Horizonte Eterno

6 Capítulo 6 - Entardecer


Notas iniciais
Amigos, amigas. Mais um capítulo da história para vocês!

Não parecia natural a forma com que o vento circulava em Luvelin, apesar disso, ele existia. De tempos em tempos, a poeira voava e os pedregulhos se moviam sutilmente. Essa brisa sombria contrastava com o desagradável som de um punho socando um rosto desfigurado, alvo de ódio e dor.

Os cabelos escarlates se misturaram com o sangue em sua face. Ele não pertencia a ela, mas ao minotauro no chão. O líquido vermelho se concentrou principalmente nos punhos exaustos de Lilith. Socou incontáveis vezes aquele maldito que abaterá seu companheiro, e apesar disso, não parecia o suficiente.

— Você…

Sua voz falhou. Em meio às lágrimas, ela mal consegue erguer os seus braços. Não por ferimentos, mas por exaustão de tentar abafar a frustração em seu coração no monstro. O azul de seus olhos, escurecidos pelo luto e pela fúria já nem conseguem mais focar no alvo. Dessa vez, não há uma única magia ou maldição no mundo que colocasse aquilo de pé novamente.

O semblante do curandeiro expressava um misto de dor e preocupação. Sua tentativa de cura foi rejeitada por uma maldição na lâmina do machado, impedindo sua cura. A face de Anderson ficava mais pálida a cada segundo.

— Eu… Eu vou dar um jeito nisso, Anderson…! — ele tenta novamente. Desenha outra vez um símbolo mágico no ar e utiliza seu cajado para conduzí-lo até o ferimento. Entretanto, sua cura é repelida novamente por uma espécie de bruma negra, que vaza das feridas. Ela é como a névoa que circunda o subsolo desde que chegaram. — Como que a magia da morte no machado… Pode ser mais forte que a minha de vida e alma…?

Théo fica mais abalado ao ver o evento se repetir. O minotauro portava um machado forjado com propriedades de magia da morte, e quem o fez tinha uma magia muito superior à dele. Diante disso, o curandeiro não conseguia exercer sequer sua única função. Sua cura era inútil contra a maldição aplicada pelo corte.

— Anderson… Eu vou… eu vou tentar de novo… Vou me focar mais dessa vez… — antes que pudesse fazê-lo, respirou fundo, buscando acalmar sua mente e conjurar a magia com mais mana. — Droga… Isso não pode estar acontecendo… Como… Como eu posso ser tão inútil…? — o curandeiro abaixa a cabeça frustrado.

Anderson nunca se sentiu tão fraco em sua vida, foi frustrante e doloroso ver seu companheiro tentar curá-lo e falhar miseravelmente. Algumas memórias de batalhas e de discussões com companheiros vieram à tona. Se sentiu deplorável e abriu um sorriso amargo.

— Sinceramente… Se eu soubesse que as coisas acabariam assim, eu não teria vindo — um claro tom de descontentamento, mas Anderson consegue esconder bem seu medo do destino que o aguarda.

— Não desista ainda… Eu ainda tenho mana…! — Théo ergueu a mão para repetir seu feitiço, mas Anderson, com o pouco de força que lhe restava, ergueu sua mão o interrompendo.

— Sua mana vai acabar em vão desse jeito… Guarde isso para quem ainda... Pode ser salvo — Anderson deixou um gemido de dor escapar seguido de uma tosse. O brilho em seus olhos enfraquecem um pouco, e ele leva a atenção até a companheira — E você… Venha cá logo… Prefere acabar com suas energias… Batendo num cadáver?

Os punhos de Lilith doíam, mas não tanto quanto seu coração. Théo falhou ao tentar recuperar as feridas de Anderson da primeira vez e isso só atiçou ainda mais sua raiva pelo minotauro. Agora que ele falhou novamente, o que ela vai golpear? Como ela poderia negar o que está diante de seus olhos?

A morte é a mais absoluta das verdades.

Seus olhos azuis lutam para conter as lágrimas de emoções que sua portadora não tem costume de mostrar. Emoções as quais ela não sabe lidar. Hesita, olha para o chão se recusando a aceitar que Anderson pudesse não ter mais salvação. Lutaram algumas vezes juntos e em meio às farpas trocadas sempre foi divertido estar na mesma equipe que ele. Um turbilhão de pensamentos e memórias preenche sua mente frágil.

— Eu não tenho o dia todo, pirralha — Anderson nunca sentiu seu braço tão pesado quanto agora, isso num simples gesto chamando a ruiva para perto — Venha…

Lilith caminha até eles e se agacha ao lado de Théo. Encara o curandeiro sentindo que ele está tão abalado quanto ela, não passou tanto tempo ao lado de Anderson, mas o fato de não estar conseguindo curá-lo certamente pesa em sua cabeça. A palidez do combatente se agrava a cada segundo, o mago se sente culpado e fraco. A liberta por sua viz, briga com o desejo do mundo de levar uma pessoa querida por ela.

— Libertem Drakroth, as crianças precisam ver as campinas… — a expressão do guerreiro ficou mais suave com essas palavras, talvez pensar nessa imagem tenha o acalentado um pouco.

Théo segura a mão do combatente e junto de Lilith, ficam em completo silêncio ouvindo Anderson falar, a voz dele se torna cada vez mais carregada de emoções. Sua alma se consola ao falar do que gostava e o que queria que acontecesse. Seus sonhos, ambições e visão de mundo. Em minutos de silêncio, Lilith entendeu muito mais sobre Anderson do que entendeu durante todo o tempo que passou ao lado dele.

Conforme fala suas últimas palavras, sua mente começa a desenhar o cenário das campinas além da capital. Uma visão de si mesmo mais jovem com um grande machado caminhando por elas, um sorriso no rosto ao ver como o sol completava a paisagem com crianças brincando ao fundo. Imaginou o vento das campinas e aquela liberdade que ele tanto ansiava em chegar às crianças do reino.

Por fim, os olhos de Anderson perdem seu brilho, ficando opacos e sua voz, que enfraquecia a cada palavra, cessou. O silêncio preencheu o ambiente. O peito de Théo e Lilith doeu, principalmente, ao perceber o quão pouco sabiam sobre Anderson. Théo, pela falta de tempo e Lilith, pelo pouco esforço que fez em entender mais sobre o seu amigo. Se tivessem passado menos tempo discutindo, certamente, memórias diferentes ocupariam sua cabeça agora. Uma confusão surgiu em sua mente sobre ter sido boa ou não sua relação com Anderson.

Incapaz de conter as lágrimas, ela abraçou as próprias pernas e chorou com a cabeça escondida em seus joelhos. Um choro reprimido e abafado pela situação. Agora que nada podia ser feito, ela pensava no que poderia ter sido diferente.

Théo abaixa a cabeça e engoli seco. Por mais que estivesse se sentindo culpado agora, sabia que precisava seguir em frente. Ao olhar o corpo de Anderson pela última vez, ele percebeu que ainda estava de olhos abertos. Ao menos isso, ele pensou que poderia fazer por Anderson para que pudesse descansar em paz. Fechou seus olhos com delicadeza. Respirou fundo mais uma vez e voltou para a liberta. Colocou uma mão no ombro dela, que passou a encará-lo. Apesar das circunstâncias e dos sentimentos de culpa, ele se esforça em entregar um sorriso para ela. Um sorriso de consolo que ele não podia entregar a si mesmo.

— Temos que seguir em frente, Lilith.

— Sim…

Afinal, eles ainda estavam em um lugar desconhecido, sem saber o que os esperava além da construção.



— Eu me recordo do belo céu azul na superfície. Naquele período, eu fui servo de uma das famílias nobres que me deixou responsável por administrar seus tesouros. Apesar de termos muitos inimigos, sempre conseguimos lidar com eles por conta de nossa deusa guardiã, Themyra.

— Mas, um dia, ela repentinamente caiu morta no centro de Luvelin, e nós descobrimos o quão fracos éramos em relação ao resto do mundo. Sem a proteção de nossa deusa guardiã, nossas fronteiras foram violadas e nossas tropas morreram aos montes. Estávamos perdidos e sem esperanças, mas o Rei Claus encontrou a solução.

Uma pausa dramática, concedendo aos ouvintes o tempo necessário para absorver as primeiras impressões do que estava sendo repassado por Aether.

— Um Deus Vermelho se mostrou para nós. Ele concedeu ao Rei Claus o poder para proteger Luvelin. Todo o exército ficou muito mais poderoso e o rei nem se fala. Nem mesmo uma tropa de cem homens fazia frente a ele, mas… algo estava estranho.

— Não havia mais morte natural para nós. Foi chocante ver os velhos definhando ao ponto de suas carnes apodrecerem em vida e continuarem de pé, mesmo depois de virar apenas ossos. O rei se isolou no castelo e uma estranha tempestade de areia cercou todo o reino, impedindo que saíssemos.

Foi inevitável para o trio não fazerem uma expressão desconfortável mediante a descrição do esqueleto. É bizarro imaginar alguém se decompondo em vida. Mediante a isso, ainda havia a reflexão a respeito das atitudes do rei.

— Mais tarde, finalmente o Deus Vermelho retornou. Ele interagiu diretamente com o Rei e foi nesse dia que o grande círculo de luz surgiu sobre nós, também neste dia, Luvelin afundou na terra. Desde então, eu fiquei dentro desta torre — o elfo arqueiro terminava de ler a história pontuada por Happo, colocando a todos num momento de reflexão profunda.

Elise ficou intrigada em relação ao deus vermelho mencionado por Happo, afinal de contas, ela se recorda de uma criatura semelhante em sua infância. Seus olhos roxos se fixaram em Aether que ao notar já reservou sua atenção para escutá-la.

— Sobre esse Deus Vermelho… Ele tem um par de chifres abertos na cabeça? Seu corpo é como se fosse uma armadura de metal negra fundida em seus músculos?

A pergunta de Elise soou extremamente específica para Aether, mas ele a repassou para o esqueleto que apenas assentiu com a cabeça. Os olhos da combatente ficam surpresos ao considerar a possibilidade de se tratar realmente daquela figura que dizimou sua família. Estreitou os olhos com aquela imagem lhe invadindo a mente.

Uma enorme fortaleza devastada. Fogo e escombros espalhados por todos os cantos, o barulho de soldados batalhando contra monstros e ao fundo, distante de tudo e todos, uma figura intocável. Com dezenas de metros, um par de olhos vermelhos encarando tudo com um brilho indecifrável. Uma divindade se divertindo com os esforços daqueles valentes guerreiros em proteger um legado, assim como uma pessoa capaz de se divertir com uma guerra entre formigas de formigueiros diferentes.

— Como… ele se chama?

— Ele nunca se apresentou, apenas o chamamos de deus vermelho pela sua aparência.

Essa informação diminuiu a empolgação de Elise, provavelmente Happo sabe sobre essa figura tanto ou menos que ela. Aether e Elmond ficaram curiosos, mas o fato é que se fossem perguntar sobre esse assunto, o fariam outra hora já que o foco da missão é outro.

— Além desse deus, parece que o Rei Claus é o centro do que está acontecendo. Se falarmos com ele, talvez possamos resolver tudo isso — Elmond pontuou com algumas expectativas.

Quando Aether repassou essas informações para o esqueleto, ele ficou reflexivo por alguns bons segundos antes de responder. Suas ações carregam uma emoção nova.

— Eu quero pedir um favor a vocês.

O trio ficou em silêncio. Um misto de curiosidade e receio pelo que Happo poderia pedir.

— Matem... Matem o Rei.

O pedido do esqueleto surpreendeu o trio, e isso é porque mesmo que eles possam entender que esses monstros são remanescentes de uma antiga civilização, eles ainda não pararam para refletir sobre como tem sido ‘’viver’’ nessa situação, nesse cenário moribundo.

— Você quer que o rei morra? — Elise perguntou, surpresa — Por que?

— Eu não sinto fome, sono, vontade, nada. Tudo isso se perdeu há milhares de anos, e tenho certeza que todos que estão presos aqui se sentem da mesma forma. Já… Vivemos demais. Vocês não fazem ideia de quantos enlouqueceram, e pra falar a verdade, até mesmo eu já posso ter perdido a razão.

O relato de Happo leva o trio a se lembrar do comportamento dos esqueletos que encontraram pelo caminho. Aquele sentimento melancólico e solitário que é predominante na cidade. O fato é que Luvelin não está morrendo, ela já está morta a milhares de anos, mas a maldição congelou todos ali. Eles não estavam vivendo, estavam acorrentados, tendo o momento de suas mortes prolongadas por milhares de anos.

— Happo… Não existe um cenário em que vocês possam voltar à superfície?

A pergunta do elfo mago trouxe novamente uma pausa para a conversa, um momento em que o esqueleto está refletindo. A pergunta foi algo tão inocente que se o esqueleto tivesse um coração, ele certamente doeria agora.

— Dessa forma? Eu agradeço a consideração. Mas vocês não devem hesitar frente a Claus.

Após essa resposta, o silêncio voltou entre eles. Novamente um momento de reflexão que colocou todos num clima tenso, mas o esqueleto logo voltou a marcar palavras no livro, finalmente mudando o curso daquela conversa.

— Tem algo que quero mostrar a vocês, talvez possa ajudar.




Com o minotauro derrotado, a dupla não teve problemas em passar pelo portão enferrujado e se colocar dentro da grande torre. O semblante deles ainda é tenso, entristecidos pelo que ocorreu a momentos atrás. A liberta se vê lutando contra o sentimento do que podia ter feito diferente na batalha, enquanto o Drakrothiano lamenta a fraqueza de sua magia.

Diferente da equipe que explora a torre leste que tinha formas eficientes de iluminar o ambiente, Théo e Lilith são mais limitados, restando ao usuário da magia de vida e alma a exalar sua aura mágica para tentar iluminar ao redor. Uma fraca luz branca, mas que ainda assim, é melhor do que estar completamente cego. O interior é ainda mais estranho do que a outra torre.

Quer dizer, teias de aranhas, mofo e poeira estão espalhados por todos os lados, mas diferente da outra torre, há um buraco enorme onde deveria ser uma das portas logo à frente do portão enferrujado. A dupla ficou intrigada, qualquer um pode ver que não era algo natural.

— É como se alguém tivesse simplesmente explodido essa porta — concluiu o mago.

Lilith foi à frente, surpreendendo o companheiro.

— Você vai só entrar ai?

Ela não respondeu de imediato. Ao se aproximar do buraco percebe que uma parede além da porta foi estourada da mesma forma. Vira-se para o companheiro e o chama com a mão.

— Acho que alguém estava impaciente e não queria ficar dando voltas pela torre.

Quando Théo se aproximou entendeu o comentário da liberta. Mas alguém só faria isso tendo certeza de onde está seu objetivo. Colocou uma mão no queixo reflexivo sobre a ordem desses eventos, afinal, a pessoa que estourou essas portas e paredes fez isso antes do minotauro chegar ou depois? Se foi depois, ela não precisou enfrentá-lo?

Deixando essas perguntas no ar, a liberta deu o passo à frente passando pelo buraco onde deveria ser a porta, Théo a acompanhou e os dois perceberam ao mesmo tempo uma dupla de esqueletos estirados no chão, ao menos o que restou deles. Diferente dos esqueletos caídos na cidade, esses restaram apenas parte das costelas e crânios rachados, provavelmente alvos da explosão…

Théo se aproximou de um deles, tocando-lhe para ver se haveria alguma reação, mas nada. A vida já havia abandonado aqueles seres, diferentes da grande maioria que encontraram durante o caminho. As dicas eram extremamente superficiais, mas o mago da vida e da alma, estava criando uma forte crença de que o que causou essa ruptura na parede foi algo recente comparado a tudo o que já presenciaram lá embaixo.

Essas informações novas conseguiram o tirar de seu estado de luto por hora, colocando sua mente para trabalhar e o deixar num estado reflexivo. Lilith por outro lado mantém sua atenção no próximo buraco pelo qual passariam, curiosa sobre o que poderia estar mais à frente.

— O que você acha que causou esse estrago aqui dentro? — perguntou Théo, voltando-se para a companheira.

— Talvez um destruidor?

O destruidor a que Lilith se referia é uma espécie diferente de ‘’atirador’’ que existe no horizonte. Enquanto muitos usam arcos ou bestas, destruidores utilizam bombas e derivados. Alguns conseguem ser mais destrutivos do que magos.

— Hmm… Pior que faz sentido. Talvez outros grupos tenham vindo aqui antes.

— Mas como? Só chegamos aqui graças à magia de Lena. Não é um local de fácil acesso

Essa situação fez Théo se lembrar do momento em que ficou preocupado com teorias superficiais mais cedo, e Anderson o confortou falando para não perder tempo com teorias sem tantas evidências. Isso murchou seu semblante, entendendo que novamente estava fazendo a mesma coisa. Respirou fundo, sabendo que precisaria deixar essa questão pra outra hora.

— Se seguirmos em frente, talvez encontremos nossas respostas.

Essa postura de Théo fez a liberta encará-lo intrigada, ele pareceu um pouco mais assertivo do que se mostrou até então.

— ... Certo, vamos.

Dessa forma a dupla passou pelo próximo buraco, seguindo o rastro de destruição que certamente tinha um destino final. Durante esse avanço perceberam mais alguns esqueletos destruídos pelo caminho, assim como insetos escondidos nos mais variados lugares. Boa parte da caminhada acabou sendo incômoda por conta de que apenas seus passos puderam ser ouvidos, ecoando vários metros além do que eles desejavam. Não queriam se deixar levar por um falso senso de segurança, mas parecia mesmo que não havia nada que pudesse ameaçá-los dentro daquela torre.

Ao atravessar o último buraco, se encontram em um corredor que tem no seu fim um grande portão de metal aberto. Théo quase que no mesmo instante ergueu seu cajado de forma defensiva, ação que alerta a liberta ao lado que fica da mesma forma.

— O que foi? — ela pergunta.

— Tem uma energia muito poderosa além daquele portão, e eu não consigo descrever o que ela é.

O semblante preocupado do curandeiro acaba deixando a liberta receosa, afiando seus olhos em direção ao portão.

Apesar de estar aberto, não era possível ver o que estava além do portão que emitia de seu interior uma poderosa luz branca. Eles até pensaram em recuar por um momento, mas apesar dessa estranha energia que Théo citou, absolutamente nada além disso vinha de lá. Instintivamente, Lilith não se sentia em perigo naquela distância.

— Eu vou me aproximar um pouco.

— Nem pense nisso — Théo alertou — Não sabemos o que pode estar além dele.

— Eu não planejo passar por ele, apenas quero ver se é possível enxergar o que está além daquela luz. Se eu sentir qualquer perigo vou recuar — ela fita o mago, determinada — Me dê cobertura.

— Se você se aproximar demais, eu irei correr até você.

Lilith pôde compreender que a fala de Théo foi na intenção de não fazê-la se colocar em risco, mas ela não gostou da forma que isso foi colocado sobre seus ombros.

— Não jogue a responsabilidade de sua vida sobre mim.

Seu tom de voz foi mais seco do que planejava e isso atingiu o mago como um soco. Ela havia acabado de perder um amigo, então é claro que não iria aceitar bem tais palavras. Théo abaixou a cabeça.

— Desculpe.

A liberta começa sua aproximação do portão que parece reagir com uma estranha ventania que corta o espaço em um instante. Um vento frio como se algo tivesse despertado e Lilith parece sentir esse despertar, mas… Ela não sente medo, pelo contrário, está atraída. Algo fascinante e além de sua compreensão, está chamando-a.

— Venha até mim, liberta.

Uma voz tão suave quanto o vento, tão distante quanto o céu da terra.

A guarda que a Liberta levantou anteriormente cedeu com seus braços caindo ao lado do corpo. Théo ao fundo percebeu essa mudança de postura e imediatamente tentou se aproximar, mas novamente aquela ventania entrou em ação, porém dessa vez ela fez uma curva frente a liberta e foi apenas em direção ao curandeiro que foi jogado para trás.

— Lilith!

Ele gritou e ela o olhou por cima dos ombros com um olhar distante.

— Está tudo bem, ela só quer falar comigo.

Théo não entendeu o que ela queria dizer, mas principalmente, sabia que aquele comportamento não era nem próximo do que sua companheira mostrou até então. Uma magia de influência mental… Ele se levantou para conjurar uma de suas magias, mas o vento novamente soprou com tamanha força em sua direção que ele teve seus olhos fechados, e quando os abriu novamente, ela não estava mais lá.

Ao final do corredor apenas o portão fechado.

E ele novamente não pôde fazer nada.


Notas finais
Existência O núcleo de Existência abrange a vida, a alma e a morte. Magos com esse núcleo possuem habilidades que tanto restauram quanto destroem. Eles podem abençoar aliados com vantagens ou prejudicar inimigos com diversas desvantagens.