Horizonte Eterno

13 13 - Ventos da Morte


Cinco pequenos fragmentos de terra cortaram o ar como adagas arremessadas, tendo como único propósito afastar a serpente do elfo mago. Ela demonstrou que mesmo sem parte de seu corpo e visivelmente sentindo dor, sua agilidade não mudou em nada ao recuar e assistir os ataques passarem à sua frente.

Elmond se sente terrível. A ardência onde devia estar sua mão e o choque de perdê-la está sendo reprimido pela situação de emergência. Caso deixe se levar, se tornará apenas um peso morto em batalha. Aproveitou a brecha para correr em direção da maga elemental de terra, não deixando seu grimório para trás.

— Ihihihi… Vocês não quebram fácil… — o olhar malicioso da serpente vibrou ao ver o elfo ainda disposto a lutar — Isso deixa tudo mais divertido!

No momento em que Elmond se aproximou, Lena conjurou uma parede de terra com quase três metros de altura, preenchendo dezenas de metros de comprimento e separando o campo de batalha. Isso acabou a isolando com o elfo e o dragão de carne que ainda luta para se recuperar do ataque que sofreu antes.

A serpente olhou para a nova estrutura no campo de batalha, sua atenção por um momento saltou para o arqueiro ponderando que a maga queria a isolar para cuidar do companheiro, e é claro que não permitiria isso. Seu sorriso malicioso cresceu, faltando pouco para seu corpo estar completamente regenerado. Avançou em direção ao muro, deixando Aether para trás.

— Aguente, Elmond! — Lena se abaixou ao lado do companheiro, abrindo uma das mãos e conjurando uma pequena chama.

O elfo sabe o que ela quer e por mais doloroso que fosse, assentiu com a cabeça. Mas antes da ação de Lena ser concluída, a cabeça da serpente derrubou uma parte do muro, jogando pequenos detritos contra eles.

— Achei vocês!

A enorme boca se abriu, avançando contra eles..

— Saia daqui! — Lena balançou o cajado em direção ao inimigo que recebe uma forte pancada no queixo.

O chão abaixo da serpente foi levantado pela magia e atordoou a serpente por um momento.

O elfo mago sofre com a dor em sua mão perdida, e ainda assim consegue sentir a respiração tensa de Lena. Sim, uma respiração ofegante de um mago que tem utilizado muitas magias em sequência. Fora a magia que literalmente abriu o castelo, ela tem feito magias mais básicas que não exigiam uma grande concentração de mana, mas foram magias demais e o cansaço logo a tomaria por completo.

— Lena! — Elmond estendeu o que restou de seu braço para ela.

Lena conteve a dor de ver essa cena. Na palma de sua mão uma chama foi gerada e sem tempo para hesitar ela se aproximou do ferimento do elfo que tentou, mas não conseguiu conter o grito de dor pela queimadura que cauterizou o seu ferimento.

— Você ainda pode lutar, Elmond?

— Sim… Farei tudo que eu posso…! — ele respirou fundo.

O som de escombros sendo arremessados para diversos lados revelou que o dragão de carne finalmente se libertou. A preocupação volta ao rosto do elfo, mas Lena não parecia tão preocupada com ele, já sabendo perfeitamente como lidar com aquela aberração. A serpente também notou que a maga de terra tem muitas formas de lidar com seu companheiro, o considerando extremamente inútil no momento… Mas… Não totalmente.

— Hihihi… Deixarei você para o próximo dragão — a serpente num tom suspeito olhou para Elmond, sem esquecer do interesse de entregá-lo como um ingrediente para Claus. Ela se aproximou do dragão de carne que ruge em sua direção — Tornarei-lhe útil novamente…

A serpente começou a abrir aquela boca desalinhada de uma forma grotesca, estendendo-se além do que parecia possível. O som dos músculos se movendo para aquela proporção é visceral. Todos seus dentes ficaram à mostra e sua língua fina praticamente desapareceu naquela imensidão bizarra.

Em um bote rápido, a serpente abocanhou a cabeça do dragão de carne e começou a devorá-lo vivo. O monstro tentou se debater balançando o corpo de um lado para o outro, mas a serpente o envolveu por completo enquanto manteve mordidas em sequência que cortaram toda aquela carne com facilidade, comendo ele como se fosse a refeição mais saborosa do mundo.

Lena e Elmond testemunham a cena perplexos, completamente confusos com a ação da serpente. É a segunda vez que ela faz algo que eles não esperam, e dessa vez o motivo pareceu ainda mais nebuloso. A serpente era apenas estúpida ou tinha algum propósito oculto por trás? Porque ela era tão instável? Como prever alguém assim?

Devido ao tamanho gigantesco que sua boca alcançou, a serpente conseguiu terminar sua refeição em poucos segundos, revelando sua cauda completamente restaurada, mas ainda não havia acabado. Aqueles olhos macabros vibram enquanto seu corpo começa a passar por uma metamorfose, o fato de ter devorado aquele dragão não só a fez terminar de regenerar seu corpo mais rapidamente, mas a permitiu projetar um par de braços frontais com enormes garras.

— Ihihihih… Enquanto uns perdem, outros ganham — a serpente olhou para Elmond, movendo seus novos membros com calma — Estou ansioso para o próximo ato.

Aether havia finalmente rompido o caminho que o separava do muro, tendo a capacidade de subir nele com um salto. Quando olhou para a nova forma da serpente, se sentiu horrorizado, e ao olhar a face de Lena e Elmond, teve a certeza de que eles presenciaram algo bizarro.

— Ela está mais forte agora…? — já estava tão difícil acertar antes.

Sim, mas agora vocês têm apenas um alvo. Arrisco dizer que a batalha ficou mais fácil — o espectro analisou com uma mão no queixo — Vocês não podem deixar o terror psicológico abalar vocês, essa é uma batalha possível de ganhar.

É verdade… Seus inimigos são macabros, mas eles estão sendo muito exigidos também. Aether focou sua atenção nos companheiros mais abaixo, e falou sem medo da serpente ouvir.

— Lena, Elmond! Ela é só uma! Vai ser mais fácil derrotá-la agora!

Lena e Elmond escutam o arqueiro, mas o que toma a cena é a risada desenfreada da serpente.

— Como podem ser estúpidos!? Vocês não podem vencer o que não morre! Nada pode! É por isso que Luvelin não vai cair! Eu sou mais forte do que vocês! Luvelin é mais forte do que todos seus inimigos! — a serpente olhou para o arqueiro — Toda Luvelin foi abençoada com a imortalidade! Claus não morrerá, e nem eu.

— Eu não entendo… Como você pode se manter leal a ele quando foi transformado em algo assim? — o olhar do arqueiro era tenso.

A serpente ,pela primeira vez, não respondeu de imediato. Esse elfo era muito curioso, ele tentou entender o rei antes e agora queria entender te entender? Os dentes da aberração ficam totalmente visíveis com esse pensamento. Qual era o problema desse elfo?

— Em que mundo você vive? Ihihi… Você não sabe sobre sacrifício? Sobre lealdade? Legado? — a serpente balançou a cauda no ar, como se buscasse atenção — Existem reinos, reis, lados, e eu escolhi o meu.

— Porque um lado em que tudo termina desse jeito!?

A fúria no olhar de Aether colide com a insanidade na mente da serpente.

— E como saber como as coisas vão terminar? — ela lentamente balançou a cabeça num tom de ameaça — Seu lado escolheu invadir Luvelin, e o resultado disso? A morte de todos vocês…

O elfo arqueiro bufou levando uma mão até a aljava novamente, no final ele ainda não havia puxado a flecha ancestral, pois a oportunidade que o espectro citou, ainda não apareceu. Ele puxou uma flecha comum.

— Não é assim que vai terminar — Aether falou com firmeza, apontando sua flecha para a serpente — A maldição de Luvelin vai terminar hoje.

— Veremos…— o olhar da serpente ficou afiado, intrigado com aquele adversário — Ihihi…

O som dos passos da corrida ecoam pelo castelo, o vento que apesar de imperceptível para Claus, ainda rompia-se em sua face graças a grande velocidade de seu avanço. O Rei brandiu sua espada em direção a Altair novamente.

O rei realmente foi surpreendido por Elise conseguir acompanhá-lo, mas a diferença de habilidades ainda pendia a seu favor. Ao reconhecer um pouco mais suas habilidades, naturalmente dedicou mais da sua atenção à batalha.

Uma sequência em horizontal que a força a se encolher e ficar em posições impossíveis de realizar qualquer tipo de contra-ataque.

Um corte diagonal que a obriga a saltar para trás.

Antes que o pé dela tocasse o solo, um avanço com uma estocada que a obriga a curvar o corpo em pleno ar.

E então um chute que mesmo bloqueado, a arremessa com extrema facilidade rumo a um pequeno pilar que sobreviveu à magia de Lena.

Elise ainda assim teve o reflexo de girar no ar e posar com os dois pés no pilar que não suportou o impacto, se quebrando em sequência e indo ao chão, colocando a Altair novamente de pé sobre ele.

Ela encarou o rei imponente a fitá-la de longe.

Em um momento da batalha, Claus acabou por arremessá-la para a parte mais interna do castelo. Algo que facilitou muito a mudança de direção dos dois guerreiros, mas Elise sente que foi mais beneficiada por isso do que seu adversário.

— Vamos ver se você pode sobreviver a outro turno — o rei repete o movimento de erguer levemente a espada ao lado do corpo, num movimento de bater de asa.

— Você tinha aumentado o nível? — uma mecha de cabelo cobria parte do rosto da combatente, que sorrindo o jogou para trás da orelha — Não havia percebido.

O vislumbre intenso no olhar do rei indica que ele não acompanhou o tom de deboche da combatente, avançando novamente em meio aos escombros de seu castelo.

Ele salta em direção ao seu alvo, descendo sua lâmina em um golpe mortal.

A combatente sabe que não consegue bloquear algo assim, e sua ação foi avançar por baixo do esqueleto e se atirar para o ponto em que ele esteve anteriormente. A espada do rei toca o chão e abre um enorme rasgo no local.

Quando Claus se vira para Elise, ela já está com a guarda erguida novamente. Ele pisa forte no chão, impulsionando uma corrida veloz que o deixa colado nela outra vez. O Rei golpeia duas vezes em sequência em golpes verticais que a forçam a se manter na defensiva, perdendo alguns fios de cabelos no caminho.

Apesar de estar resistindo bem, um sentimento de impaciência começou a consumir a mente da Altair, afinal, ela não quer ficar apenas se defendendo. Claus tem melhorado seus ataques com o decorrer da luta, provavelmente por estar lentamente a levando mais a sério, mas ela tem conseguido equilibrar as coisas graças a sua grande habilidade analítica.

Elise precisava dar um passo maior do que o rei esqueleto.

O sentimento de impaciência deu lugar a uma grande necessidade de manter o foco, algo refletido no olhar ametista da combatente.

Claus pisou forte no chão outra vez, atacando o espírito de Elise com sua presença implacável, iniciou uma nova investida em velocidade. Sua corrida é tão veloz que os fragmentos de rochas pisados foram fragmentados e afastados pelo vento gerado.

E mesmo tão veloz, Elise o acompanhou.

Dessa vez ela não recuou, pisou forte no chão e utilizando suas capacidades físicas ao máximo para avançar contra ele.

Essa ação surpreendeu o rei que não calculou o tempo de aproximação baseado num avanço dela, e isso criou uma abertura perfeita para que a Altair se colocasse completamente dentro de sua guarda. Ela bateu o ombro no peito de Claus, algo que gerou um forte impacto e parou de forma bruta o avanço dele.

O punho fechado da Altair foi preenchido por chamas violentas, elas queimam tão sem controle que é como se tivessem acendido uma fogueira em meio a uma ventania.

Um grito de guerra acompanhado por um soco potente na clavícula do rei.

O impacto ecoou por metros, e tamanha é a força da Altair que fez o rei voar em extrema velocidade contra uma pilastra que acabou desmoronando com a colisão violenta, gerando uma cortina de poeira que escondeu o corpo caído de Claus.

Elise sentiu uma corrente de excitação em seu corpo pelo bom acerto que teve, mas absteve qualquer sentimento ao apertar o punho com força. Não posso me deixar levar, afinal, é óbvio que isso não será o suficiente para derrotá-lo.

A silhueta esquelética de Claus, logo se revelou em meio a poeira que lentamente é dissipada. A clavícula foi arrebentada pelo ataque de Elise, mas já estava totalmente regenerada.

— A maldição…

— Ofende minha honra ter que levá-la cada vez mais a sério — a raiva retorna com força total ao tom de Claus. Seu olhar furioso é direcionado ao que restou da pilastra.

Elise sentiu algo em Claus, diferente de antes, a mana gerada pelo núcleo da morte tornou-se facilmente detectável. Uma aura escura que causa arrepios sinistros em todos ao redor. Ela emana a partir do centro do corpo do esqueleto, mas se concentra na lâmina da espada que é banhada por ela. A lâmina ganha um aspecto tão sinistro que o espaço ao redor é repelido pela presença maligna.

Um medo instintivo fez a Altair dar um passo para trás.

Claus balançou a espada com velocidade e a lâmina sem nem mesmo encostar no pedaço de pilastra, a arrebenta em incontáveis fragmentos que vão ao chão. O olhar do rei volta lentamente para a combatente que sente um profundo frio na espinha, ciente de que agora a escala da batalha estaria num nível muito maior do que antes.

Elise nem teve tempo para pensar numa resposta. O Rei ergueu a espada com as duas mãos e realizou um movimento extremamente longo, como se rasgasse algo do céu e o disparasse na terra. Um movimento descendente que ao ser completo gera um vendaval negro que avança de forma implacável pelo salão em ruínas do castelo.

A Altair não estava preparada para um ataque em larga escala de um combatente. A raridade de um combatente usar magias tão ofensivas é tanta que é a primeira vez que ela presencia isso, um guerreiro com o poder destrutivo de um mago.

Ainda que engolida pela surpresa, num ato de reflexo levou as duas mãos ao solo, e utilizando muito mais de sua mana do que o necessário, assumiu controle do solo e ergueu diversos pilares contra o tormento que vinha em sua direção.

Sua magia não era nenhum pouco refinada se comparada a Lena, tanto em poder quanto em eficiência se encontrava diversos níveis abaixo e isso se comprovou quando o ataque de Claus perfurou todas aquelas barreiras com extrema facilidade.

Num último ato de desespero, Elise sabia que ser arremessada para longe seria muito melhor do que ficar plantada recebendo um ataque daqueles em cheio. Ela saltou para trás e se encolheu antes que o vendaval de morte a acertasse em cheio.

Numa expressão de dor, Elise rangeu os dentes enquanto não só o impacto monstruoso a arremessou para trás, mas os cortes gerados pelo ataque se espalharam por diversos lugares de seu corpo.

Seu braço direito ganha um outro corte, gerando um ‘’x’’ torto nele sobre o brasão da família Altair.

Seu peitoral é perfurado bem no centro e um corte atravessa seu peito de cima para baixo.

A ombreira esquerda é arrebentada de uma só vez, sendo destroçada e fragmentada em pleno ar.

E por fim, um corte na coxa direita que arde.

O impacto foi brutal. Seu corpo atingiu o chão com um estrondo seco, e tudo à sua volta parecia girar.

O círculo verde no ‘’céu’’ de Luvelin pareceu ter duplicado e a Altair sentiu que foi ingênua por ter cogitado uma única possibilidade de derrotá-lo. Ela não tem e nunca teve chances contra tamanho adversário sozinha. Claus provavelmente é alguém que apenas um general de Drakroth possa fazer frente numa batalha individual.

— D-Droga…

Um gemido de dor escapou de seus lábios.

Seu corpo inteiro está dolorido e ela ainda não é capaz de se mover.

À passos lentos Claus se aproxima, saindo de dentro do que restou do castelo.

— Ainda viva — o rei observa, superior — Mas…

Antes que Claus pudesse prosseguir, seus olhos se fixam no brasão no braço direito de Elise que fora marcado por um X graças ao ataque anterior. Por um instante, os olhos de Claus se estreitaram. O brilho espectral em suas órbitas se intensificou e um silêncio pesado caiu sobre a cena. O rei abaixou a cabeça, mas sua presença parecia ainda mais sufocante. A Altair o encarou quando seu foco voltou ao normal, estranhando o comportamento do rei.

— Entendo… É por isso que você sobreviveu até agora — Claus abaixou a cabeça, numa estranha reflexão.

Elise não compreendeu a hesitação do rei, mas aproveitou quando o controle de seu corpo retornou e rolou rapidamente para longe, se levantando em sequência. Ela ergueu a guarda, mas a dor em sua coxa a fez ir com um joelho no chão.

— Tch…! — ela também olhou feio para a ferida no ombro — Não acha que está dormindo demais?

As falas sem sentido do rei retornam a sua mente.

— O que foi?

— Você foi escolhida também — as falas sem sentidos do rei trazem confusão para a Altair — Por isso eu posso perdoá-la.

— Você está falando coisas sem sentido… ! — a confusão de Elise não muda a postura do rei esqueleto — Explique o que quer dizer.

— Apesar de todas as suas ofensas, eu posso perdoá-la e deixar que vá — o rei estendeu a mão para ela — Entretanto, preciso que traga a cabeça dos outros responsáveis pela destruição do meu caste…

— Mas que merda você tá falando? — a paciência de Elise chegou ao limite, e sua resposta veio num misto de fúria e confusão — Tudo o que você fala não faz o menor sentido!

— Mesmo eu tentando demonstrar piedade, você insiste em me ofender… — Claus deu um passo firme à frente — Você pagará o preço por isso…

O olhar de Claus retornou ao seu estado penetrante e amedrontador de antes, mas em seu campo de visão está algo além de Elise. Seu olhar mostrou-se mais severo, atravessando o campo de batalha até o que sobrou do muro erguido por Lena. E então, pelas brechas espalhadas pelo frágil muro, enxergou dois invasores.

A lâmina de Claus voltou a emitir aquela mesma aura de morte de antes. Elise sentiu a garganta secar e seu corpo estremecer. Ela não sentia que tinha condições de sobreviver novamente àquele ataque.

Um vento sombrio que causa tanto um poderoso impacto como diversos cortes.

A batalha final em Luvelin está próxima de seu ápice.