Horizonte Eterno
7 Capítulo 7 - Fragmentos de Memórias
Notas iniciais
O tempo parecia passar de forma estranha naquele local, de uma forma tão complexa que era difícil distinguir se ele estava mais rápido ou devagar, a única certeza é que não seguia o fluxo comum. O vento que soprou lá fora simplesmente não existe neste ambiente e quem dera fosse apenas ele, ela sentiu falta de outras coisas também.
Não consegue sentir o cheiro de nada, nem escutar. Quando tentou abrir os olhos pela primeira vez, aquele clarão branco fez eles se fecharem novamente. Agora, dentro da sala, aquele sentimento atrativo de antes desapareceu, pois Lilith já estava onde deveria.
Confusa, demorou alguns segundos para seus lindos olhos azuis se acostumarem com a iluminação estranha do lugar. Sentiu-se completamente deslocada da realidade, afinal, estar num local como aquele parecia muito mais com um sonho lúcido do que qualquer outra coisa. Foi um sentimento intenso, com seu coração agitado e um frio na espinha ao presenciar algo desconhecido e incrível. Ela podia estar onde deveria, mas isso não a confortou nenhum pouco.
Não existe um chão nesse lugar, é como se estivesse de pé num espaço de inexistência branco, como se o conceito de cima, baixo, direita ou esquerda não se aplicasse. Ela estreitou os olhos em confusão, podia pelo menos falar?
— O que…? — as palavras ecoaram de sua boca, tirando-lhe a dúvida — Isso é…
Ela nunca imaginou que atrás daquela porta haveria um lugar assim. Após o clarão se viu nesse estranho espaço e foi inevitável não pensar se caiu em algum tipo de armadilha. Se for o caso, ela nunca teve chances de resistir a tamanha influência. Aquela voz se conectou a sua mente como se fossem as cordas de uma marionete se ligando a ela, sua força de vontade foi completamente ignorada.
— Quem me chamou aqui?
Sua voz ecoou pelo local, e ela teve o sentimento de que foi muito além do que poderia imaginar. Sua expressão ficou confusa e um sentimento de desespero se apoderou de seu coração, afinal, poderia estar numa armadilha que a manteria presa naquele local para sempre. Essa possibilidade agitou seus pensamentos em vários cenários negativos, mas o que veio a seguir simplesmente limpou qualquer ideia, qualquer coisa que pudesse pensar.
— Como pode…?
Descendo sobre seu campo de visão, uma criatura majestosa se revela. Lilith já presenciou muitas coisas que desafiaram seu senso de realidade, mas o que se colocou diante de seus olhos está em outro nível. Seu corpo colossal se estende por mais de quarenta metros, coberto por escamas brancas como um véu de neve, quase que invisível naquele vazio branco. Entretanto, escamas vermelhas se destacaram próximas as asas e a cabeça do dragão, quase como um lembrete de que ele não fazia parte do espaço em que estão.
Seus olhos são azuis como o céu, lembrando os de Lilith, mas não é separado por pupila e íris. Seus olhos não carregam maldade ou desejo de sangue, apenas uma estranha paz destoante de tudo que Luvelin mostrou até agora. Entretanto, a liberta pôde sentir uma coisa guardada neles, a paciência de alguém que espera há muito tempo.
Longos chifres dourados emergiram de sua cabeça, curvando-se levemente para trás como coroas naturais de uma entidade acima dos conceitos terrenos. Ao longo de sua espinha, uma listra azul celeste como os seus olhos, cuja tonalidade parece oscilar a depender da iluminação do ambiente.
Suas asas eram vastas e belas, com a membrana levemente azulada se mesclando ao branco suavemente, como se aquela existência estivesse levitando no ar com a paciência de algo que tem todo o tempo do mundo ao seu dispor.
Apesar de toda sua grandiosidade, não havia sinais de ameaça ou intimidação em sua presença, não que isso fosse fazer diferente para uma criatura tão pequena e irrelevante como a liberta, ao menos, é assim que Lilith se sente agora.
Sim, Lilith é literalmente um pequeno inseto frente ao que está diante dela. Não sabia o que era aquilo e nem mesmo sabia o que falar. Sua mente ficou num branco mais intenso do que as escamas do dragão, como se tivesse desligado todas as funções apenas para contemplar aquela existência.
Os belos olhos abertos e atenciosos da liberta, instintivamente não perdem nenhum detalhe. Certamente demoraria para se acostumar a estar na presença de algo tão fora de sua realidade, mas justamente aquilo que tirou toda sua atenção, busca colocá-la de volta ao presente.
— Eu me chamo Temyra, a Deusa Guardiã de Luvelin — e ainda que estivesse na frente de Lilith, a ruiva parecia ouvir aquela voz como se estivesse distante — Liberta, quem é você?
Essa pergunta pareceu uma afronta ao subconsciente de Lilith, porque ela se sentiu importante novamente. Afinal, independente do que estivesse à frente, ela também estava lá. Passou em sua mente que talvez Temyra tenha lhe feito essa pergunta com esse objetivo, lembrá-la quem ela é.
— Eu me chamo Lililith X!
Ao falar seu nome, ela se lembrou de onde veio.
— Sou de Alidomani.
Ao falar de onde veio, se lembrou de onde está.
— Estou em Drakroth agora.
E ao falar de onde está, ela se lembrou de para onde quer voltar.
— Estou numa expedição para acabar com o ataque incessante dos monstros sobre Drakroth. Eu quero poder sair daqui e ver como está meu antigo reino!
Temyra ficou em silêncio como se avaliasse a resposta e as emoções que a liberta transmitiu. Foi apenas um breve momento, mas para a liberta pareceu uma eternidade.
— Conte-me mais sobre você, sobre como o mundo está agora.
Um portão de aço semelhante ao que atraiu Lilith está diante do trio que foi levado até ele por Happo. Fechado, ele não transmite nem metade da magnitude do outro, parecendo ser algo mais humano. Uma poderosa proteção de humanos para com outros humanos. Entretanto, ele não está trancado, bastou o esqueleto empurrar que ele suavemente se abriu, revelando uma espécie de armazém subterrâneo enorme.
Quando passaram pelo portão, puderam ter uma visão mais privilegiada do local. Outra daquelas bacias douradas se encontra centralizada no teto, Elise imediatamente utilizou de sua magia de fogo para a fazer brilhar e iluminar o local, revelando armaduras, baús de tesouros, e claro, moedas de ouro organizadas pelo local. Algo tão bem organizado que fica fácil imaginar qual foi um dos passatempos de Happo.
Em meio a toda aquela organização algo se destacou. Mais ao centro do armazém encontra-se um pequeno suporte com um báu sobre ele. O material usado no suporte parecia diferente de todos os outros que foram usados na torre, pois sua coloração é semelhante a um ferro negro. O baú sobre ele é de madeira, mas o metal usado para o reforçar é claramente ouro, indicando algo de valor.
— Quanta riqueza… — Aether claramente está interessado nos tesouros do local — Vocês não vão usar mais, né?
Mesmo que o esqueleto não entendesse o idioma do elfo, ele parecia ter uma ideia do que foi falado e preferiu simplesmente ignorá-lo. E ignorando todos os tesouros presentes, se focou no baú que está no altar, caminhando até ele e parando à sua frente, pegou o livro e começou a marcar frases novamente.
— Tempos atrás o Rei Claus veio até mim com esse báu. Ele o queria longe do castelo.
Essa declaração claramente mexeu com o interesse do grupo. O esqueleto ciente disso pegou o baú em suas mãos e aproximou-se deles. Elise e Aether foram os responsáveis por abri-lo, revelando uma flecha solitária em seu interior.
Isso causou sentimentos diferentes, pois a combatente e o arqueiro se perguntaram o que tinha de especial naquele item. A benção desse conhecimento foi concedida a Aether, graças ao espectro que o acompanha.
— É uma flecha forjada nas águas abençoadas da fonte de Eslie. Eslie é considerada a mais pura entre as quatro deusas, sendo também a principal guia dos elfos. Itens banhados em sua fonte enquanto são criados recebem a propriedade de anular qualquer tipo de imortalidade gerada por maldições.
A ponta da flecha é branca como uma neve intocada, sua é haste uma madeira cercada por vinhas verdes cristalizadas como linha ao seu redor, essas linhas terminam como um pequeno conjunto de penas verdes no final. Sua aparência é bonita, mas apenas olhando é praticamente impossível perceber seu efeito tão poderoso.
Quando o elfo arqueiro explicou sobre o quão poderosa é essa flecha, imediatamente Elise e Elmond embarcaram num pensamento semelhante ao que passou pela mente dele. Porque existe algo tão específico lá embaixo?
— Antes da morte de Temyra, o Rei Claus era um rei gentil que se importava em dar uma boa e longa vida a todos. Éramos agraciados por uma deusa que nos protegeu de todo o mal do mundo, mas quando ela caiu e o Deus Vermelho chegou em nossas terras, ele mudou — Happo continuava marcando as palavras no livro — Eu não sei o que está passando na mente dele agora, mas sei que precisa descansar… Para sempre. Assim como todos nós.
O trio trocou olhares mediante a essas palavras, lembrando-se do ambiente moribundo que Luvelin se encontra. São literalmente mortos vivos esperando o inevitável fim, e o Rei protegendo alguma espécie de dignidade distorcida está forçando-os a ir além de qualquer limite. Pensando na corrupção natural que o tempo teria em humanos normais, Happo estar tão consciente agora parecia ser a maior insanidade lá embaixo.
O elfo arqueiro tocou a flecha dentro do baú, nesse mesmo instante um brilho reluzente passou entre as vinhas. Segurou-a firmemente, seus olhos prateados fixaram-se para o fundo dos olhos incandescentes do esqueleto diante dele. Assentiu com a cabeça e falou.
— Daremos a vocês o descanso que tanto almejam. Eu prometo.
Happo não podia entender as palavras de Aether, mas sentiu em seu coração imaginário. A possibilidade de poder descansar de uma vez por todas, de poder finalmente sair desse lugar escuro e abandonado… Se ele tivesse olhos normais, ele sem dúvidas estaria chorando agora.
Quase duas horas se passaram desde que chegaram ao subsolo de Drakroth, e claro, isso não foi tempo o suficiente de mudar o ambiente para notar alguma diferença. Consequentemente, o cenário que Talin e Lena presenciam conforme avançam em direção ao prédio central é o mesmo de seus aliados. Estruturas que resistiram mais tempo do que deveriam, próximas de seu colapso final. O vento que vez ou outra soprava arrastando o pó e os fragmentos de pedras, parecia uma forma viva da cidade tentar se limpar, persistir mesmo que um dia a mais. Assim como o Rei, Luvelin parecia lutar contra a ferrugem do tempo além de qualquer limite.
O avanço pela cidade foi algo tranquilo, ainda mais utilizando a magia de camuflagem das estruturas de mana. Diferente de Elmond, que por ter um grimório consegue manter a magia sem pausas, o comandante se vê obrigado a ser mais pontual em seu uso já que não tinha nenhum equipamento para prolongar a duração de seu poder.
Quando chegam ao prédio central, eles podem testemunhar uma construção abandonada e fragilizada. São mais de 10 andares de uma estrutura de cor amarela fosca, apodrecida, sendo que os três andares superiores se encontram a um passo do colapso absoluto. Ocupando uma grande área, é fácil identificar que os muros que cercavam a construção caíram para o tempo. Pelo formato de alguns adornos de pedra, é possível imaginar que um pequeno jardim cercava o prédio, mas não restou uma única grama para comprovar sua existência. Talvez o prédio foi também a estrutura mais alta do reino, talvez perdendo apenas para o castelo que não foi visitado por Talin e Lena, ainda.
Fora a estrutura, a única coisa que atraiu a atenção deles foi a existência de um minotauro com a exata aparência dos encontrados nas torres. Como se ele estivesse ciente da fragilidade do prédio ele não se colocou em guarda na parte superior, mas sim frente a entrada principal. Em pé e com seu labris de cabo longo com as lâminas apoiadas no solo, ele se encontra numa posição de descanso, guardando aquele local.
— Você acha que ele pode detectar a camuflagem? — perguntou Lena, cautelosa.
— Não… Mas vamos manter a atenção.
Talin saca sua espada, a segurando com apenas uma mão enquanto caminha em direção ao minotauro com a maga logo atrás. Seu olhar frio não pareceu preocupado se o monstro reagiria ou não à presença dele ocultada pela magia.
Diferente do comandante, a maga elemental estava preocupada, mas esse sentimento desaparece quando entram no campo de visão da criatura e ela permanece imóvel. Seria muito estranho se ele pudesse nos perceber. Concluiu passando ao lado do monstro logo após Talin, que guarda sua espada em sequência.
O primeiro andar do prédio é um grande hall de entrada com escadas para os andares superiores. Como reflexo de toda Luvelin, tudo está em pedaços e destruído. Os pilares centrais que dão sustentação à grande estrutura parecem estar no limites com diversas rachaduras e pedaços faltando, por um momento Lena e Talin pensaram que estavam se arriscando só de estarem lá dentro.
O cheiro desagradável metálico e seco da poeira acumulada não podia ser barrado pela magia de camuflagem e a maga de terra acabou demonstrando um desconforto. É claro que Talin também não gostava desse cheiro, mas tem muito mais facilidade em esconder emoções relacionadas a essas coisas.
Existem alguns esqueletos imóveis espalhados pelo local e no teto desse andar algumas das bacias douradas que podem fornecer iluminação através de magia, mas Lena optou por não acendê-las e acabar atraindo a atenção do minotauro para o interior do prédio.
— Acha que vamos encontrar algo aqui? — Lena não parece confiante.
— Difícil — o comandante respondeu com os olhos de jade sobre ela — Mas vamos pelo menos dar uma breve olhada nos andares superiores.
— Uhum.
Eles foram até a escadaria cheia de rachaduras e Lena fez uso de sua magia de terra para reforçá-la e permitir uma passagem tranquila. Durante a subida Talin também interrompeu a magia de camuflagem e por isso foram mais sutis quando chegaram ao segundo andar, e para a surpresa deles o segundo andar era semelhante ao primeiro em questão de espaço, um grande hall, mas…
Estruturalmente ele é completamente diferente. Seus pilares de suporte estão mais nos cantos do hall, enquanto no centro tem uma área circular de cinco metros de largura e um metro de profundidade. Dentro desse buraco tem dois pilares com runas gravadas neles, esses tinham quase 1 metro de altura, diferente de um terceiro pilar que era um pouco maior, colocado atrás do buraco, quase que em sua borda.
— Uma estrutura mágica… — as palavras escaparam dos lábios da maga, curiosa.
— Vamos descobrir para que ela serviu.
Tanto o comandante quanto a maga tem conhecimento sobre estruturas feitas para a realização de magias complexas, essas geralmente são usadas por magos que querem realizar magias que normalmente não seriam capazes, pois ou são de um núcleo diferente ou são de um nível muito maior. Na capital de Drakroth por exemplo, existem muitas estruturas de barreira que impedem ataques de monstros voadores, ainda que alguns muito poderosos possam rompê-las, sem tais estruturas Drakroth teria sucumbido a muito tempo.
Talin é um cavaleiro que utiliza magia para auxiliar de forma eficiente suas habilidades, mas em conhecimento mágico puro, mesmo Lena sendo mais jovem está à sua frente, pois ela é uma maga por inteiro e seu conhecimento se resume muito a essa área, tanto que apenas observando as runas no terceiro pilar, ela chegou a conclusão da utilidade daquela estrutura.
— É uma estrutura que permite abrir portais — ela levou uma mão ao queixo, avaliando — Se esse pilar é o canalizador, os outros dois em seu interior representam o ponto de entrada e o ponto de saída.
— O ponto de entrada… — Talin olha ao redor, afinal é óbvio que é literalmente onde estão.
Com Lena matando a charada, o comandante salta para dentro do buraco para observar suas runas e ele consegue entendê-las, mas suas combinações são estranhas. Fechou os olhos por um momento, seria muito melhor deixar Lena desvendar por completo, ele apenas a atrasaria ficando em seu caminho agora.
Como Lena já havia decifrado sobre o maior dos pilares, ela entrou no buraco para ver sobre os outros dois. O comandante retornou para o terceiro e começou a avaliar ele por si mesmo. Ao prestar atenção nas runas, se recordou de algo que aprendeu ainda durante seu tempo na academia de magia de Drakroth, a mana das pessoas que utilizam as estruturas mágicas persistem nelas até que outras pessoas a ativem, nesse caso, ele poderia tentar descobrir quem foi a última pessoa que passou ali.
O comandante leva sua mão até o pilar e tenta atrair a mana dele para si, na intenção de sentir qualquer resquício da pessoa que usou. Talin nunca imaginaria como se arrependeria de ter tomado essa decisão. No momento em que reconheceu a presença no pilar seu estômago se revirou brutalmente.
Vermelho.
Sangue mancha sua visão trêmula.
Sua respiração estava tão acelerada que parecia que seus pulmões fossem explodir.
A cabeça de um rei estava aos seus pés. O desespero latente que sentiu se fundiu a dor em suas costas, como se uma faca extremamente afiada a abrisse de uma ponta a outra, e talvez tivesse sido exatamente isso que aconteceu. De joelhos no chão, os olhos verdes se encontram sem qualquer brilho enquanto lágrimas de dor descem pelas bochechas do comandante.
Uma espécie de fenda mágica se abre diretamente de seu corpo e ao olhar sobre os ombros, percebe a feiticeira que saia dele. Sua respiração já pesada torna-se ainda pior ao perceber que uma pessoa saiu de dentro dele.
— Hahahaha… HAHAHAHA… HAHAHAHAHAHA!
Caótica, maligna, sádica.
Risadas com emoções deturpadas invadem a mente do comandante. Seu coração tão acelerado poderia explodir a qualquer momento. Ele fecha os olhos e leva as mãos ao rosto tentando fugir daquela realidade grotesca, daquele teatro macabro do qual ele era apenas uma marionete.
— …LIN…!
Fechar os olhos e encarar a escuridão é muito melhor do que aquele vermelho cruel. Aquele cenário escuro em sua mente ao apertar os olhos com força é muito mais silencioso e confortável que aquela maldita risada caótica.
— TALI..!
Apenas sentir aquela mana foi o suficiente para se recordar disso. Afinal de contas, por que ele ainda estava lutando? Mesmo que Drakroth ainda pudesse ser salva, ele jamais seria. Já fez o bastante, já sofreu o suficiente para se afundar novamente em batalhas sangrentas.
E ainda assim uma luz quente atacou seus olhos. Como um maldito raio de sol que encontra uma brecha nas cortinas de manhã e te força a acordar quando tudo o que deseja é dormir um pouco mais. Enfurecido abre os olhos quando aquela voz tão próxima de si o chama novamente.
— TALIN!
Seus pares de olhos de jade enfurecidos foram direcionados à dona da voz. O semblante do comandante suado e a respiração ofegante de alguém que por alguns segundos não estava mais lá, retornando apenas agora. Talin se sente completamente desorientado com aquele par de olhos preocupados com ele.
— O que houve? Estou te chamando a tanto tempo… — a voz da maga soou mais doce que o normal, como se buscasse acolhê-lo.
Só então Talin pode perceber uma mão dela sobre seu peito e a outra, gentilmente segurando seu rosto.
Seu olhar voltou-se para o chão enquanto um sentimento de culpa preenche seu coração. Rendido a memórias e emoções do passado, não só a deixou preocupada, como também ficou com raiva quando ela acabou salvá-lo de si mesmo.
— Perdão — segura a mão dela em seu rosto e gentilmente a afastou — Você descobriu sobre a saída da estrutura?
— …Sim.
O comandante vê a expressão de Lena morrer como uma flor ao perceber que ele não falaria sobre o que acabou de acontecer. Ela se afasta e leva a atenção até os dois pilares centrais novamente.
— Quero dizer… Eu não sei a localidade, mas acho que você pode criar uma outra saída para nós daqui — a fala da maga deixa o comandante curioso — Se colocarmos as runas de uma das estruturas mágicas que geram barreira para Drakroth, podemos conectar esse portal a ela.
— E você se lembra das runas dessas estruturas mágicas?
— Sim.
Com o conhecimento de Lena e o poder das estruturas de mana de Talin, foi hora de ir até o pilar que continha as runas da saída do portal. Talin usou da magia da mente para pegar as runas de uma das estruturas mágicas em Drakroth diretamente das memórias da maga.
Um dos maiores potenciais da magia das estruturas de mana do núcleo da mente é a capacidade de modificar outras magias, é por isso que Talin dedicou parte do seu tempo em aperfeiçoar esse caminho mágico tão útil quase que em conjunto com a magia de comunicação, onde está seu verdadeiro potencial. Como ambos os caminhos se encontram no núcleo da mente, ele pode aperfeiçoar ambas as magias.
Em comparação com o núcleo Elemental, é como se Lena que tem um talento excepcional com magias de terras tivesse dedicado uma parte do seu tempo em aperfeiçoar magias de vento.
O comandante controlou sua mana celeste forçando as runas no pilar de saída a se alterarem. O fato é que o tempo enfraquece a resistência de magias de estrutura de mana, sendo que dois anos já são o suficiente para que uma magia anteriormente inalterável ficasse ao alcance de um mago mediano das estruturas de mana. Custou alguns minutos, mas conseguiu alterar as runas para o que desejava e ficou satisfeito com o sentimento de ter criado um novo caminho de fuga.
— Lena, você quer deixar o portal pronto para nós?
A maga elemental entendeu a pergunta do comandante, como ela tem muito mais mana do que ele, é mais inteligente que ela ativasse o portal. Assentiu com a cabeça e foi até o terceiro pilar, tocando-lhe a superfície e depositando sua mana que foi o suficiente para que as runas dos três pilares acendessem. Talin ficou confuso ao notar que o portal não ganhou forma.
— Eu deixei ele praticamente cheio, mas não conclui sua ativação — percebendo a confusão do comandante, Lena explicou — É melhor do que correr o risco dessas criaturas chegarem até Drakroth, não é?
— Faz sentido — ao compreender, concordou — Agora vamos derrubar aquele minotauro.
Lena concorda. Se estiverem recuando e do nada terem que lidar com aquele monstro, a rota de fuga não seria segura, o eliminar e deixar o caminho livre seria bem melhor. Ela levou uma mão ao queixo reflexiva, o minotauro aparentava ter um grande poder físico, mas muito ignorante a magia, então um ataque dela e de Talin certamente vai ser eficiente.
Em sua postura imponente o minotauro não sabia a quanto tempo protegia aquele lugar, apenas sabia que devia o resguardar. Esse foi o seu juramento em vida para um rei, e mesmo após a morte e ter assumido aquela forma amedrontadora, cumpriria com o seu dever até o fim.
Num instinto sobrenatural o minotauro abre rapidamente os olhos, mas nada está diante dele. Entretanto, aquele instinto insiste em inquietação e por conta dele se vira em direção a entrada às suas costas, percebendo a maga com o cajado fincado no chão. Ao ver aquela mulher, esse mesmo instinto que o alertou, o mandou atacar. A fera abre a enorme boca rugindo em fúria e pisa forte no chão, e como ele errou ao fazer isso.
O chão se abre a partir do local que ele pisou o engolindo de imediato até metade da cintura, no momento que ele tenta se reerguer, o buraco aperta-o com tamanha força que seus ossos inferiores trincam. Um rugido de dor escapou de sua boca e seus olhos vermelhos cruzam com os castanhos de Lena.
Diferente de Lilith, Théo e Anderson, A maga e o comandante tem um vasto conhecimento de batalha contra criaturas poderosas, assim como seus níveis individuais são completamente diferentes. E como para confirmar esse fato, Talin no terceiro andar saltou em direção ao minotauro com sua espada em mãos. Como se desenhasse no ar, concluiu seu movimento com um giro que lhe rendeu um impulso a mais para realizar uma poderosa estocada que acertou o topo da cabeça do minotauro.
Dispersa, a espada de Talin perfurou com extremo poder aqueles músculos poderosos, atravessando do meio da cabeça e chegando ao coração corrupto do minotauro. Tanto seu cérebro quanto seu coração alvejado, perfurado por um ataque brutal. Aquela mesma energia negra que reanimou o monstro confrontado pelo trio ao oeste se manifestou, mas não havia formas de trazer aquele monstro de volta.
O comandante sentiu quando o minotauro apertou o cabo do labris, como se tentasse com uma determinação sem igual erguer sua arma e lutar, mas era impossível. O ataque surpresa de Talin e Lena foi perfeito.
— Que determinação incrível — falou o comandante, admirado.
— Dispersa é realmente uma espada impressionante — a maga falou admirada com a facilidade que a lâmina perfurou o monstro. Em sequência, se aproximou do comandante — Castelo agora?
— Próximo a ele.
Com um olhar profundo, Talin refletiu sobre algo. Ele pode sentir onde estão seus companheiros graças a mana que deixou em seus corpos mesmo sem saber quem é quem. Daqueles nove que separaram-se, quatro estão imóveis a algum tempo, indicando que estão mortos ou aprisionados de alguma forma, e um deles simplesmente desapareceu a poucos minutos, como se tivesse ido para algum lugar fora de seu alcance. Afinal de contas, o que está acontecendo aqui?
Fale com o autor