Honey
5 Como ser um Honey Pt 1
Notas iniciais
O dia, com toda certeza, não seria como os demais. Começando com Yuu Kanda sentado quieto no mini-sofá que era a sua carteira (assim como as demais também, afinal, era a Classe Especial. E como o próprio nome denunciava, os “Herdeiros” precisavam ficar confortáveis).
Os murmúrios ressoavam pela sala e o moreno largado em sua carteira os ignorava, só olhando pela janela. Era irritante ter que dar ouvidos àquelas pessoas. Ainda mais a ela..
–Ohh, Yuu Kanda sentado? – A menina debochou. – O inferno congelou e eu não esto sabendo?? – Ela deu um sorrisinho de canto, sentando-se na mesa do samurai.
–Vai se ferrar, Road. – Na verdade, só não era pegava mais pesado, pois a empresa do pai da garota que tinha fabricado sua katana de estimação, e saber que ela iria herdá-la fazia Kanda pensar duas vezes antes de ganhar sua inimizade.
Nunca se sabe quando continuar seus hábitos de coleção.
–Que rude, samurai. Quando vai aprender os bons modos? – Ela ironizou. Road era assim, primeiro rodeava a carcaça para depois atacar. Kanda revirou os olhos e ela percebeu que não podia se demorar tanto. Era abusar da sorte. – Onde está o novo Honey? – Viu? Chegou ao ponto que queria.
–No meu cu. – Ora, que bela conversa matinal. A menina despencou na risada, segurando a barriguinha enquanto dobrava-se na mesa.
–Deve estar. – Respondeu depois de muito lutar. – Quando ele sair do seu cu, me apresenta. É um Honey fofo. – Ela piscou e saiu saltitando até sua própria mesa dupla, onde o seu próprio Honey estava desesperado tentando desarmar uma bomba.
Sádica.
É, Kanda não era uma pessoa sortuda. Quando teria paz na vida? E pensando em desgraças, lá vinha as duas merdas maiores. Uma ruiva e a outra merda com cara de bunda.
–BOM DIA, YUU!! QUE LINDO TE VER AQUI. – Alguém podia esfolar a cara do caolho? Não queria sujar as mãos.
–Dia pra você também, Kanda. – E achava que a bomba ficaria melhor no estômago de Alma.
O moreno não se deu o trabalho de responder, apenas aumentando a carranca usual e cruzando os braços.
–Ver o Yuu sentado assim é tão nostálgico.. Lembra os velhos tempos hehe- Lavi saltitava para sua mesa, largando as coisas lá. – O Allen-chan é um Deus mesmo!
–Hm.. – Alma assentiu com um sorriso sem segundas intenções e logo pareceu lembrar-se de algo. – Mas também não era hoje que tínhamos que resolver aquele assunto? — Ele parou de mexer na bolsa, rolando os olhos pelo teto, o dedo numa clara expressão de memória.
–Ah é! – Lavi pulou do banco onde já estava deitando. – É bem a cara do Yuu lembrar disso! – Ele socava a palma de uma mão, como se lembrasse de algo genial.
Kanda só estalou a língua. De fato aquele era um assunto importante. Teria vindo de qualquer jeito, com ou sem Honey.
–Ora, mas cadê o Allen-chan? – Lavi perguntou, dando voz à pergunta que rodeava a cabeça do moreno desde que chegara à escola. Afinal, Alma tinha falado com ele, certo? Restava saber se ele viria.
–Não sei.. – Alma respondeu, movendo as sobrancelhas num misto de preocupação e tristeza. – Ele disse que viria..
–Na verdade, ele não disse, nós é que supomos isso. – O ruivo, encostado na mesa, lembrou e o menino olhou para ele indignado.
–Porra, Lavi, ajudar você não quer, né? – Irritou-se, batia o pé no carpete, ambos parados um degrau acima de Kanda. Aliás, esse só bufada, sentia-se incapacitado de conviver com aquelas criatura.
–Você não acha que ele.. – Alma perguntou, baixinho, como se falasse para si mesmo e uma lâmpada parecia ter sido acesa na cabeça do samurai.
Kanda aumentou os olhos por um segundo, como se raciocinasse se o Honey era tão idiota ao ponto.. E antes de Alma queixar-se mais e ele lhe enfiar um livro na boca, levantou e saiu da sala.
Claro que não importava os comentários de “Tá vendo? Sabia que ele não iria aguentar!” e “É o Kanda mesmo, não se conserta”. Agora a mente do moreno estava mais ocupada em descer as escadas rapidamente e fazer aquele bem conhecido caminho.
Não demorou muito e lá estava ele. Os cabelinhos brancos encostados à parede. Allen rodava uma chave nos dedos, como se lhe tivessem garantido uma vitória suprema.
–Sinto lhe informar, senhor Yuu Kanda. – Ele começou, Kanda se aproximando e encarando aquela figura. Seu Honey era retardado, tinha certeza agora. – Mas hoje você não entra naquela quadra. – E então ele se descolou da parede e pôs-se à frente do Mestre, um sorrisinho presunçoso nos lábios.
Kanda sinceramente pensou em dar as costas e se jogar de uma ponte. Aliás, se quisesse , imobilizaria e arrancaria a chave daqueles dedos extremamente brancos. Entretanto, no momento se perguntava que diabos era aquilo na boca dele.
–Que merda é essa? – Apontou para os lábios do Honey. Allen parou com a demonstração de “Eu sou o fodão” e reconheceu a própria situação.
O albino tinha uma máscara daquelas de médico cobrindo sua boca. Na hora, pensou que seria útil, mas agora aquilo se mostrava unicamente vergonhoso.
–É.. – Começou, pondo a mão na boca. – Pra me proteger. – E terminou com um biquinho, que, por ser tão grande, Kanda conseguiu reconhecer através do pano.
O samurai arqueou a sobrancelha , incrédulo com a situação. Cara, que menino...
..Fofo..
E ODIÁVEL.
Mas não conseguiu segurar o risinho malicioso.
Ele estava ali, não estava? Tinha vindo como Honey. Aquele carinha estava durando mais que muitas Honey que já tivera.
–De qualquer forma, vamos para a sala, porque temos aula e.. – Começou segurando no pulso do moreno e o puxando para voltar à sala, ainda falando com uma voz esquisita por causa do troço na boca.
Kanda não se deixou levar por mais um segundo e puxou o braço de volta, obrigando o albino a virar para si.
–O que.. – Ele encarou o rosto do japonês, a surpresa no rosto.
–Tire sua gravata. – Foi o que disse.
Allen paralisou e o encarou por longas eternidades. O silêncio entre os dois. E aos poucos, o rosto do albino foi tomando cor.
–VOCÊ TEM PROBLEMA? – Gritou, e Kanda percebeu o quanto a voz dele era estridente. – EU MANDEI VOCÊ IR PRA SALA! – Berrou, cruzando os braços e tentando parecer autoritário.
–Há, você ta brincando comigo. – Sério, aquele Honey estava de brincadeira, né? Ele era o Mestre ali, e não recebia ordens.
–Não, não estou! E você.. – Começou, mas aquele pano em sua boca estava irritando o samurai. Não podia nem ver os lábios rosados do albino.
–Primeiramente.. – Interrompeu, segurando nos ombros do garoto e o encostando à parede novamente. Allen se assustou e empurrou seu peito, tentando manter a distância de um braço daquele corpo.
–Ei.. – Os olhinhos dele eram bonitinhos quando assustados e suas bochechinhas adquiriam um tom avermelhado. – Esper.. – Mas Kanda nem perdeu tempo admirando, enfiou o dedo entre o nó da gravata do albino e a puxou de uma vez, vendo o tecido escorrer pelos ombros estreitos do garoto. Ao longe, se ouvia o primeiro sinal bater.
–Mas que droga você.. ? Nós temos que!.. – Tentou falar, mas Kanda começou a tirar sua própria gravata. – O que você.. – Tentou, confuso e olhos sem saber onde se fixar, mas ele parecia ignorá-lo totalmente. Que filho da puta.
–Fica quietinho. – Ditou, enquanto tirava com força a máscara da boca do Honey. Tinha feito de propósito, só para ver o elástico batendo na bochecha dele e ele ganhando aquele olhar revoltado.
–Ei, seu bastardo! – Socou o peito do samurai. – Isso dói! – Esfregou a mão na pele avermelhada, lançando-lhe um olhar furioso.
Aquele cara era o demônio, Allen estava convencido.
Mas Kanda não revidou, só sorriu pequeno e aproximou seus lábios da orelha do albino, este se encolhendo contra a parede do vestiário.
–A partir de hoje.. – Sussurou e Allen fechou os olhos, estalando a língua e xingando-o de diversos nomes em sua cabeça. Se aquele cara o beijasse de novo, sério, iria arrancar os dentes dele e.. – Você é oficialmente um Honey da família Kanda. – E sentiu algo passar em torno de seu pescoço, abrindo os olhos imediatamente para presenciar seu próprio enforcamento.
Mas quando arrumou a visão e olhou para si, viu as mãos dele segurando uma gravata diferente e a arrumando em seu pescoço.
–O qu.. – Perguntou, olhando para a gravata e para o moreno, confuso.
–Você é oficialmente meu Honey agora. – Declarou, encostando os lábios na testa do albino, um arrepio sacudindo a coluna do mesmo.
E aquilo era estranho. Como assim “oficialmente”? Então quer dizer que..
–Espera! – Segurou nos pulsos do moreno, que ainda mantinha ambas as mãos ocupadas arrumando a gravata. – Quer dizer que eu não era antes? – Um segundo, tudo aquilo para..
–Claro que era, seu idiota. – Ele revirou os olhos. Aquele Kanda cuidadoso? Nada. – Desde o momento que eu pus o brinco. – Explicou com um sorriso malicioso, terminando o nó e se afastando com as mãos no bolso.
Allen se viu confuso e deu um tranco no próprio corpo, obrigando-o a seguir o moreno. Pelo menos ele não tinha abusado de si como antes.
–Espera! O que esse brinco significa? – Questionou, chegando ao lado do Mestre. Kanda o olhou, a presunção exalando do ser alto.
– Que você é meu. – Respondeu simplesmente, uma carranca se formando no rosto do albino. Este só pôde reagir uns segundos depois, o rosto vermelho de raiva.
–SEU...ARGH! – E apertou o passo, indo na frente do moreno.
Kanda achou graça do comportamento do Honey, depois teria que treiná-lo adequadamente. Mas por hora, deixaria o albino seguir na frente. Era sexy o jeito que ele andava.
Espera.
Ele não estava sendo “paciente” demais? Seria medo daquele fazer o mesmo que as outras? Bem, não, claro que não. Aquele cara era Kanda e para ele o que os Honeys pensavam ou sentiam não importava.
E então ele parou e o moreno não sabia se ficava irritado consigo mesmo por ficar entristecido ou se ficava só entristecido.
–Escuta bem.. – Allen disse, virando a cabeça para o lado e encarando a parede que ainda os seguia. Não fez questão de olhar para o maior. – Eu não estou aqui por você, eu sequer te conheço e nem quero conhecer. – Ditou, e Kanda identificou um olhar espremido nele, como se estivesse pensando em algo. – Só fiz isso pelo garoto com a cicatriz. – E o japonês arregalou os olhos, o corpo tencionando como um todo. Depois de olhar pro chão e relembrar do telefonema de Alma, ele voltou o olhar ao albino. Ele parecia mais calmo, e tinha um certo ar de pena, ou nostalgia. O moreno não sabia o que era.
–Ele se ajoelhou, sabe? – E agora ele estava virado de frente, encarando Kanda enquanto uma leve brisa balançava seus cabelos. O olhar não expressava raiva, nem nada do tipo. Só ...
Preocupação? Ou seria seriedade?
–Eu fiz porque aquele cara se ajoelhou e pediu pelo o bem do amigo dele. – Ele apontava para a parede, mas Kanda entendera que simbolizava a direção da sala. – Então, tudo é por ele. – Finalizou, respirando fundo e voltando a andar na frente.
O moreno seguiu, os olhos meio conturbados pela pessoa à frente. As palavras de alguma forma..
Não, talvez fosse porque o Honey e Alma eram parecidos. Afinal, o que um Honey pensava não importava.
Olhou novamente para os ombros dele cobertos pelo moletom, o jeito que o cabelo ficava na nuca. E, em meio ao silêncio, alguns pássaros, ouviu-se um sussurro.
–Eu teria orgulho de ser amigo dele..
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– Se tem um computador, é pra você usar. – Kanda ralhou, era a segunda vez que mandava o garoto usar o equipamento e Allen ignorava-o.
–Para de me encher o saco. – O albino virou os olhos incolores para o samurai, mantendo a voz baixa, afinal estavam no meio da aula de história, e o maior não pôde deixar de pensar que seria assustador acordar com aqueles olhos lhe encarando.
Bem, iria testar isso.
Yuu bufou e virou a cara, Honey abusado. Allen fez o mesmo. Cara chato, qual o problema em usar caneta? Era proibido agora? E ainda tinha que aturar os murmurinhos sobre si.
“O Honey dele até que ta agüentando bem.”
“Não dou até amanhã.”
“Um homem? Ele é gay, por acaso? Por isso que nenhuma Honey parava com ele. Rsrsrs.”
Allen sentia-se tentado a mandar todos pro inferno, principalmente o ser a seu lado.
Revirou os olhos, os pés batendo no carpete, terminando de copiar a matéria e contando os minutos para o sinal bater. Estava com muita fome e aquele dia o estava tentando.
–Allen-chan~~ você copiou? – Era Lavi. Allen, como o bom aluno que era, só assentiu. Kanda estalou a língua.
–Arranje um Honey para você, caolho estúpido. – Apoiava o rosto na mão e encarava a janela, sem se importar com a matéria. Tinha um pra isso.
–Ahhn... Yuu-chan .. – Ele resmungava. – Divide ele comigo. – E nem terminou a frase para sentir a lufada de ar que o punho de Kanda criara. Felizmente, nada lhe acertara e quando abrira o único olho, deu de cara com a mão de Allen segurando o punho do moreno. Realmente, era excitante assistir o albino, que continuava copiando calmamente, segurar o murro de Kanda tão facilmente. Na verdade, Allen só conseguiu por que apertara um nervo e Kanda provavelmente sentiu dor.
Força? Pra quê?
–Mas que porra, Moyashi idiota! – A sala inteira assistiu o japonês erguer-se bruscamente da carteira, soltando o pulso sem cuidado. Ele encarava o menor com fúria. Allen fez o mesmo.
–Olha a boca, Bakanda! – Bateu ambas as mãos na mesa, encarando o maior.
– Bakand.. – O moreno franziu a testa. Estavam testando sua paciência hoje.
–EI! VOCÊS DOIS! – Era a professora, que tinha se levantado assustada, pausando os slides. Aqueles pirralhos riquinhos achavam que podiam tudo?
–Cala a boca, vadia. – Kanda ditou, já furioso, os olhos estreitos virados para a mulher.
E então a sala inteira se calou, o silêncio imposto por um tapa.
Todos encaravam em câmera lenta o rosto de Yuu Kanda virar, a marca vermelha aparecendo na bochecha esquerda. Alma arregalou os olhos e Lavi riu da cena. Allen Walker tinha, realmente, dado um tapa na cara do “Mestre”. E todos na sala admiraram a coragem do novo Honey, quase o saudando se não soubessem que ele iria sofrer por isso depois.
–NÃO FALE ASSIM COM UMA DAMA. – O albino gritou, o rosto meio abaixado. Não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Era muita falta de respeito! Tinha nojo daquilo.
A professora mantinha a boca entreaberta pelo susto, e ninguém se movimentava. Exceto um Kanda que levava as mãos até a própria bochecha, tentando assimilar e acreditar no que havia acontecido. Aquele Honey maldito tinha lhe dado um tapa?
Aos poucos um sorriso sádico começou a se formar, mas Allen fora inocente demais para perceber, e apenas o encarava em fúria.
–Você.. – Ele iniciou, a voz mais rouca que o usual e a franja cobrindo os olhos. – Agora. – Encarou o albino com o rosto impassível, agarrando com força o pulso que havia lhe golpeado. – Pro banh.. – E pela segunda vez, fora interrompido. Dessa vez pelo maldito sinal. Seu sangue ferveu a ponto de ebulir, mas o albino não percebeu, os olhos claros mudaram de repente e ganharam um brilho de animação.
–Comida! – Ele falou e Kanda pensou que, sim, iria comer algo. E já pronto para arrastar aquele ser pro banheiro e dar-lhe umas boas punições, Alma surgiu com um sorriso torto e lançando um olhar de “Calma! Não faça nenhuma besteira!” pro samurai.
–É-er, A-allen-chan, vamos comer, sim? – Perguntou, segurando a mão livre do albino e dando um sorriso visivelmente forçado.
–Hm! – Ele assentiu, alegremente, parecendo totalmente esquecido da situação de segundos atrás.
Kanda observou tudo aquilo com o sangue pulsando em veias, e quando Alma puxou o garoto num pedido para soltá-lo, ele o puxou de volta, colando as costas do albino em seu peito enquanto continuava segurando o pulso e usava a outra mão para prender seu testa.
Allen arregalou os olhos surpreso, sentindo o corpo trás de si e estremecendo ao senti a respiração dele em seu pescoço.
–Você me paga, Honey maldito. – Ele ditou, quase rugindo baixo no ouvido do albino. Allen se encolheu e apertou um dos olhos. Ele estava falando sério e agora tinha se dado conta da burrada que fizera no calor do momento. Achou que ele fosse lhe socar ali, aquela posição abria espaço para um pescoço quebrado. Aliás, o albino sentia o coração dele bater em suas costas e de alguma forma aquilo o deixava receoso, aquele choque de adrenalina que lhe tomou quando da boca dele saiu tal palavrão tinha se esvaído em um segundo. A aproximação de Kanda ligava um sinal de alerta no corpo de Allen – E eu não gosto de doces. – Ele terminou. Avulso assim mesmo.
Allen sentiu o coração na boca enquanto ele lhe soltava e o corpo mole do albino pendia ao encontro de Alma. Não que tivesse desmaiado ou caído, mas suas pernas se moveram automaticamente quando se sentiu livre dos braços do moreno. Quando Alma segurara em seu braço, percebeu que o albino tinha ficado gelado de uma hora para a outra, e olhou feio para o samurai, que já se sentava a mesa, virando a cara pra janela. Exatamente na mesma posição do início da aula.
–Não acho que foi uma boa ideia você enfrentar ele daquele jeito. – Alma falou baixinho, enquanto ambos já andavam em direção ao refeitório. Allen sentia-se estranho. Os olhos prateados estavam turbulentos e ele pensava se o “pagamento” tinha alguma coisa a ver com “vinganças”. Seu estômago deu uma leve revirada, estava ansioso e receoso por antecipação. Mas, Deus, ele xingou a professora!!
–Hm.. Eu – Ele começara. Por mais que achasse que “não enfrentar ele” fosse ridículo, como se ele fosse inalcançável, tinha que admitir que perdera a cabeça e isso lhe traria sérias conseqüências, tinha certeza.
Aquele cara tinha o dom de tirá-lo do sério com um simples olhar.
–Tudo bem, Allen. – O albino olhou para o moreno que sorria. Alma tinha aquela aura bonzinha como na primeira vez que entrara na sala, e nem parecia possível existir uma faceta séria e assustadora, como a que ele exibia enquanto lhe encarava ontem em sua casa. De qualquer forma, ele sentia-se seguro com aquele sorriso amável, mesmo que segurança não refletisse o que sentia no momento. – O Yuu não é tão mal assim. – Ele disse num meio sorriso, e Allen pensou que fosse ironia, mas resolveu ignorar quando viu o balcão de self service repleto de pães, bolos, tortilhas, biscoitos, doces, panquecas e muitas outras guloseimas.
Agora com a fome distraindo a torção no estômago só podia pensar no quanto o samurai era petulante e orgulhoso para se recusar a comer algo. Bem, ele que se ferrasse mesmo.
–Obrigado por ter vindo. – Alma interrompeu, e Allen ergueu o olhar, terminando de engolir e sorrindo um tanto estranho. A cena em sua casa tinha sido muito confusa, mas não podia decidir mudar de escola de um dia pro outro, era um dos motivos de ter tentado encarar a situação.
E Alma também tinha lhe convencido, mesmo com o olhar estranho.
–Alma.. – Allen começou, pensando em algo para falar e lembrando de algo importante. – Você me perguntou se eu sabia o que era ser um Honey, mas não me explicou. – Ele encarou o moreno, que aos poucos ganhou coloração na face, envergonhado por arrastar o menino para toda aquela confusão sem lhe dar explicações.
–Ahhn.. – Começou, coçando a nuca. – Desculpa, Allen-kun, eu fiquei tão animado com a sua decisão que acabei esquecendo. Hehe. – Ele parecia arrependido e procurava palavras para explicar ao albino o que significava aquilo que ele era.
Allen continuou encarando-o enquanto mordia um sonho, dando-lhe consentimento para continuar.
–Então.. – Ele estalava os dedos, um claro sinal de nervosismo. – Como eu explico? – E deu uma risadinha trêmula.
–Só fale em termos secos. – Allen opinou, completamente sereno, como se não estivesse com o coração ainda acelerado pela situação de minutos antes, e arqueando um pouco as sobrancelhas. Ele estava adiando aquilo desde ontem, então não devia ser coisa boa, mas também não era como se Allen pudesse fugir.
Um contrato com o Diabo não o surpreenderia.
–Ok... – Ele assentiu, olhando para qualquer lugar que ficasse longe dos olhos claros. – Ahn...Ser um honey.. – Allen voltou a mastigar, aquilo estava muito bom, mas não melhor que os de Mana. – É como ser um doméstico. – Mas não pode degustar muito, pois acabou engasgando com a comida assim que deu atenção à fala do moreno.
–Allen! – Alma levantou-se preocupado, correndo até o albino a sua frente, que já tinha a mão no peito, e dando-lhe tapinhas nas costas, visivelmente preocupado. – Você está bem? – Questionou quando notou a bola de comida descer com esforço pela garganta dele e ele jogar água por cima.
–C-como a-assim, Alma? – Perguntou, a voz meio fanha, como se faltasse ar para pronunciar as sílabas corretamente. Alma percebeu que ele estava melhor, mesmo que ainda estivesse meio pálido e bebesse mais líquido para acariciar a garganta.
–É que.. – Pensava, mas a merda tava feita mesmo. – O Sistema Honey foi criado por nove famílias, donas nas maiores corporações francesas. Porque, assim, como os pais são muito ocupados, os filhos não tinham.. – Ele olhou para o teto, buscando a palavra. – Afeto? – Fez uma cara engraçada – Enfim, ai começaram a crescer egocêntricos e egoístas, e, para consertar os filhos, criaram o Sistema, que é como um “apoio” ao membros do Kugeka. – Fez com os dedos e Allen entendeu exatamente o significado de “egocêntrico e egoísta”, tão bem que revirou os olhos.
Então, pera, tudo isso era pra garantir calor humano aos menininhos solitários?
Nossa, era.. tocante. Se não fosse trágico.
E egocêntrico.
E.. Mas que se foda os pobres Honeys, né?
Allen passou a prestar mais atenção, largando a rosquinha de mel no prato e encarando o menino.
–E o trabalho de Honey é como se você fosse um assistente, sabe? – Perguntou retoricamente. – O Honey tem que acompanhar o Mestre até sua formatura, cuidar dele, lembrar dos deveres, e todas aquelas coisas que geralmente não queremos fazer. – Ele riu – Tipo estudar. – E coçou de novo a cabeça.
–Então ele é tão inútil que não consegue cuidar de si mesmo.. – Disse, mais para o universo do que para a pessoa a frente, com uma clara expressão de desdém no rosto. – Que ridículo.
Alma sorriu torto, feliz pelo modo de pensar do menino e agradecendo por Kanda não estar ali. O engraçado é que ele mesmo não discordava totalmente.
O silêncio agradável se fez.
–E cadê seu Honey? – Allen perguntou, ligeiramente curioso, reparado que Alma estava com dois brincos.
–Ah – Ele começou tocando em um dos brincos por reflexo. – Eu não acho que eu precise de um, já tenho meus amigos. – E sorriu brilhantemente.
Allen ficou calado e tocou no seu também inconscientemente.
–A flor do Yuu é uma Lótus. – Ele voltou a falar. – Significa pureza espiritual, mistério e verdade.
–Que ironia. – Allen esfregou a própria orelha, observando o prato e perdido em pensamentos. – Combina com ele, essa parte de mistério. – Alma sorriu verdadeiramente, mas o albino não viu. – Menos a parte da pureza. – Uma careta. – Ele é todo fechado e rude, mas de puro não tem nada. – Aumentou o tom. Alma riu, que bom que ele não tinha ficado tão assustado! Talvez estivesse esperando algo pior, o que era.. triste ou algo assim.
Allen devolveu um meio sorriso.
–E qual a sua flor, Alma? – Perguntou, afastando o prato vazio pro lado e encarando o desenho no brinco do amigo. Podia chamá-lo de amigo agora, né?
– Eu sou Alstroménia – E deu um sorriso para a cara estranha que o albino deu. – Significa “Amizade” e o Lavi é uma Dália Vermelha, que significa “Olhos abrasadores”. – Ele riu. – É só você olhar para ele que dá pra ver o fogo. – E ambos riram. Realmente, as flores refletiam a personalidade.
E afastava o terror do corpo albino.
–Isso é divertido! – Allen sorriu sem mostrar os dentes, um arrepio como “saia correndo daí” subindo e sendo ignorado. – E porque o brinco não sai, Alma? Eu tentei serrar isso e não deu. – Agora ele tinha uma expressão desgostosa no rosto.
–Ah, é que eles são dispositivos de rastreamento eletrônico. – E Allen arregalou os olhos. A conversa tinha se tornado meio agradável, por mais que estivesse condenando o albino. – Só podem ser tirados com uma senha que só nós do Kugeka temos, nem a escola sabe.
–Espera, isso é um rastreador? – Allen estava indignado! Tinham lhe posto um rastreador? Como a coleira de um animal?
–Tecnicamente sim, mas ninguém rastreia mesmo. – Alma tratou de acalmar o menino. – É só que, no momento em que o brinco é fechado, você vira um Honey. É tipo um contrato que surge imediatamente no banco de dados da escola, te rastreia e põe todos os seus dados .
–Meu Deus.. – Allen sussurrou. Que tecnologia era essa?
–Empresas importantes, Allen. – O moreno riu, por mais que fosse meio triste jogar tudo aquilo para cima dele, era engraçado as suas reações. – O pai do Yuu é dono de uma empresa de cosméticos, a Lune.
–EEH? – Como assim? – O Kanda é herdeiro da Lune??? – Tudo bem que ele tinha cara mesmo de ser rico, mas não tão rico. Aquilo era....assustador.
–Aham – Alma estava meio confuso – Sério que você nunca percebeu o cheiro dele? A linha Lótus é meio que um presente pra ele.
–Você ta brincando! – Allen debruçou-se sobre a mesa. Diga Adeus a vozes assustadores e ameaças. – Meu pai adora essa marca, o perfume que ele usa é dela! — E ele continuava o pasmo com a situação alheia, esquecendo-se da própria. Mas, ora, ser feliz por alguns segundos não é assim tão ruim.
– É tão engraçado você não saber disso. – E ele ria gostosamente, enquanto no albino um bico. – Geralmente todas as Honeys dele sabiam. – Ela falou para o vento, mas Allen captou a ideia.
–Elas aceitavam por causa da influência? – Questionou após um tempo e inevitavelmente o clima caiu.
–Sim. – Alma demorou, mas no fim murmurou e Allen não pode deixar de sentir pena. Tudo ao redor dele era por causa do dinheiro? Por isso ele era daquele jeito? – Mas você não é assim. – E Alma levantou a cabeça com um sorriso, e Allen fixou o olhar nele. – Isso é bom, quem sabe você não pode mostrar a ele que ainda existe amor, né? – E Allen corou, tanto com o sorriso quanto com a palavra.
–A-alma, e-eu sou.. – Começou, mas o moreno logo entendeu o pensamento do menor e tratou de rir enquanto negava com as mãos.
–Não, não, Allen-kun! – E ria pequeno. – Não nesse sentido. – E levantou-se após olhar no relógio. Allen achou melhor segui-lo. Ele dirigia-se para o self service e o albino estranhou, franzindo a testa. – Mas até que vocês ficam bem juntos. – Alma sorriu sobre os olhos, e Allen desfez a careta e ficou ralamente vermelho novamente. – Você combinam..
–Eu não acho. – Allen murmurou, o bico ali. – Mas ,Alma – Chamou quando ele pegava uma espátula. – Você ainda está com fome? – Allen bem que entendia, ele vivia sempre com fome, mas não seria melhor se ele tivesse comido antes? Agora o sinal estava para bater.
–Não, não, Allen-kun – Ele sorriu e entregou a espátula e a sacola pro albino. – Estou te ensinando a ser um Honey. – E Allen o encarou confuso. – É dever de um Honey alimentar seu Mestre.
–HEH? – Apertou a sacolinha em mãos. Quer dizer que teria que levar comida para aquele ser petulante? Sério? Não poderia deixá-lo morrer de fome??
O mundo lhe tirando uma coisa satisfatória.
–Vamos, o sinal já vai bater. – Alma puxou o albino ignorando seu estado catatônico. – O Yuu não gosta de doces. – Afirmou quando já estavam numa sessão com coisas salgadas, e Allen foi puxado à realidade com a frase de Kanda soando em sua mente.
–Sim.. – Assentiu, olhando para as comidas e refletindo seriamente se iria mesmo fazer aquilo. Ah, que humilhação. Não queria, definitivamente não queria. Queria deixá-lo secar, comer um hambúrguer na frente dele ou colocar veneno ou qualquer coisa, menos alimentá-lo.
–Allen..É só você pensar que é para você.. – Alma percebeu o desgosto na face, os lábios franzidos e a expressão de “Não vou fazer isso nem fudendo”.
O albino revirou os olhos, bufou, passou a mão pelo cabelo, bufou de novo, pensou em se matar com a faquinha de manteiga, mas lembrou de Mana e Tiky e Lena, e então apertou mais a espátula, coçou o cabelo e fechou os olhos bem demoradamente, como um exercício de Yoga.
E convencendo-se a pensar apenas na comida e no quão fofa ela parecia, passou a escolher uma que ele gostaria mais, só para não render-lhe ameaças, pois sua mente mandava levar tudo que tinha leite condensado em cima. Alma observava o modo como os olhos percorriam os alimentos, ele parecia com raiva, indignado, puto mas cuidadoso com a escolha. E arregalou os olhos quando o viu erguer a espátula e pegar um Croissant salgado.
Como ele sabia?
–Ele não tem cara de comer muito.. – O garoto estava totalmente absorto na escolha de comida e disse como se pedisse ajuda, mas como Alma não respondeu, apenas escolheu dois comes para, então, partir para o bebes.
Na mesa tinha alguns tipos de suco, café, leite, frappuccinos e cappucinos. E também tinha chá, e Allen fixou o olhar nele imediatamente, mordendo o lábio enquanto escolhia. Alma observava ansioso e vibrou quando o albino abriu a chaleira e conferiu ser chá verde. Então, delicadamente, pediu para Alma segurar a sacola e depositou numa xícara, enchendo-a pela metade, para logo em seguida acrescentar leite. Os dedos finos tocando a xícara cuidadosamente.
Alma olhou confuso e antes que pudesse perguntar, Allen pronunciou.
–É uma coisa britânica. Leite com chá. Eu particularmente acho que chá puro só deve ser tomado no chá da tarde. – Ele acrescentava açúcar, e Alma realmente pensou não ser uma boa ideia. Mas bem, era a primeira vez de Allen.
Então antes do sinal bater, ambos subiram e encontraram Kanda fazendo vários nadas na sala. Havia algumas pessoas nela, uma vez que o sinal bateria em alguns instantes.
–Aqui. – Allen pôs a comida em cima da mesa e Kanda a encarou, principalmente ao chá. – Se não gostar, eu tomo. – Ele disse, e virou-se para o lado como se pouco se importasse, onde Alma estava em pé, conversando sobre Londres, músicas e Hobbies.
Kanda, alheio a tudo, abriu primeiro a sacolinha, dando de cara com o Croissant salgado, recheado com frango e com umas folhinhas verdes como decoração. Arqueou a sobrancelha surpreso. Tinha que ter dedo de Alma naquilo. E então, como que para provar que o Moyashi idiota era inútil, pegou a xícara e levou-a à boca, pronto para cuspir tudo e reclamar.
Alma cravou seu olhar no moreno, e até Kanda se assustou quando viu que seria impossível cuspir aquilo. Nunca, em toda sua vida, tinha provado algo tão bom. Era quente, e ainda se podia sentir o gosto do chá verde, mas o leite deixava tudo tão café-da-manhã. Achou que o Honey estúpido encheria aquilo de açúcar, mas nem ele próprio conseguia deixar tão agradável, geralmente saia totalmente amargo.
Alma se surpreendeu, um sorriso surgindo quando viu que, sim, Kanda beberia aquilo até o final e ainda pediria por mais. E tudo isso no primeiro dia.
–--------------Extra----------------
Era meio falta de educação, na visão de Allen. Ele falava animadamente sobre as ruas de Londres e como as achava arrumadas e o olhar de Alma estava em qualquer lugar, menos em si.
Em qualquer lugar, ou seja, em Kanda, e aquilo era irritante. Todo o mundo parecia girar em torno do “Mestre” e Allen já tinha estourado sua paciência, só pedindo a Deus que algo de bom acontecesse.
O albino parou de falar e encarou Alma que não estava nem aí para si, ele só encarava Kanda. Resolveu se virar.
–Você não gostou, né? – Sorriu pequeno, mas não estava muito aí se tinha gostado ou não. Não tinha concordado com isso de alimentar o outro . Então ergueu a mão para pegar a xícara, e quando ia alcançá-la, Kanda a tomou, não deixando que o albino a tirasse de si. Allen ficou confuso com a reação.
–Cuide da sua vida, Honey Moyashi. – Ele disse, virando a cara e tomando o chá.
–Que engraçado. – Rebateu, os olhos afiados. – Eu estou aqui para cuidar da sua, não?- Arqueou as sobrancelhas.
Kanda lançou um olhar furioso a Alma e depois estalou a língua, voltando a encarar a janela. Era só isso que ele sabia fazer?
Allen também se irritou, bufou e virou a cara pro lado oposto. Alma só sorriu, o professor já entrando na sala e Lavi paquerando uma menina na porta.
–Juro que eu não disse nada. – Falou, em alto tom. Queria que Yuu ouvisse claramente.
–Ahn? O que, Alma? – Allen perguntou, confuso com a ação. Alucinação?
–Nada não, Allen-kun.. – Cantarolou e subiu para seu lugar.
Allen achou, pensou e concluiu que todos ali eram loucos.
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