Hope

5 Capítulo 5 - Primeira jogada


Capítulo 5 – Primeira jogada

Sherlock despertou sabe-se lá quanto tempo depois, com Alistair dormindo em cima dele. Mexeu-se devagar para não acordar o garoto e o olhou pelo canto dos olhos, vendo que ele dormia serenamente emborcado em seu peito. Suas mãos se puseram a acariciar as costas do filho, enquanto o detetive tentava distrair-se da dor dos hematomas e machucados que devia ter. Olhou em volta e nada na sala havia mudado além de uma mamadeira cheia colocada no chão ao lado da bolsa de Alistair. Sherlock estendeu a mão para pegá-la, percebendo que estava ainda quente. Estava tão exausto que os sequestradores entraram no quarto e ele sequer acordou?

Levou bons minutos analisando o conteúdo deixado ali para ter certeza de que não estaria envenenando seu filho. O bebê começou a se mexer e murmurar um tempo depois, até começar a chorar. Sherlock se sentou, recostando-se à parede e ignorando a dor que o movimento brusco lhe causou. Balançou Alistair de leve e conseguiu acalmá-lo um pouco antes de lhe dar a mamadeira. O garoto silenciou enquanto sorvia o conteúdo devagar.

– Preciso tirar você daqui...

Deixou a mamadeira de lado quando o menino terminou, e o fez arrotar antes de balança-lo devagar. Já havia estudado todas as formas possíveis de sair dali, mas infelizmente eram muito escassas ou impossíveis. Ele não caberia na saída de ar, deduzira que a porta devia ter algum bloqueio fortíssimo por fora, já havia tentado empurrá-la e pode sentir uma parte mais resistente, uma tora de madeira forte e pesada ou algum objeto grande talvez... Só havia duas saídas e todas eram muito arriscadas para Alistair. Não teve mais tempo de pensar, um estrondo indicou que a porta estava sendo aberta. Era ele! Sherlock se lembrava agora! Vários disfarces diferentes, várias prisões por crimes bem menores que os reais. E como Joan havia observado na época, todos cometidos ao mesmo tempo em que Moriarty estava aprontando alguma coisa, coisas que haviam considerado estranhas para o tipo de crime que a loura costumava cometer, e crimes que apenas eles dois foram capazes de ligar a ela, e ainda assim sem provas concretas. Agora ele tinha certeza, os dois estavam competindo! Ela queria evitar, ganhar ou não perder alguma coisa das interferências dele.

– Qual é o seu nome agora? – Sherlock perguntou ao mesmo homem bem vestido de antes quando ele entrou – O que você e Moriarty estavam disputando? Ou são aliados? Ela ordenou tudo isso? Não faz o tipo dela.

– Não mesmo, Holmes... Eu e Jamie somos velhos conhecidos. Eu faço o possível pra ser amigável, mas ela não gosta muito de mim e do meu pessoal. Não vou lhe dizer muito mais que isso, apenas que está na hora de darmos nossos lances pelos nossos objetivos e uma criança chorando toda vez que sentir fome em nada vai ajudar. Fui bem generoso lhe dando essas horas com seu filho, agora vamos deixa-lo com minha esposa.

– Não vai leva-lo!

– Eu vou repetir... – o homem apanhou a bolsa de Alistair e apontou uma arma na direção de Sherlock – Não está em condições. Se não pode levantar, nós carregamos você, mas não prometo nenhuma gentileza.

O consultor levantou-se contra sua vontade, sentindo-se um pouco fraco, mas não deixou que percebessem. Abraçou o filho mais perto de si. O menino parecia assustado, certamente incomodado com a alteração dos batimentos cardíacos do pai. O inglês o confortou e fez tudo que podia para mantê-lo em silêncio enquanto era guiado pelo corredor até outra das salas, sendo ameaçado por quatro homens armados. O local era igualmente escuro, apesar de estar bem iluminado por lâmpadas, mas sem janelas.

– Nós tivemos uma menina há alguns meses, ela está com os avós. Eu poderia ter trazido aquela bela asiática que você tem junto conosco, mas não achei necessário. Infelizmente só descobri há alguns minutos o quanto ela vale no meu jogo. Essa é minha mulher.

Então Joan estava livre?! O criminoso abriu a porta e Sherlock viu uma mulher sentada no chão sobre um colchonete. Era bonita, pele branca, cabelos negros cacheados e profundos olhos castanhos. Tinha um ar de tranquilidade, talvez pelos instintos maternais, mas era possível ver nela o mesmo ar misterioso de uma criminosa.

– Ela cuidará bem do seu filho, como tem feito até agora.

– Estava ficando entediada, querido. Será bom ter a companhia do pequeno Alistair de volta. Ele é um garoto adorável. Então você é Sherlock Holmes? – Ela perguntou – É um prazer finalmente conhece-lo pessoalmente.

– Entrega o bebê pra ela – Russel sussurrou, pressionando a arma nas costas de Sherlock, bem na altura em que ele segurava Allistair.

O consultor engoliu o ódio que sentia e pôs o pequeno nos braços da morena, que o recebeu com cuidado e sorriu. Sherlock a analisou brevemente. Parecia ser verdade o que haviam dito, mas ainda sentia-se péssimo, especialmente quando o menino voltou a chorar.

– Podem ir, logo vai se acalmar, vou cantar pra ele – ela disse com um sorriso – Tirem logo suas caras feias daqui.

Russel deixou a bolsa infantil no cômodo e fechou a porta enquanto Sherlock era praticamente arrastado para fora e levado de volta ao ponto inicial, onde foi outra vez jogado para o chão.

– O NYPD já deve ter sido acionado... Qual o sentido de tudo isso? O que você quer?

– Minha luta não é contra o NYPD, é com Moriarty, como você brilhantemente deduziu. Ela vai decidir o que acontecerá com vocês. E o que eu quero é muito pra gastar tanto tempo lhe contando. Que venha o NYPD, calculamos nossos passos e vamos sumir de novo. E se sua mulher aparecer aqui imprudentemente não prometo que nada acontecerá com ela ou que viverá.

Russel trancou a porta novamente, fazendo Sherlock colidir contra ela e cair sobre os joelhos quanto tentou agredi-lo. O consultor sentia-se agora ainda mais fraco e em desespero. Joan estava em perigo! Alistair podia estar também! E Moriarty estava no jogo! Ele não conseguia sair daquela sala, estava dolorido e cansado, e começava a sentir os efeitos da falta de água e de comida. Não sabia sequer há quantas horas estava preso.

******

Joan sentou-se sozinha num canto da delegacia enquanto os demais estudavam informações fornecidas por Moriarty. Agora tinha uma esperança, com ou sem a ajuda dela. Kitty fora brilhante encontrando o local. Mas isso não diminuía sua angústia e tristeza. O que estariam fazendo com Sherlock?! E com seu bebê?! Sentir a falta de Alistair na segurança de seus braços doía terrivelmente. Queria que os dois estivessem ali. Queria Sherlock para confortá-la, protege-la em seu abraço, cuidar dela e de Alistair, e deixa-la saber que estava tudo bem. A chinesa sentiu lágrimas silenciosas correrem por seu rosto. Não tinha dúvidas de que traria sua família de volta, ainda que morresse tentando isso, era uma promessa! Mas não conseguia afastar sua tristeza e preocupação. Ergueu o rosto quando sentiu alguém tocar em seus ombros e surpreendeu-se ao ver Jamie Moriarty a encarando com qualquer coisa parecida com compaixão.

– Joan... Eu sei o que está passando. Eu já vivi isso uma vez. Embora a decisão tenha partido de mim. Ele está bem, eu tenho certeza. E Russel não seria tão burro de fazer alguma coisa antes de me contatar.

– Você está solta... – falou baixo, tentando se acalmar.

– Seus amigos aceitaram meus termos. Já prometi que não vou fugir e sou uma mulher de palavra quanto a certas coisas, já provei isso antes... Nós vamos resolver isso. Logo você vai ter Sherlock de volta e seu bebê nos braços. Eu juro! Então enxugue essas lágrimas e junte-se a nós para discutirmos a estratégia.

A loura secou as lágrimas em seu rosto e naquele momento Joan de fato se assustou, o que vira nos olhos da maior homicida de Nova Iorque parecia sincero e real. A chinesa não se preocupou em responder ou dar qualquer sinal de simpatia. Afinal ainda estava lidando com uma criminosa perigosa, mas levantou-se e a seguiu até a mesa onde Gregson, Bell e Kitty estavam reunidos.

– Joan – Bell lhe chamou – Tem certeza que quer participar disso? Você não tá bem.

– É o meu marido e parceiro e o nosso filho que eles levaram! Eu agradeço muito sua preocupação, Marcus, mas eu vou fazer isso.

O detetive abriu a boca para replicar, mas foram interrompidos por outro oficial, que lhes entregou um envelope que constava como uma das papeladas de sempre da delegacia, mas nada continha além de letras e símbolos estranhos. Moriarty estendeu a mão imediatamente e tomou o papel das mãos de Bell, o olhando rapidamente.

– O jogo começou – ela falou com um meio sorriso.