Honey
23 Arte
Notas iniciais
A primeira coisa que Allen pensou quando o despertador tocou de manhã foi quanto tempo havia dormido. Cinco horas, no máximo. Isso porque, após a pequena aventura durante a madrugada, não conseguiu deitar a cabeça no travesseiro e dormir logo. Sua mente fez questão de reviver pedacinho por pedacinho, colocando um pouco de sentimento para que Allen ficasse todo mole e apaixonado.
E eis um domingo pré-aulas, gelado e cinzento. O frio parecia estimulá-lo a não se levantar e a péssima noite de sono o impelia a não sair da cama o resto do dia. Porém as obrigações o chamavam e ali estava ele, de pé no domingo porque tinha aula de Ballet.
Talvez tenha ficado pouco mais de dez minutos olhando para o teto e calculando o quanto custaria faltar aquela aula, até lembrar-se que tinha que ensaiar a peça, e se faltasse e Anita descobrisse que estava na cidade, podia ter certeza que ela mandaria algum policial até sua casa para arrastá-lo ao estúdio.
Por fim, se levantou, sentindo o corpo pesado e cansado. Um rápido olhar ao redor e viu a bagunça que estava o quarto, uma pontada de irritação subindo até o meio de suas sobrancelhas. Os próximos minutos foram frustração por não conseguir achar as sapatilhas.
—Pai, o senhor sabe onde está as minhas sapatilhas? — Gritou, irritado com o tempo que perdeu deitado na cama. Estava de pijamas, e precisava tomar um banho e tirar o gosto de vinho da boca. Tinha jogado as roupas de Ballet por cima da cama e só precisava preparar as sapatilhas para que pudesse tomar banho.
Só isso.
—Não quero nem saber, da última vez que eu fui ajudar você a arrumar suas coisas, quase fui atingido no rosto! — A voz começou longe, então o pai passou pela porta do quarto, e a voz foi se distanciando.
Allen bufou.
—O seu quarto é o mais bonito da casa e é todo bagunçado! — Ele continuava.
—Já falei que eu vou arrumar... — Sussurrou petulante, jogando a gaveta no chão para achar as malditas.
—O quê?? — Mas aparentemente o pai ouviu.
—Nada!! — Gritou de volta, revirando as roupas mas não encontrando nada. Checando a hora no celular, o albino teve certeza que ia se atrasar e, respirando fundo, resolveu só entrar no chuveiro e tentar expurgar aquele mal humor matinal.
Rapidamente tomou um banho, lavando o cabelo e ficando tempo suficiente debaixo do chuveiro para que a colônia do sabonete líquido impregnasse na sua pele. Saiu do box com a pele avermelhada e com cheirinho de frutas vermelhas, o que foi o único ponto alto daquela manhã.
Até o momento.
Ironicamente, assim que saiu do banheiro, lembrou-se que suas sapatilhas estavam dentro da bolsa que levava para as aulas, a qual estava toda plena em cima da mesa.
Revirando os olhos, secou o próprio corpo e logo deslizou para dentro da legging preta. Pôs a camiseta justa da mesma cor e nos pés um par de galochas contra chuva. Por causa do frio, vestiu um sobretudo marrom claro até os joelhos, abotoando todos os botões até o pescoço.
Depois disso foi tudo uma correria. Seu atraso por causa da crise existencial matinal, fê-lo pegar a bolsa e descer as escadas correndo, sobre reprovação de Mana. Passou na cozinha e pôs chocolate quente dentro de uma garrafa térmica, pois não haveria a necessidade de passar numa padaria ou Starbucks.
—Você vai se queimar se não tomar isso direito! — O pai reclamou, mas recebeu um sorrisinho de lado do filho, que logo desejou bom dia e saiu pela porta de casa.
O frio era intenso e aquele dia parecia o prelúdio para a neve. Agradeceu pelas leggings serem térmicas e colocou o capuz com pelinhos sobre a cabeça, mantendo a bebida quente o mais próximo possível do rosto. Os headphones serviam para tocar a música e aquecer suas orelhas até que ele chegasse no estúdio, que, graças a Deus, estava quentinho.
O burburinho das meninas e gritinhos finos substituíram o rock indie que tocava em seus fones, mas estava tudo bem desde que ele pudesse tirar as botinas e colocar os pés no chão aquecido. Mais um tempo andando lá fora e Allen jurava que perderia os dedos. A própria condição de albino facilitava essa situação, já que seu sangue não gostava muito de extremidades.
Pôs a bolsa nos suportes de casaco e tirou o seu, ficando apenas com as roupas pretas. O cabelo estava um pouco mais comprido, o que obrigou-o a amarrá-lo num rabo de cavalo fofo. A calmaria, entretanto, parou aí.
—Allen-chan!! — A voz tão conhecida soou e um Allen subitamente risonho virou para trás e deu de cara com sua melhor amiga.
—Lenal–
Calou-se imediatamente, o sorrindo morrendo quando a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi os fios curtos de Lenalee. Ela trazia um sorriso enorme e satisfeito, mas Allen tinha a voz presa na garganta ao se deparar com o corte Chanel que ela tinha feito.
Um metro de cabelo estava faltando nela.
—Oi, Allen-chan, que saudade!! — Ela veio toda fofa abraçá-lo, ignorando o estado catatônico do menino.
—Lena... — Allen sussurrou desacreditado, enquanto abraçava a cintura dela com um braço e a outra mão corria até os fios curtos.
—Eu cortei meu cabelo. — Disse o óbvio, que precisava ser posto em palavras porque o Walker nem acreditava no que estava vendo. — Agora estamos com o cabelo no mesmo tamanho. — Uma risadinha acompanhou a frase, enquanto ela desenrolava os braços do pescoço do amigo e sorria esperançosa. — Você gostou?
—Wow, isso é... — Estava totalmente sem fala. — Por que você cortou? — Passou a mão delicadamente nos fios azul escuro que lembravam tanto os cabelos de Kanda. Será que Kanda ficaria assim se cortasse os seus?
Oh, não. Ele gostava do cabelo grande do Yuu!
—Ah, é que... — A garota também levou os dedos até seus cabelos, o sorriso morrendo aos pouco com a demora da reação de Allen. Será que tinha ficado feio? Um desapontamento começava a se arrastar por seu interior. — Bem, eu quis mudar, sabe?... você achou que ficou feio? — Agora era nítida a preocupação dela.
Allen deu-se conta que se perdeu em pensamentos sobre o cabelo de Kanda e não deu a devida atenção à amiga.
—Não, não! — Tratou logo de consertar. — Não, você está linda! Muito linda! Combinou com você, renovou o seu rosto, eu só estou muito surpreso, acho que sempre te vi de cabelo comprido. — Deu uma risadinha, que influenciou num sorriso tímido da morena. — Eu gostei muito, é sério! — Reafirmou, abraçando a garota mais uma vez. — Eu também estava com saudades, por que não me disse que que iria cortar?
E então ela pareceu iluminada.
—Ah, é que foi bem coisa do momento, sabe? — Começou enquanto ambos iam para o centro do salão. Algumas garotas já estavam no chão fazendo alongamentos e contando novidades sobre aquele recesso. — Eu estava passeando com Lavi e então paramos perto de um salão e–
—Com o Lavi?? — Allen interrompeu de primeira, já ficando meio tenso com o garoto. — Lena, eu já diss–
—Ai, Allen-chan! — Ela bateu o pé e fechou a cara em menos de um segundo. — Para de recusar alguma coisa só porque tem o nome dele no meio! — Impôs a voz, num claro sinal de que não aceitaria argumentos.
—Mas – Allen tinha os olhinhos arregalados pela imposição dela, que parecia ter amadurecido uns três anos só com aquela opinião.
—Mas nada. Supere isso com ele, okay? Eu sei que ele não é santo, mas o Kanda também não é e isso não te impediu de se apaixonar por ele. — Ela deu de ombros, jogando toda aquela informação de um vez só.
—O quê? Isso quer dizer que você está apaixon–como assim eu estou apaixonado pelo Kanda?? — Perguntou, indignado, porém o seu rosto encheu de cor, as bochechas ficando vermelhinhas e a voz falhando.
—É, ué. — A morena sentou-se no chão naturalmente, já Allen o fez como se seus membros fossem de metal e estivessem todos enferrujados.
—Como você–
—Ah, Allen-chan, é bem óbvio. Vocês já estão assim há tempos, mas os dois são cabeças-duras demais para admitir. — O albino ia ficando mais sem graça a cada instante, enquanto a Lee apenas alongava-se como se estivesse discutindo o tempo. — Além do mais, o Lavi me contou que vocês saíram todos esses dias. Por que você acha que eu não te liguei ou chamei para fazer alguma coisa?
—O que? Como o Lavi sabia disso? — Franziu os olhos. Não passou nem por um segundo em sua cabeça que Kanda iria dizer alguma coisa, ele o conhecia o suficiente para não cogitar essa possibilidade.
—Ele é vizinho do Kanda, oras. — Respondeu, trocando as pernas e esticando a esquerda. Allen estava tão desnorteado que não sabia nem há quantos segundos já estava com a perna direita, então acabou por trocar também e ir repetindo os movimentos dela. — Mas vocês tiveram esse tanto de encontro mesmo?? Me conta! — Os olhos dela brilhavam como se a vida de Allen fosse uma história muito interessante.
O menino ficou mais vermelho do que o normal, e limitou-se a contar sobre os pontos turísticos apenas. Não contou sobre a sua fuga da madrugada, nem sobre o que aconteceu durante sua viagem para Londres. Achou que eram acontecimentos íntimos demais e Allen tinha essa coisa de intimidade. Reduziu o máximo possível, pois não queria expor nada, não porque não confiava em Lena, mas porque queria guardar aqueles momentos para si.
No final, foi interrompido no meio do monólogo que fazia sobre o food struck que comeram na praça, pois Anita pedira silêncio para explicar algumas coisas. Ela reforçou que a peça seria no Dia dos namorados e intimou mais esforço de cada um – insira aqui um olhar fuzilante para Allen. Por bons minutos, o albino nem prestou atenção porque sua mente deixava-o cego enquanto piscava em luzes neon vocêgostadelevocêgostadele.
—Levantem e vão alongar! — Foi a ordem que ele não ouviu, o que gerou um cutucão em sua costelas. — No que tanto você pensa, Allen? — Anita ficou em pé à sua frente, de braços cruzados. O albino sorriu sem graça e se levantou, perdendo a cara de abobado e as bochechas ganhando cor novamente.
—Eu estava só... — Mas todo mundo estava para interromper Allen naquele dia. Ninguém deixava-o falar até o final, como se sua palavra não valesse muita coisa. Isso somado à sua introspecção após a fala de Lena, estava deixando-o sentimental demais.
— Se for namorado, eu digo para você deixar de pensar e focar aqui. Nem sempre eles vão estar lá para você ou abrir mão de algo como você abriria por eles.
E mais uma bomba.
A voz áspera com a qual ela dizia deixava claro que aquelas eram palavras magoadas, que não necessariamente eram verdade. Talvez Mrs. Anita houvesse esperado muito por cavalheiros que lhe dessem flores após uma apresentação.
Ele sabia que não devia prestar atenção à isso, porque Kanda estava abrindo mão de muitas coisas por si, então ele tinha confiança nele sim. Havia desenvolvido confiança nele após realizar que, aos poucos, ele lhe dava espaço, abrindo as jaulas para Allen entrar e conhecer o mundo dele.
Mas mesmo que discordasse, ele apenas assentiu, tentando jogar o dono dos olhos ônix mais lindos que já havia visto para o fundo de sua mente.
Ele estava realmente apaixonado?
—Plié, Effacé. Plié, Effacé. A la Secondé! Arruma postura, Juliet!
Kanda fazia tanta parte de sua vida agora.
—Daí o Lavi disse que eu ficaria linda de cabelo cortado. Mas eu fiquei com medo e ele disse que eu ficaria linda de qualquer jeito. — Lena suspirava. — Acontece que eu também queria mudar, sabe? Amadurecer.
Muita coisa havia mudado do início do ano letivo para agora. Coisas que ele nem imaginava que aconteceriam.
—Épaulé e Attetudé. Isso! Mais força nesses pés, Garvien!
Um brinco tinha mudado todo o seu destino, toda a sua certeza...
—Eu doei meu cabelo para uma associação que faz perucas para crianças com câncer.
Já não era mais o mesmo do início do período.
—Allen, presta atenção no que você está fazendo! Arruma essa postura! Polegar para dentro!
—Você está bem, Allen-chan? Parece desorientado, precisa de água?
Aquele filósofo estava certo. Um homem nunca entra duas vezes em um rio. Porque a cada segundo o rio muda e o homem também.
Os suspiros de cansaço das meninas tomavam conta. Allen estava muito cansado também, mas sua mente mais maquinava que dava-se conta do esforço feito.
—Só mais dez minutos... — Uma garota a seu lado sussurrou.
É claro que suas certezas iriam mudar, que idiotice! Não tinha mais certeza de nada! Só de...
—Allen-chan, estamos liberados... Você está bem? — A voz de Lena soava doce e longínqua.
Mas quem ele queria enganar?
—Allen.
Ele estava apaixonado por essa voz.
A voz de Kanda soava profunda e próxima, quase dentro de sua cabeça, como se ele sussurrasse no pé de seu ouvido. Um arrepiou forte tomou o seu corpo, e toda a palidez e tensão que se acumularam durante a aula, esvaiu-se com uma facilidade absurda.
Um burburinho tomou a sala toda, e as meninas que ainda não haviam ido embora tomaram um susto com o homem alto e bonito parado na porta da sala. Ele vestia roupas de marca e o perfume forte de lótus atingia um raio de uns dois metros ao redor dele. Sua presença era digna de um herdeiro e todos os olhos estavam fixos nele, mesmo que ele estivesse fixo apenas em uma pequena criatura.
Allen virou-se para trás, o rosto surpreso e uma fina camada de suor deixando-o brilhante, com os fios platinados colados na testa e o rabo de cavalo que tocava sua nuca com uma cor de cinza escuro, devido às madeixas molhadas.
O brinco ressaltava em sua orelha e Yuu sentia um orgulho enorme de tê-lo posto ali. O acessório parecia ter sido desenhado para o garoto.
—Bakanda... — Disse baixinho, terminando de tirar as sapatilhas e levantando de um modo desajeitado do chão. Lena olhou a cena com surpresa e saiu de fininho enquanto Kanda entrava no lugar como se possuísse o salão.
O moreno parou em frente ao cabide com os casacos e pegou o de Allen com tamanha facilidade que era provável Yuu saber o cheiro do pequeno. Em seguida, caminhou e direção ao albino, que olhava tudo com os olhos grandes de curiosidade. Os olhos de cores tão opostas não desgrudavam um do outro e eles pareciam conversar telepaticamente.
Não havia mais burburinho na sala e todos pareciam notar a conexão que os dois tinham.
—O que faz aqui? — Foi Allen quem perguntou, baixinho e abraçando o próprio corpo instintivamente. Mal sabia ele que, aos olhos do mais velho, ele estava magnífico.
Ah, como Kanda odiava aquele idiota fofo e com olhos grandes e esperançosos.
—Preciso te levar a um lugar. — Respondeu, abrindo o casaco nas mãos e oferecendo-o. Allen virou instantaneamente.
—Mas nosso passeio já acabou. — Olhou por cima dos ombros enquanto colocava um braço na manga e rodava o corpo para encaixar o outro.
—Eu acho válido tentar cativar você para você ficar. — Terminou de ajustar o casaco no ombro do garoto e assistiu-o virar para si e encará-lo com uma expressão engraçada.
—Tudo bem...
Allen escondia toda a sua ansiedade proveniente daquela simples frase com um sorrisinho envergonhado enquanto abotoava o casaco e abaixava para pegar as sapatilhas.
—Você parece tão sério, aconteceu alguma coisa? — Perguntou quando voltou a olhá-lo e percebeu o olhar intenso de Kanda sobre si. O mais velho pôs-se a andar antes de responder, mas manteve um ritmo de modo que Allen pudesse estar do seu lado.
—Não. — Negou sem explicações, mas a voz saiu suave e o menor realmente não se importou. Pararam para que as galochas fossem calçadas.
—Certo. — Allen sorriu para ele, um sorriso encorajador, porque lá do fundo, o Walker conseguia ler os sentimentos de Yuu e sabia que o que estava acontecer era especial para ele.
Saíram do prédio, sem despedirem de ninguém. Era como se o mundo de um se resumisse ao outro e apenas isso bastava. Na rua, o vento tinha se intensificado e Kanda segurou na cintura do albino, colocando o corpo pequeno atrás de si a fim de bloquear o vento.
O garoto não se sentiu nem um pouco estranho, apesar de ter corado. Era confortável, aliás, ter a mão dele na curva de sua cintura. Era como se ela fosse feita para estar ali, ainda que quase não tivesse sentindo-a devido ao casaco e à pouca força empregava.
De repente, Allen pegou-se desejando que Kanda segurasse firmemente, de modo a deixar claro que ele estava realmente segurando e não era um apoio qualquer.
O moreno abriu a porta para si e logo foi para seu lugar, ligando o aquecedor assim que entrou no carro. Como sempre, o cheiro maravilhoso do veículo invadiu as narinas do pequeno, que assoprava as mãos para esquentá-las.
—Você vai me manter sem saber onde vamos de novo? Isso já deve ser qualificado como múltiplo sequestro. — Brincou enquanto punha o cinto. O carro entrou rapidamente no fluxo da avenida.
—Não, não dessa vez. Estamos indo a um atelié. — A voz dele saiu em um tom normal, mas concentrado. Os nós dos dedos estavam apertados no volante e os lábios presos numa linha reta.
Não foi preciso mais nada para saber onde realmente iriam. Não foi preciso palavras doces, porque Kanda não precisava delas. O que era necessário era alguém que entendesse a sua dor e que fosse sincero, que dividisse o peso caprichoso que a vida coloca sobre pessoas que não merecem.
Ali estava aquela pessoa.
Allen observou por um tempo como ele parecia mais maduro, determinado a alguma coisa. O rosto dele parecia mais exposto com os cabelos amarrados num rabo de cavalo e a franja presa com um grampo no topo da cabeça.
Yuu parecia límpido, mas havia a necessidade de lhe passar força. Por isso, começou a falar sobre o treino daquela manhã. Pôs-se a falar sobre como suas pernas doíam, como estava preocupado com a apresentação, falou inclusive sobre o cabelo de Lenalee e sobre como Anita parecia estar cada vez mais irritada.
Preencheu o carro com um monólogo que ele sabia que Kanda estava escutando, mas que tinha certeza que ele não responderia. Porém o simples afrouxar de dedos – pouco perceptível se não fosse alguém que conhecia bem o moreno – valeu a pena. O garoto sabia que estava relaxando-o e só continuou com o que seus instintos diziam.
Mais uma vez viu-se sendo levado por ruas que não conhecia, guiado por bairros incrivelmente sofisticados. Viu o carro entrar calmamente por ruas de pedras sobrepostas e Yuu ir diminuindo a velocidade aos poucos, como se estivesse checando se era ali mesmo. Viu quando ele olhava para placas com nomes de ruas e quando parou em frente à um prédio, cuja fachada era toda de vidro, mas que não se podia ver nada do interior porque uma grande e pesada cortina cobria todo o perímetro.
Kanda desceu do carro, e Allen o fez quase no mesmo segundo, como se estivessem sincronizados. Os olhos azul escuro pararam por um segundo, carregados como se guardassem uma tempestade dentro de si.
Allen precisou de alguns segundos para entender tudo.
Yuu havia lhe dito que a mãe dele era estilista. Aquele era o atelié dela, não era?
Sua atenção desviou da figura mais alta quando o moreno deu a volta no carro e foi até o porta malas. O albino olhou a fachada do edifício mais uma vez, quase se sentindo um intruso e depois rodou nos calcanhares para olhar ao redor.
Do outro lado da calçada havia uma padaria, uma livraria e uma casinha, que mais parecia um pequeno prédio rodeado de flores nas janelas. Porém todos os estabelecimentos estavam fechados e a rua, banhada em silêncio.
O céu parecia prestes a desmoronar e Allen jurava por Deus que se não nevasse mais tarde, não nevava mais.
O barulho do porta-malas fechando foi responsável por atrair o menor novamente. Kanda carregava uma caixa de papelão nos braços e uma bolsa térmica estava atravessada em seu corpo.
—Vamos entrar, pegue a chave no meu bolso. — A voz dele estava profunda e um pouco rouca. Ele mantinha o olhar fixo na vidraça da loja, e o vento balançava suavemente suas roupas.
Ele parecia preso e livre ao mesmo tempo.
O Walker colocou a mão no bolso do casaco dele, trazendo consigo um molho de chaves. Andaram até próximo a porta e o pequeno olhou para todas aquelas opções diante da fechadura.
—Qual delas? — Ergueu o olhar para Kanda, que agora parecia um pouco receoso.
—Não sei, tente todas. — Ele deu de ombros e olhou ao redor, como se quisesse fugir do olhar questionador.
—Okay... — Allen sussurrou pacientemente, abaixando-se um pouco para ver o padrão da porta e ir tentando chave por chave.
Era óbvio que Yuu não sabia qual era a chave porque não vinha ali há muito tempo. Era um local especial, o albino tinha certeza, e Kanda estava permitindo que ele abrisse a entrada.
—Consegui! — Torceu a chave, com uma expressão concentrada e empurrou a porta. Estava um pouco emperrada, mas dois impulsos depois, uma nuvem de poeira fina subiu do solo à medida que ele ia empurrando-a.
—Entre primeiro. — A voz dele soou como uma lufada de ar e Allen voltou os seus olhos prateados para o mais velho. Viu que ele o encarava com expectativa e lembrou-se que Kanda havia dito que ele tinha os mesmos olhos que sua mãe.
Agora Allen estava entrando no atelié dela, com os mesmos olhos e com o filho dela. O quão estranho era aquilo?
Mas o quão grandioso era aquele voto de confiança?
Era como entrar no mundo interno dele.
Allen não pôde evitar sorrir um sorriso bonito e calmante, que para Yuu era tudo que ele mais precisava naquele momento. E entraram.
Todo o ambiente estava escurecido, devido à falta de luz solar. As cortinas pesadas – o albino constatou o peso ao correr a mão por elas – eram claras, mas impediam boa parte da luminosidade, sorte que as luzes do lustre ainda funcionavam quando o herdeiro encostou o ombro no interruptor.
Com iluminação, o interior se permitia ser visto.
Havia araras para roupas vazias arrumadas de um lado do térreo, e havia uma mesinha de ferro branco de quatro cadeiras encolhida próxima a uma escada. Todos os móveis estavam cobertos por plásticos e foram empurrados para ocupar o mínimo de espaço possível, o que deixava o ambiente ainda maior.
Allen olhou para cima e pensou que o teto parecia mais longe do que realmente era.
Havia uma linda escada de mármore branca que levava para um segundo andar mais curto que o primeiro e lá em cima, era possível ver, haviam manequins e quadros pendurados no teto.
Era tudo muito grande, muito tons claros e muito íntimo. Parecia tudo personalizado para uma pessoa que ainda vivia ali. E o silêncio entre ambos fazia o menor se perguntar se uma voz feminina não soaria no espaço.
—Eu sempre achei que fosse maior.
Não soou, foi Kanda quem disse. O albino voltou a olhar para ele, que tinha os olhos fixos no segundo andar.
—Eu imaginava essa escada bem maior que isso. — As sobrancelhas estavam franzidas e ele parecia tão íntimo.
—Você não vem aqui há quanto tempo? — Allen foi delicado ao perguntar.
—Eu diria uns 10 ou 11 anos.
—Então você deve ter achado que era maior porque era uma criança pequena na época. Hoje você é essa girafa, Bakanda. — Disse com a voz suave, como se não estivesse carregando um sorrisinho no rosto.
Imediatamente o mais velho voltou seus olhos para ele e as cores opostas se encontraram. Allen tinha uma expressão tranquila, mas provocante. Os olhos estavam brilhantes e ele parecia super confortável.
Como podia existir uma criatura assim? Era a pergunta que rondava a cabeça de um Kanda paralisado.
—Sem resposta? — Ele arqueou uma sobrancelhas e, Deus, todo um peso saiu das costas do moreno. O maldito feijão vinha tirando pesos de seus ombros constantemente e tudo que Yuu queria era beijá-lo para calar aquela boca provocadora e agradecê-lo por tudo.
—Talvez você que seja o baixinho, Moyashi. — O moreno foi o primeiro a cortar os olhares, mas agora sustentava um meio sorriso. Ele andou até a mesa de ferro e colocou a bolsa térmica ali,olhando para o segundo andar. — Você consegue subir ou eu preciso te segurar para você não cair igual um bebê pelas escadas?
A voz dele pareceu mais confiante, e ele foi de encontro à escada com a caixa na mão. Allen riu baixinho, mas fingiu indignação.
—Que provocação tola, Kanda! Eu nunca caí da escada! — Seguiu o herdeiro, que estava dois degraus à frente.
—Tudo tem uma primeira vez.
—Filósofo. — Revirou os olhos. — Tenha certeza que eu garantiria que minha primeira vez não seria com você. — Deu de ombros, claramente se referindo à uma primeira queda de escada.
Yuu, porém, não entrou na brincadeira.
—Você é virgem?
A pergunta foi um baque para o pequeno, que quase pisou em falso no último degrau que dava para o segundo andar.
—O que? — Perguntou numa expiração, enquanto o mais velho depositava a caixa em uma mesa colada à parede e limpava as mãos no sobretudo.
—Eu vi que você quase tropeçou. — Ele disse com um sorriso cínico, obviamente querenco começar uma discussão que deixasse o ambiente mais familiar.
—Você está brincando comigo? Você pensou besteira em uma frase simples! — Bateu o pé, as sobrancelhas juntas de vergonha, aproximando-se mais dele, que agora abria a caixa que vinha carregando.
—Eu não pensei nada, foi só uma maneira metafórica de dizer que você nunca caiu da escada. — Allen aproximou-se indignado com as mãos na cintura. O outro ignorava lindamente. — Coisa que eu duvido. — Acrescentou.
—Ninguém diz a palavra virgem para uma coisa como cair da escada! — Reclamou, mas os olhos brilharam quando o mais velho começou a tirar potes coloridos de dentro da caixa. O pequeno deu a volta e foi até a parte da mesa onde estavam os materiais.
—A palavra virgem pode ser para qualquer coisa, moyashi.
—O que é isso? — Tomou um pote na mão, balançando para ver o que tinha dentro. — E não, não pode! — Retrucou, batendo o pé como uma criança. Yuu revirou os olhos para a petulância da criatura e começou a tirar o casaco.
Se os olhos prateados acompanharam aquele movimento, ninguém precisa saber. O certo é que ele vestia uma blusa branca de manga comprida, que, mesmo não estando colada, delineava o corpo dele.
Allen perdeu o fôlego enquanto encarava e quando ele virou-se, voltou a agitar o pote como se sua vida dependesse disso.
Kanda sorriu, porque era tão óbvio o quão vermelho ele estava.
—Pare de balançar isso. — Disse autoritário, tomando o objeto das mãos pequenas do albino e ficando próximo o bastante para seus braços roçarem. Allen inflou as bochechas e abriu a boca pronto para rebater, mas faltou-lhe as palavras, então apenas deu a língua e virou o rosto com vergonha. — Não vire o rosto. — Levou os dedos até o queixo fino dele e forçou os olhares a se encontrarem.
O Walker olhou, mas franziu as sobrancelhas.
—Pare de me dar ordens, Bakanda. — Segurou no pulso dele, afastando a mão lentamente, mas deixando que os dedos longos do moreno roçassem em sua pele por mais alguns segundos. — Você sabe que eu não vou obedecer. — Encarou desafiadoramente.
—Então por que continua me olhando com esses olhos de feijão? — Ele sorriu de lado, cínico, aproximando mais ao ponto de colarem os peitorais. Aparentemente ele queria mostrar que tinha altura, o que era bem óbvio, e Allen quis socar o rosto lindo dele.
—Eu olho para onde eu q–
No entanto sua fala foi interrompida quando uma nuvem colorida de rosa atingiu seu rosto, forçando-o a calar a boca e fechar os olhos, atordoado.
—Mas que merda... — Perguntou estridente, quando abriu os olhos e começou a tossir por reflexo, mesmo que não tivesse inalado a fumaça. A primeira coisa que viu foi Yuu olhando-o com superioridade, um sorriso filho da puta nos lábios e o olhar selvagem. — Não acredito. — Allen abriu a boca num O teatralmente indignado e olhou para a quantidade de potes cheio de tinta em pó sobre a mesa. — Você não fez isso! — Passou a mão no cabelo e viu que ele estava metade colorido de rosa.
Quando voltou a olhar para Kanda, ele parecia uma criança muito grande e sexy, em quem confiava estupidamente e alguém que despertava o bom e o ruim dentro de si.
—É guerra, Moyashi, se você não está preparado, pode sair. — A voz soava séria, e Allen podia muito bem levar para a vida real. Um milhão de borboletas se agitaram quando o herdeiro pegou três potes na mão e fui dando passos para trás, como se preparando para a batalha.
O Walker sentiu uma estúpida vontade de rir e mordeu os lábios enquanto olhava dos potes para Kanda. Começou a desabotoar botão por botão do casaco e sabia que estava sendo observado. Por isso mesmo, deixou o casaco escorregar pelos ombros, assim como deixou todas as inseguranças caírem por terra.
O que veio em seguida foi duas crianças correndo de um lado para o outro, escondendo-se atrás de manequins e atirando tintas coloridas para todo o lugar. Havia cor nas paredes, no chão, flutuando no ar e principalmente nas roupas, pele e cabelo dos garotos.
Allen ria gostosamente e gritava que não era justo que Kanda pudesse segurar três potes em uma mão e ele apenas dois!
—É injusto você ter mais munição! — E gargalhava, tentando jogar um punhado de tinta azul celeste num Kanda que corria para trás de um painel no canto da sala.
—A culpa não é minha se você é um moyashi!
E mais tinta voava.
De atêlie abandonado, cheirando a tecidos velhos, aquilo virara um campo minado de sentimentos. Kanda estava agora transformando um lugar que sempre evitou em lembranças boas. Escondido atrás dos painéis, ele observava o quão pequeno era aquele salão e o quão grande era a dor que dali emanava.
Porém quando entrou foi pior.
Sem que Allen soubesse, o ímpeto do moreno era de dar as costas, entrar no carro e dirigir para o mais longe possível. Para ele, era extremamente difícil entrar naquela que sua mãe chamava de segunda casa. Um lugar que ele tinha se esforçado muito para esquecer. Mas ele entrou, por Allen.
Quando pensou em levar o pequeno para lá, imediatamente se reprimiu, porque não havia razões para levar Allen àquela parte de sua vida. Se ele mesmo tinha mantido aquele sentimento guardado por anos, por que forçar alguém a lidar com eles?
Era injusto com Allen, porém não era como se Kanda fosse justo. Na verdade, quanto mais motivos ruins o moreno achava, mais queria levar o garoto lá. Talvez fosse uma última tentativa para se desprender dele, para mostrá-lo o quão pesado era aquele ambiente e para avisá-lo do quão confuso era o seu interior.
Então ele foi buscar o albino na aula de Ballet com o objetivo de apresentar aquele atelié sufocante, mas no meio do caminho havia uma loja de tintas.
Sim, havia uma loja de tintas no meio do caminho e de repente o mais velho pensou se não podia pintar aquelas velhas paredes, quem sabe. Talvez fosse uma maneira de reconstruir aquilo.
Reconstruir.
A palavra ecoou várias vezes na mente de Kanda.
Reconstruir nunca estivera em seu vocabulário. Tudo era esquecer, ou vingar-se, mas reconstruir? Aquilo obviamente era coisa daquele moyashi. Afinal, com que tipo de pessoas estava andando? Com um garotinho tão sorridente que chegava a ser irritante!
Comprou tinta. Várias delas. E quando passou próximo à uma padaria, também comprou comida, porque Allen gostava de comida e Kanda gostava de Allen.
Em seguida, havia o estúdio de dança. Antes, o moreno achava bizarro o outro dançar Ballet, mas agora ele sabia que Allen não seria Allen se não fosse bailarino, nem tocasse piano, nem fosse baixinho e tivesse olhos lindos . Tudo em concordância com cabelos de velho e uma petulância enorme.
Era seu Allen. Seu.
Tinha olhos apenas para ele quando adentrou naquele estúdio. Ele sabia que todas as garotas do local tinha notado-o, mas não deu a mínima porque tudo que seus olhos procuravam estava sentado no chão, vestido por uma legging que tornava a pequena estatura sedutora e inocente ao mesmo tempo.
E o quão lindo ele ficava vermelho e suado? Era um pecado até mesmo para Yuu que nunca fora religioso. Ele sabia, no entanto, que se tivesse que rezar, rezaria para manter aquela criatura na sua vida, e agradeceria ao destino por tê-los colocado naquele bar, naquele fatídico dia, com bebida, olhares bruscos e oposição de ideias.
Yuu até se arrependia de ter sido um babaca e quase perdido o albino, mas nunca, jamais, se arrependeria de ter colocado o brinco naquela criança, que agora ria loucamente porque tinha tropeçado e sujado a si mesmo com o pó azul que estava carregando.
Como previsto, as paredes brancas e esquecidas estavam sendo pintadas e tudo ganhava um aspecto surreal. Havia tinta na atmosfera e se Kanda respirasse muito fundo, começaria a tossir pelo pó que entrava em suas narinas e ardia seus olhos.
A gargalhava de Allen soava alta, ele tinha os olhos espremidos em extrema adrenalina e fazia bico quando Kanda decidia rasgar um tecido e começar a lhe atacar com tinta enrolada nele. Mas era ótimo, libertador e pela primeira vez, Yuu se permitiu ser feliz de novo.
Permitiu-se sorrir e ir jogando fora, mesmo que aos poucos, aquela sensação de solidão, de raiva e de desesperança. Porque com ele, Kanda sentia que poderia ser realmente amado, algo que procurou por muito, muito tempo.
Durante os anos de sua infância, o moreno escutou de muita gente que sentir dor era normal, mas que era importante manter lembranças boas e ir superando aos poucos. O que esqueceram de falar é como fazer isso.
Quando alguém morre, morre uma parte de você também. Mas todos esquecem de falar que uma parte da história também morre e isso não é facilmente superado. É como se houvesse uma ruptura no meio de todo aquele caos, como se uma parte da história fosse deletada. É estranho pensar nisso, porque as pessoas desaparecem quando morrem e às vezes é como se nunca tivessem existido, mas mesmo assim ainda há aquela esperança boba de a pessoa voltar ainda que você saiba que não vai.
Tudo que lhe resta é a solidão. E nela Yuu se afundou.
Um dia, ele se acostumou a olhar para a porta e saber que ninguém iria entrar.
Um dia, ele se cansou de todos falando que era difícil, porque ninguém nunca tinha a real dimensão da dor. Em algumas madrugadas, ela parecia tão forte, tão intrínseca que Kanda cansou de sentir tanto e foi bloqueando tudo.
É por isso que não era tão doloroso dizer em alto tom que Margot havia morrido. Revestia-se com indiferença e dizia que virou pó e estava debaixo da terra.
Mas morreu. Diga isso em voz alta e sinta esse impacto.
Você não consegue, Kanda?
É porque você nunca lidou com isso. Foi mais fácil ter esquecido, fingir a todos que não faz falta, e ir tentando seguir a vida como se todos esses distúrbios de personalidade fossem seus. Como se você fosse uma pessoa horrível.
Você não é, você só é triste e machucado.
Então pode chorar. Você que se fez de forte até agora, chore e grite essa dor contida para fora. Dê o primeiro passo nessa aceitação. E se você falhar e sentir que vai desmoronar, tudo bem sentir medo, tudo bem recuar. É um processo longo, aos poucos você vai achando um caminho e criando coragem para segui-lo. Aos poucos você vai revirar lembranças, fotos, locais. Talvez algum dia visite o túmulo e se despeça apropriadamente.
Não precisa ser agora, você pode lidar com isso depois. Pode tatuar na pele para se lembrar todos os dias dessa pequena batalha interna. Mas nunca se esqueça do quanto você é forte e da quantidade de arte que tem dentro de você.
Você pode ser feliz, pode amar. Não precisa mais buscar amores vazios porque se acha desmerecedor do amor verdadeiro. Deixe a pessoa ir e mantenha apenas as memórias boas. Fale sobre o que aconteceu.
Viva e, acima de tudo, ame. Olha para frente e veja como ele sorri. Veja como ele parece grande e forte mesmo coberto de tinta, como ele mexe com você, como você poderia facilmente acatar uma ordem dele porque tudo que sai daquela boca é mágica e bagunça o seu ser.
Vá em frente, Kanda. Seja corajoso e vá.
—Ah! Agora você tem coragem de sair do seu esconderijo? — Allen zombou enquanto tentava equilibrar três latas de tinta nos braços, porque ele precisava de munição, é claro. Se o Bakanda queria guerra, ele teria!
O albino tinha uma expressão traquina, uma inocência maldosa enquanto colocava a ponta da língua para fora, como se tivesse planejando algo muito mais grave que só jogar três tipos de cores em Kanda e ver se ele como ele fica pintado de arco íris.
O moreno, por sua vez, andava em sua direção calmamente, com o jeito natural e sensual dele. Pé ante pé, um metro e oitenta caminhando até si como se estivesse lendo sua alma e o arrepio que subiu a coluna do mais novo, fê-lo rir.
—O que você está fazendo? — Riu sarcástico. — Você está tão confiante assim, mesmo sem munição? — Arqueou a sobrancelha clara. Obviamente, Yuu teria revirado os olhos para ele, se não estivesse preso em um mundo onde Allen era perfeito.
Allen perdeu o sorriso provocador aos poucos, quando notou o olhar fixo dele em si. Como sempre, os olhos azul escuro, quase negros, pareciam esconder um oceano de informações e atraía a curiosidade do albino, que agora tentava decifrar o brilho no olhar destinado a si.
Era ruim se sentisse uma ansiedade boa corroendo-lhe o estômago?
—Kanda? — Perguntou cautelosamente, a voz baixa e suave. — Tudo bem? — Era de seu conhecimento que aquele lugar poderia trazer pensamentos ruins para ele, por isso tentou distraí-lo e usar a confiança depositada em si o máximo possível, mas ele parecia tão afetado.
—Shh... — Pediu e a esse ponto já estava há dois passos do pequeno.
—O que aconteceu? — Sussurrou aflito, com uma ansiedade medrosa enquanto olhava para os lados. Na verdade, era realmente estranho estar ali, com o filho da dona do lugar e tendo um ótimo momento e, Meu Deus, e se o espír...
—Será que você não poderia ficar calado, moyashi? — Por um segundo, as sobrancelhas dele se franziram, mas logo voltaram a adornar o olhar devoto que ele tinha. Allen, no entanto, franziu as suas.
—Ora, você é um arrogante, Kanda! Quem você acha que é para... — Então ele começou um discurso, o qual o mais velho não se deu o trabalho de ouvir. Era mais interessante notar como ele cruzava os braços e jogava o peso para um perna, enquanto os lábios falavam sem falar e as sobrancelhas estavam franzidas. Ele também tendia a tombar a cabeça para o lado, e ia inchando as bochechas, as quais ficavam vermelhas porque, enquanto reclamava, ele nem se lembrava de respirar. — Então não me mande ficar calado porq–
Allen teve ambas as bochechas seguradas por Kanda, que mantinha um contato visual intenso, o qual foi suficiente para calar o pequeno.
—Yuu...? — Voltou a sussurrar e quando ouviu seu nome sair baixinho, tudo que o moreno fez foi dar um sorriso de lado, completamente enfeitiçado, que amoleceu todos os músculos do albino e fê-lo suspirar derrotado.
—Tem tinta nos seus cílios. — A voz rouca saiu arrastada e o Walker mordeu os lábios com a vibração que atingiu seu corpo. E quando ele moveu os polegares, fazendo carinho em sua bochecha, fechou os olhos em deleite, dando total permissão para ele tocar seu rosto com as pontas dos dedos.
Para o francês, era como tocar uma obra de arte. Na sua cabeça, havia um bombardeio de elogios e perfeições e pequenas notas de agradecimento ao destino, mas é óbvio que ele não falaria nada. Nem precisaria.
Através das pontas dos dedos gelados, o albino sentiu ele passear por sua bochecha e maçã do rosto e ir subindo até as sobrancelhas. Delineou com os dedos os pelos claros e tocou onde os fios de cabelo cobriam, para só então descer para o nariz afilado e causar cosquinhas no pequeno. Allen soltou uma risadinha adorável e Kanda achou-se patético por ter adorado aquilo.
Em seguida, desceu para o maxilar fino e pouco marcado dele. Viu os lábios dele tremerem e serem umedecidos com a língua. Foi aí que Yuu se tocou que beijá-lo já não era um desejo ou uma vingança que ele nem mais se lembrava o motivo. Beijá-lo era uma necessidade horrível. E o pior de tudo! Queria beijá-lo com calma, para senti-lo, para tentar transmitir a adoração que sentia!
Humilhante, era o que era.
Humilhante beijar aqueles lábios tão finos e rosados, gelados e com hálito de menta. Macios como veludo. Vê-lo tão de perto, com olhos fechados e pressionados e cílios coloridos era tão...
Era para ser um selinho apenas, mas nenhum dos dois se conteve. Aparentemente as coisas foram transmitidas de forma eficiente, porque agora Allen ficava na ponta das pés para impedi-lo de se afastar e entreabria os lábios, em um convite irrecusável.
Lentamente, o moreno serpenteou os braços fortes na cintura fina do albino e trouxe-o mais para cima de seus pés, o que diminuía a diferença de altura. Allen, por sua vez, passou os braços pelo pescoço dele e ambos iniciaram um beijo lento e molhado, que mais massageava os lábios que trocava saliva.
Enquanto isso, o sol sumia do lado de fora das cortinas e a neve começava a cair. No dia seguinte, provavelmente a França acordaria debaixo de neve, mas naquele momento a única coisa que caia sobre eles era uma paz fantasiada de nuvem de pó colorido.
Quando deram-se por satisfeitos, apenas trocaram olhares rápidos, sorriso envergonhados, e Kanda levantou o albino pela cintura, como se ele não pesasse nada, e pôs-se a caminhar até a escada.
—Vai me jogar da escada ou me levar para comer? — Provocou.
—Vai ter que esperar para descobrir. — Respondeu, segurando o albino apertado e seguro contra si. Ouviu um risadinha enquanto ele deitava a cabeça no seu ombro.
—Eu sujei suas costas. — Allen cantarolou com voz de vitória, enquanto era carregado até a mesa e mantinha as mãos espalmadas nas costas largas do mais velho.
—Muito maduro para alguém coberto de tinta.
—Cala a boca.
Assim, Kanda começava a se arrepender dos próprios pensamentos, achando-se ridículo porque não tinha nada perfeito ali! Garoto irritante, petulante e baixinho, que ainda tinha a audácia de sorrir inocente! Yuu odiava pessoas assim!
E se Allen voltou para casa com os lábios inchados, era um mero detalhe porque eles eram opostos, não concordavam com nada, tinham visões diferentes da vida, e, acredite, eles indiscutivelmente e totalmente se odiavam.
Eu sempre soube...
É amor,
Eu quis esconder e não funcionou.
Me transtornou. — JahS
Fale com o autor