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6 Capítulo 6 - Desavenças do passado


Capítulo 6 — Desavenças do passado

– Essa é a planta do lugar onde você disse que Russel está se escondendo — Bell falou a Kitty quando estendeu uma planta em cima da mesa da sala de interrogatórios — Pedimos as dos outros quatro lugares também.

– Essa deve ser suficiente por enquanto — Moriarty disse simplesmente, espalmando as mãos na mesa e se inclinando sobre a grande folha de papel — Esse lugar tem dois andares... O térreo é um grande galpão com veículos, caixas e outras coisas. Uma porta lateral leva ä escada do segundo andar onde há grande corredor que acessa várias salas. Sherlock pode estar em uma delas, preso num labirinto cheio de vigílias.

– Você disse que vão afastá-lo de Allistair... — Joan começou — Há salas menores no térreo que se abrem pra o beco entre os dois quarteirões. É um bom lugar pra uma fuga desesperada.

– Sim... Russel não envia pra longe tão rápido aqueles que não quer mais, se for alguém difícil de manter quieto como um bebê ele o entrega a uma das mulheres e assim que a criança se acalma por um período descente de tempo, ele se livra dela. O garoto pode estar em um dos cômodos laterais.

– Acho que vale a pena ficarmos de olho das outras instalações próximas. Duas das cinco ficam perto dessa — Kitty sugeriu.

– Podem ser a rota de fuga usada por Russel? — Gregson perguntou a Moriarty.

Joan notou o quanto o capitão e também Bell pareciam incomodados por terem uma criminosa tão perigosa como colaboradora, especialmente por ser praticamente impossível conhecer suas reais intenções, mas estavam tentando ao máximo manter tudo sob controle. A chinesa jurava ter visto Moriarty esconder um pequeno sorriso ao ver que o quanto os dois estavam tensos, mas ignorou.

– Certamente que é. Os três homens que Joan viu estarão na direção mais próxima de chegar ao aeroporto com o menino e seja quem for que esteja cuidando dele. Lá ele seria entregue a um associado que cuidaria do resto.

– Nós já temos homens posicionados sem serem percebidos vigiando o lugar. O que você nos sugere?

– Vocês cuidam da vigilância externa e ficam a postos em local e distância seguros. Eu vou invadir.

– Eu quero fazer isso. É o meu filho.

– Joan, querida, entendo o que está sentindo. Se você quer correr o risco, já disse que terá minha inteira proteção a todo momento, embora saiba lutar tão bem. Mas guarde-se pra depois que seu bebê estiver a salvo. Você foi médica, quanto tempo se leva pra um recuperação total depois de um nascimento? Dois meses que eu me lembre?

– É o tempo estimado, embora possa ser mais ou menos, dependendo do organismo da mãe, das condições do parto, se foi ou não o primeiro filho... Eu não tô cem por cento, mas o suficiente por enquanto.

– Por isso digo pra se preservar, está só na metade do caminho, você ajudará com Sherlock. Não será nenhum problema pra mim cuidar dos guardas que devem ter no térreo. E se for silenciosa poderá passar despercebida no andar superior, ao menos por um tempo. A segurança em torno da criança deve ser menor. É Sherlock que ele quer usar pra me chantagear, e o bebê servirá pra chantagear Sherlock.

– Eu posso ir com Joan — Kitty se ofereceu.

– Kitty, não precisamos arriscar duas pessoas sem armas de fogo, eu poderia ir.

– Não aconselho, detetive — Jamie lhe disse — Eu garanto que aqueles homens conhecem bem o seu rosto. Não costumam prestar atenção aos consultores, mas conhecem bem os policiais.

– Então eu vou.

– Não quero que você se arrisque nisso, Kitty — Joan lhe pediu.

– Eu não posso ficar pra sempre um passo atrás toda vez que acharem perigoso. Vocês me ensinaram a lutar, eu sei até onde posso ir.

– Eu sei... Nós todos reconhecemos isso em você, mas essa foi uma situação totalmente inesperada. Não sabemos o que vamos encontrar por mais planos que façamos. Você tem muito mais tempo do que nós pra viver. Se quer nos ajudar a nos sentirmos mais seguros, não arrisque sua vida.

– Joan tem razão. Fique esperando pra trazer o bebê pra cá quando eu conseguir encontrá-lo.

– Vou chamar alguém pra recebê-lo e cuidar dele quando chegar — Gregson falou, lançando um olhar de questionamento a Joan.

– Minha mãe e a senhora Hudson, elas sabem o que fazer.

O capitão acenou positivamente para Bell, que saiu da sala.

– Você ainda não nos disse nada sobre a mensagem codificada que recebeu — Joan falou a Moriarty.

– Como eu já disse... Russel quer me fazer ceder em algumas questões... Está usando Sherlock pra isso. E como eu suspeitava, o bebê pra pressionar Sherlock, pois não o citou na mensagem. Antes que fique nervosa, isso não quer dizer que se livrou dele, só que ele não é a chave principal da nossa negociação.

Moriarty se recusava a abrir a boca sobre que questões seriam essas. Joan podia imaginar quantos contrabandos, quantias bilionárias e experimentos estranhos estariam envolvidos nisso. Ela chutaria que pelo que já sabia e o que Jamie havia relatado até ali, Russel queria afastá-la de Nova Iorque, e sabendo que ela estava sob custódia, poderia se aproveitar para mexer os pauzinhos e transferi-la para uma prisão bem longe dali.

– Russel se deixa iludir por coisas pequenas como uma prisão ou uma tornozeleira — com um risinho a loura falou sobre o dispositivo preso em seu pé direito por baixo da calça — Não vai me vencer nunca enquanto não for mais detalhista. E se depender de mim e da mente fechada dele, isso nunca vai acontecer.

De repente Joan pode notar algo diferente nos olhos da criminosa. Parecia ódio... Por quase um minuto ela ficou parada encarando a planta, com chamas de raiva e ressentimento faiscando em seus olhos. Kitty também pareceu perceber e trocou um olhar com Joan. Havia muito mais do que negócios do crime ali. Moriarty odiava Russel. Restava saber porque. Antes que qualquer coisa acontecesse, a mulher recuperou sua compostura e reassumiu a expressão fria e confiante de antes.

– Vamos acertar alguns detalhes e iremos atrás deles äs três da manhã. Deviam dormir enquanto podem, especialmente você, Joan.

Meia hora mais tarde, Bell havia contato Mary e a senhora Hudson sobre os planos, Gregson cuidava de alguns assuntos, Moriarty permanecia presa e vigiada o tempo inteiro, por mais que jurasse não fugir, e Kitty e Joan foram guiadas por Bell até uma sala da delegacia que apenas sabiam que existia, nunca haviam entrado lá.

– Não é um quarto cinco estrelas, mas já que querem ficar aqui direto, podem descansar um pouco — Bell lhes disse — Eu vou ficar aqui na porta, do lado de fora, então não se preocupem — ele lhes mostrou um pequeno sorriso e saiu.

A sala na verdade era um pequeno quarto com dois beliches, uma mesa e duas cadeiras e um pequeno armário suspenso na parede. Kitty sentou-se ao lado da oriental em uma das camas debaixo. A preocupação e tristeza não queriam deixar seus olhos. Por um instante novas lágrimas pareceram brilhar ali, mas ela se conteve.

– Estou com medo... — ela falou finalmente.

– Sherlock é incrível, nós duas sabemos que há uma possibilidade de chegarmos com o resgate e ele estar do lado de fora esperando por nós depois de ter superado no mínimo metade dos criminosos. Tenho certeza que ele está cuidando de Alistair com sua vida.

– Eu sei disso, mas Sherlock não arriscaria nada estando com ele se souber que há uma mínima chance de machucá-lo. Ele só tem um mês... Isso pode trazer traumas horríveis. E se ele estiver com fome, assustado, com dor ou com frio...? E se Moriarty estiver errada?

– Odeio admitir isso, mas pelo que vocês me falaram dela, eu não acho que esteja. E ela não deu sinais de que estava mentindo desde que chegamos.

– Nós sabíamos... Em algum momento alguém o usaria contra nós desse jeito. Nós somos o maior risco que pode haver pra nosso próprio filho.

– Joan... São os melhores pais que ele poderia ter, isso não foi culpa de vocês. Vamos pegar aquele desgraçado e ele vai ter o que merece... — a ruiva falou abraçando a amiga, que para ela era uma segunda mãe — Vai ficar tudo bem...

Kitty segurou-a com firmeza e afagou seu cabelo longo enquanto ela soluçava baixinho.

– Ele é muito lindo... Aquele sorriso na foto que vocês me enviaram não sai da minha cabeça. É o sorriso mais lindo que eu já vi, apesar de não ter nenhum dente — a britânica falou com um sorriso quando Joan se acalmou alguns minutos depois.

A mulher mais velha sorriu e tentou controlar os sentimentos confusos que tomavam seu coração entre as lembranças felizes e aquele momento.

– Joan, você precisa dormir.

– Você também.

– Me recuso a dormir enquanto não tiver certeza de que você fez o mesmo.

Com alguma insistência, ela convenceu a chinesa a deitar-se e cuidou dela até estar em sono profundo, seguindo então para a cama ao lado e logo adormecendo também.

******

Estavam observando o prédio de longe, de cima de outro edifício, o qual Moriarty garantiu que não seriam percebidos. Jamie olhava fixamente para o local, analisando cada movimento que conseguia perceber. Em sua mente, Joan tentava conectar os desenhos da planta com o que estava vendo. Gregson se comunicava pelo rádio. Policiais de reforço os arrodeavam. Kitty e Bell estavam em outro local do lado de fora.

– Eu acho que o bebê não está mais aqui. Há homens de menos nesse lugar. Russel protege as crianças que sequestra, ainda que não se importe mais quando as vende ou manda para adoção ilegal. Eu não acho que Alistair esteja aqui.

– Como pode ter certeza disso? — Gregson questionou.

Joan nem teve tempo de ficar nervosa ou tomar qualquer medida de reconhecimento mais astuta do local. Seu celular tocou.

– Alô... Está mudo.

Jamie estendeu a mão em sua direção, recebendo o celular de Joan diante de um olhar cheio de questionamentos, e o levou ao ouvido.

– Onde ele está, Russel?!

– Se colocar esse telefone no viva-voz, eu mato Sherlock Holmes na sua frente, Jamie... Eu sei que está nos vendo, eu não sei de onde, mas sei que está, ainda que pelos olhos de outras pessoas.

– Holmes é um homem adulto que pode lidar com nossos assuntos. Se não quer o menino e o está usando apenas como meio de chantagem para nosso jogo, garanto que isso vai sair muito caro se ele for prejudicado.

– Qual é o seu problema, Jamie...? — Ele riu — Não é bom guardar mágoas do passado. Nem estendê-las aos outros.

– Quem é você pra dizer isso? Cada vez que nos encontramos parece que está mais insano. Me pergunto como uma mulher como Jane pode ter escolhido você.

– Nossas vidas não interessam agora, Jamie...

– Foram exatamente elas que nos colocaram em tudo isso. Não pense que estou parada enquanto você pensa que está me fazendo perder tempo com essa conversa.

– Eu não me importo em saber porque você é obcecada por esse casal de consultores, mas por que quer tanto o menino? Ele nem é seu filho, Jamie — o homem riu do outro lado da linha.

Moriary literalmente rosnou ao telefone, chamando a atenção dos que estavam em volta.

– Escute aqui! — Ela quase gritou — Grave minhas palavras, Oliver!! Até essa madrugada acabar, eu terei matado você!! — E desligou, devolvendo o celular a Joan.

– Pode nos explicar o que houve?! Quem é Oliver?

– Oliver Burnier, é o verdadeiro nome desse desgraçado.

– O que é que você não nos contou? — Gregson exigiu saber — Nos disse que conhecia o homem, mas parece que conhece muito mais a fundo do que pensamos.

– Minha vida pessoal não vem ao caso agora, capitão, e garanto que o que acabou de acontecer não vai mudar o que acertamos.

– Por acaso... — Joan começou.

– Não, esse homem não é o pai da minha filha. O pai dela não era uma pessoa maravilhosa como devem imaginar, mas era muito melhor do que Oliver e também amava nossa menina, apesar de ser um lerdo que a colocou em risco uma vez. E Oliver o conhecia muito bem, é tudo que vou dizer.

– Ele estava vivo naquela época.

– Sim, estava... Isso não importa agora, Joanie. Eu vou buscar Alistair. É melhor que fique aqui.

– Como sabe pra onde o levaram?

– Russel mantém um padrão sobre quem vigia o que. Algumas pessoas não estão aqui. Ele deve estar no quarto edifício que checamos.

– É o meu filho, eu devo ir.

– Eu entendo que queira vê-lo imediatamente, mas fique aqui. A garota e o detetive lá embaixo vão levá-lo em segurança. Se eu não voltar em meia hora, aconselho que procurem Sherlock por si mesmos, é claro que terão o apoio de meus aliados. Vê aquele caminhão parado? O motorista vai ajudar você a entrar nele sem ser notada. Lá dentro há cargas de contrabando dos homens de Russel. Estão avaliando a segurança do local antes de guardá-lo lá dentro. Seu bebê não está aqui, Joan. Não mais. Mas eu vou pessoalmente buscá-lo do outro lado da cidade.

– Espere aí! — Gregson agarrou o braço da criminosa quando ela virou-se para sair — Não vai sem vigilância. Acabou de ameaçar um homem de morte.

– A morte dele será um favor não só ao departamento e a Nova Iorque, mas ao mundo, caso venha a acontecer.

– Ainda assim vai usar uma escuta.

A loura lançou um olhar irritado ao capitão antes de receber pequenos fones de ouvido e um pequeno rádio que escondeu na roupa. Depois seguiu com quatro policiais pelas escadas, na direção do térreo.

******

– Onde ele está?!! — A mulher perguntou encostando a arma que acabara de roubar do vigilante em suas costas enquanto o prendia contra a parede.

Havia deixado os policiais e o carro de Bell e Kitty um quarterião atrás e segundos depois deu um jeito de dar curto circuito nos fones de ouvido. E ainda colocara um silenciador na arma no instante em que a roubou. O homem riu.

– Russel sabia que você viria, eu não sou o único e por mais habilidosa que você seja, sabe que pode ser pega... — ele riu de novo.

Ela atirou no chão, por pouco não acertando o pé do criminoso, e apontando outra vez a arma em sua direção.

– Não ouse comparar as articulações ridículas de Russel com Joan e Sherlock!! E eu vou achar o menino de todo jeito.

– Jane não vai deixar levá-lo.

– Jane não anda com armas. Apesar de levar uma vida de crimes, ela é uma mulher piedosa, caso contrário as crianças que o seu chefe sequestra estariam perdidas! — Outro tiro, dessa vez na parede.

– Ouvi dizer que Moriarty estava morto... Quem é você afinal? — Ele desdenhou.

Jamie inspirou fundo em fúria e no próximo segundo o homem estava morto a seus pés.

– Não se preocupe. Você vai conhecê-lo logo logo... — falou para o criminoso morto — É por isso que mandei você ficar, Joan... — disse para si mesma.

Deixando o bandido para trás, ela seguiu para a próxima sala. Seus homens já haviam abatido os vigilantes do lado de fora e mais alguns em emboscadas, o que facilitou e muito sua infiltração no lugar.

Ela caminhou por várias salas até onde sabia haver uma escada. O elevador não era boa ideia, além de estar desativado. O prédio estava propositalmente bem vazio por dentro. Ainda que alguém encontrasse o lugar, jamais suspeitariam que um bebê estava sendo mantido ali. Ela chegou finalmente ao segundo andar, onde encontrou rastros cada vez mais claros de presença humana.

– Não sabem mesmo esconder coisas. Como ele espera me derrubar desse jeito? — Falou para si mesma, caminhando até a última porta do corredor e girando a maçaneta.