Honey
9 Um Noah
Notas iniciais
Naquele dia, Allen acordara com uma terrível dor de cabeça. Lutou mais que o normal para sair da cama e queria mais que um asteróide caísse na terra e exterminasse tudo e todos.
Tinha certeza que o mal estar provinha das lembranças da noite de sábado: das luzes que criavam sombras assustadoras, do barulho de seu sapato correndo para fora do bar e do brinco na orelha de Lenalee Lee.Tinha um grito no meio de tudo isso também, e um Tiky sem saber o que falar diante do pavor do albino, arrancando com seu carro para levá-lo para casa o mais rápido possível.
Enfiou-se na ducha, com o cérebro se jogando contra seu crânio como uma bola de basquete. E pensar em bola de basquete, toda aquela confusão fizera o albino esquecer o samurai que lhe esperaria na escola hoje.
Samurai? Estaria pegando mania da Road?
Mas, bem, as diversas ligações perdidas de Lenalee pareciam chamar-lhe mais atenção. Havia ignorado-a durante todo o domingo, faltando, inclusive, a aula de Ballet. Claro que não estava tentando esquecer ou ignorar a peça de metal que apossara o corpo da garota, não, tinha perdido essa ingenuidade. Agora queria mesmo era saber quais eram os motivos que a levaram àquela decisão e sua cabeça teimosa só conseguia pensar em uma possibilidade, esta baseada nos olhares nada discretos do ruivo.
Enquanto sua mente maquinava sobre aquela situação, seu pai decidira contar-lhe mais uma bomba que o fizera se lembrar adequadamente de sua posição de Honey, e, agora, de sua amiga também.
Quando sentou-se à mesa de café, Mana lhe entregou um boleto de conta bancária e foi ali que Allen Walker descobriu, silenciosamente, um novo significado para o posto que ocupava: Um servo.
–Não achei que ele estivesse falando sério naquela carta. Eu me dei conta do depósito uns dias atrás, mas não falei nada até que eu confirmasse tudo. Está confirmado.
Silêncio.
Por um instante, sentiu vontade de socar a mesa, os olhos ardendo de muitos sentimentos, entretanto se conteu, não querendo preocupar o mais velho. Correu para seu quarto, sem nem tocar no café da manhã, com a desculpa de precisar chegar mais cedo na escola.
No papel, havia um depósito de dois mil euros. Estava sendo pago.
Pago.
Ao vestir o uniforme só conseguia pensar nos acontecimentos dos dias passados. Em como tudo havia mudado. Não apenas estava no último ano do ensino médio, mas agora era um “Honey”, e sua melhor amiga também o era. Tinha sido beijado forçadamente por um cara e não fizera nada para revidar. Estava estudando em outro bloco, com outras pessoas e sendo pago para isso.
Pior. Mentira para Mana. Mentira para seu amado pai. E aquilo era doloroso demais. Saber que os fios estavam sendo negligenciados.
Lena, Tiky e Mana já não estavam mais em primeiro plano para Allen Walker e o garoto se amaldiçoou por apenas dar-se conta disso àquela altura do campeonato.
Respirou fundo. Estava pronto, em todos os sentidos.
Pediu para o pai sacar o dinheiro e lhe entregar naquela noite enquanto descia as escadas. Deu-lhe um beijo e saiu pela porta. Por incrível que pareça, estava calmo. Sentia uma pequena pontada no coração apenas, mas estava calmo.
Andava pelas ruas cobertas por pétalas rosa e alaranjadas em estado de decomposição querendo acabar logo com aquilo. Estava decidido, não precisava de tempo ou de hesitação. Não sabia de que sentimento aquele sufoco provinha, mas arriscaria dizer ser a liberdade. A queria com rapidez. Afinal estava decidindo algo por si próprio pela primeira vez nas últimas semanas e aquilo era libertador. Não pensava em bolsa de estudos, em Kanda, em Lenalee, em nada.
Apenas andava. Afinal, era isso que Allen Walker fazia. Andava. Mas agora andava para frente e não recuando face aos problemas. Ele iria crescer. Impor-se. Estava na hora.
Na verdade, havia passado da hora.
Passou a mão pelos fios prateados, checando o horário no celular e quando viu que chegaria antes do sinal bater simplesmente sentou na calçada. Ali mesmo, no meio das pedras sobrepostas que a formavam e de alguns tufos de musgo. Cutucou o celular escolhendo uma música calma, com um piano no fundo, de preferência.
Sentia falta de tocar. Mas também não achava saudável usar o piano para descarregar sentimentos turbulentos. Não que nunca houvesse feito aquilo.
Ia tocar o mais rápido possível, sabia disso. Iria lutar para isso.
Depois de um pouco tempo respirando fundo e observando algumas pessoas passando com pães para lá e para cá, levantou-se e calculou o tempo exato, de tão concentrado que estava, para chegar aos portões da escola quando o primeiro sinal batesse.
Subiu as escadas, somente seus passos soando no prédio vazio, afinal já estavam todos na sala. De repente, enquanto lia as mesmas placas que lera no primeiro dia, sentiu vontade de rir, porque uma pessoa que encarasse a situação de fora com certeza acharia graça daquilo tudo.
Uma vez que era tudo muito surreal.
Entrou na sala, agradecendo o professor ainda berrar por silêncio e ele não ter de ser o centro das atenções. Caminhou com um singelo sorriso e os olhos meio baixos até seu lugar.
Estava completamente decidido. Seria a última vez que sentaria naquela cadeira.
–Está atrasado. – Ouviu e virou-se para o moreno, que não tinha sequer ligado o próprio computador.
–Eu sei. – Respondeu, abrindo o computador dele e o iniciando. Kanda franziu as sobrancelhas para o sorrisinho de canto do albino. – Me desculpe. Não vai mais acontecer. – Ele disse, encarando diretamente as orbes negras, deixando os dentes brancos aparecerem um pouco e ignorando completamente a pergunta de causa que rodeava a face do japonês.
Então virou-se para frente, afastando o próprio computador e puxando seu caderno da mochila. Sentia um arrepio constante em sua coluna, mas não acreditava que ele iria embora, então procurou não dar atenção a ele, assim como tentava fazer o mesmo com a segunda respiração atrás de si.
Pôs-se a copiar, ciente que o Mestre o encarava inquisidor, mas ele logo desviou o olhar para a janela e Allen só teria que esperar até o sinal bater.
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Tinha se levantando antes do toque para o intervalo ter terminado. E quando ouviu a voz de Lenalee já saia pela sala. A garota até fez menção de segui-lo, mas Alma parou-a e tomou a iniciativa, Kanda só observando a movimentação de cenho franzido.
Alma alcançou o Albino quando este já tinha descido os lances de degraus e estava a caminho do self service para servir o Mestre. O arrepio ainda estava lá e ainda mantinha um meio sorriso.
Era a última vez que serviria o moreno.
Quando sentiu o ombro ser tocado, pesado e inesperadamente, quase deixou o prato em mãos cair. O choque de temperaturas fez seu corpo chacoalhar e subitamente não se sentiu bem.
–Allen. – Era Alma, com a mesma voz calma do seu primeiro dia de aula, como se estivesse disposto a lhe ensinar como ser um Honey novamente.
O engraçado era que ele não estava lá, com sua voz calma, quando Allen teve sua briga com Kanda Yuu, ali mesmo na escola.
Aquele dia ele não os seguiu.
O garoto franziu o cenho pela demora e pela pele gelada do Honey.
–Oi, Alma. – Allen conseguiu engolir o que quer que estivesse preso em sua garganta e cumprimentar o moreno. Deu uma olhada rápida para a feição dele e achou engraçada a preocupação que ele emanava.
Pena que não precisava mais dela.
Voltou-se para o balcão procurando o croissant de frango que levou para Yuu no dia que estava disposto a tentar ser um Honey. E também achou igualmente engraçado porque agora estava disposto a desistir de sê-lo.
Não, não desistir. Não era do feitio de Allen Walker desistir. Ele só não queria mais.
–Você está bem? – Ele perguntou, também pegando um prato e entrando na fila. Allen demorou o tempo para pegar dois croissants pequenos para respondê-lo.
–Melhor impossível. – Sorriu pequeno, porém sem olhar para o garoto. Estava checando se tinha chá verde na mesinha do outro lado do balcão.
Alma entortou a boca para o tom de voz do albino.
–Não está. – Ele atraiu as orbes claras para si e ambos se encararam por alguns segundos.
–Não preciso mais ficar bem. – Allen respondeu, já virando a cara e saindo da fila. Não sentia um pingo de fome, o que elevava a gravidade da situação. Alma o seguindo, ambos contornando os estudantes que ali se alimentavam. O emo louco não sabendo se escolhia mousse de limão e Road, numa mesa afastada, rindo de seu Honey tendo que comer uma pilha de dez panquecas em três minutos.
–O que você está dizendo? – Questionou, tentando encarar a face alva e assustando-se quando o menino bateu o prato de porcelana com força demais na mesinha de bebidas. Calou-se enquanto ele se curvava um pouco e media mentalmente a quantidade de lente, açúcar e chá verde. – Allen...
–Alma. – O Walker se levantou, novamente com o sorriso. – Eu já me decidi. Isso não é para mim. – Deu de ombros, fechando os olhos momentaneamente e dando-se de cara com um Alma pálido.
–Você vai desistir? – Ele falou, devagar e baixo, como se fosse um tabu e tivesse medo de ir para a fogueira.
–Sim. – Allen simplista. Virou-se de costas por um segundo para pegar guardanapos e assustou-se com o peso que parecia ter caído sobre os ombros do moreno. Observou-o, as risadas de Road soando altas e outros Mestres conversando sobre coisas aleatórias. Deu de ombros novamente, voltando a andar para o segundo andar. Iria dar o lanche para Kanda e sumir pela escola até ter que entrar na sala novamente e terminar aquele último dia de aula.
–Mas... A-Allen! – Alma seguia-o desesperado, os olhos trêmulos. A súbita informação tinha feito-o largar seu alimento para trás. Subia os degraus atrás do albino, que fazia-o com classe e perfeita postura.
–Você me pediu para tentar. Já tentei. – O interrompeu, sem se dar o trabalho de virar para trás. O desespero do moreno pareceu aumentar.
– Mas... Mas você não tem motivos, você...!
Allen estacou no meio da escadaria, apenas dando um passo para o lado afim de não prejudicar o tráfego. Se Alma tivesse virado para si teria notado como o albino apertava a bandeja de metal.
–Não tenho...? – Ele rosnou baixinho, quase para si mesmo e o moreno pode ver os fios brancos afundando no pescoço alvo do Honey. Inconscientemente se segurou no corrimão da escada.
–Allen... E-eu... — Tentou argumentar quando viu o silêncio do pequeno perpetuar-se.
–Você não sabe de nada, Alma. – A voz de Allen Walker soou. Alta e determinada, ainda que carregasse a doçura característica.
O moreno calou enquanto o albino virava para si, anda mantendo-se dois degraus acima, o que o deixava mais alto.
–Você não pode me dizer o que fazer ou deixar de fazer. – Continuou. A voz não alterou-se, muito menos o rosto. Ele falava calmo, o que deixava a situação mais constrangedora ainda. – Eu fui forçado a virar uma coisa que eu nem sabia o que significava, a conviver com uma pessoa difícil e que eu nem conheço, eu menti para meu pai, eu tive o pior começo de ano possível e para piorar, vocês ainda enfiaram uma pessoa que não tem nada a ver com isso na história. – Completou. Enquanto falava, seus olhos brilhavam cada vez mais.
–Eu não sabia da sua amiga. – Alma cortou.
–Eu também não sabia. – E Allen sorriu grande, um sorriso tão não-Allen-Walker que Alma teve o ímpeto de se afastar. Poderia Allen ter um lado Yuu Kanda desconhecido? Seria incrível se ambos combinassem nesse aspecto. – Mas ela está lá agora. – Seus pensamentos se foram quando Allen retomou a fala, aparentando mais seriedade que antes. – E vocês já foram longe demais. Chega de brincar com a vida dos outros. – Franziu as claras sobrancelhas, Alma ficando sem argumentos. – Então não me diga que não tenho motivos, só o fato de eu querer é um ótimo motivo. – O moreno mordeu o lábio, abaixando a cabeça. Não podia forçar aquele garoto, podia?
Silêncio. Alma encarava os degraus.
–Agora... – Sentiu uma das mãos dele em seu ombro e quando subiu os olhos, lá estava o sorriso, o rosto perfeitamente recomposto, e a outra mão equilibrando a bandeja. – Vamos aproveitar esse último dia, ok? – Deu uma leve apertadinha. – Carpe Diem... – Sibilou e virou-se, terminando de subir os últimos degraus.
Alma respirava pesado, e quando os ombros finos viraram em direção ao corredor, encostou a testa na parede, levando o punho fechado até ela e segurando-se para não socá-la.
Allen estava mil vezes pior do que estivera no primeiro dia, quando deixou transparecer a raiva que sentia por ter que servir Kanda, por ter que aprender ser um Honey. A situação parecia mais complicada, pois, diferente daquele da, Allen não carregava a raiva no olhar. Simplesmente não trazia nada, apenas aquela gélida dos olhos claros.
Dessa vez, Kanda Yuu sairia perdendo muito mais.
–Droga... – Continuou a subir as escadas e apertou os passos até a sala, tentando manter uma certa vontade para fazer o albino fraquejar na sua imensa determinação. Ao virar o corredor da sala de aula deu de cara com Allen servindo Kanda com os croissants e esse saboreando lentamente a xícara de chá, como se não quisesse que a mesma acabasse.
Lenalee mordia os lábios, sentada ao lado de Lavi, que tamborilava os dedos na mesa. Ambos completamente ignorados.
–Coloquei muito açúcar? – Conseguiu ouvir quando se aproximou do albino, que ainda estava meio curvado.
–Está bom. – Kanda respondeu, sem olhar nos olhos do Honey e Allen só deu um mínimo sorriso que deixou Alma ainda mais aflito. O moreno apertava os lábios enquanto encarava o samurai, tentando, inutilmente, falar-lhe pelos olhos que alguma coisa muito ruim iria acontecer. E essa coisa era o Drop do Walker.
Mas Kanda não lhe deu atenção. Bebia o chá estranhamente calado, os olhos dispersos como estava havia uns bons dias.
Lembrou-se do telefone que deu tarde da noite, quando recebeu em casa uma foto de uma possível “traição”. Automaticamente olhou para o lugar de Road e suspirou ao notar que ela não estava lá. Voltou a encarar os ombros do albino, que não olhava para si, permanecendo em pé do lado da mesa. A ansiedade chegando a níveis extremos.
Por que tinha que se preocupar tanto com Kanda? Por que tinha que se sentir responsável pela felicidade dele?
A verdade é que Alma não conseguiu seguir a própria vida porque a de Kanda estava estagnada no mesmo episódio de anos atrás, quando a mãe do moreno falecera e toda a doçura que o garoto possuía se fora.
–Vou levar a xícara. – Allen anunciou quando Yuu depositou o recipiente vazio na bandeja. Ao se virar, cruzou o olhar com as orbes marrons de Alma e transmitiu-lhe um “Não adianta”. Ele caminhou calmamente para fora da sala e foi só estarem fora de sua presença que todo o clima desabou.
Lenalee pôs-se a sussurrar coisas desesperada para Lavi, que tentava acalmá-la com as mãos nos ombros e um meio abraço. Conseguiu distinguir um “Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem, vocês só precisam conversar.” E achou irônico, pois a última coisa que o albino faria naquele momento era conversar.
Ele estava lacrado atrás de uma porta que se fechara ao decorrer nos dias.
Ele estava quase um Kanda Yuu. Escondido no meio da carcaça que era seu corpo. Com as feições neutras ocultando seus pensamentos e o sorriso zombando dos outros, porque estava totalmente decidido.
–Kanda! – Alma sentou-se rapidamente do lado do amigo e chacoalhou os ombros dele. Quando o samurai virou o rosto, numa lentidão angustiante, pareceu não dar a mínima para o desespero dele.
Kanda também estava impassível. Tinha aceitado entrar no joguinho do Honey.
–Kanda, ele vai fazer o Drop! – O moreno menor gritou baixo, apelando para algumas sacudidas no ombro do outro. Esperava uma reação daquele que, ele sabia, estava sendo afetado pelo Walker. Percebera isso quando ligara para ele e questionara sobre a fotografia.
Mas não.
Kanda simplesmente arqueou ambas as sobrancelhas.
–E?
Alma deixou o queixo cair, porque estava desesperado e Kanda não lutava. Kanda se recusava a lutar. O que havia acontecido com o moreno turrão? O que Allen Walker fizera para que Kanda recusasse, se calasse e abaixasse a cabeça perante a presença dele?
–Kanda...! – Franziu as sobrancelhas em decepção, desânimo, em tudo. Os murmúrios da amiga de Allen atrapalhando seu cérebro de raciocinar devidamente. – Drop! – Repetiu, mas o amigo permaneceu com a mesma face.
Deixou a respiração sair e os braços penderem. Sentiu que naquele momento já tinha guerreado demais, sentiu que não havia mais motivos para insistir. A sua frente, não havia mais o Kanda Yuu que conhecera.
–Você não pode deixá-lo ir... – Sussurrou, mais para si mesmo que para o Samurai. Yuu apenas observando o Karma baixar a cabeça e tremer os ombros.
–Eu não posso prender ninguém a mim. – E foi com essas palavras que ele obteve o olhar do menino ao seu lado. Alma enchendo os olhos de lágrimas, porque sabia exatamente quem falara aquelas palavras e quando.
“Não ouse me prender a esse corpo!! Quem é você? Seu monstro! ”
Fechou os olhos não querendo lembrar daquela maravilhosa mulher. Margot. Não queria lembranças ruins de uma pessoa tão boa. Fechou os olhos porque imaginava a dor de Yuu ao ouvir aquilo da própria mãe.
“Eu não conheço mais você. Estou indo embora.”
Fechou os, olhos porque lembrava que sua irmã também tinha dito aquilo a ele. Que sua irmã tinha deixado Kanda e que talvez por isso se sentia tão culpado. Amelié Karma.
A dor do moreno de não ser reconhecido duas vezes pelas duas pessoas que mais amava. Por isso ele não lutava.
Só queria saber exatamente em que momento ele havia desistido, quando havia se tornado aquele homem amargurado, que não acreditava na felicidade.
–Está chorando, Alma? – Acordou do transe com a mão do albino acariciando sua cabeça baixa. O professor se encontrava na sala e quando olhou para as orbes prateadas se perguntou se aquilo que as mesmas refletiam era preocupação.
–Não. – Mentiu descaradamente, limpando o rosto e aproveitando para olhar o amigo. Ele estava do mesmo jeito. Só Kanda e a janela. Levantou-se para ir para seu lugar, tentar clarear a mente, tentar buscar saídas, mas já sem esperança. E foi surpreendido por um abraço do Walker. Ele encostou a cabeça em seu ombro e sussurrou, no meio do caos pré-aula de química orgânica.
–Vai ficar tudo bem.
Entretanto, tudo não ficava bem há anos.
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Já era a quinta ou sexta vez que Lenalee ousava esticar a mão para cutucar Allen Walker. E ela nunca chegava a seu destino, porque faltava coragem à menina. Lavi observara a indecisão da garota a aula inteira e, agora, que o sexto horário chegava ao fim, a ansiedade dela aumentara.
Lena mordia o lápis e batia o pé no carpete, pouco se lixando para os olhares nada discretos que o resto da turma lhe mandava e apenas reparava em como a respiração do albino parecia calma, ao passo que a sua não encontrava compasso algum.
“Preciso falar com ele.” – Rabiscou no caderno e o empurrou para o lado. O Bookman leu. A letra saiu tremida, pois ela estava tremendo.
“Vamos fazer isso no final da aula. Fica calma.” – Pensou em colocar um coraçãozinho no final, mas já havia entregado quando terminou de raciocinar.
O caderno não voltou e os olhos azul escuro da morena pareciam mais brilhosos do que o normal.
O ruivo virou para trás e Alma estava da mesma forma que esteve todos os últimos anos. Apagado. Sua ótima intuição disse que, com certeza, algo iria dar muito errado, mas não achou necessário mais uma carga para sua nova Honey.
Tentou prestar atenção no quadro, porém não entendeu nada, uma vez que estivera devaneando na explicação inicial da matéria. Decidiu então encarar o rabo de cavalo de Kanda Yuu e tentar buscar explicações do porquê ele não brigava mais, falava mais ou implicava mais. Era inabitual.
Seria influência do Honey? Se fosse, teria que se ajoelhar perante o garoto. Primeiro, porque ele era realmente comestível. Segundo, porque domar o Yuu não era fácil.
O sinal bateu. Uma confusão de adolescentes, futuros CEO´s arrumando seu material e Lenalee desesperada, uma vez que seu precioso amigo havia desaparecido. Alma gritava alguma coisa para Yuu, mas Lavi só conseguiu seguir o tufo de cabelo branco que saia pela porta junto com um outro tufo azulado.
Diante do desespero de Lena e Alma, e o foda-se de Yuu, o ruivo pensou que aquele jogo de gato e rato seria realmente interessante.
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Road puxava o Walker com um sorriso de orelha a orelha. Ambos conseguiram descer as escadas antes do corredor encher-se de vozes.
–Road? – Allen estava confuso. A garota simplesmente tinha agarrado-lhe e agora o levava para fora do campus com um sorriso extremamente maníaco no rosto.
–Depois você me agradece, amor! – Ela quase deu pulinhos, o albino se calando ao ver o carro preto estacionado ali na frente da escola.
Lá dentro, seu estômago entrou em rebuliço. Sabia exatamente que, atrás dos vidros fumês, havia um Tiky Mikk com seus óculos escuros. Travou.
–Entra! – Road abriu a porta de trás do carro e Allen espiou o motorista que olhava fixamente para frente. Depois encarou a menina, se perguntando se aquilo estava certo, afinal, apesar de ser seu último dia como Honey de Kanda Yuu, ainda teriam o treino a tarde e planejava despedir-se naquele momento.
–Allen. – A voz rouca soou para fora, chamando-o para dentro do carro condicionado com ar frio.
Mordeu o lábio inferior e entrou, o perfume do Mikk invadindo suas narinas enquanto se jogava no estofado de couro. Road veio logo depois, também no banco traseiro.
–Tio! – Ela sorriu grande, escorregando para frente do assento e se aproximando do rosto do homem. Tiky facilitou e ganhou um beijo na bochecha. – Já sabe para onde, né? – Ela piscou e o moreno arrancou com o carro, sem nada dizer, com a boca em uma linha reta. Parecia absorto em algum pensamento. Allen se perguntou o que estavam tramando. Em seguida, a menina enfiou a mão no banco de passageiro e retirou de lá um saquinho.
Automaticamente, a fome que Allen não sentia retornou com força quadriplicada quando o cheiro do Fallafel alcançou suas narinas.
Road riu, pegando os sanduíches de frango recheado com salada.
–Imaginei que você estaria morrendo de fome, Allen-chan, e trouxe um lanchinho! – Allen ficou abismado. Como ela sabia que gostava tanto daquele alimento?
Nem precisou perguntar.
–O Conde falou com ela sobre seus gostos.
–Como? – Aproximou mais a cabeça para ouvir. Como assim, o Conde?
–Road entrou em contato com o Conde e ficou falando ladainhas para ele. – Allen sabia que, pelo tom de reprovação do mais velho, por trás dos óculos, Tiky revirava os olhos. Pior, ele mesmo tinha vontade de revirar os olhos! Incomodar o Conde por causa disso!
–Não sabia que a Road era tão próxima do Conde. – Comentou, mas fazia outra pergunta nas entrelinhas. O Mikk a captou muito bem.
–A Road entrou na corporação depois de você. Na verdade, ela não deve ter nem três meses. – Allen assentiu. – Mas o Conde adora ela.
Por isso não conhecia a menina, e por isso que não fazia ideia de que ela era sobrinha de Tiky. Entretanto, Road sabia muito sobre ele.
–Entendi porque ele a quis na companhia. – Murmurou, Road sorria com satisfação enquanto mordia seu sanduíche. Para ela saber tanto de si, tinha que ser...
–Sim, muito boa em investigação. – Tiky encarou o albino pelo retrovisor. – Manipuladora. – A morena riu.
–Vocês falam como se fossem santos. –Ela retrucou, também mordendo o seu. Carregava um sorrisinho orgulhoso. — O Décimo Quarto... – Falava com dificuldade – Essencial para as atividades, porque consegue ser um ótimo socialite e arrumar boas conexões. – Allen bufou. Não gostava que falassem assim de si. Parecia que era duas caras. – E o Senhor Tiky Mikk... – Ela balançava os pés e gesticulava com as mãos. – Outro socialite, participante das festas de gala da cidade e símbolo de refinamento. – Ela riu.
–Formamos um ótimo trio, então. – Mikk falou, sem tirar a atenção do volante.
–Sim!! – Ela exclamou e Allen decidiu ser a hora para se concentrar em comer.
Encarava a paisagem do lado de fora e apreciava o cheiro do perfume masculino que Tiky sempre usava. Road estava certa. Todos conheciam o moreno e seu cheiro amadeirado inconfundível. Claro que era tudo proposital. Era bom para a Noah´s Ark, a corporação de ações que o Conde presidia, ter todos seus informantes conhecidos e incluídos na sociedade.
A compra e venda de ações dependia, exclusivamente, de um bom lugar para investir e de boas informações, as quais eram conseguidas pelos catorzes integrantes da Ark. Allen, apesar de seus dezesseis anos, era uma importante fonte de informações, uma vez que a convivência com Cross Marian o fez próximo de grandes cassinos, onde o que mais se fala é empresas falidas e empresários no fundo do poço, e capaz de engajar conversas interessantes com grandes marketeiros e financeiros.
Além de ser muito bom em Poker, estratégia que usava para conseguir nomes, telefones e endereços. Nada ilícito claro. Apenas agia nos dias que trabalhava no Noah´s.
Já Tiky possuía o bar, que era centro de encontro de pessoas importantes da cidade, e também andava envolvido com alguns membros do parlamento francês. Road, por sua vez, como uma estudante do Kugeka, estava próxima de filhos de grandes industriais, como Kanda Yuu.
Todos eram igualmente interessantes a ser consultados antes de Milennium fazer suas apostas no mercado financeiro mundial.
–Pronto. – O moreno avisou e parou o carro. Allen piscou algumas vezes, como se tentasse acreditar onde estavam. Road abriu a porta com extrema animação e pulou para o gramado.
–Vamos, Allen-kun! Vamos nos divertir um pouco! Daqui para a casa do samurai é rapidinho! Você não vai se atrasar para o treino de basquete! – Ela piscou e Allen arqueou a sobrancelha, pois, sim, ela realmente era boa com investigar terceiros.
Saiu do carro bem a tempo de ver o moreno se esticar, a camisa social dele levantando um pouco. Desviou o olhar para umas árvores por ali.
O alarme foi ligado e os três andaram até um banco de madeira branca, bem de frente para o lago artificial que tinha no meio do parque. O lugar era bem grande, com imensas árvores que o tornavam muito mais agradável e pistas de ciclismo. A grama era um verde vívido e as plantas eram arrumadas de modo que o parque sempre estava colorido em todas as estações do ano, mudando apenas as cores. O lago congelava no inverno, então a água já começava a esfriar, portanto os barquinhos em formato de cisnes e navios piratas que andavam sobre as águas estavam parados. Ali também ocorriam alguns festivais de inverno, festas e no natal tudo ficava decorado.
Sentaram-se, absorvendo a brisa que balançava uns pinheiros mais altos.
–Eu acho que você deveria desistir. – Tiky se pronunciou, sua voz sumindo lentamente. – Já disse que o Conde pode te arranjar outras escolas igualmente boas. Eu mesmo posso falar com Mana.
Road estava no meio dos dois homens.
–Não gosto da ideia de você ter que conviver com aquele cara. – Continuou, ainda sem olhar para o albino. Não gostava nada da ideia de saber que seu amado Allen Walker, aquele lindo garotinho que entrou em seu quarto de anfitrião, que manteve aquela postura cabisbaixa e envergonhada durante toda a conversa, estava nas mãos de um jovem sem o mínimo de compostura e educação.
Era seu menininho ali.
–Você nem ao menos o conhece. – Allen disse, olhando o perfil do homem. Tiky ainda observava alguns passarinhos furando o solo. – Ou conhece? – Desafiou.
O moreno pressionou os lábios, irritado. Quando ele tinha aprendido a se rebelar daquele jeito? A propor desafios realmente sérios? Estaria Allen entrando na fase rebelde? Ele tinha crescido tão rápido? Estava lhe desafiando. Ele nunca fizera isso.
Virou a cabeça, e tirou os óculos escuros. Aparentava um olhar cansado, sem paciência para brincadeiras. Allen arrependeu-se de ter falado quando sentiu o que aquelas orbes douradas sinalizavam.
–Já conheci o pai dele. – Mikk disse após um tempo. – Um cara de boa postura, modesto. Mas os boatos de Kanda Yuu não fazem jus ao nome da família.
Kanda, como filho de um grande empresário, era alvo de muitos assuntos. Todos sabiam da personalidade difícil do moreno, inclusive Tiky, que tinha noção das atitudes impulsivas do garoto. Era normal questionarem como ficariam as ações da Lune com um garoto tão instável no poder.
–Ele matou alguém, por acaso? – Não era como se Allen estivesse defendendo o futuro Ex-Mestre. Só não tinha nada para falar e pôs-se a testar os motivos de Tiky. Queria saber se ele fazia por preocupação ou por orgulho ferido.
–Allen, você está sendo infantil. – Allen mordeu o lábio. Ele usara o tom sério. Ou estava muito puto ou muito chateado. Ora, também não achava justo ter que se prender a um homem que, sabia, jamais corresponderia seus sentimentos. Tiky o amava, mas Allen desconfiava que aquele amor era ligeiramente parecido com o amor de Mana.
Silêncio. Road cantarolava uma musiquinha, como se estivesse em transe e não ali, no meio daquela conversa tensa.
–Eu vou fazer o Drop. Decidi essa manhã. – Sua voz também tinha assumido a mesma seriedade de quando lhe perguntavam se o mercado estava bom para vender ou comprar e em que parte empresarial seria mais oportuno investir, levando em conta a demanda da produção mundial.
Allen era inteligente. O garoto intimidado tinha sido posto de lado. Kanda Yuu já não exercia mais o poder que tinha. Allen era dono daquele poder, e dizendo “chega” aquela brincadeira terminaria ali.
–Só tenho que devolver o dinheiro dele. – Sabia que não precisava explicar. Ninguém ali era ingênuo.
–Assim espero. – Tiky falou e Allen se irritou.
–Você não é meu pai, Tiky. Quantas vezes terei que repetir? – O Mikk encarou o albino, franzindo as sobrancelhas levemente, mas diante do olhar determinado do pequeno, recuou. Quase da mesma forma que Alma recuara.
Allen só aparentava ingenuidade. E esse também era um ponto oportuno para a Noah´s Ark.
Ele suspirou. Era seu garotinho ali e ele estava escorregando por entre seus dedos, querendo criar asas e voar. Aquilo doía. Sempre cuidara de Allen como seu próprio filho e tê-lo falando daquele jeito doía.
Onde estava o albino que tocara em seu bar? Corara perante suas brincadeiras e disse que faria tudo por ele? Que demônios Kanda Yuu fez para mudá-lo?
Sentia cheiro de maturidade.
–Tudo bem, Allen. – Suspirou audivelmente – Eu tenho que aceitar que você cresceu, certo? – Ele pôs os óculos de novo, a voz baixando. O celular do albino vibrou, mas ele e Road, recém saída do transe, apenas encaravam o anfitrião.
Novamente Tiky se calou, e levantou-se logo depois, ficando em pé por alguns segundos e com as mãos na cintura. Encarava a água escura do lago, respirando pesado.
O albino engoliu em seco para logo se levantar e caminhar até o moreno.
–Eu sei me cuidar. – Disse, baixo, enquanto deslizava os braços pela cintura deste, desfazendo sua pose e o envolvendo num abraço. Conseguia sentir os batimentos de Tiky Mikk. – Agora eu preciso ir. – Sussurrou contra o peito dele e recebeu um afago.
Uma ligeira tristeza abateu-lhe saber que Tiky havia ficado chateado consigo.
Os três começaram a se mover, entrando no carro. Allen respirou fundo.
Estava na hora de cuidar de seus fios e de si mesmo.
Estava na hora de crescer. De parar de ser o brinquedinho de Kanda Yuu. Afinal, até agora não tinha nem mesmo tentado se defender.
Kanda Yuu iria conhecer o Décimo Quarto Noah.
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