Honey
25 Decisões
Notas iniciais
Há alguns dias que parecem ser a epifania de toda uma vida. São aqueles em que você apenas senta e tudo que foi vivido parece fazer todo o sentido. As coisas vão se juntando e então você consegue soltar aquela respiração profunda e se sente feliz por estar vivo.
São poucos esses dias, no entanto são os que valem a pena.
Naquela manhã, após abraçar e beijar Kanda na sala, Allen voltou para casa de forma tranquila. Ele de repente conseguiu ver beleza em tudo. O ar parecia leve, o jazz calmo nos fones de ouvido casando com o clima gélido. Uma felicidade indescritível tomava conta de si e então ele realmente agradeceu por cada segundo dos últimos meses.
É um sentimento estranho, esse de descobrir uma razão para respirar. Allen nunca foi uma pessoa pessimista, na verdade. Porém algumas vezes parece que tudo passa no automático e você só vai levando e levando e não vê sentido no que faz. Então esses dias de constatação vêm, trazendo sentido para tudo.
Allen viu sentido enquanto pisava nas pedras da calçada. Ele viu sentido nos acordes da música e ele queria muito gritar para o mundo ver que ele estava vivo, estava respirando e estava se apaixonando. Sim, ele estava se apaixonando! Havia se dado conta disso quando abraçou Kanda naquela sala e sentiu-se como se tivesse segurando um mundo inteiro.
Ele soube que era ali, naquela sala. As pessoas dizem que você simplesmente sabe quando está entregando sua alma a alguém e ele sabe que foi ali naquela sala que ele se sentiu pronto para deixar-se apaixonar por Kanda. O albino não sabia dizer o que o prendera antes, por que não fora no campo de tulipas, enquanto eles corriam pelas ruas chuvosas de Paris, durante o passeio de barco ou mesmo no atêlie da mãe de Yuu. Esses lugares renderam memórias inesquecíveis, claro, mas foi naquela sala de aula, abraçando Kanda, enterrando as mãos no cabelo negro e longo dele e segurando sua fragilidade, que Allen pensou que gostaria de se entregar pra ele.
Naquele momento, ele desejou que pudessem deitar numa cama, enrolados até o pescoço com um cobertor compartilhado, de frente um pro outro, olhos nos olhos, enquanto faziam perguntas profundas e se conheciam.
Ele queria muito fazer isso com Kanda, sentia esse ímpeto louco de mergulhar nos braços dele como ele mesmo tinha feito mais cedo e cheirar o pescoço dele. É um pouco aterrador se dar conta disso, Allen admite. Parece loucura que esses pensamentos aleatórios reflitam tanto o que ele sente agora, mas ele também não saberia dizer por quanto tempo eles estavam ali.
Era isso.
Ele subiu os degraus de casa sentindo-se livre e querendo ganhar o mundo. Os cabelos estavam meio bagunçados e a ponta de seu nariz estava vermelha de frio, então ele correu para abrir a porta de casa, sentindo-se super energético.
Assim que destrancou a porta, no entanto, deu de cara com seu pai, que o olhou assustado.
—Pai? O que faz aqui? — Allen tombou a cabeça, confuso. Geralmente, seu pai trabalhava nesses horários, mas agora ele estava ali na sua frente, parecendo pronto para sair.
—Ah! — Ele olhou com os olhos um pouco arregalados e abriu a boca para falar. Só que sua boca permaneceu assim por um ou dois segundos e então ele limpou a garganta, desviando o olhar do filho. — Tivemos folga hoje...
Allen arqueou ambas as sobrancelhas, como se incentivasse o homem a falar mais.
—Tivemos uma folga e então vamos sair para tomar uma cerveja quente. — Mana diz, acenando afirmativamente como se necessitasse até mesmo convencer a si mesmo.
O filho não pareceu convencido, então quando ia retrucar, o mais velho foi logo emendando.
—Eu estou um pouco atrasado, meu filho, então nos falamos mais tarde, ok? — Acrescentou um sorriso meio amarelo e foi logo colocando o casaco. Allen piscou algumas vezes, raciocinando e deixou a boca meio entreaberta.
—Há comida na geladeira, você pode esquentar no microondas. Tem também suco, mas eu não pus açúcar. Não precisa me esperar, não sei que horas eu volto. — Aproximou-se e depositou um beijo na cabeça branca do garoto. — Amo você, meu filho.
Allen só teve tempo de acenar e desejar diversão antes de Mana sumir apressadamente pela porta. A situação toda soou meio estranha, seu pai não era de sair muito. Na verdade, ele tornou-se mais caseiro quando Allen nasceu e desde então não saiu mais da posição de pai protetor. Portanto, vê-lo sair pela porta sem muitas explicações e garantias não era algo comum.
Entretanto, Allen estava feliz e ver seu pai não se afundar no sofá era algo bom. Era algo ótimo! Tudo estava tão ótimo!
Ele foi para a cozinha, comeu e deveria ter feito os deveres pelo resto do dia, mas não, tudo o que fez foi deitar-se na cama e ouvir música atrás de música, mordendo os lábios e pensando em uma pessoa específica.
—--A&K---
Toda aquela alegria estava ali no dia seguinte, e no seguinte e no seguinte. Allen era uma bolinha mágica de alegria. Ele passava seus dias sorrindo para tudo e todos, até mesmo para as perguntas inseguras da nova Honey de Alphonse. Depois que o mundo clareou para si, ele achava beleza em tudo.
Sempre que podia, passava seus minutos olhando para a expressão entediada de Kanda. Admirando as sobrancelhas quase retas e os lábios finos dele. Ele parecia um daqueles gatos pretos que estavam completamente alheios para tudo. O pensamento fazia Allen rir e depois corava ao ver que Kanda o pegou em flagra sorrindo bobamente enquanto o observava.
Também virou um vício observar o movimento das costas dele quando ele andava. Também virou uma obsessão tocar nos fios dele. Observar as mãos frias e os dedos gélidos. Sentir o olhar dele cavar a sua alma quando Yuu decidia que também iria encará-lo. E então eles travavam uma daquelas conversas silenciosas que construíam bolhas de isolamento ao redor deles e terminavam com ambos de lábios coçando, seja para beijar seja para caçoar do outro. Provavelmente os dois.
Sendo assim, seus dias foram perfeitamente completos por paixão recém-descoberta. Ele ficava tão lindo quando estava em paz observando Kanda. Lavi e Lena estavam cada vez mais em um mundinho próprio também, então eles não eram incômodo. Alma vivia digitando algo no seu notebook, conversando com um amigo virtual, nas palavras dele.
Estava tudo às mil maravilhas. No final de semana era sua apresentação de Ballet e apesar do nervosismo, Allen queria que chegasse logo para que pudesse terminar logo também. Allen e Kanda também estavam se beijando mais regularmente, também andavam de mão dadas e toda vez que isso acontecia, Allen sentia uma população de borboletas no estômago. Era estranho porque aquele sentimento às vezes fazia o albino querer escalar e se enrolar no moreno.
Estava tudo às mil maravilhas, sim. Exceto pelo fato que a aproximação com Kanda aparentemente foi compensada com um afastamento com Mana.
Allen estava na cozinha quando ouviu o barulho da porta sendo fechada. Rapidamente deixou a água fervente e se dirigiu até a porta do cômodo, a tempo de ver seu pai curvado ao tirar os sapatos. Franzindo as sobrancelhas claras, o menino se encostou no batente da porta e pôs–se a acompanhar os movimentos do pai, que até então não tinha notado-o.
—Isso são horas, senhor Mana?
Assustado, o mais velho ergueu o corpo e dirigiu-se exatamente para a figura do filho na cozinha. Allen vestia uma camiseta preta grande mais para ele, uma calça de moletom e tinha os pés descalços. Uma expressão confusa com uma pitada de raiva colorir o rosto do jovem e Mana começava a se perguntar de onde aquela mania de cruzar os braços vinha.
—Boa noite, filho. Ainda acordado? — O pai bloqueou o celular, vindo até a cria para abraçá-lo. Allen recebeu o carinho com desconfiança e não devolveu o abraço.
A questão é que Allen e Mana sempre foram companheiros e contavam tudo um para o outro. Nas últimas semanas, porém, o garoto sentia que seu pai estava distante, o que deixava-o desconfiado de algo. Isso porque, as últimas semanas estavam sendo corridas e Allen estava uma pilha para a apresentação de Ballet. Conversar com o pai poderia diminuir essa tensão, mas Mana sempre parecia distraído ou com trabalho acumulado ou mexendo no celular.
Allen estava com raiva. E ciúmes, provavelmente. Afinal de contas, era Mana quem sempre reclamava de o filho ter coisas a fazer com o coisinha e chamava atenção quando o celular de Allen não parava de receber mensagens.
Todavia, ironicamente, era o pai quem estava ocupando o papel de adolescente ultimamente.
—Você está fazendo chá? — O mais velho perguntou, bagunçando os cabelos do filho e dirigindo-se ao fogão.
Allen revirou os olhos, ignorando a pergunta.
—São onze da noite, você não tinha me dito que teria que ficar até mais tarde.
—Houve um imprevisto, você sabe. As coisas estão complicadas agora que é começo de ano e temos que arrumar toda a papelada. — Ele disse enquanto passava pelo filho sem ao menos olhá-lo nos olhos. Allen não gostou daquilo.
—Entendi. — Mentiu, enquanto pegava duas xícaras e as depositava em cima do balcão. — Mas não tem ninguém para ajudar você lá? Afinal, eu nunca te vi tão ocupado assim, pai. Você deveria dividir trabalho... — Allen virou-se, com a expressão um pouco caída e preocupado.
Ele estava com raiva, sim. Mas provavelmente aquela raiva provinha da insatisfação que sentia ao não ver Mana mais tão apegado a si mesmo. Tudo bem que não queria o pai criando raízes no sofá, mas, depois do dia que ele saiu com Greg naquela confraternização da delegacia, as coisas pareciam ter mudado e só agora Allen percebeu isso.
Afinal, ninguém fica feliz quando alguém está muito perto. Mas ir muito para longe é extremamente incômodo, principalmente quando esse alguém é seu pai.
—Sim, temos uma nova empregada. O nome dela é Megan, estou ajudando a treiná-la. — Ele dizia como quem não quer nada.
Allen arqueou as sobrancelhas para isso.
—E como ela é? — Questionou meio desconfiado.
—Ela é bem desastrada, mas é muito prestativa. — Ele sorriu pequeno e finalmente se virou. Para a decepção de Allen, ele esboçava um pequeno sorriso não para si, mas para o celular. Ficou em silêncio até que o mais velho terminou todo o seu chá e ergueu os olhos. — Você está bem, filho?
Perdido em pensamentos, o mais novo apenas anuiu, mantendo a xícara à altura da boca e permanecendo encostado ao balcão.
—Certo... então eu vou dormir, ok? Tive um dia longo e preciso de um bom banho e noite de sono. — O barulho de tilintar da porcelana na pia foi ouvido e Mana deixou um beijo rápido no topo da cabeça de Allen quando passou por ele e subiu pelas escadas.
Os olhos prateados rolaram e seguiram o caminho do mais velho, enquanto o garoto mordia o lábio inferior de ansiedade. Allen conhecia o pai a vida toda e nada tirava dele que Mana estava escondendo algo de si. Para piorar, o pequeno sempre voltava na questão que não tinha se aberto com o pai sobre seu relacionamento com Kanda. Ele queria, mas precisava sentir quando a hora propícia chegasse. Para isso, ele torcia para que o clima estranho fosse só uma impressão sua e que logo as coisas voltassem ao normal.
—--A&K---
No dia seguinte, o albino saiu mais cedo de casa, pois Mana havia deixado dinheiro e um bilhete para que ele comesse algo no caminho. Da mesma forma, Lenalee mandou uma mensagem convidando-o para irem a pé para a escola, portanto ele já se dirigia à esquina onde se encontrariam.
Quase em sincronia, Lena chegou dois minutos depois que ele e lá estavam andando pelas calçadas até o colégio.
—Bom dia, Allen-kun!! — Lena cumprimentou, os cabelos curtos presos em um rabo de cavalo bem pequeno e fofo. Ela vestia um moletom grande, assim como Allen, devido ao frio. Ambos vestiam calças skinny pretas e galochas para neve.
—Bom dia, Lena! Me dá um gole desse café, estou congelando por dentro! — A morena deu uma risadinha e estendeu o copo, ao qual o albino sorveu com gratidão por alguma coisa quente para lhe aquecer. Ele não via a hora de tomar café.
—Quer passar em alguma padaria para comprar um expresso? — Ela perguntou enquanto começavam a andar. Allen negou com a cabeça.
—Não, vamos só chegar logo que eu preciso de um aquecedor. — Revirou os olhos de brincadeira, as bochechas e o nariz vermelhinhos de frio.
—Eu fico imaginando como vamos usar aquelas roupas finas para a apresentação. — Ela bebeu o resto do café e jogou o copo no lixo, buscando enfiar as mãos dentro do casaco o mais rápido possível, como Allen havia feito.
—Ahh, nem me lembra disso... — Gemeu em contragosto. — Meu estômago revira só de pensar que vamos ter que apresentar depois de amanhã.
Lena deu uma risadinha.
—Você já escolheu quem vai levar para a apresentação?
E aí estava uma decisão difícil. A questão era que cada dançarino só recebia um convite para o evento e Allen tinha que escolher entre Mana e Kanda para assistir ao espetáculo. Apesar de parecer injusto ter que escolher entre os dois, o garoto não tinha dúvidas de quem iria.
—Eu deixei o convite na cômoda do meu pai mas ainda não tive tempo para conversar com ele. Ele parece ocupado o tempo todo! — Reclamou, soprando para dentro do casaco e tentando se aquecer.
—Ah, ele ainda está assim? — Lena questionou porque sabia que o pai do amigo vinha passando menos tempo em casa essas últimas semanas.
—Sim! Ontem eu tentei questioná-lo mas ele só culpou o trabalho e se esquivou.
—Ah, Allen-kun, eu sinto muito! Isso é muito chato. — Ela levou uma mão rapidamente para afagar o ombro do amigo e depois voltou a escondê-la.
—Sim, é, mas eu não posso fazer nada. — Deu de ombros, ainda que estivesse visivelmente chateado. — E você? Vai levar o Komui-san, né?
—Não há nem discussão! — Ela riu baixinho. — Mas Lavi-kun vai estar esperando no parque, então vamos nos ver depois... — A morena abaixou a cabeça para esconder o rubor e por mais que Allen ainda estivesse um pé atrás com o namoro repentino dos dois, ele se manteve calado.
—Bem, trate de escondê-lo do Komui-san, caso contrário, au revoir, Lavi!
Lenalee riu porque era totalmente verdade.
—Eu vou tentar... E por que você não chama o Kanda-kun para fazer isso? — Allen pôs-se pensativo com a pergunta.
—Eu não sei se seria o certo. — Respondeu e logo começou a mexer nos cadarços do moletom. — Eu sinto que estaria usando ele como step , além de que ele pode estar ocupado.
—Bem, pois eu duvido que ele não teria tempo para você. — Ela devolveu na hora. Allen corou.
—Não é assim, Lena... — Disse envergonhado e a morena riu maldosa.
—É claro que é! Eu tenho certeza que Kanda-kun adoraria que você o chamasse. — Empurrou o amigo com o ombro, dando-lhe um olhar sugestivo e Allen se engasgou em rir e corar ao mesmo tempo.
—Pare com isso! Nós não somos assim! — Respondeu meio enrolado.
—Assim como?
—Assim...— Corou mais ainda com o olhar questionador e falsamente inocente da garota.
—Mas eu não disse nada assim! Você quem pensou! — Ela gargalhou da vergonha alheia e agora Allen revirou os olhos de verdade, no entanto Lena continuou. — Como vocês dois estão?
—Normal. – Se encolheu no capuz do casaco. Lena parecia atrevisa e fofa na mesma intensidade.
—Ah, por favor, Allen-kun! Detalhes! Vocês dois são cabeças-duras então precisam de um ajuda externa!
—Ajuda com o quê? — Olhou-a com os olhinhos arregalados.
—Ora! É só me dizer que eu vou descobrir! Em que passo vocês estão? — Pulou nos próprios pés, parecendo animada demais com a vergonha do amigo.
—Isso é pergunta, Lena??
—Claro que é!! — Ela arrebitou o nariz. — Allen-kun, eu aposto que nenhum de vocês falou nada para estabelecer o que está acontecendo, certo?
Allen se aborreceu imediatamente e cruzou os braços para demonstrar birra. Era óbvio que ela estava certa, mas o albino não daria essa vitória à amiga, ainda mais quando ele mesmo estava se sentindo envergonhado por aquela situação.
Lena balançou a cabeça em negação como se pensasse o que fizera para merecer aqueles dois.
—Se isso é um problema de comunicação, eu acho que você deve dar o primeiro passo. — Foi o que ela disse e completou: — Até porque eu duvido que Kanda faça o primeiro movimento.Ele já erreu antes e não vai arriscar de novo, ainda mais do jeito que ele é com você!
—Como assim do jeito que ele é comigo? — Allen virou-se para ela, desfazendo a carranca por um segundo em prol da curiosidade. Ele permaneceu de braços cruzados e Lenalee só pôde pensar em como eles estavam copiando um ao outro tão rapidamente.
—Ora, Allen-kun! Já estamos em fevereiro e você e Kanda-kun estão diferentes desde o Natal. Eu vi a relação de vocês mudar esses dois meses e posso dizer que, além de compartilhar mais com você, Kanda-kun não vai dar um passo se você não tomar a iniciativa. Ele provavelmente tem medo de te perder! — Ela disse, como se tivesse dizendo a coisa mais sábia do mundo. Allen, no entanto, revirou os olhos e começou a gesticular com as mãos.
—Não vejo essa mudança toda que você diz! Aliás, acho que você está exagerando muito!
—Sim, exagerando! — Lena bufou, cansada daquela negação que já estava dando-lhe nos nervos. Ela segurou o braço de Allen e os dois pararam subitamente no meio da calçada, agora meio escorregadia devido à neve. — Escute bem, Allen-kun.
—Escutarei, se eu não morrer congelado!
—Pare por um segundo e abra a sua mente! — Ela elevou o tom de voz uma nota e o Walker entendeu que deveria calar a boca. Lena suspirou cansada. — Nesses dois meses, eu vi você e Kanda saírem mais do que meus dedos possam contar. Cinemas, museus, até mesmo compras! Ele te acompanhou nas compras!
—Naquele dia é porque estava nevando muito e ele me ofereceu carona! — Allen tentou se defender.
—Não importa! Quando Kanda iria oferecer carona a um qualquer?? Além disso, ele está falando muito mais ultimamente! Até Alma e Lavi estão surpresos!
—Mas isso é porque ele está se libertando de amarras do passado!
—Continuando! — Ela soltou o braço do amigo e começou a gesticular para o céu. — Ele te ajuda a escolher o café da manhã, você tomam café da manhã juntos ou na sala ou no refeitório! Ele passou a fazer as atividades na sala e mesmo que ele pareça acabado, ele se mantém acordado para não deixar você isolado ou tomando todas as notas sozinhos. — Allen abriu a boca para interromper mas fechou-a a imediatamente quando Lee lhe deu O olhar. — Não me venha com o papo de que ele faz isso por causa das notas, porque todos sabemos que Kanda poderia faltar todas as aulas e ainda tiraria notas melhores que todos nós!
Bem, disso o albino não pode discordar.
—Ele está sendo muito mais compreensivo esses dias, e por mais que ele ainda faça cara feia e cruze os braços, ele já não é mais tão rude com todo mundo. — Esperança escorria das palavras de Lena e foi isso que fez com que Allen encolhesse os ombros e mordesse os lábios, pensativo. — Não me diga que tem uma resposta para isso porque a única resposta que eu aceito é que ele está derretido por você, Allen-kun.
Oh, Allen não achou que ouvir alguém dizendo aquilo fosse causar uma revolução tão grande em seu ser. A verdade era que ele tinha sim notado essas pequenas mudanças quando Kanda colocava a mão na base de suas costas ou quando eles trocavam um selinho de despedida ou quando ele se pegava sorrindo com a simples ideia de ver o moreno. Porém a insegurança era maior e Allen se perguntava se Kanda também estava apaixonado por ele.
—A julgar sua expressão de morte de neurônios, você está se perguntando bobagens aí dentro. — A morena voltou a andar, dessa vez apressando o passo para fugir do frio.
—Não... não, você tem razão. Eu tenho que sentar e conversar com ele. — O garoto se decidiu, seguindo os passos dela.
—Pode fazer isso logo agora que chegarmos na escola. — Ela animou-se com a ideia.
—Não, hoje eu não posso. Eu disse à Breeze que iria ajudá-la no café da manhã. — A voz de Allen foi diminuindo aos pouquinhos porque ele saberia a reação da amiga.
—Breeze, a Honey do Alphonse? — A agudez da voz era um indicativo daquilo que o albino já sabia: Lenalee não gostava de Breeze.
—Sim. — Respondeu apenas para ouvir o bufo da amiga.
—Eu já disse que não gosto daquela garota, Allen-kun. — Ela fez uma voz manhosa e Allen até considerou pedir desculpas, mas então ele lembrou-se que Lena não devia ter ciúmes de suas amizades, assim como ele próprio não podia ser irracional com a relação dela com Lavi.
Foi o que Kanda tinha dito, uma vez.
—Ela é uma boa garota, Lena. Você quem tem ciúmes dela!
—Ciúmes coisa nenhuma! — Ela olhou por cima do ombro assim que ambos atravessaram os portões do colégio e dirigiram-se para a ala especial. Alguns alunos da ala normal os olharam com arrogância mas eles não deram a mínima. — Algo dentro de mim diz que aquela garota não é confiável! Ainda mais com o jeito que ela olha para o Kanda!
Allen rolou os olhos mais uma vez e já sentia que a qualquer momento eles poderiam sair de órbita.
—Isso é coisa da sua cabeça, Lenalee. Não tem nada dem–
—Allen! — Uma voz fina e melodiosa cortou sua fala assim que ambos entraram no prédio e caminharam em direção ao refeitório.
—Falando nela... — Lena cantarolou e ambos viraram-se para ver a loira vindo apressadamente até o lado deles. — Eu vou indo. Boa sorte. — A morena tratou logo de dizer antes que a garota os alcançasse.
—Mas e o café do Lavi?
—Eu fiz biscoitos pra ele, só vou pegar um café rápido. — Ela explicou rapidamente e entrou pela porta do refeitório no exato momento em que Breeze chegava até Allen. Os olhos azuis dela acompanharam a morena com certa tristeza e ela dirigiu um olhar chateado para o albino.
—Bom dia, Breeze! — Allen sorriu o melhor que pôde, tentando disfarçar a situação. Breeze era uma garota linda e ela não merecia ser tratada mal. O menino adorava o nome dela, que cabia perfeitamente à aura ensolarada da garota. Tinha curvas suaves e bonitas, chegava a ser refrescante como as roupas se encaixavam de forma leve nela. Os cabelos loiros tinham mechas amendoadas e ela parecia a personificação da brisa de verão.
—Bom dia, Allen! Desculpa te incomodar mais uma vez-
—Não, tudo bem! É um prazer ajudar! — Allen foi logo cortando a sessão de desculpas que a garota sempre fazia quando pedia ajuda em alguma coisa, seja ajuda no café da manhã, seja ajuda com as anotações escolares, ou até mesmo em como ser um Honey.
—Mas eu vi como Lenalee não gostou que eu interrompi vocês... — Ela disse baixinho quando pegou o prato que Allen lhe estendeu e eles foram até a sessão self service.
—Não se preocupe com isso, Lena estava só aborrecida hoje. — Ele lhe deu um sorriso amarelo e ela abaixou a cabeça para as comidas, mordendo o lábio inferior.
—São tantas opções! Eu não faço ideia do que escolher! — Breeze choramingou, sentindo-se desesperada com aquilo. Da última vez que tinha escolhido o café, Alphonse gritou consigo e humilhou todo o esforço que ela fez dizendo que o café estava horrível e o quanto ela era inútil. Por esse motivo, a loira viu-se obrigada a pedir ajuda para Allen, já que ele parecia saber exatamente o que fazer, uma vez que Kanda sempre parecia muito satisfeito com todas as ações dele.
—Eu sugiro você começar com alguma coisa que ele goste. — Allen disse e ela imediatamente olhou para ele com medo nos olhos.
—Esse é o problema! Ele nunca diz nada! Nunca se mostra satisfeito! — A loira tinha sobrevivido quase dois meses nessa rotina de humilhação com Alphonse. Ele nunca dizia nada e o máximo de gentileza que já tinha feito era não jogar o café no suéter dela. Breeze tinha vontade de chorar o tempo todo, mas também sabia que não podia fraquejar. Ela precisava da bolsa de estudos! Seus pais estavam desempregados e se não fosse pelo dinheiro de Alphonse e pela bolsa na escola, eles estariam passando dificuldades e muito provavelmente ela teria que abandonar a escola para trabalhar.
Ah, ao menos se Alphonse a tratasse como Kanda tratava Allen. Allen era tão sortudo por ter Kanda como Mestre!
—Hm... — Allen resmungou, sentindo-se chateado pela aflição da garota. — Então eu acho que você terá que levar um pouco de cada. Assim, ele tem que gostar de alguma coisa, certo? — Ele tentou sorrir confortante, mas Breeze apenas assentiu, não muito esperançosa com a ideia. Alphonse sempre se mostrava insatisfeito e com raiva por tudo!
Assim que o prato estava coberto de comida, eles se dirigiram até a sessão de bebidas e aí Allen entrou em ação. Ele também levava consigo o café de Kanda, porque hoje eles tinham chegado mais cedo e também porque ele já estava ali.
—Bem, eu vou preparar os cafés e você observa, ok? — O garoto disse, deixando o prato na mesa e indo pegar as xícaras. — Como está nevando, chocolate quente está bom. Vou colocar duas colheres de chá de açúcar para Kanda, que não gosta de nada muito doce, e quatro para Alphonse, porque assim não fica nem doce nem amargo.
Breeze concordou, achando lindo como Allen conseguia fazer aquilo com tanta naturalidade.
—Você não vai pegar para você? — Ela perguntou, vendo que o albino não estava fazendo o próprio café da manhã.
—Eu volto aqui quando nós deixarmos as coisas lá em cima.
—Não, Allen, não tem necessidade de subir e descer! — A loira ofereceu, querendo agradar e fazer algo útil. — Deixe-me levar para você.
—Não, Breez–
Allen tentou avisar que as xícaras estavam muito quentes e que ela deveria pegá-las pela alça, como ele estava fazendo. No entanto a garota segurou ambas as xícaras pelas bordas e foi questão de segundos para que ela as soltassem num grito de dor.
—Droga! — Choramingou, enquanto dava um pulo para trás, tentando fugir do líquido fumegante que espirrou pela meia calça dela. Suas mãos doíam como o inferno e ela quis chorar de frustração por ter estragado tudo.
—Meu Deus, Breeze! — Allen exclamou assustado e olhou para todos os lados a fim de achar algo que minimizasse a dor da Honey. Então ele foi até a sessão de frios e pegou cubos de gelo, os quais embalou em um guardanapo e levou até a menina. — Aqui, segure com as duas mãos até chegarmos no enfermaria. — Ordenou, já guiando a loira até a saída. Ela tinha os olhos arregalados e os lábios trêmulos e Allen só quis protegê-la.
—M-mas eu não p-posso, Allen... T-tenho que levar o café! — Tentou explicar que Alphonse ficaria muito bravo caso ela não chegasse antes dele na sala e o medo de ser punida foi tanto que as lágrimas finalmente caíram.
—Oh, Breeze... — Allen sentiu-se quebrado com o choro da amiga, e a abraçou de lado enquanto puxava o celular do bolso sem parar de andar. — Não se preocupe, eu vou mandar uma mensagem para Kanda e ele irá avisar Alphonse que estamos em uma emergência, ok? — O albino tentou deixar a voz o mais macia possível para que pudesse tranquilizá-la e digitou rapidamente com uma mão só, enquanto estavam no corredor da enfermaria.
"Estou na enfermaria com a Breeze. Avise Alphonse que estamos em uma emergência."
—N-não precisa ficar comigo lá, Allen! — Ela tentou engolir o choro e deu uma fungada chorosa. — Pode ir, não precisa ficar em problemas por minha conta! — Ela tentou empurrá-lo para fora assim que entraram na enfermaria.
—Ela queimou as mãos, doutora, poderia dar uma olhada? — O albino ignorou o pedido de Breeze e foi logo dizendo e colocando-a sentada em uma cadeira. A enfermeira começou a fazer o seu trabalho e a loira soltou um choramingo antes de falar novamente.
—Estou sendo séria! Pode ir!
—Não se preocupe, Bree. — Allen disse reconfortante e afagou os cabelos dela com um sorriso brilhante. — Kanda não vai ficar com raiva por eu estar aqui com você. Ele pode muito bem pegar o café dele sozinho. — Piscou um olho para a loira, que o olhou admirada. A situação só fez com que ela se sentisse ainda mais triste com a certeza de que o seu Mestre não era tão bom assim.
Novamente, o semblante caiu e ela ficou triste. Allen sentiu o seu coração apertar com o olhar vazio que ela dava às próprias mãos vermelhas e já inchadas que recebia uma pomada anti-inflamatória.
—Você tem tanta sorte em ter o Kanda como Honey, Allen... — Ela disse devagar e baixo. O Walker piscou duas vezes antes de processar a frase.
—Como?
—Eu digo que você tem muita sorte de ter o Kanda! Ele pode ser um pouco calado mas te trata tão bem! Dá pra ver que ele gosta de você, além de ele ser super lindo! — Ela emendou tudo e Allen arregalou os olhos em surpresa. Quando ela tinha aquela admiração por Kanda?
Allen riu meio desconfortável, as palavras de Lenalee rondando sua mente.
—Ah, você não conhece o Kanda. Ele é bem difícil de lidar. — Pontuou, tentando dissipar os pensamentos ruins, mas ela continuou convicta.
—Mas eu tenho certeza que ele é muito melhor que o Alphonse. Eu daria tudo para ter um Kanda como Mestre! — Breeze cuspiu, em uma mistura de raiva, indignação e tristeza. Allen ficou ainda mais surpreso e limpou a garganta antes de prosseguir. A enfermeira estava enfaixando uma das mãos da loira agora.
—Não, o Kanda tem seus defeitos. Nossa relação só mudou com o tempo. E eu me lembro que Alphonse foi bem gentil quando nos conhecemos.
—Não, ele só é assim de primeira. Alphonse é muit–
—Allen? — O ambiente foi preenchido com uma voz profunda e rouca que pertencia ao moreno agora parado na porta da enfermaria. Allen olhou para ele por cima dos ombros e seu estômago deu cambalhotas por vê-lo.
Borboletas estúpidas. Ele estava de uniforme! Você o vê assim todo dia!!
—Você se feriu? — Ele perguntou no impulso, enquanto entrava na sala e enquadrava todo o corpo do albino com o olhar. Allen se arrepiou e levantou de onde estava agachado ao lado de Breeze.
—Não, eu só vim acompanhar Breeze. Ela queimou as mãos no refeitório. — Aproximou-se do mais alto, que ainda vasculhava o corpo todo do Honey atrás de algo errado. — Por que veio aqui? — Perguntou, atraindo os olhos azul-escuro para os seus.
—Vim por causa da mensagem. — Kanda levantou o celular que tinha o visor ligado no chat de mensagens deles. Allen assentiu e o moreno moveu os olhos para Breeze, a qual olhava para ambos com os olhos brilhando. — O que aconteceu?
—Breeze foi pegar as xícaras de café e eu não tive tempo de avisar que estavam muito quentes. — Allen lamentou, abraçando a si próprio e permanecendo do lado de Kanda.
—Não foi sua culpa, Allen, eu deveria saber que estavam quentes. — A loira fungou o nariz, voltando o olhar para as mãos quando lembrou-se de algo. — Kanda, você avisou Alphonse?
—Ele disse que vai vir. — Disse, enrugando o nariz como se a ideia de falar com o outro Mestre lhe fosse asquerosa. Allen acompanhou o movimento curioso e antes que pudesse falar mais alguma coisa, outro estudante adentrou a enfermaria.
—Breeze. — Dessa vez a voz não fora rouca de preocupação, mas sim de repreensão e Breeze encolheu os ombros instantaneamente.
—Alphonse, me desculpe, eu est-
No entanto, antes que a garota pudesse pedir desculpas de forma desesperada, o de olhos verdes ergueu a mão em palma aberta, o que ela entendeu como uma ordem para se calar. Allen automaticamente franziu as sobrancelhas, não gostando nada daquilo. Ele abriu a boca para falar algo quando Alphonse passou do seu lado, esbarrando no ombro do mais baixo, e foi até a Honey loira.
Dessa vez quem franziu as sobrancelhas foi Kanda, que segurou na lateral da cintura de Allen de forma protetora.
—O que diabos você fez agora? — Ele perguntou de forma ríspida e a enfermeira, que havia acabado de terminar o curativo, olhou para ele com reprovação, mesmo que Alphonse não desse a mínima. Allen ficou assustado porque o Alphonse que conhecia tinha sido gentil consigo, por isso, deu mais um passo para trás, o que levou-o a ficar colado no peitoral de Kanda.
—E-eu estava pegando o c-café, mas a xícara estava muito q-quente então... — Ela abaixou a cabeça tentando fugir do olhar reprovador do Mestre e Allen estava próximo a intervir naquela situação absurda quando Alphonse voltou a falar.
—E o que o seu Honey estava fazendo com a minha Honey, Yuu? — Ele virou-se com um olhar maldoso no rosto e Allen questionou-se se aquele garoto havia enlouquecido. Até antes do recesso de Natal, Alphonse parecia gentil e tentava de tudo para falar consigo, porém depois de conseguir uma Honey, ele parecia cada mais impaciente e raivoso.
Kanda apertou os dedos na cintura de Allen, que não ousou sair de perto dele para enfrentar um cara mais alto como Alphonse. Os 1,80 m de Kanda permaneciam altivos diante do olhar maldoso de Alphonse e logo a tensão tomou o ar.
—Allen estava só me ajudando, Alphonse, não foi nada, vam–
—É Mestre para você, Honey estúpida. — Ele rugiu e o albino abriu a boca em desaforo.
—Nada de brigas na minha enfermaria, saiam! — A enfermeira aumentou a voz, caminhando até a porta e a mantendo aberta.
Alphonse permaneceu encarando Kanda como se ambos travassem uma luta com o olhar e quando o de olhos verdes viu que o outro não iria falar nada, ficou ainda mais frustrado e com raiva, segurando Breeze com um aperto forte no braço e a puxando para fora da sala. A garota mal teve tempo de agradecer e cuspir um tchau rápido acompanhado com um semblante triste.
—Você viu como ele tratou ela?? — Allen perguntou assim que ambos saíram do local. Estava extremamente incomodado e foi até a porta ver que eles já tinham sumido pelo corredor. O albino estava indignado com a situação e virou-se para Kanda, que tinha a testa enrugada enquanto olhava para a saída. — Ele foi um babaca estúpido com ela, Kanda! Droga, eu devia ter feito alguma coisa! — Resmungou irritado, sentindo-se um merda por não ter impedido aquele comportamento abusivo.
—Você não poderia ter feito nada, Moyashi. — Kanda respondeu, apertando os lábios. Aquela postura de Alphonse o lembrou de um tempo atrás e tudo que ele sentia era vergonha por ter visto uma parte de si espelhada no outro Mestre.
—É claro que eu poderia! Eu poderia... — O albino fez uma pausa enquanto andava pelo cômodo e bagunçava os cabelos, como se aquilo fosse auxiliar no raciocínio. Então uma ideia estalou em uma cabeça e ele levantou o rosto com os olhos arregalados. — V-você não acha que ele pode machucá-la, acha?
Até mesmo Allen se assustou com o quão frágil sua voz saiu e ele estava esperando que Yuu o tranquilizasse quando viu-o apertar os lábios e ouviu a risada forçada e sarcástica da enfermeira.
—Você não tem ideia do que esses moleques podem fazer. — Ela parecia irritada e desgostosa quando olhou para Kanda. — Esse sistema de ensino de vocês é podre e por isso vocês crescem uns sujeitos repugnantes desses! — A voz dela saiu em alto e bom som e Kanda nem ao menos ficou surpreso.
A verdade é que ele também odiou esse sistema por muito tempo e ainda o odeia. A única coisa boa que lhe foi dada foi a oportunidade de conhecer e manter Allen por perto. O restante era apenas sujeira e atitudes como aquela que Alphonse demonstrou. Assim, ao ver seu garoto olhando assustado e triste para a enfermeira, Kanda teve certeza que precisava se redimir e agradecia por Allen Walker tê-lo tirado do buraco.
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