Honey

10 Mudando as regras


Notas iniciais
Boa noite a todos, fantasminhas e leitores comentadores! Mais um capítulo de sete mil para vossas senhorias! E, antes de tudo, gostaria de agradecer à duas leitoras em especial: a Tatsu Walker Kanda e a Kokoro no Tsubasa, coisas fofas que sempre comentam! Muito obrigada pela atenção de vocês, por todos os comentários, a opinião e tudo mas! Lendo vocês eu tenho vontade de escrever e mais criatividade! Ahahaha Muito obrigada mesmo e esse capítulo é um presente! Bem, dando algumas explicações: Esse capítulo é O Capítulo, e eu realmente penei para escrevê-lo e ainda tenho a sensação de que devia ter acrescentado mais coisas, ou... sei lá. Bem, sem mais delongas, boa leitura! Nos vemos nas notas finais!

Os portões da mansão se abriram devagar e Allen deixou o carro de Tiky Mikk para entrar naquela imensa construção franco-nipônica.

Mais do que qualquer outra vez, reparou bem no lugar. No caminho de pedras brancas que levavam até um chafariz bem a frente da casa e o rodeava, terminando num perfeito círculo, o qual tinha seus limites na escada de mármore branca que, junto de duas colunas de gesso, sustentavam o teto e a gigantesca porta de entrada.

Sim, aquela porta que dava para o corredor cheio de bonsais pequenos e que levaria até a sala com a escada em T. Entretanto, não seria daquela vez que entraria por ela e que exploraria os cantos da casa que não conhecia, uma vez que só estivera no quarto de Kanda e na sala de jantar.

Não seria daquela vez e não teria outra vez. Um verdadeiro Noah não voltava atrás com sua palavra.

Deu a volta na casa, seguindo para o jardim japonês situado atrás dela. Sentia que era impossível se acostumar com a mudança brusca de personalidade que aquela casa emanava. Mas também não era como se precisasse. Andou calmamente pelo caminho também em pedra que levava para a área de recreação, deixando a casa para trás. Não demorou para enquadrar a quadra com o olhar e aqueles simples ato lhe fez sentir uma leve tontura.

Simplesmente fechou os olhos por mais tempo e continuou até já poder ver que, naquela quadra, não estava apenas Kanda Yuu. Respirou fundo e manteve a calma. Tinha cansado de brincar desde que Lenalee tinha entrado naquela história. Se perguntava por que não tinha cansado antes.

O que Kanda Yuu tinha para tê-lo mantido todos aqueles dias?

Seus pensamentos se esvoaçaram quando viu o moreno no meio do local lhe encarando, ainda vestido com o uniforme da escola, e logo atrás dele Lenalee e Lavi estavam. A garota mordia o lábio inferior e carregava a expressão preocupada, enquanto Lavi o observava por inteiro.

Sempre se incomodava com a forma que o garoto o olhava de cima a baixo.

–Allen-kun... – Foi só terminar de andar e firmar o peso no chão que a menina se pronunciou, dobrando os dedos da mão em nervosismo.

Allen ficou calado. Kanda entre si e os dois.

–Eu... – Ela temeu continuar e o albino se sentiu culpado, pois não gostava de fazê-la se sentir ruim. O problema é que não sabia como contornar a situação. Tinha que dar um basta no moreno e reatar com a amiga. Era só o que queria. Mas mesmo o grande cavalheiro Allen Walker não tinha motivos ou palavras para abrir a boca.

Apenas esperou que ela prosseguisse.

–Sei que vai ficar bravo, mas eu não queria que ficasse! – Ela fechou os olhos e respirou fundo, erguendo um pouco a face, como se falasse para o céu. – Eu fiz por você! – Puxou o fôlego e Allen sabia que ela estava se esforçando para não chorar. Lenalee era assim. – Você sumiu de uma hora para outra e depois sumiu do Noah´s, não parecia nada alegre e eu sabia que era por causa desse Sistema Honey! – Ela começou a chacoalhar as mãos e Allen travou o tórax. – Eu sabia, porque tive amigas nisso e elas simplesmente... — Mordeu o lábio inferior, já olhando para o chão. A essa altura ela mantinha as sobrancelhas franzidas. Lenalee era muito sensível.

–A gente prometeu fazer o terceiro juntos! E você simplesmente se foi! Sabe como me senti? Sozinha naquela sala! Virava para o lado o tempo inteiro e você não estava lá! Quando você ligava sempre parecia morto! – Pausou – Eu me preocupei... Eu procurei o Lavi, porque sabia que ele tinha ligações com esses caras! E sendo meu vizinho as coisas ficaram mais fáceis...

O albino, diante daquele desabafo, abriu a boca, entretanto, ainda sem palavras, apenas pegou ar e baixou o olhar. Agora Kanda também lhe observava com o olhar fixo e era outra coisa que estava lhe incomodando.

–Eu só quis manter a promessa, Allen-kun... – Ela continuou, encarando o albino. Lavi trocava o peso do corpo o tempo todo. – Eu quis ficar do seu lado, como você sempre ficou do meu. – Sussurrou baixinho, como uma criança quando quebra um vaso muito importante da mamãe.

E foi nesse momento que Allen se arrependeu de ter cogitado a ideia de que Lenalee estava apaixonada por Lavi. Naquele momento, sentiu toda a culpa recair sobre si, porque culpou a menina por seus problemas. E, pior, foi necessário Lenalee ser puxada para dentro daquele vendaval para Allen tomar providências.

–Mesmo assim, Lena. – Puxou a atenção de todos, pronunciando com a voz rouca. Por mais que ficasse tocado com as palavras da garota... – Não era necessário você colocar o maldito brinco por causa disso!

...Não era como se fosse aceitar aquilo fácil.

Kanda lhe observava calmamente, Allen muito nervoso com aquilo. O silêncio do causador de toda aquela bagunça era, sem dúvidas, preocupante.

–Mas e-eu... – Ela começou, mas logo estancou quando o albino ergueu a palma pedindo pela vez de falar. A morena mordeu mais fortemente os próprios lábios, Lavi também não falava nada.

–Eu não te culpo, Lena. – Suspirou fundo – De maneira alguma. – Forçou um sorriso nada convincente. – Na verdade, eu sou o culpado. – Começou e Lavi arqueou as sobrancelhas. – Encarei essa situação como uma brincadeira desde o início... Aceitei o desafio sem pensar nas consequências. – Encarou o moreno. – Mas isso acabou, Kanda.

Lavi esboçou um sorriso. Tinha razão de achar que aqueles dois sabiam mesmo brigar, uma vez que era possível notar que ambos travavam uma batalha apenas encarando-se. Já Lenalee preocupou-se com o estado do albino. Ele estava sério como poucas vezes já estivera, e aquilo era assustador. Allen sempre fora brincalhão, levava tudo com sorrisos e brincadeiras, mas vê-lo ali, compenetrado, lhe dava uma visão de uma feição do amigo que ela não conhecia.

Seria aquela a feição que era útil para o trabalho dele com Tiky?

–É? – O moreno se pronunciou, mudando pela primeira vez seu estado estático. Sorriu de canto para o albino e Allen sentiu seu sangue ferver. Só não explodia, porque Lenalee estava ali. – Então eu ganhei esse joguinho. – Ele cuspiu as palavras e Allen diminuiu os olhos, cerrando os punhos conjuntamente.

–Sim. – Rangeu os dentes. – Fique com sua vitória e com o seu maldito dinheiro. – Aproximou-se alguns passos do corpo dele. Ficaram então separados por dois ou três metros e Allen podia muito bem sentir a fragrância de Lótus que emanava de Kanda. – Vou deixar o brinco e o “pagamento” quando eu for realizar o Drop, amanhã de manha.

Kanda aumentou o sorriso. Sentiu fúria por ele, ainda naquela posição, o desafiar silenciosamente.

Depois, os olhos prateados correram pela quadra e encararam as orbes* esverdeadas de Lavi. Ele também parecia ter aberto mão de sua máscara gozadora e agora seus olhos brilhavam de excitação.

Começava a sentir raiva daquele garoto. Allen Walker, aquele que não odiava ninguém, queria dar uns bons socos em Kanda e em Lavi.

–Você vai dar um jeito de fazer o Drop da Lenalee. – Ordenou. Lenalee levou ambas as mãos fechadas à altura do peito.

–M-mas, A-allen-kun... – Começou, indo avisá-lo das consequências do processo.

–Eu sei, Lena. – O albino a interrompeu. – Tiky vai arrumar tudo, não se preocupe.

E antes de suas palavras serem levadas pelo ar, um riso de escárnio, quase um rugido, chamou atenção das orbes claras do Walker.

–O cara do bar... – Kanda tinha os olhos brilhando, e Allen entortou a cabeça para aquela reação. Como um frequentador do bar de Tiky, ele poderia sim saber da identidade do moreno, mas por que trazia em sua língua aquele tom ácido e de reprovação?

–Sim. O cara do bar. – Confirmou, apenas para ver até onde o moreno iria, porém ele apenas calou-se, endurecendo a face, os olhos perdendo o brilho e Allen sentiu um arrepio subir sua espinha.

–Como um Ex-Honey, você não é permitido a entrar nessa casa. – Ele disse, rude, e Allen achou um ultraje, quase mordendo a própria língua de raiva.

Na verdade, Kanda Yuu se mostrava mais complexo do que Allen imaginava. Ele simplesmente mudava de humor o tempo todo. Uma hora, era o Mestre que colocava a gravata em si carinhosamente e lhe encarava malicioso, outra era o cara rude que xingava professores e ameaçava puni-lo em banheiros.

Afinal, que punições eram aquelas? Seriam mais beijos? Isso... Outra hora, as mais estranhas, era um garoto que o beijava seguidas vezes e o dava água na boca.

Suspirou pesado.

Devia mesmo se afastar dele, afinal aquela bipolaridade não deveria ser boa influência. Uma parte de si ficava feliz em saber que finalmente se veria livre daquela confusão toda e os outros 70% mantinham-se neutros.

Ou seriam perturbados?

Não importava.

–Era o que eu mais queria. – Mentiu, sorrindo raivosamente.

Afinal, não, não esperava que aquele desgraçado fosse expulsá-lo da casa! Ora, tivesse um pouco mais de respeito pela pessoa que tentou aturá-lo! Queria jogar aquelas palavras na cara dele, uma vez que, se Alma tinha o procurado para “ajudar” seu amigo, ele tinha que ter algo de especial, certo?

Subitamente, lembrou-se da fotografia na parede do corredor que levava ao quarto de Kanda. Lembrou também daquele Mestre silencioso e de como tentava ler os pensamentos dele enquanto jantavam.

Estalou a língua. Não era mais problema dele se aquele garoto era, ou não, triste.

Eles não eram nem amigos para sentir-se na obrigação de ajudá-lo, correto?

Desviou o olhar para os dois alheios àquela pequena discussão.

–Eu vou buscá-la ao fim da aula amanhã, Lena. – Disse, olhando fixamente o ruivo. Não esperou uma resposta nem nada. Abaixou a cabeça para olhar o pedaço de pano, desamarrando com força e rapidez a gravata de Honey. Seus movimentos sendo bem observados por um par de orbes negras, tão negras quanto um buraco profundo. – Divirta-se. – Encarou-as, a gravata escorrendo pelos ombros finos e caindo no chão.

Kanda engoliu em seco, mas ninguém viu. Mantinha a respiração perfeitamente compassada, enquanto assistia o corpo virar-se e ir embora. Os cabelos desarrumados acariciando a pele alva da nuca do menino. Naquele dia, ele não vestia o suéter cor marrom clara que vivia usando. Estava apenas com a camisa social da escola e parecia carregar um ar mais...

Maduro?

–Também serve para você dois. – Rugiu, sem saber quanto tempo tinha ficado parado e observando a gravata no chão. Sem demora, Lavi e Lenalee passaram por si e encaminharam-se pelo mesmo lugar que o albino fora, deixando a casa.

Novamente, estava sozinho, como havia previsto naquele dia na enfermaria.

Era culpa sua? Não importava. Não podia e nem tinha capacidade para prender alguém a si.

–---(T.T)----

Chegou em casa e tudo o que queria era um banho quente e demorado. Havia desligado o celular, pois não queria interrupções em seu silêncio.

Em fim, livre.

Respirou fundo, fechando os olhos enquanto a água quente enxaguava seus fios cinza, deixando-os mais escuros, e seguiam passeando pelo corpo, relaxando os músculos tensos. Mana lhe oferecera um chocolate quente, por mais que não fosse sexta, ao ver o estado acabado do filho e Allen prontamente aceitou, antes de entrar debaixo do chuveiro.

Vestiu seu pijama mais macio e achou que o inverno estivesse chegando mais rápido, pois subitamente sentiu um certo frio interior.

Apenas de meias, desceu para a sala de estar, onde Mana estava deitado no sofá e havia duas xícaras da bebida doce em cima da mesinha, perto das bailarinas de porcelana. Ele assistia algum documentário sobre peixes exóticos no History Channel e parecia muito interessado.

Allen riu baixinho, dando a volta no sofá e sentando-se ao lado do mais velho.

–Seu chocolate vai esfriar. – Ele disse, reparando no olhar desinteressado do filho.

–Sim... – Allen esticou os braços e pegou a xícara de duas asas nas mãos, aspirando o cheiro antes de deixar o chocolate tocar sua língua e aquecer seu interior. Permaneceram em silêncio, Mana observando o filho e a televisão alternadamente.

O albino bebia observando os peixes multicoloridos e corais ambulantes que eram exibidos na tevê, porém pensava mesmo era em como dizer ao pai que mudaria de escola.

–Sua mãe ligou mais cedo, queria falar com você. – Sua linha de raciocínio foi quebrada e encarou o pai. Mana tinha os cabelos castanhos na altura do ombro presos num coque muito mal feito. Estava de folga naquele dia e não parecia querer mexer um dedo se quer.

–Vou ligar para ela. – Respondeu, voltando a encarar a televisão. – O que ela disse?

–Perguntou quando você vai se lembrar dela e me ameaçou por estar impedindo-o de vê-la.

Allen riu diante da cara do pai, voltando a encará-lo e pondo um fim no chocolate. Depositou a xícara na mesa e tombou o corpo para o lado do mais velho, esperando que ele o aconchegasse entre os braços e também o embrulhasse no cobertor.

–Pretendo ir durante o feriado de final do ano... – Respondeu, Mana abraçando-lhe por trás.

–Hm. – Ele assentiu e voltaram a prestar atenção nas formas oceânicas multicoloridas. – Você não vem me falando muito do ballet. – Cortou.

–Ah... – Allen pareceu ponderar um pouco, um pequeno bico surgindo entre seus lábios. – Está bem doloroso. – Riu contido e Mana o acompanhou. – Mrs Anita está bem mais rigorosa. Ela quase me engoliu quando ligou para saber por que eu faltei domingo.

–Você disse para ela que não estava se sentindo bem? – O moreno passou a afagar os fios claros do filho. Seu bebê estava com dezesseis anos... Havia passado tão rápido! Há alguns dias ele corria descalço derramando biscoitos furtados do pote pela casa!

–Hunf...Como se ela se importasse! – O bico dele aumentou e Mana riu. Aconchegou mais o adolescente em seus braços e ficaram novamente em silêncio.

Naquele momento um peixe esquisito, com dentes pontudos e uma lâmpada na cabeça aparecia e Mana apenas concretizava seu medo de oceano. Olha as criaturas horrendas que habitavam as profundezas!

–O senhor trouxe o dinheiro? – Allen perguntou baixo. O pai piscou os olhos algumas vezes.

–Sim, está em cima da mesa da cozinha. – Respondeu, encarando o pescoço do albino e tentando ver sua expressão. – Você vai devolvê-lo? – Questionou, pois sabia que aquilo era o certo a fazer. Não precisavam de dinheiro.

–Sim. – Allen sabia que era sua brecha. – Vou terminar o contrato.

–Ah, sim...

–Só tem uma consequência... – Ele sussurrou, apertando-se mais ao corpo do mais velho e evitando encará-lo. Os peixes da History foram esquecidos e Mana passou a prestar atenção no que o filho dizia. Pelas explicações do filho e ao seu entendimento, aquele contrato estúpido previa expulsão por quebra de clausula! Como advogado, ficou tentando a ir resolver essa medida ridícula, mas pausou os pensamentos quando Allen mostrou que tinha tudo pronto.

–Tiky vai arrumar uma escola para mim, tão boa quanto.

–Allen, você vê o quão complicado é conseguir uma escola depois que o ano letivo começa? E pior, esse contrato é ridículo! – Ele ergueu um pouco o tronco, podendo então encarar o menino.

–Eu sei, Dad... – O albino se remexeu e ficou de frente para o mais velho. Os olhos gigantes encarando-o. Mana sentiu algo dentro de si amolecer. – Mas eu simplesmente não aguento! – Ele suspirou pesado e os olhos encheram-se de lágrimas. Nem mesmo Allen sabia por que estava chorando, só conseguia sentir seu diafragma tentando expulsar algo pesado dentro de si e sentia-se nervoso ao lembrar do samurai.

Odiava- o com todas as forças!

–Filho... – Mana sussurrou carinhosamente, rolando o corpo e ficando parcialmente em cima do filho para abraçá-lo. – O que houve? – Demonstrava no olhar toda a preocupação. Será que aquela mudança brusca de rotinas tinha feito tão mal ao menino? Pensou em ir discutir o assunto civilizadamente na escola, porém, pelo que Allen havia dito, aquela corporação era bancada por grandes empresário e, com sua experiência, ele sabia que não seria fácil dobrar suas vontades.

Se Tiky conseguisse uma boa escola, seria o melhor para seu garoto? Sentiu-se trocado ao saber que Allen havia contato primeiro à Tiky, a ponto de ele já ter tomado providências, mas ao mesmo tempo sabia que teria de agradecê-lo.

O albino não lhe respondeu, apenas aconchegou-se ao pai e lavou suas mágoas e tudo aquilo que estava segurando no moletom do pai com figurinhas de bolas de praia. Não soube dizer quando embarcou em sonhos, apenas que eles foram guiados por algo negro.

–--------@3@----------

Kanda não havia dormido absolutamente nada. Tinha ficado a madrugada inteira num meio termo entre esse mundo e o mundo de morfeu. Vez ou outra abria os olhos assustado, sentido-se abafado e chutava o cobertor para longe. O brinco em sua orelha parecia pesar tanto a ponto de rasgar seu lóbulo.

Quando o despertador despertou, ele o desligou irritado. Afinal, já estava acordado, droga! Pôs os pés no chão e encarou o piso por alguns segundos, uma sensação estranha apossando-se de si. Ainda meio desnorteado, praguejou por que o maldito sono tinha que recair justo naquele momento e começou a prender os cabelos.

Antes de dar duas voltas na borracha que usava para prendê-lo, seus olhos se fixaram no tecido deixado em cima da cômoda, de frente a cama. Ali estava a gravata que seu Honey deveria estar usan... Ah, não. Claro. Allen Walker não era mais seu Honey.

Perguntava-se se ele havia sido alguma hora.

Desistiu de se arrumar e deixou o cabelo cair sobre os ombros novamente, suspirando fundo. Aquela sensação vindo com tudo e ele apertando os lábios. Quando vezes havia passado por aquilo?

Não, esse não era o caso. O que lhe incomodava era que se tudo não passava de uma vingança, por que agora ele se sentia tão vazio?

–------3~3------

Depois de ter acordado mais tarde que o normal e sentir-se mal por não estar na aula, Allen arrumou-se sem o uniforme escolar e desceu para tomar o café, esperando que aquela sensação amarga em sua boca parasse quando comesse.

Erro seu.

Mana deu-lhe bom dia e Allen correspondeu com um sorriso fraco, comendo suas panquecas. Eram nove da manhã, mas o albino se via impaciente demais para esperar até depois do almoço. Faria alguma coisa até dar a hora de Lenalee sair e, também, não sabia quanto tempo demorava para desfazer todo aquele contrato.

Perguntou-se se teria que esperar Lena também e acabou por sentir-se culpado por tirar a garota da escola, afinal ela gostava da Ordem e tinha muitas amigas queridas lá. Não sabia se queria chegar lá e vê-la já expulsa ou não.

E também havia Road, tinha que se despedir dela, apesar de a garota já saber do Drop. Ela era muito querida.

Quanto a Alma... Bem, não sabia o que pensar. Depois de ter ligado o celular viu que não havia nenhuma ligação do moreno, nem mesmo uma mensagem. Não que estivesse esperando, mas...

Foi o mesmo para Kanda.

Trocou algumas palavras e afagos com o pai pela manhã. Acabaram por sair ambos no mesmo horário, uma vez que Mana trabalhava numa delegacia policial, então seu turno começava mais tarde e terminava igualmente mais tarde. Foi deixado na porta da escola e, por causa da ansiedade, não deu atenção às recomendações dadas pelo pai, apenas concordando com tudo.

Aos poucos Allen entrou no campus do Kugeka. Novamente a imensidão do lugar o fazia sentir-se pequeno, humilhado diante da riqueza daqueles impérios que governavam o mercado. Seu estômago entrou em rebuliço e queria ter todas as repostas na mão antes de qualquer movimento.

Desde o começo as coisas estavam confusas e realmente não entendia o motivo de estar ali e não entendia as ações de Kanda Yuu. Mas agora, ao visualizar todas aquelas quadras e o imponente prédio branco de três andares com suas janelas de vidro fumê, agora ele só podia buscar uma explicação.

A vida gostava de pregar peças, emaranhar fios errados e destruir ou afrouxar alguns, mas Allen não gostava nada disso, uma vez que não admitia que seus fios fossem tão fracos a ponto de ser rompidos por um brinco, por um contrato, por uma escola.

Havia feito uma escolha e sabia muito bem com que consequências teria que lidar. Então, por que continuava com aquela ânsia de vômito? Dava-lhe um gosto ruim na boca e gerava um grande mal estar.

Andou pelos mesmos corredores que levavam à diretoria, aqueles caminhos com paredes brancas e quadros que demonstravam a eficiência educativa da instituição. E ao chegar ao pequeno escritório, aquele com as luzes amarelas, foi esmagado pela mesma sensação do primeiro dia. Como se aquelas paredes o espremessem e o ar servisse apenas para sufocá-lo.

Queria tirar logo o brinco, acreditava que estaria livre se o retirasse. Era como se a vida ficasse mais leve se o peso do metal não pudesse ser sentido. Como se fosse ele o responsável por sua indigestão.

Isso pois aquela sensação só podia ser uma indigestão, certo? Uma simples indigestão.

Então, num tranco de consciência, parou e levou a mão imediatamente à orelha, sentindo apenas uma bolinha, que sabia que era o brinco de Lenalee. Assustado, deixou a própria respiração descompassar e tocou a outra orelha.

Suspirou aliviado. Por um segundo, não sentira o peso do contrato e imaginou se não tivesse perdido o brinco.

Ah, bobagem. Não tinha como perder! Era preso!

Voltou-se para a mesa de mogno que pertencia ao secretário e leu o nome dele na plaquinha de metal em cima dela. Ao lado do nome, algumas pastas, um computador e um porta canetas. Tudo muito bem organizado. Como não tinha percebido aquela organização quando assinara o contrato que iria, justamente, romper naquele momento? Certamente aquele homem era um francês muito bem cuidado.

Entretanto, quem disse que ele era francês? Afinal, não podia guiar-se por esteriótipos! Kanda era francês e mostrava completamente rude, bem diferente do que se pensava dos nacionais. Ele também sempre andava perfumado, mas Allen nunca acreditara que franceses eram descuidados com a higiene. Morava ali há tempo suficiente para saber que muita coisa era lorota.

De qualquer forma, Kanda xingava como um bom francês. Era fato. Sempre em um tom superior e talvez fossem essas as únicas vezes que ele era mantinha a postura polida. Ou pelo menos a língua dele a fazia. Bem, irônico, não?

Quis rir, mas seus devaneios foram interrompidos pelo barulho dos sapatos sociais no piso. Não demorou muito para que pudesse reconhecer o homem de cabeleira loira, o qual possuía o nome “Reever”.

Grand merde! – Ele aparecia pelo fundo do corredor que, Allen sabia, levava à sala do diretor e de pessoas de maior importância na escola. Viu só, eles não xingam com postura? – Komui não tem responsabilidade com nada! Tudo sobra pra mim! Tudo! – Ele surgiu na sala de espera com os cabelos bagunçados e uma expressão de desagrado que logo foi substituída por surpresa quando avistou o menino ali parado. Seu rosto ganhou cor e ele sorriu amarelo rapidamente.

Allen abriu a boca para saudá-lo, mas não foi preciso, logo sendo interrompido.

–Ah! – Reever exclamou, depois de pensar um pouco,lembrando-se de algo e pareceu esquecer-se de seus problemas. Achou divertida a ideia do garoto ali. De repente, seu dia abriu e pelo menos algum divertimento teria naquela manhã. Seus anos de experiências lhe diziam que o único motivo que fazia um Honey vir ali era... – O Honey do Kanda! – Allen soube que, pelo tom de voz, falar aquele nome não era sinal de intimidade, era apenas o sobrenome da família.

–Olá. – Forçou um mínimo sorriso. Não entendia porque a palma de sua mão começara a coçar, e o sorriso que o loiro lhe dada era... um tanto estranho.

Afinal, por que ele exalava tanta animação, quando teria mais trabalho para desfazer os documentos e ainda perderia um aluno?

–Sente-se, sente-se! – Reever parecia muito animado, com um sorriso desafiador delineado em lábios. Allen realmente quis saber o motivo da graça. – Eu sabia que você viria, uma hora ou outra! – Ele já ia abrindo uma gaveta atrás da outra, sem nem olhar o albino. Era inegavelmente excitante poder adicionar mais um nome na ficha de Kanda Yuu.

Allen sentiu uma coisa estranha na barriga, porém sentou-se e pôs a bolsa pequena que trazia consigo no colo.

– Mas olha... – Encarou o Honey sentado, os olhos castanhos brilhando. – Você foi até mais forte do que eu esperava! – Confessou, deixando sair um suspiro silencioso, como se soubesse as barbáries que o garoto teve que enfrentar.

Era aquele Mestre, afinal.

–Eu vim para fazer o Drop. – Allen falou, ignorando o que ele disse. A voz um pouco rouca obrigou-o a forçar a garganta num pigarro.

–Sim, eu sei. – O homem respondeu, enfiando a cabeça num compartimento debaixo da mesa e tirando de lá uma pasta preta, com diversas folhas dentro. Ele a olhou com carinho e posou-a lentamente em cima da madeira. – Vamos logo com isso, certo? – Sorriu para o garoto e Allen não pode assentir, nem nada. Ficou parado, tentando saber e analisar porque aquele homem estava tão disposto a arrancar um brinco.

Inconscientemente, mordeu o lábio, pensando que o secretário já devia estar acostumado a isso devido à personalidade de Kanda.

Deveria sentir-se mal?

Reever pôs-se a folhear algumas páginas feitas de plástico que guardavam documentos dentro. Passou pela ordem alfabética até chegar à letra K. K de Kanda e K de Kugeka.

–Não precisa ficar tão nervoso assim. – Ele lhe olhou e sorriu, como se quisesse acalmá-lo. Levou o dedo a boca e molhou-o com saliva a fim de desgrudar o plástico colado um ao outro. – Já fiz isso muitas vezes, principalmente com os Honeys da família Kanda. – Ele soltou uma rápida risadinha, que trazia em seu tom escárnio, pena e compadecimento.

–Muitas vezes? – Allen perguntou, os dedos entrelaçando-se. Não sabia se era por causa do clima, mas sentia suas mãos geladas.

No fim, deveria ter trago uma luva. Ultimamente o clima vinha mudando rapidamente, aviso do inverno que estava por vir.

–Incontáveis! – Ele puxou o papel, e o albino reconheceu que aquele era o mesmo que havia assinado duas semanas atrás. – Sabe, é meio engraçado. – Agora ele deixava o papel sobre o móvel, virando para Allen e apoiava as mãos nele. Os olhos prateados acompanharam todo o movimento para pausarem sobre os olhos do secretário, que agora parecia finalmente dar-se conta de que o menino não estava para piadinhas ou brincadeiras.

– Eu nunca sei o que vocês passam – Começou, adquirindo um tom sério, como se quisesse passar uma certa confiança. Allen pensou que aquele homem estava realmente acostumado com aquele tipo de situação, afinal nem se dava conta de como tinha sido um pouco rude. Mas ao ver que ele parecia constrangido, talvez pudesse ser uma boa pessoa. – Então não posso dizer que entendo e nem vou me intrometer em qualquer decisão que os Honeys tomam. Agora, cá entre nós – Colocou uma parte do corpo por cima da mesa, como se segredasse algo. Allen aproximou-se um pouco. – Esse sistema foi a pior merda que já criaram! – Ele disse, certeiro e arrancou um sorriso de Allen. Reever sorriu junto, vendo que, talvez, dissipara a tensão do jovem.

–Eu também não sei muito, mas isso não é para mim. – Allen respondeu, encarando as mãos por um segundo. Sua orelha parecia latejar.

–Entendo. – Reever assentiu com a cabeça. – Você não precisa se preocupar, não há nenhuma forma de punição. – Ele disse, com a certeza de que aquele era o motivo da ansiedade do menino. Ele podia ter medo de ser marcado, ou algo assim, por se recusar a fazer parte daquele processo.

Allen tombou um pouco a cabeça.

–Nenhum deles pode fazer algo contra um ex-Honey. É totalmente contra as regras. – O albino se perguntou que regras, porque não entendia qual lógica saudável o Sistema Honey seguia. – Já pensou? Se fosse assim, a família Kanda teriam um mundo de garotas marcadas! – Fez piada, mas obteve insucesso imediatamente.

Allen fechou a cara.

Todo mundo ali parecia fazer piada de Kanda Yuu.

–Quantas garotas? – Repetiu, bem lentamente, quase como se respondesse por si mesmo.

Reever soltou outra risada, sem perceber que o garoto agora sustentava um olhar opaco.

–Diversas! – Ele balançou a mão, quase como se tratasse de um assunto banal. – Na verdade, você é o único que aguentou mais tempo! Hahahaha. – Allen apertou os punhos, que estavam fora da visão do homem. Podia parecer um elogio, porém naquele momento o Walker sentiu a amargura na boca intensificar-se. Do jeito que ele disse, parecia que o albino era o culpado por dar trela às piadas que rodeavam o nome do moreno.

Imaginou quais seriam os murmúrios na sala quando o moreno aparecesse lá e nenhum Honey viesse atrás. Perguntou-se se ele pararia de assistir às aulas, como Alma havia explicado que ele fazia.

E de alguma forma, Allen não admitia isso. Não queria seu nome sendo usado para humilhar outra pessoa. Não era de seu feitio. Tinha sido menosprezado por Kanda, mas não era por isso que iria menosprezá-lo. Mana havia lhe dado uma boa educação.

Entretanto, o que fazer para impedir? Sua cabeça entrou em confusão, e olhava para frente, vendo apenas o borrão de um homem acompanhado com sussurros longínquos.

–Não é como se ele trocasse de Honey bem rápido. – Reever continuou. – Sabe como é, né? – Riu e Allen respondeu mentalmente que não, não sabia. – Já teve meses que ele ficou sem vir à aula, e eu sinceramente não sei como ele consegue passar! – Riu desgostoso – Tem gente que nasce privilegiado mesmo! – Ela balançava a cabeça em negação, Allen ainda mordendo o lábio. O loiro pegou uma caneta e anotou um número desconhecido no papel.

110203

Depois pareceu querer puxar uma gaveta qualquer, e fê-lo duas vezes, sem sucesso.

–Droga! Estou sem a chave! – Ele estalou a língua, as sobrancelhas franzidas enquanto se levantava para tatear os bolsos e varria a mesa com o olhar. – Argh! Vou ter que pegá-la. Se importa de esperar um segundo, por favor? – Ele sorriu por educação e Allen apenas assentiu.

Reever voltou a sumir corredor adentro, abandonando o albino com os próprios pensamentos.

Aquela super proteção que Alma e Lavi pareciam ter com Kanda era restrita apenas a eles, ao seu entendimento. Afinal, ali mesmo o homem estava tirando sarro da situação do moreno. Se era assim, pensava, eles deviam saber de algo que os demais não sabiam... Certo?

Ou talvez são só cúmplices! – Seu subconsciente gritou para si e Allen revirou os olhos.

Por que aquelas coisas só aconteciam com ele? Por que tinha que se sentir culpado por algo que não tinha o mínimo envolvimento? Tudo bem que faria o Drop e Kanda seria motivo de chacota como conseqüência, mas ele não tinha culpa, certo?

Quem não sabia interagir e nem ser gente era o Samurai sem educação! Então não tinha motivos para pensar que, talvez, o futuro dele ficasse comprometido, ou que ele entrasse em depressão, ou se matasse e...

O que está pensando, Allen Walker? Ele nem se preocupa com você! Olha o que ele fez contigo!

Sim. Estava certo. Não tinha culpa e não precisava se sentir ruim. Fim de história.

Suspirou no mesmo instante que Reever voltava com a chave e com agilidade retirou da gaveta uma maleta pequena e preta. Dentro dela, uma maquininha que lhe lembrou um aparelho de choque. O mais velho não se sentou e passou direto por sua mesa, agachando-se na frente de Allen com um ligeiro sorriso em face.

–Vamos lá? – Perguntou, puxando o papel com o número para perto de si. O albino não soube o que responder.

De perto, percebeu que o aparelho tinha um discador, como um telefone, e viu que o loiro digitava os mesmos números escritos.

110203

Perguntou-se se eles significavam alguma coisa... Mas, bem, não tinha importância. Um “bip” fino soou pelo ambiente e só Reever pôde ver o nome de Kanda Yuu soar no visor do aparelho. Clicou em concluir.

–Sua orelha, por favor. – Pediu, ainda sorridente, Allen demorando alguns segundos para raciocinar.

–A-ah... Sim... – Respondeu, bem fraco. Sentia sua cabeça girar um pouco, como se estivesse com sono. Não evitou imaginar se doeria tirar o brinco. Será que seria estranho ficar sem ele?

–-----3-3------

Continuava a perguntar-se por que não se sentia em paz, como costumava fazer quando uma Honey não aguentava suas punições e ia embora... Quando elas se davam conta que, por mais que estivessem ganhando o amado dinheiro que queriam, elas eram nada.

Todas aquelas garotas sempre estavam atrás de si mesmas. Nunca ligavam para ninguém. Foi assim sempre. E a única exceção era Amelié, sua primeira Honey.

Já Allen, seu único Honey homem, ele não sabia onde enquadrar.

Amelié era irmã de Alma. Allen não tinha irmã, sabia disso por meio de algumas pesquisas. Amelié era loira. Allen era albino. Amelié tinha olhos castanhos. Allen tinha os mesmos olhos que sua mãe. Amelié era sua primeira amiga, aquela que lhe abraçava, que lhe levava flores e que sorria para si. Allen foi só uma vingança.

Ou era pra ser.

Assim como Amelié, Allen fora embora. Assim como Amelié, Allen não aguentou. Nem ele nem todas as outras, isso era fato.

Desde a morte da mãe, Kanda Yuu não era o mesmo. O brilho nos olhos do pequeno garotinho tinha-se ido quando o brilho dos olhos da mãe também se foi. O desejo de se afeiçoar acabou quando o moreno viu, pela primeira vez, o que a loucura fazia com as pessoas. Nunca mais quis se apegar a ninguém quando viu que mesmo a pessoa que mais amava havia esquecido de si.

Margot Charpenet, a mulher que recusou o sobrenome Kanda, por achá-lo “japonês demais” para uma francesa. A estilista de olhos prateados, dona de um Ateliê, de unhas muito bem feitas e gosto refinadíssimo para alimentos. A mãe de Kanda Yuu. A mulher que sofria de Mal de Parkinson, que bebia chá toda tarde, adorava ler e ir à praia. A moça que adorava tranças no gigante cabelo de seu filho, que não o cortava de jeito nenhum, por considerar um “pecado para a humanidade”. A mulher que, aos poucos, foi perdendo a capacidade motora, que enlouqueceu por não mais poder costurar seus fabulosos vestidos e afundou na bebida. A mulher, que nos últimos dias de vida, se esqueceu de seu amado filho. Que desenvolveu Psicose de Korsakoff e já não reconhecia o marido. Que passou horas e horas olhando para o mesmo teto, com a mesma cor, até seus faróis prateados se apagarem, numa singela loucura, desfocados e banhados de lágrimas.

Que implorara para deixar aquele corpo inútil que não a pertencia. Para ir embora.

Yuu Kanda ainda se lembrava de como era estar ao lado daquele corpo que não mais o reconhecia. Ainda sonhava com os gritos da mulher, com os xingamentos quando ela o via e o acusava de querer fazer de seu sangue fios de lã.

Como se fazia lã com sangue?

Ele perguntou para todas as pessoas que conhecia como se fazer lã com sangue e todas elas lhe acusaram de loucura também, como a mãe. Mas seria loucura querer nutrir a única coisa que restava de sua Margot? Mesmo que essa coisa fosse resquícios de uma consciência há muito perdida?

Havia uma lenda chinesa ou japonesa ou tailandesa, não sabia bem, que dizia que o amor entre duas pessoas está ligado por um fio. Que não importa quantas vidas se passem, esse fio vermelho do destino sempre unirá seus dedos mindinhos.

Yuu procurou o fio vermelho em todas as pessoas. Em todas as garotas que conhecia. Claro que nunca conseguiu uma aproximação segura, sempre um pouco turbulenta, mas sempre procurava, tentava e tentava. Mas chegou uma hora que ele se deu conta de que não existia fio nenhum. Amor nenhum. Nada.

Ele não tinha nada.

Seu pai fora, como sempre, para algum lugar do mundo a trabalho e mandava notícias de suas histórias compiladas em livros para tentar manter contato com o filho. Não era um pai negligente, de maneira alguma. Era um pai babão muito ocupado. Por esse motivo, sempre apoiara qualquer que o fosse a decisão de Kanda, tentando proporcioná-lo o melhor.

Mas Kanda não tinha nada.

Tudo era uma questão de dinheiro. Elas sempre se aproximavam porque aquele era o filho do dono daquela empresa. Aquele era o herdeiro daquela multinacional importantíssima. Aquele era um bom partido porque iria providenciá-las uma vida de princesa.

E em algum momento e lugar, ele decidiu de vingar. Decidiu não mais ser o príncipe e sim o demônio que iria fazê-las pagar, afinal, até onde estariam dispostas a ir por dinheiro?

Todos repararam na mudança súbita do moreno. Amelié, Alma, Lavi. E desses três, restaram apenas os dois últimos.

Amelié foi para os Estados Unidos quando os pais de Alma abriram uma filial da empresa lá e nunca mais voltou. Afirmou veemente que não voltaria até Kanda deixar de ser o grosso estúpido que virou e voltar a ser o garotinho que dividia a carteira de escola consigo. Ela embarcou no avião sem olhar para trás e só mandou notícias por meio de Alma. Disse que estava bem, que fizera amigos e que desejava tudo de bom para Kanda.

Com isso, o moreno sentiu ainda mais raiva, remorso, dor, solidão. Estavam todos seguindo suas respectivas vidas, mas ele estava ali. Sozinho como sempre.

Entretanto, continuou.

Sempre conseguia Honeys nas situações mais impensáveis. Pesquisava tudo sobre a vida delas e dava-lhes o que pedia. Dinheiro, sapatos, bolsas de grife. Tudo valia. Elas não hesitavam em ceder o próprio corpo por dinheiro.

Vazias.

Não duravam, óbvio. Kanda tinha ficado muito bom em tortura psicológica, uma vez que nunca fora adepto de tortura física. Afina, apesar de tudo, ainda era um bom cavalheiro, e nunca ousou burlar os ensinamentos de sua mãe. O cabelo grande era um bom exemplo disso.

Quando cansou-se de tudo e todos, dos joguinhos e levava o sexo mais como um esporte, eis que surge Alphonse Apocryphos. O novato, filho de uma companhia que há anos não tomava seu posto no Sistema Honey. O cara irritante que chegou na sala esbanjando um ar floral demais, perfeito demais. Óbvio que Kanda não foi com a cara dele nem por um instante.

Era tudo muito “máscaras”.

E surpreendeu-se quando o garoto mostrou-se muito interessado em começar uma amizade consigo, sentando-se a seu lado, ajudando suas Honeys-Temporárias, chamando para partidas de tênis – uma vez que Kanda era inegavelmente bom em qualquer esporte, e à isso devia-se seu corpo. Mas cada vez que ele se aproximava mais, Kanda menos gostava. Não suportava o jeito que ele sorria e fechava os olhos, o jeito que falava com todos como se possuísse intimidade. E, principalmente, o jeito que sua máscara caia quando ninguém estava olhando.

Era um garoto interesseiro e escondia muito bem. Talvez estivesse ali a mando do pai para sondar as ações e relações de outras empresas. E quando ele percebeu que o muito observador Kanda Yuu já tinha sacado sua jogada, a coisa tornou-se interessante.

Pareciam dois touros brigando em ringue, mesmo que ninguém estivesse vendo. Passavam tardes disputando partidas de basquete, tênis, vôlei, as quais Kanda sempre vencia.

Só tinha uma coisa em que o moreno nunca se sobressaia: Honeys.

Ter Honeys passou a ser apostado pelos dois, mesmo que nenhum dos lados tivesse tocado realmente nesse assunto. Na verdade, a relação entre ambos era apenas apostas e apostas. Assim, como já se imaginava, era fácil demais para Alphonse conseguir e manter Honeys por mais tempo, principalmente com seu discurso de galanteador. Então, novamente, o jogo foi ficando chato. Até o garoto resolver que não mais buscaria Honeys, mas sim roubaria.

E conseguiu.

Qualquer nova garota que se sentava do lado de Kanda, era alvo de seus galanteios. E não importava se a achava interessante ou não, bonita ou não, uma vez que na maioria eram todas bonecas burras sem vontade própria, entretanto era muito divertido coagir, seduzí-las, fingir compreensão, acalmar o psicológico frustrado das garotas e então prometer fazer delas sua Honey e levá-las para a cama.

Uma a uma, foi assim.

Kanda, ao lembrar-se, queria socar mais alguma coisa, mas o quarto já se encontrava devidamente destruído. A cama vazia, gavetas no chão, porta retratos antes guardados agora quebrados.

Tudo isso, por causa de Allen Walker. Porque Allen Walker foi o único que conseguira lhe desestabilizar depois de Amelié.

Por isso entrara em fúria quando Alphonse tocou-o. Quando ousou infiltrar os dedos sujos nos cabelos platinados do garoto. Quando ousou colocar aquela máscara maldita e fazê-lo corar. E odiou a si próprio quando o fez chorar. Quando perdeu o controle da situação e aquilo deixou de ser uma vingança e passou para um nível não reconhecido.

Por Allen Walker, Kanda se calara. Por Allen Walker, Kanda não forçara sexo na primeira vez que o levou até seu quarto, como fazia com as outras Honeys. Por Allen Walker, Kanda se odiou por tê-lo deixado ir.

Foi por Allen Walker, que aquele quarto estava destruído.

Kanda faria qualquer coisa por ele, mesmo que não pudesse pôr todos aqueles pensamentos em palavras e nem admitisse para si mesmo. Afinal, aquele garoto não era mais apenas uma vingança, não era o garçom do bar com quem brigara após receber um vídeo da sua ex-Honey gemendo o nome do maldito Alpocryphos. Aquele garoto era seu Honey. A única pessoa que tinha, quase perfeitamente, a mesma cor de olhos que sua mãe. A única pessoa que o enfrentou, que ousou lhe empurrar, lhe xingar, que fez o chá do jeito que gosta, que acertou no seu salgado preferido.

Allen Walker era a única pessoa que fez Kanda imaginar que, talvez, muito remotamente, houvesse no dedo dele a outra parte do fio vermelho que estava preso em seu próprio dedo.

Entretanto, ele era a pessoa que estava fazendo o Drop naquele exato momento. Que iria deixar sua vida para sempre.

Deixou as pernas caírem, assim como os braços. O quarto estava escuro, como sempre. Não queria luz e não podia ter a única coisa que queria. O celular apontava zero ligações de Alma, o que era uma coisa assombrosa. Se Alma não ligava, era porque não tinham esperanças.

É porque não havia mais outro lado do fio, ou outro brinco, e que, dali a algumas horas, estariam lhe entregando uma caixinha preta e pequena, com um K dourado e em letras exageradas, contendo um brinco prata com a flor de lótus talhada.

Era só esperar e a solidão viria abraçá-lo novamente. Como sempre fizera.

Encostou a cabeça na parede e fechou os olhos lentamente, suspirando pesado. Queria dormir, queria não sentir o próprio corpo, não sentir nada.

Não sentir a saudade antecipada da voz do albino. E nem dos cabelos aparentemente macios, ou dos lábios que beijara algumas vezes. E pensar que já o imaginara correspondendo o ósculo...

Riu abafado e teve pena de si mesmo naquele estado deplorável. Não era de seu feitio estar tão acabado assim e sentiu-se sujo.

Bateram na porta. O moreno já abria a boca para dispensar quem quer que fosse com a voz rouca por desuso, mas a porta se abre e a luz do lado de fora ilumina a pessoa que adentrou no quarto, forçando Yuu a fechar um pouco os olhos.

Daquele ângulo, ele parecia bem maior. Mais maduro. Os cabelos platinados lhe dando um ar de anjo e pensou estar louco quando ouviu a voz dele soar, bem baixa e muito determinada.

–Pretende me deixar ir tão fácil? – Kanda quase riu, porque adorava a petulância dele. Porém só aparentou fraqueza e incredulidade ao vê-lo fechando a porta e andando calmamente até seu corpo largado no chão.

Adentrando aquela escuridão do quarto.

Lá no fundo, Allen se odiava por ter impedido Reever de efetuar o Drop no último instante. Era burro, ou o quê? Sua mão simplesmente recusou soltar o pulso do loiro e o deixar finalizar o processo, tirando o brinco. Suspirou. Queria bater em si mesmo até perder a consciência.

–Já disse que você não pode entrar na minha casa se não é mais meu Honey. – Disse, sorrindo de canto, mas fracassando ao notar o quanto ele parecia estar mais avançado.

Aquela maturidade na quadra era verdadeira, então?

–Eu ainda sou seu Honey. – Os olhos negros se arregalaram quase que imperceptivelmente e alguns dedos deram um tique nervoso. Allen estava bem à sua frente, vestindo uma calça jeans clara e uma camisa vermelha com algumas coisas escritas. Carregava uma bolsa preta, a alça apoiada no ombro. Olhava-o de cima e suspirou. – Você é sempre assim? Derrotado? – Passou os olhos ao redor do quarto, uma das mãos segurando a alça da bolsa. Allen estava nervoso?

–Você está corajoso, hein... – Kanda soltou uma risada nasal e abaixou a cabeça. Apesar de querer se manter forte, a presença dele ali lhe deixava sem chão, afinal ele não ia fazer o Drop? O que o parou?

–Eu sempre fui, você quem nunca reparou. – Arqueou as sobrancelhas e Kanda levantou a cabeça a tempo de ver os olhos dele brilhando. Ficou calado enquanto acompanhava os dedos finos abrirem o zíper da bolsa. – Eu sou seu Honey ainda, Kanda. Mas vamos mudar algumas regras. – Walker ditou, sem encarar o moreno no chão e com a voz muito firme. Kanda estreitou os olhos, curioso para saber o que estava dentro daquela bolsa.

–A regra número um... – Ele tirou a alça do ombro e segurou a diminuta bolsa preta com ambas as mãos. Kanda não sabia o que pensar, ambos com os olhos iluminados. – É que eu não preciso disso.

E as cédulas caíram em cima de Yuu Kanda. Todas elas, bem verdinhas, totalizando duas mil libras, como uma chuva e bem lentamente. Atrás delas, um garoto se agachava e sentava a frente do moreno incrédulo que habitava aquele quarto.

–Eu não sou como as outras, Kanda. As coisas não vão ser como você quer. – Ele disse, sentado em borboleta, encarando fixamente as orbes negras e com as suas faiscando.

Kanda levou um tempo para raciocinar e quando finalmente se deu conta da situação, sorriu. Mas foi um sorriso verdadeiro, e não um erro de DaVince. Allen gostou do que viu. Aquele sorriso não era como a maioria dos sorrisos de Tiky. Não tinha desafio. Nada. Era um legítimo sorriso Yuu Kanda. E logo depois os lábios finos dele se moveram.

–Como quiser, Allen Walker.

Um verdadeiro Noah nunca voltava atrás com sua palavra. Mas Allen Walker ainda não era um completo Noah, certo?

Notas finais
Yep! Quase oito mil palavras por este ser o capítulo que encerra o primeiro arco da fanfic... Então vamos estimar que ainda temos mais vinte capítulo pela frente até o fim! Espero que vocês tenham gostado e que eu tenha alcançado à imaginação de vocês e as expectativas! Estou abertas à sugestões e ideias! Ah, me digam se vocês conseguiram compreender os motivos do Allen e sentir o que ele sentiu! Bem, eu revisei esse capítulo muitas vezes, então espero que não tenha passado nenhum erro! Esse capítulo é a tão esperada transição! Estou ansiosa e amedrontada para saber a opinião de vocês! Bem, muito obrigada por lerem e até o próximo! Kissus!