Honey
27 Ultrapassagens
Notas iniciais
Os últimos dois dias passaram rápidos como uma chuva de verão. Allen teria gostado se eles fossem mais devagar, apesar da vergonha imensa que tinha toda vez que encarava seus amigos. Era basicamente impossível ignorar o olhar malicioso de Lavi, o sorriso orgulhoso de Alma e a cara de inocência de Lenalee desde que eles voltaram do dojô naquela tarde.
Allen não podia evitar de corar toda vez que ia falar com eles e eles pareciam animados demais para ouvir qualquer coisa que saísse de sua boca, e decepcionados quando não era nenhum detalhe do que havia acontecido naquele banheiro.
Kanda, no entanto, parecia alheio àquilo, arqueando as sobrancelhas e calando todos pela sanidade mental do Honey. O albino jurava que teria um colapso se ficasse envergonhado de novo, porque não aguentava mais tanto sangue na cabeça.
Os boatos também chegaram à escola e, mesmo que ninguém houvesse ousado comentar, alguns olhares foram direcionados ao casal. Talvez, até aquele momento, ninguém tivesse se dado realmente conta do que estava acontecendo ali, com aqueles dois jovens, e agora acenos em concordância pareciam aceitar o futuro entre eles.
Mas tirando o fato de que Breeze tinha ignorado Allen desde o dia da enfermaria e Mana parecia ocupado demais, tudo estava em seus trilhos, e agora o albino estava pronto para encerrar uma fase.
Ao seu redor, a bagunça era generalizada. Havia muitas pessoas, cabides e roupas para pouco espaço e Allen estava tão nervoso que poderia desmaiar. Além disso, estava calor e o pequeno sentia-se sufocando de nervosismo e ansiedade.
—Quero a arara com os tutus roxos!! Onde estão? — Uma mulher desconhecida passou apressada ao seu lado, não se importando se esbarrou em alguém, enquanto gritava em um walkie-talkie. Allen jurou ter ouvido a voz dela soar de algum rádio perto de si, mas naquele momento era tantas vozes, tanto barulho que ele não poderia sequer dizer de onde o som havia vindo.
Alguém da equipe de apresentação havia ordenado que ele ficasse parado no canto próximo às maquiadoras, porque elas precisavam colocar mais brilho ou arrumar o cabelo, ou alguma coisa do tipo que agora não fazia muito sentido.
Tudo que Allen queria era entrar no palco, dançar e ir para casa, longe de toda aquela euforia para que pudesse respirar. Em sua concepção, quanto mais rápido acontecesse, mais rápido acabaria.
—Você é o príncipe? — Uma mulher gritou em seu ouvido e Allen se encolheu por instinto. Antes que pudesse assentir, alguém o pegou pelo braço e arrastou-o até uma cadeira, empurrando seu corpo nela de uma vez. Teve sorte de aquela ser uma cadeira confortável de salão, pois o impacto não foi nem um pouco gentil.
—Vamos retocar o iluminador, pega o spray de cabelo e eu quero o pó de glitter! — Várias pessoas então vieram para cima de si, umas puxando seu cabelo, outras ordenando que fechasse os olhos e enchendo seu rosto de um pó que dava vontade de espirrar. Em algum momento, deduziu que havia uma costureira também, porque sentiu uma agulhada na coxa e depois mais burburinhos.
Quando finalmente pôde abrir os olhos, o espelho iluminado com muitas lâmpadas na borda mostrou-lhe alguém muito diferente, mas estranhamente parecido consigo. A maquiagem havia afinado o seu rosto, dando-lhe contornos marcantes e cavando bochechas profundas e escuras. O nariz estava mais afinado e quadrado, enquanto os olhos eram delineados por sombras escuras que puxavam para o lado e valorizavam as orbes claras. A boca estava apagada e Allen se sentiu, ao mesmo tempo, adulto e morto.
Talvez o figurino fosse inspirado em O Cisne Negro, não sabia dizer, mas ele vestia uma legging preta, com sapatilhas prateadas e decoradas. O torso era coberto por uma blusa de manga comprida cuja a frente era bordada por detalhes e botões prateados, que remetiam à vestimenta de um príncipe. Ao olhar para os lados, Allen também viu algumas garotas com estampas escuras e outras com estampas coloridas demais e, por fim, desistiu de entender como aquilo funcionaria.
Será que seu pai lembraria de tempos passados quando o visse vestido daquele jeito?
Seu pescoço doía de tanto ser puxado de um lado para o outro e de tanto virar a cabeça para procurar por Lena e ter um ponto de apoio. Não fazia ideia se seu pai havia chegado, ou quando tempo faltava para a apresentação, e muito menos quantas pessoas estariam assistindo. Apenas tinha a noção de que estava rodeado de figurinistas, cabelereiros, maquiadores e seguranças, o que fazia-o imaginar se aquilo tudo era uma apresentação normal de inverno ou um show da Broadway.
Será que Christina sentia saudade daquilo?
De repente, o seu celular tocou e, como num passe de mágica, todas as mulheres e assistentes evaporaram. Não saberia dizer se para lhe dar privacidade ou para arrumar mais alguém, mas sentiu-se grato mesmo assim.
—Alô. — Não pensou duas vezes antes de atender, e esperou que a pessoa se identificasse.
—Allen, como você está? — A voz inconfundível de Mana soou e ele parecia agitado e apressado, o que fez Allen querer rir porque ele provavelmente estaria atrasado para a apresentação.
—Estou a ponto de explodir de nervosismo! — Desabafou. — Não encontro a Lena, ninguém me diz nada, não sei quando eu entro, tem tanta gente aqui que eu estou me sentindo sufocado!
—Oh, querido, é assim mesmo. — Ele disse rápido, e fez uma pausa. Allen ouviu farfalhos de roupas e deduziu que Mana estava se vestindo. — Sua mãe sempre dizia que a recepção da plateia compensava toda essa loucura.
—Eu espero que compense, pai, porque eu acho que se não for assim eu não sobrevivo até o final da noite! — Bufou, respirando fundo e recostando na cadeira. — O senhor já está chegando?
—Ah, filho, sobre isso... — E quando a voz de Mana abaixou, Allen sentiu um arrepio subir sua coluna, como se um balde de água gelada tivesse sido jogado em si. — Acabaram de ligar da delegacia, acharam um suspeito daqueles homicídios da semana passada e o cara aceitou fazer um acordo para dizer quem foram os mandantes. Achamos que é uma coisa de gangues, e alguns acham que tem gente importante no meio. Eu preciso ir até lá porque precisam de um advogado para ouvir a confissão.
—Mas... — As palavras do pai entraram como sopa de letrinhas na mente do pequeno e foram se embaralhando ao ponto de ficarem incompreensíveis. — Eles não têm outro advogado para substituir? E aquela novata que você disse que contrataram?
—A Meg não tem jurisdição sobre esse caso, Allen, já é um caso meu, não tem como alguém me substituir. — Houve uma porta batendo e Allen pensou que aquele baque podia simbolizar o seu coração caindo naquele momento. Alguém gritou no estúdio e uma fila de bailarinas passou atrás de sua cadeira, mas surpreendentemente tudo que o albino ouviu foi a respiração pesada de seu pai e ele entrando no carro do outro lado da linha.
—Meg? — Foi sua única reação diante da descrença.
—Megan. A moça que eles contrataram. — Allen foi incapaz de dizer algo enquanto sentia a garganta fechar e a visão embaçar a imagem a qual encarava no espelho. Mana soltou um suspiro alto e derrotado. — Ouça, filho, eu sinto muito, não vou poder ir. Não está nem nas minhas mãos, eles só me ligarem e me disseram para estar lá em dez minutos.
Ele pausou, como se esperasse que Allen sorrisse e lhe dissesse que estava tudo bem. Mas não estava, podia parecer simples, mas aquela ausência soava como um abandono e desamparo tão grande. Sentia-se sozinho, de volta a ser um menininho de sete anos que chora quando o pai não vai à reunião.
—Allen, você continua na linha? — A voz de Mana puxou-o novamente para a realidade e antes que uma lágrima pudesse cair, o albino engoliu em seco e respondeu com a voz rouca e pesada.
—Não fale no telefone enquanto dirige, pai, eu já disse isso inúmeras vezes.
—Quero saber se está tudo bem para você, eu sinto muito, querido, foi um imprevisto. — Doía fazer o próprio pai sentir-se culpado, mas Allen não conseguia parar aquilo agora.
—Você não tem culpa, só desligue o telefone para evitar acidentes, por favor.
—Podemos falar sobre isso depois? Você está bem?
—Sim, estou bem. — Não, não estou. — Falamos quando eu chegar em casa. — E tiver que contar como foi minha primeira vez apresentando uma peça dessa magnitude sem ninguém para me apoiar e me parabenizar.
—Tudo bem então, eu estava preocupado com a sua reação! — Ele riu como se para dissipar a tensão. — Mas você, como sempre, é o meu garotinho perfeito. Eu sei que você vai se sair bem, só respire e mantenha a calma. Tudo vai sair bem.
—Okay, pai, obrigado.
—Eu amo você, querido. — Então por que você não está aqui? Eu precisava de você, pai.
—Eu também, agora eu preciso desligar, as moças estão chamando. Boa sorte no caso.
—Tudo bem, boa sorte na peça. Até mais tarde.
—Até.
Fim da chamada e Allen realmente considerou chamar alguém para juntar suas emoções do chão. Como seria ter que sorrir e encenar com o coração tão vazio assim? Sentia que devia colocar logo uma máscara.
—Olha, não sei para quem você mentiu, mas não chore, vai borrar a maquiagem. — De repente, uma mulher morena com um cabelo black power surgiu à sua frente com um bloquinho de notas e começou a recitar horários, expectativa de minutos, alas e cenas.
O pequeno sabia que precisava prestar atenção àquilo para que soubesse quando entrar em ação, mas estava tão estático que a moça parou o que tinha que fazer e o olhou impaciente.
—Olha, você tem cinco minutos para estar naquela fila e ouvir isso de novo. Use esse tempo para se recompor e quem sabe ligar para outra pessoa, mas isso aqui é um teatro e a última coisa que as pessoas querem ver é alguém encenando triste.
E assim, com essa dura verdade, ela saiu e novamente o barulho infiltrou-se no cérebro do albino.
Não havia achado Lena, seu pai não viria, sua mãe nem sabia que estava apresentando naquele dia, sentia-se sozinho, angustiado, ansioso e a garganta apertava com uma vontade tremenda de chorar. Havia toda aquela bagunça, o barulho ensurdecedor estava lhe dando tonteiras, e olhar para o próprio reflexo há 5 minutos não poderia ser muito saudável.
Foi então que discou aquele número, agarrando-se à possibilidade de ele ser seu suporte. Era egoísmo chamá-lo assim, em cima da hora, mas Allen precisava tentar, sentia que iria se desfazer em pedaços se não tivesse ninguém ali por ele.
—Moyashi? — A voz dele soou surpresa.
—Oi, Kanda. — Forçou-se a falar, fungando logo depois para tentar recompor-se.
—Você não deveria estar apresentando?
—Daqui a 2 ou 3 minutos, eu acho. — Deu de ombros, porque sua ansiedade tinha dado lugar à uma indiferença triste.
—E por que me ligou agora? Não marcamos de sair quando acabar? – Como sempre, rápido e direto. Usualmente, o albino estava acostumado àquilo, mas naquele momento, engoliu em seco e sussurrou baixinho, com a voz quebrada.
—Quais as chances de você vir? — Sussurrou, segurando as lágrimas. Kanda ficou em silêncio, confuso com a pergunta, e Allen acabou se desesperando, devido a borda de sentimento em que já se encontrava. — Eu sei que eu disse que só tinha um ingresso, e que é muito egoísmo te chamar agora, mas é que você é a única pessoa com quem eu posso contar agora e confio em você, eu sinto que v-
—Estou indo. — A voz rouca e profunda dele se sobrepôs e Allen parou de falar no mesmo instante.
—Você... Espera, você não está ocupado? — Empertigou-se na cabeça, muito atordoado com a própria situação e com a possibilidade de estar prejudicando Kanda.
—Não, eu estou indo.
—Mas como você pretende entrar?
—Eu pago.
—Não tem como, não tem mais ingressos. — Agora realmente se sentia um estúpido por não ter pensado naquilo. Sem o ingresso, ou o nome na lista, não tinha como Kanda entrar.
Ele pausou.
—Allen, você me disse para ir, eu vou, não importa o que eu precise fazer para entrar, eu vou. — A convicção na voz dele foi tanta, que Allen suspirou com a descarga elétrica que tomou o seu corpo. — Agora vá se apresentar, eu já chego aí.
—O–okay...
—Até mais.
—Até.
Imediatamente, a mulher morena reapareceu com cara de poucos amigos e puxou-o pelo braço, gritando no microfone que alguém estava atrasando a fila. Viu-se sendo puxado por entre araras de roupas e fios de iluminação e então a mulher colocou-o no fim da fila, onde várias bailarinas estavam posicionadas. Havia guardas guardando as portas do palco e guardas atrás de si, a fim de coordenar a entrada.
Agora Allen sentia um misto de surpresa, ansiedade e adrenalina. Era óbvio que ele não chegaria para o primeiro ato, mas só o fato de ele ter lhe dado tanto segurança foi o suficiente para fazê-lo querer dançar bem e encenar bem.
Ainda que seu coração estivesse metade estilhaçado.
Virou-se para trás e cutucou o guarda que olhava fixamente para frente. Tudo que o homem, em seus quarenta anos fez, foi abaixar os olhos, sem mover um músculo.
—Com licença, o senhor pode me fazer um favor? — Fez olhos pidões, a voz de choro contribuindo. O homem o olhou calado. — Meu convidado inicial não vai poder vir, então eu preciso que você troque o nome da lista, ou avise aos seguranças da porta para deixá-lo entrar. — Estático. — Por favor, é minha primeira peça, eu quero ter alguém olhando por mim.
O homem bufou.
—Qual o nome? — Um sorriso enorme surgiu no rosto do menor.
—Kanda Yuu. Yuu com dois u. — Ele anotou em um papel e preparou-se para pegar um walkie-talkie.
—Qual o seu nome? E ele é o que seu?
Allen não hesitou um segundo.
—Meu nome é Allen Walker e ele é o meu namorado.
E então mesmo que tivesse sendo empurrado e triste pelo pai não comparecer, Allen sentiu que tinha uma chama de vontade ali.
—--A&K---
Amadurecer é uma palavra forte.
O peso dela se espalha por nossas vidas antes mesmo que nos damos contas. Costumamos pensar que o amadurecimento é aquilo que acontece magicamente quando você passa da infância para a juventude e depois para a idade adulta.
"Você ainda vai amadurecer e vai deixar de pensar isso!"
Durante toda a vida, quando nos cansamos de ser crianças sem independência alguma, nós rogamos para amadurecer.
"Quando eu crescer..." É a frase que sempre acompanha nossos desejos, que direciona nossos sonhos acordados, porque crescer e amadurecer acaba se tornando nosso objetivo de vida.
O que ninguém fala, no entanto, é que crescer não é algo do dia pra noite. Você não vai ser uma pessoa diferente no exato minuto em que fizer 18. Isso às vezes desencadeia uma crise existencial e você fica triste sem motivo algum no dia do seu aniversário sem se dar conta que aquele sentimento é devido à frustração de nada ter mudado.
Vivemos com a ilusão que em algum momento viramos a página do livro e voalá, vida nova. Bem, é mentira. Não é assim. Ninguém vai te dar um frasquinho de "beba-me" para que você cresça.
Você é quem cresce todos os dias e não percebe.
Sabe aquela vontade louca de pular no pula-pula ou entrar naqueles brinquedos de shopping que você tinha? Sabe quando você pensava "eu vou sentir muita falta de brincar aqui quando eu crescer"? Agora lembra que você nem sente falta? Você pode até mesmo achar bobo algo que você amava quando criança.
Eu te digo o porquê: você cresceu e nem se deu conta.
Não foi preciso uma data especifica, não. Você cresceu assim que colocou a criança que você foi na gaveta e assumiu outros objetivos. Você estava amadurecendo assim que parou de fazer tanta questão de ter uma festa de aniversário. Assim que preferiu um celular a um brinquedo. Assim que deixou de achar um beijo nojento e pensou que, opa, talvez seja legal! E sabe aquele sonho de ser princesa ou de dirigir o caminhão de lixo que você hoje despreza? Bem, você matou esse sonho juntamente com o seu crescimento.
Crescer dói. Dói porque você deixa de sonhar livremente e assume responsabilidades que acabam te cegando. Quando você cresce, você deixa para trás e esquece o quão bom era pular na calçada, assistir desenho no domingo e como era bom só se preocupar com o quão horroroso era quando o lanche da tarde era só bolacha com manteiga e suco de pozinho.
É doloroso refazer algo que você amava quando criança e ver que você passou tanto tempo no escuro, sem relembrar o quão feliz você fica fazendo isso.
Foi essa a sensação que atingiu Allen como uma bigorna assim que ele pisou no palco.
A criança pequenininha e de cabelos claros que Allen foi saiu da gaveta e começou a rodopiar assim que ele sentiu as sapatilhas tocarem o assoalho de madeira do acústico.
Foi lindo de uma forma triste.
De repente, ele sentiu-se guiado e toda a tristeza de não ter o pai presente naquele momento de redescoberta foi posto de lado enquanto ele deixava a música fluir e coordenar seus movimentos. A sensação do chão duro contra seus dedos, as luzes mais baixas, alguns bailarinos ao seu redor e o seu coração batendo tão rápido que ecoava pelos ouvidos.
É uma sensação indescritível, essa de estar completamente submerso em algo, sentindo todo o seu corpo reagir e concentrar-se em uma única coisa.
Ele se concentrava em não desmaiar, em respirar e em ser lindo. Brilhante.
O albino sentia o próprio peito expandir em paz e ele poderia morrer ali mesmo que teria certeza que estaria feliz.
Emoção transbordava a cada mudança de som, a cada expressão dolorosa dos dançarinos.
Allen nunca quis chorar tanto.
Onde ele estava todos esses anos que havia esquecido completamente do quão inteiro se sentia enquanto dançava? Como ele pudera esquecer o formigamento e a respiração salteada a cada rodopio?
Dentre os flashes de luz que seus olhos maquiados recebiam, ele via a própria mão, dobrada a fim de esconder o polegar, rasgar o vento. Seu corpo agia em conformidade com a expressão, e ele via o vão escura estava a plateia. Apenas era possível ver as duas primeiras fileiras de pessoas, uma vez que a fonte de luz estava exatamente em cima de si, e o restante era apenas escuridão. Ele sabia, no entanto, que tinha alguém ali por ele, olhando para ele.
Ele quis ser bonito, perfeito. Amado.
Allen queria sentir o mesmo amor que sentiu quando pisou novamente naquele palco. Ele quis alguém que o amasse com tanta intensidade que esquecesse do que foi um dia, apenas para trabalhar em ser melhor para ele no próximo.
Era assim que ele se sentia naquele momento.
Cada respiração, cada sorriso contido, cada lágrima que queria escapar só gritavam em sua mente que Allen Walker não cursaria medicina, nem relações internacionais, nem política.
Ele seria um dançarino, mesmo que às vezes odiasse a cobrança e as dores que tinha no corpo depois de uma manhã treinando.
Ele seria um bailarino.
—--A&K---
As cortinas caíram pesadas quando todos ainda estavam de mãos dadas. Imediatamente, alguns caíram de joelhos e outros deram pulinhos de alegria. Um grupo fez um abraço coletivo e havia algumas meninas chorando. Os meninos estavam se alongando. Mas Allen não havia saído do lugar. Ele permanecia parado, encarando a grossa cortina vermelha, num momento de epifania que sugou todas as suas energias.
Algo havia mudado ali dentro, Allen podia sentir. Ele não era mais o mesmo Allen que tinha entrado nervoso naquele palco. Não. Ele era completamente diferente, como uma borboleta que havia finalizado a própria metamorfose.
—Allen-kun! — Ele viu o rosto choroso de Lenalee de relance e soube que iria desabar a qualquer. Instantaneamente, fechou os braços com força ao redor dela quando os corpos se encontraram.
Dentro do abraço gostoso da amiga, ele meio que se deu conta de que precisava, naquele momento, de um abraço forte e pesado, masculino de preferência. Ele estaria esperando aquele abraço do próprio pai, mas Mana não estava ali.
Seu coração doeu e os olhos lacrimejaram ao mesmo tempo em que ele apertava ainda mais o abraço.
Era um abraço esmagador de pulmões, mas era tudo que eles precisavam. Lenalee soluçava em seu ombro, ambos com roupas coladas, brilhosas e acabados. As maquiagens se borravam com as lágrimas e a realidade se dissolvia ao redor deles.
Era tudo um sonho.
Ela desfez o abraço lentamente e quando se encararam de novo, tudo foi transmitido com um olhar: acabou. Acabou.
Um ano havia passado e agora todos eram supostos a seguir caminhos diferentes. A vida que ambos conheciam até aquele momento estava ficando para trás e ninguém sabia como seria o futuro. Era amedrontador na mesma intensidade que era libertador.
Lena entrou em uma nova convulsão de choro e eles se abraçaram com mais força ainda, se possível, outra vez. Ao seu ouvido, ela resmungava vários agradecimentos chorosos e Allen estava a ponto de cair em um mar de lágrimas.
Foi quando ele viu por cima dos ombros dela que havia uma estatura que ele conhecia nos bastidores.
—Lena... — Ele resmungou com a voz quebrada, um pedido meio assustado e aliviado. A morena o soltou rapidamente, fungando e pedindo desculpas pela comoção e virou-se para olhar o que havia prendido a atenção do amigo.
Allen realmente pensou que ela o caçoaria, mas ele não poderia se importar menos se isso acontecesse. No entanto, os olhos dela pareceram tão brilhantes quando os dele próprio quando uma cabeleira ruiva, parecendo atordoada com o monte de bailarinos iguais, saiu dos bastidores, passando bem ao lado daquele que detinha a atenção do albino.
Assim, Lenalee foi menos estática e foi com passinhos rápidos, meio saltitados, até o namorado que vinha até ela. Não que Allen estivesse a observando, longe disso. Ele soube de tudo muito vagamente pelo canto do olho, porque seus olhos estavam cravados na figura de blazer preto e camisa social branca.
Kanda tinha os cabelos soltos, como ele fazia para uma ocasião especial, e o maxilar dele estava perfeitamente marcado com as mechas negras delineando o rosto masculino. O que fez as pernas de Allen bambearem, no entanto, foi a mão dele segurando na palma uma única flor um tanto grandinha.
Deus, ele não tinha coração para tanta emoção.
Mordendo o lábio inferior, ele abaixou a cabeça — pois se continuasse olhando para Yuu não conseguiria dar mais de dois passos sem desabar no chão- e pôs-se a andar em passos rápidos até o canto do palco, onde o mais velho estava parado.
Foi reconfortante como estar em casa.
Quando chegou perto o suficiente para ver o peito dele, notou que ele abriu os braços ligeiramente e Allen não esperou mais de um segundo para forçar as pernas a abraçá-lo. Enquanto rodeava a cintura do moreno, ele sentiu Kanda se curvar o suficiente para deixá-lo ser capaz de afundar o nariz no pescoço dele.
Kanda tinha cheiro de Lotús, loção masculina e proteção. Era um cheiro maravilhoso que combinava com o abraço apertado com o qual ele envolveu o corpo do albino.
Allen soltou toda a respiração com a força com que ele o segurava e deixou as pernas finalmente amolecerem de cansaço e emoção. Os dedinhos pequenos cavavam as costas largas dele e, sinceramente, Kanda poderia fazer qualquer coisa consigo, que o albino concordaria.
—Obrigado por vir... -Sussurrou com a voz baixinha e quebrada, fragilidade e cansaço o deixando adorável.
—É claro que eu viria, Allen. — A voz profunda dele embalou um arrepio gostoso pela coluna do pequeno, e o albino se viu obrigado a murmurar um gemido deleitoso que fez com que o abraço terminasse com um aperto de dedos em suas costas.
Quanto a dor de lidar com a ausência do pai, bem, ela continuou de escanteio quando Kanda os separou e levantou a mão.
Dentro de sua palma, parecendo frágil e rara, havia uma lótus com pétalas em uma nuance branca rosada. Ela estava dentro de uma caixinha de vidro, parecendo protegida do mundo como uma raridade.
Era linda. Allen não poderia não ficar boquiaberto. O menino levantou o olhar prateado uma ou duas vezes para Kanda, mas ele também parecia muito focado nela.
—Significa perfeição, pureza e alma imaculada. — Ele disse baixo e rouco. Allen voltou a focar o olhar nele ao mesmo tempo que ele fez o mesmo. — É uma flor que nasce no lodo. Ela surge perfeita por sobre a sujeira e os pecados.
—Oh, Kanda... — Allen suspirou e levou uma mão até o coração. Ele voltou os olhos para a flor, incapaz de sustentar a atração no olhar de Yuu.
—É para você, Allen. — Ele fechou os olhos fortemente quando ouviu Yuu dizer as palavras, e permaneceu com eles fechados até o término da fala. — Você é a minha lótus.
Como se o universo tivesse conspirado até aquele momento, o brinco em sua orelha pesou e ele mordeu o lábio inferior tentando conter o choro. Com as mãos trêmulas, e sem falar nada, ele pegou a caixinha com ambas as mãos e a embalou de forma delicada.
Allen a olhou com carinho e jurou de forma silenciosa que cuidaria com todo o amor daquela flor pelo pouco tempo que ela vivesse. Ele se sentia brilhando agora.
—Obrigado, Yuu... — Sussurrou baixinho, sentindo um pouco de vergonha de dizer o primeiro nome dele. Kanda arregalou os olhos por alguns segundos antes de perceber que nunca seu nome tinha parecido tão bonito. — Você me deixou sem palavras...
E então ele sorriu. Foi um sorriso pequeno, poucos dentes apareceram, porém não havia rugas ou preocupação no rosto dele. Allen pensou que Kanda nunca pareceu tão jovem e bonito para ele.
—Conseguir te fazer calar a boca é um grande feito, huh, Moyashi? — Sem aviso nenhum, ele tomou o rosto do pequeno com ambas as mãos, plantando um beijo delicado nos lábios entreabertos dele. Em seguida, para deixar um Allen ainda mais abismado, moveu a boca para uma bochecha e beijou. Depois a outra e outro beijo. Então ele depositou um beijo rápido na pontinha do nariz do Walker para então colar as testas.
—Você foi perfeito. Eu estou orgulhoso.
Com isso, a feição embasbacada de Allen deu lugar a um sorriso brilhante e envergonhado e seu coração dobrou de tamanho de tanto amor.
—--A&K---
Havia um mar de gente saindo do local onde foi a apresentação e se dirigindo até o parque em si. A neve havia dado uma pausa, mas tudo, exceto o caminho dos pedestres, estava tomado de neve. Parecia que o mundo estava se despedindo antes de dar lugar à primavera
Allen mantinha o presente em uma mão e com a outra segurava firmemente a mão de Kanda enquanto ele o guiava pela multidão. Ainda vestido com as roupas da apresentação, exceto por um suéter comprido, eles chamavam um pouco atenção, e o pequeno agradecia por pelo menos ter tirado a maquiagem antes de saírem.
—Meu Deus, eu não sabia que estava tão lotado assim! — Disse, colando-se mais ao braço do moreno. — Sério que todas essas pessoas estavam me vendo? — Questionou, olhando ao redor e vendo muitas famílias.
Kanda olhou para a expressão fofamente curiosa dele e revirou os olhos com a facilidade que aquele garoto o desarmava.
—Sim. Imagine se você tivesse caído, Moyashi.
Instantaneamente, Allen olhou para cima emburrado, a tempo de vê-lo dar um sorriso de lado e continuar andando.
—Você é um imbecil, Bakanda! — E inflou as bochechas, mas não se desgrudou do outro.
—Foi só uma suposição.
—Mas e se eu tivesse caído, huh? Você iria zombar de mim? — O pequeno perguntou, querendo testar a lealdade do moreno.
—É claro que sim, eu não iria perder a oportunidade. — Yuu disse em um tom zombeteiro e o Walker abriu a boca sem acreditar.
—Eu não acredito! — Ele se afastou imediatamente do braço do mais velho, com as bochechas vermelhas, pronto para discutir com ele. — Onde está o am-
Antes que ele pudesse começar o drama, no entanto, acabou escorregando no piso congelado e quase iria ao chão, se não fosse a mão grande de Kanda o puxando por um braço para impedir a queda.
—Veja só, Moyashi... — Ele disse em um tom brincalhão enquanto guiava o albino para a sua frente e segurava a cintura dele com ambas as mãos.
—Cale a boca, Bakanda! Não diga nada! — Allen resmungou, as bochechas vermelhas não de raiva mas de vergonha. Odiava deixar Kanda com a razão e fazer o papel de bobo.
Ele só deu uma risadinha convencida, para a qual o mais baixo revirou os olhos.
O Walker pretendia manter a pose emburrada por mais tempo, mas questão de 20 segundos depois, ele já estava apreciando a vista e as mãos de Yuu em sua cintura. O parque estava todo decorado para o Valentine´s Day. As luminárias estavam com corações pendurados em si, o que deixava a luz mais avermelhada. Haviam cartazes cravados na grama que incentivam o amor e vários casais passeando de mão dadas.
Vasculhando o lugar com os olhos brilhosos, não demorou para que ele reconhecesse o cabelo ruivo de longe e não pode evitar de parar por um segundo. Lavi e Lena estavam atravessando a rua e seguindo para o carro do Bookman.
—Kanda... — Allen parou de andar e encostou as costas no peito do mais alto. Ele virou o rosto para trás para ver Kanda olhando para o lado com a testa franzida, o que deixou-o confuso. — O que foi? — Tocou o rosto dele com uma das mãos.
Yuu pareceu despertar do transe e voltou a olhar para as orbes prateados a sua frente.
—Não, não é nada. — Afirmou um pouco seco, mas o aperto na cintura de Allen tinha intensificado. O albino olhou para o lado, buscando algo errado, mas apenas viu um grupo de garotos ao redor.
Ele só não saberia que aqueles mesmos garotos estavam olhando desejosos para suas curvas. Kanda não havia gostado nada mas não queria estender o assunto, afinal já havia deixado claro que Allen estava com ele.
—Sim... — Allen decidiu ignorar e voltou a andar. — Ahn... você sabe se Lavi estava planejando levar a Lenalee para casa hoje? — Perguntou, olhando por cima do ombro a reação de Kanda. Quando viu que ele arqueou as sobrancelhas, pôs-se a falar. — Não é isso, é só que eu fiquei sabendo que o Komui, irmão da Lena, é que vinha com ela hoje, daí eu acho estranho qu-
—Allen. — O moreno diz com a voz firme que sempre faz Allen amoleceu. Ele parou de andar e virou o albino de frente para si, segurando nos ombros dele e olhando no fundo das íris prateadas. — Lavi é uma boa pessoa. Eu sei que não sou o melhor para falar isso porque o Usagi me enche o saco e eu tenho que me segurar para não socá-lo, mas ele não é quem você pensa que ele é.
O menor encolheu os ombros, sentindo-se amuado. Não queria julgar o ruivo de forma ruim, ele só queria saber se o garoto estava cuidando bem de sua melhor amiga e se não iria machucá-la.
—Eu sei, eu só... — Suspirou, fazendo carinha de cachorrinho perdido. Kanda o odiou por isso e voltou a andar com a mão na base das costas dele.
—Ela já é grande o suficiente para saber o que faz da própria vida, Moyashi. — Afirmou, enquanto olhava para os lados da rua e puxava Allen para atravessá-la.
O albino deu a volta no carro e entrou quando Kanda o destravou. Logo em seguida ele se acomodou e encontrou o moreno já lá dentro. Suspirou antes de fechar a porta e pôs o cinto.
—Eu sei, é só que é tão estranho que tudo mude assim tão rápido! — Disse frustrado. Toda a revelação que teve durante a dança vindo até ele agora. Yuu ligou o carro, mas não deu a partida. Apenas ligou o aquecedor e encostou-se no banco, olhando para o Honey sentado ali, parecendo maravilhosamente perdido.
Viu quando ele pôs um pé pra cima e retirou a sapatilha que usava, fazendo massagem no próprio pé, provavelmente para arranjar tempo para pensar.
—Parece que eu estou perdendo uma parte da minha vida em troca do futuro. — Desabafou, a voz muito baixa e quase com medo. — Quando eu estava dançando lá em cima, isso me atingiu, sabe? Eu me vi de forma tão diferente que nem parecia mais eu. Por um momento eu nem soube quem eu sou, só quem eu fui na infância! — Kanda permaneceu em silêncio enquanto o menino desabafava cada vez mais rápido. — Agora que as coisas estão acabando, que a escola está acabando, eu me sinto com medo ao mesmo tempo que me sinto aliviado. Eu me sinto livre mas tenho medo de não saber como guiar a minha vida daqui para frente. Todo mundo tem que seguir um caminho, mas eu não tenho ideia de qual vai ser o meu! — Ele mal respirava, o rosto ficando vermelho de aflição. Kanda percebeu quando a voz dele começou a quebrar e então o albino parou de fazer massagem no próprio pé para estalar os dedos em um ato de nervosismo.
Foi nesse momento que o moreno puxou a perna dele para seu colo, Allen apenas deixando ir. Ele pôs-se a fazer massagem com os dedos fortes nos músculos tensos do seu garoto e notou quando a voz dele ia se amaciando, ainda que quebrada.
—Eu estou com medo do desconhecido. De perder tudo! Não faço ideia do que me aguarda lá na frente e não sei o que é certo fazer. Agora mesmo eu joguei fora tudo o que imaginei que seria a minha carreira profissional e já decidi o que realmente quero ser! Agora! Eu passei anos pensando que eu sabia a verdade e então me vejo tão desamparado... — A respiração descompassada era o sinal que ele estava perdendo o controle, expondo os próprios medos.
Yuu se sentiu lisonjeado de ter aquela alma abrindo-se para si. Ele não parou a massagem uma vez sequer, subindo as mãos e massageando a parte interna da coxa do pequeno.
—Kanda... — Perguntou, parecendo ter a resposta para tudo e ter medo dela.
—Hm?
—Eu tenho medo de ver a vida passar e não fazer nada com ela. — Foi então que as lágrimas, que até agora estavam entupindo seu rosto, desceram. — Tenho medo de me arrepender de tudo quando estiver para morrer! — As palavras saíram emboladas, desesperadas e soluçadas. Ele estava quebrando em dor e Kanda quis arrancar toda a sua angústia pois aquilo também doía nele. — Tenho medo de não fazer nada marcante na vida e ser só aquela pessoa comum que não faz a vida valer a pena! E pior de tudo! — Ele soluçou e puxou a perna do colo do mais velho, enrolando-se como uma bola no banco do carro. — Eu tenho muito...m-muito medo de n-não ser feliz!
A sentença pairou no ar, preenchendo o carro aquecido juntos com os soluços desesperados do menino.
Kanda primeiramente ficou em choque, petrificado ao ver seu garoto em tanta dor. Ele não fazia ideia do que falar para acalmá-lo, mas sentia que Allen devia viver aquele momento para então seguir em frente. Sendo assim, os próximos minutos se foram sem nenhuma palavra. Aos poucos, os soluços foram sendo substituídos por fungadas fofas e Kanda já estava procurando algo para falar quando o silêncio foi interrompido.
—Eu amo você.
O choque da sentença foi um tiro certeiro no moreno. Ele não estava esperando por isso. Não mesmo! Como um carro acelerando, seu coração engasgou e depois arrancou de forma surpreendente.
—Você só está sentimental, Moyashi. — Foi o que sua língua dormente conseguiu falar. Ele não estava acreditando naquela frase. Aliás, ele não queria considerar aquela frase pois tinha medo de se apegar a ela e depois sofrer com a decepção de Allen se arrependendo e voltando atrás.
No entanto, o mais novo permaneceu firme.
—Não. Isso não é da boca pra fora. — Ele fungou novamente, limpando a garganta e se recompondo. Yuu olhou para ele quando notou pelo canto dos olhos que estava sendo encarado. — Estou sério. Eu descobri que amo você. Eu estou me abrindo e sendo frágil na sua frente. Isso é uma coisa enorme para mim, então eu tenho certeza.
Oh. Aquela determinação nos olhos dele era aterradora. Kanda não soube o que responder. Allen era bom demais para ele.
A lótus pairava no colo do Walker e ele olhou para ela antes de voltar a falar.
—Eu amo você e preciso que você me ame na mesma intensidade.
Era justo, foi o que Kanda pensou. Muito justo. Mas ele temia que não fosse capaz de cumprir aquela promessa. O suspiro alto que soltou atraiu os olhos prateados que o encaravam esperançosos. Yuu não conseguiria lidar com o fato de que o magoou. Ele era bom demais para ser verdade.
—Eu não posso prometer isso, Moyashi. — Soltou lentamente, saboreando cada palavra.
Allen, no entanto, sentiu o próprio estômago despencar e por um momento achou que iria vomitar naquele instante. Uma dor profunda iniciou-se a partir do estômago e ele sentiu que iria morrer assim que ela chegasse ao coração quando o mais velho voltou a falar.
—Só o que eu posso garantir é que vou te amar com a mesma intensidade com que te odeio.
E então a dor toda foi congelada, e era como se um jardim florido surgisse bem no meio do peito de Allen. Cheio de borboletas, grama verdinha, aroma refrescante.
O albino deu uma risadinha, enxugando algumas outras lágrimas que ainda escapavam. Ele viu Kanda sorrir de uma forma sacana e o odiou muito naquele momento.
—Isso é muito, Bakanda. Quase demais. — Disse baixinho, corando no processo.
—Sim, Moyashi. Mas você vai ter que lidar com isso. — Ele respondeu, apertando a coxa do Honey antes de segurar o volante com ambas mãos e colocar o carro na pista. Allen esperou ele finalizar o raciocínio. — Não é mais como se eu soubesse onde está a linha tênue entre o amor e o ódio.
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