Honey
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Notas iniciais
Allen recobrava a consciência aos poucos, sentia seu corpo mole, mas o calor imenso já não estava lá. Não se surpreenderia se tivesse sido deixado largado no meio do pátio pra virar marshmallow torrado. Era bem a cara dele. O negócio é que, nas poucas remexidas que deu, percebeu que o chão jamais seria tão macio.
Mas o peso estava lá, algo em cima de si. E quando deu-se conta, sua boca ficara molhada e gelada.
Abriu os olhos num súbito, parecia que ia afogar-se, e deparou-se com Kanda sentado a seu lado e com o rosto a milímetros de distância.
– O-o que você.. – Passou as costas da mão na boca, os olhos arregalados e notou a garrafa de água que jazia na mão dele.
–Número dez. – O canto da boca se erguendo, enquanto ele repetia a ação do albino. Parecia que o japonês se divertia com a aflição do outro, que encarava tudo com uma cara confusa como se realmente se perguntasse se o maldito tinha mesmo lhe dado água na boca.
Aliás, aquilo parecia muito gentil para vir dele...
Não! É claro que não! Fora só uma desculpa para beijá-lo! Que filho da puta tarado!
Allen empurrou-o com brusquidão, se encolhendo no canto da cama da enfermaria, e , com o movimento, uma bola de basquete surgiu dos lençóis e caiu no chão.
–O que eu.. – Ele olhou ao redor, enquanto Kanda se levantava e pegava a bola no chão, admirando-a. – Estou fazendo aqui? – A mão direita foi até a própria testa e o albino constatou que ainda estava meio quente, mas não sabia o motivo, já que não sentia mais calor.
–Bom.. – Ele começou. Allen olhou para figura e notou que, pela primeira vez, via ele com o uniforme. Kanda vestia uma blusa social branca e a calça do uniforme com um belo designer. Os três primeiros botões da blusa estavam abertos e ele usava uma gravata preta meio frouxa com um pingente quadradinho costurado no final com o símbolo do Kugeka. – A enfermeira disse que é por causa do calor. – Ele olhava fixamente para a bola, acariciando-a tanto que Allen temeu que fosse uma bomba ou algo assim.
– Você realmente não é bom com calor, não é? – Agora ele olhava para Allen, o rosto do albino meio vermelho. – Igual no banheiro.. – Na verdade, era a primeira vez que Allen não via sarcasmo no tom dele. Era só.. uma simples pergunta. Como se ele estivesse...
Preocupado?
NÃO! De jeito nenhum! Aquele cara preocupado consigo?? Se bem que.. Ele lhe dera beijos ao invés de tapas.. Isso não seria..?
Negou com a cabeça diversas vezes, enquanto apertava o lençol. O moreno observou com uma interrogação na cabeça. Seu Honey por acaso era retardado?
–De qualquer forma, — Continuou, suspirando. – Você aceitou minha punição e segurou a bola de basquete até o final. – Allen o encarou, dando de cara com as orbes ônix o avaliando.
–Então.. – Começou, os olhos brilhando inconscientemente. Kanda achou bonitinho, era um brilho diferente do de raiva que vira até agora. Realmente, aquele Honey era diferente. – Você vai voltar pra sala? – Questionou, dobrando um pouco a cabeça e dando um pequeno pulinho.
Kanda sorriu. E Allen ficou encarando aquela nova ação um tanto... inusitada. Era um simples sorriso, daqueles de apertar um pouco os olhos, mas sem mostrar os dentes, e depois passou a mão na franja, jogando-a para trás e deixando-a meio bagunçada. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo baixo, como se tivesse feito as pressas e sem paciência, e deixava umas abas nas laterais da cabeça.
– Eu tenho que acatar o seu pedido, já que eu prometi.. – Um sorriso surgindo nos lábios do menor. – Mas a aula já acabou. – E num passe de mágica, se desmontou.
O que se desmontou? O próprio menino. Quase virou geléia quando sua alma pediu pra sair.
– O QUÊ?? – Allen se sobressaltou, e fixou o olhar num relógio qualquer. Já eram três e meia da tarde e a escola acabava às três. Mas não, não era possível que tinha dormido todo aquele tempo. E sem acreditar, puxou sua bolsa (que não fazia ideia de como havia parado do lado da cama) e enfiou a mão desesperado em busca do próprio celular, afinal, quem garantia que o Kanda não tivesse mexido no relógio só para fugir da aula??
Todavia, para seu pleno desespero, eram mesmo três e meia da tarde.
Kanda só observava o garoto exalar decepção. E era engraçado.
– Bom. – Chamou atenção, enquanto pegava a própria bolsa e punha a bola embaixo do braço. – Não fique triste. – Ia dirigindo-se para a porta. – Por que não tenta amanhã, Honey-chan? – E deu um daqueles sorrisos antes de desaparecer no corredor.
O rosto de Allen Walker tomou vermelhidões instantâneas e, em menos de um segundo, pulou da cama, o sangue fervendo, e saiu para fora do lugar.
–MAS NUNCA! VAI PRO INFERNOOO! – Gritou pro moreno que já estava dobrando o corredor, aproveitando e jogando a primeira coisa que estava em sua mão.
Kanda assistiu a figura decomposta atirar um sapato em sua pessoa e pensou seriamente como ele tinha a audácia de fazer aquilo. Como Mestre, deveria voltar e ensinar-lhe boas maneiras, mas talvez pudesse deixar aquilo para depois, certo?
Talvez amanhã.
Ignorou o menino que gritava injúrias na escola vazia e dirigiu-se pra fora do prédio. Quantas Honeys já tivera? Muitas, incontáveis. Mas aquele era diferente. Não só por ser seu primeiro Honey homem, mas tinha alguma coisa no olhar dele que as outras não tinha.
Pela primeira vez, Yuu Kanda quis aquele Honey. E, ao mesmo tempo, sabia que não o teria.
No fim das contas, ele iria fazer como todas as outras e iria embora.
Chegou em casa pisando fundo. Tinha bufado o caminho todo até sua moradia.
Como diabos aquilo estava acontecendo consigo? E afinal, o que era ser um Honey??
–AAARRGGH!! EU VOU MATAR AQUELE MALDITO! ARRANCAR AS ENTRANHAS DELE E CONGELAR PRA FAZER SUCO! – Gritou para Deus e o mundo, sem se importar com o que os vizinhos iriam pensar das suas tendências psicopatas. Subiu até seu quarto, jogando a bolsa num canto qualquer e se largando na cama.
Tinha sido um dia e tanto e sua cabeça estava muito confusa.
Em questão de horas descobriu ser Honey de alguém, mudou de sala, ou melhor, de campus, conheceu novas figuras, desmaiou, descobriu o quão bem aquele cara jogava basquete, foi pra enfermaria, usou sapatos como armamento e..
Pôs a mão nos lábios, retomando a respiração e checando se eles estavam inchados como diziam os livros.
..e tinha sido beijado dez vezes. Por um homem.
Meu Deus!
Virou-se de uma vez e afundou a cara no travesseiro. Era realmente verdade?? Queria morrer, era mais digno! E o pior! Ele era um arrogante, turrão, filho da puta e cínico.
E beijava muito bem...
Não que Allen fosse experiente com essas coisa mas.. mas.. E quando percebeu seu rosto pegava fogo. De raiva, de vergonha, de vontade de matá-lo.
Como alguém podia beijar outra pessoa sem sentir nada por esta?? Era nojento! Não queria aquilo para si. Se, para ser Honey, precisava seguir ordens como aquela, preferia ser expulso! Quem sabe até não passava um tempo com sua mãe, estudava em Londres..
Ia ficar tudo bem,afinal, não era algo para se preocupar em demasia, certo? Era só conversar com Mana e ele entenderia. Sair da escola com uma expulsão não era tão mal.. Certo?
Enquanto deixava seu corpo afundar no colchão com a óbvia conclusão, tateou o celular que começara a vibrar. Não estava com cabeça para atender ninguém, muito menos se esse alguém quisesse explicações.
Mas também não era como se fosse ignorar Lenna.
–Alô... – Resmungou.
–Ah, desculpe! Liguei para a funerária sem querer! – Ela ironizou, sem nenhum traço de que iria rir. E Allen também não iria.
–Haha, muito engraçado, Lenna. – Olho por olho, dente por dente.
–Aff.. – Se Allen tivesse ligando para alguma coisa, poderia até imaginar a amiga revirando os olhos, entretanto só arrumou a cabeça para o celular não machucar. – O que aconteceu que você não voltou pra sala? – Ela perguntou, talvez realmente preocupada, contudo o albino não quis dizer que, sim, tinha sido beijado pelo mesmo cara do banheiro que, aliás, era o “Mestre” agora. Como o próprio havia dito.
Ela iria dar uma crise histérica e lhe oferecer lubrificantes de todos os tipos.
Aliás, tinha remédio para vômito na sua casa? Achava que iria precisar para superar as próximas horas.
–Só explico se vier aqui. To sem ânimo pra falar. – Respondeu, se arrastando para fora da cama e tendo a visão escurecida de repente. Realmente, precisava de um remédio para estômago.
–Hm! Já estou a caminho! Daqui a alguns minutos estou aí! – Allen se sentia ruim por estar sendo tão brusco com a menina, não tinha dado nem tchau, mas, nossa, que vida desgraçada.
Quando chegou à cozinha, começou a vasculhar as muitas gavetas que tinham no balcão. Mana tinha uma farmácia dentro de casa. Pegava caixas de remédios e lia para ver se reconhecia algum para mal estar. Um que lhe apagasse seria bom também, sua cabeça estava começando a alfinetar.
Por incrível que pareça, estava sem fome, como se qualquer coisa que comesse fosse voltar. Entretanto, comeu uma banana para só assim tomar o remédio. Ele sabia que não era bom tomar medicamentos de barriga vazia.
Pensou em sentar e assistir TV, só que ultimamente não tinha nada que prestasse para ver e o som não deveria lhe fazer bem.
Quando finalmente tinha decidido subir e hibernar pelo resto do dia, a campainha toca, fazendo-o revirar os olhos e descer os quatro degraus que havia subido. Deslizou pelo chão até a porta, arrumando o cobertor que os calafrios tinham lhe obrigado a pegar sobre os próprios ombros.
Antes que pudesse sequer abrir a porta, ouviu alguns sussurros do lado de fora, algo como “Acho que ele não tá em casa, Alma-chaaann”. E, não era possível, né? Não, eles não podiam saber onde morava! É, Allen precisaria tomar uns remédios, já estava alucinando.
Abriu a porta e não sabia se ficava feliz pelo fato de estar são ou triste pelo fato de que eles, sim, sabiam seu endereço. Quase foi ao chão quando o ruivo pulou em seu ser, sem nem perceber ou ligar para o estado debilitado do garoto.
–ALLENN-CHAAAN~~~ — Apertava o corpo contra o seu e Allen não sabia se retribuía ou se pedia um tempo para respirar. Sentia suas vias respiratórias obstruídas.
–L-lavi.. e-eu preciso resp-pirarr!! – Deu tapas em suas costas, enquanto um Alma observava tudo calado e avaliando a casa.
Aquele cara era doido, no final.
–EU PENSEI QUE VOCÊ TINHA SE MATADO, ALLEN!! – Ele fazia um drama tão grande, e chegava a enxugar lágrimas inexistentes, como se ali houvesse intimidade para isso. O albino só encarava aquilo com uma sobrancelha arqueada. Eles tinham vasculhado sua ficha escolar para saber sua residência? Ok, era hora da polícia intervir.
–Lavi, não fale besteiras! – Alma tinha entrado na casa, e tinha a mão no ombro do ruivo, afastando-o. Este por sua vez, ignorou as boas maneiras e correu para o aquário gigante que tinha na sala, com diversos peixinhos de diferentes cores. Allen se perguntava se franceses eram assim mesmo. Iam entrando na casa dos outros sem mais nem menos. – Olá, Allen-kun. – Ele lhe deu um abraço gentil, caloroso e agora o albino pode retribuir sem medo de asfixiação.
–É-er, entrem, por favor. – Afinal, não podia chutá-los, né? Por mais que quisesse morrer ali na solidão (Lenna era exceção), não podia faltar às boas maneiras que Mana havia lhe ensinado.
–Obrigado, Allen. – Alma deu-lhe um sorriso e retirou o sapato, ficando só de meia.
–Podem se sentar, eu vou pegar um suco. – Avisou enquanto fechava a porta e ia até a cozinha, para logo depois voltar fazendo malabarismos com os copos e a jarra. Allen ainda estava com a calça de escola, mas agora vestia uma camiseta azul bebê grande demais no colo. Era como uma camisa desgastada usada para dormir.
–Aqui. – Ofereceu um copo para Alma e outro para Lavi, que deixara de babar nos peixinhos e agora observava os objetos de porcelana que jaziam em cima da mesinha de centro. O albino acompanhou o olhar e encarou as três bonequinhas de porcelanas com diferentes posições de Ballet.
Sorriu pequeno com a lembrança.
–Elas são tão brancas e magras como você, Allen-chan. – Ele comentou, servindo-se de suco de laranja. Alma passou a observar as bonequinhas, inclusive pegou uma que fazia um ângulo de 90 graus, apoiada em um só pé. Ela tinha os cabelos presos e vestia aquelas roupas típicas de balé, com saia rodada e os braços finos em posições delicadas.
–Ah!. – O albino coçou a nuca. Já tinha largado o cobertor jogado no sofá onde eles não estavam e agora permanecia parado em pé na frente deles, também com uma bonequinha na mão. – Elas eram da minha mãe.. – Explicou, notando com amargura que uma das bonequinhas tinha perdido a mão. – Ela é bailarina profissional. – Explicou, sorrindo para ambos. Alma sorriu também, devolvendo o objeto a seu lugar e tomando mais um gole do suco.
–Uwaa!! – Lavi exclamou. – Que maneiro! Ela consegue fazer essas coisas? – A única orbe esverdeada estava curiosa e aquilo, de alguma forma, tinha deixado Allen mais animado.
Ele assentiu enquanto se sentava na poltrona contrária ao sofá e deixava o copo na mesinha.
–Da última vez que eu a vi, ela fazia tudo perfeitamente. – Disse, casual.
–Da última vez.. – Alma começou, após alguns poucos segundos, como se quisesse ser delicado com a pergunta, mas Lavi logo intrometeu.
–Ela morreu, Allen-chan? – A cara que Alma fez para a rudeza do ruivo foi impagável, aquela cara de “Puta que pariu, eu não acredito que você disse isso!!” e Allen riu alto. O moreno encarou curioso o garoto albino.
Se o Kanda deixasse aquilo escapar.. ou pior..
–Não! Não! – O famoso sorriso Walker calou os dois presentes ali. – Ela está em Londres e eu vim pra cá com meu pai. – Explicou, voltando a rir da cara aliviada do moreno. Tocar num assunto delicado não era bom quando se estava ali para justamente falar de algo delicado.
–Então por que você trouxe, Allen-chan? – Lavi perguntou, sentado em forma de borboleta, Alma lhe deu um tapa e um olhar do tipo “Vira gente e tira o pé do sofá!”, mas o ruivo ignorou.
– Porque foi um presente dela e.. – Pausou para se concentrar em por mais suco. Não tinha fome, mas o líquido se mostrara eficaz contra a dor estomacal. – Eu dançava Jazz na época. – Deu um gole, observando o olhar do moreno aumentar de tamanho e o ruivo levantar-se num pulo.
–PERAI! VOCÊ CONSEGUE FAZER ISSO?? – Gritou, apontando pras bonequinhas.
O albino deu um sorriso de canto, o olhar com um brilho cálido, a caneca ainda próxima dos lábios. Alma observava tudo com atenção. Cada movimento se quer..
Era tudo um tanto....Sensual?
–Era pra conseguir.. – O sorriso tornou-se azedo aos pouquinhos, enquanto ele sentava na mesma posição que Lavi estava. Mrs. Anita era o demônio mesmo, como Cross.
–Você ta brincando! – O ruivo declarou. – Não tem como um homem conseguir fazer isso! É impossível! – Ele estava exaltado. Não tinha como, certo?
–Bem, eu fazia Jazz, então – Nem sentiu o sofá direito e levantou-se para recolher os copos. O suco tinha acabado e Mana odiava formigas. – Não é como se eu fosse obrigado a fazer. – Sorriu pequeno, indo levar a louça para a cozinha. Os olhos acompanhando-o. Allen não achava necessário dizer que agora fazia Ballet, melhor deixar o assunto morrer, afinal conhecia aqueles caras por.. Alguns minutos?
Cara, aquilo era estranho.
Se somasse o tempo que passara perto daqueles dois, não daria nem 15 minutos e eles estavam ali, no seu sofá.
Cara, era realmente muito estranho.
Allen voltou para a sala, tentando não pensar em coisas ruins que caras visivelmente mais fortes (como eles) poderiam fazer com um albino desprotegido e sozinho dentro de casa.
Antes mesmo que chegasse à sala e sofresse para manter um assunto e não suar frio diante do olhar observador de Alma, a campainha toca.
Correu até a porta, se tivesse que ser vítima de um assassinato, agora não seria mais.
E quando viu Lenalee com um vestido branco todo florido, e aquele lindo sorriso, teve que se segurar para não enxotá-la dali, prevenindo que algo de ruim acontecesse com a garota.
Mas não, quando sua voz soou, o albino amoleceu como um todo.
–Boa tarde, Allen-kun. – E lhe abraçou fofamente. – Trouxe Crepes! – Ela falou animada, já retirando os sapatos e entrando. Bem, ela não tinha que ter educação mesmo, já era de casa. – Eu percebi que você tava meio triste e achei que iria querer comer algo gostoso. – Ela deu aquele sorriso e tirou o cachecol. Allen fechou a porta e agora não havia mais impedimentos para se observar a sala de estar. – Aliás, All.. LAVI-KUN?! – A menina se espantou e apertou a sacolinha em mãos. Allen arregalou os olhos e depois suspirou aliviado por ela não ter deixado aquelas delicias cair no chão. – Lavi-kun, o que você.. – Ela não conseguia entender o que seu vizinho safado estava fazendo ali.
–Oi, Lenalee.. – E Allen viu, pela primeira vez, um Lavi meio corado, levantando-se e coçando a nuca e achou aquilo esquisito. Alma estava caladão. – Como vai você? – Ora, ele estava sendo cavalheiro? Bem, não importava, os crepes estavam clamando o olhar claro do albino.
–Lenna.. Deixa eu cuidar disso, sim? – Na verdade, estava com medo da menina continuar apertando até destruir o alimento. Ela estava paralisada ali. – Ein, Lenna.. – Balançou um pouco os ombros da menina, tocando o pulso da mão que segurava a sacolinha.
–A-ah..Sim, por favor, Allen-kun.. – Ela lhe entregou o pacote, com a cabeça meio abaixada.
–Sim.. – Allen entranhou e olhou da amiga para o ruivo e do ruivo para a amiga. Ia até questionar alguma coisa, mas o cheiro do queijo derretido estava atrativo demais. – Sente-se, por favor, Lenna. – Guiou a amiga até o sofá ocupado pelo cobertor. Jogou o mesmo na poltrona e ambos se sentaram lá.
Durante algum tempo, só se ouvia o barulho do crepe sendo comido. Ninguém se olhava. O ruivo estava com o rosto virado e uma coloração diferente no mesmo e a menina brincava com a barra do vestido. Alma só reparava no albino, que, por sua vez, só lembrava da existência do crepe.
Allen até tinha oferecido um deles para os dois rapazes dividirem , mas eles recusaram assim como Lenna.
O silêncio desconfortável durou até o albino engolir o último pedaço do alimento.
–Então.. – Ele começou, levantando e batendo uma mão na outra. – Preciso de água. – Avisou, enquanto visitava novamente a cozinha e pegava uma jarra e mais copos. Deixou-os em cima da mesinha e serviu Lenalee.
–Aqui. – Sorriu. A morena retribuiu.
–Obrigada, Allen-kun. – Ele assentiu e se virou para os outros dois.
–Já está na hora de vocês falarem para o que vieram. – Não queria parecer brusco, na verdade falara com a voz incrivelmente mansa. Estava ocupado vendo a amiga beber a água.
–Sim. – Alma respondeu simplesmente. – Eu vim te implorar para não pedir o Drop. – E foi curto e grosso. Lenalee cuspiu no copo, Lavi olhou, pela primeira vez, para ela com certa preocupação e Allen bateu em suas costas.
–Pedir o que? – Que droga era aquela? E a reação da Lenna??
–ALLEN-KUN! – Ela se exaltou, pulando pra cima do garoto, ficando meio deitada em seu colo e subindo o cabelo do albino, prendendo-o com as mãos num rabo de cavalo fofo no topo da cabeça.
–LENNA! – Ele tinha as mãos na cintura dela, sem entender a reação. Também estava preocupado com o modo com o ruivo estava encarando as costas nuas da menina. Parece que alguém ali queria um soco.
Antes que pudesse rugir com o outro, a voz de Lenalee soou baixa.
–Você.. – Ela acariciava o rosto dele com a mão livre. – Virou um Honey.. – E encostou as testas.
–O que.. – Allen não sabia o por quê ela tinha aquela expressão sofrida no rosto.
–Bem, é hora de te explicar. – Alma se pronunciou, e as orbes claras se viraram para ele. Lenalee agora escondera o rosto no ombro do albino, que a abraçou gentilmente, também tentando tampar as costas dela. Aquele ruivo tarado.
–Allen-chan.. – E falando nele.. – Você sabe o que é ser um Honey? — Allen franziu a testa e olhou para Alma, que continuava encarando-o descaradamente dos pés a cabeça.
–Parece que não.. – O moreno suspirou, apoiando o cotovelo nas coxas e o queixo nas mãos. Lavi começou a prestar atenção na conversa. – Mas a sua amiga sabe, né? – Sorriu torto e a garota se apertou mais no pescoço do albino, para então sair da mansinho depois de aspirar o perfume dele e sentar-se de novo. Na verdade, ela tinha se dado conta que sua reação tinha sido um pouco “íntima” demais e agora estava com vergonha.
Sim, ela sabia, porque vira algumas de suas amigas virarem Honeys. Amigas estas que, ironicamente, nunca mais viu.
–Hm. – Ela resmungou e Allen tentou olhar em seu rosto, aquela reação estava lhe incomodando.
O engraçado era que Lenalee sabia de algo sobre Allen que nem ele mesmo sabia, e isso era, por si só anormal,. Se tivesse contado para ela sobre o brinco antes, as coisas teriam sido diferentes?
Bem, não importava.
Olhou para o ruivo com o olhar ainda pequeno, aquele cara estava secando demais e o outro parecia uma estátua, só encarando. Saco.
–Olha só, fale logo de uma vez que isso já está me irritando. – Revirou os olhos. Alma só riu pelo nariz e Lavi torceu a boca.
–Você e o Yuu são parecidos. – Soltou, se arrumando no sofá. – Né, Alma? – E o moreno assentiu, ainda com um sorrisinho.
Allen ficou mais irritado, como assim compará-lo com o demônio da flor?, e trincou a mandíbula.
–Allen. – Era Alma, olhando no fundo de seus olhos. – Eu te imploro. – E agora ele parecia realmente sério, o que deixou uma interrogação no menor. – Não deixe o Kanda.
O pedido pairou no ar, e desceu lentamente sobre todos. Os três homens se encarando e uma menina protegida e acanhada.
– E por que eu faria isso? – Questionou amargo. Tudo bem que o cara tinha lhe ajudado na enfermaria e, lá, pareceu alguém normal.
Mas roubar beijos do nada não poderia ser considerado natural. Não tinha razões sólidas para tentar ser amigo daquele cara, ou Honey, que seja. Só uma bolsa que dera a vida para conseguir.. Mas isso era outros quinhentos.
–Pela sua bolsa. – Foi Lavi, tocando no ponto fraco.
–E por que eu te peço. – Mas Alma o sobrepôs. Era como uma batalha de quem convence mais. – Olha – Ele passou a mão pelos fios castanhos. – O Kanda é muitas coisas, e você já deve ter percebido. – E sorriu triste. – Mas ele tem um coração e.. – Allen franziu a testa com a demora. – Ajude-o. Você é o único. – Voltou a olhar as orbes prateadas. – Allen,você pode não acreditar, porém quando ele entrou na sala hoje, eu juro que vi nele uma aura diferente.
Na hora, os olhos do albino aumentaram. Quer dizer que ele foi pra aula? Mesmo consigo desmaiado e sem nenhuma obrigação de cumprir a promessa?
–Vê-lo sentado na aula, prestando atenção no conteúdo.. – Ele continuou, falando em um tom misturado de felicidade e nostalgia. – Você foi o único que conseguiu.
– O- o que? – E a surpresa tomou voz, os olhos petrificados. Lenalle corria os olhos de um lado pro outro. A preocupação se misturando com outro pensamento banível.
Meu Deus, era uma péssima amiga! Mass.... o cara, ou seja, homem? Hmmmm..
–É isso mesmo, Allen-chan. – Lavi explicou. – É muito difícil ver o Yuu na sala, ele geralmente não suporta ver todos felizes com seus Honeys e ser o único sem um.
–Mas.. Vocês.. – Aquela frase tinha lhe atingido em cheio e ainda estava rondando em sua mente bagunçada. O único?
–Eu e o Alma não temos por opção. – Sorriu e dirigiu um olhar para Lenalee. Uma luz fez Allen encarar furiosamente o Lavi, o que ele estava pensado?. – Mas o Yuu nunca conseguiu uma Honey. – E voltou a encará-lo.
–Ele é difícil de lidar e.. – Alma pôs-se a falar. – Ele não acredita mais em Honeys.. então ele só brinca.. – Terminou a frase num fio de voz, como se não gostasse de lembrar do poço em que o amigo se afundava há anos.
O Walker queria entender porque estavam lhe falando tudo aquilo, era pra sentir pena?
Mas, não, isso não estava certo! Como podia aceitar quando nem sabia o que era Honey??
–Eu não vou fazer nada só porque ele é um menininho machucado. – Voltou à realidade, recuperando a consciência. Era a vida dele, oras. – Ele é um bastardo que sai beijando os outros como se tivesse permissão! – Rugiu. Menininho infeliz o cacete. Já tinha suportado demais aquela lenga- lenga.
O silêncio acompanhou o final da frase, ambos os garotos encarando a cara brava do albino.
–E-ele te beijou? – Alma perguntou, visivelmente assustado. Allen sorriu desgostoso, finalmente tinha percebido a merda que seu amiguinho era?
–Sim, e você me diz que ele tem seus motivos? Por favor, interne-o numa clínica psiquiátrica então. – Continuou. E esperava qualquer reação. Coisas como “Não diga isso do nosso querido amigo” ou “Vou te socar até morrer”. Mas não.
Lavi abriu um sorrinho enorme e Alma um maior ainda. Allen encarou os dois com os olhos em estranheza. Por acaso eles também eram doidos?
–Ele não fez mais nada? – Alma perguntou, os olhos brilhando. Lenalee se sobressaltou quase ao mesmo tempo.
–ELE TE BEIJOU? QUEM É?? – E Allen corou com a afirmação, perdendo toda a postura séria. Foda-se os problemas, né?
–Lenna! Não pense besteira! E você, como assim “mais nada”?? – Estava perplexo e corado.. – Era pra ter mais? Vocês são malucos! – Controlou o tom de voz, tinha ficado meio frágil pelas insinuações pervertidas da amiga.
–Então esse cara quer te pegar.. – Lenalee raciocinava baixo, aumentando a cor no rosto do albino e arrancado uma risada de Lavi.
– Não é pra tanto.. O Yuu já fez pior.. – O ruivo comentou entre risos e o albino ficou enojado. Como assim pior?? E outra, que coisa era aquela de ficar rindo de uma situação visivelmente horrível. Estava indignado com a menina.
– Mas isso não importa, Allen-kun! – Era Alma, que se levantou e foi até a frente do albino,sobrepondo as vozes dos outro. Lenalee pensava besteiras e Lavi provavelmente também. – Eu sei que é difícil. – Mas teve que se concentrar nele. O tom dele era calmo, e ele não mais lhe encarava com aquele olhar doentio do começo e sim com um esperançoso. – Mas eu te imploro.
E ajoelhou-se. Simples assim. Pondo-se de joelhos e abaixando a cabeça.
Allen pulou no sofá e todos calaram seus pensamentos, a mente de Lenalee em pane. Mais um??
– O que você..? – Começou. Ajoelhando para pedir algo? De alguma forma, Allen se sentia constrangido e acabou se encolhendo.
–Eu te peço.. – O moreno continuou. – Vá amanhã para a escola e, se for muito para você, eu serei o primeiro a te ajudar. –Ele continuou com a cabeça abaixada e o albino olhava confuso dele pro ruivo com o sorriso esquisito.
Era vergonhoso ser tratado como uma peça de ouro.
–E-eu.. – Começou.
–Por favor!. – E abaixou mais a cabeça até encostá-la no tapete. Outro arrepio de vergonha subiu pela coluna do Walker.
–E-EI! L-levante! Você não tem que.. – Tentava negar e fazer o outro levantar com uma das mãos. Olhava para Lenna como um pedido de ajuda e ela tinha uma cara.. estranha e muito vermelha.
–Só vou levantar quando você se decidir! Só um dia! – Juntou as mãos como numa oração. Allen deu um espasmo de vergonha, o rosto muito quente e encarava atônito o corpo abaixado que parecia determinado a não levantar até obter uma resposta positiva. O albino tinha uma expressão muito engraçada aos olhos do ruivo.
–T-tudo bem! Mas levante daí, Meu Deus!! – Ele balançava os braços com pressa e, com plena satisfação, o moreno se ergueu, um sorriso enorme e os olhos brilhando. Allen não pôde acreditar que tinha sido manipulado tão facilmente, um gota descendo pela testa.
–Obrigado! – Ele tomou uma das mãos do albino e acariciou a cabeça da menina com a outra. – Muito Obrigado! – E plantou um beijo no meio dos fios alvos.
Lavi se levantou com um sorriso e os dois se puseram lado a lado.
–Allen-chan, te vejo amanhã!
–É melhor ir de gravata! – E o moreno piscou.
Allen encarou tudo com estranheza. Afinal, o que tinha acontecido ali? Primeiro, teve sua casa invadida por dois semi-conhecidos. Depois o clima ficou estranho, Lenalee estava estranha, um deles lhe implorou para ser Honey de um filho da puta e depois de ser manipulado, assistiu os mesmos saírem saltitando de sua residência.
No final, imploraram e imploraram e o albino ainda não sabia o que exatamente significava ser um Honey..
Jogou a cabeça pra trás e encarou o teto, completamente confuso e sem saber o que fazer da própria vida.
Honey de alguém? O que significava?
Talvez Allen Walker precisasse de um psicólogo.
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Extra~~ Dois semi-conhecidos.
Os dois andavam lado a lado pelas ruas da cidade. Enquanto o moreno tinha o telefone do ouvido, o ruivo observava algumas meninas passando, sem, entretanto, ver algo de realmente interessante nelas.
Talvez estivesse passando pela mesma coisa que Yuu. Teria que achar o Honey perfeito agora? Alguém não-descartável? Ou já teria achado?
–Acabamos de sair da casa dele. – Virou o rosto para o amigo e viu a expressão desgostosa do moreno. – É a última vez que eu faço isso por você, Yuu. – Ele advertiu.
–Tsk, não pedi nada. E não me chame pelo primeiro nome.
–Não seja idiota! Aquele garoto é diferente! De todos os outros! Um deslize com ele e ele some! – Exaltou-se, balançando as mãos.
–Não me importo. – Ele respondeu, rude como sempre. Nossa, aquele moreno estava precisando de umas surras bem dadas, com direito a correntes e chicotes.
Iria até dar a ideia para certo albino.
–O qu.. Até quando vai ignorar, Yuu? Você está sendo infantil e burro! – Nada menos que a verdade.
– Alma, vai se foder. Foda-se você e o Moyashi. Eu não ligo para o pirralho. – Avisou, que amigo mais desgraçado fora arrumar.
–Claro que não.. – Lamentou, irritado. – Quer saber? Eu desisto de você! Desisto da sua babaquice! Se aquele menino quiser cair fora, eu serei o primeiro a ajudar! – Desligou, com raiva.
Kanda Yuu iria pagar por tudo que fizera com as outras Honeys, porque Alma, como melhor amigo auto-declarado, sabia que, só por ter atendido o telefone, ele se importava.
E muito.
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Extra 2 ~~ Amigo da onça.
A garota pareceu ter lhe dado alguns segundos para pensar, e quando Allen se virou, a viu com o olhos gigantes e segurando algo malicioso. Os lábios apertados num quase sorriso. Allen ficou incrédulo.
–-Eu não acredito q..
–AAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA – Ela explodiu, jogando-se no sofá e pondo as pernas no colo dele.
–LENALEE!! – Allen não sabia reagir. – Eu consigo ver sua calcinha daqui!! – Avisou, virando a cara completamente corado e desconcertado, mas ela continuava a rir e se rolar no sofá.
–TÁ! ATÉ PARECE QUE É ISSO QUE VOCÊ CURTE! – Ela gritou, meio sem fôlego e o garoto a encarou surpreso.
–COMO ASSIM VOCÊ ME FALA UMA COISA DESSAS?? – Gritou de volta, empurrando as pernas dela de seu colo. É, realmente ela não tinha fé em sua pessoa. Sentiu uma tristeza aguda.
Lenalee lhe jogou uma almofada.
– Alleeeen – Ela começou, levantando-se do sofá e pondo-se na frente dele. – Ele te beijou, né?? – O tom pra lá de malicioso,o albino vermelho. – E o que mais ele feeeez, Alleeen?? – Ela mordia o lábio inferior, incitando coisas ruins.
–LENALEE! OLHA SÓ O QUE VOCÊ TÁ FALANDO!! – Ele se levantou também com as mãos na cintura e o rosto já roxo. Onde estava aquela preocupação??
Ela caiu na risada.
–PARA DE RIR!! – Ele gritou, mas ela nem ligava. – PELO MENOS NÃO FUI EU QUE VIM AQUI COM UM VESTIDO NO MEIO DO CU E FICOU AI NA SAFADAGEM NO MEU COLO SÓ PRO RUIVO LÁ VER!
Ambos azul de vergonha.
–hm.. – Foi só o que ela disse, antes de dar a sacada final, mesmo estando roxa de vergonha.. – Não era safadagem, era só seu cheiro que estava bom.. – Ela fechou os olhos com sabedoria – Aliás, por que você não usa esse cheiro para acalmar seu Mestre estressadinho, huh? – E o encarou com aquela cara que Allen jurava não pertencer à amiga.
–LENALEE!! – O albino ficou azul de vergonha, enquanto a morena saia correndo casa a fora, fugindo de um branquelo assassino.
–Ahhh, Allen-chaan~~ Por que você não corre atrás no Kanda-senpai??? – Mais vermelho ainda.
–EU VOU TE ESGOELARR!!
É, Allen Walker, definitivamente, precisaria de um psicólogo.
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