Horizonte Eterno
10 Capítulo 10 - Avanço Implacável
Por conta da distância entre Théo e os outros dois, dessa vez ele teve de mirar sua magia de suporte. Apontou seu cajado e dele, dois pequenos orbes de mana foram disparados, reduzindo o peso de todos os itens que seus aliados carregam. Após uma última encarada, Théo olhou ao redor e reconheceu uma casa com dois andares, partindo rapidamente em sua direção.
Astéron correu fazendo uso de três membros. A cada passo ele se tornava mais enfurecido por ter Talin mais próximo. Casas e escombros são completamente esmagados por sua tremenda força e seu rugido ecoou mais uma vez. Seu braço direito quebrado por conta da queda, está mais recolhido sendo um fardo que ele carregaria durante toda a batalha.
Claro que essa fraqueza óbvia não passaria despercebida pelos olhos do comandante ou da combatente. Talin correu numa diagonal à sua direita, buscando a atenção do monstro e observando isso, Lilith avançou pela esquerda. O monstro focou-se no comandante e mudou sua trajetória de destruição.
— Venha — Talin o convoca.
Astéron se atirou em sua direção golpeando com uma enorme garra. Talin usou uma casa de apoio para saltar sobre ela e girou todo seu corpo no ar, buscando o impulso necessário para realizar um corte no braço do monstro. Sangue jorrou, mas de um corte tão irrelevante que lembrará a picada de um mosquito.
O monstro virou-se de uma vez em direção ao comandante, o que permitiu que Lilith tivesse todo o tempo do mundo para pegar impulso e atacar com suas enormes garras. Uma sequência de cortes de todas as direções lembrando uma rede vermelha atacou o braço ferido do monstro, mas tudo foi tão irrelevante quanto o ataque de Talin. Atravessou aquela pele, mas apenas o suficiente para fazer o sangue jorrar.
Astéron levou rapidamente seu olhar até ela, que acabou de retornar ao solo. Em um rugido irritado, bate seu braço esquerdo contra o chão e arrasta uma grande quantidade de detritos em direção a liberta, que fazendo uso de sua agilidade, desapareceu como um vulto vermelho entre os becos.
A joia no cabo da espada de Talin brilha pela concentração de mana, tendo seu poder aumentado. Não sei se é o suficiente, mas… O comandante vê o monstro dar um giro em torno do próprio corpo balançando a cauda em sua direção. Talin salta e testemunha uma casa ser reduzida a apenas escombros pelo monstro.
Assim que ele pisou no solo, avançou a toda velocidade contra Astéron que se recompunha do ataque que acabou de dar. Essa abertura foi o suficiente para que o comandante saltasse em sua direção e num corte de baixo para cima, abrisse uma ferida em seu ombro. Talin apertou os dentes em frustração.
Não foi profundo o bastante! E para piorar, sempre ter de saltar para atacar o monstro é terrível, pois no ar é difícil de se esquivar e como se soubesse disso, o monstro abriu sua mão e atacou em direção ao comandante que brandiu novamente a espada, mas dessa vez não na intenção de ferir o colosso.
Lendo o trajeto do ataque, Talin realizou uma rápida estocada naquele enorme mão, tendo o impulso necessário para se afastar antes de ser pego. A liberta observou de um dos becos reflexiva, a letalidade de seus ataques ainda não eram o suficiente. Se encontrava nervosa, afinal, nem mesmo o poder que Temyra despertou em seu corpo seria o suficiente.
Lilith sempre preferiu transmutar apenas suas garras, pois sua mente ficava nublada quando ela ia além, mas talvez… Agora, esse não fosse o caso. Era uma aposta prematura, mas…
— Se der certo, teremos muito mais chances de sucesso…!
Respirou fundo e a partir das pontas dos seus dedos uma espécie de segunda pele começou a sobrepor a sua natural. Uma pele mais rígida que se expande lentamente até seus ombros. A liberta sente sua cabeça chiar e um ar mais selvagem toma conta de seu olhar, até mesmo seus cabelos recebem um aspecto mais selvagem. Seu corpo fica mais pesado e apertado por conta da pele extra abaixo das braçadeiras da armadura. O cheiro apodrecido de Luvelin se torna mais forte e apesar do chiado inicial…
Sua mente está tão clara como nunca.
Um sorriso divertido brotou em sua boca.
Ao sair correndo do beco, a liberta percebeu Astéron ainda focado em abater o comandante que mostra toda sua habilidade em evitar os ataques com as mais diversas formas de esquivas, usando até mesmo estruturas para se esconder. Apesar de se sentir mais pesada, Lilith não perdeu nenhum pouco da sua velocidade, encurtando rapidamente a distância entre ela e o colosso da destruição em um instante.
Ela saltou ao se aproximar e com muita força atacou o braço ferido de Astéron. Dessa vez o sangue jorrou de forma intensa, e o monstro grunhiu de dor a encarando. Ainda não! E ela golpeou novamente aumentando a profundidade dos cortes daquele alvo.
Foi uma grata surpresa para o comandante ver que Lilith consegue causar algum dano a mais no monstro. Entretanto, no momento que Astéron bate com seu braço esquerdo no solo e agarra diversos distritos, o mago da mente compreende que ela cometeu o mesmo erro que ele a instantes atrás.
— RECUE, LILITH!
Tarde demais.
Ela arregalou os olhos.
Astéron golpeou de cima para baixo num gancho desproporcional, levantando terra e concreto do solo. Numa demonstração incrível de reflexo, Lilith dobrou o corpo de forma que a pancada monstruosa acertou-lhe apenas o ombro e metade do rosto de raspão. Seu elmo voou e a ombreira dobrou-se apertando seu ombro profundamente.
Ela grunhiu de dor enquanto diversas pedrinhas acertaram seu corpo, sentindo pequenos impactos e cortes se espalharem por ele. O choque do ataque a fez perder a consciência por um breve momento, quando retornou, Lilith estava em uma curta distância e por pouco, conseguiu se mover antes que caísse de cara nos telhados. Só teve tempo de girar seu corpo e cair de costas, rompendo a superfície da casa e caindo lá dentro.
Théo observou esse ataque brutal de longe, sentindo um enorme terror tomar conta da situação. Apesar disso, sua preocupação foi maior, ainda mais ao perceber dois daqueles monstros de olho único se aproximando da casa onde a Liberta foi jogada. O comandante não poderia socorrê-la já que a besta incontrolável se volta novamente para ele.
Que cenário terrível. Talin sabe que sozinho não poderia vencer Astéron, então, o que teria de fazer agora é sobreviver até que Théo fosse até Lilith e a curasse. O comandante apontou sua espada na direção do monstro que agarrou um pilar de concreto de uma das casas ao redor. O pilar foi arremessado em sua direção batendo algumas vezes no chão, dificultando ler sua trajetória.
O mago da mente usa uma das casas como cobertura, vendo o pilar se espatifar ao colidir com ela. Respirou fundo exigindo mais paciência de si mesmo, como não tem a letalidade necessária para acabar com o monstro, teria de contar com Lilith que mostrou ataques mais efetivos a momentos atrás. Através da magia de rastreio, sabe que Théo está próximo dela.
Ainda que tenha ajeitado o corpo antes de bater na casa, a liberta sentia-se completamente destruída. A segunda pele que surgiu em seus braços se rachou e o sangue escapando por essas rachaduras mostra a destruição de um ataque do colosso.
Ela não deveria ter saltado tão displicentemente contra ele.
Praticamente enterrada no solo de terra, gemeu de dor ao sentir o metal de sua ombreira tão apertado em seu ombro. Seu corpo está mais pesado, mas diferente de antes que era por ter ganhado alguma vantagem com a transformação, agora o peso é uma punição pelo erro em combate, e ela teve de superá-lo para sair do chão.
Ao se colocar de pé suas pernas tremeram e sua consciência se perdeu por um segundo, a fazendo abaixar a cabeça e se surpreender com a quantidade de sangue no chão. Não apenas dos braços, mas do enorme corte agora percebido ao lado direito de seu olho e talvez por ter percebido isso, suas pernas fraquejaram tanto que ela foi de joelhos ao chão.
— Droga… Eu estou tão mal assim? — ela levou uma mão ao corte.
Conseguir tamanho aumento em seu poder foi ótimo, mas Lilith não consegue entender seus limites atuais, fosse para o bem ou para o mal de seu corpo.
Seu momento de reflexão foi interrompido quando dois daqueles cães atravessaram a janela aberta do local, como carniceiros que percebem um alvo enfraquecido. Seus enormes dentes irregulares batem um no outro emitindo um barulho agoniante, enquanto o único olho verde brilha numa intenção assassina absurda.
O susto pareceu fazer o sangue de Lilith correr mais rapidamente, a forçando se levantar e ficar em posição de batalha. Os cães avançaram em conjunto, saltando em direção a ela com aqueles enormes dentes se fechando como guilhotinas.
Eles pareciam muito mais velozes, e ciente de que não conseguiria se defender, ela preferiu focar toda sua atenção em um só deles. O alvo de seu foco foi interceptado no ar, perfurado no pescoço. Em compensação, o dente do outro trincou em seu pescoço, porém mais por sorte do que qualquer coisa, a movimentação acabou levando aquela aberração a cravar os dentes em sua ombreira amassada.
Ela gritou de dor. Foi como se diversas facas atravessassem facilmente a armadura e estocassem seu ombro continuamente, imersa em dor, seu corpo caiu para trás com o cachorro sobre ele. Quando os dentes se afastaram, ela instintivamente sabia que ele tentaria alvejar seu pescoço novamente.
Numa fração de segundos a guilhotina desceu sobre o pescoço da liberta, mas as garras ensanguentadas da ruiva foram mais rápidas atravessando a cabeça do alvo num instante. Ele caiu morto sobre ela, misturando seus sangues e sua visão escurecer.
Ofegante, Lilith sentiu sua visão piscar algumas vezes antes de Théo aparecer no seu campo de visão. Junto disso, o peso do corpo do monstro sobre ela havia desaparecido, indicando que o cão foi retirado.
— Droga, Lilith… Você.. Vai ficar bem!
A liberta reconheceu a preocupação estampada em Théo, mas não havia hesitação alguma nele. Uma mão sobre o cajado e a outra sobre a barriga da combatente e através daquele ponto, a cura se espalhava em ondas para todo o corpo. Mesmo a magia mais básica de cura tem um poder incrível, mas o custo para elas é extremamente alto.
— Você tem que se juntar logo ao comandante. Ele não consegue atravessar a resistência de Astéron.
Lillith sente as ondas de curas correrem para dentro de seu corpo, e é extremamente rápido a forma que a dor é reduzida, assim como a forma que seu corpo recupera as forças. Ela se senta enquanto o companheiro continua a magia.
Os ferimentos dela foram tão intensos que o mago sentiu uma boa parte de sua mana ser drenada, e isso significava que se os ferimentos da ruiva fossem um pouco mais graves, ela provavelmente morreria antes de receber qualquer cura…
Usar tanta mana o deixou cansado, mas ele escondeu bem isso.
Com a cura finalizada, Lilith se colocou de pé removendo as ombreiras de sua armadura.
As palavras de Théo sobre a situação difícil de Talin ficaram em sua mente, afinal ela também está sentindo que o dano causado é mínimo. Ela… Precisava de mais poder, mas isso significava se tornar mais imprudente em batalha também, se desligando mais dos limites de seu corpo. Escondendo o receio, ela olhou para o curandeiro da equipe.
— Théo, quanto mais você aguenta curar?
— Se forem ferimentos desse nível, duas vezes.
— Tentarei não fazer você trabalhar tanto.
Théo entendeu a piada, dando um sorriso leve para a liberta. Encerrando a interação, ela salta pelo buraco no teto da casa. De lá, observou o comandante utilizando toda sua habilidade em escapar dos ataques contínuos, mas lentos do monstro.
Se engana quem pensa que ele tem controle da situação, afinal, um único erro poderia o levar à morte. Mas nesse campo de batalha, parece que ‘’controle’’ é algo que deve ser completamente esquecido.
— Eu não sei o quanto consigo transformar, mas vou apostar… Confiar que Temyra aprimorou minha forma bestial além de qualquer outra — pensou consigo mesma, tentando reforçar suas convicções.
Libertos têm a capacidade de transmutar seus corpos para formas bestiais, mas a custo de sua consciência quando jovens, afinal, não estão preparados para a tensão em seus corpos. A punição final para aqueles que o forçam além do que conseguem, é simplesmente apagar no meio da batalha.
Se Lilith perder a consciência na frente de Astéron, ela será varrida da existência.
O controle sobre a transformação vem de acordo com a idade, e Lilith é muito jovem para transformar além de suas garras. Ao menos foi assim até hoje, antes de Temyra mexer em seu corpo.
A ruiva separou levemente as pernas e esticou os braços ao lado do corpo, abrindo ao máximo suas mãos com as garras amostras. Ao ranger os dentes sentiu uma energia diferente da mana, algo que esquentou seu sangue que passa a circular muito mais rápido, acelerando também seus batimentos cardíacos. Seus dentes caninos se tornam maiores e sua pupila se torna quase imperceptível, se perdendo ao azul intenso dos seus olhos.
Aquela segunda pele volta a aparecer a partir das pontas de seus dedos, se espalhando como uma chama que consome rapidamente seu alvo, cobrindo logo os braços e os ombros da liberta, mas ela não se limita até esse ponto. Essa segunda pele desce pelas costas de Lilith, passando por sua cintura e chegando até as pernas.
Diferente da parte superior que Lilith se livrou de algumas peças de armadura, as pernas ainda estavam completamente cobertas e ela sentiu a parte inferior de seu corpo apertada. Uma escuridão cobriu sua mente e o cheiro de podridão da cidade invadiu ainda mais intensamente seu sentido, a deixando tonta.
— Lilith? — dentro da casa, Théo não consegue ver claramente o que se passou com sua companheira.
Mas bastou um olhar de relance da liberta para ele perceber a mudança drástica na feição e presença, algo que o deixou desconcertado. Foi um sentimento muito pesado ver aquela figura normalmente tão orgulhosa com um olhar tão semelhante ao de um animal feroz.
Théo percebe que ela não se importou em olhar para ele naquele estado, ela não se importava em ser vista assim. Talvez essa fosse a verdadeira essência de um liberto, perder a razão e seguir seus instintos mais puros, sejam bons ou ruins. E… Seria possível algum dia esses instintos apontarem para Lilith que seus aliados são inimigos? O que ela faria nesse cenário?
Ele se sentiu duplamente magoado consigo mesmo. Primeiro por recuar um passo ao ter recebido o olhar dela, e segundo por ter pensado dessa forma. Ele não sabe se Lilith percebeu sua hesitação inicial, pois ela simplesmente saltou da casa, rumando para a batalha novamente.
Por mais tenso que fosse a batalha, levar sua transformação a um novo estágio a fez ter um desejo intenso de colocar seus novos limites em jogo, um desejo quase irracional. Inicialmente cobriu seus braços com a segunda pele e deu certo, e agora fez o mesmo com suas pernas e ombros e o sentimento é de que dá pra ir mais. E claro que se fosse necessário, ela o faria, e o sorriso em seu rosto não escondia o desejo de que fosse.
Ao chegar no solo, uma pequena cratera se abriu ao redor de seus pés, Lilith pisou forte e iniciou sua corrida em direção ao gigantesco monstro. Sua velocidade foi tanta que ela parecia uma flecha gigantesca atirada por uma balista, cruzando aqueles oitenta metros num instante.
Seus cabelos selvagens balançavam numa velocidade frenética pela corrida, o ar à frente é rasgado com extrema facilidade e ela tem a visão de Astéron ficando mais perto a cada passo. Sua aproximação foi barulhenta, destruindo o solo e fazendo Astéron percebê-la.
Foi um erro ele ter levado sua atenção para ela.
No que se virou, a única coisa que ele viu foi um vulto se atirando contra seu peito com um poder avassalador. Foi a primeira vez em toda sua existência que sentiu algo o pressionar, mesmo que por pouco. Astéron mostrou confusão ao sentir quatro cortes profundos em seu peito, gerando uma queimadura inédita na superfície de seu corpo.
Lilith recordava que da primeira vez que ficou para dar um segundo ataque, foi punida, mas… Quem se importa? Algo nela queria golpear o colosso novamente, e cedendo ao desejo, as garras em suas mãos se tornaram ainda mais longas, sendo fincadas em sequência naqueles enormes cortes recém abertos.
A confusão de Astéron deu lugar à dor, e em sequência, a um novo alvo de seu ódio. Ele ruge em direção a ela, mas apenas o impacto de seu rugido não é capaz de afastá-la.
Talin se surpreende ao ver o poder ofensivo de Lilith ainda maior, reconhecendo em sequência a forma bestial mais predominante nela. Estava claro o grande esforço da liberta nessa batalha. Por quanto tempo ela conseguirá se manter consciente? Por mais inseguro que fosse lutar com ela nesse estado, não se prendeu ao pensamento. Deveria aproveitar a oportunidade gerada. Astéron rugiu perdendo seu foco pela primeira vez em algum tempo, então poderia ser agora a oportunidade de utilizar novamente o clarão.
Talin correu sobre a casa que usou para escapar de um dos ataques do monstro e saltou em direção à sua cabeça, seus olhos miram o corte na testa deixado por ele anteriormente, quando utilizou o clarão pela primeira vez. Bastou que o monstro percebesse o comandante sobre sua cabeça mais uma vez para ele se recordar do medo.
Pressionado, Astéron ficou apavorado em cogitar que poderia ser jogado naquele vazio novamente, e pior, dessa vez poderia morrer já que alguém consegue penetrar sua defesa. Num instinto de sobrevivência bizarro ele girou sobre seu próprio corpo mais uma vez, conseguindo afastar Talin e Lilith antes que pudessem fazer qualquer coisa.
Um sentimento de frustração cresceu no Aeron ao ver a oportunidade perdida. Deu um giro no ar, caindo de pé no solo. Essa batalha estava muito difícil, a insistência de Astéron é maior que seu próprio tamanho.
Lilith foi arremessada alguns metros mais atrás, fazendo uso de suas garras para não se afastar ainda mais. Rangeu os dentes e sua mente apagou por um segundo, sentindo um misto de excitação e frustração. Queria testar seus novos limites, e a dificuldade de manter-se ligada poderia simbolizar que ela já estava nele.
— Agora temos como matá-lo — Talin falou com sua guarda levantada — Eu puxarei a atenção e você atacará novamente o peito dele.
A falta de resposta fez o comandante concluir que o foco de Lilith estava totalmente em manter-se sã.
Astéron sedento por batalha não esperou por eles, avançou causando um grande tremor com o seu braço preparado para atacar. Talin havia levantado sua guarda, mas o que aconteceu em sequência foi uma verdadeira surpresa. Ao se aproximar, o colosso não atacou o comandante diretamente, mas o solo à frente causando um grande tremor e levantando poeira como uma cortina de fumaça.
Além de seu equilíbrio ter sido selado por conta do tremor, o comandante ficou completamente às cegas, e por mais que tenha compreendido a ação do inimigo, não conseguiu reagir a tempo. Um golpe no escuro daquele poderoso braço foi dedicado a ele que colocou sua espada no caminho para reduzir o dano, mesmo sendo claro que é impossível bloquear aquele poder destrutivo.
Sua espada foi pressionada contra o corpo acompanhado daquela mão gigantesca que lhe aplicou um choque tão grande que seus olhos quase saltaram. O comandante sentiu seu coração parar por um momento antes de ser deslocado como se fosse o objeto mais frágil do mundo. O peitoral e as ombreiras de sua armadura foram completamente despedaçados.
Tamanha força arremessou o comandante como se fosse um boneco de pano, o tirando daquela cortina de fumaça com tanta velocidade que apenas olhos treinados poderiam o ver voando pelo ar até colidir com um monte de escombros.
A liberta também foi pega pela cortina de fumaça, mas graças aos seus sentidos aprimorados conseguiu ter uma ideia do que aconteceu. Não viu, mas ouviu o som da armadura despedaçando como vidro e então a colisão desse mesmo metal a metros de distância. Estranhamente, esse choque a trouxe um pouco mais para a realidade, apenas para voltar a sentir algo que a instantes atrás parecia ter desaparecido.
A poeira começou a baixar, revelando lentamente uma silhueta monstruosa. Primeiro, os contornos de seus ombros colossais. Depois, os músculos tensos de seus braços. E então... os olhos. Duas brasas ardentes se movendo rápido, frenéticas, famintas. Caçando. Procurando. Até se fixarem nela.
Os olhos azuis arregalados, o suor surgindo abruptamente de sua cabeça e aquele desagradável frio na espinha que deixa todos os seus músculos mais rígidos. Sim, aquele sentimento estava de volta.
Medo.
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