Horizonte Eterno

8 Capítulo 8 - O Grande Mundo


Inicialmente foi estranho falar com uma figura dezenas de vezes maior que ela. A diferença de altura fez com que achasse que sua voz não estava de fato alcançando a deusa guardiã. Entretanto, esse sentimento foi passando com o decorrer da conversa. Em perguntas pontuais de Temyra a liberta pôde compreender que a deusa nos últimos milhares de anos foi completamente isolada de qualquer informação de fora. Ao fim de seu relato, aquela voz suave chegou novamente aos seus ouvidos.

— Eras se passaram, mas os problemas do mundo continuam os mesmos — a voz esboçou um tom decepcionado, acompanhado de uma piscada demorada — Mas esses problemas parecem muito além de suas capacidades. Quais são seus planos para resolver tudo?

— E-Eu…

Lilith abaixou a cabeça frustrada, fechando o punho com força. É claro que tudo está muito longe do seu alcance, mas ela não podia ficar simplesmente de braços cruzados enquanto o mundo que conhece é destruído. Temyra enxerga essa frustração, mas diferente de inicialmente, não age para tranquilizar a jovem.

— Irei te falar um pouco sobre o mundo, pequena Lilith. Ele ainda pode te surpreender mais — a deusa guardiã desce um pouco sobre o espaço branco, deixando sua aparência grandiosa mais próxima — Te contar sobre minha morte, sobre o porquê de estar aqui.

O coração da ruiva acelerou com a aproximação, sentindo-se intimidada tanto pelas palavras quanto pela movimentação. Engoliu seco esse sentimento e levou novamente seu olhar celeste para os que lhe fitam.

— Nasci em Voltheren, o centro do mundo e o berçário dos deuses. Diante das quatro mães, prometi fazer as sementes germinarem e proteger aqueles que as cultivam. Com esse propósito abri minhas asas e alcei voo rumo ao horizonte eterno — Temyra afasta-se levemente e abre suas asas ao limite. O espaço branco parecia ser reduzido ao seu movimento, mostrando todo seu esplendor — E eu segui esse caminho não por anos ou séculos, mas milênios o suficiente para que as raças atuais tenham esquecido toda sua primeira geração.

A ruiva se encolhe atordoada com as palavras, pois ela nunca ouviu falar sobre Voltheren ou centro do mundo. Ainda assim, ela conclui que as quatro mães se referem às quatro deusas que deram forma ao horizonte, assim como ela sabe que se Temyra teve contato com elas, ela deve ter no mínimo quarenta e quatro mil anos de idade, época em que elas deixaram o mundo em uma batalha contra o demônio primal.

— Quando cheguei em Stehvor encontrei um pequeno assentamento de humanos. Ao me colocar diante deles, me pediram socorro e proteção. Pois seus inimigos eram muitos e não tinham terras férteis. Seguindo minha missão, concedi a eles o que foi pedido, decidida a dedicar alguns séculos para que crescessem e prosperassem — suas asas lentamente começam a baixar — Mas isso veio a ruir no início do sexto século.

— Ruir? — num misto de receio e curiosidade, a liberta fez a pergunta mais óbvia — Por que?

— Os humanos o descrevem como a estrela vermelha, mas para nós é a estrela deicida — a voz normalmente suave de Temyra ganha um tom mais pesado, quase rouco — Sangre é o seu nome.

Outro nome que Lilith nunca escutou, mas apenas pela alteração na voz da deusa guardiã já podia ter uma ideia do quão perigoso era. Se Temyra queria que Lilith se sentisse mais insignificante em relação às coisas no mundo, ela estava tendo um grande sucesso.

— Em toda a história do horizonte nunca fez sentido confronto entre deuses, pois eles sempre renascem após algumas eras, e sempre mais poderosos. Então qual o sentido em matar alguém e esse alguém voltar mais poderoso buscando vingança? Essa lógica foi completamente despedaçada por Sangre — a deusa guardiã levou seu olhar para o grande vazio branco atrás da liberta, como se estivesse vendo imagens diretamente em sua mente — Matando deuses sem se importar se eles irão retornar mais fortes depois...

— Ele é um deus também?

— Sim… — Temyra fechou os olhos, reflexiva — Mas as deusas sempre deram propósitos bons a nós, então o que aconteceu para que Sangre nascesse? Quais propósitos e missões foram dados a ele? Não consegui descobrir.

Nesse momento a liberta enxergou que até as criaturas mais poderosas tem problemas que fogem de seu alcance. Independente do seu tamanho e do seu poder, sempre haverá suas equivalências e limitações.

— Após me matar ele colocou meu coração dentro desta torre para garantir que aqui fosse meu ponto de renascimento. Se meu coração fosse destruído, eu renasceria em Voltheren— a deusa guardiã concluiu sua história.

— E você sabe quando vai retornar?

Os profundos olhos azuis da deusa guardiã voltam-se para os da liberta, Lilith estranha esse comportamento silencioso, pressentindo que algo muito importante ainda seria dito.


Aquele vento sinistro que constantemente vaga por Luvelin sopra novamente, e por mais que ele lute contra a corrupção do tempo, ele não pode detectar as três figuras abaixo do manto de camuflagem conjurado pelo elfo mago. Um silêncio incômodo foi gerado após os últimos eventos na torre, como uma prova do quanto a decadência da cidade os afetou.

A Altair é quem mais está imersa em pensamentos, pois ver que a entidade que destruiu sua família também pode ter sido a que levou Luvelin a uma perdição inevitável a abalou. Afinal de contas, qual poderia ser o propósito de tal inimigo? Enquanto a família Altair foi varrida em um dia, Luvelin ainda hoje sofre numa prova de extrema crueldade daquele ser.

A combatente nem percebeu o quanto franziu seu cenho, sendo despertada somente pela voz de Aether, que se aproximou sorrateiramente e sussurrou em seu ouvido, a fazendo sentir um arrepio da cabeça aos pés. Ela praticamente salta para o lado num susto, o encarando com cara de poucos amigos.

— Fala pra nós a sua relação com o deus vermelho — o elfo foi direto. Elmond ao lado acabou encarando Elise também, preocupado — Tem milhares de anos que Luvelin foi soterrado, como você pode conhecer alguém que participou disso?

— Eu…

A combatente hesitou. Não é que ela não conseguisse falar sobre o assunto, apenas que é um pouco difícil. Sempre que o aborda, flashes daquele dia atormentam sua mente. Porém, ela já passou da fase de negação, então por mais difícil que fosse, não se recusaria a falar.

— Eu acho que foi ele quem liderou o ataque a fortaleza Altair — os olhos ametistas com um brilho mais fraco são direcionados aos elfos ao lado — A descrição é muito parecida…

A aniquilação da famosa linhagem Altair foi um evento marcante e que mesmo longe de Drakroth ficou conhecido. Foi a primeira e única vez em toda a história do continente que uma família tão poderosa teve sua fortaleza atacada e devastada em menos de um dia. Esse feito foi assombroso, pois nem mesmo os exércitos mais poderosos da época poderiam fazer algo semelhante.

— Acaba fazendo sentido, não é? — num tom neutro, Aether prosseguiu — Apenas alguém de poder milenar poderia fazer… Essas coisas.

Ao olhar para o estado da cidade em que estão, Elise e Elmond puderam compreender que ele não se referia apenas à destruição dos Altairs. O sentimento de que aquele que ela busca derrotar está muito além de seu alcance a sufocou.

Mas nem houve tempo para que ela embarcasse novamente nesses pensamentos distantes, o mago elfo tocou-lhe o ombro lhe roubando a atenção. Foi estranho pra ela sentir tanta seriedade no olhar dele.

— Elise, você vai conseguir lutar? — essa pergunta a desarmou no mesmo momento — Você está muito dispersa, desfocada…

— Ah… — ela hesitou em responder outra vez, mas dessa vez por se sentir culpada.

Porque ela está preocupada com aquele ser agora? Ela primeiro tem que conseguir salvar Drakroth, libertar Luvelin e garantir que todos voltem em segurança. Se em um momento ela estava dispersa, agora estava completamente frustrada com o quanto se desligou do que está a cercando no momento. Fechou os olhos e a imagem do alvo de sua vingança ganhou forma em sua mente, mas apenas para que ela o apagasse e se conectasse ao presente de sua jornada.

— Eu vou conseguir — seu tom de voz foi firme, seguido por um aceno positivo com a cabeça — Já estou melhor.

A recuperação da combatente foi estranhamente rápida, mas o elfo mago não achou isso ruim. Com um sorriso satisfeito, ele soltou a mão do ombro dela e voltou a seguir seu caminho, sendo acompanhado.

Após alguns minutos, além de algumas casas já era possível ver o topo de uma das torres do castelo. Estamos próximos. Frente a um beco entre essas casas, estão Talin e Lena conversando, como se já estivessem esperando pelo trio. Foi automático eles se recordarem da magia de rastreio que o comandante colocou neles no início da missão.

Claro, Talin sabia que eles estavam próximos, mas não sabia dizer exatamente a localização deles já que estavam protegidos pela magia de camuflagem. Atento aos arredores, tomava uma grande preocupação para que nenhuma criatura pegasse ele ou Lena de surpresa.

— Comandante.

A camuflagem foi desfeita, revelando para Talin e Lena seus companheiros adiantes. Talin não esboçou qualquer reação, Lena só faltou dar um salto de alegria ao ver três companheiros seguros, mas sua demonstração de alegria acabou se resumindo a um grande sorriso.

— Vejo que estão todos bem — Talin falou, satisfeito — Vamos entrar.

Ele gesticulou para a casa à direita.


— A sete anos atrás, uma liberta como você tentou subjugar meu espírito. Eu resisti e consegui a repelir, mas foi surpreendente ver alguém entre as quatro raças com tamanho poder — é difícil decifrar expressões de um dragão, mas Lilith tem certeza que Temyra está reflexiva no momento, vivenciando as imagens do encontro com a pessoa citada — Se ela tivesse chegado um ou dois séculos antes, minha mente não teria resistido a tamanha influência.

Alguém tentou tomar o controle de Temyra antes de seu renascimento, caso tivesse sucesso, essa liberta teria em posse um poder capaz de varrer reinos inteiros com facilidade. Esse pensamento assustou Lilith.

— Ela é uma feiticeira poderosa com o núcleo da mente, buscando colocar entidades sob seu controle. Para enfraquecer meu espírito, ela me mostrou a forma para encurtar o tempo necessário para meu renascimento — a deusa guardiã fez um breve silêncio, atenta ao comportamento de Lilith — Eu quero sua ajuda, mas… Eu não sinto poder em ti. Poderia eu colocar tal fardo em uma criança tão pequena? Uma criança que nem sabe como resolver os próprios problemas? Para falar a verdade… Você ao menos desejaria me ajudar?

Lilith se sentiu afrontada. Talvez não fosse a intenção da deusa guardiã, mas o sentimento de ser tão subestimada a fez estreitar os olhos com raiva, talvez por estar mais confortada pelo tempo da conversa, ela veio a responder sem pensar. É óbvio que ela não é forte, mas…

— Você é uma deusa e ainda assim foi derrotada, e agora tá precisando da ajuda de uma criança que não sabe resolver os próprios problemas. Deve ser difícil — ela virou o rosto, orgulhosa, jogando os longos cabelos para o lado.

Um silêncio se formou no local por dois motivos. Primeiro, Lilith percebeu que pode não ter sido muito inteligente em responder daquela forma, afinal está falando com uma figura milenar. Segundo: Temyra acostumada a ser contemplada, foi surpreendida com a atitude daquele ser que logo seria engolido pelo tempo e esquecido.

Isso gerou uma nova emoção nela, algo que nunca pode sentir em todo seu tempo voando sobre o horizonte eterno. É difícil descrever algo desconhecido, mas foi um misto de surpresa com alguma outra coisa que ela não sabia nomear.

— E-Eu quero dizer… — desconcertada, Lilith procurou palavras para consertar o que falou — Nós duas temos problemas e podemos ajudar uma a outra, então… Não tem porque nos diminuirmos, né?

Sim. Inevitavelmente Temyra irá retornar ao mundo, mas até lá ela pode ser alvo de outras pessoas buscando tomar controle sobre sua mente, então Lilith pode ser a sua última opção de segurança. Para a liberta, ter o suporte de uma deusa certamente a fará ir mais longe do que jamais poderia ter sonhado.

A deusa guardiã nunca teve uma figura das quatro raças falando com ela de forma tão informal antes, e isso gerou tanto interesse pela liberta quanto por essa nova emoção. Ainda assim, enquanto ela processava essas informações, Lilith ficou ansiosa por conta da demora por uma resposta, ponderando se acabaria por perder uma potencial aliada, ou pior ainda…

— …Entendo — a deusa guardiã assente com a cabeça — Pequena criança.

A deusa percebe a expressão da liberta ficar mais dura ao chamá-la assim, deixando claro que ela não gostava, mas aquele sentimento de antes fez Temyra querer continuar da mesma forma.

— Em Elhad… Não, agora se chama Elwin. Existe uma poderosa fonte abençoada de Eslie que permite ligação com espíritos. Se meu coração for colocado lá, a energia espiritual que eu preciso será restaurada muito mais rapido — Temyra leva a ponta de sua garra indicadora próxima aos seios da liberta — Após isso você deverá levar meu coração ao topo da montanha mais alta da cordilheira Eslie. Lá você poderá fazer o ritual de renascimento.

— A cordilheira está repleta de monstros, além disso eu não sei fazer ritual algum — Lilith franze o cenho ao perceber o olhar azul intenso sobre si.

Algo estava diferente em Temyra.

— Huh? Você não consegue?

Novamente Lilith demonstra uma irritação notada pela deusa guardiã.

— É claro que eu vou conseguir — ela cruzou os braços e olhou fixamente para Temyra — Só me dizer como é esse ritual.

— Quando chegar a hora irei te dizer. Dessa forma, temos um acordo.

A ponta da garra de Temyra próxima ao peito de Lilith passa a emitir uma aura mágica de cor branca. Essa aura começa a girar como um redemoinho, emitindo um som estridente que a liberta nunca ouviu antes em sua vida. É como se o espaço branco estivesse sendo danificado pela espiral de tamanho semelhante a ruiva.

Após alguns segundos o redemoinho de energia desaparece da vista de Lilith, mas ela é surpreendida quando sente uma energia pulsar bem no centro de seu corpo. Algo extremamente energético que parecia girar na mesma velocidade que a espiral criada na ponta da garra da deusa guardiã. É fácil concluir que se trata da mesma energia.

Por um estranho instinto, a liberta fecha seus olhos e consegue visualizar essa espiral em seu corpo se transformar, antes branca e pura, começará a ser preenchida por um vermelho e diversos círculos que a moldam a uma espécie de portal. Quando completo, ele pulsa uma vez mais fazendo uma explosão de energia e excitação romper pelo corpo da ruiva, a despertando naquele mesmo corredor frente a porta trancada.

— Criei um núcleo mágico artificial em seu corpo. Dentro dele está também o meu coração. Você vai precisar praticar para conseguir extrair todo o seu poder, mas de cara deve conseguir usar essa energia para potencializar o que você já sabe. Pequena criança. Infelizmente serão poucos os momentos que poderemos conversar, mas estou depositando minha confiança em você… Não perca.

Ao final da conversa, Lilith sentiu que estava estranhamente próxima de Temyra, mas essas últimas palavras foram exatamente como as primeiras, distantes. Suaves como o vento, mas distantes como a terra do céu.

Por um momento ela havia desaparecido da realidade de seu mundo, da invasão em Drakroth, da perda de contato com Alidomani, da decadência de Luvelin e… Da morte de Anderson.

Foi um estranho aperto em seu coração voltar à realidade, mas ela ficou feliz em perceber Théo correndo em sua direção. Extremamente preocupado, ele segurou os ombros dela, começando a perguntar sobre o que havia acontecido e se ela estava bem. Ela responderia tudo enquanto sua mente e seu coração retornavam para a realidade.


A escuridão no desfiladeiro tornou-se ainda mais sinistra após o vento uivante soar para as profundezas. A quase uma centena de metros abaixo daquele chão artificial criado por Lena, Astéron foi largado a cair como uma folha indefesa, completamente desprovido de qualquer capacidade de se proteger.

Isso o levou a cair de mal jeito sobre seu braço direito que por mais poderoso que fosse, não resistiu e foi despedaçado internamente como um graveto. Não houve reações à dor e toda a destruição em seu corpo, pois ele nem sequer sabia o que era dor ou o que estava acontecendo. Seus olhos antes furiosos foram tomados por um vazio infinito.

Infinito até ele entender sua respiração pesada, descompassada. Compreender que odeia o cheiro abafado daquele local, sim, o cheiro. Quando esse sentido foi tocado, o efeito da magia de Talin em sua mente já enfraquecido foi rompido de uma vez só. Enchendo aquele vazio com uma fúria e um desejo de vingança impiedosa.

Suas memórias retornam como flashs que se encerram na imagem daquele maldito inseto arrogante o olhando de cima, o arremessando na escuridão. Grunhindo de dor, Astéron utiliza o braço intacto para se levantar novamente. A sua movimentação faz o solo tremer, emitindo o som de seus movimentos tão pesados que até mesmo o ar desvia de seu caminho.

O colosso leva seu olhar para cima, para a saída daquele buraco em que foi jogado como uma criatura insignificante. Seus olhos que por natureza parecem ser capazes de roubar a alma daqueles que o fitam, queimam como uma espiral obsessiva com o desejo de consumir aquele que o humilhou. Seus dentes afiados e sujos de sangue se revelam com a sua boca que abre lentamente, liberando um rugido de vingança que estremece a terra e ecoa como um eco de irá.

Um eco que anuncia o fim de tudo que escapa do desfiladeiro e se expande por todo o subterrâneo, podendo chegar até mesmo aos lados mais distantes da cidade, incluindo a casa onde Talin havia reunido a equipe para trocar informações e se preparar para o avanço ao castelo. Todos eles escutaram o som e estremeceram, ficando aflitos.

Principalmente o comandante, algo em seu interior, um instinto que foi forjado por todo o seu tempo no campo de batalha que o levou a colocar a vida em risco diversas vezes, gritou que o principal alvo do autor desse grito de vingança era ele.