Honey
12 Como ser um Mestre
Notas iniciais
—Allen? – Mana perguntou da cozinha quando ouviu a porta de entrada bater. Já havia almoçado e lavava a louça do almoço, pronto para descansar o máximo possível naquele seu dia de folga – principalmente por ter trabalhado como um louco na última resolução de um caso sobre um professor que abusou sexualmente de uma aluna em seus treze anos.
Balançou a cabeça para ambos os lados. Não queria pensar no marginal.
—Allen, é você? – Repetiu curioso, fechando a torneira e limpando as mãos no avental. O restante da louça permaneceu ensaboada e totalmente abandonada pelo moreno, que já se dirigia à sala.
Deu de cara com seu filho encostado à porta, visando fixamente o chão.
—Tudo bem? – Passou a mão no cabelo, jogando algumas madeixas que escaparam do pequeno coque para trás, e tentando aproximar-se mais.
—Oi, pai. Vou tomar um banho, ok? – Allen ergueu a cabeça, não olhando para Mana. Só visualizava a escada que dava para seu quarto. Era lá onde queria estar. Precisava de um banho, urgentemente.
—Você está bem? – O pai voltou a repetir retoricamente, pois era claro que o albino estava imerso em pensamentos.
—Podemos conversar mais tarde? – Finalmente seus olhos se encontraram, Mana entortando a cabeça pela turbulência presente nos olhos do filho. Ele se aproximou e depositou um rápido beijo na bochecha do mais velho, e o moreno soube que aquela era uma tática que o garoto usara desde pequeno para dobrar o pai.
Respirou fundo, enquanto via-o subir depressa as escadas. Estaria Allen entrando na adolescência? Voltou às louças.
—---1-1-----
Tudo o que mais precisava era de um banho. Ah, sim. Um banho. Recordou-se de estar usando demais da água para esfriar a cabeça.
Bem, não era um problema. Ou pelo menos não iria encará-lo por hora. Já tinha um pacote e tanto de preocupações em suas mãos. Pacote este com nome e sobrenome.
Como de praxe, Allen jogou-se no chuveiro, aproveitando o clima mais ameno e optando por água gelada. Tinha esse problema com temperaturas. Muito quente lhe dava tonturas, muito fria, resfriados. Mas, novamente, não era algo para se preocupar, até porque não se lembrava de ter passado mal por causa de um banho e realmente achava que as gotas frias iriam deixá-lo mais calmo.
Agora, tendo desistido do Drop, ainda era um Honey e ainda possuía o brinco talhado com uma lótus.
Enrolou-se na toalha e saiu do banheiro com outra enrolada no cabelo. Perguntava-se se não havia sido muito “compadecido”, “bonzinho”. Tentara encarar Kanda como um simples negócio a se lidar, e, mesmo assim, ainda estava lhe dando um prejuízo danado. Afinal, controvérsias não faltaram desde o início da relação, e , mesmo assim, foi incapaz de deixá-lo ao relento.
Talvez fosse sua ótima educação, sempre bom frisar, que o ensinara a nunca deixar alguém machucado sem ajuda. Porém, era nesse ponto que Allen ficava encucado. Kanda, machucado? Geralmente, não seria ele a machucar? Pelo menos era o que ele lhe mostrou naqueles hediondos primeiros dias, onde estava completamente fora de si por não entender a situação comprometedora onde havia se metido.
Mas já tinha entendido, avaliado e iria encarar.
Completamente nu, caminhou até o armário, tirando de lá uma boxer de qualquer cor e a colocando. Vestiu um short e uma blusa pertencentes ao pijama, arrumando o cabelo com os dedos e fechando a porta do móvel. Acabou ficando de frente para o espelho colado na madeira, encarando o próprio reflexo.
Ali estavam algumas olheiras. Allen as contornou com a ponta dos dedos, deixando escapar um suspiro baixo. Tinha dito para Kanda que, dali para frente, eles deveriam agir como seres respeitáveis e tinha certeza que não ter olheiras fazia parte do pacote.
Ele concordou.
Na verdade, tinha que admitir que ver Kanda Yuu concordando com todas suas objeções, encarando-lhe na mesma altura e realmente prestando atenção em si era algo... Para se ter orgulho. Sim.
Não precisou olhar para saber que, em cima de sua cama, havia uma gravata que, no dia anterior, jogara no chão e a rebaixara. Iria usá-la no dia seguinte, fazer o mesmo trajeto e sentar na mesma mesa, porém algo naquele reflexo lhe dizia que nada seria igual.
Afastou-se do armário, sua cabeça doía um pouco por tanto pensar sobre o moreno. Tentava descobrir o que o fizera ceder tão fácil às suas reivindicações, por que ele carregava aquele brilho estranho no olhar e ainda assim possuir aquela parte obscura como Mestre.
Deu de ombros, certa carranca querendo se formar. Resolveu não mais queimar neurônios com aquilo. Havia cansado. O que se passara, passara. Passado. Agora só tinha que ensinar aquele garoto a ser um bom mestre, e Allen Walker era bom em dobrar pessoas às suas vontades.
Dirigiu-se para a porta, agora tinha que explicar à Mana que iria continuar na Ordem Negra e, caso ele lhe desse uma bronca, lhe culparia por criá-lo tão bem e faria puppie eyes. Tudo certo.
Sorriu de canto para o nada. Desde quando tinha aquele lado negro?
Fechava a porta, quando ouviu o toque rápido do telefone, avisando-lhe que recebera uma nova mensagem. Porém não mexeu um dedo, apenas encarou o aparelho de longe, fechando os olhos lentamente.
Olhou para o corredor e depois novamente ao quarto. Um ideia surgiu-lhe e, como sua cota de “pensamentos e resoluções” diária havia se esgotando, apenas caminhou até o celular, ignorando a mensagem recebida e correndo o dedo pela lista de contatos.
Acabou por passar pelo contato do Mestre, cujo havia conseguido após o “acerto de contas”. Mas não era a ele que procurava. Achou e discou, rápido assim. Chega de perder tempo.
—Você pode dormir aqui hoje? – Uns segundos. – Fuja de casa se preciso. Temos que conversar, Lena. – Desligou, sem necessidade de uma resposta.
Saiu do quarto, e enquanto descia as escadas, um pensamento clichê lhe veio à mente. O passado havia passado e apenas o futuro lhe restava, certo? Sorriu. Sim, o presente não iria planejar.
—Pai! – Gritou.
Só viver.
—---1-1-----
— Estamos atrasados, Allen-kun!! – Lenalee batia o pé, visivelmente nervosa com a lentidão matinal do amigo.
Não, melhor amigo.
—Vou te deixar para trás! – Ela ameaçou e ouviu a risada gostosa do albino vir da cozinha. Provavelmente ele estaria se afundando em torradas e mimos de Mana. Bufou e riu ao mesmo tempo.
—Você não ousaria! – Se fez de ofendido, um sorriso bobo nos lábios, enquanto trazia o tênis na mão.
Antes de Lena responder, Allen lhe deu um beijo na bochecha e sentou-se no sofá para calçar os sapatos.
A morena revirou os olhos, alegre com a situação. Finalmente, após passarem a noite sussurrando, eles finalmente se acertaram, como bons amigos fazem. Allen soube dos motivos da amiga, da solidão, da sensação de abandono que a fizera fazer um contrato com Lavi. Claro que apoiou a amiga em tudo, menos na parte em que ela seria Honey do ruivo.
Já a Lee soube que o japonês era o mesmo homem do banheiro, das ações dele e inclusive ameaçou socar o moreno por fazer “coisas tristes com seu amigo!”. Allen riu nessa parte.
Desavenças a parte, o albino e a amiga iriam para a escola, tentando se habituar à nova rotina. Dessa vez, juntos, usando o outro como âncora.
—Olha, não é por nada... Mas ele até que é bonito. – Ela disse, mexendo na bolsa para ver se não havia esquecido o jaleco para a aula de laboratório. Allen arqueou as sobrancelhas, pulando para a rua a fim de não tropeçar nas plantinhas da calçada. Só tinha espaço para um andar por ali, e cedeu lugar à morena.
—Muito vantajosa essa sua observação. Vai melhorar muito minha situação. – Ironizou. Para falar a verdade, não tinha prestado muita atenção na aparência de Kanda. Sempre fora a personalidade de merda dele que se sobressaia, e, apenas uma vez, ficara realmente intrigado com um meio sorriso – existente ou não – que ele dera na quadra da mansão.
-Não, é sério. – Lena olhou para o amigo, voltando a pôr a mochila nas costas. – O cabelo dele é humilhante! – Ela pegou no próprio, enrolando uma mecha, cabisbaixa por saber que o do Mestre de Allen aparentava ser mais hidratado.
—Você reparou no cabelo dele? – Allen riu soprado daquela bobagem.
—Quero que você pergunte qual o shampoo que ele usa. – Declarou, decidida a arrumar as próprias madeixas.
—Ah, claro! – Gargalhou. – Inclusive vou perguntar o perfume, a marca das roupas!
—Não, não! – Riu – O perfume eu já sei, é da coleção Lótus da Lune. – Explicou, arrumando a saia escolar, o albino surpreso. – O que? Aquele perfume é famoso! – Deu de ombros e Allen maneou a cabeça em negação, ficando uns segundos em silêncio.
—Pode ir abaixando essa saia. – Reclamou, cruzando os braços. Lenalee se avermelhou.
—O-o que? – Fez-se de inocente.
—Nada, Lenalee, nada. Só quer mostrar as pernas para aquele Lavi! – Acusou.
—E-eh? C-claro que não! Você está imaginando coisas. – Virou o rosto para o outro lado, afinal não queria que ele visse seu rosto no momento. Claro que não era aquilo que Allen havia dito! Não tinha motivos e... Lavi era seu amigo e vizinho! Não fazia nenhum sentido e Allen estava louco! Com certeza!
O albino suspirou, e pigarreou trazendo a atenção da garota para si.
—Olha, sabe que eu te apoiaria até caso você ficasse com Cross, né? – Falou e arrependeu-se na mesma hora. Seu rosto ficou vermelho.
—Allen-kun! – Lenalee repreendeu, também achando graça da reação do Walker.
—Não, Jesus! Esquece isso! – Balançou a mão na frente do rosto, como se quisesse tirar o calor dele, juntamente dos pensamentos impróprios. Lenalee e Cross?? Preferia morrer! E Lenalee e Lavi?! Preferia matar! – O que estou dizendo é que eu não confio no Lavi. Tipo, ele pode ser uma boa pessoa e tudo mais, divertido, mas não é uma pessoa que se pode amarrar no porto, sabe? – Falou, com uma seriedade extrema e boba.
—Amarrar...? O quê? – Lenalee caiu na risada, mesmo que ainda estivesse vermelha.
—Droga... O Komui nunca entrou nesse assunto com você, não? – Coçou a nuca. Era estranho falar daquilo para sua melhor amiga, ainda mais quando havia gostado dela por um bom tempo.
—Acho que nii-san nem sabe que já vou completar dezessete! – Brincou, mesmo que a situação fosse trágica.
—Você está confirmando que gosta dele?! – Allen exaltou-se, e a garota recuou.
—E-ei, Allen-kun, n-não, Ok? – Sentia-se extremamente envergonhada! Justamente ela, que nunca sentira nenhuma necessidade de se envolver com ninguém! N-não que sentisse, mas... Certo, Allen estava imaginado coisas.
Ouviu um suspiro audível, e quando olhou para o garoto, viu que a feição dele havia se neutralizado.
—O que eu quero dizer é que nunca é bom se envolver com esses “caras do mundo”, sabe? – Fez aspas com a mão, olhando fixamente para o horizonte. Lee pensou por um segundo.
—Você está falando do Tiky? – Ela perguntou, tombando um pouco a cabeça, e foi a vez do Walker tomar uma rápida cor no rosto, que logo se desfez e deu lugar a gesto de preocupação.
Alguns segundos em silêncio. Apenas para o albino engolir a bola que se fizera em sua garganta. Riu fraco.
—Eu nem sei mais o que tem entre mim e o Tiky. Só sei que... – Jogou as mãos para cima, o meio sorriso sumindo e dando lugar para as sobrancelhas franzidas. – Eu devo ser como um filho para ele, sabe? Não é muito legal. – Tentou sorrir, mas apenas os lábios se alargaram num gesto estranho, os olhos muito lubrificados.
Deu de ombros. Há anos vinha adiando encarar que Tiky não gostava de si da mesma forma que gostava dele. Queria muito que ele assumisse a responsabilidade por mudar deliberadamente a opção sexual de um pobre garoto, mas... É. No fim, o único bobo foi ele, em acreditar que um homem mais velho iria olhar para um garoto de quinze anos. Sim.
Lembrou-se da mensagem que ele havia lhe mandado noite passada, perguntando como havia sido o Drop. Não respondeu, claro. Uma parte de si se sentia mal por desapontá-lo e a outra se sentia pior ainda por saber que aquela animação dele era devido à possessão que Tiky gostava de exercer sobre todos que conhecia.
—Sinto muito, Allen... – Lenalee estendeu os braços para acolhê-lo, porém Allen recusou, passando a mão em ambos os olhos. Não queria chorar, e não iria. Aquela reação natural só estava ali, pois finalmente estava dando adeus àquela velha paixão.
—Não sinta, coisinha. – Ele recuperou-se, já abrindo um sorriso bonito. – Já superei isso. – Declarou, querendo sentir-se orgulhoso de si mesmo. Lena sorriu. – Agora... O Lavi! – Allen retornou ao assunto e a garota teve que rir.
—Você não desiste? – Deu um leve empurrão nele, Allen achando graça.
—Claro que não, sou Allen Walker! – Estufou o peito.
—Sim, sim! Meu amigo gay! – Ela disse, tirando sarro.
—O-o que? Quem disse q... Meu Deus do céu, Lenalee! Não pode contar mais nada para você! – Emburrou-se. Não que ela tivesse errada, mas também não estava certa! Allen nunca sentira atração por homens! Apenas... Apenas por Tiky. E aquilo em si não era sinal de homossexualidade. De jeito nenhum!
Opa, mas tinha os beijos do Kanda e...
Murchou completamente, a morena rindo do estado do amigo.
—Ora, Allen-kun! Não fique assim! Acontece com as melhores famílias! – Zombou.
—Muito engraçadinha você. – Fingiu descaradamente um sorriso, as bochechas um pouco coradas.
Um agradável silêncio se fez quando uma rajada de vento passou entre os dois. Já podiam avistar o colégio. Continuaram andando calados, ambos preparando-se para o dia e passaram pelo portão de entrada do Kugeka. Lenalee ainda avistou algumas amigas da Classe Normal, mas as mesmas não lhe deram atenção.
Estavam subindo as escadas, Lena um pouco trêmula, quando Allen decidiu falar.
—Só tenha cuidado. Não quero te ver magoada. – Tomou a mão dela, ciente do nervosismo da mesma. Era a segunda vez que entraria no Kugeka, e o albino sabia bem que a segunda vez era muito estressante devido aos olhares e comentários do restante da classe.
De qualquer forma, ele estava ali. Estavam juntos.
—-2-2--
— Por que essa cara, Alma? – Lavi se encontrava ajoelhado no próprio banco, virado para trás, o queixo apoiado nas mãos, cujos cotovelos estavam na mesa do moreno.
Pela terceira vez, o Karma bufou.
—Já falei que não é nada, agora cala a boca e vira para frente, Lavi! – Rosnou, encarando com raiva ambos olhos verdes. Não estava com humor, será que o idiota não entendia?
—É pelo Honey-chan, né? – Ele zombou, levando uma mão até as madeixas castanhas do amigo.
—Não enche, Lavi! – Alma estapeou-o antes que fosse tocado. Se era por Allen ou não, o problema era seu, certo?
—Ai, Alma. – O ruivo massageou o próprio pulso, virando para frente e se sentando adequadamente. Estava ansioso pela chegada de Lenalee – ela não iria fazer o Drop como o albino fizera – e uma ótima forma de dissipar o nervosismo era implicar com Alma. Ele, porém, parecia ter adquirido o mal humor do Yuu. – Está igual o Yuu hoje! Sem graça! – Retrucou, deitando sobre os braços.
Kanda não havia chegado, e nem esperava que chegaria. Ele costumava faltar quando perdia um Honey. Dessa forma, não tinha ninguém para se entreter até a morena chegar, e isso o fazia bater o pé no carpete, suspirando incontáveis vezes.
Alma, por sua vez, sabia o motivo do ruivo estar daquela forma. Claro, eram amigos há tempo suficiente. Porém havia outras preocupações a lhe rondarem a cabeça. Uma delas era o que falaria com Yuu sobre o ex-Honey. Quer dizer, antes disso tinha que ver se conseguia entrar no quarto dele.
Pensar sobre lhe dava um desânimo e uma dor de cabeça chata. O dia nublado estava ali para acompanhar sua inquietação.
Poxa, aquele Allen Walker... Algo dentro de si lhe dizia que jamais encontraria um Honey com aquele potencial e influência sobre Kanda e... Ele havia ido embora! Era tão frustrante! Durante toda a tarde passada pensou em discar ou escrever para o albino, entretanto sabia que de nada adiantaria! Allen era parecido demais com Kanda, cabeça dura. Não iria voltar atrás com sua decisão, e por isso Alma sabia que não haveria efetivo nenhum em ligar para o garoto.
—Vou ao banheiro. – Avisou, recebendo um resmungo de Lavi. Na verdade, provavelmente cabularia o primeiro horário. Simplesmente não dava para aturar o professor de relações sociais enquanto sua cabeça não conseguia pensar em como se relacionar com seu velho amigo.
Como tirá-lo daquele abismo onde ele se escondia. Pior era saber que Allen provavelmente conseguiria isso em poucos meses.
Suspirou, descendo as escadas e dirigindo-se à porta.
—Entre, eu preciso buscar o Kanda. – Estagnou ao ouvir aquela voz.
—M-mas Allen-kun...! – A menina fazia birra, não queria encarar a turma sozinha!
—É só por um segundo, Lena! Eu tenho que buscar o Kanda na quadra de basquete e... – Foi interrompido pela presença na porta da sala.
—Allen? – O moreno tinha os olhos ligeiramente arregalados, uma das mãos segurando o batente da porta, enquanto a outra se mantinha estática no ar.
—Ah, olá, Alma. – Deu um pequeno sorriso para o garoto, que lhe avaliara de cima a baixo, como se quisesse se convencer de que aquilo não era uma alma sem pés.
—Allen...? – O Karma franziu as sobrancelhas, afinal não fazia sentido! Ele parecia tão determinado ontem e... Sem perceber havia se aproximado, ambas as mãos segurando com força os ombros do Walker. Precisava saber se aquilo era real! Mordeu os lábios, o albino o encarando. – Obrigado... – Sussurrou, claramente aliviado, recebendo um sorriso tranquilo do menino e puxando-o para um abraço.
—Não precisa agradecer, Alma. Se não eu me arrependo. – O Honey riu, brincando com a emotividade do outro. Sentia a respiração rápida bater em sua nuca.
—Obrigado por não desistir dele... Muito obrigado... – Ele sussurrava, apertando mais o corpo do Honey. Sentia-se bobo, sensível e bastante feliz. Como num passe de mágica, realmente sentiu que o dia iria clarear.
Devia muito à Allen Walker.
—Você pode me soltar? Preciso buscar o Kanda... – Ele riu baixinho, dando alguns tapinhas nas costas do moreno. Alma se empertigou, fungando levemente e assentindo. – Pode acompanhar a senhorita para mim? – Perguntou, sorrindo amavelmente.
—Claro! Mademoiselle ...— Alma convidou, sorrindo grande como se não houvesse dor de cabeça, enquanto estendia a mão para Lena e curvava-se em cumprimento, brincalhão. A garota corou e Allen deu de ombros, risonho. Esperou os dois entrarem na sala, para virar-se e descer novamente as escadas.
Pensar que iria buscar Kanda lhe fazia imaginá-lo como um bebê e aquilo era engraçado ao ponto de fazê-lo manter um sorrisinho desafiador no rosto.
Andou o trajeto cantarolando uma música qualquer, apenas para espantar a ansiedade. Não sabia como interagir com o moreno.
Talvez perguntar sobre shampoo?
Sentiu-se um estúpido! Que besteira! E quando menos notou já estava próximo à quadra, e mais a frente havia uma mochila jogada no chão, perto da porta do banheiro masculino.
Olhou para o lado e viu que não havia ninguém – em especial um japonês – jogando basquete.
—Ele estaria no banheiro? – Perguntou baixinho a si próprio, em dúvida se entrava ou não no local.
Mordendo o próprio lábio, após esperar alguns minutos, o albino suspirou, tirando o celular da calça e vendo que em três minutos dariam inicio às aulas.
—Ãhn... Kanda? – Perguntou, enfiando a cabeça para dentro do banheiro, o que, em si, não adiantou nada, já que havia uma parede que separava a porta do restante, criando então um pequeno corredor. Sem resposta, tentou novamente. – Kanda?
Sabia que não era uma boa ideia entrar no banheiro, ainda mais sabendo que Kanda e banheiros não eram uma combinação muito boa. Porém, como passado era passado, e havia a possibilidade de ele ter caído e batido a cabeça em alguma quina, a ponto de estar sangrando até a morte, resolveu adentrar alguns passos.
—Kanda, você está aí? – Mesmo não sendo fã de filmes de terror, Allen sabia que aquela não era uma frase muito inteligente, e quando, cautelosamente, atravessou a barreira do banheiro e viu o que lhe esperava, soltou um grito inesperadamente alto, seu coração batendo tão acelerado que tivera que se apoiar na parede.
—Puta merda, Moyashi! – Kanda resmungou alto, a boca incapacitada de falar corretamente e os tímpanos doendo devido à crise do menor.
Allen estava sem fôlego, os olhos do tamanho de um prato, a mochila – antes apoiada em um ombro – caída no chão.
Acontece que, ali na sua frente, havia um espelho que tomava toda parede do banheiro e refletido nele havia um par de olhos absurdamente negros, parcialmente cobertos por fios escuros e longos jogados para frente.
—M-meu...! – Allen tinha os olhos arregalados, e respirava fundo, tentando se recuperar do susto. – Que droga você está fazendo, Kanda? – Gritou, as sobrancelhas franzidas, irritado pela recepção super calorosa.
Bem, não que quisesse que fosse, mas ser recebido pela Sadako Yamamura não estava em seus planos!
—Estou invocando Satã, não está vendo? – Ele ironizou, tirando os grampos da boca, e apoiando ambas as mãos na pia de mármore, o cabelo caindo em cascata. Estava puto, seus braços dormentes e ainda não conseguira amarrar aquela merda de cabelo!
—Ai meu Deus... – Ouviu o Honey suspirar e olhou para o reflexo dele no espelho. – Você quase me matou de susto! Branco, japonês, cabelo preto! Isso não é brincadeira que se faça, sabia? – Ele mantinha a mão direita sobre o coração e o encarava indignado.
Kanda revirou os olhos e estalou a língua, voltando o olhar para si mesmo e depois para os grampos em cima da bancada.
—Me recuso a permanecer nesse banheiro! Vai que aparece alguma coisa e... – Foi logo recolhendo sua bolsa. Não queria olhar para o espelho, só ir embora!
—Deixa de ser medroso, Moyashi! – Kanda jogou o cabelo para trás, deixando o rosto aparente. – Não vai me dizer que tem medo da Bloddy Mary, vai? – Encarou o garoto com ambas as sobrancelhas arqueadas e um meio sorriso, enquanto se encostava na pia, de frente para ele.
O estranho é que seu humor parecia considerar uma mudança.
—Não tenho, ok? Só não gosto de tomar sustos. Simplesmente. – Ele deu de ombros, fechando os olhos e ameaçando sair do banheiro. – Agora vamos, temos au...
—Bloddy Mary. – Allen tremeu da cabeça aos pés, agarrando instintivamente a alça da mochila. Kanda alargou o sorriso quando viu o menor se encolher.
—Kanda...
—Bloddy Mary. – Continuou, e Allen sentiu o clima pesado, seu estômago revirando. Kanda não podia estar brincando com isso!
—Kanda, pare com isso! Não seja idiota! – Gritou, irritado, virando-se de frente para o moreno e ainda se assustando com o imenso cabelo refletido no espelho. Viu o exato momento em que ele abriu a torneira, e a água passou a cair.
—Bloddy...
—Kanda, chega!
—Mary. – Ele sibilou, a voz ecoando pelo banheiro silencioso. Observou atentamente quando o Honey fechou os olhos com força e engoliu em seco.
Sorriu. Não poderia perder aquela oportunidade.
—Kanda? – Ele sussurrou baixinho, após um rápido silêncio estarrecedor. E se ele estivesse pendurado no teto? E se alguma coisa a mais estivesse refletida no espelho?? Sentia cheiro de sangue! Sentia!
Um pânico crescente inundou seu ser e queria, mas não queria abrir os olhos. Ainda com ambos fechados, fez uma rápida respiração três vezes. No final da contagem tinha que abri-los!
Não conseguiu, mordendo os lábios com força. Sabia! Sabia que com coisas assim não se brinca e o Kanda...
Abriu os olhos, relutante, e arrependeu-se no mesmo instante.
—Bu! – Kanda estava a alguns centímetros de si, o rosto na mesma altura, e bateu as palmas quando o pequeno abriu os olhos.
No susto, o albino só puxou o ar com força e tentou afastar a cabeça o máximo possível daquela criatura medonha e banhada de sangue, esquecendo-se de que estava próximo demais da parede.
—Ai! – O baque ecoou por todas as quatro paredes do local e Kanda entortou a cabeça para aquela reação exagerada, enquanto o Walker levava ambas mãos à cabeça e fechava os olhos em dor.
—Tudo bem? – Perguntou, pois, tinha que admitir, aquilo devia ter doído. Claro que também era imensamente engraçado, portanto mordia os lábios para não sorrir ou soltar alguma piadinha, afinal ele parecia realmente irritado.
Quando Allen abriu os olhos e viu Kanda querendo rir de si, seu sangue ferveu e ele fechou a cara na mesma hora.
—Babaca! – Exclamou, puxando a mochila e saindo para fora daquele banheiro o mais rápido possível.
Como pensara que aquele cara tinha jeito? Que idiota! Não! Idiota fora si por ter tido esperanças!
—Oe, Moyashi! – Sentiu seu pulso ser puxado assim que voltou para o mesmo lugar de onde não devia ter saído. Pequenas coisinhas foram depositadas em sua palma.
—O que é? – Virou-se com raiva. Aquele garoto era tão...
—Me ajude a prender o cabelo. – Ele disse sério,virando-se de costas e soltando o pulso do albino, permitindo que ele pudesse ver os grampos em sua mão.
Allen ficou estático, tentando processar tudo aquilo. Olhava dos grampos para o cabelo à frente, e depois para os grampos novamente.
Suspirou, indignado.
—Você quer um coque? – Perguntou, o tom manso, enquanto deixava a mochila cair a seus pés.
—Tanto faz. – Ele resmungou, a cabeça parada. Allen tomou os fios em sua mão e, ah sim, o cabelo dele era macio como Lena havia insinuado. Naquele momento, realmente quis saber qual shampoo ele usava... Não, não! Balançou a cabeça negativamente, enquanto rodava um rabo de cavalo e depois fazia um espiral na cabeça.
—Ei... – Allen perguntou, retirando um dos grampos preso entre os dentes e levando ao cabelo. – Por que está me chamando de Moyashi?
—Você disse que não queria ser chamado de Honey. – Allen revirou os olhos, pondo outro grampo.
—Não poderia simplesmente me chamar pelo nome? – Perguntou, afinal era o óbvio a se fazer! O que significava Moyashi mesmo?
—Não. Moyashi combina com você. – Retrucou e o albino achou aquilo ridículo.
—Pronto. – Disse, colocando o último grampo. – Está muito apertado? – Afinal as meninas – leia-se Lena – precisavam de coques apertados para bailar, e Allen às vezes ajudava-as.
—Está bom. – Kanda se moveu e pegou a mochila perto da parede. O menor fez o mesmo. O segundo sinal já havia tocado há uns bons minutos.
Quando Yuu virou-se de frente, Walker quis rir.
— O que? – Ele perguntou, andando para a sala de aula.
—Nada, nada... – Tentava não soltar nenhuma risada, mas tinha absoluta certeza que nenhum outro homem na face da terra continuaria tão másculo com coque e franjinha.
—---3---3-----
—Estou cansado! – Lavi reclamou, uma carranca incrustada na testa. Allen apertou os olhos em irritação. O ruivo passara a manhã toda suspirando, mesmo que não tivesse feito absolutamente nada! Apenas passou as aulas sentado na cadeira, encarando Lenalee descaradamente, o que não se podia considerar como alguma coisa.
—Lavi-kun, você nem sequer fez alguma anotação... – A voz soou, vacilando na última palavra já que Lena não sabia se era aquele o termo certo dado às escritas no computador.
Allen passou a mãos pelos cabelos. Estavam no último horário e sua paciência esvaíra. Não sabia desde quando se irritava tão facilmente, porém até o fato do ruivo respirar estava incomodando o Walker. O pior de tudo é que Allen se sentia horrível, uma vez que nem Kanda estava ligando muito para aquilo.
O moreno se manteve estranhamente compenetrado e calado por todas as aulas anteriores, fazendo anotações por si só e sem encarar o gramado.
Aquilo era uma vitória, certamente, afinal Kanda havia mudado no intervalo de uma noite!
—Lavi, eu estou cansado de você! – Alma reclamou e Allen sentiu-se representado. Virou para trás, aproveitado o atraso do professor durante o intervalo entre uma aula e outra.
—Não começa, Alma. Fica quieto aí. – O ruivo retrucou, virando a cara. Lenalee deu um sorriso torto, quase como se desculpando pelos maus modos do Mestre, uma vez que os Honeys eram encarregados da “educação e moral” dos mesmos.
Allen revirou os olhos. Chegou a abrir a boca, indo falar algo, mas o fez em vão, pois nada veio à sua mente. Correu os olhos rapidamente pela sala e, pela primeira vez, pegou Road lhe encarando.
Claro que foi uma constatação no mínimo espantosa, já Road não encarava ninguém, e quando o fazia parecia dar-lhe um aviso.
De qualquer forma, apesar de ter encolhido alguns milésimos de metro, continuou a encará-la, até que a mesma desviasse a atenção para uma torre de cartas perfeitamente arrumadas. Ironicamente, aquelas cartas lembravam-lhe Tiky, porque ele tinha ensinado-o a arte do poker e por mais que estivesse “inconsciente” evitando o maior, Allen sabia que não podia esconder-se para sempre.
Na noite anterior, ele havia mandado uma mensagem perguntando sobre a realização do Drop e o albino não respondera. E, sabia que, àquela altura do campeonato, ele certamente estava a par de tudo.
Walker se perguntou se o moreno iria ou não ligar e tentar conversar de verdade e, sem perceber, tocou o bolso onde se encontrava o celular. Se houvesse alguma mensagem, teria sentido.
Diante da teia de situações, Allen se viu como uma presa indefesa, sem saber realmente quem era o predador. De um lado, Kanda exalava sua usual dominância, com o cheiro de lótus preenchendo todo o raio de três metros ao redor dele e os cabelos arrumados num coque agora meio desfeito. De outro, Tiky com seu olhar sedutor e dourado, físico impecável e voz manipuladora. Atrás, Lavi era o lobo mal de Lena e tudo parecia de cabeça para baixo.
O albino não soube definir quem era o mais perigoso, mas por hora, com Tiky afastado e Alma para lhe ajudar com Lavi, achou mais prudente ater-se ao herdeiro sentado ao seu lado.
No quadro,o professor escrevia a data dos Jogos Drops, que aconteceriam após o fim de semana seguinte, numa plena segunda feira. A sala parecia alegre com a notícia, no entanto Allen mantinha um pé atrás, principalmente sabendo do desastre que era em basquete. Mesmo que Kanda tivesse lhe ensinado, aind...
Um arrepio percorreu-lhe a espinha ao lembrar o “método” usado pelo moreno para alinhar sua postura e se perguntou se teria novamente aquele treinamento.
Olhou para o lado, tentando captar algum sinal.
Nada.
Kanda parecia tão indecifrável como antes. A diferença é que agora ele estava um indecifrável próximo. E, bem, ainda havia coisas demais as quais Allen não sabia, muita coisa relacionada ao seu “trabalho”, à Kanda e ao Sistema, mas ainda assim pela primeira vez sentiu que, sim, as coisas poderiam ser divertidas.
Irritantes, complicadas, problemáticas... Mas com um toque a lá Yuu.
Fale com o autor