Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Uma boa noite e bom capítulo a todos! Grande beijo!

Allen havia separado um bom tempo para se arrumar naquele dia, portanto, mesmo após ter trocados de roupas pelo menos três vezes, ele se encontrava adiantado. Vestia uma roupa casual, com galochas, um suéter e um gorro claros, por motivos de “chuva de inverno” e agora aguardava sentadinho no sofá, sozinho com seus próprios pensamentos. Isso lhe fazia pensar que aquela ideia era realmente estúpida, apesar de animadora. Afinal que tipo de pessoa pensa em algo assim? Turistar na própria cidade?

Apesar de se achar bobo, Allen sabia que Yuu compareceria no horário marcado. Tinha confiança nisso.

O albino tinha feito o desjejum, uma vez que não era de seu conhecimento onde iriam. Estava tudo a cargo de Kanda e a ansiedade o corroía. Havia reservado seus dias para as surpresas que ele lhe apresentaria, e nem avisou à Lena o que estavam fazendo, tal era a particularidade entre os dois.

Lenalee, aliás, parecia divertir-se naquele recesso e a última mensagem dela foi perguntando como foi a viagem de volta e como estavam as coisas com o moreno. Obviamente, foi Allen responder um único "Oi" que ela veio contando sobre Lavi. E era melhor nem pensar nisso se não o Walker ficava irritado.

O tom seco das mensagem conseguia passar exatamente seu desgosto com o introsamento daqueles dois e talvez ela tenha achado, com razão, que ele estava bravo, por isso o garoto fez uma nota mental de que iria ligar mais tarde. Mas só mais tarde, porque nesse momento estava a cinco minutos do horário marcado e resolveu esperar do lado de fora.

Levantou-se devagar e colocou a pequena bailarina, com a qual brincava, de volta na mesa de centro. Saiu a passos leves, evitando acordar Mana, que chegara em casa tarde e ligeiramente embriagado. Allen desconfiou que todos do departamento haviam recebido folga e optou por não incomodá-lo.

Bem como no dia anterior, hoje o céu estava tão nublado quanto. As árvores estavam quase totalmente sem folhas e o asfalto molhado, entretanto a garoa tinha dado uma pausa e o Walker não se importou de esperar um pouco enquanto aproveitava a brisa úmida.

Seu coração batia rápido, mas falhou uma batida quando notou o carro de Kanda virar a esquina. Lento e silenciosamente, o veículo parou junto à calçada e Yuu nem se deu ao trabalho de desligá-lo. Allen respirou fundo, tentando acalmar a cabeça agitada e os hormônios à flor da pele, e entrou no mesmo, pronto para cumprimentá-lo quando percebeu que o moreno estava ao telefone.

—Sim… — A voz dele estava séria e num tom profissional. Havia um vinco de concentração no meio de sua testa e ele tinha os lábios comprimidos enquanto segurava o celular com uma mão.

Allen não conseguiu evitar passar o olhar por todo o corpo dele, reparando até mesmo em como os dedos com anéis apertavam forte o volante. Não soube dizer quanto tempo ficou ali, com os lábios entreabertos, perdido no ser ao seu lado, mas foi quando ele voltou a falar que o menor se obrigou a pôr o cinto.

—Ligue para o banco em Genebra e peça para o gerente me fazer a papelada. Meu pai já está ciente? — Alguma coisa devia ter acontecido e o albino, já de cinto colocado, prestava atenção na conversa, encarando Kanda descaradamente enquanto mordia levemente o lábio inferior, como quem quer adivinhar o que há de errado.

E, bem, Allen sentia que podia dizer o estado mental de Kanda só de olhar para ele. Além de que falar sobre finanças o interessava, principalmente com sua experiência na Noah´s Ark.

—Pois então ligue para ele, eu não posso resolver tudo agora. — Com isso, ele voltou o olhar para o garoto ao seu lado e seus olhos se encontraram rapidamente, até o mais velho ser atraído para os lábios finos que estavam sendo judiados.

Sua atenção se prendeu ali, mas ele parecia dividido entre o que estava ouvindo, a visão a sua frente, ou alguma coisa que atormentava sua mente. Allen franziu o cenho para aquilo, Yuu parecia sobrecarregado, porém ficou um pouco aliviado quando notou que ele estava sem olheiras profundas.

Talvez tivesse tido uma boa noite de sono.

Quase sorriu com o pensamento, pois ele mesmo dormiu super bem, entretanto o moreno logo fechou o cenho de repente e sua voz começou a esbravejar.

—Isso foi uma incompetência! Quantos funcionários aptos a essa função foram contratados para esses inúteis ainda terem deixado isso acontecer? Onde estava a inspeção? Eu quero um relatório no meu e-mail imediatamente e ligue agora para Yuji e deixe-o a par. — O Walker se mexeu desconfortável e eles ainda estavam parados com o carro ligado na frente de sua casa. — Não, é óbvio que não. Estou ocupado agora. — Poucos segundos. — Importante e pessoal, me providencie os documentos e não quero ligações até que meu pai esteja sabendo.

O telefone foi desligado e o de olhos claros tinha ficado aquecido ao ser referido como “importante e pessoal”. Aquilo o deixou alegre ao ponto de receber Kanda com um sorriso no rosto.

—Bom dia… — Sussurrou baixinho, esfregando a mão gentilmente no braço dele, como se quisesse evitar mais exaltações. Sem saber, aquilo relaxou Yuu de imediato, que apenas permitiu-se liberar o ar que prendia e soltar o volante para limpar o suor das palmas na calça.

—Bom dia. — Resmungou. Seu mal humor matinal e um problema da Lune logo de manhã o impulsionavam a responder rudemente, mas sua mente pareceu alertá-lo que ali era Allen. E ele estava se esforçando.

—Aconteceu alguma coisa? — Era bem óbvio o caráter retórico da pergunta, porém o albino não queria invadir o espaço dele e apenas deixou a pergunta pairar no ar.

Novamente a necessidade de ser sincero com o garoto invadiu Yuu, mas ele não sabia se seria o certo. Allen não tinha nada a ver com a empresa e não precisava estragar o encontro deles daquela forma.

Ou pelo menos era isso que imaginava, pois sinceramente não tinha ideia do que fazer ou como se portar. Tudo que fazia ou assumia ser certo provinha de algumas aulas de etiquetas antigas que foram ignoradas e que Kanda jamais imaginou precisar.

Se arrependimento matasse…

Percebendo a batalha interna dele, o Walker retirou a mão do braço alheio e ajeitou o gorro, os olhos prateados com alguns fios azuis cristalinos próximos à pupila.

—Você sabe que eu entendo alguma coisa por causa da Noah´s, então posso te ajudar, mas tudo bem se não quiser falar. — E ficou por assim mesmo, não porque Kanda não confiava nele, mas porque já tinha jogado o extravio de mercadoria para o fundo da sua mente, enquanto encarava o perfil fino dele e aspirava fundo o perfume que ele usava.

Era relaxante ter Allen por perto, apesar de que aquela mesma criaturinha tinha uma incrível capacidade de tirá-lo de compostura e mudar tudo o que um dia imaginou ser certo.

—Posso ligar o rádio? — Ele perguntou, tirando o moreno de seus pensamentos. O mais velho demorou algum tempo para racionar, provavelmente ficando com cara de bobo ao que Allen o encarava perverso. — Bakandaa! — Balançou a mão na frente do rosto dele, exigindo uma ação.

No mesmo segundo, Kanda franziu o cenho e apertou os lábios, que antes estavam meio entreabertos. Ele virou o corpo para frente, ajeitando a postura e pisando no acelerador. Finalmente o carro estava na pista, Allen ainda sem sua resposta.

—Posso? — E levou o dedinho para o rádio. Obviamente Kanda não iria negar, uma vez que lembrava-se bem o quão agradável foi a ida até a Holanda ao som de um jazz.

Logo uma música cheia de instrumentos e com um ritmo alegre começou. Parecia o tipo de música que hippies ouviriam e o moreno não se identificava nem um pouco com eles, apesar de não poder negar que a música era agradável.

Ou talvez fosse apenas Allen que parecia gostar dela.

Kanda revirou os olhos para si mesmo e antes que pudesse se afundar em acusações do tipo “ele está te destruindo”, “você está amolecendo”, a voz doce do garoto soou novamente.

—O que vamos fazer hoje, hm guia? — Perguntou animado. Kanda olhou para ele de rabo de olho e levantou a sobrancelha, gesto que o Walker já aprendera a interpretação. — O quê? É isso o que você é, Bakanda! — Ele riu como se adorasse rotulá-lo. — Meu guia turístico.

E se alguém acusasse Kanda de ter repetido aquela última sentença mentalmente várias vezes só para ouvir o pronome possessivo na voz dele, ele negaria. Portanto ele apenas bufou e virou um pouco mais o rosto, porque de jeito nenhum seu rosto tinha esquentado.

Ouviu o pequeno resmungar alguma coisa e começar a ficar inquieto com a surpresa de onde visitariam. Ele olhava para todos os lados, vez ou outra comentando sobre uma padaria ou um cachorrinho, sem se importar com o jeito mais introvertido do companheiro.

Após um tempo presos em congestionamentos por ruas muito estreitas, um Allen que antes murmurava o ritmo da música resolveu deixar de mexer no porta luvas e perguntar impaciente.

—É sério que você não vai me falar? — Ele tinha uma leve carranca fofa no rosto e os braços se cruzaram.

—Qual o problema de você esperar? Não vi problema quando fomos para a Holanda. — Pontuou e Allen pensou um pouco, chegando à uma conclusão intrigante.

—Pode ser… — Disse e Kanda sorriu de canto, satisfeito. Assim tentou desligar a mente e o que o menino acrescentou a fim de manter sua dignidade ele não ouviu. — Mas naquela época eu nem confiava tanto em você… — Allen ignorou a casualidade daquela viagem, o jeito que se sentiu confortável dormindo no carro e o sentimento gostoso que tomava seu corpo quando lembrava de cada mínimo detalhe. — Então eu não podia simplesmente perguntar.

—Você perguntou, Moyashi, e eu respondi. — Ao ver-se incapaz de ignorá-lo, Kanda revirou os olhos porque a lógica dele não fazia sentido nenhum. Quer dizer que quando você não confia em uma pessoa, pode entrar no carro dela, deixá-la te levar para qualquer lugar e ainda não perguntar por falta de intimidade? Que tipo de reação é essa?

Não era possível que ele era tão ingênuo e despreocupado.

—Ahá! — Mas, aparentemente, Allen não se importava. — Então porque não responde agora? — Um sorriso vitorioso apareceu em seus lábios e, meu Deus…

Yuu achou ridículo e não respondeu.

— Ahh, Kanda! — Fez manha. — É só me dar uma dica! — Juntou a boca num biquinho.

Kanda achava tudo demais para si. Era muita coisa para lidar.

—Se está pensando que vamos à Torre Eiffel, está muito enganado. — Disse, já descartando a hipótese de piquenique na frente da atração turística mais famosa da cidade.

—Ah… — Ele pareceu murchar um pouquinho e o mais velho tencionou só com a possibilidade de não agradá-lo. Na verdade, não havia pensado em nada demais, era apenas um lugar comum e simples, sem nada de turístico e de repente a possibilidade de decepcioná-lo o afligiu. — Se bem que eu nunca achei que piqueniques fossem o seu tipo…

Não sabia se aquilo era um elogio ou não, portanto ficou calado até avistar a passagem que procurava.

Em meio a ruelas sem espaço para carros, abria-se uma passagem rodeada de prédios simples de no máximo quatro andares. Feitos de tijolinhos cinza claros, o alto dos prédios se confundiam com o dia nublado e chuvoso, compondo mais uma imagem típica do inverno parisiense. Não havia nada demais no local, pelo menos até ali, e então Kanda estacionou o carro.

Desceram e agora Allen estava andando ao lado do moreno, curioso e olhando para todos os lados em busca de alguma placa de identificação. Naquela parte de Paris, não estava tendo muito movimento, apesar do fluxo de carros. A avenida era margeada por vitrines escuras de cafés e bloquinhos de pedra formavam o calçamento. O clima era todo invernoso, mas Yuu parecia pertencer àquela atmosfera quando andava dois passos a frente com as mãos no bolso do casaco.

—Onde estamos? — Inqueriu assim que dobraram na passagem e começaram a andar por uma rua asfaltada e aparentemente proibida para carros. Era na verdade uma passagem, como um espaço definido apenas para pedestres passearem e as calçadas preenchidas de mesinhas e lojas.

—Praça Saint Honoré. — Respondeu e o sotaque saiu especialmente carregado. Allen sentiu um arrepio que o fez sorrir.

—Eu nunca vim aqui. — Admitiu, lendo os nomes presentes nos toldos dos estabelecimentos. Haviam bares, restaurantes, lojas pequenininhas de doces e a maioria estava aberta com alguns turistas indo e vindo. Pessoas carregavam sacolas e tiravam fotos, o barulho dos carros da avenida ficando longe.

—É pouco conhecido, apesar de ser quase tradicional. — O moreno explicou assim que terminaram a caminhada e Allen se viu de frente para um edifício de vidro, em forma de retângulo, com uns seis andares. Era, na verdade, uma galeria espelhada, parecendo uma estufa, bem alta e isolada no meio do quarteirão de prédios históricos. As mesinhas estavam ali e era tudo tão cinza que o albino só focava nos vidros, os quais refletiam em seu olhar. O teto de vidro do local deixava o céu ser visto e parecia que tudo era uma coisa só.

O primeiro a dar um passo foi Yuu e mais novo deixou-se ser guiado para dentro da construção, sorrindo abobado para os vidros, que pareciam tão limpos quanto os sentimentos que, agora, ele tinha por Kanda.

—--AW&YK---

— Eu não sabia que eles vendiam essas coisas aqui… — Allen comentou, enquanto pegava e avaliava uma caixinha de música em uma loja de coisas retrô. Kanda estava ao seu lado, mexendo em alguma coisa aparentemente inutil que ele julgava com o cenho franzindo. Era engraçado. — Você comprou o globo de neve numa lojinha dessas? — Perguntou, olhando por cima do ombro rapidamente e começando a andar.

Kanda o seguiu e as palavras fluíram.

—Não, comprei na frente da catedral de Moscou. — Eram corredores de coisas velhas e o moreno se perguntava o que raios uma loja daquelas fazia na galeria da Saint.

—Ah, então você estava visitando... — Conversavam quase aos sussurros, como se segredassem algo no silêncio profundo das prateleiras de ferro escuro.

As mãos delicadas do albino passavam pela poeira, com a qual ele não parecia se importar, e os dedos tocavam porta retratos antigos, cartões postais da época da guerra e até escovas de cabelo com cerdas do século XIX.

—Na verdade, não. Não tive tempo. Só parei para comprar. — Kanda confessou como se não fosse nada enquanto franzia as sobrancelhas para uma bugiganga que rodava em suas mãos.

Allen, no entanto, sentiu-se tão cheio que olhou para ele assustado.

—Você parou só para comprar para mim? Pediu o carro para parar e desceu? — Falou baixinho, envergonhado, mas com um tom de quem não acreditava.

Yuu achou burrice uma pergunta óbvia daquelas, mas se segurou para não revirar os olhos.

—Claro que sim, Moyashi, ou você esperava que eu saltasse do carro em movimento? — Disse sarcástico, com um canto da boca subindo de orgulho por aquela resposta genial.

O mais novo, entretanto, apenas encarou, abobado, ele devolver o objeto para uma prateleira mais alta. A surpresa foi tanta que nem tempo de formular uma resposta ele teve.

Kanda estranhou e olhou para o pequeno, que tinha as bochechas um pouco mais vermelhas.

—Está com frio? — Perguntou de supetão, perdendo o tom sussurrado. A voz grossa fez os joelhos de Allen amolecerem, a preocupação escondida também.

—N-não... — O albino desviou o olhar para o chão, começando a mexer nos próprios dedos de forma inconsciente. Sentia-se pequeno e vulnerável, e a vergonha coloria seu rosto. O mais velho ainda o encarou por mais alguns segundos, como se tentasse descobrir algo, mas achou melhor não pressioná-lo, apesar de que sua vontade mesmo era tocar nas maçãs do rosto coradas e sentir a maciez da pele dele.

—Certo... Vamos comer alguma coisa, então? — Desviou o assunto enquanto se dirigia para fora da loja. Kanda agradecia aos céus saber que ele podia quebrar o clima ruim convidando o garoto para comer e logo estavam se dirigindo para fora do estabelecimento.

O céu havia se carregado de nuvens escuras e o cheiro de chuva já estava mais forte quando deixaram a galeria. O mais sensato, sem dúvidas, seria ir para casa e proteger-se do temporal que cairia mais tarde. Porém, enquanto muito turistas se retiravam, Allen e Kanda procuravam alguns lugar para comer algo interessante e bem parisiense.

O mais novo andava no meio fio, um pé ante ao outro, equilibrando-se nele. Erguia os braços como um acrobata na corda bamba e achava muito divertido o que fazia enquanto comentava sobre os novos filmes que sairiam naquele mês. O moreno, por sua vez, seguia do lado da rua, fielmente ao lado do outro, naturalmente preparado para caso ele se desequilibrasse.

Porém, no final das contas, acabaram sentados em banquinhos de um caminhão food struck estacionado na praça. O próprio nome – La Cantine California – denunciava a comida estrangeira e no final estavam ambos comendo tacos mexicanos e Allen conversando com os donos do estabelecimento.

Logo, no entanto, gotas grossas de chuva começaram aqui e ali e não foi preciso mais que alguns segundos para todos começarem a recolherem os banquinhos e fecharem os toldos.

Allen empurrou a comida toda goela abaixo e ficou com as bochechas infladas enquanto tentava mastigar e raciocinar sobre o que deveria fazer, e Yuu até teria feito cara feia, mas estava mais preocupado em colocar seu garoto dentro do carro, onde o vento não cortava de tão gelado.

—Vamos para o carro, antes que a chuva engr... — E foi só abrir a boca, que um clarão tomou o céu, fazendo o albino encolher-se um pouco, e a chuva caiu com peso de bigornas.

Kanda tomou a frente e segurou no antebraço do mais novo, puxando-o pelas calçadas cinza escuro enquanto eram encharcados pela tempestade. O vento era tanto que forçava os olhos a se fecharem minimamente e a força da chuva deixava tudo branco, como uma cortina de água e névoa.

O Walker andava rápido, quase correndo, e deixava-se guiar, já que sua atenção estava toda nas suas mãos juntas e nas costas molhadas à frente.

Felizmente, não demorou mais que três minutos para encontrarem o carro e imediatamente, Allen se via sendo posto dentro do carro e Yuu dando a volta correndo e entrando do outro lado.

Agora respiravam.

Os casacos molhavam os bancos de couro, e gotas pingavam no carpete, mas por hora estavam mais preocupados em ligar o aquecedor e tirar toda aquela roupa ensopada. E então estavam ambos só com uma camisa no corpo, estacionados no mesmo lugar e com o aquecedor no máximo, enquanto a chuva retumbava pela lataria do carro e Paris era castigava pela chuva.

Se estreitassem os olhos, podiam ver pessoas correndo pelas ruas com capas de chuva amarelas ou com pastas tentando cobrir inutilmente a cabeça, mas eles estavam ali, silenciosos e aconchegados, com cabelos caindo pela testa e satisfação enchendo o peito.

Estavam felizes só em ter o outro ali e porque aquela era uma história interessante de contar : "Estávamos num encontro e então caiu uma tempestade e eu realizei que ele faz até as coisas ruins ficarem boas."

O albino respirou fundo, sem som, e finalmente olhou para o lado.

O moreno estava com o cotovelo apoiado na porta e a cabeça um pouco tombada para trás. Os olhos fechados, os cílios molhados e o cabelo torcido para um lado, pingando chuva.

Como sempre, ele parecia uma obra de arte, mesmo molhado e secando com aquecedor, o que o deixaria com provável cheiro de cachorro molhado.

E ainda assim, olhando para Kanda de perto, Allen sentia todas as suas certezas serem dissolvidas pelo ácido que borbulhava no seu estômago. Era impossível desvendar a atmosfera que se passava ali, mas o albino sentia uma tranquilidade e confiança absurda, a ponto de não conseguir piscar direito ao olhá-lo, nem desfazer o formigamento na mão que o impulsionava a tocá-lo.

Aquilo estava mais para uma situação que era para ser e só. Como se ambos estivessem presos ao outro e tivesse que ser assim. E não era por causa de um brinco. Parecia até destino! Era porque os dois juntos era para ser, independente do quão conflitante era a situação. O cosmos queria ambos dentro daquele carro, presos na presença do outro, dividindo o mesmo ar e ouvindo "Blue" da Marina And The Diamonds tocar.

O que era bem irônico, porque Kanda também queria mais tempo com ele, sempre e sempre, como na letra da música.

—--K&A---

—Vamos acordar!!! — Mana invadiu o quarto gritando animadamente e o pobre Allen só pode se encolher na cama. — Vamos acordar para assistir tevê com o pai!! -Ele entonava cada palavra como se cantasse ou como se fosse um palhaço chamando para a atração do circo. Entrou com tudo, abrindo as cortinas pesadas do quarto e o menino quis morrer.

—Pai... — Choramingou com profunda tristeza. Tudo que sua mente raciocinava era que seu pai estava acordando-o cedo com toda aquela bagunça justo nos últimos dias de recesso.

—Nada de pai. Seja o bom filho que você é, levante da cama e vamos passar o dia alegres. — O pai basicamente ordenava, começando a fazer todo o barulho possível para tornar a estadia do albino na cama mais torturante.

—Eu já assisti os episódios... várias vezes... — Enfiou a cara no travesseiro, bem triste mesmo.

—O quê? Não entendi nada do que você falou. — Deu de ombros, puxando cobertor do corpo quentinho e Allen chorou, de verdade. — Vamos, levanta, fiz waffles. — E saiu do quarto, deixando um garoto destruído na cama.

A animação de Mana era louvável, levando em conta o quão para baixo ele estava nos últimos dias. Mas Allen estava cansado! Os últimos dois dias foram vividos fora de casa e andar de um lado para o outro com Kanda tinha tido mentalmente exaustivo.

Você gosta dele!

Era bem óbvio, aliás. Já não tinha mais como negar. Passava o dia inteiro com Kanda e ainda virava as madrugadas com seus sonhos com ele.

Nem todos eram indecentes, diga-se de passagem.

Passar o dia com ele era bem peculiar, também. Pegava-se observando-o atentamente. Yuu tinha uma mania de franzir as sobrancelhas para quase tudo e quando Allen começava a falar, ele tentava ao máximo encará-lo, ou ouvi-lo bem, ainda que não fizesse muitos comentários.

Mas as coisas estavam evoluindo. Ele se abria mais e o albino sentia que, após saber da história com a mãe dele, a confiança era mútua. O pequeno se sentia seguro perto de Kanda, como se pudesse abaixar totalmente a guarda. Era bom sentia a presença grande ao seu lado e, cada vez mais, Allen sentia a necessidade de pôr essa confiança em toques.

—Você vai vir ou não? — Mana gritou. — Você prometeu passar o dia comigo hoje!

—Já vou! — Gritou de volta e pegou o celular para ver as horas. No entanto, sua atenção foi toda voltada para a notificação de mensagem de Kanda.

"Que horas eu posso buscar você?"

E, Oh meu Deus!

Allen tinha se esquecido completamente de avisá-lo que hoje passaria o dia com seu pai! E apesar de se sentir culpado, ele não poderia desmarcar com Mana.

Foi com os dedos um pouco trêmulos e a culpa corroendo-o que o pequeno clicou no contato dele. Fez bem rápido para não dar tempo de voltar atrás e ser um covarde desmarcando por mensagem.

—Oi, Moyashi. — Ele atendeu logo no segundo toque e não deu tempo para Allen se preparar. Um arrepio subiu a coluna do menino, que apertou os dedos do pé no carpete enquanto seu coração disparava.

—Bom dia, Kanda... — Sussurrou fino, a voz um pouco fraca porque sua cabeça fez questão de lembrar um certo episódio vergonhoso.

Ainda bem que ele não podia ver o quão coradas estavam suas bochechas.

—O que foi? — Qualquer pessoa poderia achar grosseiro, mas o pequeno conhecia Kanda.

Respirou fundo.

—Nós podemos desmarcar o programa para hoje? — Perguntou baixinho, enrolando os dedos no pijama. — Eu prometi que ficaria com o meu pai o dia inteiro e acabei esquecendo de te avisar, mas a gente pode marcar para amanhã, ou se você preferir, qualquer outro dia, pode ser até durante as aulas, eu não me importo, é só que não tem como eu desmarcar com ele porqu–

—Ei, Moyashi, respira. — Ele soou autoritário, e o menor instintivamente levou os dedinhos até os lábios.

—Desculpe... — Sussurrou automaticamente.

—Podemos marcar outro dia, eu não tinha preparado nada mesmo. — Disse, mas por alguma razão Allen não acreditou nem um pouco nele, o que fê-lo ficar mais culpado ainda.

—Mas...

—Fique com o seu pai, eu não quero ele me odiando mais que o normal. Eu aproveito e adianto algumas coisas da Lune. Certo?

O pequeno hesitou um pouco, mordendo os lábios.

—Certo... — Uma sensação horrível se apoderou de seu corpo.

—Então até depois. — Mas nem houve tempo para desfazê-la e logo Yuu estava desligando.

Apesar de não se arrepender quando viu o sorriso de Mana quando chegou à cozinha, o albino sentiu-se ruim porque se Kanda não tinha preparado nada, ele não teria mandado aquela mensagem perguntando que horas poderia buscá-lo.

Também não era só isso. Sentia-se tão ligado ao moreno, que algo dizia que ele tinha ficado chateado, e a sensação continuaria durante todo o dia, sem nenhuma mensagem sequer dele. Já Yuu, que estava na cozinha durante o telefonema, era encarado pela cozinheira.

—Aconteceu algo? — A doce mulher perguntara, apoiando as mãos na alça da grande cesta em cima da mesa. Ela também se animara com o pequeno herdeiro saindo e se animando para ser gentil, tanto que vê-lo decepcionado deixava-a de coração partido.

Hoje o moreno tinha planejada levar o Honey dele para um piquenique na frente da torre Eiffel. Coisa que ele nunca tinha feito com as garotas que frequentaram aquela casa – mais especificamente o quarto de Kanda – por alguns dias.

—Ele desmarcou. — Disse com o cenho franzido, olhando para o chão, como se buscasse alguma alternativa.

—Oh, querido... — Ela tentou se aproximar, querendo amparar aquele que sempre foi um garotinho frágil.

—Não precisa. — Yuu disse, se afastando e tentando um sorriso, algo que ele vinha treinando para Allen.

—Você talvez possa–

—Não, está tudo bem, só dê um fim nisso, okay?

Avisou enquanto saia da sala, deixando a cozinheira sozinha na copa. A mulher olhou para a cesta, e pensou em todos os ingredientes gostosos ali dentro, sentindo-se incapaz de jogar tudo fora. O que fez foi guardá-la na geladeira, torcendo baixinho para o que Yuuusase sua inteligência e buscasse uma saída.

—--K&A---

—Eu nem acredito que terminamos essa série toda! — O Walker mais velho parecia abismado no sofá.

No final das contas, pai e filho terminaram toda a temporada de Stranger Things. Mana tinha ficado cansado dos mesmos episódios de Mistérios dos Mares e resolveram achar alguma coisa no Netflix. Acharam.

—É verdade... — O pequeno estava encolhido em um sofá, com meias fofas e um suéter grande verde musgo. Ele tentou sorrir para o pai, que parecia impressionado com a história.

A verdade é que, por mais que tenha ouvido falar muito bem da série, Allen foi incapaz de prestar total atenção, olhando em direção ao celular – que ele manteve próximo ao corpo – de cinco em cinco minutos. Mana tinha percebido, é claro, mas não disse nada.

—Certo... — O mais velho estreitou os olhos, meio desconfiado, enquanto levantava do sofá e esticava as costas. — Você quer algo para comer? — Perguntou, enquanto desligava a tevê e seguia para a cozinha. Já devia ser umas dez da noite, a contar todos os episódios vistos.

—Não, estou sem fome. — O mais novo respondeu, checando novamente o celular e sentindo-se triste por não ter nenhuma notificação ainda.

—Sem fome? — O pai se virou desconfiado. Allen sem fome? Pff. — Você está bem?

—Estou sim, pai. — Allen se levantou do sofá, uma mão arrastando o cobertor e a outra com o celular na mão. — Só um pouco cansado, meus olhos doem. — Riu baixinho ao dar um beijo na bochecha do pai. — Boa noite. — Desejou e pôs-se a subir as escadas até o quarto.

Jogou-se na cama e enrolou as pernas no cobertor, cobrindo-se até a cabeça , mas deixando as mãos para fora. Destravou o celular e abriu na conversa de Kanda. Ele tinha estado online há muitas horas atrás e isso fez o albino se sentir rejeitado, mesmo que ele não tivesse esse direito.

Não foi sua culpa! Mas ele ainda se sentia tão culpado.

Digitou algumas palavras e quando estava prestes a enviar, hesitou. Acabou por apagar tudo e digitar uma frase menor. Parou e releu. Ainda não estava bom! Deve ter repetido o ato mais umas duas vezes, até que bufou irritado e mandou um simples:

"Boa noite"

A sua vontade, na verdade, era perguntar se estava tudo bem, se ele estava bravo e quem sabe usar sua capacidade dramática, mas era melhor esperar ele responder, certo? Porque estava tudo bem entre eles, certo?

Os minutos foram passando e com eles, a esperança que o menino sentia. A tela tinha bloqueado várias vezes e ele corria para ver se não tinha perdido algo. Chegou a checar algumas redes sociais, mas tudo com o propósito de esperar uma resposta que não veio.

No fim, já devia ser quase meia noite, e Allen estava completamente encolhido na cama. Seu pai na certa já estava dormindo, mas ele não consiga pregar os olhos sem sentir culpa.

Foi então que, durante um vídeo que assistia, a barra de notificações desceu e o albino se atrapalhou todo para abrir o aplicativo.

Seu coração parou assim que leu a primeira mensagem.

"Desce.

Estou na frente da sua casa."

Com a respiração suspensa, sua mente só conseguia raciocinar as seguintes informações:

Era de Kanda.

Era para descer.

Era quase meia noite.

Não ouve outra reação a não ser expôr seu desespero em uma mensagem.

"O quê??" — Mandou de volta.

Ele estava louco?? Sim, ele estava!

Allen sentiu seu corpo todo arrepiar, e encolheu-se mais ainda na cama, tentando se convencer de que era só frio. Apesar disso, seu coração pulsava forte no peito, repleto de adrenalina.

"Desce, Allen. Vamos ter nosso encontro."

Assim mesmo, na mesma mensagem, como se o garoto não tivesse nem tempo para pensar entre uma ordem e outra. Mas pensar o que? A mente do pequeno havia entrado em pane e repetia um ohmeudeusohmeudeusohmeudeus.

Oh.my.god.

Dizer que o albino levantou num pulo é a única forma de descrição. Rapidamente seu corpo estava fora da cama, gelado de ansiedade, e ele apenas colocou uma calça jeans, permanecendo com o mesmo suéter, que batia nas coxas, e as meias coloridas até a metade das canelas.

O cabelo estava todo bagunçado e ainda assim não recebeu nenhum ajuste; uma galocha de plástico de cano curto foi calçada e logo Allen estava na porta de casa, andando na ponta dos pés com cuidado para não acordar Mana.

Era muita adrenalina para tão poucos minutos! O garoto se sentia elétrico, o coração batia forte e tinha certeza que estava com o rosto todo corado de vergonha pela péssima seleção de roupa. Porém tudo que sua mente realmente se importava era com o caminho até a porta e com quem se encontrava depois dela.

Como esperado, assim que abriu-a, deparou-se com o carro preto do herdeiro e, graças a Deu, era um carro silencioso.

Muito envergonhado, guardou o celular no bolso e trancou a porta com cuidado, abraçando o próprio tronco enquanto tentava parar de tremer em excitação. Sob a luz noturna da paisagem de meia noite de Paris, o veículo parecia mais intimidador, com a cor misturando-se com as sombras. Sentia-se diminuto, vulnerável, envolto em uma atmosfera de perigo e excitação. Abrir a porta, porém, piorou tudo.

—K-Kanda? — Sussurrou com a voz baixinha e o lábio inchado de tanto que mordido enquanto o albino descia as escadas de casa, tentando não ranger nada. O mais velho estava vestido todo de preto, como de costume, com um sobretudo que o Walker jurou ser até os joelhos, enquanto ele parecia uma criança que acabara de cair da cama.

—Entra. — A voz rouca reverberou pelo carro e pareceu imã atraindo o corpo do albino a se sentar no banco de couro. O carro estava bem quentinho, contrastando com a pele gelada de Allen.

—O que v-você está fazendo aqui? — Perguntou confuso e com o coração batendo tão alto que jurava que ele ouvia. Os olhos ônix passearam de cima a baixo rapidamente, o que fê-lo se encolher um pouco.

—Você está com frio? — Uma mão quente dele colou na testa do menor, que se arrepiou por inteiro e acabou soltando um gemido baixinho pelo aconchego.

—Não... — Respondeu num fio de voz e voltou a olhar para Kanda enquanto ele almentava o aquecedor e arrancava com o carro. Allen seguiu com o olhar sua casa ficando para trás e inspirou fundo o cheiro de lótus antes de perguntar — Por que está aqui? O que nós vamos fazer? — Aparentemente falar baixo era regra após a meia noite.

Dependendo da situação, é claro.

—Ter o nosso encontro. — A voz profunda dizendo aquela palavra foi o suficiente para Allen soltar todo o ar do seu pulmão.

Allen até quis perguntar mais, mas estava zonzo com o cheiro dele, zonzo com a presença dele e zonzo com a adrenalina e excitação que subia por seu corpo em descargas elétricas.

Logo o carro passeava pelas ruas e seu interior era iluminado em intervalos pelas luzes amarelas dos postes antigos. Os olhos prateados observavam tudo atentamente, enquanto o dono deles apertava uma perna à outra e mordia os lábios.

—Você sempre fica assim tão... — Ele começou a dizer e o mais novo virou a cabeça de uma vez. O moreno desceu o olhar novamente para o corpo dele por um segundo e logo voltou a focar na estrada. — Frágil.

—Eu não estou frágil... — Allen quis rebater, mas sua voz estava muito frágil sim, então ele tentou forçar um pouco mais e acrescentou: — Bakanda.

Yuu riu baixo com a petulância, mas sabia que estava no controle da situação. Ele estava levando o albino para uma coisa que pensara de última hora, quando recebeu a mensagem de boa noite dele e talvez estivesse tão nervoso quanto. Porém ver o Walker com olhinhos pequenos de sono e meias coloridas lhe dera toda a confiança necessária para guiar o carro até seu destino sem se importar tanto com o pequeno se remexendo ao seu lado.

Quando o carro entrou numa rua margeada pelo rio Sena, o albino soltou finalmente.

—Você vai me matar e jogar meu corpo no rio? — Perguntou, olhando curioso para o píer logo a frente. Chegou apoiar as mãos no painel do carro e encarar o local escuro, enquanto Kanda começava a diminuir a velocidade. — O que vamos fazer? — O tom dele era aflito, curioso e até um pouco amedrontado.

Yuu tinha que se sentir mal por estar gostando de vê-lo assim? Sentia volta de de protegê-lo. Foi por isso que controlou a voz quando parou o carro.

—Desça. — Ele tirou o cinto e desligava tudo, sob o olhar atento do pequeno. Allen continuava a morder forte os próprios lábios, sem saber o que falar. O moreno mantinha uma pose vitoriosa, imponente, que para Allen era de tirar o fôlego.

Foi quando Yuu abriu a porta que segurou o braço dele no impulso. Precisava de respostas! Odiava a mania de Kanda de nunca dá-las ou fazê-lo de forma vaga!

Agora estava sob o olhar profundo do herdeiro.

—Você está bravo? — Voltou com o tom de voz mais baixo, envergonhado com toda a situação e com o o jeito que estava agindo. Oh, droga, não era nem para perguntar isso! Foi totalmente involuntário. Após passar o dia sem notícias dele, o menor queria alguma conversa com Kanda que mostrasse que estava tudo certo e não somente tê-lo o arrastando para fora de casa durante a madrugada.

Alguns segundos, que pareceram horas para Allen, se passaram até Kanda notar porque ele estava tão acanhado.

—Eu deveria? — Foi só o que ele disse quando voltou a sentar no carro e passar o braço pelo corpo do garoto com a intenção de tirar o cinto e sentir mais o perfume natural dele. Era normal que Allen tivesse acanhado também, mas vê-lo todo encolhido frente à provocações era delicioso e talvez por isso que Yuu tenha abaixado tanto a voz. — Vamos, Moyashi. Temos um piquenique a fazer.

E então saíram do carro. Um com a pose do presidente de algum país. O outro, com os movimentos limitados e encarando tudo ao redor, completamente receoso.

O asfalto do lado de fora era tão escuro quanto as águas do rio Sena ali ao lado. As pequenas ondas se formavam e um vento frio passava pelo píer. Estava tudo escuro, exceto pelas luzes dos prédios às margens do canal. Eram essas também que coloriam as águas de dourado e só assim tornava o rio visível.

Kanda saiu de perto do carro e Allen deixou de olhar o local para olhá-lo. Ele vinha carregando uma cesta na mão e um sobretudo na outra.

—Vista isso. — Estendeu o casaco assim que estava próximo, o mais novo estava tão abismado que não pestanejou. Vestiu o casaco e o apertou contra o corpo, sentindo o cheiro dele rodear seu corpo.

—Por que estamos aqui? — Perguntou totalmente desorientado. — Vamos fazer um piquenique aqui? — Olhava ao redor e não conseguia entender a lógica da coisa.

—Você costuma ser lerdo assim quando acorda? — Yuu sorriu provocante, porque sabia que ele não havia dormido, mas passou o braço livre pelas costas do albino e segurou-o pela cintura, pondo-se à andar.

—E você, costuma trazer as pessoas para o meio do nada meia de madrugada? — Rebateu, mas seu corpo estava mole pela mão dele guiando-o até um...

Barco?

—Não, você foi o primeiro. — Uou. Pena que Allen não tinha prestando tanta atenção porque...

—Kanda, nós vamos–

—Senhor. — Um homem de terno surgiu de dentro de uma lancha branca, e relativamente pequena, deixando o pequeno boquiaberto. — Está tudo pronto.

—Certo, muito obrigado, Frank. — Yuu agradeceu e pegou a chave da mão do homem, enquanto era observado por um Allen de olhos arregalados.

—Você não–

—Vamos, moyashi. — Começou a subir uma rampinha que levava até o veículo, que já balançava com as águas. Allen quase, quase, recuou. Talvez com medo de pôr os pés naquela superfície, talvez pelo arrepio que subiu sua coluna.

Mas como estava sendo incentivado pelo mais velho, era como se pudesse fazer qualquer coisa. E seu corpo se esforçava para atender aos pedidos dele, mesmo que isso significasse entrar num barco sem piloto.

Dentro, o albino viu que era realmente uma lancha e não aqueles barcos que levam pessoas em um passeio no rio.

—Eu não acredito que isso... Meu Deus... — A voz de Allen saia desacreditava, fraca e vulnerável. Kanda ignorou o surto do menino com muita satisfação e foi até o comando, colocando a chave. — Essa lancha é sua?? -Ele aumentou o tom de voz, a voz estridente.

—Não, é de um amigo do meu pai. — O moreno respondeu normalmente e o mais novo quis gritar de frustração. Como ele pode ser tão...

Argh!

—Meu Deus, você é louco! — Exclamou sussurrante, indo para perto do corpo dele quando notou o barco entrar em movimento. — Ouviu? — Segurou no braço dele, querendo atenção porque, sim, Allen estava surtando! E porque também queria segurança, o que ninguém precisava saber.

—Você vai cair se não se segurar. — Kanda sorriu de lado, nem olhando para o lado enquanto puxava o corpo dele para o painel e segurava do outro lado, fazendo o próprio braço de grade. — À propósito, interessante escolha de meias.

No mesmo instante, Allen perdeu a fala e olhou para baixo, o rosto esquentando. Acabou por ficar em silêncio, mas na sua cabeça estava treinando várias respostas hipotéticas para dar quando ele abrisse a boca de novo.

Aos poucos, sua atenção foi dissipada pelo som das águas batendo na proa, e pelos reflexos das luzes na imensidão negra do rio Sena. O pequeno não pode deixar de imaginar o quão terrível seria cair ali e ser engolido pelas ondas. Instintivamente apertou o casaco no corpo e se aproximou um pouco mais de Kanda, com a desculpa de ficar mais ao centro do veículo.

Em determinado momento, o vento gélido e a velocidade foi diminuindo.

—Estamos parando?

Estavam próximos a uma ponte e o moreno desligara o motor.

—Vamos, turista. — Ele saiu de trás do volante e foi subindo até a parte da frente do barco, onde ficava uma parte plana. Allen seguiu-o cuidadosamente, ostentando um bico.

—Ei! Para de me ignorar! Você não respondeu nenhuma das minhas perguntas até agora!

A reclamação atraiu o olhar do mais velho, que segurou uma risadinha ao perceber o quão adorável o albino estava com meias coloridas, galochas e um suéter no meio das coxas, e segurando-se forte nas barras de segurança.

—Por que você está com essa cara de besta? — Perguntou, emburrado. Kanda bufou.

—Até agora estava ótimo você acanhado e sem tagarelar no meu ouvido. — Tirou uma toalha vermelha quadriculada de dentro da cesta e a forrou no chão.

Era mesmo uma típica cena de piquenique. Isso, claro, caso você esteja em terra firme e sob o céu azul da manhã, o que não era a situação do momento.

—O barco ainda está a andando, nós vamos bater. — O menor avisou, tentando ignorar o nervosismo, e olhou para o comando como se quisesse avisar que não tinha ninguém controlando a lancha. Mas ainda assim continuou o caminho para se sentar sobre a toalha. Yuu já estava sentado tirando algumas coisas da cesta.

—Não vai, ele está seguindo o curso do rio. — O mais velho colocava algumas torradas, frutas e pães sobre a toalha, respondendo vagamente às perguntas ansiosas do outro.

—Então vamos parar no oceano. — Rebateu, fascinado pela situação e com o nervosismo lhe corroendo. O moreno ergueu os olhos, achando aquilo um absurdo.

—É, daqui a um mês chegamos lá. — Kanda negou com a cabeça, sendo inevitavelmente sarcástico.

Allen bufou.

—Você é um chato, foi claramente uma piada. Estou tentando a minha mágica de te fazer mais suportável e manter uma conversa... Aliás você está fazendo questão de evitar uma desde que eu entrei no carro! — Despejou toda a sua ansiedade, enquanto pegava um pãozinho e colocava na boca.

—A única mágica que você conseguiu foi sumir com a graça das piadas. — Acusou e recebeu um olhar falsamente atingido.

Allen ia rebater, mas no exato momento a lancha começou a passar por baixo da ponte, deixando tudo numa escuridão de túnel.

—Agora vamos bater na estrutura da ponte... — O pequeno disse baixinho, abraçando os joelhos contra o peito.

—Calado, Moyashi, você está estragando o momento. — Yuu revirou os olhos, mas seus lábios estavam repuxados em um sorriso de canto camuflado pela falta de luminosidade.

Ficaram calados, esperando o barulho alto do rio batendo contra as colunas de concreto da ponte cessar.

—Parece que estamos entrando em outra dimensão... — O albino sussurrou maravilhado enquanto esperava a luz tocá-los novamente.

O mais velho sorriu uma risadinha ao ver o quão irritantemente adorável ele era e olhou para o lado, vendo os olhos claros ainda assim visíveis. A pele dele era tão branca que destacava mesmo na escuridão.

—Eu queria que você visse esse lado de Paris. — Kanda disse alto quando sabia que em segundos sairiam daquele momento particular.

Allen se voltou para ele, entretanto antes de qualquer pergunta, o céu se abriu e a torre Eiffel, totalmente iluminada de luzes douradas, apareceu. Naquela parte, as águas estavam tingidas mais intensamente de dourado, e o céu chuvoso e nublado fazia pairar uma neblina que dava à cidade um ar de século XIX.

—Oh meu deus... — O mais novo sussurrou, sem acreditar que Kanda estava propondo um piquenique na Torre Eiffel, em plenas uma hora da madrugada. — Eu não... Você disse que nem gostava de piqueniques na torre Eiffel...- Soltou todo o ar sem fôlego, levantando cambaleante até a borda da lancha e se esquecendo totalmente do medo da água ao encarar o grande sÍmbolo de Paris.

—Isso é... — Estava boquiaberto, as luzes refletindo no fundo de seus olhos e nas águas do Sena.-Por que me trazer aqui de noite? E não adianta fugir das minhas perguntas. — Perguntou, completamente afetado.

Kanda olhou para Allen e foi até ele, entregando-lhe uma taça de vinho. A resposta veio enquanto mantinham os olhos conectados.

—Porque todo mundo vem de manhã. — O vento gélido tinha deixado a voz dele mais rouca e carregada de sentimento.

—O quê? — Perguntou num sopro de ar.

Yuu entendeu a resposta que ele queria.

—É um lado da cidade que pouca gente conhece, pouca gente viu. — Voltou a olhar para a frente, o topo da torre sento coberto por uma nuvem espessa que passava.

O pequeno pensou um pouco e se lembrou dos passeios a barcos, que já viu um monte de turistas fazendo. No caso, a única diferença é que eles estavam numa lancha.

—Acho que muita gente já viu, sim.

—Não diga besteiras – Ele balançou a mão. – Ninguém quer ver tudo isso assim, escuro e nublado. Ninguém se importa.

E então as coisas pareceram se encaixar. Allen sorriu meigamente com o significado.

—Isso é uma metáfora sua? Você é inteligente a esse ponto, Bakanda?

—Claro que não, não seja idiota, Moyashi. — Bufou, mas virou o rosto para o lado e o mais novo sabia o que aquilo significava.

—Claro que não o quê? A metáfora ou você ser inteligente? — Riu e ouviu o estalar de língua dele.

Houve mais um tempo de silêncio e o Walker adorou porque aquilo era tão clichê! Tanto que caberia uma música de Jazz de filme antigo se tivesse uma trilha sonora. Tomou um gole do vinho, e viu o ar de sua boca sair frio, com uma ligeira fumaça.

—Acho que eu veria você mesmo se eu não quisesse. — Soltou e logo depois os olhos se encontraram, o albino sorrindo um pouco, verdadeiramente, mesmo que com vergonha.

Yuu observou os olhos dele por longos segundos e depois expirou pesadamente, encarando o reflexo da torre nas águas.

—Você é louco com essas suas metáforas. — Começou, vindo para a frente dele. -Não podemos demorae, eu preciso levar a princesa para casa porque se não o pai me mata. — Sorriu de canto, enquanto estendia a mão.

Allen gargalhou e aceitou a mão para se deslocar até o centro do barco. Sua pernas ficaram bambas com a situação e era bom ter uma ajuda quando lembrou o quão próximo da borda da lancha estivera. Kanda puxou o corpo dele com facilidade e antes que o menor percebesse, estava abraçando-o. Os braços fortes apertavam aquela criaturinha baixa e branca como se seus pulmões dependessem disso para respirar.

Já com o de olhos prateados foi o completo oposto. Era como se os braços estivessem impedindo-o de respirar, mas mesmo assim não queria que eles o soltassem.

—Obrigado. — Ele pediu e parecia uma típica cena de Peter Pan, com o garoto que nunca cresceu abraçando o outro que fugiu de casa de madrugada. — Obrigado.

Após isso, Allen se viu com uma taça de vinho na mão, mas quase não havia bebido dela, incapaz de processar que tinha mesmo fugido de casa para uma loucura daquela. Agora, ao contrário do sentimento horrível que sentira durante todo o dia, uma sensação morna e calma tomava conta de seu corpo enquanto ele retribuía o abraço.

Foi o ponto ápice da noite.

Agora tudo que peço,
Olhe para mim,
Sinta as minhas mãos.
Elas rodeiam o que eu digo ser meu coração.
Entenda a mensagem,
Não quero abrir as mãos.— JahS

Notas finais
Pronto! Acho que o Kanda tem uma tendência a nunca deixar o Allen esperando por um encontro, né? Primeiro foi com aquela vez na Holanda e agora isso! ahahahah Tudo bem, mas, por favor, se peguem logo? Até eu já estou cansada, galera. Vou responder os comentários amanhã, certo? Espero que mantenham a paciência. Próximo capítulo tem surpresinhas rsrs Um grande beijo! Amo vocês!