Horizonte Eterno
14 O Sufoco da Serpente
7 Anos antes
O chão de Luvelin tão escuro e sombrio, testaria ao máximo a coragem dos destemidos e a loucura dos perturbados. Nesse ambiente moribundo, a solidão poderia ser o maior consolo de alguém, ao menos, alguém que não foi corrompido por um mal ainda maior.
Os passos de um salto ecoaram pelo salão do castelo.
Em meio ao silêncio sufocante, esse som se destacava com extrema facilidade.
Uma caminhada controlada até o portão que leva à sala do trono. A pessoa responsável pelos passos, é a mesma que leva as mãos até o portão e o empurra com delicadeza, algo que não impediu o rangido de ecoar sala adentro.
Os passos retornam, caminhando lentamente pela sala do trono até parar frente ao poço de sangue. A figura leva o dedo indicador à boca, mostrando possuir unhas longas pintadas em vermelho. Ao respirar fundo e sentir aquele cheiro de podridão e sangue, um pequeno sorriso brota em seus lábios.
— Que hábito perturbador… — as palavras escapam em um sussurro da boca pintada por um batom vermelho vibrante.
A podridão não lhe agradava, mas o que causou aquilo…
Os olhos amarelos não se incomodavam com a falta de luz, pois ainda que ela esteja ausente, consegue enxergar com detalhes tudo o que se esconde na escuridão. Acima de uma pequena escadaria, o trono é ocupado por um rei milenar. Alguém que apodreceu em vida com Luvelin.
— Então você é o rei… Huh… — brincando com as palavras, a mulher se dirige à escadaria e começa a subir lentamente.
— Ihihihihi… Que ousadia.
A voz da serpente se revela, assim como seus olhos logo atrás da escuridão do trono.
— Veio direto ao rei… Ihihihi… Fazia tempo que eu não comia… Isso é um presente das deusas! Ihihihi…!
A serpente sai por completo da escuridão, apresentando à invasora toda sua desenvoltura monstruosa. A excitação de uma presa diante dela depois de tanto tempo tremia-lhe os olhos.
— Oh…
A mulher de olhos amarelos se surpreende com a forma da serpente, levando uma de suas unhas à boca para conter o espanto, entretanto, o que ela falou acabou devolvendo a surpresa de imediato a aberração.
— Você é… Tão lindo.
Os olhos elétricos da serpente congelam naqueles pares amarelos.
A serpente observa com precisão cada detalhe da misteriosa figura à sua frente. Seus longos cabelos roxos estão presos em um coque elaborado, entrelaçado por delicadas tranças que acentuam sua elegância. Dos lados da cabeça, emergem chifres curvados como os de um bode, contornando parcialmente suas orelhas, onde pendem brincos grandes e ornamentados. Seu vestido justo molda-se perfeitamente ao seu corpo, destacando suas curvas com imponência. O generoso decote adiciona um ar de sofisticação sedutora, enquanto uma gargantilha dourada repousa em seu pescoço, ostentando no centro uma joia roxa cintilante. Braceletes de prata adornam seus braços, cada um cravejado com uma variedade de pedras preciosas em diferentes cores e formatos, refletindo a luz com um brilho hipnotizante.
Nos pés, calça saltos altos, desafiando qualquer suposição sobre sua mobilidade. Há algo enigmático em sua postura, algo ameaçador no brilho de seus olhos — como se escondessem segredos que poucos ousariam desvendar.
A serpente não compreendeu se as palavras roubaram-lhe a razão ou se alguma daquelas joias ousou atacar sua mente, mas ela ficou completamente paralisada. A invasora com passos elegantes se aproximou o suficiente para levar a mão até o queixo da serpente, onde segurou com delicadeza enquanto seus olhos criam uma espiral mental que atrai a serpente de forma inevitável.
— O que… Você está… — a confusão se instaurou na mente da serpente, que ainda tenta resistir, mas…
— Lorris Draconis, huh…?
Esse nome desmonta por completo a serpente, um nome tão forte que qualquer tipo de resistência é vencida pelo choque.
— Um conselheiro tão leal que permitiu transformar a si mesmo para não deixar seu rei sozinho… — a voz ecoou como uma mão sombria que lentamente abraça a serpente, a sufocando — Oh… Mas não é lealdade que te prende aqui… É… Culpa? O que você fez?
A voz da liberta ecoou dramaticamente em suspense.
A serpente tenta desviar os olhos, mas seu corpo simplesmente não responde como deveria, a confusão e hesitação gerada pelas palavras da mulher foram reforçados por uma magia que está a engolindo completamente. Todo movimento é difícil.
— Lorris… Você não tem que se culpar por isso — o sorriso lentamente se torna mais sádico.
A maldição sobre a cidade afeta as pessoas de forma diferente. O receptáculo principal é o que tem a memória mais fragmentada, enquanto os escolhidos por ele puderam transcender a forma de esqueleto, sendo daí onde surgiu os minotauros e a própria serpente. Entre todos eles, apenas Claus ainda conseguia ver as cores do mundo, enquanto os outros viam tudo ofuscado por um cinza escuro.
A liberta presente mostra um domínio tão absurdo sobre a magia de comunicação da mente, que atravessa todas as barreiras da maldição para organizar as memórias na mente da serpente. É como se ela mesmo estivesse vivenciando tudo o que aquela criatura digna de pena passou.
Lorris Draconis, o principal conselheiro do rei.
Com o fim se aproximando no horizonte e a deusa guardiã morta, ele foi surpreendido quando viu Claus recusar o deus vermelho. Vendo que o fim logo chegaria, numa atitude desesperada, tramou com Sangre para lentamente quebrar o espírito do rei.
A porta entreaberta do quarto de Eslar ainda deixava escapar o cheiro da tinta fresca que a jovem havia usado para pintar suas últimas paisagens. Quadros inacabados, pinceis largados no chão, e um caderno caído com anotações simples sobre as cores do céu no entardecer. Claus não tinha forças para tocar em nada.
O conselheiro de olhos roxos, Lorris Draconis, permanecia parado no meio da porta, engolindo a culpa como veneno. Cada respiração era um lembrete de que o plano estava dando certo, mas…
"Eu errei… Eslar..."
O nome da filha escapava dos lábios de Claus como um suspiro que se recusa a morrer. Lorris o ouviu e sua mente foi consumida pela culpa de ter colaborado com tamanha atrocidade, tudo isso… Por Luvelin…
O Draconis fechou os olhos com força ao lembrar do acordo que fez um dia antes com o Deus Vermelho. Ele havia hesitado. Por um momento, pensou em abortar o plano. Mas a promessa de segurança eterna para Luvelin, de um poder capaz de superar a morte e o tempo.
Mas agora Claus estava despedaçado.
Ajoelhado diante do corpo inerte de sua filha, Claus não era mais rei. Era apenas um pai que falhou.
— Proteger Luvelin significava proteger Eslar…
Aquelas palavras atingiram Lorris como um chicote. Ele queria se aproximar. Confessar. Implorar por perdão. Mas o olhar de Claus o manteve cravado no chão, como uma espada invisível que perfura seu orgulho.
— Eu não vou deixar mais ninguém se machucar…
Foi quando o céu tingido de vermelho ganhou uma nova presença. O Deus Vermelho. Flutuando sobre todos, acima da moral, acima do sofrimento humano. A promessa viva de poder absoluto.
— Garanta… que Luvelin seja intocada…
Foi a primeira vez em milhares de anos que as memórias da serpente se organizaram de forma que seus sentimentos reais conseguem transbordar, ocorrendo em grossas lágrimas de sangue que mancham ainda mais aquele rosto distorcido.
— Percebe porquê é lindo? — a liberta finalmente solta o queixo da serpente, dando dois passos delicados para trás — Seu corpo é o reflexo perfeito de sua pessoa.
Recuperando o controle sobre o próprio corpo, a serpente tosse algumas vezes, balançando a cabeça o suficiente para que as lágrimas de sangue fossem lançadas ao chão. Ele lentamente olha preocupado para o rei ainda imóvel.
As grossas lágrimas de sangue continuam a descer pelo seu rosto, enquanto o sentimento de culpa e nojo sobre si mesmo eram tão grandes que sua vontade é asfixiar a si mesmo com o mais doloroso dos venenos. Tão imersa em seu próprio sofrimento, a serpente não parou para refletir sobre o porquê do rei ainda não ter movido um único dedo.
A liberta voltou seu caminho até Claus, parando logo em frente ao rei esqueleto. Queria desfrutar de sua vida também, de seus arrependimentos, perdas e fracassos, mas… Claus é muito perigoso, seria difícil contê-lo por conta da maldição.
— Lorris, eu vou te libertar dessa dor — ela voltou a olhar para a serpente, com o seu sorriso sádico na boca — Mas preciso que você me prometa não contar a ele sobre a surpresa que deixarei aqui.
A serpente a olha com as lágrimas incessantes na face, tendo dificuldades até mesmo para respirar. Querendo escapar de todo esse sofrimento, a serpente assente com a cabeça freneticamente.
Agora
Com o surgimento de membros novos, Lena pensou que a serpente perderia um pouco de sua mobilidade, mas ela mantém a mobilidade de antes e as garras recém adquiridas mostram facilidade em partir tudo em seu caminho.
O pior para Lena ainda é sentir sua mana começar a oscilar como um reflexo das longas batalhas que tem enfrentado em Luvelin, e ela não podia parar. Se conter é dar a vitória ao inimigo.
— Eu preciso colocá-la… No chão…! — a maga apertou o cajado, olhando a serpente com determinação em seus olhos.
— Eu vou te ajudar — Elmond ao lado compartilha do sentimento.
A poucos metros, próximo ao muro erguido por Lena, Aether dispara algumas flechas contra a serpente que dança pelo céu, espalhando sua risada macabra.
— Ihihi…!
A serpente voou rumo ao arqueiro que se vê obrigado a saltar para o lado, assistindo a parede ser explodida em destroços pela mordida feroz do inimigo. Ao fim de uma cambalhota, Aether colocou outra flecha no arco e disparou contra o inimigo que bloqueia com a pata, tendo-a perfurado pelo ataque que é desprezado pela risada de Lorris. Ele esmaga a flecha e a ferida se cura rapidamente.
A serpente percebe mana sendo concentrada, indicando que Lena canaliza uma magia poderosa. Isso nunca aconteceria enquanto a aberração voadora pudesse se mover!
Lorris voa a toda velocidade contra a inimiga que desaparece em pleno ar graças à insistente camuflagem de Elmond, mas isso não poderia impedir o monstro para sempre.
— A covardia de vocês não pode me enganar! — em meio as risadas, a serpente cessa seu voo e canaliza a magia de revelação, a expandindo e revelando novamente a maga com o cajado apontado em sua direção.
A surpresa brota na face da serpente, afinal, Lena não poderia ter canalizado uma magia que pudesse derrotá-la tão rápido.
— Domínio de segundo nível — a maga pronuncia, e um círculo mágico verde se expande abaixo de Lorris — Artilharia da Terra.
Uma magia de segundo nível? A serpente riu. O solo coberto pela mana de Lena se despedaça em incontáveis lâminas de terra, voando para cima em um ataque de média escala.
Diversas dessas lâminas passam em branco, algumas dezenas rasgam o corpo de Lorris e outras cinco se cravam inutilmente em sua pele que se regenera ignorando ataques tão fracos.
A serpente sair do alcance da magia não impediu que uma enorme quantidade de terra continuasse a ser disparada para o ar vindo daquele círculo.
— Ihihihi! Quantas tentativas inúteis! — a serpente retoma sua investida.
Ao perceber Lena novamente começa a desaparecer. Lorris range os dentes desalinhados irritado com esse truque insistente, mas agora não importava! Lena não teria tempo de sair do ataque mesmo se ficasse invisível.
Ao abocanhar o local onde Lena deveria estar, a serpente sente apenas o gosto da terra, o que desfaz a camuflagem revelando a maga numa plataforma de terra.
A serpente abre levemente a boca enfurecida, babando um líquido verde.
A serpente abocanha uma segunda vez para desmanchar a plataforma em incontáveis fragmentos. A maga de terra arregala os olhos sentindo-se cair. Lorris golpeia com sua garra.
Lena se encolheu colocando o cajado entre ela e o ataque, e o impacto foi imediato. Um som seco ecoou e ela foi arremessada com velocidade em direção ao solo. Ao colidir com o chão, segurou forte seu cajado para que ele não escapasse. Saliva escapou de sua boca e uma ardência começou a surgir em uma de suas costelas direitas.
Sentiu uma tontura breve, mas superou a dor e olhou para o sangue na ferida. Suas costelas foram alcançadas pelas garras do adversário.
— Urrgh… — ela range os dentes com uma expressão chorosa.
A dor é insuportável mesmo com a adrenalina no máximo.
— Isso vai acabar agora! Ihihihi! — o olhar da serpente vibra em maldade.
— Ainda não! — Elmond imediatamente atrai a atenção da serpente.
A serpente o encara, mas ao se recordar que ele não carrega nenhum poder ofensivo, concluiu se tratar apenas de uma distração, e isso era para…
Lorris olhou para a direção oposta, localizando Aether mais próximo do que em qualquer outra ocasião. É muito bizarro pensar num arqueiro buscando encurtar a distância.
O arqueiro disparou três flechas quase à queima roupa. A serpente colocou a pata na frente para se proteger, recebendo os ferimentos nelas novamente.
As informações em sua cabeça começam a sobrecarregar ao notar novamente a concentração de magia. Rangeu os dentes em uma fúria animalesca. Porque ela é tão insistente?
— Eu não vou deixar…! — a serpente abre um sorriso enorme, mas quando seu olhar estava para abandonar Aether, o brilho ancestral da flecha de Eslie se mostra em suas mãos — Como você…?
Lorris hesita.
Aquele desgraçado tinha em mãos a única coisa que poderia anular completamente sua regeneração, mas se ignorasse a maga elemental agora, ela poderia conjurar alguma magia para incapacitá-lo.
— Já acabou — Aether interrompe o momento de hesitação do inimigo.
Lorris fica confuso, mas ao perceber a luz da cidade bloqueada, olha para cima espantado.
Três enormes discos de terra logo acima de sua cabeça, grandes o suficiente para preencher toda a extensão de seu corpo e com quase 2 metros de espessura. A serpente se recorda que na magia anterior da maga, toda terra jogada para o ar não retornou ao chão.
Lena tentou se colocar de pé, mas falhou miseravelmente devido a dor insuportável e acabou de joelhos no chão, ofegante. O sangue mancha toda a frente de seu corpo e sua pele se encontra mais pálida, foi como se ela tivesse sido completamente drenada nos últimos momentos, e ainda assim, ela não soltou seu cajado.
Aether apontou a flecha para a serpente no momento que os discos descem sobre ela. Ela prefere ser golpeada por algo que poderia lidar depois do que ter que enfrentar a flecha de Eslie de frente.
Os discos de terra despencaram um a um. O primeiro atingiu Lorris como um meteoro, esmagando-o contra o solo. O segundo caiu logo em seguida, fazendo seus ossos estalarem. No terceiro, um grito agudo rasgou o ar—e a serpente desapareceu na escuridão sob os escombros.
Um dano muito maior do que o esperado.
Aquele peso esmagou os músculos da serpente, o ar faltou-lhe e trouxe um sentimento sufocante e traumático, aquele mesmo sufoco de quando a estranha liberta anos atrás imobilizou seu corpo.
Quando Lorris foi imobilizado a sete anos atrás, ele sentiu que eram correntes internas, mas agora, é algo completamente externo. O caos em sua mente misturou-se ao medo de estar aprisionado outra vez.
E a serpente nunca mais queria se sentir assim!
Seu corpo luta contra o peso imposto sobre ele! Sua magia começa a comprometer a resistência do primeiro disco, que começa a rachar enquanto seu corpo se reconstrói.
O desejo de liberdade se tornou desesperador. Sair daquela escuridão imposta a qualquer custo! A serpente lutou e o primeiro disco foi rompido!
O som dos destroços é abafado pelos discos acima.
A serpente se ergue, fragmentando o segundo disco e abrindo a boca.
Mais um e ele estaria livre.
Sua boca monstruosa abre e crava os dentes no terceiro disco. Ao puxá-lo para baixo, finalmente se quebra e a luz verde da cidade é refletida novamente nos olhos da serpente. No entanto, foi… por pouco tempo.
Aether a esperava com a flecha ancestral em seu arco, e bastou a serpente abrir aquele buraco no terceiro disco para a flecha ser disparada.
Um som seco. Por um instante, Lorris congelou com os olhos arregalados, a mandíbula se contraiu. Então, a serpente estremeceu, seu corpo inteiro convulsionou. Um gemido gutural escapou antes que sua voz finalmente se calasse. A flecha de Eslie, cravada fundo, brilhou por um momento antes da luz em seus olhos se apagar.
E quando o vermelho ardente se apagou, resta apenas os ametistas que surpreendem Aether, os mesmos olhos do homem ao lado do Rei Claus no quadro, tão parecidos com o de Elise. Pensar que tal aberração poderia ter alguma ligação com sua companheira não foi legal, e sua expressão ficou mais rígida com essa ideia.
Ainda haviam perguntas sem respostas, e Aether não tinha tempo para pensar em todas elas. Olhou para Elmond que havia terminado de se aproximar da maga elemental, e por mais ansioso que estivesse de ir até eles, Aether preferiu primeiro recuperar a flecha cravada no corpo da serpente abatida.
— Lena, como você está?
O elfo mago se abaixou frente a companheira, que o encarou com uma expressão de dor que se misturou a tristeza ao olhar para onde deveria estar o seu braço.
— Elmond… Está doendo muito? — Lena perguntou quase num sussurro, como se temesse que suas palavras pudessem ferir mais o seu salvador.
É claro que doía, mas em meio a todo esse caos, ele não podia ficar pensando nisso ou em como sua vida seria afetada a partir de agora. É raro Elmond ter dificuldades em sorrir, mas estava tendo agora, e caso não o fizesse poderia trazer um grande sentimento de culpa a sua companheira.
O vento da cidade passa a soprar mais rápido, balançando o cabelo dos dois que estranham esse comportamento, instintivamente olhando em direção ao castelo em ruínas. O pavor toma conta de seus rostos.
Luvelin finalmente havia sido alterada desde a chegada dos invasores, isso porque diversas casas, e até mesmo o castelo foi levado ao chão. Não foi um trabalho exclusivo dos invasores, pois eles danificaram de fato apenas o castelo, mas as casas foram devastadas pela caçada infernal que Astéron dedicou a três dos inimigos.
Trio esse que pouco se moveu desde que derrotaram o colosso da destruição. Sendo forçados a manter a postura implacável para não conceder aos inimigos a coragem necessária de atacar, pois assim que o fizessem, poderiam ser facilmente dizimados.
Provavelmente deveria ter entre duas ou três dezenas deles à espreita.
— Que droga… — a expressão feroz da liberta denuncia o limite de sua paciência — Vamos acabar tendo que matar todos eles!
— Não temos forças o bastante para isso — Talin fala tenso, pois tem que manter os ânimos de Lilith sob controle quando entende o sentimento de urgência — Eles terão que resistir até nós chegarmos lá.
— Sim… — Théo se mostra aflito diante dos olhares distantes.
Mas se sente mal ao pensar que essa demora deles chegarem o beneficia de alguma forma, isso porque ele teria mais tempo de recuperar um pouco de sua mana e ser útil novamente.
A atenção do grupo é tomada pelo barulho de alguns escombros indo ao chão, revelando a presença do terceiro minotauro da cidade. Diferente dos outros monstros que parecem aguardar o melhor momento, ele não se importava com isso. Pelo contrário, confiante de sua força, seu espírito de luta ecoa orgulhosamente em sua postura agressiva e olhar penetrante.
Lilith e Théo se surpreendem ao ver um segundo minotauro, mas Talin não. Por ter acessado as memórias de Elise, ele sabe que esse minotauro é o que estava na torre leste, mas pensar que a destruição de Astéron atraiu até mesmo ele para cá…
Entretanto, o comandante não se intimidou. Como Lilith está agora e com o suporte de Théo, esse não é um inimigo tão temível. Ele segurou firme a espada, mostrando que mesmo sem sua armadura, não hesitaria.
Quando o minotauro ruge novamente, foi como um grito de guerra que afastou o medo de todos os monstros ao redor. Eles saem das sombras, agora com uma intenção muito mais feroz do que antes. O comandante e a liberta conseguem manter suas posturas, mas Théo estremece um pouco.
O fato é que a tranquilidade de agora a pouco de Talin simplesmente desaparece. Se fosse apenas o minotauro eles poderiam dar conta, mas o fato dele ter atiçado o espírito de batalha dos outros monstros simplesmente transforma o cenário em outra coisa.
— Teremos que correr — Talin avisa.
O minotauro dá o primeiro passo, mas para no segundo pois a ação dos monstros é tomada pelo som de passos correndo entre eles, revelando um esqueleto que corria com um pequeno livro na mão.
Talin estranhou o comportamento dos monstros observando o esqueleto, como se estivessem na presença de algo ou alguém muito importante. Esse esqueleto parou sua corrida entre o minotauro e o trio, e só quando apontou o item em suas mãos para eles, o comandante reconheceu sua figura.
É o mesmo esqueleto que ajudou Elise e os dois elfos na torre anteriormente, Happo. O comandante se recordou de como ele foi determinado em pedir ajuda a Aether para que acabasse com a maldição na cidade, e colocando isso na balança, faria sentido ele tentar se intrometer agora, pois Luvelin certamente nunca esteve tão à beira do seu fim como agora.
Quando Lilith ergueu o punho para atacar, Talin a interrompe imediatamente.
— Esse esqueleto ajudou Elise e os elfos, ele não vai nos atacar… Pelo contrário — Talin tentou dar um contexto melhor das coisas para eles, mas é claro que não tinha muito espaço para detalhes.
Talin não podia entender o que estava anotado no livro, mas isso pouco importou, pois quando Happo viu que não seria atacado pelas costas, soltou o caderno e deu um passo em direção ao minotauro que ruge em sua direção, como se o alertasse de algo.
Mas essa simples ação do minotauro fez os monstros restantes olharem mais cauteloso em sua direção, e ele sentiu isso ao recuar um passo. Todo o espírito de batalha que mostrou anteriormente, foi sobreposto por um receio descomunal.
O fato é que a presença do esqueleto o desestruturou por completo.
— O… Que está acontecendo? — Théo sussurra receoso.
Ele não é o único confuso.
— Ele realmente… Está do nosso lado — a liberta compartilha da expressão do curandeiro
Théo então se recordou do primeiro esqueleto que viu no subsolo, quando viu um homem acenando para ele além da janela, e não um esqueleto assassino. Engoliu seco ao se recordar desse momento.
Mas as surpresas não paravam, pois Happo não foi o único esqueleto que decidiu sair para agir. Entre os monstros, outros passos se tornam audíveis, esqueletos que estavam vindo de diversos locais da cidade, ou simplesmente estavam escondidos ao redor.
Todo o caos em Luvelin não passou despercebido por nenhum deles, ainda mais quando Astéron saiu por aí arrebentando tudo pelo caminho. Com a morte dele, bastou os esqueletos perceberem Happo para se manifestarem também.
Diferente do rei, eles não conseguem mais falar, mas podem se entender através do vínculo da maldição que os condenou a eternidade, e esses sentimentos compartilhados entre todos os esqueletos também chegam aos monstros guerreiros.
A maldição agia diferente entre eles, pois os esqueletos nunca quiseram lutar, são os civis que nada nunca puderam fazer, apenas foram protegidos pelos guerreiros, aqueles que assumiram formas de verdadeiros monstros para combater os invasores e proteger o reino.
Aqueles que protegiam não conseguiam compreender com clareza essas emoções, afinal, quem eles defendiam agora está protegendo seus agressores.
Em meio a essa turbulência o minotauro rugiu furioso outra vez, mas suas advertências foram ignoradas por Happo que insiste em se aproximar dele. Quando o minotauro faz menção de erguer seu machado, absolutamente todos os monstros viram sua atenção para ele que para o movimento.
O minotauro fica travado e sua mente perturbada dói, o fazendo soltar a arma e levar as mãos à cabeça. Seu papel é defender Luvelin, então ele não pode matar as poucas pessoas que sobreviveram, mas… Como ele vai mantê-los vivos se não acabar com os invasores? Eles mesmo estão ficando no caminho, como se buscassem o próprio fim.
A mente conturbada daquele que jurou proteger dói ao encontrar esse conflito, mas como se fosse um toque mágico, a mão de Happo chega ao seu ombro e atrai os olhos incandescentes do minotauro para si.
Dois olhos flamejantes, ascendidos pela mesma maldição.
Uma maldição que já havia durado por tempo demais.
— Mesmo eu tentando demonstrar piedade, você insiste em ofender Luvelin e a mim… — Claus dá um passo firme à frente — Você verá o preço por isso…
O olhar de Claus retorna ao seu ponto penetrante e amedrontador de antes, mas em seu campo de visão está algo além de Elise: A presença da serpente desaparecendo como uma aura em meio aos discos de terra escondidos atrás do muro. Seu olhar torna-se mais severo, atravessando o muro aberto por Lena, e parando justamente numa brecha que o permite ter visão tanto dela quanto do elfo mago.
A lâmina de Claus volta a emitir aquela mesma aura de morte de antes. Elise sente a garganta secar e seu corpo estremecer. Ela não tem condições de sobreviver novamente àquele ataque.
— Sejam dilacerados pelas garras da guardiã de Luvelin — Claus ergue sua espada ao ponto mais alto que consegue.
Ele não sabe como, mas conseguiram eliminar a serpente que apesar de ser irritante, foi sua única companhia nos momentos que despertou durante esses milhares de anos. Suas emoções deturpadas não o permitem decifrar com clareza o que estava sentindo agora, mas sabia o que queria fazer mais do que nunca.
Ele traria o fim absoluto para esses malditos invasores.
O vento atraído pela lâmina uiva como milhares de almas atormentadas, gerando uma espécie de tornado à sua volta. O vento acelera de tal forma que os fragmentos de rochas no chão são jogados de um lado para o outro, balançando os cabelos da combatente que coloca os braços na frente do corpo, sendo empurrada para trás.
Elise estremece, pois o ataque de agora será ainda mais forte do que o anterior.
— Julgamento do Rei Morto — agarrando o céu com a ponta de sua espada, Claus o corta de cima para baixo outra vez — Execução.
As palavras escapam de sua boca com desprezo.
Um portal oval se abre na área do corte da espada, e dele uma lâmina rompe à frente partindo o solo e atraindo todo o vento para si, aumentando seu tamanho conforme avança executando absolutamente tudo que está no seu caminho.
A perna de Elise falhou, mas a sua verdadeira surpresa é perceber que aquela enorme lâmina de escuridão grita passando ao seu lado, a afastando enquanto seu destino se revela.
No chão, Elise arregala os olhos e grita em direção aos seus companheiros, mas o vento é tão forte que sua voz se perde no caminho. Tudo que ela consegue fazer é observar desesperada conforme aquele poder destrutivo cresce em direção a Lena e Elmond.
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