Honeymoon

1 Helter Skelter


Mary cochilou e teve um flash de sonho, era uma lembrança boa. Nele, o irmão andava com ela pelo píer de Santa Monica, ela era uma criança e o irmão um adolescente cheio de vida, a família era uma família, mas tudo acabou quando Sam aumentou o volume daquele maldito radio.

Ela acordou ao som do Nirvana botando pra quebrar naquele clima outrora pesado. Ela virou a cabeça encostada no banco do Chevrolet e viu Sam dirigindo, parecia um cientista metódico da estrada, mas era apenas o jeito dele, Marylou sabia que o amigo ainda estava com raiva, pelo modo que ele apertava o volante entre os dedos e franzia os lábios.

(Ele aumentou o radio de proposito, claro)

A conversa ainda não tinha acabado só porque ela dormiu na estrada de Riverside para Moon Half Bay. Lá estavam eles, naquele carro emprestado do vizinho de Sam, Steve, já que Sam não podia dirigir a viatura do pai, no meio de uma noite de domingo e indo para uma das festas do clube Honeymoon, simplesmente porque Marylou tivera vontade e não deixou Sam ver seus filmes trashs em paz na noite da maratona no porão dele.

— Juro que não direi mais nada, se você se lembrar do que ficou me devendo.

— Arquivos do computador do seu pai- Mary lembrou- Não costumo questionar um cliente, mas você tecnicamente não está pagando.

— Estou, agora mesmo. Vou deixar você naquela festa imoral e buscar, certinho.

Ela reprimiu um sorriso, Sam talvez fosse o único adolescente do mundo que proferisse a palavra "imoral". Pareceria um pequeno pai se não fosse os cabelos castanhos mal cortados, os óculos e a camiseta com os dizeres: California Girl.

— Extorsão- apontou ela.

— De fato-ele respondeu- Estamos quites

As palavras fizeram a expressão dele se suavizar, ele sorriu.

— Me avise se precisar de uma cumplice- ela brincou. Sam amava tudo que envolvia crimes não solucionados e seriais killers, seria um ótimo investigador um dia ou um grande criminoso, mas era melhor não pensar muito na ultima opção.

Ele era seu melhor amigo desde os quatorze anos, quando ela se mudou para Riverside com a mãe depois do divorcio, desde então ela sempre achou que tudo estava por um fio e tudo que restava era seu computador, ir para a casa de Sam jogar RPG e ver filmes ruins no porão.

Tentava não pensar no que isso se dizia a respeito dela mesma como filha, como amiga, talvez estivesse sendo um pouco egoísta com Sam, mas não era nenhuma anarquista embora que para mãe estivesse mais perto de uma rebelde, ela já não importava muito com oque se dizia respeito a mãe, ela era fraca e negligente desde que Drew havia morrido, mas a figura que Mary tinha era da mulher que declinava cada vez mais rumo ao abismo, não importava oque elas fizessem nada cicatrizaria aquela ferida.

Aquela noite

Aquela bala perdida

O armazém tinha um aspecto abandonado, ficava na estrada próxima da entrada da cidade de Moon Half Bay. Luz e musica pulsavam do lugar, o deixando morbidamente vivo com todas aquelas cores vazando, piscando pelas frestas. Havia um estacionamento de terra batida onde carros se reuniam, pessoas dançavam, bebiam e fumavam ao lado dos veículos.

— Festeiros demais pra mim- comentou Sam.

— Tá de brincadeira, isso aqui é incrível! — ela exclamou- Primeiro eu entro, depois eu curto do lado de fora enquanto espero minha carona.

— O taxista aqui tem algumas exigências — Sam parou o carro no acostamento, puxou o freio e se virou para Marylou, ajustando os óculos no nariz, sua típica postura de dialogo — Vou deixar você por duas horas, mais duas horas até chegar aqui; são quatro horas que você terá para se divertir, dançar, pular, não me importa. Chego aqui ás duas da manhã, ponto final e você nunca mais me obriga a fazer isso.

— Fechado. Posso ir?

Ele suspirou e se sentou reto novamente

— Vai nessa.

—Valeu!

Ela quase o abraçou, realmente quase, mas apenas deu um beijo rápido no rosto dele. Ele ficou vermelho, embora ela não tivesse notado, pois havia sido completamente sem compromisso, como quando beijava a mãe por vezes, além do que estava com pressa.

Seus pés tocaram a terra e o Chevrolet levantou uma nuvem de poeira quando fez a curva para voltar. Marylou respirou fundo, o ar cheirava ao ar da noite frio misturado a cigarros de cravo.

O barulho que seus rebooks faziam no solo arenoso logo se misturou a música que ressoava em batidas contra seu coração e sua cabeça, quase que de uma forma opressiva, mas que festa não era assim?

Chegando na porta, um segurança careca e corpulento, todo de preto (Até óculos escuros a noite) Acenou com a cabeça e abriu oque um dia foram os portões do velho deposito.

Ao entrar, Marylou se deparou com um mundo explosivo de luz e cor. Uma nevoa rasteira de maquina de fumaça lhe cobria os tornozelos e as luzes piscavam, multicoloridas ao ritmo da música. Era possível sentir mesmo a energia daquele lugar fluindo como musica

Letreiros de neon piscavam nas paredes com mensagens como: BRING ME THE NIGHT, XOXO, I ♥ YOU, HIT THE LIGHT.

Ela andou até o lugar do bar com mesas e cadeiras de madeira de aparência frágil, o bar era todo iluminado (claro) havia luz atrás das prateleiras que faziam as garrafas coloridas serem mais luz.

Bebida para menores, as lendas seriam verdadeiras?

Decidiu testar, foi até o balcão e até apoiou os braços nele. O barman era um rapaz que não parecia muito mais velho que ela, moreno com uma camisa social branca e um avental por cima.

— Uma cerveja, por favor.

—Pra já.

Ele a tirou quase que magicamente debaixo do balcão e a fez deslizar até Mary, que quase aplaudiu, mas ao invés disso pôs as mãos no bolso a procura da carteira.

— É por conta da casa! -disse o barman, alto demais por causa da música- A primeira bebida é sempre por conta da casa.

Ele se estendeu com um abridor de garrafa e destampou a cerveja que emitiu um vapor gelado, Mary tinha a garganta completamente seca.

—A casa, então!

Ela fez um brinde e bebeu. O barman revirou os olhos, mas ainda sorria.

— Quantas vezes já não ouvi essa? Mais alguma coisa?

— Não, só isso, bom trabalho

Ele deu de ombros.

— Boa festa.

Ela se sentou em uma das mesas, bebendo e observando o cenário que deixava a perfeição aos poucos; havia um grupo totalmente alterado que tentava se manter desperto em uma das mesas (Mary pensou numa sátira engraçada de um cartaz de um gatinho se segurando em um galho que tinha a legenda "Fiquem sóbrios ai, pessoal!")

Duas garotas se revezavam para beijar o mesmo garoto, um rapaz com calça de paraquedista distribuía tabletes de êxtase e ervas por entre a pista de dança. Havia várias alas, achava ela, nos quais as pessoas entravam, algumas tinham seguranças.

Deviam ser espécies de áreas VIP, ou algum lugar mais sombrio aonde as pessoas iam para fazerem oque não deviam. Sentiu-se tentada, de fato se sentiu, até lembrar de que não, aquilo não era um dia para explorar.

Terminou a cerveja e tentou a sorte na pista de dança, demorou até adentrar, mas não podia deixar de admitir que era contagiante. A fumaça era mais forte, os cheiros, a luz, tudo ao lado parecia apenas uma fração do que realmente era.

Ela via as mãos flutuando a cima de cabeça, talvez ela mesma estivesse flutuando também. Muito balanço pros lados, os mais ousados iam e voltavam até o chão. Mary aguentou três músicas antes de sair de lá ofegante e pensando nas muitas maneiras de dizer a Sam no quão errado ele estava.

Voltou para o bar e pediu uma coca para o barman, estava tonta e não era por causa da cerveja, talvez fosse o efeito do ar, alguma coisa no ar.

(Oxigênio?! Não seja estupida, mal há dutos de ar por aqui, apenas janelas abertas)

Ela não pensou mais sobre isso, foi apenas um pensamento em meio a uma torrente que fluía sem parar. Olhou para uma das alas, viu um grupo de adolescentes entrar lá sem problemas, se pegou pensando no que havia lá novamente, não havia seguranças naquela ala, porque não? Era só espiar, se fingir de passante e olhar lá para dentro, uma missão fácil até pra uma criança curiosa.

Olhou para os lados quando se levantou, como uma pistoleira andando em uma cidade desconhecida, mas viu um olhar direto que a fez virar o rosto de volta, era o barman, como se soubesse oque ela estava prestes a fazer, ele a encarava enquanto limpava um dos copos e a mensagem que ele transmitiu era clara:

"Não pense nisso, garota"

De repente ouviu a voz do barman, simpático, mas dessa vez sombrio, ouviu Sam dizendo para ela tomar cuidado, a mãe dizendo sempre com aquele olhar abatido para ela ter cuidado, a voz do pai, uma ultima vez, Andrew em Long Beach, dizendo a mesma coisa em um tom carinhoso de memória infantil.

Ela parou, simplesmente parou, as pessoas passavam entre ela como água em volta de um toco no lago. Estava próxima da entrada, bem próxima, era só olhar e sair, lembrou-se novamente, respirou fundo e foi em frente. Encostada no arco de entrada ela viu um aposento banhado em uma luz roxa constante, com sofás e mesas onde pessoas riam, conversavam e faziam coisas... Havia uma área em que pessoas pintavam os rostos e os corpos com tintas florescentes e vivas, os desenhos eram igualmente vivos; animais, flores e formas que pareciam dançar. Ela entrou, devagar e sorrateira.

Achou as pinturas legais o bastante para fazer uma e mostrar a Sam, talvez fossem tatuagens temporárias como aquelas que os hippies colocavam na orla por dez pratas.

Em um dos cantos do lugar, também havia vários casais se pegando, embora o casal que ela viu não parecia nem um pouco no clima. A garota tentava se esquivar enquanto o cara parecia se divertir a prendendo no canto, como um gato brincando com a refeição.

Mary franziu o rosto e foi até mais perto, era possível ouvir a risada detestável daquele cara, enquanto a garota, usando um estranho sarongue pedia para que ele a deixasse ir embora.

—Hey! -ela gritou acima da musica- Otário!

O sujeito virou a cabeça para ela, e Mary estremeceu. Ele parecia um punk normal, cabelo azul, pearcings nos lábios, além de uma expressão arrogante e detestável mas oque de fato assustavam eram os olhos. Olhos grandes e amarelos, florescentes como as luzes de neon ali presentes, pareciam os olhos grandes do lobo mau. Ele soltou algo entre um silvo e um rosnar, fumaça saiu pelo canto da boca dele como se houvesse fumado um cigarro inteiro e ele estendeu a mão na direção dela, uma mão que parecia grande demais, desossada e descolorida demais como se não houvesse carne nela.

Mary recuoua garota de sarongue foi rápida como um raio, mas ao invés de fugir foi para o lado de Mary e lhe tomou a garrafa vazia de vidro das mãos.

Ela soltou algo entre um grito e uma exclamação e avançou com a garrafa pra cima do sujeito, o acertando em cheio no lado do rosto até a garrafa quebrar e só sobrar o gargalo nas mãos da garota, agora tremulas, Mary as pegou, também estavam frias mas ela disse com o ultimo folego que tinha:

—Vamos!

As duas correram para fora daquele lugar, de volta para a festa normal e até andaram por entre a multidão para se misturar, felizmente ninguém veio atrás delas, pisando forte como um gigante e rosnando palavras de ódio.

(Não seja ridícula, não era um monstro de fabulas, apenas um idiota com lentes de contato e bafo de cigarro)

O pensamento parecia uma voz estranha que não era dela, nem de ninguém que ela conhecia, apenas uma voz melódica como as lembranças das palavras de uma velha professora.

Mary ouviu soluços ao seu lado, a garota agora chorava enquanto balbuciava palavras de "desculpa". Mary passou as mãos pelos ombros dela e a levou na direção do bar, havia uma mesa livre na qual se sentaram uma de frente para a outra.

—Ei, tudo bem agora- Mary a tranquilizou- Aquele cara não vai mais de machucar.

—Graças a você... -ela deu um sorriso sem graça- Qual o seu nome?

—Sou Mary, e você?

—Dahlia. Eu conheço você, estudamos na St. Xavier.

—Ah-Foi tudo que ela disse, se sentindo levemente constrangida- Vou pegar algo pra você beber.

—Cherry-disse Dahlia- Açúcar me ajuda a pensar.

Ela deu um sorrisinho, um sorriso verdadeiro, Mary sorriu em resposta e foi até o bar. O barman se virou de um grupo que estava atendendo e foi caminhando devagar na direção de Mary, ela já conhecia aquela expressão, ia levar uma bronca.

—Uma Cherry e uma cerveja- pediu, antes que ele tivesse a chance de falar. Ele tirou as bebidas debaixo do balcão, mas as manteve firmes nas mãos fazendo Mary ter que puxa-las.

—Eu avisei a você- disse ele, em uma voz baixa, mas não irritada- Esse lugar é perigoso, garota, você precisa manter olhos e ouvidos abertos, se esbarrar nas pessoas erradas você já era.

—Eu sei me cuidar sozinha- Mary garantiu- Como você fez aquilo?

Ele piscou atônito, mas muito falsamente.

— Fiz oque?

— Você sabe, eu ouvi, você falou comigo, antes de entrar, disse pra eu não fazer aquilo e eu ouvi sua voz na minha cabeça!

Ele soltou as duas garrafas e deu a Mary um ultimo olhar de censura e dessa vez, raiva, e se virou de costas para o bar. Talvez ele tivesse ficado ofendido, mas não era possível, estava ela entrando em alguma espécie de estado de colapso? Deus, como estava assustada e não só pelo que seus olhos haviam visto, mas porque ela tinha medo de compreender oque aquilo significava, como se ela fosse uma personagem de um livro de fantasia descobrindo algo magico, mas magia não era real e ela era madura o bastante para saber.

Balançou a cabeça, afugentando aqueles pensamentos. Ora essa, estavam todos se divertindo, porque raios ela não poderia? Quando voltou a mesa, Dahlia parecia infinitamente melhor, até mesmo tamborilava os dedos ao ritmo da musica.

Ela se sentou, conversaram sobre a escola, sobre a vida da forma mais rasa possível mas não tocaram no assunto de momentos atrás, pois havia algo de errado com Dahlia, que olhava compulsivamente para os canto e as vezes tremia uma das pernas.

Quando acabaram as bebidas, Dahlia se levantou e estendeu a mão para Mary, que a principio não entendeu.

— Salvou minha vida, ganha uma dança.

Mary riu, se sentia levemente embriagada, tonta como se tivesse tomado um comprimido que a deixava sonolenta e levemente lerda, mas aceitou a mão de Dahlia para se levantar.

A luzes da pista eram azuis, e a música dizia que todos eram azuis; Da ba dee da ba daa, da ba dee da ba daa. Mary riu, quando percebeu que Dahlia tinha olhos azuis, que cintilavam a luz, ela mesma parecia cintilar, irradiar o tipo de alegria que era impossível não se contagiar.

Elas dançaram, e teriam dançado pela noite, que como dizia Poe, ser infinita, embora a paz ainda fosse profunda e maldita.