Notas iniciais
Boa noite, leitores! Aqui estou novamente! Esse capítulo demorou um pouco pois eu estava com muita preguiça de revisar, mesmo que tenha ficado pronto dois dias depois da postagem do anterior hahahaha Acontece, né? Final de semestre e tudo mais! Eu gostei dele e espero que também gostem! Boa leitura.

Tinha se aprontado e já se olhava pela quarta vez no espelho. Não estava muito arrumado e talvez por isso estava tão ansioso. Na verdade, era só Tiky, aquele cara que havia conhecido há alguns anos e pronto. Aquele cara da voz rouca e cabelos até os ombros que teimava em sair por aí mostrando um pedaço do peito pela gola da camisa.

Arrumou a camisa social que usava por baixo do blazer slim cinza de três botões já casados. Respirou fundo. Conseguiu sentir a fragrância do próprio perfume. Vestia uma calça preta normal e sapatos normais.

Será que estava muito normal??

Bufou, levando as mãos aos cabelos e os bagunçando. Já devia ter descido, mas a borbulhação no estômago estava levando-o a ficar próximo do banheiro.

–Vamos, Allen! – Mana gritou do térreo e o albino sabia que não tinha mais como desistir.

Na verdade, tinha ligado para a maldita Lenalee Lee e a mulher não atendera o dia todo, ou seja, teria que cumprir com a promessa que tinha feito na noite anterior, mesmo que o próprio achasse que, na hora da ligação, estava fora de condições para uma resposta sensata devido à embriaguez que a voz do moreno causava em si.

–Está bonito. – Mana disse quando o filho desceu a escada meio cambaleante. Allen sorriu torto, nunca sabia o que responder nessas horas. Tudo bem para ele ter o filho saindo com um cara quase da idade dele?

Acabou por se sentir mal sabendo que Mana achava que Kanda era apenas um amigo de estudos. Porém simplesmente não podia dizer ao pai a bagunça que era a personalidade do Mestre.

Revirou os olhos com o pensamento e tratou logo de entrar no carro. O céu estava tão escuro quanto possível e, apesar de ser primavera, não havia nenhuma brisa agradável. Tudo parado.

Mana dirigiu calmamente até o Noah´s e Allen tentava se concentrar para dissipar o nervosismo. Ora, trabalhava para Tiky! Não havia motivos para ficar daquele jeito.

– Fico surpreso pelo Cross ter largado a bebida. – O pai comentou. Allen, assim que processou a informação, engasgou com uma risada e o Walker lhe fitou de esguelha.

– Cross Marian? Sóbrio? – Arqueou as sobrancelhas num sorriso descrente. Mana soltou um arzinho pelos lábios.

–Você não devia duvidar tanto do seu tio, filho. – Ele mantinha os olhos na estrada, ignorando o olhar do garoto.

–Pai, não tem como, simplesmente não tem como o Cross parar de beber! – Levantou as mãos pro teto. – Na verdade, o sangue dele já deve ter se transformado em Vodka, igual Jesus fez com água!

–As pessoas mudam.. – Ele disse. Mana não gostava de perder o foco da estrada, costumava falar pouco enquanto dirigia, entretanto o assusto era inegavelmente interessante. E, sinceramente, não acreditava mesmo na mudança do irmão.

Marian sempre foi, com o perdão da palavra, um puto. Vivia em casas de prostituição e coisas do tipo.

Lembrava-se bem do dia em que um Allen de seis aninhos lhe perguntara se o ruivo fazia aulas de Ballet com Anita. A pobre criança disse que tinha visto o tio ajudando a mulher em algumas posições..

–Hah! Sei! Você lembra quando ele foi lá na aula de Jazz e..

–Não, Allen! Não me lembre disso! – O homem esfregou o rosto que começava a esquentar.

–Viu só! – Allen se contorceu de rir no banco.

–Meu Jesus.. Não gosto nem de lembrar..

–Porque o senhor não viu! – Empolgava para contar. Apesar da história horripilante, sentia que o filho estava mais à vontade. – Foi tipo.. – Ele mexia as mãos e Mana fez uma careta. – Foi horrível. – Por fim, desistindo de por em palavras aquela barbaridade, o albino se encolheu no banco, apontando o rosto corado para a janela. Já estava na rua do Noah´s e a frente do local estava levemente cheia. Era sábado, afinal.

–Vai embora e para de me falar besteiras! – O homem estacionou brincalhão, enxotando o garoto com a mão.

–Credo, pai! – Allen riu, abrindo a porta e dando uma checada nas madeixas prateadas. – Mais tarde te ligo. – Fechou a porta.

–Deixa o celular ligado. – Passou a macha e esperou o filho atravessar.

–Tchau. – Allen acenou levemente e lhe mandou um sorriso.

–Juízo, hein. O Tiky é amigo do Cross. – Fez questão de lembrar e arrancou, sem esperar uma resposta do albino. Tinha medo de deixar Marian no próprio apartamento quando este estava sozinho, sexualmente falando, e numa fase destrutiva.

Allen encarou a pressa do mais velho por alguns instantes, mas logo deu de ombro, enfiando as mãos no bolso e indo até a porta da boate. Achava engraçado como o pai falava coisas de duplo sentido sem nem perceber. Afinal, não estava com Tiky e, possivelmente, não iriam fazer nada que tirasse o juízo.

Suspirou amenamente, sem tristeza ou felicidade.

Benefícios de se conhecer o dono do local era não precisar passar por filas ou inspeção. Caminhou com um sorriso até Skinn Bolic e esperou o homem-armário notar-lhe. Ele mantinha uma postura séria, o rosto impassível.

–Achei que tinha morrido, décimo quarto. – A voz medonha sempre daria calafrios para quem não o conhecesse, mas Allen já fazia parte da família, como Tiky mesmo havia dito.

– Felizmente não, grandão! – Esticou o braço e tocou o ombro do gigante. – Mas creio que Tiky tem bons motivos para me fazer vir aqui, não é? – Piscou para o homem. Naquele lugar, era normal manter o tom de voz mais sensual e Allen havia demorado para aprender a manha.

As aulas de Tiky, com certeza, o traumatizaram.

–Encher a cara. – O homem grunhiu, olhando feio para um grupo de adolescentes que fazia brincadeiras de empurra-empurra.

Allen olhou também, e o grupo parou na hora, uns tossindo pro lado, outros virando a cara, mas nenhum se dado ao trabalho de se desculpar. Allen soltou o ar pelos lábios e olhou novamente o segurança, que parecia prestes a explodir. Ele sempre deixara claro que odiava aquele trabalho. Sorriu.

–Lhe trago doces mais tarde. – E foi o suficiente para obter um olhar brilhoso do mais velho. Skinn Bolic era um maníaco por açúcar e Allen sabia bem disso.

E era por isso que o décimo quarto era tão adorado. Sabia de tudo, fazia tudo.

–Entre, pirralho. – Abriu a porta dupla pro albino e este entrou satisfeito.

A escuridão o pegou de supetão e demorou alguns segundos para se acostumar com a baixa iluminação do local. As luzes amarelinhas eram aconchegantes e naquele dia as mesas estavam com toalhas vermelhas e douradas. Tiky era minimalista.

Sentiu o sapato ressoar no chão de madeira, e andou até o bar. Gostava do ar adulto que estar ali lhe dava.

Lá estavam Jasdero e Devit fazendo seus truques com os drinks e arrancando piscadas, gargalhadas e aplausos de algumas garotas. Mal encostou ao balcão e a loira veio em sua direção. Como sempre estavam maquiados daquele jeito extravagante que dava renome ao bar.

–Desquart! – Ela gritou, saltitante, até o albino. Allen sorriu brilhantemente. Estar perto deles era como estar perto de uma família. Claro que não tinha sido tão fácil entrar na família assim, mas Tiky era quase um manda pau. – Consigo te achar pelo cheiro! – Ela passou os braços pelo pescoço do albino e o abraçou apertado contra o peito. Walker teve a barriga empurrada contra o balcão e perdeu o fôlego facilmente. A mulher era extremamente forte!

–J-jas-chan! – Cuspiu sufocado, tentando alcançar seu braço e pedir para parar.

–Como está, pequeno? – Ela perguntou pela terceira vez, por conta do som, enquanto esfregava a mão nos fios platinados. Allen já sentia suas células morrerem.

–J-jas, e-eu.. – Tentava se desvencilhar sem parecer rude e deu graças quando ouviu a voz irritada do moreno.

–Jasdero! – Devit vinha andando a passos rápidos, as garotas já bem servidas e deslumbradas com a fumaça multicor que saia dos copos. Allen agradeceu quando a mulher lhe soltou e encarou o homem que carregava uma expressão desgostosa.

O albino riu sem graça quando o moreno lhe dirigiu o olhar pesado. Não tinha nado contra Devit e acreditava que ele também estava neutro em sua relação. O único problema era que ele tinha um complexo de irmão bem pior que o de Komui e às vezes ficava um pouco agressivo em relação à irmã. Algumas vezes, inclusive, rolaram boatos de incesto.

Nada muito estranho, considerando a família Noah.

–Você por aqui, décimo quarto? – Allen quase riu das faíscas que saiam dos olhos negros. A pergunta era um tanto idiota também.

–Tiky. – Tratou logo de explicar, não queria atiçar os ciúmes do moreno.

Devit arqueou as sobrancelhas e depois de lhe encarar muito, entregou-lhe uma bebida tirada de um lugar fora do campo de visão do albino.

Walker encarou a ação como amigável e estendeu a mão para o copo. Antes de pegá-lo, porém, a loira tomou da mão do irmão e deu um gole rápido.

Not safe. – Ela resmungou e empurrou toda a bebida para dentro em um segundo. Allen a encarava pasmo e vagou os olhos pela face ligeiramente decepcionada de Devit.

–O que ti.. – Começou, o tom meio incrédulo, apesar de conhecer bem o homem.

–Senta. Vou chamar Tiky. – Devit falou um pouco alto demais e Allen assentiu hesitantemente, sem saber muito como reagir.

Virou-se imediatamente, deixando para trás os insultos entre os irmãos e andou até uma mesa não muito no centro e mais silenciosa. O lugar não estava muito cheio, para sua surpresa. Tanto que ainda pode manter sua atenção na dupla fantástica de bebidas, quase soltando um ligeiro sorriso quando notou que o moreno enrubesceu com as possíveis broncas que Jasdero lhe dava enquanto retornavam para o balcão.

Allen ergueu os olhos, respirando fundo. Procurou ouvir a música que tocava e percebeu que não a conhecia. Manteve as orbes no lustre, ele sempre lhe chamava muita atenção. As paredes claras contrastando com as vidraças da cúpula e as mesinhas muito bem arrumadas,com uma flor deitada no centro.

Quase lembrava um restaurante italiano.

–Você viaja nesse lustre, garoto. – Abaixou o rosto imediatamente e pegou o moreno de olhos dourados puxando a cadeira e sentando-se, com avental e tudo.

Estava estonteante.

–Ah.. – Ficou sem palavras pela rapidez do homem de chegar, se sentar e lhe mandar aquele olhar enquanto puxava mais a cadeira e apoiava os cotovelos na mesa, as mangas da camisa social dobradas até a metade do antebraço.

Ele riu nasal. E Allen desviou o olhar.

–Fico feliz que você não tenha mudado. – Ele sorria de canto, os cabelos meio molhados, naquele jeito de sempre. Allen o olhou de esguelha, estava preocupado em esconder o rubor e o bico. – Quando você tocou naquele dia, estava nervoso demais para reparar em mim.

Allen revirou os olhos, permanecendo com o queixo apoiado na mão.

Impossível não ter reparado nele quando o mesmo vestia o blazer negro super especial e a cartola mágica. Os olhos dele também estavam mais dourados naquela noite.

–Claro que reparei.. – Resmungou. Tiky o deixava muito tenso, estava quase levantando-se com a desculpa de levar doces para Bolic e sumir dali.

Ele riu e Allen agradeceu por não estar fumando. Tiky sabia o quanto o albino odiava a fumaça do cigarro.

–Você cresceu, mas ainda continua com a mesma idade mental daquele garoto de catorze anos. Hahaha. – Ele disse e Allen o encarou inteiramente, as sobrancelhas mexendo-se.

Um garoto de catorze anos não..

–Como? – Perguntou, descrente. Não mesmo! Walker tinha crescido, e muito! No amadurecimento, é claro.

Tiky ergueu a mão, estalando o médio com o polegar, mas ainda assim manteve os olhos fixos nos prateados e sempre com o mesmo sorrisinho.

–Você ainda tem o mesmo rostinho daquele anjo que entrou no meu quarto privativo. – Ele falou, bem baixo, vulgarmente.

Allen corou. Eram lembranças extremamente..

–Eu.. – Tentou, e foi interrompido por dois copos sendo batidos na mesa. Era Devit e sua carranca. Tiky lhe lançou um olhar e ele saiu, petulante, mas calado. Allen deu um gole em seu copo com suco e Tiky virou seu Whisky de uma vez. Sempre pediam aquilo para iniciar uma conversa, portanto os gêmeos balconistas sabiam exatamente como fazer do agrado de ambos.

Tiky coçou a garganta e recostou-se em sua cadeira. Allen achava complicado ter o olhar dele preso em si por muito tempo. Ele encarava descaradamente.

–Sério, eu nunca vou entender essa história! – O moreno tombou a cabeça, e riu, achando muita graça do acanhamento do albino. Lembrava-se bem da cara que ele fez diante da cena de um homem seminu com uma mulher nua na cama.

Franziu a testa quando deu-se conta que o menino poderia ter ficado traumatizado.

–Culpa de Cross... – Allen resmungou, ainda com o bico. Era estranho reviver tudo aquilo com o moreno. Na verdade, ele que tinha causado toda a situação. Se não tivesse insistido em mantê-lo naquele quarto excessivamente vermelho sem nem se dar ao trabalho de se vestir decentemente, Allen poderia ter seguido sua vida medíocre em paz.

E nunca teria conhecido Tiky, os Noah, o Conde, e o bar e, consequentemente, Kanda Yuu.

Seria sua sina acabar em situações embaraçosas com homens desconhecidos?

–E então depois do incidente, você passou a me amar! – Ele exclamou, trazendo a atenção do albino e Walker realmente se perguntou por que estavam voltando naquele assunto.

–Não é amor! – Allen tratou logo de dizer, por mais que não estivesse nem mesmo convencido do que era aquela coisa que sentia quando via o Mikk.

–Claro, claro. – Ele balançou a mão, tombando um pouco a cabeça. Allen sentiu-se obrigado a sentar-se mais ereto. Suspirou, fechando os olhos por um momento.

Voltou mais sério.

–Pode, por favor, parar de me avaliar e ir direto ao ponto? – Mordeu o lábio inferior quando terminou, encarando o peso dourado do moreno. Tiky sorriu largo, os dentes brancos aparecendo. Era bom passar da fase do envergonhamento e poder ver o brilho nos olhos prateados.

–Então aí está o meu décimo quarto.. – Ele declarou, concordando levemente com a cabeça e Allen entortou os lábios. – Gosto de você sério. – E ali tinha-se o fim da brincadeira.

A voz dele continuava rouca, sensual, bonita, mas agora trazia a seriedade. Tanto que ele sentou-se normal, abriu mais os olhos e tampou o sorriso. Allen engoliu em seco.

–É sobre o sistema? – Questionou. Quando Mikk ficava sério, parecia ser mais fácil conversar cara a cara. Ou ao menos, podia-se fingir estar numa entrevista ou resolvendo problemas muito graves e falar normalmente.

Sem amor.

–Bom garoto. – E ele sorriu. Mas não um sorriso. Era um desafio. Esse é um problema das pessoas que sorriem muito. Elas acabam achando jeitos diferentes de sorrir, cada um mais afetante que o outro.

Allen engoliu em seco e tomou outro gole do suco.

–Yuu Kanda. – Tiky silabou o nome do homem, como se provasse o gosto de cada letra. Allen olhou atentamente o ser a sua frente. O moreno parecia sentir uma coisa amarga na língua. – Não é um bom sujeito. – Franziu a boca, olhando fixamente para seu copo vazio. Allen quase riu em deboche.

Como se não soubesse.

–Não é. – Respondeu, mesmo que não houvesse necessidade, também encarando seu próprio copo e brincando com as gotículas que escorriam pela parte externa do vidro. O silêncio se instaurou, uma música alternativa tocando no fundo. Allen levantou os olhos e passeou pelo local. Wisely passava do outro lado do salão com algumas bebidas e petiscos numa bandeja. Quando notou que estava sendo fitado, mandou língua diretamente para o albino. O rapaz tinha uma percepção muito boa.

–Me peça e o Conde te tira de lá.

Foi como se o tempo tivesse parado. Allen levou a cabeça imediatamente para a figura a sua frente e Tiky lhe encarava com o olhar seco, a boca virada para baixo e o rosto num ângulo mais baixo que fazia os olhos dourados ficarem meio escondidos nas pálpebras.

Era de consciência de todos que o Senhor Millennium só aparecia nas horas mais críticas. Era um homem influente que devia estar em alguma ilha tomando água de coco, afinal, como Allen bem sabia, ele era saudável o suficiente para não beber e fumar. Então por que tirá-lo do sossego e da riqueza para resolver um problema do Décimo Quarto, ou Desquart, como dizia Jasdero?

–Você sabe que é o queridinho dele. – Tikky continuou e Allen não suportou observar seu rosto impassível. Acabou desviando a atenção para o segundo andar, onde havia um vidro totalmente negro. Atrás dele Maashiima estava trocando as playlists e provavelmente virando uns bons copos de bebida afro.

–Allen.

–Eu não sou o “queridinho dele”. – Ergueu ambas as sobrancelhas. Na verdade, só tinha visto o Conde duas vezes em jantares do clã para onde tinha sido carregado. Só ocorreu do homem ter se apegado muito ao cabelo prateado do menino e ter aberto uma vaga na associação para ele. Assim mesmo, do nada.

Foi a vez de Tiky revirar os olhos.

–Isso é ridículo. – Julgou. – Road me contou do bastardo. – Começou, adquirindo um tom de pai. Allen odiava quando isso acontecia. Tiky sempre brincava consigo, seja com sorrisos ou beijos rápidos, portanto não tinha direito de assumir sua vida, por mais que lá dentro se sentisse meio orgulhoso por saber que ele se preocupava.

– Ele te beijou?

A pergunta veio de surpresa e nem se quisesse poderia ter mentido. O arrepio que subiu sua coluna e contorceu a face alva já entregara tudo. Tiky rangeu os dentes.

–Vou te tirar de lá! – Espalmou a mão na mesa e Allen se assustou um pouco. Por segundos, se sentiu protegido, mas logo algo dentro de si mudou de ideia.

–Isso não tem nada a ver com você, Tiky. – Falou, baixo, ainda meio atordoado. O moreno lhe arqueou as sobrancelhas e riu raivosamente. Ele parecia nervoso agora, de uma hora para outra.

–Claro que tem. Sou responsável por você. – Ele inclinou-se sobre a mesa para não precisar gritar. Sussurrou com a voz carregada.

Allen precisou de alguns instantes para pensar em como responder àquelas palavras absurdas.

–Você o quê? – Tiky tinha surtado, certeza. – Meu pai é meu responsável! – Sussurrou de volta.

–Seu pai sabe do que ele fez e pretende fazer? – Ah sim, foi o suficiente para calar a boca do albino.

Devido ao silêncio, o Noah maior se calou, assim como o albino, e foi se acalmando. Acabou por suspirar pesadamente e morder o lábio inferior. Ergueu a mão novamente. Precisava de outra dose.

Dessa vez quem trouxe fora Jasdero, e a loira lançou um olhar interrogativo para o moreno antes de deixar a dose. Allen estava com a cabeça virada para o lado, o rosto contraído em pensamentos.

Tiky olhou para os lados, tentando dar coragem a si mesmo, e então escorregou a mão pela mesa até tocar a do albino.

Allen deu um meio pulo e olhou assustado para o mais velho. Tentou tirar a mão por impulso, mas esta fora agarrada. Os dourados dele estavam ainda mais intensos. Walker se perguntava que tipo de chama era aquela.

–Vai ficar tudo bem. – Num instante, tudo em si derreteu e pareceu mais misturado e confuso que no início. Tiky solveu a bebida com a mão esquerda e continuava a acariciar as costas da mão albina com os dedos da direita. Bateu o copo na mesa e se levantou elegantemente. Allen teve que levar a mão em sua direção, pois ele se recusara a soltá-la enquanto dava a volta na mesinha redonda e se aproximava dos fios prateados.

–Vamos ganhar essa, garoto. – E ele se abaixara. Com a mão esquerda, ergueu o rosto do décimo quarto, Allen o encarando pasmo. Já fazia um tempo que aquilo não acontecia. Tiky sorriu e depositou o beijo ali, no cantinho dos lábios, se preocupando em não tocar inteiramente os lábios alheios.

Ele saiu e Walker ficou parado ali, sentado. Era até bom permanecer na cadeira, considerando suas pernas moles. Tiky tinha essa habilidade. Tocava em assuntos complicados e achava que tudo podia ser resolvido com uma de suas carícias. E, realmente, na maioria das vezes dava certo. Porém, ali ele havia errado.

Allen sentiu seu interior arder. Aquela chama que havia nos olhos dele não era nada do que estava pensando, que tinha esperanças de ser. Era apenas a natureza de Tiky Mikk. Ele não gostava de perder, e, como bem tinha deixado claro, não iria perder aquela pequena batalha.

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O moreno não aparecera depois, provavelmente estava ocupado cozinhando seus pratos maravilhosos. Allen só continuava ali porque não tinha como e nem porquê voltar para a casa e o som do lugar era bom pra acolchoar sua mente. Saber que ele estava ali não facilitava nada, mas não era como se pudesse fugir dele.

Tiky Mikk ainda era muito importante. Não tinha como se afastar.

Aquele devia ser o terceiro copo de limonada suíça que tomava. Já havia rodado todo o salão, levado uns bons bocados de doce para Bolic, conversado com Lulu Bell e até dera algumas sugestões para Maashiima. Induzia algumas garotas e garotos a beberem não por prazer, mas porque não tinha nada para fazer e podia muito bem ajudar Jasdero e ganhar uns pontos com Devit. Já tinha servido algumas mesas para aliviar um Wisely ocupado demais e ganhara algumas gorjetas por “ser um cortês cavalheiro”.

Já tinha feito de tudo, pois não tinha nada para fazer e em todas suas tarefas procurava o moreno com os olhos. Não era como se estivesse com raiva ou algo do tipo. Talvez só um pouco decepcionado. Era impossível ficar bravo com aquele homem por mais de três minutos e não era como se realmente nutrisse esperanças devassas por ele.

Não. Era só Tiky, certo? Só Tiky.

Foi então que vira o que não queria ver.

Ou melhor, o que jamais imaginaria ver.

Entrando pela porta dupla, sendo auxiliados por Bolic, estavam dois conhecidos de Allen. Precisou de um tempo para focar sua visão, não acreditando no que suas retinas lhe mostravam.

Lenalee vestia um jeans claro e uma blusa azul de manguinha, já Lavi vestia uma calça e sapatos sociais acompanhados de uma blusa de botão lisa num tom meio cinza-azulado, com as mangas dobradas até acima do cotovelo.

Até arriscava dizer que estava apertada demais.

Ambos andaram até as banquetas do bar, uma música lenta soando no espaço. Lavi a ajudou a se sentar e depois fez o mesmo. Allen, atônito, observou-os pedir duas bebidas que pareciam não ter álcool, uma vez que Lenalee a tomou de bom grado. E então iniciaram uma conversa que parecia séria a julgar pela expressão de ambos e pelo modo como a morena mexia nos dedos.

O albino olhou de um lado para o outro, meio sem saber o que fazer e inutilmente tentando achar alguém que lhe explicasse que cena era aquela se desenrolando ali. Tiky tinha se enfiado para dentro da cozinha e parecia não mostrar sinais de retorno, portanto estava sozinho enquanto a vida lhe pintava um quadro surreal.

Lenalee saindo com alguém? Pior, saindo com o Lavi? E no bar do Tiky?

Irritou-se imediatamente quando se lembrou da ligação da noite passada. Ela estava estranha, como se estivesse evitando-o e de quebra ainda tinha lhe perguntado se, por acaso, estaria no bar naquela noite.

De repente, entendera tudo.

Ela queria apenas se certificar de que não encontraria nenhum infortúnio em seu encontro com o ruivo. Queria esconder aquela relação de seu melhor amigo.

Allen se sentiu traído. Como se a única pessoa que ainda se mantinha integra no meio daquele caos que se tornara sua vida estivesse largando-o agora. Dando-lhe às piranhas para ser comido vivo e sem piedade alguma.

Levantou-se. Sua boca parecia dissolver os últimos resquícios do suco com ferro, pois sentia o gosto metálico a latejar a língua. Andou em passos lentos e tranquilos porque não queria assustar os pássaros, mas seu interior encontrava-se tão desestruturado que não sabia o que sentia mais: raiva ou dor.

Franzia as sobrancelhas a cada vez que se aproximava, sua visão dando prioridade a amiga e se esquecendo de onde estava.

A garganta do albino travou quando sua mão tocou os ombros dela.

Lenalee deu um pequeno pulo na cadeira e quando acompanhou o olhar do ruivo e viu Allen Walker parado ali seus olhos duplicaram. Ele não tinha dito que iria ficar em casa?

–Lenalee.. – O albino se pronunciou, de repente parecendo ser mais velho do que realmente era. Lena percebeu que os olhos prateados demonstravam toda a dúvida e indignação que estava sentindo e sabia que o amigo não iria explodir antes de ela lhe explicar.

Porém, mesmo conhecendo aquele garoto há um bom tempo, não pode deixar de ficar nervosa e toda sua chance de uma abordagem calma foi-se quando ela, inconscientemente, levou a mão até a orelha e tomou o novo brinco entre os dedos.

Foi instantâneo.

Allen agarrou seu pulso e o puxou rapidamente, a fim de expor o que seu coração gritava para si.

Os olhos de Lenalee marejaram quando viu a reação horrorizada do amigo, e tentou falar algo, segurar-lhe, mas tudo parecia acontecer como um filme antigo sem áudio, cores e angustiosamente lento.

Allen viu Lavi abrir a boca e provavelmente dizer algo, e talvez desse atenção se seus ouvidos não estivessem ocupados demais em captar o sangue correr rápido em suas veias.

Lenalee era uma Honey, assim como ele.

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O telefone tocou em cima da mesinha e seu dono o olhou pelo canto do olho. O ambiente estava silencioso e o aparelho tinha lhe feito o favor de acabar com a paz.

Bem, se é que sentia paz naquela hora. Aqueles olhos prateados e lacrimejantes não o deixavam havia alguns bons dias.

O telefone parou e Kanda voltou os olhos para a fotografia em suas mãos. Sabia muito bem quem a tinha mandado simplesmente por a pessoa tê-lo escrito “Samurai”.

Novamente o barulho, e o moreno voou contra a mesa e pegou o aparelho com fúria. Se todo aquele tempo tivesse servido para lhe acalmar, Alma tinha sido capaz de jogar fora em segundos.

–“Você também recebeu? ”­ – E Kanda se irritou porque era óbvio que sim. Quase apertou a foto entre os dedos, mas respirou fundo e se recusou a responder.

Tinha sido traído de novo?

–“ Vou supor que sim.”­ – Alma e sua mania de falar demais. – “Esse cara, Tiky, é dono do bar” – Continuou, Kanda se perguntando se em algum momento quis saber quem porra era o cara. Sentia fúria por ele sem nem mesmo conhecê-lo. – “Então podemos deduzir que o Allen o conhece há um tempo considerável.”

– Não me importa.

“Claro, porque ter o seu Honey beijado por outra pessoa realmente não faz a mínima diferença.” – Era possível notar a mudança de tom na voz do outro, Yuu até se divertiria ao ver que Alma estava irritado se não fosse a situação. – “O que está acontecendo com você, hein? Você nem mais olha pra ele! Já cansou? Terminou sua vingançinha?” – Alma falava rápido e respirava pouco. Kanda ignorou o desespero do outro, por mais que tivesse a resposta na ponta da língua.

Silêncio no quarto escuro. Devia passar da meia-noite. Com certeza não dormiria pensando naquela cena.

–“ O que aconteceu naquele dia em que você o arrastou da sala de aula?”

Alma, você pode, por favor, cuidar da sua vida? – Rosnou, sibilando no “por favor”.

–“Ah, mas eu gostaria mesmo! Só que tenho um amigo filho da puta que ainda não saiu das fraldas!Kanda ficou pasmo. Arqueou ambas sobrancelhas para o nada e só não revidou pois o xingamento era de nível primário. Não iria se rebaixar.

Riu.

–“Kanda..Como se podia prever, Alma não conseguia bancar o durão por muito tempo e isso fazia as conversas-xingamentos com o garoto não serem nada interessantes.

Diferente do albino. Aquele conseguia manter o brilho no olhar.

–“O que aconteceu que te desarmou?– ­Entretanto, assim como o albino, Alma falava coisas inteligentes que impedia o revidamento de baixo calão do moreno maior.

Mais silêncio. Alma se desesperou do outro lado. – “Não me diga que você..” — A voz dele tomara um tom de súplica e Yuu se viu obrigado a desfazer a imagem que estava se formando na cabeça do outro.

–Não! Eu.. – Tentava manter a calma. Nessa hora, os olhos vieram de novo em sua cabeça e teve de apertar o papel em sua mão para não explodir.

Na verdade, aquilo que esmagava seu coração e o deixava sem ar, tinha certeza, não era raiva e sim, culpa.

“Você não..” – Alma sabia bem quais os métodos de Kanda com suas Honeys.

–Não fui até o fim, se é o que você quer saber. – Levantou-se da poltrona e pôs-se a andar de um lado para outro. Realmente não gostou de ter imaginado o que aconteceria se tivesse continuado.

– “Então o que acon..

–Ele chorou. – Passava a mão nos cabelos molhados. Tivera que se enfiar numa ducha fria para impedir de ir até o albino e puni-lo e lavar com sabão onde aquele maldito Tiky tinha lhe beijado.

–“Mas então voc..” – Já não tinha mais paciência para a voz irritante e perguntas idiotas de Alma.

–Ele simplesmente parou no meio da porra do quarto e começou a chorar. Fim. – Rosnou baixo. Os olhos prateados se enchendo de lágrimas lhe traziam lembranças ruins.

–“Meu Deus, Kanda...” – Alma sussurrou do outro lado, Kanda trabalhando sua respiração. O samurai queria socar alguma coisa, por mais que soubesse que descontar a raiva nas coisas não era muito maduro.

Culpa de Alma, o desgraçado tinha posto lenha na fogueira.

– “Eu disse para você ir devagar!” – Começou, com o tom de mamãezinha preocupada. Melhor, queria socar Alma, isso sim seria maduro.

–Alma, me faz um favor? – Sentia seu corpo em chamas. – Vai pra puta que te pariu. – Sentenciou-se. – Não venha me encher o saco em plena madrugada para falar merda!

–“Merda? Você tem noção do que está dizendo?” – Não se podia dizer quem estava mais irritado. – “ Olha a situação em que você está!

–Sei bem disso! Sei muito bem disso! – Kanda rangia os dentes. – Quando for, aproveita e leva essa porra de Honey com você!

–“Kanda!” – Alma gritou.

–Não me importo com essa porra desse garoto!

–“Claro que não! Não se importa mesmo! Seu estúpido! Ele não é nem um pouquinho especial!” – Ironizou do outro lado da linha, tentando gritar o mais baixo possível.

–Não é! Você que tira umas ideias do cu! – Apertava o celular além da conta. Seu quarto era acusticamente isolado, então se quisesse gritar podia fazê-lo.

Mas não. Se recusava a perder o controle por causa de uma maldita fotografia. Na verdade, queria fazer outra pessoa gritar. Como queria.

– “É, deve ser! Meu cu deve ser no teu corredor então! Seu desgraçado! Vá até o quadro e olhe! Veja o que ele tem de especial! Depois vê se morre de uma vez!

E silêncio.

Ah, daria graças se ainda houvesse o mesmo em sua mente. Agora estava perturbado demais para ficar naquele quarto escuro e sozinho. Precisava fazer algo imediatamente!

Bateu a porta do quarto com força, sem se importar com colocar uma camisa ou com o barulho que seus passos raivosos faziam na madeira. Que se foda tudo.

Passou pelo quadro mencionado, mas não o olhou. Não precisava. Desceu as escadas no escuro, dobrou no corredor da sala de jantar, seguiu pela mesma até a copa e de lá foi para o jardim japonês. Só conseguia ver algumas coisas brancas e o barulho da água. Ignorou a calmaria e atravessou o mesmo, até chegar à sala que queria.

Acendeu a luz, sua fúria crescendo quando viu o saco de areia vermelho. Se sentiu um touro.

Com uma rapidez impressionante, enrolou a bandagem na mão, não se importando em prender os cabelos. Socou, socou com força. Sentiu prazer em se machucar enquanto socava o saco de areia.

I can´t stand it cause you put me down

I put a spell on you

Because you´re mine

Eu não entendo porque você me põe para baixo

Eu pus um feitiço em você

Porque você é meu

Aquele sentimento o corroia. Aquela raiva, sufoco. Era demais. Não sabia como lidar e socava mais, deixava seu fôlego ir embora sem preocupação, sentia o suor escorrer por suas costas, o próprio cabelo lhe chicoteando.

Era como se estivesse sendo castigado.

Era como se os olhos estivessem lhe punindo.

Os olhos de sua mãe e os olhos do albino. Era como se estivessem lhe açoitando.

Sentiu sua carne corroer-se, o líquido quente escorrer e ir lambendo seu pulso. Não se importava. Socava, socava!

Como alguém ousara? Como ousaram tocar em seu Honey?

Seu..

Parou. Segurou com força o objeto pendurado, testa suada encostando no plástico vermelho. Respirava sem compasso algum.

Sua mãe tinha lhe deixado, a cor das orbes dela indo-se para sempre, num tom opaco-morte. O albino ainda tinha as orbes prateadas, mas elas se recuavam a brilhar para si.

Kanda não tinha nada.

– Malditos olhos prateados...

Notas finais
Bem, é isso. Muito obrigado por lerem, pelos novos acompanhamentos e comentários, é muito importante para mim e me deixa muito feliz! Por favor, sejam sinceros e deem suas opiniões sobre o capítulo, se tiverem dúvidas ou acharem que não expliquei direto, não hesitem em perguntar e criticar! Leitores-betas são os melhores! Ah, eu gostaria de saber se está muito "morno", se vocês gostam do tamanho do capítulo e se os personagens estão forçados! É muito importante que vocês nos atentem para esse lado! Muito obrigada mais uma vez e até o próximo! (Música: I put a spell on you)