Horizonte Eterno
12 12 - O Rei e a Serpente
A árdua batalha contra Astéron finalmente havia acabado e como uma prova de que sua opressão havia chegado ao fim, o vento voltou a correr de forma fluida pelas ruas, em sua incansável busca pela preservação de Luvelin.
Após ter utilizado sua magia de morte, o curandeiro recuou quando o colosso finalmente tombou para frente. Mas é claro, ele não seria tolo de ficar próximo de algo tão grande durante sua queda, o simples impacto poderia lhe causar algum dano. As mãos de Théo tremem numa empolgação até então desconhecida para ele.
Apesar de praticamente toda sua mana ter sido drenada, suas mãos tremiam numa empolgação raramente sentida. Ao final de toda dificuldade foram presenteados com o sabor da vitória, e ele detestou cada segundo da batalha. Diversas vezes esqueceu de respirar e teve que fugir de incontáveis pensamentos covardes, ele realmente não quer provar isso outra vez.
Entretanto, ainda que ele odiasse a batalha, ele amou a vitória.
Ainda que sentindo uma exaustão por ter acabado com seu estoque de mana, essa empolgação lhe deu a energia necessária para correr apressadamente em volta do colosso caído e ir na direção de seus companheiros. Ver aqueles dois de pé é extremamente reconfortante para seu coração tão agitado.
Ao se aproximar do comandante e da combatente, Théo tem a atenção deles sobre si. Nervoso, ele abriu um pequeno sorriso como se dissesse que estava tudo bem com ele. Talin manteve sua postura rígida, mas a ruiva ainda em sua forma bestial esboçou um sorriso animalesco ao falar.
— Conseguimos!
A empolgação dela conseguiu contagiar o curandeiro que sorriu em sequência.
— Sim, conseguimos.
Entretanto, isso não significava que acabou.
O motivo pelo qual Talin e Lilith não correram até Théo primeiro, e pelo qual ela ainda está transformada, é por conta de já terem percebido a estranha movimentação de monstros ao redor da área. As criaturas estão curiosas sobre o resultado da batalha e principalmente sobre o estado dos vencedores.
Então, ainda que estivessem sorrindo, havia uma tensão que Théo foi o único a não perceber. O sentimento de vitória que sentiu, ainda não podia ser compartilhado com os dois membros do grupo, e claro, nem o seu duraria por muito tempo. O mago da existência sabia sobre aqueles escondidos nas sombras, e bastou notar o olhar cauteloso do comandante para um amontoado de casas que ele voltou à realidade.
Muito além desse amontoado de casas, se encontra o lugar que um dia foi o castelo do Rei Claus, esse agora em ruínas após ser atacado duramente pela magia da equipe de expedição. Frente ao lago de sangue onde surgiu aquela cópia profana de Temyra, se encontram justamente as três últimas resistências daquele reino.
Claus empunhava sua espada na mão direita, com a serpente sobrevoando o ar nessa mesma direção. Ao lado esquerdo, o dragão de carne que acabara de ganhar vida mediante a sua magia de morte. Frente a ele se encontram aqueles que desafiam seu legado, com o objetivo de trazer o fim a tudo que ele preservou por incansáveis cinco mil anos.
O silêncio perde seu domínio pela respiração descompassada da serpente e do dragão de carne. Toda aquela degeneração traz uma sensação de desconforto tremenda para toda a equipe. Elise já havia declarado sua intenção de lutar, então era esperado que fizesse o primeiro movimento, mas… Ela não o fez, porque percebeu Aether se colocando ao seu lado, mas não para falar com ela.
Ao falar com Happo, Aether pode tentar entender como os esqueletos no subterrâneo se sentiam. Todos eles se mostravam fracos, receosos… Medrosos e desesperançosos, mas Claus não, ele se mostra imponente e orgulhoso, fazendo um evidente e cruel contraste com toda a realidade que o cerca. Essa imagem de magnificência que ele exala fez o arqueiro compreender que os sentimentos do rei não correspondem aos de seus súditos.
— Claus! — ao chamar pelo rei, tem aqueles olhos flamejantes sobre si. Apesar de na teoria serem os mesmos olhos de Happo, Claus emana um fogo muito mais quente e tóxico — Porque fez isso ao seu povo?
Claus move a cabeça com desdém, sem intenção de falar, em compensação, a serpente não conseguia manter a boca fechada por tempo demais.
— Seu invasor de merda! — seu sorriso macabro se recusa a desaparecer mesmo enquanto fala — Hihihi… Rei Claus com toda sua nobreza nos manteve vivos e protegidos! Luvelin ainda vive graças a ele!
Aether rangeu os dentes com a resposta da serpente.
— Vivos? Que piada terrível… — na mente do elfo, flashes repetidos.
O esqueleto com a luminária… Os esqueletos na fonte… Happo.
— Que tipo de rei condena seu povo a um destino como esse!? — a raiva de Aether era indiferente para a serpente, mas não para o rei.
Sua pergunta fez o rei encará-lo com uma seriedade a mais. Claus dá um passo que ecoa num som que se mistura ao das criaturas ao lado. O dragão de carne começa a se mover em uma diagonal que o afasta de Claus e o aproxima dos invasores.
— Que tipo de rei permitiria que seu povo sucumbisse? — Claus foi mais seco do que nunca. Ele aponta sua espada em direção ao elfo — Frente a ruína, eu garanti a eternidade.
— E quem iria querer uma eternidade como essa? Você não faz sentido algum — Aether insistiu, mas…
— Então você iria preferir ver todos morrerem nas mãos de seus inimigos? — Claus praticamente vomita as palavras com grande desdém.
Sua pergunta trouxe dúvidas a Aether que buscou uma resposta rápida, mas nada veio.
— Para fazer essas perguntas tolas, você deve almejar uma coroa, correto?
O arqueiro arregalou os olhos com a pergunta, se sentindo pressionado. Buscou entender Claus, mas falhou miseravelmente e pra piorar… Ele quem foi compreendido com uma facilidade nunca antes vista.
— Você não levaria jeito para isso — um suspiro quase indiferente escapou da boca do rei — Primeiro por essas perguntas, e segundo por estar aqui.
O infame sonho de Aether em ser rei de Elwin, para que pudesse ajudar uma pessoa com todo o fardo que seria obrigada a carregar. O fato é que ter um rei falando essas palavras pra ele, por mais corrupto que fosse, foi como um soco.
Para Claus, um rei não avançaria em território inimigo com tão pouca força, assim como não deixaria suas emoções tão óbvias na frente deles. O que estava diante dele, era apenas um jovem que sonha com algo que não é capaz de compreender, afinal, todos os jovens buscam se provar, e qual a maior provação no horizonte a não ser o peso da coroa?
— Se o Rei Richard fizesse algo assim… Eu iria preferir morrer lutando ao enfrentar uma eternidade em apodrecimento.
A voz feminina captou a atenção do rei esqueleto.
Richard é o nome do atual rei de Drakroth, um homem admirado à qual Elise sabe que não tomaria a mesma decisão do Rei Claus. Ela não carrega nenhuma vontade em possuir uma coroa, mas serve alguém que a carrega, e sabe como as pessoas que o seguem se sentiriam, afinal, ela é uma dessas pessoas.
— Se ele, o rei de Drakroth tomasse a mesma decisão que você… — Elise com provocação em seu tom de voz. Colocou uma mão sobre o ombro de Aether como se dissesse para ele se preparar para o que viria a seguir — Ele seria um péssimo rei.
Claus desceu sua lâmina contra o solo com força, espalhando um eco agudo com o impacto da lâmina nas rochas. Ao mesmo tempo, a serpente arregalou os olhos com tamanha força que seus olhos pareciam que iam cair. A enorme boca se distorce em algo que já não mais lembra um sorriso.
— BLASFÊMIA! Como ousa direcionar essas palavras ao rei? Você terá uma morte cruel! — uma saliva verde escapou da boca da serpente enquanto gritava.
— Irei silenciar sua arrogância — o olhar corrompido do Rei demonstrou muito mais sua raiva do que as próprias palavras.
Foram essas palavras também que anunciaram o início da batalha, pois o dragão de carne iniciou uma corrida em direção a dupla da retaguarda. Os dois estavam atentos ao diálogo que acabou surgindo, mas Lena não abaixou a guarda nem por um segundo. Estende seu cajado na direção do dragão e o solo abaixo dele se dobra, fechando-se em duas paredes que o prendem.
Aproveitando a oportunidade, Elmond faz uso de seu grimório para ativar a camuflagem novamente, tornando tanto ele quanto Lena invisíveis. O dragão de carne imediatamente perde a localização deles que correm numa direção oposta, criando assim uma distância maior entre eles.
A serpente voa em direção ao dragão. Aether arma seu arco e dispara duas vezes tentando interceptá-lo, mas os movimentos bizarros em zigue-zague são o suficiente para evitar os ataques. Chegando ao dragão, a serpente bate nas paredes com sua cauda, mas não a quebra de forma normal. A parede simplesmente se rompe como se tivesse perdido toda sua resistência e durabilidade. A maga elemental que havia reforçado com sua mana, estranhou esse desmonte.
— Foi usando este truque sujo que atacaram o castelo de meu rei… Ihihihi… Ratos desgraçados — a serpente observa com grande atenção ao redor — Eu vou achar vocês…!
Lena e Elmond pararam de correr após se colocarem numa boa posição, e o mago da mente arregalou os olhos ao perceber a aura em volta da serpente.
— Ela pode usar magia…?
A serpente explode essa mana ao redor do próprio corpo, fazendo pequenos feixes de luz irem em todas as direções. Ao entrarem em contato com a magia de camuflagem, a desfaz no mesmo instante. Isso não surpreendeu apenas os magos, mas Elise e Aether também.
A serpente não só era capaz de usar magia, mas usar justamente as estruturas de mana. A facilidade que inutilizou Elmond foi um choque para o mago da mente, afinal, sua utilidade se resumia muito à camuflagem que se mostra inútil contra aquele oponente.
— Estou ansioso para descobrir o que farão agora… — o sorriso da serpente voltou a ficar evidente — Minha boca está coçando!
O dragão reconhecendo aqueles alvos recuados, voltou a avançar contra eles. Elise bateu os dentes num claro descontentamento, mas ao olhar para o rei percebe que apesar da raiva, esse ainda não agiu de forma agressiva, e ela compreendeu o motivo.
Um rei orgulhoso que não se importa se eles estão tramando algo ou não, afinal, está completamente seguro de seu triunfo.
— Aether, você precisa ficar junto da Lena e do Elmond — Elise olhou para o companheiro.
— Não seja idiota, Elise. Você quer lutar sozinha contra essa coisa? — a resposta do elfo foi imediata.
— Aquela serpente anulou tanto a magia da Lena quanto do Elmond, isso me deu uma péssima impressão — Elise estava tensa.
É claro que ela não queria ficar frente a frente com Claus, sozinha.
— Ela tem razão, Aether — a voz do espectro interveio — Se ela conseguir isolar o rei tempo o bastante para que vocês matem aquelas duas criaturas, vocês podem vencer.
Aether podia entender, mas ele sentiu que estariam sacrificando Elise dessa forma, e sacrificar os outros é algo que o espectro parecia não se importar de fazer. A indecisão ganhou sua face, e a Altair pôde perceber isso facilmente.
— Não pense que eu perderei fácil — Elise o olhou pelo canto do olho, com um sorriso convencido no rosto — Eu sou bem mais forte do que você.
Demonstrar essa confiança mesmo diante do Rei Claus, foi algo que pegou o elfo de surpresa, e só pôde admirar essa coragem. Aether conhece Elise a apenas algumas horas, mas já pôde enxergar muitas camadas da personalidade dela, uma mulher corajosa, determinada e confiante.
— Sério… Se eu já não tivesse uma número um…
— Hã?
Não havia mais tempo para conversar. Claus balançou sua espada indicando que o tempo de espera estava próximo do fim.
— Conto com você, Elise.
Ela manteve o sorriso e assentiu. Aether enfim correu em direção aos seus outros companheiros com um olhar sério, pensando em como vencer aquela batalha o quanto antes e não permitir que Elise se machucasse demais.
— Obrigada por esperar — Elise fechou os punhos, enfim, pronta para a batalha.
— Não importa, afinal, quando eu começar… — o rei ergueu levemente a espada ao lado do corpo, num movimento que lembra um pássaro erguendo uma asa. Afastou levemente as pernas, pegando uma postura firme — Isso acabará em um instante.
Elise avança cortando facilmente o espaço entre eles. Golpeia com sua mão direita que é bloqueada pelo rei. Em uma demonstração de força física, a faz recuar com um corte que a arremessa para trás. Ela vira um mortal de costas no ar e quando percebe, o rei avança.
Sua velocidade foi igual a quando investiu contra Alex, o veterano e decepou seu braço, mas para a surpresa do rei esqueleto, os olhos de Elise acompanharam e ela reagiu rápido o suficiente para esquivar do golpe que desceu sobre seu braço direito. Ela aproveitou o movimento da esquiva para contra-atacar mirando um soco na face do rei que soltou uma das mãos da espada e segurou o soco.
Claus levantou a espada e buscou atacá-la com um golpe diagonal enquanto a mantinha presa, mas novamente veio a ser surpreendido quando a combatente puxou a mão que estava sendo segurada e afetou seu equilíbrio, atrasando o ataque da espada. Elise desceu o outro braço contra o antebraço do rei que foi forçado a soltá-la no processo.
Elise preparou a perna para chutá-lo, mas ele foi mais rápido com a espada em mãos e fez um corte veloz, de baixo para cima irrompeu em direção a barriga da combatente que fez uso das braçadeiras para bloqueio. A força do golpe a surpreende, jogando-a quase cinco metros para trás, porém conseguiu manter-se de pé.
Elise estreitou o olhar ao sentir a ardência nos braços. As braçadeiras mal puderam conter o ataque de Claus, sendo perfuradas e permitindo que a superfície de sua pele fosse cortada. A Altair sabe que terá de evitar ao máximo fazer qualquer tipo de bloqueio em relação àquela espada.
— O outro rato não conseguiu me acompanhar e ele era mais velho do que você — o rei posicionou sua espada frente ao corpo — Qual é o sentido disso?
Sendo sobrinha de Johan, Elise teve o privilégio de não só acompanhar os treinamentos que ele fazia, mas como ter participado de muitos deles. Inicialmente não conseguia ver quase nada de seus movimentos, mas com o tempo isso mudou. Claus é mais rápido do que guerreiros habilidosos, mas Elise podia sentir que ele ainda não estava no nível de Johan.
— Talvez você tenha ficado velho nesse meio tempo — a resposta de Elise foi breve, e conseguiu irritar o rei.
— Você pagará por esse comportamento lesivo.
O tom sombrio do rei acompanhou o avanço do dragão de carne que rugiu contra seus dois alvos, mas era uma batalha difícil para ele. Sua estrutura pesada prejudicou consideravelmente sua capacidade de mudar de direção, então quando Lena fez uso da magia de terra para erguer uma grande rocha em sua frente, ele bateu sua cabeça com força e quase que se fundiu a rocha, que veio a ser partida em diversos fragmentos. A aberração ficou atordoada com o impacto.
Entretanto, seu sacrifício serviu de abertura para que a serpente conseguisse um acesso mais fácil à dupla. que arregala os olhos de medo daquela enorme boca desalinhada que voa em direção à Lena. Ela não teve o tempo de reação necessário para escapar, mas o elfo mago a puxou para baixo e ambos puderam ver a serpente passar sobre eles, testemunhando toda a estrutura corporal do inimigo.
— Elmond, temos que utilizar nossas magias! Foque no dragão!
— Mas… Magia é inúti..
— Isso não importa! Ao menos temos que forçá-los a se ajudar.
Elmond hesitou, mas compreendeu o que a maga elemental queria dizer. Magia é um recurso que eles têm, e apesar da serpente ter formas de anular elas, essas formas são recursos que ela acaba sendo forçada a usar também.
— Ihihihihi…! Eu sinto o cheiro do medo de vocês… É tão bom…!
A serpente gargalha desenfreadamente enquanto se vira em direção à dupla, no momento que termina de se virar, percebe que seus inimigos novamente estão invisíveis. Seus olhos só faltam saltar de raiva enquanto o sorriso macabro se deforma novamente.
— Vocês já viram que isso não funciona, não é? — a serpente exalou a mesma magia de antes, a expandindo com tanta velocidade que mal deu tempo para que a dupla desse cinco passos de seu ponto inicial até serem revelados novamente.
Revelados, Lena desce a ponta de seu cajado contra o solo, arremessando três estacas de terra contra a serpente voadora. Em contrapartida, ela praticamente dança no ar evitando cada uma delas, se divertindo com essa demonstração de habilidade.
Lena franze o cenho, sentindo que vai ser apenas com magias de larga escala que poderá de fato ferir os inimigos presentes, mas a pressão é tanta que parece um sonho distante ela ter o espaço para canalizar tal tipo de magia. Entretanto, se tivesse alguns segundos, poderia tentar suas magias intermediárias também. Talvez com elas, pudesse pelo menos lidar com o dragão de carne.
Esse mesmo maldito que terminou de se recuperar e olhou furioso em sua direção.
Bastou ele se colocar de pé que duas flechas atravessam as juntas de suas patas traseiras, colocando-o no chão novamente. A serpente leva o olhar para o responsável, sendo claramente Aether com seu arco e flecha em mãos.
A fragilidade do dragão foi facilmente percebida por Lena. Aparentemente, Claus não é um exímio necromante, utilizando mais a criatura para criar pressão no campo de batalha do que como força de combate de fato. Sua estrutura era defeituosa, tinha falta de resistência mágica e baixo nível de intelecto, colocando-o quase como um simples ponto de distração.
É claro que não poderia ser ignorado, mas ele realmente representa pouca ameaça se comparado a serpente e ao rei.
— Lena! — Aether começou a correr, passando ao lado do dragão que se debatia ao lado enquanto as feridas se regeneravam lentamente — O que devemos fazer?
Oficialmente, Lena é a segunda em comando, por isso que mesmo cercada de emoções intensas, ela ainda pensa em formas de lidar com a tensão da batalha.
— Temos que colocar aquela serpente no chão.
O que ela não sabia, era como fazer isso contra um adversário tão evasivo.
Aether coloca uma flecha no arco e mira na serpente que o fita com toda a maldade do mundo, como se o convidasse a atacar. Ela tinha absoluta certeza de que poderia evitar esse ataque, e Aether tinha absoluta certeza de que erraria.
— Eu atacarei pelo flanco — Aether olhou para a maga.
— Vai ser melhor assim — Lena consente. O arqueiro mais afastado vai exigir mais atenção da serpente — Evite desperdiçar flechas no dragão.
Aether entendeu a mensagem oculta nessas palavras, não seria bom mostrar o trunfo contra o dragão. Esse que, ao terminar de se regenerar, tem as flechas em suas juntas se quebrando e está pronto para atacar outra vez.
Aether ignorou completamente sua intuição e disparou contra a serpente que girou no ar, escapando facilmente do disparo. Tudo isso para que quando ela voltasse para o local e percebesse apenas o elfo, correndo em um espaço vazio. Aquela adrenalina misturada com raiva tão expressiva se mostra novamente enquanto a mana a cobra novamente.
— Vocês não vão parar com isso… Né? — a serpente expande novamente aquela mana, revelando todas as magias em volta.
Ela voa como uma lança na direção da dupla de magos. Lena ao perceber o avanço move o cajado frente ao corpo em diagonal, gerando outra estaca do solo que entra em rota de colisão contra o monstro. Mas o que veio a seguir a pegou completamente de surpresa.
A estaca de terra tinha quase dois metros de comprimento e quase cinquenta centímetros de largura em sua espessura máxima, ignorá-la significou para a serpente ter perdido parte do seu corpo, decapitado em pleno ar, em uma divisão certeira. A parte inferior rumou ao solo, mas a superior, consciente, se aproximou de uma maneira que deveria ter sido evitada a qualquer custo.
Aquela enorme boca aberta diante de Lena a fez sentir um frio na espinha que nunca sentiu antes, sua respiração parou e o mundo ficou escuro, a permitindo ver apenas aqueles enormes dentes em sua direção. Seu corpo foi rapidamente puxado para o lado, a trazendo novamente para a realidade em que sente apenas um forte impacto de uma cabeçada do inimigo a lançando alguns metros para trás.
Atônita, a maga dos elementos busca se organizar no presente, compreender o que aconteceu. Sua visão se foca naquela serpente bizarra, sangrando com a ausência inferior de seu corpo, mas o que assustou mais a maga foi perceber sangue recente nas presas daquela aberração.
— Elmond… — Lena percebeu — Elmond!
Ao olhar para o local onde estava anteriormente, percebe o mago das estruturas de mana de joelho no chão, utilizando o braço direito para suprir a dor de ter perdido o esquerdo. O puxão que sentiu foi ele a tirando da direção da mordida da serpente, e a punição dele por isso foi uma perda severa. A maga tenta correr em direção a ele, mas o maldito dragão de carne se coloca em seu caminho. Seus olhos lacrimejam e ela range os dentes, segurando firme o cajado.
— Suma daqui! — Lena gritou para o monstro.
— Ihihihihihihi…! Vocês se surpreenderam, não foi? — a serpente ri, sádica — Isso é tão… Bom!
Seus olhos vibram como se fossem saltar.
E apesar da dor causada pela ausência de parte do seu corpo e da excitação da batalha, as flechas do elfo ainda não podem alcançá-la. Alguns movimentos a direita e ela direciona seu olhar para o arqueiro que porta um olhar carregado de fúria.
— Sua aberração desgraçada…! — Aether cuspiu as palavras — Você vai morrer hoje!
— Ihihihihi! — em meio a risada, a serpente permite um gemido de dor escapar — Vocês não podem nos matar… Somos eternos! Luvelin é eterna!
O sangue que escapava da serpente, parou, e logo aquela parte começou a crescer novamente. Numa velocidade muito lenta, mas ainda assim é possível perceber que em algum momento ela vai estar completamente intacta novamente.
Essa declaração surpreenderia o grupo caso eles não tivessem tido contato com Happo.
Elmond não foi amaldiçoado com essa capacidade, seu sofrimento é muito mais evidente. Encolhido, apertando com todas as suas forças o local da ferida que ainda não parou de sangrar. Tão próximos, agora Elmond estava à mercê da Serpente.
Um tremor se faz presente, fazendo a serpente olhar em direção a Lena que havia erguido outra parede do chão e arrastando o dragão para longe. A serpente bufou irritada, pensando no quão inútil aquela criatura estava sendo, mas no minuto seguinte ela sorriu olhando para Elmond.
— Talvez seu cérebro faça um funcionar melhor… Ihihihi… Claus pode gostar dessa ideia…!
Aquela cena parecia algo tirado diretamente de um filme de terror. Um elfo completamente indefeso que só não morreu ainda devido ao ferimento que a serpente se permitiu receber. Aether se encontra extremamente frustrado enquanto aperta seu arco, afinal…
— Ela sempre sabe onde estou… Não consigo atingir ela de nenhuma forma…
— A oportunidade virá — a voz do espectro novamente ecoou em sua mente — Não ouse perdê-la.
A raiva do elfo se tornou seu principal combustível. Levou a mão até a aljava em suas costas e segurou a flecha ancestral. Sim, a oportunidade viria e ele não ousaria desperdiçá-la. Vidas estão em jogo e ele porta a única forma de anular a maldição de imortalidade que foi imposta sobre a cidade.
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