Notas iniciais
Oláa!! Boa noite, gente. Estou quebrada com isso de pré-vestibular. Perdi a minha alma em algum lugar. Não tenho muito o que falar, mas eu gostei desse capítulo e já fiz o roteiros para os próximos. Vou tentar não perder a linha e demorar mais do que um mês, já que eu sempre posto nesse intervalo. É só que estou estudando de segunda a sábado e preciso descansar. Enfim, muito obrigada pelos comentários, vou responder todos! Boa leitura e até as NF.

—Allen, vai acontecer alguma coisa hoje? — Mana começou a perguntar quando ainda subia as escadas e terminou a sentença com a cabeça para dentro do quarto do filho. Allen, que estava arrumando o tênis nos próprios pés, levantou os olhos sem parar o que fazia.

—O quê? Não, por quê? — Respondeu logo, forçando o pé contra o assoalho e conseguindo ajeitar seu calcanhar. Só precisava pentear os cabelos e estava pronto para esperar Kanda.

Mana ponderou por alguns segundos vendo o filho arrumado e antes de perguntar qualquer coisa, respondeu.

—É que tem um carro parado aqui na frente há uns dez minutos. — Adentrou no quarto e sentou na cama do menino. O albino deixou de se olhar no espelho para encarar confuso o pai.

—Um carro? — E correu o olhar para o celular, vendo que ainda faltava cinco minutos para o horário marcado e, bem, ele costumava ser extremamente pontual. Sem atrasos ou antecedências.

—Sim, uma Mercedes. — O mais velho agora estava jogado na cama, as pernas arreganhadas no moletom que usava.

Allen parou as mãos nos cabelos e correu até a janela, abrindo-a e colocando a cabeça para fora do parapeito. Sem esforço algum conseguiu visualizar a Mercedes de Kanda logo na frente de sua casa. Recolheu-se num pulo, fechando a janela novamente.

—Pai, eu vou sair. — Avisou e teve que desviar da cômoda para não tropeçar nela.

O pai observou o menino andar de um lado para o outro procurando a carteira e o celular enquanto resmungava alguma coisa.

—Para onde? — Mana se sentou, fechando a mão no cabelo e os jogando para trás. Ele tinha uma aparência cansada e a barba por fazer.

—Não sei, ainda vamos decidir. — Nesse momento, Allen recolhia uma meia do chão e a jogava na cama, perigosamente perto de atingir o rosto do pai. Assim que o menor percebeu a carranca que o mais velho fez, instantaneamente deu um sorriso amarelo. — Eu arrumo o quarto quando chegar.

—Você vai sair com quem? — Perguntou, levantando e seguindo o filho que pegava um casaco e saia pela porta. Era pouco mais de uma da tarde e o tempo estava nublado, indicando que talvez choveria mais tarde. O albino não pode deixar de pensar que o inverno que açoitou a Inglaterra estava demorando para chegar. Um calafrio retorceu seu rosto só de pensar nas nevascas que poderiam vir.

—Com o Kanda. — Respondeu simplesmente enquanto terminava de descer as escadas. Mana, no entanto, estagnou no meio dos degraus.

—Com ele?? — E foi o suficiente para apressar os passos e seguir o filho até a cozinha. — Mas você almoçou com ele ontem! Já chega não? Esse seu trabalho não era só na escola? — O mais novo olhou rapidamente para o pai e viu o descontentamento no rosto dele.

—Vamos sair como amigos hoje. — Levou o copo de água que tomava até os lábios e acabou fixando o olhar no pai quando ouviu a risada debochada dele.

—Amigos? Você e o coisinha? — Ele perguntou desacreditado, apoiando os braços no balcão, como se Allen tivesse dito a piada do século. O pequeno revirou os olhos.

—É Kanda. E Eu sei o que você está pensando, pai. Mas você poderia acreditar no seu filho? — Arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, parado no mesmo lugar. Vestia uma calça skinny preta, uma blusa branca lisa e levava o casaco verde musgo na mão.

—Em você eu acredito, mas nele? — Apontou o polegar para a porta de entrada e Allen olhou por mero instinto. — Aliás, você não acha que está saindo demais com ele? Independente do motivo? — Mana começou sem mudar a expressão.

O Walker mais novo desviou o olhar e procurou alguma coisa para responder.

—Acho... Acho que precisamos sair como amigos porque precisamos conversar. — Levantou o indicador, um pouco desconcertado, como se tivesse achado a melhor razão possível. Mana olhou para aquilo incrédulo.

—E conversar com o seu pai perdeu a importância? — De imediato, Allen abriu a boca para rebater, mas assim que levantou os olhos, viu que por trás daquela máscara de implicância estava o seu pai, muito provavelmente se sentindo solitário o bastante para ir contra o filho sair de casa.

Não foi necessário mais que alguns segundos e um suspiro pesado da parte de Allen. Ele acabou por diminuir os passos que o separavam do mais velho e segurou o seu rosto, com a expressão preocupada.

—É claro que importa, pai. Sempre. Quantas vezes eu já disse isso? — Era assim mesmo. Algumas vezes Mana simplesmente jogava nas costas do filho toda a frustração de ser alguém solitário. Pois para ele, todos estavam seguindo a vida: Christina estava casada e esperando outro filho, Cross tinha viajado com alguém para tentar se reabilitar das bebidas e até Allen, que parecia ter outras prioridades que não fossem sentar no sofá com ele e assistir documentários dos “mistérios dos mares”. — Pai…

—Sinto falta dos nossos chocolates quentes todas as sextas. — Sussurrou assim que abaixou a cabeça, obrigando as mãos geladas do filho a afundarem em seu cabelo.

Allen sentiu o coração partir e cogitou a ideia de desmarcar tudo com Kanda.

—Ah, pai… — Devolveu com o mesmo tom quebrado e puxou-o para um abraço apertado. Mana passou os braços pelo tronco do pequeno, enquanto sentia a cabeça do filho pressionada na curva de seu pescoço, aspirando o típico cheiro de pai que tinha ali.

Há algum tempo, Allen via-se tão abafado por tudo, que realmente havia se esquecido do quão aconchegantes eram aqueles braços e percebeu as saudades silenciosas que cresciam em seu coração.

—Nós podemos fazer bolo e assistir filmes na sexta… Podemos passar o dia sentados no sofá… — Sugeriu, querendo que o pai se animasse com aquilo. Mas não houve nada. Fazia dias que Mana se sentia vazio e aquilo machucava. Allen se afastou do contato e mordeu os lábios, enquanto encarava o rosto do mais velho entre as mãos. Abaixou o tom de voz o máximo até proferir. — Você quer que eu fique? — Os olhos castanhos se arregalaram. O pequeno engoliu em seco e vagou os olhos pelo chão, procurando mais coisas. — Eu posso dizer ao Kanda para sairmos outro dia e posso ficar aqui com você, pai.

Disse, porém apenas por vê-lo desviando o olhar, Mana sabia que não poderia fazer isso. Seria egoísta, no mínimo. Allen obviamente queria ir, ele tinha se perfumado, se arrumado e, mesmo que Kanda não fosse de seu agrado, o seu filho parecia ansioso para ir onde quer que eles fossem.

Ele seria um péssimo pai se o prendesse desse jeito.

—Não… — Sussurrou, os olhos carregados em culpa quase fizeram Allen jogar tudo para o alto e permanecer ali para sempre. No entanto, antes de qualquer coisa, Mana sorriu de lado e se afastou. — Não, não precisa. — Engrossou a voz e Allen franziu as sobrancelhas, como se confuso com aquela mudança. — Eu só fiz drama, você sabe que eu não gosto dele. — O mais velho gesticulou com a mão e se afastou para sentar no sofá.

Ele iria sentar e assistir aos “mistérios dos mares” sozinho.

—Pai… — Allen fez menção de se aproximar, mas ele virou o rosto e sorriu brilhantemente para o pequeno.

—Tudo bem, meu filho. Saia, se divirta. Podemos passar o sábado todo juntos, né? — Perguntou e o de olhos claros mordeu os lábios. — Vá que ele está lá há um bom tempo.

Foi o necessário para Allen olhar no relógio e constatar que havia passado sete minutos do horário combinado. Suspirou e olhou para o pai novamente. Mana tinha o olhar fixo na televisão, mas não parecia prestar atenção em uma palavra sequer.

Era doloroso a situação em que seu pai se encontrava. Tão mal tratado, acabado e um coração enorme e caloroso vazio. Aproximou-se do sofá, lembrando-se de um detalhe assim que olhou a data no celular.

—Pai, hoje não tinha uma confraternização na delegacia? — Sua voz era baixa e não acusava, era mais uma afirmação que uma pergunta.

—Sim, uma comemoração a um caso. O departamento inteiro vai estar lá. — Respondeu olhando para o filho por poucos segundos, mas logo voltando à tela azul do oceano que só servia para desfocar sua visão.

—Por que o senhor não vai? — Allen tocou o ombro do mais velho e sentiu a respiração dele inquieta.

Mana não merecia isso, não merecia. O albino daria qualquer coisa para ver o seu pai feliz.

—Não sei, Allen. Eu tenho que te esperar chegar também. — O mais velho deu a desculpa mais esfarrapada que lhe veio porque simplesmente não sentia ânimo para sair de casa. Sentia-se deprimido e sem vontade de fazer nada. Ficar parado na frente da televisão, como fizera no Natal, parecia a única opção.

—Eu tenho a minha chave, pai, e prometo que não vou chegar tarde. — Allen apertou os dedos no ombro o suficiente para que o pai tombasse a cabeça e olhasse para o olhar machucado do filho.

Nenhum dos dois queria ver o outro naquela situação. O silêncio reinou por alguns segundos.

—Me promete que o senhor vai pensar? Que vai fazer a barba e que vai até a confraternização? — Perguntou, mas ao ver o olhar vazio do mais velho, acabou por tentar persuadi-lo de outra forma. — Pai, o senhor precisa sair, conhecer novas pessoas! Nós já vimos tanto “mistérios dos mares” que não tem mais nenhum mistério para desvendar!

Mana deixou uma risadinha sair porque aquilo era verdade. O episódio que passava naquele momento repetia toda quarta feira. Allen se aliviou imensamente com aquilo.

—Hm? Promete? — Voltou a questionar, agora com um sorrisinho travesso. Mana deixou de olhá-lo e demorou alguns segundos, enquanto a presença do filho se esvaia rapidamente.

Sua vida inteira foi destinada ao pequeno e agora que ele estava para ir embora, o pai não sabia o que fazer. Era um náufrago naquele mundo de pais sem filhos, a famosa Síndrome do Ninho Vazio.

—Vou pensar, Allen. — Respondeu e gesticulou com a mão para que o menino fosse. — Vai antes que ele dê piti lá fora. — Tentou brincar, e o albino riu nasalado retirando a mão do ombro alheio.

Não era como se as coisas tivessem se resolvido, mas não havia muito o que se fazer ali. Portanto o mais novo foi em direção à porta e antes de sair, ameaçou:

—É bom o senhor ir, se não eu ligo para o Greg e ele vem te arrastar daqui! — A risada que Mana deu foi alta. Greg era um policial muito bruto. — Eu te amo, pai, divirta-se! — E a porta foi aberta e logo fechada.

Mana dentro, Allen fora.

Assim que pisou no exterior, deu de cara com o carro de Kanda parado ali como um objeto de museu. Arqueou as sobrancelhas para os vidros fumê e desceu os poucos degraus, inconscientemente lembrando-se do dia que visitaram a Holanda.

Assim que estava a poucos centímetros da maçaneta da porta, ergueu os punhos e deu duas batidinhas no vidro. O carro fez um barulho e Allen soube que foi destravado. Olhou para os dois lados por puro costume e entrou no veículo, sempre com muito cuidado para não sujar nada, arranhar nada ou bater a porta com força.

No final, o baque que deu na porta foi perfeito e isso lhe deu um certo orgulho por não ter que fazer Kanda fechá-la como daquela vez.

—Oi, Kanda! — Disse, alegremente, e olhou com a cabeça meio tombada para o mais velho. O moreno o encarou com uma sobrancelha arqueada e os olhos escondidos por óculos de sol. — Por que óculos? Não tem nem sol! — Cortou qualquer cumprimento que o outro pensasse em fazer ao esticar-se para olhar pelo painel e confirmar as nuvens cobrindo o céu.

Kanda bufou e as mãos foram até o volante. Ali estavam alguns anéis pratas em seus dedos e Allen anotou mentalmente que aquilo era novo. O mais velho estava o mais casual possível, calça jeans, blusa preta e uma jaqueta também jeans apoiada no encosto do seu banco.

—Boa tarde. — Foi só o que a voz rouca disse e Allen só meneou a cabeça, tirando os olhos de como ele estava vestido.

—Onde vamos? — Perguntou colocando o cinto enquanto ele dava partida e colocava o carro em movimento. Acabou por se assegurar que ele estava com cinto também, mas logo foi fuzilado por óculos de sol.

—Como assim onde vamos? — Ele perguntou, rude como só ele é, mas logo voltou a dirigir com um vinco entre as sobrancelhas.

—Como assim o quê? Não entendi. — Tombou a cabeça e aproveitou para jogar a própria jaqueta no banco traseiro.

Kanda bufou.

—Moyashi, foi você que me chamou para sair, você que sabe onde vamos. — Praticamente cuspiu a sentença, mas o albino pareceu não se importar com o tom de voz dele.

—É? Mas é você que está dirigindo, como eu vou saber para onde quer me levar? — Observou inocentemente, levando o indicador para coçar o canto dos lábios. Yuu imediatamente encarou aquela criatura boquiaberto porque não era possível.

—Não me diga que você… — Não, se recusou a terminar aquela sentença! Não era possível que havia passado a noite em claro, garantindo olheiras profundas, enquanto pensava em algum lugar, desistindo somente às quatro da manhã quando se convenceu com Alma no telefone que, se Allen chamou, Allen sabe o lugar, para estarem ambos sem ter ideia de onde ir naquele encontro!

Não, não era possível.

—Kanda? — O mais novo inclinou-se para ver a coloração vermelha que estava no pescoço dele e quase era possível ouvir a mente maquinando e xingamentos escorrendo pelos seus ouvidos. — Você ficou irritado? — Perguntou, com os olhos bem atentos, e quase mordendo a língua para não rir quando um bico se instalou nos lábios dele.

— Como você pode chamar alguém para sair e não saber onde ir? — Ele perguntou revoltado e Allen ficou estático por alguns segundos. Kanda projetava os lábios para frente, visivelmente irritado por não ter um roteiro e ter que fazer tudo no improviso, mas o mais novo achou aquela reação adorável, pois talvez significasse que ele se importava, afinal, ele chegara em sua casa mais cedo que o combinado e nem reclamara sobre o seu atraso de alguns minutos.

Essa constatação fez pequenas risadinhas escaparem de seus lábios e Yuu virar o rosto imediatamente para ver aquela reação.

O pequeno tinha os olhos fechados e a mão em formato de concha cobria os lábios finos e rosados, como se não tivesse nos seus planos ter rido assim.

Kanda sentiu um turbilhão de coisas estranhas, mas decidiu bufar alto para chamar a atenção dele. Deu certo, mas quase se arrependeu quando, no entanto, ele empurrou a mão inocentemente em sua coxa e disse em tom brincalhão:

—Deixa de ser velho, Bakanda! Não precisa se irritar com isso! A gente pode ir em qualquer lugar… — E, sem tirar a mão do lugar, ele escorregou no banco ao avistar uma placa mais adiante. Seus olhos fixaram nela e logo Yuu sentiu os dedos pequenos apertarem a sua carne em aviso. — Ali! — E ele apontou com o dedo, retirando a mão e se sentando comportado. — Problema resolvido, vamos para o Jardim de Luxemburgo! — Avisou, animadamente, quase pulando no banco como uma criança.

O mais velho prontamente virou o carro e seguiu o comando do GPS. Em poucos minutos, nos quais Allen começou a tagarelar sobre a estação e sobre algo mais que ele não ouviu, chegaram à estrada que levava ao lugar, o qual geralmente era cheio de turistas do mundo todo.

O Walker calou-se e olhou tudo atentamente, os olhos prateados rolando para todos os lugares e um sorrisinho animado no rosto.

—Eu nunca vim aqui. — Ele segredou assim que Kanda parou o carro e ambos já tiravam o cinto. — Você acha que tem alguma coisa de comer? — Perguntou, os olhos brilhando.

Era fofo… Quer dizer, só talvez.

Yuu revirou os olhos e desceu do carro. Em segundos Allen estava ao seu lado, animado demais para sequer pegar o casaco.

—Ai que divertido! — Ele disse como se tivesse fazendo a coisa mais incrível da face da terra e Kanda ia revirar os olhos de novo, mas o medo deles saírem das órbitas, e apenas isso, o fizeram encará-lo mais que os segundos necessários. — Vamos, vamos! — E lá estava suas pernas o levando para o outro lado da rua sem nem esperar pelo outro.

Kanda quase o seguiu, mas antes do terceiro passo, voltou e destravou o carro, abrindo a porta de trás e pegando os dois agasalhos. Colocou-os no braço, travou o carro novamente, e atravessou a rua, as botas baixas que usava ressoando alto no asfalto. Seus cabelos estavam soltos aquele dia e Allen quis saber por quê.

O menor estava parado logo no início do jardim, olhando para Yuu em desaprovação como uma criança que não vê a hora de sair correndo por aí.

—O que foi? — Perguntou assim que ele chegou ao seu lado e ambos começaram a andar.

—Pode ser que esfrie. — Kanda virou o rosto para o outro lado e Allen o olhou interrogativo por alguns segundos. Entretanto um menino passou correndo por eles e dispersou a atenção do pequeno.

—Incrível aqui estar movimentado mesmo sendo inverno! — Exclamou, vendo algumas famílias e casais andando. — Talvez seja porque não está tão frio, né? — Kanda concordou e Allen fixou seu olhar em algum carrinho de comida bem lá na frente, mas resolveu não falar nada até estarem próximos o suficiente para que pudesse comprar. Escorreu a mão para seu bolso traseiro, notando com alegria que sua carteira não ficara dentro do carro.

O lugar era enorme. Tão grande que nem parecia em Paris. Era todo dividido em jardins retangulares e quadrados e bem no meio de todos estava o Palácio de Luxemburgo, a sede do senado francês. Ele erguia-se imponente, com seus três andares em cor pastel ou gelo e suas muitas janelas revelando o estilo clássico da construção. Logo de frente para ele, havia um lago artificial enorme e de onde estavam, a água refletia a fachada do prédio, duplicando-o. Sem dúvidas que as flores, agora sem pétalas em decorrência do inverno, fariam o local ainda mais lindo, mas ali, naquele momento, Allen achou tudo muito perfeito.

Os chafarizes dos jardins não estavam ligados e as árvores estavam todas secas, sendo apenas ganhos retorcidos esperando a neve. Talvez pudesse ser melancólico, mas não feio. Não havia gansos no lago artificial e, com exceção de poucas crianças, tudo estava em um perfeito silêncio. Havia bancos de metal pintados de branco por onde passavam e eles poderiam sentar ali, porém continuaram andando até as mesinhas que estavam bem de frente para o palácio.

Até lá, no entanto, Allen perguntou simplesmente:

—Qual a sua cor preferida? — Ao ouvir a voz melodiosa, os olhos azul escuro desceram e focaram nas orbes dele. Poderia dizer que aquela era sua cor preferida, sem dúvidas, mas apenas deu de ombros enquanto se ocupava com a sensação de paz que tomava o seu corpo.

—Não tenho uma. — Ele poderia muito bem tirar algum sarro daquilo, mas Allen parecia tão… Limitou-se a pôr as mãos no bolso da calça jeans, os casacos prensados entre o braço e seu tronco.

—O quê? Como não?- O albino saltitante parou. Yuu o olhou como se aquilo fosse a dúvida mais ridícula do mundo, um ar presunçoso tomando sua face. Allen bufou. — Todo mundo tem uma cor preferida! — Defendeu plenamente o seu questionamento com as sobrancelhas clarinhas se franzindo levemente.

—Eu não.

—Ah, Kanda, claro que sim! Deve ter algum tom que te agrade, que te lembre boas coisas… — Gesticulou enquanto voltavam a andar. Estavam no meio do Jardim, se dirigindo às mesinhas e tento os galhos retorcidos abrindo passagem para eles. — Eu gosto muito de azul. — Falou, voltando a se animar. — Quer dizer, eu acho que gosto de todas as cores, sabe? Mas o azul me fascina.

—Por que? — Kanda se viu perguntando sem filtros na boca.

—Acho que é porque me remete ao céu e ao mar. Duas coisas infinitas e tão desconhecidas, mas tão belas. Me dá uma certa sensação de paz… — Finalizou, um sorriso singelo em seus lábios, como se estivesse satisfeito só pelo outro ter se mostrado curioso sobre alguma coisa. Yuu, porém, quebrou expectativas.

—Branco. — Afirmou, baixo e rouco, sem olhar para o pequeno, que imediatamente o olhou.

—A sua cor preferida? — Quis uma confirmação e o moreno maneou a cabeça. — Por que? — E Kanda tinha que responder, como ele havia feito.

—Também me traz paz. — E Allen sorriu satisfeito, porque era um avanço ele dizer algo assim.

Andaram mais alguns passos e o Walker achou aquele momento oportuno, mesmo que ainda não tivessem sentados na mesinha. A coisa simplesmente fluiu, e ele não saberia dizer se aquilo era bom ou ruim, o certo é que se sentiu confortável o suficiente perto de Yuu para dizer o que bem entendesse.

—Eu não quero que você me chame de Honey mais. — Foi mais baixo do que havia planejado, mas ele tinha certeza que Kanda ouvira.

O silêncio foi necessário para absorverem a frase, e foi o mais velho que o cortou.

—Por que? — Talvez o “Por que” fosse o “Okay” deles.

—Me remete a alguma coisa ruim… — Desabafou, um pouco hesitante no começo. — Eu não sei, me sinto um objeto quando você fala assim.

Kanda não tinha como revidar, aquilo era uma verdade. Todas suas Honeys eram objetos sexuais e ser Honey não era lá um título muito feliz.

—Eu sei que eu vou continuar sendo o seu Honey, mas você não poderia me chamar pelo nome? — Ele perguntou, a voz meiga propositalmente, e os olhos grandes pidões. Yuu poderia ceder facilmente se não... — É Allen, o meu nome. — Bom, sim, tudo seria lindo se ele não tivesse dito tão debochado.

Kanda torceu a boca.

—É claro que eu posso, Moyashi. — Disse afiado, apressando o passo até as mesinhas. Allen o olhou indignado.

—É Allen! — Falou mais alto, correndo uns passos até ele se sentar em uma mesa. — A-l-l-e-n, Bakanda!

—Moyashi. — Repetiu entonado por pura provocação e viu o menino bater o pé e cruzar os braços.

—Qual é a dificuldade, Kanda? — Ele deu de ombros e Allen bufou indignado, se sentando e olhando para o lago, claramente querendo mostrar o seu descontentamento. Eles ficaram em silêncio e o albino se distraiu com as ondas que o vento causava na água, sua irritação se dissipando mais rápido do que esperado. Novamente sua boca apenas se abriu e as palavras fluíram. — Podemos esquecer o que aconteceu aquele dia? — Perguntou, mordendo o lábio inferior e a vergonha tomando o seu rosto.

Kanda achou linda a cor que coloriu as bochechas dele e o pensamento apareceu e sumiu tão rápido que não lhe deu chance de negar. A demora na resposta proveniente em um moreno perdido na fofura do outro fez Allen se desesperar.

— É que… ahn… e-eu não queria e… f-foi muito constrangedor… — Tentou explicar, sentindo-se a pessoa mais estúpida ainda viva. Que embaraçoso! Ele deveria ter apenas deixado passar e fingido que não se lembrava de nada daquilo que, na hora, imaginou ser um sonho. Oh, Deus, que vergonha!

—Que dia? — Mas então Yuu disse tais palavras.

Allen virou o rosto e levantou o olhar tão rápido que sentiu-se zonzo por uns segundos. Suas bochechas ainda estavam coradas, mas os olhos e a boca em perfeito O demonstravam a sua incredulidade. O albino até tentou gaguejar alguma coisa, mas novamente o mais velho o cortou.

—Não sei do que está falando. Que dia? — Mostrou-lhe rosto mais limpo e sem nenhuma malícia, talvez a primeira vez que ele carregava um sorriso de lado sincero, totalmente desprovido de qualquer intenção que não fosse acalmar o menino.

O pequeno entendeu aquilo como a maior prova de confiança que ele pôde lhe dar e sorriu brilhantemente, agradecido pelo ato. Kanda sentiu-se leve.

Foi preciso apenas algumas piscadas de pálpebras e eles pareceram outra versão.

—Me conte sobre a Rússia, estou curioso. — Pediu com o rosto todo iluminado, um sorriso lindo adornando os lábios finos e Yuu não hesitou em abrir a boca e contar-lhe sobre os velhos repugnantes que estavam naquele jantar.

—--K&A---

—Você já tinha vindo aqui? — Allen segurava seu Hot Dog completo enquanto andava e ergueu seu olhar quando foi mordê-lo. Kanda o encarava como se o albino fosse derrubar tudo no chão e aquilo era um saco. — Hm? — Instigou uma resposta.

O mais velho desviou o olhar e encarou o imenso jardim numa coloração apagada.

—Sim. — Simples e prático.

—Com sua família? — Perguntou com a boca cheia e quando Yuu arqueou as sobrancelhas, Allen sentiu as bochechas esquentarem um pouquinho. Buscou ignorar a sensação.

—Com a minha mãe e meu pai.

—Hmmm sim… — Resmungou, tendo o cuidado de mastigar e engolir tudo antes de sua voz soar novamente. Kanda já sabia o que viria, porém, naquele momento, honestidade parecia ser a chave e ele estava à vontade demais para continuar com a pose misteriosa. — Eles estavam na Rússia?

—Meu pai estava. — O albino estava ocupado demais com seu lanche para notar o tom de voz dele abaixando aos poucos.

—E a sua mãe? — Notadamente curioso, ergueu os olhos novamente e parou de mastigar imediatamente quando o moreno não o olhou. Talvez nem todo mundo reparasse em como os ombros dele ficaram tensos, como a respiração pareceu mais profunda e como os lábios ficaram um pouco mais comprimidos.

Mas Allen reparou e como se tivesse adivinhado, sua estômago contraiu e de repente o lanche nem pareceu mais tão gostoso. Voltou os olhos claros para o Hot Dog e mastigou calmamente, devagar para conseguir tempo para pensar.

Com o silêncio compreensivo que se fez, os próprios passos mais silenciosos e o ambiente contribuindo para aquela intimidade, Yuu deu continuidade ao pensamento que estava em sua mente desde cedo.

Deixar Allen lhe conhecer.

—Não, ela não estava. Minha mãe faleceu quando eu era pequeno.

O mais novo nem se atreveu a colocar nada na boca, a simples ideia de um mini Kanda sofrendo pela morte da mãe lhe consumiu por inteiro. Ele abriu a boca para algumas palavras de consolo mas fechou-a imediatamente quando o moreno o fitou.

Seus olhos voltaram para o lanche e arqueou as sobrancelhas.

—Você não quer mais? — Percebeu o quão constrangido o pequeno estava e poderia até ter rido porque ele não era de dispensar comida.

Allen mordeu os lábios e negou com a cabeça.

—Então vamos jogar fora. — Yuu ditou e voltou a andar em um ritmo mais ligeiro pois logo a frente havia uma lixeira.

O mais velho andava a frente, como se soubesse que aquele espaço era necessário para o menino pensar. E apesar de realmente não gostar de lembrar dessas coisas, ele poderia fazer esse esforço pelo Moyashi.

—Ahn… Me desculpe tocar nesse assunto… — Allen sussurrou enquanto jogava metade do sanduíche no lixo. Mais tarde, quem sabe – com certeza –, ele se sentiria culpado, mas agora toda a sua atenção estava voltada para Kanda. — Eu sou curioso… — Tentou amenizar as coisas.

—Tudo bem, pode perguntar. — Sua sentença atraiu os olhos prateados e aquela cor tão parecida com os olhos de Margot davam ao moreno a certeza de que, por mais que o pequeno lhe perguntasse, ele se sentiria confortável em se abrir com alguém, se esse alguém fosse ele.

Na verdade, nem com Amelié as coisas foram assim. Ele nunca dizia nada pessoal, além do que todos já não soubessem.

Os olhinhos do Walker estavam curiosos, esperançosos e cuidadosos, tudo ao mesmo tempo, e Kanda podia reconhecer cada expressão facilmente. Assistiu, como em câmera lenta, ele buscar palavras gentis em sua mente e morder novamente os lábios para perguntar.

—Você tinha quantos anos? — Sussurrou bem baixinho, como se guardasse aquele segredo só para os dois, como se nem as árvores pudessem ficar sabendo. Os olhos estavam grandes e brilhantes, acolhedores.

Kanda desviou o olhar e voltaram a andar. A tarde inteira tinha se passado, e mesmo com ligações de Alma ou Lena, ambos estavam presos em uma bolha de intimidade crescente. Ainda precisavam passar por todo o jardim até chegarem ao carro e o mais velho sabia que tinha que deixar Allen perguntar o que quisesse.

—Eu tinha seis quando ela foi enterrada. — Respondeu, a voz firme. Alguém de fora diria que fora extremamente insensível o modo que a frase foi dita, mas o Walker sabia que aquilo era apenas o modo como uma criança tentou levar tudo. Jogando os próprios sentimentos para escanteio.

Na verdade, Kanda talvez nunca tivesse lidado realmente com a morte daquela pessoa tão querida. Talvez tivesse apenas bloqueado tudo e sofrido as consequências como se elas estivessem isoladas do evento.

—Foi um acidente? — Allen voltou a perguntar e, sim, ele estava sendo invasivo sim. Porém alguma coisa lhe dizia que ele precisava perguntar, precisava de uma resposta que talvez pudesse lhe ajudar a entendê-lo. Quem sabe ajudá-lo a lidar com aquela perda, mesmo muitos anos depois.

—Não, ela tinha uma doença que a fez esquecer de tudo, todos e dela própria.

Ah… As coisas se encaixaram tão rápido que o albino cogitou a hipótese de sua mente estar interligada com a do outro. Assim, interligada de tal forma, que poderia explicar porque Allen teve vontade de chorar e porque sua voz saiu tão falhada.

—Ela esqueceu de você? — Talvez aquilo não fosse nem uma voz, para falar a verdade. Talvez fosse o barulho do próprio vento, ou quem sabe coisa da imaginação de Kanda. Mas ele respondeu ainda assim.

—Sim. — O mesmo tom de voz, carregado de uma dor velada e enraizada.

Ser esquecido pela própria mãe. O quão doloroso era aquilo? O quão traumatizante para uma criança?

Como que para tentar tirar aquela áurea de angústia que se apossou do pequeno, um vento forte veio se arrastando pelo chão, como se saído dos poros do jardim. Um cheiro de terra e folhas secas, que misturou-se com o perfume de lótus de Kanda e rodeou o corpo do albino, que colocou os braços ao redor do corpo.

Estava anoitecendo e as nuvens carregadas estavam da cor cobre. A temperatura havia caído alguns graus, mas não era por esse motivo exatamente que Allen se abraçava. Mesmo que por isso Kanda tenha colocado a jaqueta do pequeno sobre seus ombros.

—Obrigado… — Sussurrou, enfiando os braços pelo tecido e sentindo-se mais acolhido. Assistiu pela canto dos olhos o moreno fazer o mesmo e depois voltar com as mãos para o bolso.

Já podiam ver o carro perfeitamente e Allen sabia que o assunto pesado tinha que ser deixado para trás ali, naquele jardim imenso, para ser dissipado pelo vento. Então resolveu perguntá-lo sobre o que as pessoas não perguntam quando sabem que alguém está morto.

O assunto que as pessoas mais evitam perguntar.

—Como ela era? Quero dizer, antes de tudo? — Disse, tão inseguro a ponto de segurar rapidamente a barra da jaqueta dele, chamando sua atenção. Kanda olhou para si, o cabelo todo jogado por cima do ombro esquerdo, deixando o perfil dele claro para Allen ver. Vasculhou todo o rosto dele procurando algum motivo para aquela pergunta que fê-lo arquear as sobrancelhas.

No entanto, Allen era surpreendente ao ponto de exibir nada mais que ingenuidade e curiosidade pura em seu olhar. Sem pena, sem tristeza, afinal esses eram sentimentos dos quais Kanda não precisava.

Não era fácil, não. Longe disso.

Como alguém que evitou pensar ou falar nesse assunto por anos e mais anos, retomá-lo assim era uma barreira que fora ignorada com sucesso. Voltar ao tópico era como abrir um livro que você já não quer ler. Entretanto, ali estava o albino, entregando o livro em sua mão e pedindo para lê-lo para si.

Yuu voltou a olhar para frente e o pequeno não sabia se ele ia falar ou não, então apenas apertou os dedos no tecido jeans, como se dissesse “tudo bem” para qualquer que fosse sua reação, e depois o soltou.

Os azuis escuro estavam quase pretos, fitando com os lábios enrijecidos o horizonte.

Como ela era? Ele se perguntava. Como responder uma pergunta dessas se durante todo esse tempo ele apenas ignorou-a e deixou o esquecimento levar tudo?

Oh, que hipocrisia. Agora Kanda se sentia um estúpido também. Agora tinha em mente que esqueceu sua mãe da mesma forma que ela esqueceu-se dele. Talvez até de forma mais cruel, uma vez que fez isso por querer, enquanto Margot não teve escolha nenhuma.

A culpa recaiu sobre seus ombros como uma bigorna carregada por anos de sofrimento em silêncio.

Ele não lembrava da voz dela, ele não lembrava da cor exata do cabelo dela, não lembrava se quer de como as mãos dela se encaixavam em suas costas quando ela lhe abraçava. Na sua cabeça, Margot era apenas a mulher do hospital, que lhe deu a luz e que atormentou sua vida com pesadelos e lã.

—Sabe, eu posso estar errado… — Allen abriu a boca mais uma vez e Yuu o olhou alerta, pois não esperava que ele fosse falar agora. — Mas quando a minha avó morreu, o meu pai disse que fazia bem a gente chorar um pouco e tentar lembrar da pessoa. — Deu um sorrisinho murcho, só para lhe dizer que aquela era a sua opinião e que Kanda não precisava concordar com ela. — A primeira coisa que eu esqueci foi a voz dela. Eu não sabia como ela falava, e aquilo foi tão estranho porque parecia que ela nunca tinha existido. Parecia que era coisa só da minha cabeça.

Kanda observava atentamente cada palavra que saia dos lábios um pouco rachados dele, Allen parecendo falar mais para si mesmo, perdido em pensamentos. O moreno duvidava muito que ele sabia o que estava acontecendo.

—Mas eu lembrava que ela sempre brigava com o pai quando ele colocava açúcar no chá. — Riu baixinho e Yuu deu-se conta que queria rir daquele jeito, como com orgulho da pessoa que sua mãe era. Sem tristeza, sem mágoa. — Eu coloco açúcar no chá, mas toda vez que estou para fazer, eu me lembro disso. Para mim, é como uma forma de me redimir por ter esquecido os detalhes dela, por ter esquecido que ela existiu, sabe… Então meio que… — Assim que o menor saiu do transe que era falar aquilo sem nem pensar no que saia de sua boca, começou a se embolar, e quando notou o olhar fixo de Kanda, suas bochechas pegaram fogo.

Estava pronto para fechar as sobrancelhas e rebater alguma coisa, tentar alguma piada quando um sorrisinho mínimo surgiu no canto dos lábios dele. Allen paralisou enquanto ele continuava andando até o carro. Passaram poucos segundos e quando eles estavam atravessando a rua, Kanda começou a falar.

Era o dia oficial de Kanda Yuu falando.

—O nome dela era Margot, ela era uma estilista francesa. Tinha um ateliê, era ruiva, um ruivo que podia ser laranja ou chamuscado. Não me lembro bem. — Começou e Allen deu toda a sua alma para o que ele dizia. Chegaram no carro e Kanda o destravou. — Ela também tinha olhos prateados. — Yuu olhou para Allen, que sorriu contido e satisfeito.

—Foi por isso que me escolheu? — O sorriso aumentou aos poucos e teve um toque travesso no final.

—Nunca.

E entraram no carro.

—--K&A---

Não era um sentimento que Allen pensava que sentiria, mas ali, sentado no banco do carro, em frente a sua casa, aquela sensação lhe arrebatou.

Ele não queria sair.

O motor ressoava silencioso, e um zumbido calmante era a única coisa que delatava o carro ainda ligado. O albino encarava a porta de sua casa e sabia que era encarado de volta. Encarado pelos olhos de Kanda, com direito às bolsas de insônia e não óculos Ray Ban caros.

Ele também não esperava que fosse falar aquilo.

—Eu gostei de hoje, foi muito divertido. — Mas não havia muito coisa para si fazer. A honestidade que cultivaram naquela tarde parecia manter-se com eles. Assim, Allen se virou e sorriu para Kanda.

O morenosomente assentiu, sem rir, porque um sorriso de Kanda Yuu não vinha toda hora.

—Nós podemos fazer de novo… — Comentou e o moreno arqueou a sobrancelhas para aquela sugestão nada inocente. Os olhos prateados o olharam como se passassem algo psiquicamente, portanto o que veio depois não foi muita surpresa. — Você está livre amanhã? — A outra sobrancelha de Kanda se levantou e o albino achou aquilo inexplicavelmente engraçado e constrangedor.

Sua risada foi acompanhada da própria cabeça mexendo negativamente. Yuu tirou uma das mãos do volante e jogou o cabelo para trás, inclinando-se um pouco sobre o volante e tentando olhá-lo, já que o pequeno ria curvado.

—É sério! — O mais novo disse, em meio a risadas, talvez para si mesmo. Ele era louco, o moreno chegou a conclusão.

—Moyashi, você tem problemas. — Kanda resmungou e Allen o olhou risonho, os olhos umedecidos.

—Deixa disso, Bakanda! — Revirou os olhos, mas estava claro que tudo não passava de uma brincadeira. Falando nisso… — Já sei! — Ele iluminou como uma estrela. — O que acha de fazermos um jogo?? — Perguntou, tão rapidamente animado que o outro cogitou voltar a pôr os óculos escuros a fim de fugir dos sóis que eram os olhos dele naquele momento.

—É o quê? — Questionou, muito confuso com a linha de raciocínio louca do albino.

—Faz assim, vamos fingir que somos turistas! — Allen começou com mais uma de suas ideias mirabolantes que, para ele, eram o máximo. — Na verdade, eu sou! Até porque eu sou inglês… — Pensou sozinho enquanto observava o painel de couro do carro. Kanda estava tentando, ele jura estava.

O menor pensou por uns segundos e voltou a falar em um tom mandão.

—Vamos fazer assim, eu sou um turista e você mora aqui. — Ergueu as mãos porque para ele aquilo era óbvio. — E você tem até sexta para me apresentar Paris! — Pausa para o rosto surpreso de Kanda. — Okay, tudo bem, uma parte dela! — Riu. — O que você acha?

Kanda estava tão perplexo com a ideia de apresentar Paris em dois dias que não soube responder. Também não era como se o Walker lhe desse tempo.

—Bom, quem cala, consente. — Deu de ombros, com falsa inocência, e abriu a porta do carro. — Até amanhã, Bakanda!

Allen, satisfeito consigo próprio, começou a se afastar sem esperar uma resposta, porém sua mente criativa lembrou de algo de última hora.

—Ah, Kanda! — Parou e voltou atrás, batendo na janela até Yuu a abaixar. Logo, o Walker curvou-se levemente na janela, o suficiente para olhar nos olhos do outro. Havia um pequeno sorriso querendo aparecer nos lábios finos.

—Você sabe que eu não esqueceria de você, não importa o quê, certo?

Ele sorriu contido, os olhos com um brilho distinto, e virou as costas. Allen subiu as escadas graciosamente, não demorando mais que três segundos para abrir a porta e entrar sem olhar para trás. Já Kanda não soube quanto tempo ficou parado na frente da residência, com a cabeça enfiada nos braços e apoiada no volante.

“E de novo me estresso,

Me passa a mil devaneios o que te faz ser tão disperso

Teu jeito tolo que eu adoro por defeito.

Sensação.

Mesmo com tudo isso adoro ter você nas mãos.”

— JahS

Notas finais
Gente, eu preciso deixar isso claro, por questão de minha consciência. Bom, tem muita gente com pressa de lemon, de pegação e de um fim. Devo dizer que eu não sou dotada da capacidade para escrever e desenrolar as coisas rápido. Eu tenho dificuldades em fazer um relacionamento evoluir, talvez por ser quem eu sou ou talvez por ter medo de avançar. De toda forma, essa fanfic está sendo um exercício de paciência para muitos, eu sei. Tentei agilizar e deu bosta, acabei prolongando mais ainda. Então cheguei à conclusão que preciso fazer as coisas no meu tempo, calma, devagar, do jeito que eu acho certo. Infelizmente eu não recomendo a leitura para quem não aguenta esperar por isso. Estou tentando o meu melhor, para fazer algo legal, firme e divertido. Vai demorar? Não tanto, mas me cobraram lemon há uns dez capítulos atrás. Eu não consigo, me desculpem. Vou tentar fazer o melhor possível, mesmo sendo devagar, para que vocês se agradem. Mas o meu limite é esse. Kanda e Allen são complexos de lidar. Escrever sem sair da personalidade deles é complicado e nem sempre eu consigo. Gostaria eu que eles fossem menos complexos. Porém juntou a minha e a personalidade deles e aí temos toda essa dificuldade. * fim do desabafo* Enfim! Muito obrigada pelos comentários incríveis que vocês me mandaram! Muitos me disseram para não ter pressa, para fazer as coisas no meu tempo e com carinho porque não importa o tempo, eles ainda estariam ali. Isso me faz querer gritar que eu tenho os melhores leitores do mundo. Eu agradeço muito todos os comentários e o apoio e os elogios e vocês me colocando para cima e sendo paciente comigo. É por vocês que eu escrevo, são você que eu amo. Muito obrigada, um grande beijo e até o próximo!