não o alcançaria, e mesmo se conseguisse tal feito, seu corpo seria dilacerado de diversas formas e levado como uma pena.

Um pensamento egoísta que ela teve só por um momento. O de tentar salvar alguém quando não é capaz de salvar nem a si mesmo.

Seus olhos arregalados observam Aether ao longe. O sentimento de impotência se mistura ao temor de ter perdido seus companheiros e consequentemente, a batalha. Sim. Sua primeira grande batalha, parecia ser também a última.

Os passos secos de Claus ecoam, rompendo o silêncio absoluto que se formou perante sua apresentação imponente. Parando ao lado da invasora ainda estática, observando a cena distante. Ele falou:

— A punição chegou até vocês — não olhou para ela, e sim para as vítimas de seu poder — Mas como eu, você também foi escolhida. Então eu te pergunto…

Ouvindo o rei, o olhar despedaçado de Altair se dirigiu até ele. E ela enxergou aquele par de olhos incendiários se voltarem lentamente para si.

— Você ainda deseja lutar?

A presença autoritária é transmitida aos olhos ametistas trêmulos, e agora a situação é completamente diferente. O brilho determinado que emitia antes havia se apagado, e ela abaixou a cabeça com imagens do fático dia em que sua família foi destruída.

O poder de Claus não se compara ao poder daquele que dizimou sua família, e ainda assim ela não pode fazer nada. Incapaz de proteger seus próprios companheiros, incapaz de vingar sua família, ela simplesmente… Não era como Johan.

Derrotada, a única coisa que fez seu corpo mover foi o patético orgulho de carregar o nome Altair, e tão patético quanto esse orgulho, foi a ação de erguer o punho trêmulo e lançá-lo contra a perna de seu inimigo.

Um som seco e vazio. O soco mais fraco do mundo se chocou contra o corpo mais poderoso.

— Atacar sem esperanças também é desistir — o rei ergueu sua espada com uma de suas mãos — Talvez, ele tenha esperado coisas demais de você.

E ele atacou. Desceu sua espada rumo à cabeça da invasora.

O som da colisão de espadas ecoa como o badalar de um sino.

Uma espada prateada entra no caminho do rei, tendo a força necessária para impedir a execução. O olhar do esqueleto estreita e sua voz torna-se mais sombria.

— Outro incômodo apareceu.

Entre Elise e Claus, Talin se coloca empunhando sua espada numa postura defensiva, segurando o ataque pesado que vinha em direção a ela. O rei percebe que se insistir vai atravessar a guarda dele e nisso leva a outra mão ao cabo da espada, adicionando ainda mais força ao seu ataque.

Mas é justamente quando a vitória está próxima que a guarda fica mais baixa. Focado em acabar logo a batalha, os sentidos de Claus enfraqueceram o suficiente para ignorar os passos velozes ganhando mais velocidade em sua direção.

Um meteoro vermelho chocou-se contra a coluna do rei, um ataque de garras com tamanho poder que trincou o adversário em diversos pedaços antes de arremessá-lo com extrema violência a diversos metros de distância. Ele quicou no chão algumas vezes antes de se chocar contra um pedaço de pilar.

A Altair sentiu um banho de água fria com a chegada repentina de seus salvadores. Voltando a si, surpresa.

— Você resistiu bem — Talin estende a mão para ela — Você ainda deseja lutar?

A mesma pergunta, mas com sentidos completamente diferentes.

Elise se sentia terrível e sabia que tinha que digerir muita coisa, entretanto, não agora. No campo de batalha e num momento tão crucial quanto esse, toda culpa, insatisfação e todos os fracassos até então não podem atrapalhar.

Sentiu como se fosse chorar a qualquer momento e fraqueja por um momento, mas ela reprimiu suas lágrimas e todos os sentimentos.

Ela segura a mão do comandante.

— É claro que sim.

O olhar de Talin não prega gentileza, apenas determinação.

Golpeado anteriormente, Claus colocou-se de pé novamente e olhou em direção aos seus novos oponentes. Seus dentes arrastaram-se um no outro em tom de desaprovação. Seu corpo se regenera conforme um pedaço de sua capa arrancado no último ataque voou no espaço entre ele e os invasores.

— Vocês não param de aparecer — Claus está farto dos invasores. Quanto mais ele mata, mais eles aparecem — Esse desafio já perdeu a graça.

A destruição que foi causada em Luvelin nunca chegou a um ponto tão crítico quanto agora. Claus perdeu diversos monstros, seu castelo e até mesmo seu conselheiro. E o rei sabe que se eles tinham uma forma de matar a serpente, eles poderiam matá-lo também.

— Adivinha só… — Lilith toma a frente, levantando um braço em direção ao portão de entrada do castelo — Não somos os únicos aqui.

A fala da liberta faz o rei finalmente perceber os monstros se aproximando do portão, assim como alguns grupos menores se juntando pelos limites do terreno do castelo. Sua fúria é refletida em seu olhar sanguinário, incapaz de compreender o que motiva seus guerreiros e seu povo a desobedecer ordens ditas a anos atrás, o que é claramente um desafio à sua autoridade.

Sua boca se move emitindo um tom de voz estridente, a linguagem usada por ele é compreendida apenas pelos monstros cercando o castelo de longe.

— Eu não os convoquei aqui! Voltem para suas casas e protejam o que sobrou da cidade!

Sua voz ecoou como um chicote que deseja afastar a todos, mas ninguém recuou. Pelo contrário, a grande coalizão continuou a se organizar ao redor, como telespectadores para o que estava acontecendo diante do próprio rei.

Ele não queria entender o significado da presença de todos eles, mas a mesma maldição que roubou deles a capacidade de falar, é a que concedeu a eles a capacidade de entender os sentimentos um dos outros, a de fazer com que eles entendessem o sacrifício do rei, assim como fazê-lo compreender que esse sacrifício também estava os atormentando por tempo demais.

Mas Claus fechou os olhos para isso há muito tempo. Por milênios, sentiu a dor de seu povo, mas se recusou a acreditar que havia sido em vão! Não poderia ser. Todo o sofrimento até hoje tinha que ter algum valor.

Em suas costas, próximo aos ombros, uma espécie de runa vermelha no formato do emblema de Luvelin surge, brilhando como sangue.

A lâmina da espada volta a ser preenchida pela escuridão.

A aura de morte na lâmina da espada se conecta como cordas as marca nas costas do rei, dando-lhe uma aparência ainda mais intimidadora, ligando a maldição a sua magia como nunca antes.

Talin franze o cenho ao perceber essa ligação ocorrendo. Ao mesmo tempo que poderia ser uma vantagem o rei estar se descontrolando, havia o temor do que seu poder liderados por seus sentimentos pudessem fazer.

Elise já havia se colocado de pé. Seu corpo ainda estava ferido e cansado, mas a aparição de seus companheiros e o tempo em que ficou parada foi o suficiente para colocá-la de volta ao campo de batalha. Com um novo espírito, ela aumentou a guarda ao sentir o perigo.

Lilith acabou de derrotar Astéron e sentia-se confiante. Entretanto, instintivamente ela reconhece que o rei esqueleto carrega um perigo completamente diferente. Rangeu os dentes e colocou-se numa postura de batalha.

— Eu entendo que é doloroso… O quanto é monótono e vazio… Mas… Não podemos ter errado… Eu não posso ter errado… — Claus leva uma mão ao peito, onde deveria estar seu coração — Qual o valor de nosso sofrimento se isso acabar aqui!? Dessa forma!?

É claro que não.

A chama nos olhos de Claus oscilam enquanto suas palavras correm entre todos os monstros ao redor.

O vento lentamente começa a ser atraído para a lâmina de sua espada, e a runa em suas costas pulsa como se fosse um coração. A indecisão brotou no rei, e numa resposta a isso essa marca acelera suas pulsações, causando uma adrenalina frenética no rei.

Aqueles que lutam além de qualquer limite, aqueles com a capacidade de sacrificar mais, de lutar mais… Sim! Esses são os merecedores de todas as vitórias e da eternidade. Não importa o sofrimento, mas prevalecer acima de qualquer coisa, de qualquer sacrifício.

Toda a dor que ele passou, toda a dor de seu povo não seria em vão. Eles não estavam errados.

Ele. Não. Estava. Errado.

— Eu vou matá-los e vocês vão se lembrar do valor de nosso legado, de nosso sacrifício!

A voz de Claus estalou em direção ao seu povo e seu olhar em sequência é direcionado àqueles que trouxeram o caos para seu reinado, que trouxeram a dúvida para seu amado povo.

— Você ainda não entendeu… — Elise se coloca ao lado de Lilith — A maldição sobre essa cidade vai acabar agora.

Ver a chama de Elise acesa novamente fez Claus bufar de ódio, e a marca em suas costas pulsa em resposta ao sentimento.

— A vida de vocês é a única coisa que acabará — o rei vomitou as palavras e ergueu sua espada.

— He… — Lilith olhou para Elise de canto — Parece que cheguei na parte boa.

Elise achou curioso como a transformação de Lilith estava avançada, mas não era o melhor momento de falar sobre. Correspondeu ao olhar e colocou um sorriso desafiador no rosto.

— Você não tem ideia.

Não há mais o que fazer por eles, Aether — o espectro havia se manifestado a poucos metros, sentindo que o arqueiro estava perdendo muito tempo — Aproveite a oportunidade para finalizar o rei.

Ele olhou a locomoção distante, e a alteração no próprio vento reflete a instabilidade do rei. Ele está mais exposto a um ataque surpresa agora do que nunca.

O espectro cruzou os braços, numa postura tão fria quanto as palavras. O olhar irritado de Aether não pôde ser contido, o ranger de seus dentes é uma outra amostra do quanto seus sentimentos tomaram conta dele.

— Eu não vou deixar eles morrerem aqui! — ele jogou o braço na direção do espectro — Não posso abandoná-los!

A reação fraca de Aether o fez receber um olhar severo do espectro.

Ele compreende que Aether não está acostumado a perder companheiros em uma batalha, mas quanto antes aprendesse a lidar com isso, melhor seria. Não só isso, a vida dele também está em risco e se ele não se erguer, todos vão morrer.

Não é hora de chorar. Todos vão morrer dessa forma.

— Vá pro inferno, Elhad!

A raiva de Aether é disparada como uma rajada de vento no espectro. Elhad estreita o olhar em desaprovação antes de desaparecer no ar, deixando Aether sozinho com seus companheiros caídos.

Aether volta a segurar as mão deles, mas não fazia a mínima ideia do que fazer. Ele não era um mago e não fazia a minína ideia de como curar o ferimento dos outros, então…Talvez essa fosse sua resposta, não existia o que ele pudesse fazer, por isso iria ao menos carregaria o fardo, a dor de ser um completo inútil nos momentos finais deles.

Essa aceitação o jogou num limbo emocional indescritível.

— Eu… Sinto muito, mas isso é tudo que eu…

Incapaz de prosseguir com seus olhos cheios de lágrimas, suas esperanças foram ceifadas, e nesse momento ele ouve uma voz que conheceu nesse mesmo dia.

— Ei, vocês!

Ele se vira num susto, reconhecendo um pequeno homem Drakrothiano correndo em sua direção. Não sabia seu nome, mas sabia de seu poder. Seu coração acelerou e sua respiração agitou-se.

— Ei! Venha rápido! — Aether na mesma hora indicou o elfo mago no chão — Ele está com o pior ferimento! Rápido! Você pode fazer algo, não é?

Théo se aproxima de Elmond, entendendo apenas que precisava ser rápido. Ele se abaixou e imediatamente aproximou sua mão do corpo ensanguentado no chão.

O elfo olhou para a cara dele com grandes expectativas, mas seguido da expressão chateada, as palavras a seguir também o jogaram novamente no abismo emocional.

— Ele já está… — Théo respirou fundo — Morto.

É claro que o arqueiro já havia percebido, mas… Ele escolheu ter esperanças até o final. Mordeu o lábio inferior tentando reprimir suas emoções, mas nem o corte que foi aberto suavizou seus sentimentos.

— Droga…! — olhar o rosto pálido e ensanguentado de Elmond o machucou, tendo a certeza de que seu amigo não mais voltaria — E… A Lena?

Os olhos prateados voltaram-se para a maga caída, depositando nela o que sobrou de suas esperanças.

O curandeiro moveu-se até ela e tocou seu corpo. Se surpreendeu que mesmo naquele estado, a vida ainda não havia deixado aquele corpo. Nisso, apertou seu cajado e canalizou a magia da vida, gerando uma aura mágica que veio a cobrir o corpo da companheira gentilmente.

O mais assustador para Théo foi perceber que Lena não foi assolada apenas por diversos cortes, mas muitos deles profundos. A letalidade do que a atingiu foi tão grande que o normal seria alguém ser completamente desmembrado com cortes tão eficientes, entretanto, algo reduziu tal impacto.

O olhar do curandeiro foi para o elfo morto ainda agarrado a ela, talvez… Ele tenha utilizado não só o próprio corpo, mas toda a própria mana no último momento para cobrir não apenas a si mesmo, mas Lena também. Ele queria salvá-la e salvar a si mesmo até nos últimos momentos.

Sua determinação foi absoluta, então, mesmo sem o conhecer, Théo sentiu uma grande empatia por aquele homem.

— Elmond… — a voz chorosa de Aether atraiu o olhar de Théo — Me perdoe…

Observar a culpa do elfo arqueiro fez o curandeiro perceber algo óbvio, provavelmente todos lá embaixo estavam se sentindo inúteis e culpados pela falta de poder. Voltando para o agora, ele sabia que se ao menos Lena ficar viva, talvez o elfo possa carregar aquele fardo com alguém.

Ao voltar-se para a ferida que iniciava no ombro da maga elemental e corria para o interior de seu peito, seus olhos crescem com a grata surpresa. A aura de vida se expande, fechando gentilmente a ferida mortal que foi imposta sobre Lena. Não só ela, outras feridas também se fecham enquanto a cor natural da pele da maga retorna.

— Pelas Deusas… Eu estou conseguindo — o alívio de Théo é refletido em sua expressão aliviada — Lena, aguente firme!

Aquelas palavras compartilharam algum alívio para Aether, e foi nesse momento que ele finalmente levantar-se. Ele queria ficar ali até que o tratamento de Lena fosse finalizado, mas… Ele prometeu a Elise que retornaria a batalha para ajudá-la a lidar com o rei. E por mais que tenha ficado irritado com Elhad, ele estava certo.

— Ela vai ficar bem? — a voz dele falhou.

Théo abriu um pequeno sorriso, assentindo com a cabeça.

Aether virou-se em direção ao rei, o último obstáculo, O maldito que tirou a vida de seu amigo e feriu seus companheiros da expedição. O sentimento de vingança misturou-se ao alívio e ao luto.

— Por favor… Cuide bem deles — o arqueiro pediu, olhando-o de canto.

— Eu darei o meu melhor.