Honey
14 Tulipas
Notas iniciais
Allen tinha acordado cedo naquela que seria uma fatídica terça-feira. Bem, para qualquer um seria, mas não para ele. Pela primeira vez, sairia com Kanda, vulgo Mestre. Não que fosse um encontro, óbvio que não. Mas era um encontro. Quer dizer, era uma hora marcada onde duas pessoas se encontrariam... Não para fazer coisas estranhas, longe disso, mas era que... Argh! Ok, Allen não sabia onde enquadrar o que faria dali a algumas horas.
Na verdade, estava bem desorientado desde o dia anterior, quando acordou em seu quarto às seis da tarde. Sentia uma ligeira dor de cabeça e seu corpo parecia ter sido pisoteado por uma manada. E para piorar, ainda não tinha digerido o fato de Kanda ter lhe oferecido um dia de aventuras na EuroDisney. Até porque era o Kanda! Não era muito a cara dele gostar de ir num parque de diversão baseado em contos de fadas...
Tudo bem. Definitivamente não fazia o estilo dele.
Kanda parecia mais o tipo de cara que frequentava shows de rock pesado, cheio de tatuagens e batia o cabelo loucamente. Não que ele fizesse isso... Era só que... Tudo bem que ele, como o herdeiro de uma empresa, tinha que manter as aparências e tudo mais, só que Kanda definitivamente não tinha cara de quem iria a uma Ópera.
Não que ele não pudesse ir... Talvez as aparências enganassem também... Não que Allen reparasse, mas!!!
A bufada de ar que o albino deu poderia sim ser ouvida de Londres.
As últimas horas que passara acordado – sem sono, na verdade – durante aquela madrugada apenas serviram para colocar mil e uma possibilidades e dúvidas na cabeça do garoto. Uma dessas questões irrespondíveis era por que tinha escolhido a EuroDisney como recompensa pelo Jogos Drops. Pior! Nem tinham ganhado! E mesmo assim, ele manteve a promessa.
Oh, é verdade. Ele manter uma promessa dessa era bem curioso também.
De qualquer forma, não era como se nunca tivesse ido ao parque, muito pelo contrário! Adorava ir com Mana quando pequeno, tinha até proposto ir com o pai na primeira folga que aparecesse! O fato de Allen ter 17 anos contava? Ah, bobagem! A EuroDisney tinha umas montanhas-russas incríveis e era divertido comprar bugigangas na loja de conveniências e... Não.
O ponto de turbulência daquela situação era: Não iria com Mana, iria com Kanda.
Sim, aquela era uma informação a ser avaliada.
Quando o moreno disse que lhe daria uma recompensa caso se esforçasse nos Jogos Drops, Allen realmente não acreditou. Respondeu só de atrevimento, desafiando o Mestre. Porém depois de vê-lo jogar seriamente – e sua mente ficar falando bobagens sobre Kanda talvez estar lutando para não perder o Honey – teve a certeza de que ele não estava brincando.
A pobre mente de Allen não teve muito tempo para pensar sobre um lugar decente quando Kanda lhe questionou sobre o assunto, de forma bem inusitada, quando ligou no dia anterior.
" – Onde vamos amanhã? Fique pronto às sete. "
E pronto.
Aconteceu que falou o primeiro nome que lhe surgiu. Ora, poderia ter falado qualquer coisa! Mas foi justamente escolher aquele parte de diversão rosa e cheio de princesas.
Mais uma bufada.
O que estava feito, estava feito. Agora o difícil mesmo era escolher uma roupa para ir.
Em sua cama estavam jogadas duas mudas. Uma delas, mais fechada e quentinha, era ideal para o Outono. A outra tinha um ar mais esportivo, ideal para deixar o suor evaporar enquanto corria de uma atração a outra para evitar pegar filas.
Qual delas escolher?
Allen gostava do casaco marrom claro que tinha. Ele era feito por um tecido de veludo, chegava até a metade das coxas e ainda trazia consigo um capuz com as bordas de pelinhos brancos. Agora que estavam em Outubro, teria mesmo que usar aquele tipo de roupa – que amava, só para constar.
Bom, tinha que admitir, era uma boa aquele casaco. Bem quentinho, como as folhas amareladas das árvores na rua pediam.
Agora, e se suasse? Apesar do vento ligeiramente gelado, principalmente quando se está em alta velocidade em uma montanha-russa, Allen não via necessidade de algo muito protetor. Talvez uma blusa de manga comprida bem larga, como aquela verde musgo jogada na cama.
Também gostava daquela roupa.
No resto, usaria uma calça jeans escura e uma botina de plástico em preto fosco até o meio das canelas. Afinal, nunca se sabe quando poderia chover e aquela botina era muito confortável para qualquer ocasião.
Mordeu o lábio inferior, batendo o pé no assoalho algumas vezes. Ainda tinha que tomar banho e comer algo, mas estava tudo bem, Kanda havia dito que lhe pegaria cedo, mas a falta de sono lhe providenciara tempo.
Quanto, na verdade?
Deu a volta na cama, a fim de pegar o celular e olhar as horas, e imagine a sua surpresa ao ver o aparelho começar a vibrar quando sua mão estava a centímetros dele??
— O que? – Disse ao nada, sentando na beirada da cama e pegando o aparelho na mão. A tela dizia que era Kanda quem ligava, fato bem estranho se considerarmos que... – Alô?
—Moyashi, não poderei ir ao compromisso hoje.
Assim mesmo, rápido, rude e sem nem um bom dia. Allen não sabia se ficava irritado pela aparente pressa – ou impaciência – do moreno ou se ficava com raiva por ele ter chamado de “compromisso”.
Mas era um compromisso, não era? Porque encontro não seria, Allen.
—Ah... – De início não sabia o que falar, porém logo deixou vir o que quisesse. – Primeiramente, bom dia. E não tem problema, eu não estava me sentindo muito bem também... – Disse, com a voz aparentemente normal, pelo menos em sua concepção.
—Não está bem pelo clima ou pelos Jogos? – Ora, ele se deu ao trabalho!
—Estou acostumado com o clima. – Respondeu, empurrando as roupas para o chão e escorregando para debaixo da coberta. Não iria mais se arrumar, não iria ter um dia de diversão, pois então aquele dia de folga pós-Jogos Drops iria ser muito bem aproveitado na cama. – Acho que é só o cansaço mesmo.
—Hm. – Ele “soou” do outro lado. Parecia mexer em alguma coisa, pois Allen ouvia barulho de vidro. – Então é isso. Vamos deixar para outro dia.
—Ok. – O albino respondeu, fechando os olhos, como se, caso o fizesse, o sono viesse o embalar. O problema é que seu coração não estava calmo para se deixar ninar naquele momento. – Até amanhã.
—Até.
Logo estava sozinho. Agora ia deitar, tentar dormir as horas perdidas e aproveitar o dia de folga. Mais tarde iria estudar, claro, e pesquisar sobre profissões, uma vez que já não tinha a mesma certeza de cursar Medicina como tivera no início do ano letivo.
Isso, não iria se preocupar com roupas, montanhas-russas legais, algodões doces enormes e multicoloridos.
—Filho? – Mana bateu na porta alguns segundos depois do menino tentar calar a voz de seus pensamentos. – Já acordado? O café está pronto. – Avisou, entrando no quarto. – Você não tem que se aprontar e sair com o coisinha lá? – Riu abafado. O que um herdeiro rico queria fazer na EuroDisney?
O mesmo herdeiro que lhe entregou seu filho desmaiado sem dar um pingo de satisfação! Era rir para não chorar.
—Não vou mais. Parece que ele teve algum compromisso, não sei. – Respondeu, encolhido entre as cobertas.
Mana achou aquilo curioso, principalmente pelas roupas jogadas no chão. O homem sabia o quanto seu filho gostava daquele parque. Allen achava deslumbrante os fogos de artifícios no final do dia e nunca se cansava de comer o combo de dez sabores que a sorveteria do lugar oferecia.
—Ele disse? – Perguntou, retoricamente.
—Acabou de ligar. Falou para deixar para outro dia. – Mana tentava notar alguma diferença no ritmo de respiração do filho, qualquer coisa. No entanto, ele parecia normal... Determinado a dormir.
—Bem, não há nada que possamos fazer, certo? – O mais velho disse, chegando mais perto do filho e acariciando seus cabelos. – Mas eu fiz uma omelete deliciosa que está te esperando lá embaixo e se você não for ela vai ficar triste.
Silêncio. Mana mantinha um meio sorriso no rosto. Havia deixado a porta do quarto aberta propositalmente para o cheiro do alimento invadir o quarto. Não foi necessário mais que alguns segundos.
—Coitadinha... – A voz soou. – Então eu tenho que comê-la, né? – O homem viu o filho se remexer e os olhos prateados lhe encararem. Sorriu.
O albino acompanhou o pai para fora do quarto, já salivando ao imaginar a mesa que o esperava. Seria mentir caso dissesse que estava animado a ponto de pular os degraus da escada, mas era comida e comida, para Allen Walker, sempre vinha acompanhada de animação.
—Já que não vai fazer nada o dia inteiro, por que não convida Lenalee para assistir um filme aqui? – Mana sugeriu, enquanto o filho sentava e colocava o celular do lado do prato.
—Eu pensei em dar uma estudada, mas é uma boa ideia. – Disse, servindo-se do suco de amora. – Só que talvez ela também tenha que sair com aquele ruivo e tudo mais.
—Você quem sabe. Não custa nada ligar. – O mais velho respondeu, achando graça da rabugice do garoto e colocando um pedaço generoso de omelete no prato dele.
—Vou ligar para ela mais tarde, mas não duvido nada que ela me troque. – Allen entortou a cara e Mana arqueou a sobrancelha.
—Esse Lavi é um contratante igual o coisinha? –Mana perguntou, tomando um gole do suco. Estava uma delicia.
A mesa da cozinha era pequena, com apenas quatro cadeiras. Era feita de uma madeira maciça e escura e ornamentada por um vaso com algumas tulipas artificiais.
—Uhum. – Sua garganta emitiu, uma vez que a boca estava ocupada demais mastigando o café da manhã.
—Está bom? – Mana perguntou, provocante.
—Está uma delícia, pai!! – O filho sorriu brilhantemente, engolindo rápido o pedaço de comida. A comida de Mana parecia feita por anjos! – Ainda não entendo porque o senhor desistiu do curso de culinária para fazer Direito...
—Coisas da vida, Allen. – Mana deu de ombros. – No fim, culinária era só meu hobbie... – Encheu a boca com mais uma garfada de omelete.
—Um ótimo hobbie! – O garoto comentou, feliz em ter um pai que cozinhava tão bem para si. – Acho que eu n... – Mas não pôde terminar. A cozinha foi preenchida pelo toque de seu telefone celular, junto do atrito do aparelho vibrando contra a mesa.
Mana apenas observou o desespero do filho ao ler o visor. Allen largou o garfo rápido demais, causando um barulho alto no prato, e pegou o aparelho com os olhos surpresos.
—K-Kanda? – Perguntou, e Mana arqueou a sobrancelha à referência do nome.
— Estou na porta de sua casa. Vista-se com um casaco grosso e pegue uma muda de roupas quentes. Não esqueça os documentos e diga a seu pai que vai me ajudar em um trabalho.
—Ma-O quê?! Ei Kand –
— Você tem dez minutos. – O moreno desligou o telefone na sua cara. Allen ainda observou-o até a tela apagar, depois olhou para o pai.
— O que ele disse? – O pai perguntou, com o garfo parado ao meio caminho da boca.
—Eu... – Allen parecia desnorteado, sem saber onde fixar o olhar. Na porta de sua casa?– Não sei, só... – Engoliu em seco, sem vontade de terminar a omelete. De repente seu estômago se encontrava em rebuliço! Ele não tinha dito que não poderia sair hoje? Então por que... Dez minutos?? Aquilo era absurdo!! – Ai meu Deus! – Levantou-se bruscamente, correndo para seu quarto como um louco, sem nem se importar com um possível acidente por estar de meia.
Não teve tempo nem de raciocinar e já estava saindo do banho quente, a pele soltando vapor. Enxugou o cabelo o mais rápido que pôde, deixando-o meio úmido. Correu o quarto com a escova de dente na boca, pulando até conseguir vestir a cueca e a calça jeans que havia separado. No fim, não precisou se preocupar com o que vestir, apenas pôs a blusa verde musgo e vestiu o casaco marrom claro por cima, combinasse ou não. Abriu a gaveta de meia numa rapidez só, escolhendo qualquer uma limpa e colocando-a, calçando em seguida as galochas.
Bateu a mão no bolso. Celular, Ok. Carteira, Ok. Olhou para a janela e quis ver se ele não estava brincando, porém seu senso de segurança lhe disse que já havia passado e muito o prazo.
Abriu o closet, pegando outro casaco, mais fino dessa vez, e uma blusa qualquer. Em poucos segundos, já estava voando escada abaixo e indo até a porta de entrada.
Mas ai lembrou que tinha um pai.
Deu meia volta, apressadíssimo, e encontrou Mana sentado do mesmo jeito na cozinha.
— Pai! Eu vou sair agora e... – Ele falava olhando em direção a porta, visualmente atordoado.
—Com o coisinha? – O pai perguntou, uma sobrancelha arqueada. Obviamente, o pai tinha uma rixa silenciosa com o herdeiro.
—Sim! – Allen respondeu. – Ele está ali na frente e...
— Ele não tinha ficado ocupado?
—É, mas parece que ele... – Procurou uma explicação, o pé batendo contra o chão. – Eu não sei, só que...
—Não estou gostando disso, Allen. – Mana largou o garfo no prato, com aquela feição de “pai preocupado”.
—Mas pai! – E lá estavam. Os gigantes olhos prateados, dobrados de tamanho. Os famosos “puppie eyes”.
Mana engoliu em seco. Olhou para o prato, olhou para o filho, engoliu em seco novamente e perdeu a fome. Não estava gostando do tempo excessivo que seu garoto passava com o outro e o desespero de Allen... A boca amargou quando foi falar.
— Se não tiver em casa às 19 horas, eu chamo a polícia. – Ameaçou, vendo o filho iluminar como uma lâmpada.
—Ok, pai! Love you!! – O menino correu até a sala.
— Olha que eu tenho amigos policiais, viu?? – Mana ainda fez menção de se levantar, desistindo logo ao ver que seria infrutífero.
Um “See you later” foi gritado de volta e Allen abriu a porta de casa, dando de cara com um Mercedes cujo nome não sabia. Mas só de olhar o design sabia que aquele carro era caríssimo.
Ainda meio sem chão, Allen desceu os poucos degraus da frente e chegou à calçada. Por um instante, não quis respirar, com medo de arranhar aquele carro. Ele reluzia num tom prata mais escuro com uma sombra dourada,e trazia uma visão panorâmica coberta por fumê.
Só voltou a si quando a buzina foi tocada e podia jurar que seu rosto tomou colorações avermelhadas. Não era como se estivesse admirando o carro! Só estava pensando em quantos órgãos teria que vender caso manchasse-o de sorvete.
Fez uma nota mental de não comer nada dentro da máquina. Nem algodão doce. Ou mesmo respirar. Isso, tentaria até não por peso na poltrona onde iria se sentar.
Com o máximo de cuidado do mundo, do tipo de cuidado que uma equipe especialista tem de ter para desarmar uma bomba, Allen levou a mão até a porta e a abriu, delicadamente... Isso... Sem pôr força.
—Venha para frente. – Sua alma quase saiu quando ouviu a voz do moreno e acabou por segurar com força demais na maçaneta.
—K-Kanda? – Estacou logo na entrada, estranhando ele estar ao volante do carro.
—Vamos logo, Moyashi, tenho mais o que fazer! – Ele apressou e Allen considerou que não seria uma boa ideia discutir ali no meio da rua. Melhor entrar no veículo.
Agora, com o dobro de cuidado, Allen encostou a porta e deu um sutil empurrão, ela se fechando num baque macio e delicado, ou seja, música para os ouvidos do albino.
Abriu a porta do passageiro e entrou no carro, muito tímido pelo cheiro de novo do veículo e pelo estofado de couro super aconchegante lhe acolhendo.
—B-Bom dia... – Sussurrou, sem querer olhar na cara do moreno. A riqueza de Kanda fazia qualquer um parecer uma mera barata no mundo e aquilo era muito injusto.
—A porta, Moyashi. – Ele ordenou, dando uma silenciosa partida no carro.
Allen bateu a porta com tanto cuidado, que no fim ela não fechou.
—Não fechou. – Kanda reclamou, olhando para o lado e encontrando o Honey completamente acanhado e sem saber o que fazer. Ele ficava tão sem graça assim com apenas um carro? Tudo bem que seu Honey nunca demonstrara interesse em sua fortuna, mas aquela reação dele era um tanto... Fofa? Esquece.
Kanda bufou e Allen se encolheu no banco, estranhamente calado. Vendo que de nada adiantava encorajá-lo a bater a porta com força que se preze, o moreno retirou o cinto de segurança, esticando o braço até a porta e a fechando sem medo; o albino se encolheu ainda mais com a aproximação do braço do outro.
Walker parou para reparar no quanto aquele carro era luxuoso enquanto punha o cinto. Os bancos de couro revestidos por duas cores, o painel de controle de alta geração, e, oh, a porta tinha revestimento de veludo!! Que macio!
—O que está fazendo? – Kanda perguntou, sem tirar os olhos da pista. Nem tinha notado, mas eles já estavam em movimento e, no susto, parou de acariciar o veludo da porta.
—E-eu... – Até tentou se explicar, porém uma dúvida maior se pôs em primeiro plano. – Kanda! – Allen pareceu ter se dado conta realmente de quem estava dirigindo. – Cadê o motorista?? – O albino olhou para o banco traseiro, como se, por mágica, o homem aparecesse lá. Yuu olhou para o Honey de sobrancelhas arqueadas e depois revirou os olhos, lembrando-se do incidente do dia anterior.
—Eu o demiti. – Ele disse, parecendo muito irritado.
— O quê? Por quê? – O albino parecia exasperado. – Espera! Você pode dirigir?? – Eis a dúvida.
Kanda respirou fundo, parando em um sinal.
—Sou mais velho que você, Moyashi.
—Como?? – Meu Deus! Kanda estava dirigindo!
—Nascendo antes de você, ora! – Yuu aumentou a voz, o outro parecia entrar em pânico. Não era possível que ele nunca tinha dirigido, certo? Afinal, podia-se dirigir veículos de pequena intensidade com quinze anos na França.
—Não! Digo... Quantos... – Tentou, mas logo foi interrompido
—Já tenho dezoito, Moyashi, dezoito. – O mais novo parou quieto, absorvendo a informação. Ok, Kanda era mais velho, mas ainda assim vê-lo dirigindo era surreal! Afinal, ele tinha motorista para quê?
Ah, é. Não tinha mais. Allen perguntava-se por que o homem fora demitido.
De repente, ainda silencioso, o albino pôs-se a olhar pela janela e foi como havia imaginado. A visão oferecida pela vista panorâmica era lindíssima e a altura do carro contribuía para a sensação de se estar “afundado” na rua, sendo capaz de ver as calçadas, as pessoas, tudo em movimento às 07h 15 min da manhã. Inclusive conseguia imaginar o cheiro de pão que tomava as ruas de Paris.
— Você não disse que teve imprevistos? – Soltou.
—Tenho. Vou à empresa resolver algumas pendências. – Explicou, finalmente acelerando e podendo sair do maldito trânsito que tomava a capital logo no início da manhã. A arrancada do carro fizera algumas folhas secas e alaranjadas subirem o asfalto e Allen ficou admirado.
—Ahh... E por que me pegou? – Meio aéreo, ele perguntou bem baixinho, agora mais preocupado em observar as folhas em pleno Outono que ter um cara apenas um ano mais velho dirigindo um motor com mais potência do que se era permitido para a idade. Ou seja, ilegal.
— Quero que me acompanhe em uma coisa. – Falou, a paisagem da janela refletindo os prédios neoclássicos e rococós, as calçadas coloridas de tons avermelhados e alaranjados.
—Que coisa?
O moreno deu uma rápida olhada na feição do outro, perdendo-se rapidamente nas orbes prateadas, para logo sorrir de canto.
— É surpresa. Vai demorar um pouco. Pode colocar música e se acomode para não ficar de mal jeito. – Ele orientou. Um Kanda cuidadoso? Allen ficou sem palavras. – Vamos à Holanda.
E então o brilho que tomou os olhos do outro foi tão puro que Yuu teve vontade de beijá-lo.
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-Kandaa! Estou com fome! – O pequeno reclamou, balançando os pés em cima do painel do carro. Nem mesmo Allen sabia em qual instante tinha se dado a liberdade, mas o fato é que já estava sem seu casaco, apenas de meias, e esparramado no banco.
Kanda encarou os olhos pidões e desviou o olhar rapidamente. Cada vez que o olhava se arrependia, pois tinha vontade de parar o carro em qualquer lugar e agarrar aquele garoto.
Infelizmente, era contra a lei parar nas rodovias de alta velocidade e mesmo se fosse um infrator, não havia acostamento para saciar sua vontade há muito reprimida.
—Tem sanduíches no banco de trás, não vamos parar para almoçar. – Disse, mas antes de terminar, o garoto já soltava o cinto e curvava-se para trás, procurando o alimento.
Dessa vez, ao olhar o retrovisor, teve que apertar o volante com força.
Aquela madrugada, em especial, tinha preenchido a mente do moreno com pensamentos que lhe agradavam muito e sua vontade de monopolizar o garoto aumentou. De manhã a situação piorou quando olhou para a cara do motorista ao assinar sua demissão. Saber que outros olhavam para seu Honey, assim como estar ciente de Alphonse rondando-o, fazia Kanda querer jogar pelos ares a paciência que estava tendo e possuir logo o que era seu.
—Ande logo com isso e se sente, Moyashi. – Falou, já que não se responsabilizaria se ele continuasse naquela posição. O fato é que começava a sentir saudades do gosto dos lábios que poucas vezes provara e ficar muito tempo sem sexo também não era de seu costume.
—Calma! – O albino revidou, voltando ao lugar com uma bolsa térmica em mãos. Encontrou sanduíches, daqueles comprados em padarias, biscoitos, sucos e iogurtes guardados ali. – Vamos acampar, por acaso? – Sorriu. Por um segundo, Kanda pensou ser uma boa ideia e oportunidade. Mas infelizmente, não estava com tempo.
—Fiquei sabendo que você come bastante. – O moreno sorriu com a provocação e com a reação do menor, que corou rapidamente, constrangido.
—Ah... Eu... Não precisava, quer dizer... – Ele se enrolava todo, tomado pela vergonha.
—Mas não pense que é só para você. Também estou com fome, me dê o de frango.
—S-sim...
Allen começou a buscar o sabor pela bolsa, perguntando quem teria dito aquela informação e com vergonha de parecer guloso na frente do outro, mesmo que realmente fosse um. Saber que toda aquela comida não era para si deixava-o dividido, mas uma parte de sua subconsciência ficava imensamente agradecida por Kanda retirar de suas costas a responsabilidade de “comprei isso porque você come demais! Culpa sua!”.
—Aqui. – Aproximou o sanduíche da boca do Mestre assim que achou e desembrulhou, e Yuu virou um pouco a cabeça para morder um pedaço. Um jazz baixo soava no carro, enquanto Allen olhava a paisagem e oferecia de comer para o mais velho. – Já andamos tanto e aqui ainda parece a França. – Observou, abrindo um suco para si. – Não acha? – Perguntou, devido ao silêncio de Kanda, que terminava de mastigar.
—É quase a mesma coisa. – Respondeu, respirando fundo e massageando seus olhos por poucos segundos. Não havia dormido muito devido aos sonhos com o Moyashi e acordara cedo para resolver algumas pendências, portanto sentia-se cansado.
—Cansado? – Allen perguntou, enquanto sugava o canudinho e provava do suco de morango.
—Um pouco. Quero o suco de chá verde.
—Chá verde... – Recitou retoricamente, procurando o líquido. Logo também levava o alimento à boca do mais velho. – Vai demorar muito para chegarmos? Talvez dê tempo de você descansar antes da reunião.
— Não muito. – Agora passava as mãos pelos ombros.
Allen sabia que dirigir por muito tempo era cansativo, ainda mais se você já tivesse cansado. Acabou por se sentir mal pelo Mestre e voltou a lhe oferecer o último pedaço de sanduíche de frango, enquanto o seu segundo permanecia pela metade em seu colo.
—Aqui. Olha o aviãozinho! – Brincou, tentando fazê-lo esquecer a fadiga muscular. Kanda arqueou uma sobrancelha para a ação. Ele estava o tratando como um pirralho? Fez questão de morder um pouco dos dedos dele quando abocanhou o alimento.
O albino se calou no mesmo instante, surpreso com a ação e com os dedos formigando pelo contato. Carregava um rubor em suas bochechas devido a certas lembranças, porém desatou a rir quando viu a expressão emburrada do Mestre.
—Kanda, você é uma criança! – Acusou, enquanto inconscientemente levava os mesmo dedos à boca, a fim de limpar alguns resquícios de patê de frango.
O tempo pareceu passar mais devagar para o moreno naquele mesmo instante. Seus olhos brilharam com a ação inocente acompanhada com a risada gostosa que ele dava. Kanda sorriu, porém Allen perdeu a cena por estar ocupado demais levando o seu sanduíche à própria boca.
—Olha quem fala, se sujando todo. Não vá sujar meu carro. – O sorriso sincero se transformou em perverso, e dessa vez Allen que se emburrou, não fazendo ideia dos reais sentidos que aquela frase carregava.
Naquele carro, a única criança, ou melhor, o único com a inocência de uma era Allen, e Kanda era o lobo preparando-se para dar o bote, como Alphonse bem havia dito. E quanto mais corria as horas, mais impaciente, possessivo e sedento aquele lobo se mostrava.
O Walker, entretanto, parecia não dar atenção, ou realmente não percebia, mantendo o bico virado para a janela. Ia inclusive revidar se não fosse a paisagem que surgiu por ela, lhe tirando todo o fôlego.
Imerso em seus pensamentos e com um bico nos lábios, viu as árvores altas e verde-escuro darem lugar a deslumbrantes campos abertos e coloridos de tulipas.
Foi instantâneo. Kanda abriu um mínimo sorriso quando o garoto se empertigou no estofado e, boquiaberto, brilhou os olhos diante das plantações holandesas.
O albino, tão deslumbrado estava, não percebeu quando o outro reduziu minimamente a velocidade e também não era como se precisasse, afinal o efeito do chão colorido pelas pétalas de tulipas ficava ainda melhor quando em movimento.
Ao longe, quase um quadro pintado, havia vários moinhos com suas típicas hélices coloridas de um vermelho escorrido e brilhante. Elas giravam avidamente e Allen imaginava qual seria o clima lá fora.
Pareceu durar um século, como quando se passa de carro em cima de uma ponte e esquece-se do tempo ao deslumbrar a limpidez da água, ou quando se observa o céu a fim de ver as nuvens passarem calmamente.
Era como se naquele único e exclusivo momento a natureza lhe dissesse que, sim, a vida valia a pena.
Kanda, por sua vez, desviava o olhar da estrada para o Honey que, de tão inclinado sobre a janela, praticamente lhe dera as costas. Queria saber o que ele pensava, afinal não era ali o local escolhido por ele. Ainda assim, quando teve que desmarcar, pensou duas vezes. A voz dele soara baixa demais e não ligeiramente aguda como geralmente era. Não saberia dizer se foi ou não relevante, mas agiu impulsivamente.
Se fosse qualquer um, não daria a mínima, porém... Bem, aconteceu de Yuu pensar que onde iria era um lugar que combinaria com Allen.
De repente, o moreno saiu da rodovia, guiando o carro por um caminho de terra e pedras à direita da estrada. Aquele movimento deixou Allen alerta, mexendo a cabeça para todos os lados tentando identificar para onde iam. Caso continuassem, iam acabar em algum terreno imenso de tulipas e...
O moreno percebeu quando o Walker olhou para si abruptamente e com os olhos do tamanho de um prato.
—Nós vamos... – Ele começou, sem saber como terminar. Um lado da boca de Kanda subiu, mas foi o lado que dava para a janela do motorista, portanto Allen não viu.
—Em uma fábrica da Lune. – Kanda completou, cada vez mais orgulhoso de si mesmo. O Honey estava sem palavras, os olhos brilhando enquanto encarava os extensos tapetes de tulipas de diversas cores. – Ou seja, em um campo de tulipas.
Com isso, ele virou o carro novamente à direita, entrando em um outro corredor de mesma constituição de solo. Esse, ao contrário de quando saíram do asfalto, tinha suas margens feitas por quilômetros e mais quilômetros de flores. Brancas, amarelas, rosas, vermelhas, azuis. Todas tulipas, perfeitamente alinhadas.
Allen ofegou de surpresa. Nunca havia visto tamanha beleza em toda sua vida e já começava a ficar agoniado dentro do carro. Queria sair, queria sentir o chão, esticar a coluna,e principalmente, saber qual o cheiro lá fora.
O que via naquele exato momento era um quadro. Sim, um belíssimo quadro com contornos perfeitos, cores vividas, nuvens escuras volumosas e fofas, um moinho verde-água ao canto esquerdo, e uma gigante e imponente cadeia de fábricas ao fundo. Era contrastante, sim, mas era lindo. E como um belo quadro, só havia um aspecto que deixava a desejar: não havia cheiro.
Não tinha fragrância de rosa nenhuma no refrigerador do carro, exceto o perfume de Kanda e, por mais que ele fosse delicioso, Allen sentia ânsia de experimentar o ar do lado de fora. Tão absorto estava nesse desejo, que não percebeu quando o mesmo estava para ser realizado.
O moreno havia parado o carro e já tirava o cinto. O albino assustou-se com a atitude repentina e tirou o seu desajeitosamente.
—Venha ver. – Kanda disse, e a porta foi aberta.
Inconscientemente, Walker prendeu a respiração para, só então, sair do carro. E quando pôs os pés no chão de terra macia e algumas pedras esporádicas, não havia nada no mundo além de si mesmo, as flores e Kanda.
Abismado, deixou seu nariz absorver o máximo de ar que pôde e assim que seu sistema nervoso captou todos os aromas, seus olhos arderam. Não porque o cheiro era ruim, mas exatamente pelo contrário. Eram tantas combinações que não conseguia distinguir qual fragrância era melhor e sua indecisão dera lugar à emoção de estar ali.
Era um paraíso na terra.
Em sua cabeça, vieram várias sinfonias, várias imagens, vários sentimentos. Seu peito encheu-se de uma alegria tão extrema e abundante que parecia que iria explodir. Aquele sensação podia ser comparada com o que sentia a andar pelos corredores do palácio de Buckingham. Podia ser comparado quando tocou sua primeira música no piano. Aquela sensação absurda de quando se ouve o ápice de uma sinfonia de Bach, Beethoven, ou qualquer outra. Era tanto, tanto que Allen imaginou-se correndo por aqueles mini-corredores entre uma cor de flor e outra. Viu-se quando pequeno a correr pelas areias das praias britânicas.
Allen viu-se em todos os lugares ao mesmo tempo e em um lugar nunca antes conhecido. Estava dentro de si, experimentando todas as sensações do mundo. Todo seu ser estava sendo tragado, como quando se bate os dedos de uma vez em um violão e sente-se vibrar junto e gradativamente.
Àquela sensação não existiam explicações. Ela só podia ser comparada com a coisa mais difícil do mundo. Por isso Allen sentiu vontade de chorar. Por isso deixou finas lágrimas escorrerem com extrema facilidade. Afinal, eram poucos os sortudos que podiam ter aquilo.
O amor era para poucos, ainda mais naquela intensidade.
Kanda observava cada ação, um pouco receoso com a reação exagerada do outro, mas se manteve calado até que, segundos depois, ele limpasse as poucas lágrimas de felicidade e virasse para si, com um belo sorriso e o rosto transbordando paz.
Rapidamente, todos os pensamentos maliciosos que tivera dentro do carro foram substituídos pela satisfação de fazer aquela criatura feliz, mesmo que aquele não tivesse sido o lugar onde Allen escolhera ir.
—Hey, Kanda...Você sabe como fazer uma surpresa. – Riu baixinho, voltando a olhar para frente e indo passar as mãos por entre as flores. – São belíssimas. Lindas. Obrigado. – Continuou, ainda não olhando para o outro. Kanda parecia caber perfeitamente naquele quadro, mas Allen ainda juntava coragem para encará-lo.
—Você pode olhá-las o quanto quiser depois, mas agora eu preciso ir à reunião. – Ele avisou, chamando a atenção do albino.
—Ahh! Não posso ficar aqui? Não precisa me levar na reunião. – Allen virou-se de uma vez, mostrando sua insatisfação e tombou um pouco a cabeça. Kanda cederia àquele olhar se não fosse seu bom senso de não deixá-lo às mínguas num gigante campo de tulipas!
—Não seja burro, Moyashi. Não vou te deixar aqui. – Ele foi até o lado do Honey, que não cortava o contato visual, ainda com esperanças de persuadí-lo.
—Mas eu não quero ficar trancado numa sala enquanto aqui fora é assim! – Bateu o pé, franzindo as sobrancelhas emburrado. Yuu o observava de cima, a petulância do garoto voltou a instalar pensamentos em sua mente. Olhou para os lados, e Allen pensou que ele fosse voltar atrás, começando a sorrir com animação.
—Não adianta. Vai chover, você como britânico deveria saber. – Disse e o albino olhou para o céu. Realmente, o próprio vento denunciava a umidez da chuva. Bufou.
—Chato. – E, simplesmente deu as costas, indo para o carro. O moreno ficou para trás, surpreso com a infantilidade que surgiu naquele que, minutos atrás, se mostrava tão maduro. Revirou os olhos, arrancando três tulipas vermelhas e voltando ao carro.
—Toma, para você não ficar com frescura. – Estendeu o pequeno buquê sem muita delicadeza. O menor ficou sem palavras e pegou as flores, já pronto para ir contra o ato de sair arrancando as pobrezinhas por aí, no entanto o moreno logo deu partida no carro, abaixando os vidros e o albino perdeu o rumo de seu raciocínio enquanto encostava a cabeça na porta e ficava olhando o tapete de flores.
O Herdeiro teria que atravessar o campo para chegar à cadeia de fábricas ao fundo do terreno e já passava das uma da tarde, portanto, estava atrasado.
Ainda chegou a olhar mais uma vez para a expressão já tranqüila do outro e para as rosas que ele carregava. Aquela havia sido a sua segunda ação irracional daquele dia.
Quando, após longos minutos, chegaram à empresa, foram direto ao setor administrativo, um gigante prédio com imensas janelas de vidro, que servia de fachada para as indústrias ao fundo. Logo, Kanda foi recebido por assessores e tratou de segurar Allen pela cintura, com o intuito de não deixá-lo se perder ou afastar-se de si. O menino, por sua vez, nem notou, ocupado demais em observar tudo ao redor. O que o Conde não daria para ver aquilo? Algumas pessoas vinham cumprimentar o Herdeiro, outras já vinham com relatórios e gráficos para lhe adiantar sobre o assunto da reunião; alguns deteram-se em apenas reparar na pessoa que acompanhava o moreno, outros já perguntavam e cumprimentavam, fazendo brincadeiras.
Em poucos minutos, todos já estavam cientes de que o albino era o Honey de Yuu, e muito surpresos, uma vez que ninguém nunca vira um “Honey”.
Após subirem de elevador alguns andares, o Walker foi levado para uma sala muito confortável, onde o Mestre havia lhe mandado ficar. Ali havia doces, um sofá muito macio, televisão, revistas e tudo o que uma sala geralmente tem. Uma das paredes era de vidro fumê e de lá Allen podia ver as pessoas trabalhando nos andares abaixo. Entretanto, com pouco tempo começou a se sentir sozinho sem Kanda ali, afinal havia passado todo o dia com ele e estar num lugar onde não conhecia ninguém era chato.
Pensou em deixar a sala, mas lembrou-se dos olhares furiosos das loiras para si. Era bem estranho, mas não deixava de ser engraçado, já que imaginava qual seria a reação delas ao saberem que Kanda já havia o beijado.
No fim, acabou por ficar no sofá e, com o silêncio das paredes isoladas acusticamente, cochilou, apenas acordando quando sentiu as mãos do mais velho lhe chacoalharem o corpo.
—Moyashi, vamos embora.
—Hm? – Resmungou, a visão embaçada.
—Embora, já acabou a reunião.
—Ah, sim... – O garoto se levantou, sentindo a visão escurecer por alguns segundos, mas logo conseguiu organizar seus pensamentos. – Que horas são?
—Três da tarde. – Kanda foi até a mesa de escritório e mexeu em alguns papéis, levando uma pasta consigo. – Vamos, temos cinco horas de viagem pela frente.
—Hm... – O peso das horas da madrugada que passou acordado abateu o menino, que precisou ser guiado até o carro.
Assim como haviam previsto, uma chuva pesada caia lá fora. O céu estava escurecido, dando impressão de ser mais tarde, e pelo o que parecia, iria acompanhá-los até a França.
Allen saiu do prédio e sentiu a brisa fria e forte, junto de muitos pingos de água, lhe alcançar. Logo foi empurrado para o carro por Yuu, que ainda trocou algumas palavras com uns funcionários.
O sono forçava o albino a fechar as pálpebras languidamente, aconchegando-se no estofado com cheiro de lótus. Kanda entrou no carro, onde o barulho da chuva era abafado e observou o Honey meio adormecido. Sem falar nada, deitou o banco de passageiro, ato que fez o menor se assustar.
—Não... – Resmungou, sentando-se e forçando os olhos a se manterem acesos.
—Durma. – Kanda deu partida no carro, sabendo que ele logo cederia e dormiria.
—Quero vê-las...
Por fim, o albino conseguiu o que queria, porém de um outro ângulo. O vidro estava embaçado pelo climatizador e teve que passar a mão no mesmo para criar um lugar de observação. As tulipas eram chicoteadas pelo vento forte, o chão de terra abria valetas de água e o céu ameaçava cair. Ainda assim, a beleza permanecia, e o menor sentiu-se ninado pelo barulho das gotas no teto panorâmico.
Sem relutar, deitou-se, tirando as botas com os próprios pés, e abraçando seu casaco. Ainda olhou para Kanda e a concentração que ele tinha em dirigir. Por conta dele, vira uma das coisas mais lindas de sua vida e que guardaria para sempre em sua memória. No banco traseiro, inclusive, estavam as lembranças daquele passeio inesperado.
Sorriu. Estava feliz.
Respirou fundo, deixando-se ser tragado pelo cheiro do mais velho e pelo som da chuva nos vidros juntamente do jazz baixo que voltou a tocar. Sua visão cedia enquanto olhava para cima e via as gotas caírem no teto de vidro do carro, correndo para os lados. Atrás delas estavam as nuvens carregadas, o céu nublado. Mais acima estaria o céu limpo, e depois os lugares onde os aviões passam, e depois uma outra camada de céu, estratosfera, as estrelas, o universo...
Em nenhum desses lugares seria melhor estar do que naquele carro.
—------~-~-------
O celular do albino tocou, mas o mesmo não acordou. Yuu olhou para o lado, encontrando a criatura dormindo calmamente. A chuva já havia passado e a noite tomava o céu. A Holanda ficara para trás e já estavam em território francês.
Kanda pegou o aparelho, olhando no visor. Era o pai do Moyashi. Atendeu já ouvindo a voz do mais velho.
—Allen?? Onde você está??
— É o Kanda. Ele está dormindo.
—Kanda? Dormindo? Onde vocês estão?? Já passou das 19 horas!!
— Estamos chegando em uma hora.
—Uma hora? Onde infernos vocês estavam?! – O homem parecia furioso. Ou talvez fosse apenas um pai preocupado.
—Eu precisei resolver alguns problemas da Lune. Seu filho não sabia e acabou sendo arrastado para tudo isso. – Olhou mais uma vez quando o pequeno se moveu ao seu lado. – Eu fui o culpado pelo atraso.
—Não quero saber quem é culpado ou não!! Quero o Allen em casa em dez minutos!! – O homem bradava visivelmente preocupado. Por um segundo, o moreno cogitou chamar o outro, mas preferiu deixá-lo dormindo a acordá-lo para o mesmo arrancar os próprios cabelos de nervosismo.
—Não creio que isso será possível, já estou no meu limite máximo de velocidade. – Olhou para o velocímetro, confirmando aquela verdade. Aliás, teria que desligar o celular, não era bom dirigir ao telefone.
Certo silêncio se pôs entre eles.
—Uma hora. — Mana andava a sala de sua casa irritado, coçando os próprios cabelos. – Se passar disso, eu coloco a polícia atrás de você e não me importa quem você é ou deixa de ser! Uma hora! Até.
Kanda ainda olhou pelo aparelho depois de ter tido a ligação desligada na sua cara. Acabou rindo sozinho ao pensar no quanto Allen ouviria quando chegasse e não evitou tocar nos fios brancos, fazendo questão de deslizar os dedos pelo rosto e pescoço um pouco suados do garoto.
Sua vontade era de reivindicá-lo, mas, como Alphonse disse, não podia fazê-lo até que Allen se mostrasse interessado, uma vez que, diferente das outras Honeys, o menor havia imposto regras que, como Mestre, tinha que obedecer.
No momento, por mais que quisesse tomá-lo, tinha que se manter afastado e concentrar-se apenas em atraí-lo, para que, na primeira abertura, o atacasse.
Lambeu os lábios em expectativa, o cheiro dele impregnado em sua mão. Não via a hora de poder sair do papel de bom garoto e, finalmente, tomar as rédeas da situação.
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