Hope
10 Capítulo 10 – Espaços vazios
Capítulo 10 – Espaços vazios
Os olhos castanhos tornaram a se abrir ao ouvir o som distante de vários tiros em sucessão. Não sabia quanto tempo havia se passado. Seu cérebro retomou a noção da situação ao sentir alguém balança-la de leve e chama-la várias e várias vezes com uma voz trêmula.
– Joan... Joan... – era apenas um sussurro, um sussurro desesperado que lamentava.
O desespero nos olhos de Sherlock foi a primeira coisa que ela viu e seu primeiro pensamento foi levar a mão ao seu rosto para acalmá-lo. Sherlock! O que mais ele poderia ter sofrido enquanto ela estava desacordada? Ela estava bem, estava viva, apesar da dor excruciante no lado esquerdo das costas e da confusão em sua mente. Havia se posicionado na frente de Sherlock quando Russel atirou na direção dele. Joan olhou na direção do criminoso, vendo-o caído no chão com pelo menos cinco tiros. Jamie Moriarty estava de pé ao seu lado, ainda com a arma estendida, o olhava com tanta raiva que nem parecia ser a mulher fria e controlada de sempre. Seu braço direito estava envolto num tecido branco ensanguentado, que Joan reconheceu como sendo das roupas de algum dos homens ali, provavelmente um agente duplo do crime trabalhando para Moriarty. Pelas manchas de sangue, Joan deduziu que Jamie havia sido atingida perto do ombro e tinha outro ferimento no antebraço. A loura usava luvas, guardou a arma e após alguns instantes parecia ser a mesma de sempre, apesar dos sinais de sentir dor. Um sorriso de satisfação atravessou seu rosto, mas tão rápido que não era possível ter certeza.
– Eu avisei, Oliver – ela falou com desprezo, antes de caminhar até os consultores – Acabou... Eu disse que os protegeria, sinto ter me atrasado alguns segundos, mas parece que você resolveu isso, Joan. Burnier “quase” foi um inimigo à altura... Precisamos cuidar dele e de você – ela falou sobre Sherlock – Kitty, está seguro pra você entrar, você e quem mais estiver aí fora. Nós resolvemos tudo por aqui. Chamem ambulâncias. Diga ao capitão que nós três fomos atingidos. Sherlock não está bem – Moriarty informou pela escuta.
Ouviram barulhos do lado de fora, a polícia devia estar arrombando o portão.
– Tudo bem, tudo bem... – Joan repetia para Sherlock ao tentar se erguer.
– Joan... – Jamie lhe disse simplesmente ao abaixar-se ao lado dos dois.
– Estou bem, só dói bastante... A bala deve estar presa no colete. Não é uma arma comum. O colete pode retê-la, mas é suficiente pra fazer alguém perder a consciência com o impacto.
– É uma arma modificada. Oliver gostava de experimentos com armas e balas – ela falou com um tom de alegria enfático no “gostava”.
Joan conseguiu firmar-se de joelhos ao lado de Sherlock, sentindo a dor lhe queimar por dentro, mas precisava aguentar. Rasgou parte do tecido de sua blusa já danificado pelo disparo e envolveu o ombro ferido do marido.
– Sherlock, escute. Eu preciso estancar isso, vou amarrar com força, vai doer.
– Faça isso...
Ela esperou mais um segundo e o fez, ouvindo Sherlock gritar. Aquilo feriu seu coração, mas não havia outro jeito. Após o doloroso processo de amarrar seu ferimento, ele se acalmou e ficou em silêncio, olhando para as duas mulheres a sua frente, embora sua respiração estivesse ofegante.
– Nos encontramos de novo, Sherlock... – Jamie lhe disse.
– Por que? – ele perguntou simplesmente – Podia estar morta. Burnier atirava bem. Não me matou porque não quis.
– Eu já disse. Não decifrei vocês ainda. E lhes devo pela vida de Kayden. Os subordinados de Oliver nunca serão tão qualificados quanto os meus. E não se preocupe, nem todos estão mortos, ao menos nenhum dos seus ou dos meus está.
– Joan... – ele chamou – Certifique-se de que a bala não te atingiu...
– Sherlock! Joan!
Kitty apareceu acompanhada por um monte de policiais que se espalharam pelo local. Gregson dava ordens e Bell também veio ao encontro deles, junto com o agente que guardava a prisão de Moriarty. Os três olharam assustados para os três sentados no chão, encostados na parede, especialmente pela mancha de sangue na parede atrás de Sherlock e a bala cravada ali.
– Vou reforçar a ajuda – o detetive falou para eles antes de se afastar e pegar o rádio.
– Sherlock! – Kitty o olhava atordoada ao ajoelhar-se ao seu lado.
– Foi de raspão – Joan lhe disse – Mas precisa ser cuidado logo.
– Kitty... – ele falou forçadamente – Joan foi atingida, ajude-a a verificar isso.
– Sherlock, vou ficar bem, a bala não entrou, eu estaria muito mal.
– Certamente que não, já estaria morta se fosse atingida por aquela bala – Moriarty comentou.
Sherlock precisava ficar calmo, quanto mais nervoso estivesse, mais rápido seu coração bateria e mais sangue seria enviado, ele sangraria bem mais. Joan arrancou o que restava de sua blusa arruinada e removeu o colete por cima da outra blusa, sentindo uma dor fortíssima no processo. Ela analisou o colete atingido e pode ver claramente a bala destrutiva presa entre as camadas dele. Sentiu mãos delicadas levantaram parte de sua blusa e deslizarem por sua pele, lhe causando mais dor, por mais cuidadosas que fossem.
– Ficou roxo, mas foi só isso – Kitty lhe disse.
Joan sentou-se novamente, e os três olharam para Moriarty.
– Ainda não nos disse o que aconteceu com você.
– Como Sherlock disse... Oliver atirava bem. Ele não ficou feliz quando começamos a discutir algumas questões. Sua intenção era me derrubar, mas diante de sua derrota iminente não perderia uma chance de me tirar do jogo.
A criminosa de cabelos dourados não falou mais nada. Tanto ela quanto Sherlock pareciam estar ficando fracos e sonolentos. O capitão se aproximou do grupo rapidamente.
– A ajuda está vindo. Aguentem um pouco. E nem pense em tentar alguma coisa, não vai conseguir – disse à Moriarty.
Ela riu e respondeu.
– Nem que eu quisesse, capitão. Será que não está enxergando bem hoje?
O homem mais velho a olhou irritado, mas preferiu ignorar e saiu para outro lugar.
– Joan – Kitty a chamou – Ele é lindo! – Disse com um sorriso, vendo a chinesa sorrir também.
Minutos depois, Sherlock estava protestando ao ser levado para uma ambulância, tentando convencer os paramédicos de que ficaria bem se apenas Joan cuidasse dele, mas não adiantou. Ela mesma o forçou a ir. Policiais iam e vinham fazendo prisões, corpos eram retirados. Moriarty estava em outra ambulância altamente vigiada. Ela se recusava a abrir a boca sobre os homens que haviam magicamente desaparecido após o confronto e a invasão da polícia. No hospital seu quarto permaneceu com uma vigilância reforçada por todo o tempo. Ela só voltaria à prisão após esclarecer alguns assuntos na delegacia, os quais ela dizia que só trataria com Sherlock e Joan. A oriental estava nervosa. Sherlock já havia sido cuidado, sem sequer ter muita consciência disso, e agora dormia na cama do hospital. Seu ombro estava enfaixado e seu braço imobilizado. Joan arrumou o lençol sobre ele para aquecê-lo melhor já que estava sem camisa. Ela também havia sido cuidada, embora ainda sentisse dor moderada, e queria ver seu bebê o mais rápido possível. Bell lhe dissera que ele havia sido examinado por uma equipe após ser cuidado por sua mãe e senhora Hudson, e estava bem, porém dormindo no momento já que estavam no fim da madrugada.
– Você devia dormir. Alistair está bem, vai vê-lo mais tarde. Sherlock vai ficar bem – Kitty lhe disse – Pode me chamar se precisar. Sabe que tenho sono leve. Tem policiais na nossa porta. O capitão voltou à delegacia, mas Bell vai ficar aqui.
– Não sei se consigo apagar ainda.
– Tente. Ficar acordada se cansando mais não vai ajudar.
– Você tá certa. Vou me deitar em alguns minutos, eu prometo.
– Bom mesmo.
– Tudo que aconteceu hoje... Foi muito rápido e estranho.
– Há muito que Jamie Moriarty ainda não disse. Mesmo que não fale nada, tenho certeza que sabe o suficiente pra esclarecer isso. E se não contar, nós vamos descobrir.
Minutos mais tarde, Kitty estava dormindo no sofá do quarto. Joan a cobriu e sorriu ao observá-la. Era como uma filha adotiva para ela e Sherlock.
– Durma bem – falou baixinho para a garota adormecida.
A asiática tinha uma cama para si mesma, mas acabou ficando bastante tempo ainda sentada ao lado de Sherlock e depois se aconchegando ao seu lado e dormindo ali mesmo. Não pegaria no sono se deitasse sozinha.
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Sherlock despertou após vários minutos vagando entre o sonho e a realidade. Fitou o teto branco do quarto, sentindo-se confuso. Estava escuro, mas pela luminosidade nas persianas fechadas do hospital deviam ser cinco ou seis da manhã. Então lembrou-se, de tudo da madrugada anterior. Seu braços estava imobilizado, seu ombro enfaixado, podia perceber que estava vestido apenas da cintura para baixo. O silêncio era imenso, apenas alguns barulhos discretos do lado de fora. Olhou em volta, vendo um travesseiro e um lençol bagunçado no sofá, Kitty estava ali, uma cama vazia e intocada ao seu lado e a causa do peso e do calor que estava sentindo do outro. Joan dormia junto a ele, o envolvendo com cautela, a cabeça repousada em seu peito e a pequena mão repousando exatamente onde estava seu coração. Sua respiração estava tranquila, apesar de seu rosto parecer um pouco atordoado. O detetive a abraçou com cuidado com o braço saudável e beijou o topo de sua cabeça, sentindo dor ao se mexer, mas pouco se importou.
– Vai ficar tudo bem, amor. Durma tranquila, parece que tudo acabou.
De repente sua mente estava a mil de novo. Onde estava Moriarty e o que acontecera com ela e todos os outros? Como explicar os buracos que se formavam naquele caso confuso? O que acontecera enquanto ele estava desmaiado? E o mais importante e urgente! Onde estava Alistair?! Precisava ver seu filho! Joan não tinha nenhum vestígio de lágrimas em seu rosto ou qualquer sinal de angústia profunda, ele devia de fato estar bem, mas certamente ela também não o tinha visto ainda, e essa devia ser causa da tristeza em seu rosto adormecido. Ele precisava de respostas! E precisava já! Só não levantou para não despertar sua esposa. Seu coração aliviou-se ao mesmo tempo que ficou mais eufórico quando viu Kitty voltar ao quarto.
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