Honey

11 Retalhos de passado


Notas iniciais
Boa tarde, leitores! Antes de tudo, quero agradecer aos comentários do último capítulo *U* Nunca tive tantos na minha vida! Meu coração quase parou, juro! Isso me faz pensar que você já estavam cansados da transição :´( Obrigada por não me abandonarem! Sobre esse capítulo: sintam o Yuu!! Hihihi! Prestem atenção nos diálogos, nas datas, e verão que a passagem do tempo é lenta! Ah, eu não pretendo ficar me demorando no passado dele, certo? É isso aqui e acabou! Passado é passado! Revisei o capítulo umas três vezes, então espero que não tenha passado nenhum erro! Me avisem caso encontre algo, ok? Com isso, desejo-lhes boa leitura!!

Ele entrou correndo naquele ambiente. Passou as mãozinhas pequenas pelos tecidos expostos, enquanto desviava dos diversos cabides e manequins arrumados ali. Tentava tomar cuidado para não escorregar nos pedaços de retalhos jogados no chão, mas ignorou as possibilidades de um possível acidente quando avistou a escada de mármore branca, tão conhecida pelo japonês.

—Mère! – O pequeno gritou, subindo os degraus de dois em dois e deixando o primeiro andar, mais usado como depósito, para trás.

Não demorou muito para que, mesmo não tendo terminado o lance da escada, avistasse o cabelo ruivo da mulher, preso em cachos muito bem feitos no alto da cabeça. Um rabo de cavalo que deixava a franja dela para frente.

Margot estava sentada ereta em uma grande mesa, encostada à parede, e parecia desenhar alguma coisa num papel imenso. No quadro pregado com fios de náilon no teto era possível ver o talento para desenhos da moça. Os vestidos que ela mesma projetava.

—Mère! – O pequenino Yuu chamou novamente, sorrindo pequeno quando a mãe lhe notou. Ela sentou-se de lado na cadeira e abaixou o tronco, abrindo os braços para acolher seu amado filho.

Os olhos prateados da mulher o recebiam com carinho, acariciando os fios longos e negros do menor. Margot tinha cheiro de tecidos novos e tutti frutti, muito proveniente do batom.

—Yuu querido! O que faz aqui? Onde está seu pai? – Ela afastou-se do menino, em seus quatro anos, e fê-lo sentar em seu colo, balançando a perna sutilmente, como se nanasse seu bebê.

—Papa foi compar bonequinhos de samulai. – Ele explicou, pegando nas bochechas rosadas e grandes da mãe e as apertando. A mulher riu um pouco.

—Seu pai já foi fazer seus gostos novamente? – Beijou a testa da criança, segurando-a com um braço e virando-se novamente para a mesa.

Kanda fez um ligeiro bico e cruzou os bracinhos. De raiva, pegou um lápis qualquer em cima da mesa e o jogou no chão.

—Yuu! – A mãe o encarou perplexa, segurando-se para não rir da carinha que ele fazia e lhe dar uma bronca séria. Aquele menino estava ficando muito mal educado! – Non jogue as coisas no chão! Ora! Você deve se comportar! – Ela disse, tentando encarar o rostinho emburrado do filho, mas ele nunca gostara de ser julgado ou contradito.

Non. – Retrucou. Afinal, pedia aqueles bonequinhos há dias e os achava muito legais por virem acompanhados de espadas.

Margot o encarou por um tempo, perdendo-se em reparar o quanto aquela criança não parecia consigo. Tinha puxado inteiramente ao pai! Justo ela! Que sempre quis um filho parecido consigo para herdar a beleza.

Suspirou cansada.

Tinha passado a manhã pondo no papel algumas ideias de costura, e suas mãos já começavam a tremer novamente. Tinha mesmo que descansar e seu estômago não aguentaria mais uma pirraça de Yuu.

— Pegue o lápis para a mamãe e peça desculpas. – Ela disse, desviando o olhar dos desenhos e encarando o cabelo do filho. O rabo de cavalo estava torto, e como uma perfeccionista não deixaria daquele jeito. Muito menos com aquelas ondinhas próximas a nuca.

Non! — O pequeno se emburrou ainda mais, virando a cabecinha para o lado e encarando a grande vidraça do ateliê. Sentiu as mãos dela tocarem seu cabelo e desamarrá-lo.

—Você não vai ganhar biscoitos se continuar com essa carranca, ma vie. – Ela sorriu pequeno, abraçando o filho por trás e usando uma mão para massagear as sobrancelhas franzidas dele, enquanto a outra segurava o rabo de cavalo. Kanda ficou em silêncio. – Biscoitos de baunilha. – Continuava calado, mas a mulher percebia a coloração avermelhada que tomava conta das orelhinhas dele. – Eu quem fiz.

Não foi preciso mais de alguns segundos.

Pardon. – Ele resmungou baixinho, apertando mais ainda os bracinhos contra o peito. Margot riu contida e educadamente. Colocou as mãos ao redor do corpo do filho, a fim de colocá-lo no chão, mas não precisou fazer esforço, uma vez que a própria criança pulou de seu colo quando ouviu o sino da porta do ateliê tocar.

—Trouxe macarons! – O homem anunciou do primeiro andar e Yuu correu para o topo da escada, indo avistar o pai.

Margot sorriu para si, mas não era um sorriso típico dela. Havia alguma coisa em seu olhar. Algo de errado que uma criança não notaria.

Levantou-se com cuidado da cadeira e olhou para além da escada. Pelo segundo andar ser menor, em comprimento, que o térreo, ela podia vê-lo claramente, suas roupas já costuradas e a mesinha de ferro branco de quatro cadeiras onde seu marido e filho sentavam para comer. Mais adiante, depois da vidraça da loja, vinha a rua de pedras sobrepostas, e do outro lado da calçada uma padaria, uma livraria e uma casinha, que mais parecia um pequeno prédio rodeado de flores nas janelas.

Porém não importava o quão bonito era aquele bairro e quão cheirosos estava os petiscos que seu marido servia. Ali em sua mão estava o causador de sua tristeza – até então bem escondida.

Sem ter muito o que fazer, e não mais querendo prender-se àquele fracasso de bordas tremidas e assimétricas, amassou o desenho e jogou-o no lixo para fazer companhia a outros diversos.

—Querida! – Ouviu o japonês lhe chamar e desceu as escadas, esboçando um sorriso pequeno. Vestia uma saia de cós alto que ia até o joelho e de cor bege. A blusa social branca dobrada até os cotovelos.

Sua família sempre estagnava quando via-a descer os degraus graciosamente, com um pé na frente do outro, as mãos escorregando pelo corrimão de madeira.

Era uma linda mulher, Margot Charpenet. Participava dos mais altos bailes de gala da sociedade francesa, dona de um elegante ateliê e casada com o dono da Lune, famosa multinacional da indústria de cosméticos. Mulher decidida e vista com grande admiração por todos, inclusive pelo pequeno Kanda Yuu.

—Querida, pegue o chá, s´il vous plaît. – Pediu, enquanto colocava alguns pequenos doces coloridos num pires para o filho.

Bien Sûr. — Concordou, andando até a pequena mesinha que mantinha no alojamento e que sempre abrigava, em uma jarra de porcelana adornada de graciosas flores pintadas, chá. Seus saltos batendo calmamente no chão de mogno do lugar.

Pegou as xícaras e as colocou emborcadas na pequena bandeja, junto da jarra. Ouvia a voz do pequeno ao longe.

—Papa! Non gosto de doce! – Ele retrucava, com a voz infantil. Margot olhou por sobre os ombros apenas para ver o marido indignado com as mãos na cintura.

—Mas você quem pediu, mocinho! – Ele retrucava, batendo de frente com a brabeza da criança.

—Eu pedi para a mère! A mère gosta! – Yuu fazia bico e cruzava os braços. O mais velho suspirou e Margot riu soprado, voltando sua atenção para o pote que abrigava os biscoitos de baunilha que havia feito na noite anterior.

—Eu tenho biscoitos, ma vie! – Ela anunciou, a voz soando alta e animada, e segurou a bandeja pelos dois lados, girando nos calcanhares e andando até a mesa.

—Biscoitos! – O pequeno balançou as mãozinhas no ar e o pai puxou duas cadeiras – uma para ele e uma para a esposa – e pôs-se a sentar. Não concluiu a ação, no entanto. O clima agradável do ambiente foi cortado por um susto feminino e o barulho de vidro quebrando no chão.

—Mère? – Kanda foi o primeiro a se pronunciar, olhando para a mãe e não notando o contato visual duradouro que ela e o pai trocavam. Ao ver que ela não se mexia, olhou para o pote de vidro quebrado no chão e os biscoitos espalhados pelo piso.

Fez menção de levantar-se e ajudar a mãe, mas teve seu peito contido pela mão do pai.

—Yuu... Você pode machucar seu pé. – Os olhos negros procuraram o rosto do pai, mas o homem não olhava para ele. – Deixe que eu limpo.

Então ele levantou e Kanda o seguiu com os olhos. Foi até Margot e segurou as mãos trêmulas dela, sussurrando alguma coisa que o pequeno foi incapaz de ouvir. Naquele momento, como uma simples criança, ele jamais desconfiara de que havia alguma coisa errado com aquela maravilhosa mulher. Que o sorriso dela já não estava tão brilhoso e os olhos, aos poucos, perdiam a sinceridade.

Entretanto, como já dito, uma criança em seus quatro para cinco anos não poderia decifrar o olhar particular daqueles adultos e só o que ele fez foi catar alguns biscoitos que caíram perto de sua cadeira e levá-los à boca.

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Com o tempo, incidentes como aquele começaram a ser parte da rotina, tanto que o pai passara a ir ao ateliê apenas para ajudar a mãe a fechar a loja. Ela parecia ter medo de alguma coisa, Yuu supunha, e não conseguia fechar a porta, pois não parava de tremer.

Dali em diante, tendo dificuldades com portas e copos, Kanda concluiu que sua mamãe estava ficando velhinha e que tinha que ajudá-la, como um bom menino deve fazer.

Passou a ajudá-la com a maquiagem, com o chá e com biscoitos – ela insistia em fazê-los mesmo que possuíssem cozinheira. Porém não abria mão de deixá-la fazer seu rabo de cavalo, ficando orgulhoso de saber que o medo da mãe parava quando tocava seu cabelo.

Não evitou ficar feliz, também, quando ela decidia ficar em casa e passava as manhãs com ele no jardim. Ria quando ela falava mal do jardim japonês que a casa possuía e argumentava como seria melhor se eles tivessem uma estufa.

E aquelas manhãs ficavam mais comuns a cada dia. Mesmo que as noites tenham mudado drasticamente.

A sutil mente de uma criança não sabia dizer se as vozes que ouvia discutindo a noite eram realidade ou parte de seus sonhos e, com medo, corria para o quarto dos pais. Sem bater na porta, surpreendia-se quando os achava acordados e eles lhe acolhiam entre seus cobertores, prometendo mantê-lo longe de fantasmas.

—Mère... A senhora também está com medo de fantasmas? – Questionava vez ou outra, quando notava as mãos da mãe tremendo. Sentia-se alegre por saber que não era o único a temer aqueles monstros.

Oui, ma vie, oui. – Ela concordava, enquanto se aconchegava mais ao pequeno corpo, deitando com ele de conchinha e dando-lhe um beijo de boa noite no canto dos lábios.

Só assim Kanda conseguia dormir.

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— Você não vai conseguir nada com essa bebida, Margot! – Yuji bradou. Havia acabado de chegar de uma viagem de trabalho e qual seria sua surpresa ao encontrar a mulher bêbada em frente à lareira da sala de leitura?

Ela também não tinha um livro, trocara-o por uma bebida como acompanhante.

Margot desviou as orbes do fogo e fixou o olhar vazio no japonês. Ele era bonito, descendente de japonês e francês. Era culto e inteligente. Gentil. Por isso tinha casado com ele. Mas aquele momento só pôde sentir desprezo ao olhá-lo e, pior, não sabia dizer o motivo.

Ficaram em silêncio. Yuji tentando entender o que houve com a francesa. Desviou o olhar para a mesinha de centro ali e notou a caixa de remédio largada sobre o vidro. Alguns comprimidos destacados com fúria jaziam sobre o vidro.

Ele encarou os comprimidos e levou o olhar até o copo de uísque na mão da mulher.

—Margot! – Correu até ela, tomando o copo da bebida facilmente das mãos delicadas. – Quantos comprimidos você tomou? – Perguntou, tentando manter a calma. Notou que ela não tremia mais e se perguntou se aquilo era um bom sinal.

Estava dividido entre gritar com a mulher e correr para chamar o motorista, a fim de levá-la ao hospital.

—Quantos, Margot? – Repetiu, segurando os pulsos finos da mulher. A francesa era vaidosa, portanto notar as unhas ruídas era, sim, algo ruim.

Ela lhe deu um sorriso dissimulado,os cabelos ruivos presos num coque mal feito.

Yuji rangeu os dentes. Iria erguer a voz quando um pensamento horrível passou em sua mente devido aos prateados opacos.

—Onde... – Travou. – Onde está o Yuu? – Perguntou pausadamente, vasculhando a sala escura com os olhos.

A ruiva tombou a cabeça para o lado, esboçando uma expressão pensativa. Não parecia preocupada.

Depois de um tempo – tempo este que corroia o homem por dentro – levou um indicador aos lábios, pedindo por silêncio.

—Ma vie está dormindo. – Sussurrou. – Se você fazer barulho, eles irão pegá-lo. – Advertiu.

A próxima ação do japonês foi correr desesperadamente pelo corredor, e alcançar a sala de entrada, correndo escada a cima para chegar ao quarto do filho. Quase arrombou a porta quando puxou a maçaneta, e se desesperou ainda mais quando viu que a mesma estava trancada.

—Yuu!! – Socou a porta do quarto, encostando o ouvido na madeira e tentando ouvir algo. Seu coração batia dolorosamente e ele sentia medo. Muito medo.

—Non! – Ouviu um grito feminino do primeiro andar e passos surdos subindo pela escada.

—Yuu!!! – Forçou a porta com o ombro, as sobrancelhas retorcidas e o rosto suando.

—Pare!! – Margot agarrou o braço direito do marido e tentou puxá-lo. O rosto em uma mistura de fúria, medo e insanidade. – Eles vão pegá-lo! – Gritava, tentando afastar o homem da porta do quarto do filho. Ela tinha medo! E se eles fizessem algo ao seu amado filho?

—Eles quem, Margot?? – Yuji gritou, segurando os braços da mulher e chacoalhando-a. Àquela altura os empregados já subiam a escada, acabando com o silêncio da madrugada.

Sir! – O motorista aparou a ruiva pelos ombros, preocupado com o estado do patrão. A cozinheira e a arrumadeira se encaravam assustadas, ambas de pijamas. A mansão encontrava-se parcialmente apagada, assim como a mente daquela mulher, de Margot Charpenet.

—Me ajude a arrombar essa porta! – Yuji gritou e o motorista demorou alguns segundos para raciocinar. Entregou a francesa para as duas mulheres, que tentaram acalmá-la e conter seus gritos, e pôs-se ao lado do japonês. – No três... um... dois... três! – Ambos foram de encontro à porta, que caiu ao sentir o impacto dos ombros dos homens.

Rapidamente, Yuji acendeu a luz, esperando encontrar seu filho em algum lugar, mas não o achou. Correu o interior do cômodo atormentado, jogando-se no chão e olhando embaixo da cama perfeitamente feita e varrendo todo o ambiente com os olhos.

—Yuu!! – Gritou , andando a passos largos até a sacada e olhando lá de cima. Temia o pior e os gritos de Margot não ajudavam muita coisa.

Xingou em alto e bom tom, deixando um motorista aflito para trás e indo de encontro a mulher no corredor.

—Margot! – Ele a balançou pelos ombros. Queria entender o que acontecia ali, queria abraçar sua mulher, a queria de volta. Mas aquela ruiva mal cuidada e surtada não era sua amada esposa. Tinha medo do que ela era capaz de fazer naquele estado psicótico.

Ou pior, do que ela havia feito.

—Margot! – Berrou, conseguindo calá-la a base dos gritos e encarando com raiva os olhos prateados lacrimejantes. Ela pedia ajuda dentro daquele corpo que não a obedecia. – Onde está o Yuu? – Perguntou, novamente, apertando os ombros dela e vendo-a abaixar a cabeça e chorar.

—E-eu... – Balbuciava, porém Yuji tinha consciência de que não podia ajudá-la naquele momento. Sentia dor em seu coração, mas tinha que achar seu filho.

—Yuu. Onde ele está, Margot? – Aumentou novamente o tom de voz, segurando a mulher, que se curvava em cólera.

—C-clos... – Não esperou que ela terminasse de falar e correu novamente para dentro do quarto, sentindo-se idiota por não ter pensado naquele lugar desde o princípio.

—Chame a ambulância. – Ordenou, extremamente sério, para o motorista e jogou o próprio corpo contra a porta branca do closet.

Bem ali, no meio de vários vestidos de festa volumosos, estava o pequeno Kanda Yuu, aconchegado por entre os tecidos e ressonando tranquilamente.

Yuji pegou o filho com força, levando-o para seu colo e sentindo um arrepio na espinha ao notar o corpinho dele frio. Correu até o quarto, pondo a criança na cama e levando o ouvido até o seu peito.

O coração de Yuu batia calmamente e apenas um pai podia sentir o alívio que o japonês sentiu ao ver que o filho estava bem, talvez com um pouco de frio, mas bem.

Pôs o pequeno no colo, pegou um casaco para a criança e saiu de casa. Desde aquela noite, Margot não voltou mais para casa.

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—É mais grave do que pensei, senhor. – O médico falava enquanto folheava uma prancheta. Yuji respirava pesado, ambos parados do lado de fora do quarto de hospital. Após um tempo, o homem varreu os olhos pelos documentos e deixou a prancheta de baixo do braço, olhando com pesar para o japonês. – O consumo exacerbado de álcool combinado com os remédios para o Parkinson pioraram a situação da Margot.

—O que podemos fazer para reverter a situação? – O homem falou, rapidamente e prendendo a respiração ao notar o pequeno Yuu sentado num banco do hospital a brincar com seus samurais.

—Senhor... – O médico entortou os lábios e vagou o olhar rapidamente. Queria conseguir manter a postura profissional, mas conhecia Yuji desde sempre, não podendo então manter-se completamente imparcial com a situação da moça.

A verdade tinha de ser dita e não sabia se o homem a sua frente acreditava ou não em Deus.

—Estava fazendo o possível, mas o corpo dela...hãn... – Mordeu o lábio ao ver que sairia algo rude e tratou logo de mudar a sentença. – Os remédios não estão fazendo efeito. Estamos cogitando a possibilidade de o álcool ter influenciado na recuperação. – Terminou, os olhos azul e cansados agora encarando através da janela do quarto de Margot. Naquele momento, ela estava sedada. Tinha sido difícil acalmá-la depois do ataque de fúria. A francesa também recebia soros, afinal tinham que tirar toda a bebida do corpo da mulher para que pudessem monitorar seu cérebro adequadamente.

—Quando ela poderá voltar para casa? – Perguntou, os olhos fixos ao corpo inerte no leito. Carregava no semblante uma expressão confusa, as sobrancelhas juntas. A questão ali era que Margot tinha que sair daquele hospital.

O médico suspirou, deixando a prancheta de lado. Seus olhos eram adornados por bolsões roxos, sinais da noite mal dormida, quando teve que correr para o hospital para cuidar da francesa.

—Yuji, você sabe que não posso dar nenhuma informação sem ter certeza, ainda mais porque...

Os olhos escuros do japonês enquadraram o rosto do homem, e ele sabia que ali estava uma feição cansada demais para manter a postura suave, ainda mais quando sabia que moreno não estava com humor para futilidades.

Yuji Kanda era um homem gentil, claro, mas há situações onde essas qualidades não estão disponíveis, e ter sua mulher à beira da morte era, por coincidência, uma delas. Ali, nos olhos negros, estava uma raiva contida, uma decepção profunda com o mundo, com Deus.

—Por que o que? Porque ela está morrendo? – Sorriu, um sorriso que fez o médico sentir necessidade de erguer a cabeça e o olhar com indiferença. Ou tentar. Ali também estava seu amigo, mas ele tinha que manter a compostura, ele tinha que...

—Sim. – Respondeu, e só iria se arrepender mais tarde. – Porque Margot está morrendo. Seus órgãos estão em falência. O cérebro se recusa a agir como membro de um organismo e está sendo tão egoísta quando você! El-

Um soco. Certeiro. Um soco que pegou na extremidade inferior esquerda do rosto bonito do médico e que chamou a atenção das enfermeiras e do pequeno Yuu, até então alheio ao que acontecia ali.

—Não ouse, seu desgraçado! – O japonês agarrou a gola do jaleco, trazendo o rosto do outro para próximo do seu. – Você vai entrar lá e vai trazê-la de volta, entendeu?

Encarava furioso o rosto do amigo, sem noção de que um pequeno corpo presenciava o pai perder o controle como nunca havia feito.

—Papa? – O menininho chamou, a cabeça um pouco tombada e os soldadinhos sendo segurados por ambas mãos.

Yuji demorou um certo tempo para processar a voz da criança, e após olhar para os lados e notar a surpresa e os cochichos das enfermeiras, largou o jaleco do outro, que apenas o desamassou, mantendo a postura séria e descontente.

—Papa? – O japonês respirou fundo, quando ainda estava encarando o outro, e depois desceu o olhar, sorrindo levemente para o filho. Kanda correspondeu, também um pequeno sorriso que talvez fosse a marca deles.

—Está com fome? – Ele perguntou, pegando o pequeno no colo e roçando o nariz na bochechinha da criança. Tinha que sentir um cheiro além de desinfetante e formol, odores típico de um hospital.

—Non... – Kanda se remexeu, tentando tirar a cabeça do pai do caminho e observar a mãe dormindo.

—Ora, mas eu ouvi dizer que tem uns croissants ótimos na lanchonete! – A simples menção do nome do salgado fez os olhos negros brilharem e voltarem-se ao pai.

—Croissants?

—Sim, de vários sabores! Você pode escolher dois! — Forçou um sorriso, a garganta trancada.

—Dois? – Levantou três dedinhos da mão direita, acabando por deixar cair um samurai.

Yuji soltou uma risada fraca e esganiçada.

—Dois, Yuu. Dois. – Fez com os dedos e viu o garotinho imitá-lo, curioso. Pôs-se a andar, queria sair o mais rápido possível daquele corredor.

—O...Papa! Meu samurai! – Kanda exclamou, olhando por cima do ombro. Viu o homem de branco agachar-se e pegar o boneco. Yuji fez menção de se virar, mas travou ao ouvir a voz do outro.

—Eu guardo para você. Depois venha pegá-lo, certo? – Apenas o pequenino Kanda viu o homem lhe sorrir, o pai mantinha o pescoço rígido e o olhar fixo no horizonte.

Assentiu com a cabeça e o japonês voltou a andar. Queria ir a qualquer lugar, qualquer lugar que lhe tirasse da mente a imagem de Margot intubada. O problema é que aquela cena parecia estar pregada em suas pálpebras, pois toda vez que fechada os olhos a via.

Aquela angústia durou algumas semanas, e até mesmo uma criança como Yuu conseguia entender que havia algo errado com sua mamãe. O menino passava seus dias na biblioteca, passando os olhos pelos livros que sua mãe costumava ler para si, mesmo que não soubesse ler e acabasse mantendo o livro de cabeça para baixo. No fim, inventava estórias de cavaleiros salvando princesas de aranhas gigantes e fingia ter lido ali. Também queria que seu pai ouvisse suas historinhas, mas ele passava muito tempo trabalhando no quarto, então era melhor deixá-lo lá.

Vez ou outra, uma empregada entrava na biblioteca e lia para si. Quando não, ficava ali brincando com seus samurais e se perguntando quando iriam buscar sua mamãe e seu bonequinho.

—Acho que mamãe ficou doente, porque eu joguei o lápis dela no chão. – Falou, segurando outro pequeno samurai em seus dedinhos, e deitando no chão próximo a lareira. – Você acha, senhor Gooble? – Encarou a feição neutra do boneco e assentiu com a cabeça. O ambiente tinha alguns abajus espalhados, iluminando-o. As prateleiras bem organizadas e limpas faziam corredores escuros muito assustadores para uma criança em seus já cinco anos.

O samurai não respondeu.

—Eu sei, senhor Gooble. – Continuou. – Papai acha que sou criança, mas não sou... Eu sei. – Largou o boneco ao seu lado, encolhendo-se em posição fetal e sentindo o tapete felpudo abraçar seu corpo. – Eu sei que é minha culpa. Se eu não tivesse quebrado o lápis... A mamãe não teria ficado doente...

Os olhos negros da criança fitavam o fogo consumindo a lenha. Aquela época do ano, após o inverno, sempre mantinha uns resquícios de frio e ficar ao lado da lareira, naquele calorzinho, lembrava-lhe sua mãe. De quando ela sentava na poltrona de couro branco, pegava um livro e lia para si.

Kanda gostava de ouvir o tom da voz dela, mesmo que não prestasse atenção na estória. Gostava de como o rosto dela se concentrava, neutralizava e às vezes repetia as feições que o livro narrava.

E quase sempre, dormia ali, no colo da mãe, amanhecendo misteriosamente em seu quarto.

Naquela noite de um mês de dezembro, aquela criança sozinha de olhos profundamente negros azulados e cabelos soltos e bagunçados adormecia no tapete da biblioteca, em companhia de seu bonequinho samurai, tendo a mais absoluta e triste certeza que amanheceria naquele mesmo lugar.

“Ainda não fazem pessoas de algodão. Ainda não fazem pessoas que enxuguem suas próprias mágoas.”

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Se passaram uma eternidade na cabeça daquela criança. Dias e noites com duração de 237 horas. Vez ou outra, corria pelo jardim, cheirava as flores do pequeno canteiro e ouvia a água batendo no jardim japonês. Eram bons dias, aqueles. Em que tudo parecia lembrar-lhe a mãe... Dias em que seu pai descia do quarto e se juntava aos almoços, e Amelié, Alma e Lavi vinham brincar consigo.

Passavam a tarde comendo biscoitos de manteiga, bebendo suco de laranja – Kanda se lembrava que aquele suco lhe faria ficar fortinho – e ouvindo Lavi inventar estórias malucas sobre robôs. Alma ficavam rolando pelo chão enquanto Amelié fingia ser a princesa. Ela ficava bem irritada quando os garotos a ignoravam e acabava por jogar almofadas em todo mundo, satisfeita quando ouvia as risadas dos menores, afinal, Amelié era dois anos mais velha que Alma e um ano além de Kanda e Lavi.

O fato de, quando grandes, estarem na mesma sala, era justificado pelo Sistema Honey não ter critérios de idade, portanto as crianças poderiam entrar na escola quando seus pais bem entendessem, e muitas vezes eles programavam a entrada com vista em alguns acordos comerciais. Mas claro que aqueles meninos não eram fruto de acordos. Apenas ocorreu de o destino juntar-lhes e os obrigar a ver como ele pode ser cruel, como pode desmantelar vidas, mentes e memórias.

A vida deixou passar algumas semanas, deixou Kanda sorrir mais um pouco, brincar com sua Honey e seus amigos. Para então levá-lo até aquele hospital e mostrar-lhe que não importava o quão forte fosse o amor e a dedicação, o quão importante fosse a pessoa, ela sempre iria embora, sempre se esqueceria, e todos os momentos passados apenas significariam algo quando visto em fotos.

Kanda lembrava-se. Seu pai lhe levara para que pudessem ver a mamãe, afinal já havia uns bons meses que ela não voltava para casa, e o menininho foi feliz, acreditando que ela voltaria consigo.

Bem, não foi o que aconteceu. Sua mãe não estava no hospital quando chegara lá... Quer dizer, sua mãe não estava, mas seu corpo permanecia amarrado na cama, os olhos prateados ofuscados, os cabelos – sempre muito arrumados – amassados e enfiados em uma touca.

Do corredor podia ouvi-la.

Ah, se tu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém.”

— Vocês vão me levar? Vão? Me levem, seus cães estúpidos! Eu sabia, sabia!! – Ela se debatia, uma equipe de médicos ao seu redor. O moreninho pode perceber o esforço que ela fazia ao notar, mesmo através do vidro, o rosto suado.

—Papa... O que eles querem fazer com a mamãe? – Puxou a calça do pai. Mas ele não respondeu. – Papa...? – Yuji estava paralisado. Não piscava, sentia-se desabar por dentro. Afinal, o médico não havia dito que ela estava melhor? Christian mentira? E pior! Yuu estava consigo! Não podia deixar que ele...

—Papa! – Ouviu a voz da criança soar, e finalmente olhou para baixo. Os olhos negros parecidos com os seus lhe questionavam com a pureza característica de uma jovem vida. E sentiu-se tão horrível! Tão... Abominável! Como pudera fazer isso com o seu filho? Até ele próprio ficava assustado e sem reação diante dos gritos roucos e inusuais de sua esposa e... Yuu...

Não percebeu quando chorava. Soluçava como uma criança, escorregando por sobre os próprios calcanhares e ficando da mesmo altura – ou até mais baixo – que o filho, que mantinha-se em pé a sua frente.

Era um inútil! Um pai inútil! Não conseguia sequer manter a postura na frente do pequeno e como... Como poderia cuidar dele sozinho? Por que tudo aquilo estava acontecendo? Por que Margot estava tão magra, tão... tão vazia? Aquele olhos não eram os olhos pelos quais se apaixonara! Aquela não era sua mulher, não era a mãe de seu filho e... e...

—Yuji! Yuji! – Christian, com seus belos fios cinzas e olheiras melhor esculpidas, aparecia no corredor, agachando ao seu lado. Os gritos da ruiva tornaram-se mais altos e Yuji pensou que talvez ele havia deixado a porta aberta.

Os olhos do japonês transbordavam um mar. Seu peito ritmava sem controle, expurgando toda a dor de perder a pessoa amada, e, por mais que se culpasse, diante do abraço do amigo, esqueceu-se totalmente da presença do filho.

E que erro...

—Me desculpe! – Christian pedia. – Ela estava bem e quando fomos medicá-la... Eu... Me desculpe... – Continuava consolando o amigo. Tudo bem que não era o trabalho de um médico, ainda mais considerando que os últimos meses repletos de brigas entre os dois não justificavam aquela afeição toda. Porém Yuji era seu amigo de infância. Ambos estudaram no Sistema Honey e cresceram juntos entre murros e risadas.

E ter seu amigo e a ex-Honey dele naquele hospital acabava tirando-lhe o sono mesmo. Ainda mais com o pequeno Yuu observando tudo, num estado catatônico.

Sem saber o que fazer e incapacitado de livrar-se das mãos de Yuji, que agarravam seu jaleco com força, enfiou a mão no bolso, tentando tirar algum dinheiro e fazer a criança ir até a lanchonete, ou fazer qualquer merda que o tirasse daquele corredor e o impedisse de ver a própria mãe cedendo à loucura.

—Merde! – Praguejou baixinho, conseguia sentir as lágrimas do japonês molhando-o, e já estava de joelhos no chão do hospital que herdaria. Quem visse o futuro diretor daquela forma... Não. Não importava. Era seu amigo. Havia visto Yuu nascer. Havia ajudado Yuji a lidar com a Honey dele, Margot. Conhecia muito bem para os abandonar.

Em pânico, seus dedos sentiram uma pequena forma, aparentemente de plástico e a tirou do bolso, surpreendendo-se ao perceber o bonequinho do pequeno moreno. Bonequinho este que passou dias carregando para lá e para cá, como um amuleto da sorte, mesmo que soubesse que Yuji não traria o garoto até que sua mãe estivesse boa.

Ah, se sentiu pior ainda.

—Yuu... Yuu! Aqui! – Chamava pelo nome do garoto, enquanto enfiava a cabeça do pai dele no próprio ombro, a fim de impedir que a criança visse o próprio velho naquele estado.

Porém, que criança responderia quando, à sua frente, sua mãe lutava contra os médicos? Logo ela que dizia que lhe daria um salgado caso não chorasse ao levar uma injeção? Lógico que nunca chorou. Era um homenzinho forte.

— Mère? – Perguntou, dando um passo hesitante para frente. O cabelo preso num coque tão mal feito que o médico teve certeza que Yuji o fizera.

—Yuu... – Christian tentou se mover, ao notar a intenção do garoto. – Yuu, não entre aqui, pequeno! – Tentou, dando tapinhas na costa do amigo, tentando chamar sua atenção pela cena horrível que a criança presenciava. – Aqui! Seu boneco! Eu não falei que ia te devolver? Venha! Aqui! – O homem realmente não sabia como lidar com crianças, por isso não escolhera a área. Porém, não devia ser tão mais difícil do que cuidar de seu cachorro, certo?

Riu nervoso, o pequeno não parecia querer olhar para si.

Margot fazia questão de dizer que os outros iam buscá-la, iam fazer de si um boneco de pano, tomada pelas tremedeiras que o Parkinson causava.

—Yuu! Aqui! Inferno! – Xingou em alto e bom tom. Onde estavam as malditas enfermeiras quando se precisava delas? Já estava a ponto de nocautear Yuji e impedir a criança de dar mais um passo e, assim , não adentrar o quarto de hospital.

O xingamento trouxe a atenção do pequeno moreno e ele observou o homem que segurava seu pai. O rosto aparentemente gélido, os olhos vidrados. Uma estátua de anjo. E Christian soube ali que cuidar de uma criança não era o mesmo que cuidar de um cachorro. Afinal, seu cachorro jamais – tinha certeza – lhe mostraria uma expressão tão aterradora como aquela.

Sentiu o chão desabar sobre seus pés, e inclusive Margot foi esquecida.

O que aqueles olhos negros transmitiam era a mais pura representação do quão sádica a vida pode ser. Christian pensava que podia ouvir algo dentro do pequeno se despedaçando, mas não queria acreditar na própria loucura. De louca, já bastava a ruiva ali.

Quando viu, já não podia fazer nada. Kanda entrava na sala, lentamente, um pezinho atrás do outro. Tinha que ver sua mamãe. Talvez ela apenas estivesse assustada com um pesadelo e um abraço a faria melhor, certo?

—O que esse garoto faz aqui? – Gritou uma enfermeira que segurava o braço da mulher. Tinha o rosto moreno em pânico, os dentes cerrados.

—O quê? – O outro enfermeiro praguejou, mas não podia fazer nada, estava ocupado demais tentando acertar aquela maldita veia e mandar aquela mulher dormir. – Droga! Não solte o braço, Marcely! Atenção! – Gritou. Não havia tempo para tirar aquele menino dali.

Yuu observava a movimentação dos dois enfermeiros, os dedos do pé de sua mamãe se torciam e havia um travesseiro largado no chão.

— Mère? – Sussurrou, muito, muito baixinho, enquanto erguia uma mãozinha hesitante e tocava o joelho da mãe.

Foi em um instante.

Os gritos cessaram, os médicos estagnaram e Margot levantou a cabeça, fixando os olhos prateados e úmidos no ser que quase não dava altura na cama.

— Mère? – Perguntou, novamente, a voz soando melhor devido ao silêncio. Margot fitava-o em confusão.

Algo dentro de si enchia-se de emoção ao ver aquela criança, mas... Mas... Quem era ela? Por que aqueles olhos pareciam tão familiares? Não conseguia! Não conseguia! Aquilo era horrível, sua mente parecia orbitar em torno do nada, sem memórias, sem nada!

—Y...Y... – A boca seca, os lábios rachados, tentavam abrir-se, pronunciar alguma coisa. Porém, ao ver que não conseguia, só despejava mais lágrimas, voltando a jogar a cabeça contra o colchão.

Era como se eu corpo fosse uma casca, Margot pensava. Podia enxergar tudo, mas não via nada. As pessoas, a cama, os aparelhos, o teto. Ela sabia que tudo aquilo pertenciam a algum lugar, mas qual lugar? Era desesperador! Tudo que seu corpo fazia era chorar! Não conseguia falar, por mais que sentisse que as palavras estavam na ponta da língua. E sabia, reconhecia aquela criança, sentia algo enorme por ela! Só não sabia o que era, ou quem era e... Ah! Queria morrer! Aquela tremedeira incessante, seu corpo transmitia arrepios dolorosos a cada segundo e... E... Sentiu uma picada forte em seu braço esquerdo. Desviou a cabeça no mesmo instante, um grito voltando a banhar o lugar. Sentia a falta de calor em seu joelho, e soube que a criaturinha havia se afastado, mas não importava! Sabia o que era aquilo que estavam lhe enfiando na veia!

—Non! Non!! – Debatia-se, o líquido gelado invadindo seu sangue, o bip maldito avisando seus batimentos cardíacos.

Movia a cabeça de um lado para outro, e acabou notando, pela visão periférica, duas outras pessoas entrando no quarto. Conhecia... Aquele homem com a criança...

Quem era? Quem... Sua mente parecia cada vez mais nublada e uma fúria crescente vinha a tona. O colchão se encontrava molhado devido à suas lágrimas e aquilo era tão frustrante! Por que não a matavam logo?!

—Yuu... Yuu! – O homem abraçava a criança por trás, mas o pequeno não exibia reação, mantendo suas orbes fixas às dela. – Filho! Vamos! – A ruiva estreitou os olhos para aquilo. Aquele era o pai? E...

"A vida só vai melhorar aí. Dentro da sua cabeça."

Sentia a própria consciência esvair-se e soube que estava na hora. Ah, que raiva!

—Você... – Ela conseguiu, saliva escorria do canto de sua boca, e aquele homem de cabelo cinza abria-lhe a roupa e colocava algo gelado em seu peito. – Garoto... – Tentou, e obteve a atenção não apenas da criança, mas de todos. Margot respirava pausadamente, com dificuldade, e sentia um sufoco no peito, sua garganta fechava e os olhos ardiam com as lágrimas. – Você... Você quer fazer lã com o meu sangue... Hm?... Por que?... P-por que... – Balançava de um lado para outro, a voz fraca, suplicante.

O quarto sendo preenchido por soluços de dor era mais angustiante do que por gritos de raiva.

—Yuu... Yuu, vamos! – Kanda deixou-se ser arrastado pelo pai, e ainda conseguia ouvir o quão abalada a voz dele estava, entretanto nada lhe tirava a atenção daquela última frase proferida por sua mãe, enquanto seus olhos fechavam-se, escuros. Opacos.

Como se faz lã com sangue? Como...

—Papa... – Perguntou, sentado no banco do passageiro do carro – coisa que sempre quis, mas no momento não dava atenção. Seus olhos estavam fixos no porta luvas.

—Sim... – A voz do homem se quebrava, ele mantinha a mão esquerda, que não se ocupava com o volante, cobrindo a boca, a fim de emitir sons de dor.

—Como se faz lã com sangue? – Olhos vidrados, também opacos, fitavam o pai.

Aquele não era mais Yuu.

—----2---2------

Por dias, não dormira a noite. Os gritos da mãe não deixavam. Acabava por fechar os olhos e dormir a manhã toda, não se importante em ir ou não para a escola.

Amelié, Lavi e Alma vinham lhe visitar à tarde, mas não passavam da porta do quarto. Eles batiam, batiam, mas Kanda não respondia. Passava horas, dias, observando através da janela de seu quarto, encolhido e coberto pelo edredom.

Não descia para comer, e sabia que seu pai também não. Ambos lidando com a morte de Margot a seu modo, mesmo que do mesmo jeito. Sozinhos. Era assim que os Kanda faziam.

Não que tivesse perdido toda a fé em qualquer pessoa que fosse. Às vezes Amelié vinha sozinha, sentava-se no sofá do quarto e tentava puxar assunto. Mas não era como se Yuu quisesse conversar. Queria apenas que ela ficasse ali, com seu cheiro, lhe dizendo silenciosamente que não estava sozinho.

“- Eu não te reconheço mais! Não aguento mais!”

Ela havia dito, sem ter noção do quanto doía ser “não reconhecido”. Saiu de seu quarto e não voltou mais. Depois de um tempo, Alma apareceu e disse que Amelié havia ido embora com seus pais para os Estados Unidos.

Podia sentir raiva? Raiva por todos terem seguido sua vida, enquanto ele mal conseguia encarar a luz do sol sem ter vontade de correr para o jardim e gritar por sua mãe? Aquela luz comprida de pôr do sol jamais iria iluminá-la, jamais iria deixá-la mais bonita, porque ela não estava mais ali.

Doía tanto. Margot apagou para sempre, sem um abraço, sem um “Je t´aime, ma vie”.

Sua mãe havia morrido. Parada cardíaca, ouviu seu pai dizer ao telefone, no dia 11/02/03. Foi cremada, um desejo seu, e o pai abraçava aquele pote como se a alma dela ainda estivesse ali.

Um dia, quando se entendiam pelo silêncio, Yuji disse que, como a ruiva queria, tinham que jogar suas cinzas no mar, mas que não o faria. Deixaria para Yuu fazer aquilo quando se sentisse preparado para dizer “Adeus”.

O pote ainda estava em algum lugar daquela casa, mas Kanda não tinha vontade de procurar.

Depois de um tempo, voltou para escola. Foi vítima de alguns olhares, mas nenhum consolo. Oh, aquilo lhe irritou tanto. Era capaz de odiar aquela sala.

Não era como se quisesse a pena deles, longe disse, não precisava. Mas aqueles olhos de “coitadinho” lhe queimavam o sangue. Colocavam mais raiva em seu coração de lã.

Depois vieram as primeiras Honeys, e o resto... era como uma bola de neve se acumulando, esperando cair em cima de alguém.

Kanda não soube se ficava feliz ou com raiva por aquela bola ter caído justamente em cima de Allen Walker, aquele que, após ter desistido do Drop, almoçando – muito a contra gosto – na sua sala de jantar. Para falar a verdade, aquela sala parecia ser a mais alegre pelo simples fato de ter alguém além do moreno para comer silenciosamente nela.

Não fazia ideia do que seria dali para frente. De como os dias seriam, em que ritmo andariam ou quanto tempo ele ficaria. Porém aquele ali, sentado, comendo devagar, trazia um ar diferente.

Não era o mesmo que desmaiou na quadra de basquete, não parecia com medo, com receio. Não era a pessoa que lhe jogou toda a culpa em suas costas quando deixou lágrimas escaparem daquelas orbes tão belas.

Quando o Honey entrou em seu quarto pela primeira vez, lembrou-se de todas as coisas que ocorreram ali. Todas as Honeys nuas, seus gemidos de dor e de prazer. Sujas, assim como ele. Chegou a pensar em ver até que ponto ele cedia antes de explodir. E então desistiu por simplesmente cogitar a ideia de machucá-lo.

Porém ali, na sua frente, parecia haver outro futuro, outro caminho a se seguir, pois toda vez que os olhos de cores tão opostas se cruzavam, mesmo que bem rápido, um magnetismo diferente se impunha. Uma disputa muda de poderes.

Allen batia de frente consigo, diferente de todas as Honey.

Ah, sim. Kanda não sabia o que se daria dali para frente, mas a porta de saída não estava mais aberta. Não ia se lamentar por seu passado, mas também não esqueceria.

Por não ter nada, só podia apostar suas últimas fichas, e, sinceramente, esperava que Allen Walker fosse bom no jogo.

“Nem vi você chegar... Foi como ser feliz de novo...”

Notas finais
Olá, meu amores! Agora podemos conversar, certo? Esse capítulo é uma versão do Kanda dos acontecimentos em sua cabeça durante o quase Drop do Allen, não sei se vocês perceberam, e, bem, a mãe do Yuu não definhou de uma hora para outra, óbvio, isso pode ser entendido com a "evolução" na fala do Yuu, e com as estações de tempo! Nesse capítulo também tem uma pequena amostra do que se passou pela cabeça do Kanda quando o Allen visitou seu quarto pela primeira vez (como uma leitora me pediu!) ~~ Ah, o pai do Kanda não é um amor? A mãe dele lindíssima era Honey!! Ao decorrer do capítulo, eu pûs algumas frases em itálico e entre aspas! Essas frases são trechos de música do Cícero, pertencentes ao albúm Sábado e Canções de apartamento! Escrevi o capítulo ouvindo para tentar passar a melancolia! Me avisem de consegui :3 O nome do bonequinho do Yuu não tem nada a ver com o Goebbles, da Alemanha Nazista. Só aconteceu de eu pensar na sonoridade do nome e gostar :D Eu ri do Kanda comendo os biscoitos do chão Ahahahah Imagina que fofura!! E para quem não lembra, a Lune é a companhia dos Kanda! Bem,é. Acho que já falei tudo! Sobre as expressões em francês: Mère = Mãe / Non = Não / Ma vie = Minha vida / Pardon = Perdão, desculpe / S´il vous plaît = Por favor / Bien Sûr: Tudo bem/ Oui = Sim / Merde = Merda / Je t´aime = Eu te amo. Obrigado por lerem, kissus e até o próximo! Vejo-os nos comentários