Horizonte Eterno
2 Capítulo 2 - Além Da Luz Da Cidade
A equipe avançou numa formação enfileirada liderada por Talin. Cautelosos, principalmente aqueles na linha de frente, temerosos em relação a uma batalha que não dava sinais de começar. O silêncio do comandante e do elfo usuário das estruturas de mana, Elmond, indicam a ausência de inimigos. Ao menos, por enquanto.
O buraco tem em torno de três metros de circunferência e alguns pedregulhos espalhados pelo chão. As paredes praticamente perfeitas mostram o grande domínio da maga de terra sobre a magia, sendo necessário olhar com muita atenção para perceber os ‘’defeitos’’, rochas esmagadas ao extremo para cederem aquele espaço para eles.
Conforme caminha, o comandante percebeu que uma nova fonte de luz se misturou a de sua esfera, indicando que o final daquele enorme buraco está adiante. Gesticulou para seus companheiros sobre algo à frente e a cada passo, mais iluminado o caminho se torna, deixando apenas a escuridão do buraco para trás.
Saindo de lá, o ar ficou mais leve e a mudança de iluminação incomodou a visão de todos, alguns até mesmo colocam os braços frente aos olhos. Os verdes do comandante e os azuis de Lilith logo atrás voltam a ver de forma imediata, com a mais nova mostrando uma grande surpresa com o que se revela diante deles.
— Isso é real? Como algo assim pode existir aqui… — Lilith incrédula, representa todos presentes.
Diante deles uma gruta gigantesca com milhares de metros. Tão grande que surpreendeu a todos, mas não foi apenas ela que impactou seus corações. No teto dela uma espécie de véu de luz esverdeado ilumina todo o local, revelando as rochas nas extremidades e ocultando o que poderia estar acima dele, mas sem duvidas o mais surpreende do que foi revelado pela luz, é a cidade abandonada metros à frente.
As muralhas que a cercam remetem a um modelo semelhante as de Drakroth, altas e robustas, entretanto, tão desgastadas e envelhecidas pelo tempo que uma criança poderia ultrapassá-la sem problemas. Buracos e aberturas tão profundas que seria necessário um trabalho árduo para reparar. O sentimento que todos têm é de estarem diante de uma cidade real caída há muitas eras, e para confirmar isso, teriam de cruzar algumas boas dezenas de metros para chegarem aos portões violados do pequeno reino.
Ver algo tão absurdo atiçou a curiosidade e ansiedade dos presentes. Eles querem descobrir o que é aquele reino e o que tem nele de tão poderoso que conseguiu mexer nos monstros da superfície. Incontáveis perguntas surgiram em suas mentes e o desejo de ir até lá o quanto antes fez com que alguns dessem um passo adiante inconscientemente.
— A densidade da mana distorcida nesse lugar é pior do que lá atrás — Talin foi objetivo.
Jogou seu comentário em um alto tom de voz, despertando seus companheiros encantados pela novidade. Ele sabe como eles se sentem, pois apesar de sua postura, compartilha do encanto com eles.
— Sim — Elmond concordou com um olhar aflito — Como todo o local está impregnado com a mana distorcida, a gente só vai descobrir sua origem quando chegarmos perto o suficiente.
— É sério? Não estávamos contando com uma missão tão demorada — Anderson cruzou os braços, insatisfeito — Não trouxemos suprimentos para ficar aqui por dias procurando algo.
— Não será necessário procurar em todos os cantos da cidade — Elise caminhou até o comandante e recebeu seu olhar — Se as muralhas seguem o modelo de Drakroth, a construção da cidade também deve seguir.
— E o que isso significa? — Aether, o arqueiro ao lado de Elmond franze o cenho.
— As estruturas que guardam coisas importantes são bem específicas — Elise olhou para o companheiro — Preferimos estruturas com poucos andares, parrudas e com diversos espaços subterrâneos.
— Uma boa observação — Talin mostra um sorriso bem curto para a combatente — Sem dúvidas você é a sobrinha de Johan.
— Sim, Elise Altair — respondeu a lutadora com um sorriso curto, um sorriso que mal oculta a felicidade pelo reconhecimento de uma figura tão respeitada.
O comandante assente respeitosamente. Ele olha para a cidade adiante e passa a observar calmamente, reflexivo. Os guerreiros atrás percebem e fazem uso desse momento antes de embarcarem de vez no desconhecido. Alguns só queriam guardar aquela imagem na memória, outros acalmar seus pensamentos e corações antes de encontrar as adversidades no caminho. A imagem de Talin adiante e todos, logo ao seu lado, observando aquela cidade ganhou forma.
O momento de reflexão termina. Talin define sua abordagem, fazendo uso da magia de estruturas de mana, sua energia mágica levita sobre a palma de sua mão, em seguida é alterada para um símbolo mágico com a face de um corvo no centro. Ele coloca o símbolo próximo ao ombro de todos.
— Ao colocar minha mana em vocês, eu posso saber onde todos vocês vão estar. Quero usar isso para que a gente possa investigar lugares diferentes sem se preocupar — ele explicou — Lena, me mostre a cidade.
— Vai utilizar a magia de camuflagem? Se eu apenas nos suspender no ar, criaturas próximas vão nos encontrar facilmente — ela pontuou, e ele concordou.
Talin e Lena estão a muitos anos lutando por Drakroth. Juntos de Johan é sem dúvidas o trio mais eficiente do reino. Diversas missões fez com que adquirissem um grande conhecimento das habilidades e vontades um do outro. A magia de rastreio que ele utilizou em seus companheiros foi a terceira magia dos núcleos de mana, a que ele utiliza agora é a segunda. Talin saca sua arma.
Uma espada prateada com um cristal azul como o céu no centro do protetor do cabo. A lâmina prateada carrega em seu centro uma linha azul celeste que vai do cabo até a ponta da lâmina extremamente afiada. Ao tocar seu dedo indicador no cristal no cabo da espada, uma aura com a mesma cor do cristal se expande em volta dele e Lena, os fazendo desaparecer na frente de todos.
Alguns rostos curiosos no grupo, mas a maioria indiferente por já terem testemunhado eventos semelhantes. Um cobertor de mana foi colocado em volta do comandante e da maga de terra que após se entreolharem, seguem em direção a cidade.
Lena não precisou utilizar seu domínio de terceiro nível, mas uma magia básica que ergueu o solo abaixo dela e de Talin em um grande pilar com dezenas de metros. Conforme o pilar se ergue a dupla consegue ter uma visão mais ampla da cidade, assim como do que há além das muralhas devastadas.
Diante deles uma pequena cidade, 5km no máximo. Poucos telhados nas casas que parecem que vão cair a qualquer momento devido ao claro desgaste das estruturas. As paredes rachadas claramente tão fracas que um vento forte seria capaz de derrubá-las, e a ausência de vegetação transmite uma aura de que a vida não mais floresce naquele local.
Os olhos atentos dos líderes da expedição podem perceber algumas estátuas distribuídas em cantos específicos da cidade, algumas dívidas pela metade e outras irreconhecíveis pelas camadas de poeira as cobrindo, ainda assim, essas estruturas artísticas aparentam estar um pouco mais preservadas do que as casa que as cercam.
Talin com as palavras da jovem Altair em mente, buscou as estruturas referente ao que foi conversado por eles e encontrou. Usando a sua própria localização como sul, ao leste da cidade ele percebe uma torre de três andares que percorre quase 80 metros e ao oeste há uma torre semelhante.
No centro, o comandante tem a visão de uma espécie de prédio comercial antigo arruinado. Metade de sua estrutura já se encontrava no chão e o restante, logo cederia também. Esses foram os três pontos que mais o chamou atenção no início, mas seus olhos tão perceptíveis conseguem notar algo além do prédio, no extremo norte da cidade.
Tão arruinado quanto qualquer outra estrutura da cidade, um castelo. Um castelo erguido em rochas brancas que perdeu seu brilho e esplendor há incontáveis anos. Carregado por uma aura sombria, o comandante sente que seu objetivo final se encontra lá. A aura macabra o chama com tanta intensidade que ele dá um passo adiante como se estivesse hipnotizado, mas o seu outro passo nunca foi dado, pois a maga ao lado segurou seu braço, o despertando.
— Não dá para simplesmente caminhar até lá.
Após a frase, a maga apontou para o que a chamou atenção além das construções. A distância atrapalha em ver coisas pequenas, mas é perceptível criaturas pequenas caminhando pela cidade. Nenhuma maior do que uma pessoa normal, mas suas estruturas corporais e aparência feroz indicam o flerte com o perigo. Talin cerrou os olhos, e Lena então apontou para outro traço que achou curioso na cidade.
— Consegue perceber aquelas crateras? — ela perguntou. Alguns pontos da cidade possuem crateras com dezenas de metros, como se algo gigantesco tivesse caído por lá — Talvez… Essa luz sobre a cidade seja um… Portal?
— Impossível… Um portal desse tamanho apresentaria uma quantidade de mana muito maior — o comandante levou seus olhos para a grande luz no teto da gruta.
Lena assim como o comandante leva seu olhar para a fonte de luz sobre eles. Um estranho som ecoa e os olhos dos avaliadores crescem em receio ao perceber uma sombra colossal surgindo naquela luz. Algo se aproxima a uma velocidade assustadora.
— Lena, vamos sair daqui! — Talin alertou, mas não rápido o suficiente.
— UAAAAAAARGHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH —
Um grito misturado a um rugido descontrolado ecoou pelo subsolo assustando a todos. Da luz que impede de ver o teto do subsolo uma criatura enorme cai em direção ao comandante e a maga de terra. Era como um meteoro de escuridão que destruiria tudo em seu caminho.
Lena arregalou seus olhos e Talin a agarrou em um instante, saltando do pilar de terra que é devastado como se não fosse nada pelo monstro. Ainda em queda, o comandante percebeu pelo canto do olho um desfiladeiro além das muralhas ao leste. Ao chegar no solo, Lena observa com grande preocupação a cortina de poeira que se ergueu onde caiu o monstro.
O rugido se repete e Lena percebe a criatura atrás da cortina de poeira balançar os grandes braços duas vezes. Tamanho poder afastou rapidamente a poeira, revelando logo a identidade assustadora.
Um monstro colossal com mais de 10 m de altura, uma aparência que transcende a mera brutalidade. Seu corpo é coberto por uma pele que reluz como aço negro, aparentando ser uma armadura natural. Espinhos pontiagudos despontam ao longo de sua estrutura maciça, especialmente nas costas onde uma carapaça espessa e semelhante a um casco protege suas regiões vitais. Sua longa cauda também é coberta por espinhos poderosos. Suas patas traseiras são musculosas, mas ainda mostram ter a flexibilidade necessária para uma mobilidade decente naquele corpo que deve pesar diversas toneladas.
É fácil notar que a verdadeira arma do monstro são esses braços extremamente grandes, musculosos e poderosos equipados com garras capazes de trucidar qualquer coisa em seu caminho. Dentes imensos e irregulares preenchem sua boca, seus olhos são um vermelho intenso que parecem um portal que atrai a alma de suas vítimas.
Aquela representação de poder e brutalidade surgir de forma abrupta na frente da maga elemental de terra trouxe choque tremendo. Seu rosto ficou pálido e ela paralisou de medo. Porque havia algo tão poderoso e assustador lá embaixo?
O comandante reconheceu o poder daquela criatura e sua ameaça, mas o pavor que abraçou sua companheira não chegou até ele. Na guerra contra Alidomani ele testemunhou figuras de ameaça semelhante ou superior, e por isso sua mente e coração já estão prontos.
— Lena! — Talin gritou, balançando o ombro de sua companheira.
— Talin, perdão, eu — antes que a maga respondesse, o comandante a soltou.
— Não temos tempo para isso — o comandante a olhou nos olhos, como se transmitisse seu senso de urgência para ela. E ela compreendeu, se recompondo no mesmo instante do grande susto.
Ele levou sua mão à testa e após concentrar brevemente, sua mana celeste escapa pelos olhos, revelando o uso de seu poder. O comandante é um grande especialista no núcleo da mente, tendo a comunicação como seu foco, no terceiro nível. Com a magia de agora, manda seus pensamentos e memórias do que visualizou diretamente para a cabeça de seus aliados próximos, eles agora tem a imagem da cidade que Talin viu em suas mentes.
— Não vamos enfrentar esse monstro. Evitem o máximo de batalha que puder — as orientações são passadas enquanto o monstro parte em direção do comandante e da maga de terra — Investiguem as torres e o castelo. Lidando com essa coisa, iremos nos reunir com vocês. Vão!
Aquele ataque repentino causou um grande caos na mente dos guerreiros, uma hesitação que persistiu por alguns segundos mesmo após as orientações telepáticas do comandante, mas passos específicos os fizeram reagir quase que instintivamente. Elise deu o primeiro passo rumando ao portão e em sequência, os outros foram logo atrás. Os olhos de todos persistem sobre a enorme fera que tem toda sua atenção no comandante e em Lena que acabaram sendo revelados após a destruição do pilar.
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