Honey

24 Bastidores


Notas iniciais
Depois de dois meses, aqui estou eu! Boa tarde a todos, como estão? Tive alguns problemas de saúde ultimamente e precisei me ausentar, além de que viajei e estou tento problemas com vestibulares e escola. Enfim, gostaria de agradecer aos lindos comentários do último capítulo! É incrível pensar no suporte que você me dão! Muito obrigada mesmo! Bem, pelas minhas contas, essa fanfic acaba no capítulo 30, então já estamos terminando e eu, particularmente, acho que você vão gostar do que vai acontecer daqui pra frente! Espero que gostem do capítulo e até mais!

Lavi entrou naquela sala como um furacão. Os olhos verdes arregalados denunciavam que ele jamais imaginaria ver algo daquele tipo, não depois de todo aquele tempo.

Havia alguns mestres espalhados pela sala, conversando sobre o feriado de Natal e contando os lugares paradisíacos para onde foram. Todos alheios ao ruivo desnorteado, que buscava Alma com os olhos.

—Alma! — Chamou ao avistar o moreno sentado em seu lugar de costume, incapaz de esperar um segundo sequer para começar a falar. — Alma! — Pôs-se a abrir espaço por entre as pessoas e foi subindo as escadas o mais rápido possível.

Seus movimentos eram seguidos pelos olhos castanhos do jovem Karma, que antes estava concentrado finalizando a leitura de certo livro.

—Você não vai acreditar! — Afirmou convicto, apoiando as duas mãos na mesa alheia e puxando o ar como se tivesse corrido uma maratona.

Alma estava quase certo que boa parte daquilo era drama.

—O que foi? — Perguntou calmamente.

—O Yuu! Ele...eu fui pegar o café e, Meu Deus, eu nem peguei o café de tão surpreso! Vou ter que voltar lá antes de começar a aula mas quando eu estava indo pra lá, ouvi umas pessoas falando q–

—Diz logo, Lavi! — Alma rolou os olhos, o amigo tinha tendência a fugir de assuntos rapidamente.

—O Yuu! — Novamente arregalou os olhos e tampou um lado do rosto, como se estivesse segredando algo terrível. — Eu o vi lá embaixo! Com o Allen-chan! — Sussurrava, fingindo terror.

—Sim, eles parecem estar se dando bem, não é? — Arqueou as sobrancelhas em deboche, tratando Lavi infantilmente.

Foi a vez do ruivo rolar os olhos e ajeitar a coluna, tomando uma posição séria e não mais brincalhona. Alma imediatamente notou a mudança de comportamento e fechou o livro em mãos. Lavi deu um suspiro cansado, fechando os olhos por um segundo antes de prosseguir.

—Mais do que isso. — Sem tom dramático, a voz dele saiu clara e grave. Eram poucas as vezes que o Bookman falava seriamente, por isso Alma tombou ligeiramente a cabeça e prestou atenção. — Ele estava diferente. Não sei explicar, mas tinha alguma coisa diferente nele. Acho que ele veio com o Allen.

—Tem alguma coisa a ver com eles terem saído todos os dias? — Agora Alma que abaixava o tom.

—Talvez. — O ruivo analisava. — Na verdade, muito provável. Esses últimos dias a mansão estava uma agitação total por causa das saídas dele. Fui conversar com as arrumadeiras de lá e todas elas pareciam animadas dizendo que Kanda estava mais... — Desviou o olhar para a porta, perdendo-se nas palavras.

O moreno também desviou o olhar, buscando absorver a informação. Também havia feito suas ligações periódicas para a governanta de Kanda, o que fazia sempre desde que se dera conta de como o amigo estava. Yuu podia até não saber, mas todos da mansão viveram os últimos anos preocupados com ele, ligando e reportando qualquer coisa boa ou ruim. Inclusive para Alma e Yuji.

—Eles me disseram que ele estava mais motivado. — Por fim, disse.

—Foi o que eu percebi. — Lavi completou.

—Deve ser o Allen. — O moreno sorriu pequeno. — Eu aposto que é ele. — Riu pelas narinas, mas os olhos ardiam e precisou engolir em seco para descer o bolo preso na garganta. — Se nós não fomos capazes, ele foi. — Finalizou e o Bookman olhou para ele, agora com os braços cruzados e a face límpida.

Se encararam por alguns segundos e em um assentimento mudo deram por encerrada a missão que carregaram por todos aqueles anos.

Como filhos de empresários, herdeiros de empresas, as conexões e amizades eram estabelecidas desde cedo e por isso costumavam ser intensas.

Lavi, Alma, Amelié e Kanda eram conhecidos desde crianças. Quando suas famílias viajavam, sempre iam para os mesmos lugares ou quando os pais de um precisavam se ausentar, o filho sempre ficava sob cuidados de outra família. Portanto, quando Margot morreu, todos sentiram.

Yuji estava destruído, Kanda tinha se calado e ambos já não compareciam aos jantares regularmente. Quando faziam era nítida a situação de pai e filho, ambos lutando contra a dor por si mesmos. Obviamente, todos sabiam para quem seria mais difícil, mas naqueles momentos não havia muito a se fazer.

Amelié, Lavi e Alma tentaram ajudar Yuu, mas ele afastou todos. Amelié foi embora, decepcionada com a recusa, e Lavi, depois de um tempo, achou que se aparentasse indiferença e agisse como Kanda agia com outras garotas pudesse formar um laço com ele. Não deu certo, mas o ruivo continuava ali, fingindo ser quem não era para que ele não se sentisse sozinho e deslocado, porque assim Yuu teria um amigo com quem se identificasse, certo? Não. Já Alma continuou sendo o que sempre fora, porque sabia que aquela casca não era Kanda. Ele passou a ser o amigo chato, o amigo superprotetor, transbordando pena e preocupação.

Agora ambos poderiam desistir da missão suicida que arrastou todos eles para o mesmo buraco que Kanda. Poderiam, finalmente, voltar a ser quem eram e se libertar das amarras da culpa infundada.

—Vou esperar a Lena na porta da escola. — Lavi disse, após respirar fundo. Parecia ter retirado um peso dos ombros e sentia-se aliviado por não ter mais que fingir flertes e aparentar perfeição para que pudesse ser, como Kanda, um dos mais cobiçados daquele sistema. Era exaustivo e o ruivo estava cansado. Muito cansado.

—Certo. — Alma assentiu com a cabeça, ainda olhando o perfil do amigo. — Você gosta mesmo dela, não é? — Atraiu a atenção para si e viu a seriedade nos olhos verdes, nem um sinal de palhaçada, só o velho Lavi, o garoto que preservava amizades e era brincalhão com tudo e todos, sem ser esnobe e naturalmente charmoso.

O Bookman, por sua vez, sorriu pequeno, sem mostrar os dentes, como estava acostumado a fazer. Sorriu simplesmente e assentiu, não sentindo necessidade de explicar como ela fazia ele se sentir a vontade sem precisar fingir nada.

Assim, Alma assentiu novamente e a vontade de chorar voltou, porque finalmente, finalmente, as coisas estava voltando aos eixos e ainda que nevasse lá fora, ele sabia que o céu estava azul. Ele voltaria a ser azul.

—--K&A---

—Você pode pegar os comes enquanto eu faço o seu chá? — Allen pediu, mas foi mais uma ordem embrulhada em um tom pidonho.

Kanda revirou os olhos, segurando o pratinho que o albino lhe entregara com um sorriso doce.

—Obrigado. — Ele agradeceu e pegou as xícaras para colocar as bebidas para ambos.

O moreno seguiu na direção oposta, indo ao self service e ficando meio perdido, já que fazia bastante tempo que não passava ali. Assim, muitas pessoas o observavam, perguntando-se se aquele era um aluno novato, uma vez que nunca o viram por ali.

Concentrado, Yuu pegava seus croassants e observava tudo, perguntando-se o que o Moyashi gostaria de comer. Talvez bolo? Ele sabia que Allen gostava de doces, mas será que seria bom comer tanto glacé de manhã cedo? E se ele pegasse aqueles sanduíches de atum? Eles comeram sanduíches nos passeios... Mas talvez algo gelado não fosse ideal para um café da manhã, já que Allen devia estar pegando capuccino e–

—Sabe, você tem sorte de ser um Mestre. — A voz melodiosa tão conhecida soou com ar de escárnio. Kanda bufou e franziu as sobrancelhas antes de virar e encontrar o rosto fofo daquele garoto irritante. Allen riu para a carranca dele. — Não me olhe assim, é sério! Você seria um péssimo Honey.

—E você é um Honey ótimo, Moyashi. — Esnobou, enquanto deixava o albino tomar o pratinho de sua mão e assumir o comando, escolhendo rapidamente o que iriam comer. Yuu bufou de novo quando o viu pegar o pedaço de bolo cheio de glacé.

—Me diz isso novamente quando provar o seu chá. — Ele sorriu de canto, totalmente confiante. — Estamos atrasados com a sua demora! — Terminou de recolher os alimentos e levou um biscoitinho na boca. — Que gostoso! Prova! — Pegou um entre os dedos e estendeu na frente da boca do moreno.

Yuu franziu as sobrancelhas.

—Não gosto de doces. — Reclamou.

—Mas nem é tão doce! — Allen retrucou. — Vamos, Bakanda, só um. — Sorriu de canto, porque agora Allen parecia ciente de como Kanda lutava para não ceder aos pedidos dele.

O mais velho o encarou profundamente, quase se arrependendo de ter conhecido aquela criatura.

—Por favor. — E então ele se arrependeu.

Kanda odiava Allen. Mas ainda assim abriu a boca e comeu aquela coisa extremamente doce apenas para não decepcioná-lo. E se ele achou, por um segundo, que o sorriso que o albino lhe dera em troca foi o suficiente para aquele esforço valer a pena, ninguém precisaria saber.

—Estamos atrasados, vamos.

E ignorando os olhares e um Yuu desconfiado com todas aquelas ordens, ele entregou o prato para o moreno e foi até a mesa onde tinha deixado as xícaras com o chá de Kanda e seu café, colocando o casaco em um braço e apoiando a mochila em um ombro antes de equilibrar as bebidas nas mãos.

Kanda veio logo atrás e juntos subiram as escadas para as salas.

Com ele junto de si, o Walker não se sentiu nem um pouco intimidado. Melhor, sentiu-se até em paz ao caminhar pelos corredores cheio de portas, pelos quais algumas pessoas andavam de um lado para o outro. A aula iria começar dali uns dez minutos, mas o menor conseguiu ouvir alguns instrumentos da sala de música e fez uma nota mental de visitá-la algum dia.

Ignorando os olhares questionadores, Allen na frente e Kanda atrás, entraram na sala de aula, e automaticamente foram o centro da atenção de todos.

Allen parecia irradiar satisfação e por tal motivo só focou em seus amigos, que estavam sentados no mesmo lugar de sempre.

—Allen! — Alma levantou de seu banco e acenou, sem sair do lugar. O albino sorriu para ele, nutrindo a grande afeição que tinha pelo garoto. De tão bom humor, acenou para Lavi, que sorria contido para si, e para Lena, que se mostrava radiante.

O albino estava animado para conversar com todos e matar as saudades de Alma. O moreno tinha ido para os Estados Unidos no Natal e o menor queria saber como era a América. Além disso, também queria falar sobre seus avanços com Kanda e só de pensar nisso sentia todo o seu corpo ferver de vergonha e nervosismo. Assim, nem percebeu quando uma garota levantou abruptamente de uma mesa no canto esquerdo e desceu desesperada as escadas.

Kanda, no entanto, teve tempo de virar a cabeça e assistir uma garota loira vir direto para o pequeno, esbarrando com força em seu Honey, que andou poucos passos para trás. Estavam no terceiro degrau e tudo que pôde fazer foi soltar o prato sem pensar duas vezes e segurar a cintura de Allen, puxando-o para cima.

O Walker, pôr sua vez, estava com olhos brilhantes quando sentiu um forte impacto contra seu peito e assistiu em câmera lenta as xícaras despencarem de sua mão, molhando o seu suéter e mãos.

—Allen-kun! — Lena gritou e levantou da cadeira, mas tudo que Allen sentia era as mãos de Kanda puxando-o para si e um zumbido incessante sinalizando seu atordoamento. Demorou alguns segundos para perceber o líquido quente das bebidas molhando sua blusa e queimando onde tocaram suas mãos. Ouviu Yuu chamando por si, mas uma voz feminina o sobrepunha.

—Oh me desculpe! Eu não quis, meu Deus, me desculpe! — A loira parecia desesperada, os olhos azuis arregalados em pânico. Ela gesticulava e olhava para os lados como se pudesse achar algum lenço para limpar o albino, e seu escândalo acabou por chamar a atenção da sala.

—Você se queimou? — Foi a voz de Kanda, mas Allen estava mais curioso em saber quem era a novata.

—Não, eu... — Limpou a mente, passando as mãos na calça e retomando a postura. O moreno deu um passo para o lado a fim de olhar o albino, já não tocando-o mais. — Não, eu só preciso me limpar e pegar o seu chá. — Sorriu pequeno, tentando desfazer o olhar fechado e preocupado dele.

—Me desculpe! Não foi a minha intenção! Deus, eu sou tão estabanada! — A garota voltou a falar, agora atraindo a atenção de ambos.

Ela tinha longos cabelos loiros, olhos azuis brilhantes e um corpo escultural, como se feito para caber naquele uniforme. Na orelha direita, havia um brinco, uma flor simbolizando que ela era uma Honey. No entanto, isso só quem notou foi Allen, porque o moreno tinha o olhar um pouco mais atrás.

—Minha Honey, meus perdões! — Alphonse desceu as escadas, com o leque de sempre, parecendo horrorizado com a situação. — Você está bem, Honey-chan? — Ele passou do lado da garota, ignorando o olhar assustado que ela lhe deu e seguiu até o albino. Kanda seguiu o de olhos verdes com o olhar afiado e viu quando ele sorriu falsamente para o pequeno e tomou a mão dele entre as suas. — Eu realmente sinto muito, ela está em treinamento!

—Ah! — Allen ficou surpreso com a atitude do outro, mas realmente não se importava com o que havia acontecido, portanto sorriu graciosamente. — Não se preocupe, foi um acidente! — Em seguida olhou para a menina, que mantinha o rosto baixo, totalmente deslocada. — E você, não se preocupe! Eu sou um Honey também! Muito prazer! — Desfez o contato com Alphonse sem avisar e aproximou-se animado da menina.

Alphonse estranhou a ação e disfarçou a feição desgostosa enquanto procurava o que fazer com as mãos que foram deixadas pelo albino. Ele sabia que Yuu estava observando a situação e por isso ergueu o rosto cinicamente para sorrir para ele.

A conversa entre os Honeys continuava.

—Ah, é que eu acabei errando o chá que ele pediu e...

—Não se preocupe, você demora um tempo para se acostumar. Se quiser, eu posso te ajudar! — Ofereceu, vendo que a garota alternava o olhar entre os três, sentindo-se desconfortável. — Aliás, qual o seu nome?

—Que gentil da sua parte, Honey-chan! — Porém antes que a moça respondesse, Alphonse interrompeu, pondo-se ao lado dela. — Ela adoraria. Certo, Honey? — Questionou com um carinho no ombro e a menina assentiu desajeitada.

O Walker, no entanto, só conseguiu sentir animação e não notou a presença tensa de Kanda atrás de si.

—Agora nós vamos pegar algo para comer e trazemos algo para vocês, para compensar esse estrago. — O Mestre dizia.

—Não, não se incomode, eu posso fazer isso, só tenho q–

—Não se preocupe, Honey-chan. — Ele sorriu, puxando a garota pela cintura. — É nosso pedido de desculpas.

Allen até tentou rebater, mas logo o outro acenou e desceu as escadas em companhia da loira. A esse ponto, boa parte da sala já tinha voltado a ignorá-los.

—Bem... — O pequeno lamentou, olhando para as próprias roupas. — Preciso dar um jeito nisso.

Kanda, que trocava um olhar compenetrado com Lavi e Alma, voltou seu olhar para o garoto e logo entregou-lhe a chave do carro.

—Pegue minha chave do armário, tem roupas limpas lá. — Avisou, começando a se sentar. Allen viu ele se mover de forma elegante para o assento. Sorriu sem motivo.

—De quando você tinha tempo livre para basquete? — Alfinetou, tentando chamar a atenção dele.

—De quando eu não tinha um moyashi para me encher o saco. — Ele rebateu, mas foi em um tom brincalhão e com uma sombra de sorriso.

Allen soltou uma risadinha e saiu da sala rapidamente. Yuu, por sua vez, virou para frente e manteve-se sério e distante em pensamentos.

Fazia bastante tempo que Alphonse não aparecia com uma Honey. Normalmente, ele tinha as suas para roubar. Porém, com Allen fora desse joguinho, o de olhos verdes parecia querer tentar atingi-lo de outras formas, pois tinha quase certeza que a diversão dele era atormentar a sua vida.

Bem, que fosse. Não dava a mínima. O problema é que, querendo ou não, o Moyashi estava no meio disso e temia que alguma coisa abalasse a ligação que estavam criando.

Sendo assim, decidiu que não lhes permitiria ficarem perto do albino.

—Ora, ora, samurai-chan... — Uma voz infantil e cantarolada infiltrou em seus pensamentos e imediatamente formou-se uma carranca.

Sem permissão alguma, Road estava sentada de pernas cruzadas em cima de sua mesa, mascando um chiclete vulgarmente. Arqueou as sobrancelhas para a cena, nunca desviando do olhar debochado dela.

—Que bagunça, né? — Soltou uma risadinha de hihihis no final, mas mantinha os olhos com um brilho perverso, curioso e talvez desafiador. — Você e o Allen-chan, o ruivo finalmente deixando ir e Alphonse com um novo brinquedo... — Pausou para olhar para o nada e explodir uma bolha de chiclete.

Yuu não abriu a boca, os olhos estreitos para ela. Road era observadora, mas se fazia de boba, então não era necessário nenhuma intervenção para que ela falasse o que queria falar, afinal, se ela estava ali, é porque algo havia de ser dito.

—Ele é sempre tão obcecado por você, né? — Mais uma risadinha e agora ela enrolava um fio de cabelo entre os dedos. — Você já contou para o Allen-chan? Ele ficaria surpreso!

Kanda rosnou com a informação. Aquilo era coisa antiga e não havia necessidade de encher a cabeça de ninguém com aquela baboseira.

—Não ouse tocar nesse assunto. — Sua voz saiu rouca e ameaçadora.

Road riu.

—Hey hey! Não precisa me atacar, Yuu-chan. — Ela cantarolou, jogando os ombros como se não ligasse. — Só falei uma verdade ainda não dita. Cedo ou tarde, isso virá a tona de novo. Aliás, acho até que está demorando.

—O que está demorando? — Antes que Kanda pudesse retrucar com xingamentos, a voz de Allen surgiu por detrás da garota e o moreno enrijeceu a coluna quando percebeu que ele já estava de volta. A Kamelot, no entanto, pareceu não se atingir.

—Allen-chan! Você demorou! — Em um segundo, ela já tinha saltado no chão e rodeava os braços no pescoço do albino, puxando-o para um abraço balançado.

—Oi, Road! — Ele engasgou um pouco e tentou responder o mais rápido possível, mas antes que tivesse retribuído o abraço, ela já se soltava.

—Estou bem e você? — A hiperatividade dela veio a tona, tanto que nem precisou iniciar uma conversa, ela já foi dando as respostas por si mesmo, o que confundiu o albino e fê-lo esquecer do antigo questionamento. — Tikky me disse que você foi ver a sua mãe. Como foram as coisas? Sempre bom rever a família.

Ela era esperta, Kanda sabia disso.

—Ahn, eu estou muito bem, obrigado! — O pequeno respondeu, um pouco confuso com todas as informações. — Sim, eu fui! Passei alguns dias em Londres e relembrei algumas emoções.

—Ahh, emoções... — Ela abanou a mão, e olhou com um divertido desdém. — Você ainda não se desfez delas, Allen-chan? — As sobrancelhas dela se juntaram e formaram uma careta infantil. O Walker não sabia se ela falava sério ou não, mas ainda assim riu levemente.

—Ainda não tenho essas habilidades, Road-chan. — Manteve um sorriso no rosto, mas ela desviou o rosto e começou a subir, ignorando-o.

—Claro que não. — Foi isso. A conversa se encerrou com a garota subindo as escadas e sentando-se sozinha na sua mesa dupla. Allen franziu o cenho pelo diálogo estranho, mas logo riu da careta que Lenalee fazia para si.

—Oi, Lena! — Rapidamente se aproximou e ajoelhou-se no banco, apoiando nas costas do assento para abraçar a amiga.

Ela apertou-lhe forte e sussurrou.

—Você está um raio de sol! Quero saber tudo que aconteceu ontem quando você saiu e nem se despediu de mim! — Sua voz soava incriminadora e maliciosa e o albino corou sem graça, sabendo que ora ou outra teria que contar a ela um ou duas coisas.

—Okay... — Assentiu, ainda de bochechas vermelhas, enquanto desfazia o abraço e olhava com um sorriso nos lábios para os outros meninos, que estavam calados observando a cena.

—Allen-chan! — Lavi foi o primeiro a dizer-lhe, mas, ao contrário do que pensou, ele não pulou em cima de si em um abraço esmagador de urso, apenas ergueu a mão em um aceno rápido, continuando encostado de forma relaxada na cadeira.

O pequeno estranhou imediatamente, e tombou a cabeça ligeiramente para o lado, ainda sorrindo o que agora era um sorriso meio descrente. Olhou nos olhos verdes do ruivo por um segundo, desejando captar a animação ou hiperatividade que sempre detectava lá, porém, para sua surpresa, Lavi parecia lívido e profundo.

—Oi, Allen! — A voz de Alma soou e, apesar de curioso com o ruivo, o Walker imediatamente desviou a atenção para o moreno logo atrás, que sorria de maneira sólida.

—Alma! Como você está? — Rapidamente, engajou uma conversa rápida com o garoto, jorrando um monte de perguntas sobre a América enquanto aproveitava aqueles minutos restantes antes da aula.

Já Kanda parecia pensativo, mas mantinha-se encostado no assento, com o olhar perdido no jardim lá fora. Allen virou para frente quando o professor entrou na sala e só então Kanda percebeu o quão grande sua camisa havia ficado nele.

—Você não tomou o chá que trouxeram? -Alphonse e sua Honey haviam trazido substitutos para a comida derrubada, mas aparentemente o moreno se recusara a tomar.

O maior olhou com nojo para a xícara e Allen quis rir.

—Está intragável. — Torceu o nariz.

—Bem, você é difícil de agradar... — O pequeno sussurrou de uma forma doce e provou da xícara. Com certeza não estava tão ruim assim, era mais provável que Kanda apenas estivesse sendo chato como sempre.

Nunca desejou tanto ter uma garrafa de água.

A verdade era que o chá parecia xarope derretido. Extremamente doce, com os granulos de açúcar presos no fundo da porcelana. Além do mais, não havia sabor do sachê, apenas água quente.

Quis colocar a língua para fora e estremecer, mas conteve-se para não dar razão à Kanda.

—Eu disse que estava horrível. — Ele, no entanto, parecia compenetrado em observar sua reação e agora lhe sorria de forma superior.

Allen revirou os olhos, devolvendo a xícara para a mesa e desejando cuspir o líquido para fora.

—Apenas com um pouco de açúcar, Bakanda. — Mentiu, porque não era bom dar razões para Kanda se sentir.

—Um pouco... — Ele debochou e, como sempre, não se importou de anotar as informações que o professor passava no quadro. Allen já fazia isso com sua letra estupidamente caprichada.

Tomou esse tempo para observar como sua camisa social caiu nos ombros curtos dele, quase deixando a mostra a clavícula saliente. As mangas cobrindo até a metade das mãos e ele as mantinha assim, considerando a neve que caia lá fora. O pequeno tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo pequeno que deixava fios escaparem vez ou outra. Seu nariz de botão tinha uma coloração avermelhada devido ao aquecedor da sala e os lábios sofriam sendo mordidos.

Allen muito provavelmente sabia que estava sendo secado, mas não fez um movimento contra, o estômago borbulhando com a sensação diferente de gostar de ser notado. Eles ainda não tinham se beijado naquela manhã e se perguntava se iriam. Talvez ele quisesse manter aquilo em sigilo e fosse evitar qualquer contato, sendo o mais discreto possível.

Não achou muito discreto quando o olhar dele caiu para suas coxas e bunda e ficaram ali por um bom par de minutos.

—--K&A---

—Eu preciso falar algo com a Lena em particular? — Allen soou nervoso e deu um sorriso amarelado, segurando levemente no bíceps de Kanda, que se aprontava para segui-los para a saída.

—Isso é uma pergunta ou uma resposta? — Kanda arqueou ambas sobrancelhas, claramente notando a ansiedade do pequeno.

Lavi riu quando Allen ficou vermelho e acabou por levar um tapa leve de Lenalee, que o repreendeu.

—Você pode me dar um minuto com a Lena? — O albino reformulou, olhando para cima com gigantes olhos claros brilhosos e seria um pecado imenso decepcioná-los.

Eram lindos.

—Você pode ter até cinco! — Foi Alma quem respondeu, descendo com a bolsa nos ombros e um sorrisinho pequeno entre os lábios. Todos se viraram para ele, Allen com um sorriso satisfeito. — Eu preciso falar com Kanda, então vá em frente. — Ele completou e, apesar de Kanda não ter desviado o olhar do amigo moreno, viu quando o pequeno feijão pareceu saciado.

—Ótimo! — Ele encolheu os ombros. — Você me espera? — Voltou a olhar para o mais velho, o que vez Yuu se perguntar porque ele estava sendo tão cuidadoso e envergonhado.

—Claro, Moyashi. — O moreno suspirou, vendo quando ele deu meia volta e saiu com Lenalee pela porta, enquanto um ruivo era a sombra distante deles.

Tempo suficiente se passou para que passo nenhum fosse ouvido do corredor e a sala já estava vazia.

Yuu voltou seu olhar para Alma, que já lhe encarava por um tempo. Esperava que ele fosse falar logo o que quer que fosse, mas quando o outro passou mais segundos em silêncio, decidiu intervir.

—O que foi, Alma? — Cruzou os braços, encostando na mesa e esperando que o menino desembuchasse.

Viu quando o Karma engoliu em seco, respirou fundo, molhou os lábios e vagou o olhar pelo cômodo. Instantes depois uma simples frase saiu baixinha, quase quebradiça.

—Como você está?

Kanda franziu as sobrancelhas.

—Bem.

—Digo, sua relação com o Allen... — Completou rapidamente.

—Bem.

Eles se encararam.

—Seria ótimo uma resposta com mais de uma sílaba. — Alma resmungou e Kanda revirou os olhos.

—Diga logo o que tem pra falar.

—Essa pressa é para ver Allen ou–

—É para que você pare de enrolar e solte logo a merda. — Yuu o interrompeu e viu Alma passar de incrédulo para raivoso e, por fim, cansado.

—Eu fui visitar os meus pais nas férias, você sabe. — Começou. — Como seu pai está?

—Está bem. Sem rodeios, Alma.

—Você não deixa as coisas mais confortáveis sendo rude desse jeito, sabia? Allen já te disse isso? — O moreno fechou a cara, claramente ofendido.

Antigamente, Kanda diria que ele não tinha motivos para ficar ofendido, mas a convivência com o Moyashi lhe alertava que talvez pudesse ser mais paciente. Suspirou.

—Tudo bem, desculpe. Continue.

—Aconte– O que? Você me pediu desculpas? — Alma tinha agora um olhar inacreditável, olhando para o moreno como se uma outra cabeça tivesse nascido do seu pescoço.

Um bufo e o de cabelos longos virou o rosto para o outro lado, provavelmente desconfortável. Alma riu, parecia genuinamente satisfeito.

—Olha, se você for–

—Eu só estou feliz. — O Karma disse e então Kanda voltou a olhá-lo, vendo que olheiras tinham se cultivado sob os olhos dele e rugas de preocupação decoravam aquela feição tão jovem.

De repente, seus braços caíram do lado do corpo e ele apertou as mãos na borda da mesa, abaixando a cabeça o suficiente para poder esconder a feição confusa. Houve algum silêncio e Alma continuou.

—Como eu estava dizendo, fui para os Estados Unidos e, como você sabe, minha irmã está lá. — Yuu prendeu a respiração, preparando-se para o que viria. — Ela quer falar com você, Kanda.

Foi um choque. De tudo, Kanda não esperava isso. A única coisa que esperava da loira era indiferença para o resto da vida, mas então ali estava Alma, com o celular na mão.

—Acho que você tem um ótimo caminho para seguir pela frente, mas antes tem que se desprender dessa coisa do passado. — Os olhos castanhos também caíram e encararam o celular. Os dois absorviam aquela tensão que se arrastava pelos anos.

Eram todos amigos e tudo tinha se esfacelado, transformando aquela convivência em mais um tópico mal resolvido.

—Yuu... — O pequeno começou, de repente com a voz muito baixa e triste. — Eu... Você não precisa fazer isso, não agora... Mas eu só queria que a gente resolvesse isso, sabe? — Ele brincava com os dedos. — Eu também estou um pouco perdido aqui, mas eu poderia ligar para ela e, você sabe, talvez vocês pudessem...

—Ligue. — A voz rouca soou profunda e incerta, quebrando logo no final. O Karma se assustou e, de início, não acreditou, porém logo pôs-se a digitar o número antes que ele se arrependesse.

A sala estava tão silenciosa que era possível ouvir o som da chamada sendo efetuada.

—Aqui. — Alma falou baixinho, oferecendo o celular.

Kanda olhou o aparelho, não levantando o olhar para o amigo, e lentamente o tomou na mão, encarando o visor. O barulho continuou até que se ouvisse uma voz feminina soar no espaço.

Hello, Alma! — A voz soou animada, como Amelié sempre fora. Alma encarou o mais velho ainda segurando o telefone, parecendo estático. — Alma? Hello? — Houve aquele desespero por parte de Alma, ao ver sua irmã falando sozinha, mas foi preciso todo o esforço para não interferir naquilo. — What´s going on? Who´s there?

Com aflição, o mais novo finalmente viu Yuu levar o telefone ao ouvido, e quando o moreno ia abrir a boca, ela continuou, agora em francês.

Kanda, é você que está aí? — A loira pareceu afetada. — Se sim, diga alguma coisa.

—Sim, sou eu. — Finalmente. Ela suspirou.

Oi... Alma me contou algumas coisas e eu... Como você está?

—Estou bem. Sua voz mudou bastante. — Ela riu contida.

Não tão fina mais, certo? — E menos agradável que a de Allen, o moreno completou em sua cabeça.

Sim. — Houve um silêncio desconfortável. — Alma disse que queria falar comigo, aqui estou.

Ah, sim... Sim, eu queria... Você tem tempo?

Não muito, tem alguém me esperando.

Ah... — Amelié pareceu desconcertada. -Tudo bem, eu vou tentar ser rápida.

—Quando quiser.

Alma observava a interação atentamente e não era como se esperasse que Kanda fosse ser um doce, então estava satisfeito com o simples fato de ele ter aceitado a ligação.

A garota suspirou e pareceu sincera.

Tudo bem… Ahn… Okay… Bem, eu jurei para mim mesma que não iria entrar em contato com você mais e fiz isso durante todos esses anos. Eu tenho tanto para falar, mas ao mesmo tempo não sinto que devo falar tudo, ou que vá importar em algo, e talvez eu até me embole em tudo, mas Kanda, todos esses anos em que você sofreu, nós também sofremos. — Suspirou com pesar. — Nós vimos você se afundar em autodestruição, recusar nossa ajuda e afastar todos de perto de você.

De repente, mágoa rompeu dele.

—Nós não. Você foi embora e eu não precisava da pena de vocês.

Não era pena! — A loira logo se defendeu, parecendo ofendida. — Nós amávamos a tia Margot também! Não foi só você que sentiu então pare de egoísmo!

Você não pode falar de egoísmo. — Kanda grunhiu, porque ela foi embora e não fez nem questão de olhar para trás.

Oh, eu posso sim! — Ela disse, aumentando a voz. — Eu fui embora sim porque eu não aguentava ver o meu amigo se destruindo e puxando todo mundo para o mesmo buraco negro! Você acha que todos estavam seguindo em frente normalmente com você trancado no quarto e fodendo pessoas diferentes a cada três dias? Você não acha que foi egoísmo prender o meu irmão e o Lavi nesse seu mundo? E o seu pai, que precisou sair de casa porque não tinha mais a mesma relação com o filho? Você acha que ele também não sentiu por perder a mulher e o filho? Não ouse me chamar de egoísta, Yuu, porque eu só quis superar isso e viver a minha vida, enquanto você arrastou esse inferno por todos esses anos não se importando com as pessoas a sua volta!

A enxurrada de palavras findou-se com uma garota ofegante, Alma tenso e Kanda mordendo com força o lábio inferior e mantendo os olhos fechados.

Eu...Oh, Deus...Eu...Por favor, não era para ter saído assim, eu só... — Uma respiração profunda e sentimental. — Me desculpe por não ter ficado. Foi demais para mim. Eu não conseguiria fazer o que os garotos fizeram. Mas também não trate como se essa fosse a minha obrigação.

Remorso foi algo que atingiu o moreno em cheio. Durante todos esses anos, ele nunca havia imaginado que afetou tanto as pessoas ao seu redor. Na verdade, tentava afastá-las cada vez mais para que elas não sentissem pena de si.

No entanto, aparentemente tudo aconteceu ao contrário.

Um turbilhão de emoções invadiu seu corpo e agradeceu por estar apoiado na mesa. Raiva, angústia, remorso o tomaram, mas um peso era retirado gradativamente de seus ombros. Era bom e ruim ao mesmo tempo.

Eu quis me manter longe e jurei só me reaproximar quando você voltasse a ser você, e estou te ligando agora porque estou realmente feliz que você tenha encontrado alguém que despertasse o seu melhor de volta. — Ela suspirou, parecendo aliviada. — Estou feliz que você tenha encontrado esse garoto, sabe? — Ela deu uma risada nervosa, começando a descontrair o clima.— Acho que temos muito a agradecer a ele. E eu quis ligar para desejar todas as felicidades do mundo, porque você merece, sabe, Yuu? E também para garantir que eu seja chamada para o casamento! — Agora ela riu de verdade e Kanda abriu os olhos para ver Alma segurando um sorriso também.

Na realidade, Kanda tinha muita coisa para falar, coisas entupidas em todos esses anos. Sentia que devia colocar para fora, mas não conseguia formar palavras. A verdade é que a vida é curta demais para não dizer "eu te amo" ou "me desculpe", mas algumas coisas levam tempo para ser formuladas de forma sincera.

Algum dia ele falaria e pediria desculpa, mas não hoje. Eles mereciam mais que palavras soltas. Todos eles. Alma, Lavi, Amelié, pai e Allen. Também as governantas da mansão e também as ex-Honeys.

Fale alguma coisa para eu saber que você ao menos me ouviu e para que eu possa desligar.

Encarou os olhos castanhos de Alma, que pareciam tão cansados e esperançosos e antes que pudesse impedir, um sorriso pequeno surgiu e um Karma emocionado subiu um polegar em afirmação.

—Acho que precisamos de mais conversas para decidirmos alguma coisa.

Oh, isso quer dizer que... — Ela soou surpresa.

—Alma pode te passar o meu número de celular. — Finalizou, e ouviu uma fungada de leve do outro lado da linha.

Ahn... Acho que... Seria legal. — A loira limpou a garganta e forçou uma voz inabalada. — Okaay! Então eu vou desligar e não atrapalhar você, certo? Mande um beijo para o Alma, Lavi e para o seu novo Honey. Até mais, Yuu.

Sem muita espera, a garota desligou o telefone e quando ergueu o rosto, viu Alma com um sorriso satisfeito nos lábios.

—Não precisa me beijar, eu ouvi o que ela disse. — Encolheu os ombros e se aproximou de cabeça baixa, a mão aberta para recuperar o celular. Yuu entregou-o. — Obrigado, acho que foi muito importante para ela.

Kanda assentiu.

—Vou chamar o Allen, vou pedir para ele vir aqui, certo? — O mais baixo apontou para a porta, meio desconfortável sobre o olhar fixo do herdeiro da Lune em si. Mas apenas deu um sorriso, e deu passos para trás até virar de costas e ir em direção a porta.

No entanto, parou com a mão encostada no batente dela.

—Na verdade...

Desfez os passos rapidamente e, após muito tempo, eles se abraçaram. A força do laço daquela amizade se mostrou em como aquele afeto foi confortável para os dois.

—É bom ter você de volta, Kanda. — Alma soltou, aliviado por aquele inferno ter acabado. — Deus, eu vou dar um carro para o Allen.

Kanda riu.

—Ele não vai aceitar.

—Bem, eu ainda devo muito a ele. — E então se separaram. — Vou chamá-lo. — Deu tapinhas nas costas do mais alto e voltou a sair da sala.

Era estranho para Yuu ter muitos problemas se dissolvendo assim, bem na sua frente. Acontece que agora ele nem se lembrava como era estar quebrado. Sabia que um tempo atrás tinha destruído o próprio quarto, quase afastado um Moyashi irritante, amaldiçoado a felicidade e ingenuidade de todos, mas agora? Ele não conseguia se lembrar da sensação de estar tão perdido, porque simplesmente não estava mais.

A resolução dos problemas que o atormentaram por tanto tempo havia chegado e nada parecia tão difícil mais. Era como olhar para trás e se perguntar "por que isso parecia o fim do mundo"? Talvez fosse porque ainda não era um adulto, talvez fosse porque precisava de um suporte, talvez fosse porque ele mesmo não se permitia ser feliz.

Assim, ter alguém acreditando em si, na bondade que havia sido enterrada, parecia ser o caminho para tudo.

E ali estava a porta.

—Alma disse para eu vir até aqui. — Allen surgiu na porta, entrando cautelosamente. — Está tudo bem? — Ele vinha para si graciosamente pequeno, dando passos suaves enquanto corria os olhos prateados por todo o seu corpo, como se averiguando o seu estado.

Yuu mantinha o olhar fixo naquela criatura tão doce e tão irritante, que parecia ter sido feita sob medida para ele. Permanecia encostado na mesa, na mesma posição, as mãos tensas apertando a madeira, os olhos transbordando afeto e vulnerabilidade.

—Kanda? O que aconteceu? — Havia um olhar de preocupação no rosto dele, uma empatia de se colocar no lugar do outro e sentir a mesma dor do outro porque simplesmente eram almas gêmeas.

Simples assim.

Quando se ama, mesmo que se sinta dor, a do companheiro sempre será posta em primeiro lugar. Era esse o sacrifício. Abrir mão da própria liberdade, da própria satisfação para se sentir completo apenas em ver a outra pessoa feliz. Era questionar-se porque aturar aquela pessoa e então lembrar que a ama e ter a certeza que, não importa o que, nunca iriam se separar.

Era discordar em tudo e concordar em permanecerem juntos.

Sentiu Allen segurar em seus pulsos e ir subindo as mãos por toda a extensão de seus braços, pressionando o suficiente para fazê-lo relaxar ao ponto de não mais segurar a borda da mesa. Por onde os pequenos dedos passavam, os músculos tensionados iam desamarrando e tremiam com um arrepio involuntário.

O albino manteve os olhos fixos no azul escuro que brilhava para si, vendo ele soltar uma respiração profunda e ir desfazendo o maxilar travado e as rugas entre as sobrancelhas. Sorriu de canto quando ele fechou os olhos, deleitando o carinho.

—Acho que você precisar relaxar mais, Bakanda... — Riu baixinho, debochando do quão entregue ele parecia. Kanda nem se deu o trabalho de responder, mais interessado em deixar que Allen se encaixasse entre suas pernas para chegar mais próximo.

Allen ficou deslumbrado com a largura dos ombros dele e como eles pareciam fortes. Mordeu os lábios quando ele parecia dar livre acesso a qualquer parte do próprio corpo e da própria alma.

—Posso fazer uma massagem em você, se quiser... — Sussurrou, afundando os dedos na carne dura do pescoço dele e descendo pelos tendões daquela região. Imediatamente, um gemido retumbou no peito dele, enquanto ele expirava forte e apertava os olhos.

O pequeno, então, quis muito que eles estivessem em casa, com óleo de massagem e Kanda sem camisa. Quis vê-lo seminu totalmente entregue as suas mãos e percebeu todo o seu corpo esquentar, clamando por isso.

Desceu os dedos mais algumas vezes contra o pescoço e ombro dele, depois se aproximou o suficiente para escorrer as mãos pelas costas largas e ir abraçando-o gradativamente enquanto os próprios dedos descobriam os músculos ali presentes.

Kanda reagiu e fechou os braços ao redor dele, apertando a cintura fina contra si e encaixando o nariz no pescoço do pequeno. Aspirou forte o cheiro doce e suave dele, querendo muito lamber aquela região, mas contentou com um beijo casto ali.

— Quer me falar o que aconteceu? — O Walker sussurrou baixinho, sentindo os braços fortes colarem os corpos e ele relaxando contra o seu pescoço. Acabou por fechar os olhos e decidiu passar os dedos no rabo de cavalo dele, vez ou outra fazendo massagem no couro cabeludo e afrouxando o elástico de cabelo.

Achou que teria que insistir um pouco mais, entretanto, surpreendentemente, Kanda sussurrou bem baixinho e íntimo em seu pescoço.

—A irmã do Alma queria falar comigo. Já fomos amigos quando criança e ela queria falar algumas coisas.

—Hm… — Sussurrou, correndo as unhas pelas costas largas cobertas pela camisa social. — E vocês brigaram?

—Ela disse algumas coisas. — A voz saia baixa e entregue, quase sonolenta.

—E você ficou calado? — Allen perguntou, um pouco surpreso, mas feliz por ter conseguido tanta intimidade com o mais velho.

—Uhum. — Ele resmungou e franziu o cenho quando o albino pôs-se a desfazer o abraço a fim de olhar para si.

Ele tinha uma expressão orgulhosa e satisfeita quando falou.

—Então quer dizer que você não é mais aquele que descontava a raiva em garrafas de bebida e em quartos gigantes? — Sorriu de canto e Yuu mudou a feição serena para uma fechada rapidamente. Allen começou a achar aquela habilidade de mudar de rosto bem fofa. Dava vontade de beijá-lo até desfazer aquela cara emburrada.

Kanda fez que ia levantar, mas o pequeno apoiou as mãos no peito dele e empurrou-o de volta. Adorava provocá-lo ao extremo, mas naquele momento só deu asas as suas vontades.

—Estou orgulhoso de você. — E antes que o moreno percebesse, Allen estava colando os lábios fechados e segurando no seu pescoço.

E, depois de ter se atrasado para reagir, apenas pôs as mãos grandes na cintura fina dele e deixou-o tomar controle daquela série de beijos simples, porque, para ser sincero, Allen Walker já tinha tomado controle de sua vida há muito tempo.

Notas finais
Muito obrigada por lerem até aqui! Não se contenham nos comentários! Lembrando que estou sempre aberta a críticas construtivas e adoro ouvir a opinião e as teorias de vocês! Um grande beijo e até o próximo! Ps: "Bastidores" porque aqui tivemos alguns fatos e pessoas por trás das cenas!