Honeymoon
2 A Spell On You
No comodo escuro, apenas as luzes do circulo de velas era visível, abaixo do traçado de uma linha vermelha.
A anciã então disse:
— A iniciada pode dar um passo diante do circulo.
Ela assim o fez, as mãos retorcendo nas mangas compridas do manto cerimonial, a sombra do rosto das anciãs era quase tão assustadoras quanto cabeças decepadas reais. Atrás dela, o fogo aumentou até não haver mais velas, o fogo queimava em volta do traçado vermelho de circulo como se ele fosse feito com gasolina, mas as chamas se mantinham baixas.
— Veio a nosso conhecimento, ainda está noite que a senhorita entrou em território feérico, agrediu um dos integrantes do Povo Livre e escapou com uma garota mortal. Verdadeiro?
Engoliu em seco, não podia mentir, se mentisse as chamas a queimariam por completo e não havia morte mais horrenda. Ela assentiu com a cabeça, mas uma anciã de voz grave e irritada se manifestou.
— Mostre o rosto menina!— ela exclamou— Queremos ver a verdade nos seus olhos .
As chamas encostaram sorrateiramente, até ela sentir calor na sola dos pés descalços, seus dedos agarraram o capuz do manto e o puxaram para trás, manteve a cabeça erguida e o rosto serio. As chamas recuaram, mas a visão as anciãs, quatro ao todo, com seus mantos vermelhos e faces descontentes ainda era intimidante.
— Sim, senhoras— respondeu, obedientemente— Mas por legitima defesa, os acordos proíbem que o Povo Livre nos machuque, mas fui abordada por um deles, ameaçada até. Nas palavras dele, disse que veria todo meu povo queimar no fogo da terra, depois o do inferno, e que me levaria para faerie, para ver como lidavam com feiticeiras.
— Já basta— a anciã do meio ergueu uma das mãos.
— Que ultrajante! — manifestou uma, com a voz rouca e idosa — Antigamente, teríamos lhe cegado aqueles olhinhos espetos e infelizes com pó de ferro.
— Devo lembra-la, Dolores, que os acordos ainda estão em vigor, não podemos ameaçar o Povo Livre, assim como eles não podem nos ameaçar.
— Quanto a garota mundana...— lembrou uma, com as bochechas redondas.
— Ela não presenciou nada— garantiu a garota— Embora temo que ele também a tenha a ameaçado.
As chamas permaneceram baixas, houve um burburinho de conversas. Faltavam poucas horas para o amanhecer, ela rezou para que chegasse logo, assim como o fim daquele circulo. As ultimas horas ainda pareciam um borrão colorido em sua mente, não progrediu em seus estudos sobre o Povo sob a Colina (Tinham vários nomes), apenas viu que todas as lendas eram realmente verdadeiras, não chegou a ver uma delegação de uma coorte, apenas seus membros disfarçados com glamour agindo como humanos por uma noite, era...Intrigante?
Pensava sobre ela, a garota que a tinha salvado e dançado com ela, bêbada e enfeitiçada, mas quando a tocou, pode ver por baixo daquilo, uma garota triste e perdida, como ela mesmo era. Ás vezes, seus poderes a surpreendiam, mas aquilo não deixava de ser só empatia comum, bem no fundo sabia disso.
— Não nos ignore perdida em seus pensamentos, srta. Shade— Disse a anciã do meio— Podemos vê-los claramente. Há algo que deseja compartilhar com o circulo?
— Sim!— disse, muito rápida e abruptamente— Eu...Acredito que exista a presença de uma delegação de rebeldes contra os acordos, eles veem infringindo as leis e matando humanos que frequentam aquelas festas, por vezes. Tenho provas que podem...
A anciã mais velha ergueu a mão para silencia-la, o efeito foi imediato.
— Já sabemos sobre suas teorias. Nenhum comunicado de coorte alguma foi emitido sobre uma delegação divergente aos acordos, lamento srta. Shade, mas suas provas não passam de coincidências e...Simples probabilidades mundanas. O assunto está encerrado para este Clã.
— Mas senhoras...
As chamas subiram, mais altas do que ela. Saltou para o lado, com medo de que elas queimassem o teto, mas elas mão pareceram toca-lo.
— Srta. Shade— disse a anciã, muito mais do que apenas friamente— Seus argumentos são infundaveis, suas provas são fúteis e a senhorita ainda é apenas uma medíocre aprendiz. Ainda não faz parte deste Clã, não pode responder por você nem por nossos assuntos, por isso sugiro que mantenha a cabeça em suas praticas e suas atitudes na linha.
— Nunca deveríamos ter ouvido aquele Acônito— Lamentou-se uma delas— Aquele espirito maldito, aposto como não foi um enviado dele que fez isso, ele que bolou esse esquema ardiloso para interromper com nossa paz.
— Talvez uma das Rainhas nos dê uma resposta— disse a anciã mais velha, com um completo desprezo pelo titulo "rainha". Eram duas ao todo, líderes de duas coortes cujo os reinos divergiam entre si pelo posicionamento das linhas ley.
— Terão que dar— garantiu a de bochechas redondas— Eles não mentem, mas ah, como nos manipulam. Gravem oque eu digo: teremos que acabar pedindo desculpas de joelhos perante a todas as coortes.
— Isso não será necessário discutir agora, Amanda. Está amanhecendo e teremos que retomar nossas vidas. Nos reuniremos na próxima lua com o concelho e exigiremos justiça.
— Justiça— concordou o circulo em uníssono, como se fosse uma prece.
— Srta. Shade, está livre para ir— As chamas se apagaram, as velas intactas formaram um fogo fraco que se diluiu como que soprado por uma brisa invisível. Ela inclinou a cabeça para frente, se despedindo do concelho e deu as costas para sair quando ouviu:
— Durma, querida, você terá escola daqui a pouco.
Ela suspirou internamente, mas não ousou pensar em nada para dizer em resposta.
— Sim, tia Ruth
Fale com o autor