Honey
16 Liberdade
Notas iniciais
Aos poucos a consciência perdida ia voltando, acordando o corpo amolecido pelas horas de sono. Inicialmente, só conseguiu identificar os lençóis macios onde estava deitado e puxava a respiração com profundidade para ver se Mana já havia feito o café. Caso a mesa ainda não estivesse pronta, permaneceria ali mesmo, em seu quarto, aproveitando da manhã daquele sábado.
Revirou-se na cama, cobrindo-se até o pescoço com a coberta. Afundou os cabelos brancos no travesseiro com cheiro de lótus e relaxou os músculos, disposto a dormir novamente.
Entretanto, antes de se entregar aos sonhos, repassou o que deveria fazer naquele dia e o que fizera no dia anterior. Mais tarde teria que ajudar Mana com a casa e fazer as tarefas e trabalhos para aquela semana. Teriam uma prova de física e teria que passar a matéria para Kanda.
Aliás, no dia anterior a única coisa que fizeram fora farra e nada mais. Deveria ter desconfiado que nada de produtivo sairia de um encontro às pressas organizado por Lavi. Pior, naquela brincadeira passara a noite com pânico, pelo simples fato de não se agradar com filmes de terror. Se não fosse Kanda, teria dormido soz...
Pôs-se sentado num tranco, petrificado com a situação. Mesmo com a visão embaçada, forçou-se a reconhecer o aposento em que estava.
Sim! Sim!
Quer dizer, não!! Mil vezes não!
Onde estava com a maldita cabeça onde escolheu abdicar de seu orgulho e dormir no quarto de Kanda?? Tudo bem que o quarto em si era muito confortável, o problema mesmo era o dono dele. Se por acaso o demônio não o habitasse, aquele com certeza seria um bom lugar para se passar o dia inteiro fazendo vários nadas.
Irritou-se assim que virou o rosto de lado e viu Kanda virado de costas para si, com o cabelo esparramado pela cama, completamente bagunçado. Sentiu um mister de vergonha, porém esta foi sobreposta pelo orgulho ferido do garoto.
Não pensou duas vezes e pulou da cama. Com um bico no rosto, bateu a mão nas vestimentas e foi andando com passos pesados até a saída do quarto. Em sua cabeça milhões de ofensas dirigidas a si mesmo e ao dono do aposento eram construídas.
Era claro que Lavi tinha feito de propósito!! Como sempre, não tinha como confiar naquele ruivo miserável!
Abriu a porta do quarto e saiu. Podia sentir-se pisar em seu próprio ego, que estava esparramado pelo chão. Quando Kanda acordasse, com certeza seria motivo de piadinhas sem graça que ele fazia com o único intuito de diminuí-lo. Aliás, agora que o moreno não possuía autoridade o suficiente para humilhá-lo com ações pervertidas, resolveu o fazer com comentários ridículos.
Antes de afastar-se mais de três metros da porta do quarto, deu meia volta, revirando os olhos. Entrou novamente, fazendo um barulho desnecessário que fazia questão para mostrar seu descontentamento.
O que diabos havia pensado mesmo quando pediu a Mana para dormir ali?? Deveria ter droga em sua bebida, pois não era possível que estivesse tão louco a ponto disso!
Começou a olhar pelo chão encarpetado do quarto, ignorando o moreno se mexendo na cama devido ao barulho logo no sábado de manhã.
Sentia fome, muita fome, estava irritado e ainda por cima não sabia onde estava seu celular. Só faltava Mana ter lhe ligado um bilhão de vezes e ter que aturar novos discursos sobre a má influência do Mestre.
—De TPM, Moyashi? – A voz se pronunciou. Mesmo de manhã, Kanda mantinha o sarcasmo.
Allen o olhou com cara de poucos amigos. Não podia negar que havia dormido bem – novamente, o quarto de Kanda era aconchegante – porém “bem” não significa “à vontade”.
—Onde está meu celular? – Perguntou, ignorando as sobrancelhas arqueadas do moreno e continuando a levantar os lençóis, procurando se o aparelho estava entranhado nas cobertas.
— E eu sei? Você deve ter jogado no chão enquanto vinha se esconder na minha cama.
Oh. Allen parou no mesmo instante. Nem ele mesmo sabia o porquê de estar tão irritado. Claro que estar com fome, fora de casa, ter perdido o celular e estar na companhia de uma pessoa irritante eram motivos suficientes para qualquer ser humano perder a paciência.
Mas, detalhe, Allen Walker não era qualquer pessoa e não era qualquer coisa que o deixava irritado.
Algumas das coisas que faziam o albino se estressar eram filas, mentiras, disputas, Cross bêbado, Tiky e seu sorriso cativante e Kanda. Ah, esses dois últimos eram incríveis no quesito de “tirar Allen do sério”. Era possível dizer que apenas a simples menção do nome fazia um vulcão de sentimentos borbulhar no interior do menor.
E digamos, também, que o “Efeito Tulipas” tinha passado e Kanda já tinha perdido há muito a aura boazinha que tinha apresentado naquele dia.
Em suma, a constatação de todos esses fatos fizera Allen questionar seus próprios sentimentos e atos e tudo o que ignorava há semanas recaiu em suas costas.
Kanda ainda estava brincando? O que Road estava pensando? Tiky estava lhe odiando? Mana estava lhe odiando? Por que Kanda estava avaliando-o? Qual a relação estabelecida entre Lavi e Lenalee? O que Kanda pensou quando ele apareceu em seu quarto no meio da noite? Onde estava o seu celular?? Neah estava de volta? Por que Tiky estava lhe ignorando? Qual era o verdadeiro Kanda: o da Holanda ou o do bar? Por que ele tinha lhe dado aquelas roupas tão indecentes?
—Você está vermelho. – O outro observou e Allen estagnou.
As coisas rapidamente se encaixaram e seu peito se apertou. Tiky estava sumido há dois meses, sem dar notícia, e a maioria de seus pensamentos estavam voltados para Kanda e suas obrigações como Honey. Teria deixado sua vida pessoal de lado? Ou feito daquele “serviço” a sua própria vida?
Ficou calado e, ao fitar incessantemente o chão em busca de respostas, descobriu seu celular jogado debaixo da cama. Abaixou-se e pegou, não percebendo a avaliação que o mais velho fazia de si.
No momento, Allen parecia aéreo e preocupado demais com suas questões internas, o que dava margem para a observação incessante de Kanda. Ele estava assim por causa de uma noite que dormiu ao seu lado?
A simplicidade dos sentimentos de Yuu, mesmo que obscuros, fazia aquela única dúvida ser razão para fechar a cara.
Eram dois humanos de sentimentos conflitantes, sem saber o que pensar após dormirem juntos, mesmo que sem nenhum contato sexual.
—Eu preciso comer. Estou com fome. – Allen disse, erroneamente atribuindo todo aquele martírio ao vazio que sentia no estômago.
—Vamos descer. – Kanda disse, a voz mais baixa, contida, e o albino percebeu a mudança, olhando para as feições menos transparentes, devido à sombra da dúvida.
Observou por um instante e sentiu a necessidade de pedir desculpas pelo mal humor matinal, afinal, não era culpa dele.
Não diretamente, claro. Era culpa dele, na verdade tudo era culpa dele!!
Mas... Mas...
—Eu... – Soltou no ar, porque, mesmo que não admitisse, gostaria de ver como era Kanda agindo normalmente pela manhã. Gostaria de ver como ele se portava dentro de casa.
Só que infelizmente, acabou não o vendo, porque ele mesmo já não sabia diferenciar o que queria ou não e, por causa disso, acabou forçando o moreno a se trancar dentro de si.
O fim de um dia divertido foi uma noite tumultuada e uma manhã fechada. A melhoria que aparentava naquela relação era uma ilusão, porque não há convivência quando uma das partes não está pronta, e nem sabe o que realmente estava acontecendo.
Claramente, Kanda sabia seus objetivos, mas Allen continuava retraído, preso às suas ideias do passado, ideias essas que deveriam ter seus fios restaurados ou, quem sabe, cortados.
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O carro lhe deixou na porta de casa logo após terminarem o silencioso café da manhã. Mesmo com fome, Allen sentiu-se embrulhado e era como se tivesse voltado cinco casas no jogo da vida que jogava com Kanda.
Bom, e aquilo era no mínimo frustrante.
Derrotado, subiu as escadas e tomou um banho. Mana não estava em casa e o albino mandou uma mensagem para o pai perguntando se tudo estava bem.
Em todo o percurso de carro até seu lar, ambos ficaram em silêncio, pois, agora que Kanda não tinha motorista, ele mesmo dirigia. Allen pensou se aquela “quebra” havia sido culpa sua e chegou rapidamente à conclusão positiva.
Alguns flashbacks vieram à sua mente, mas para não se sentir pior, os excluíra. Entretanto, como a consciência é um morcego que lhe suga o sangue quando você está sozinho e solitário, ela veio.
E o albino estava sentado em sua poltrona preferida na sala, observando as bailarinas sobre a mesinha de centro. Lembrou do dia em que conheceu Kanda, do incentivo e do sorriso de Tiky antes de tocar. Lembrou do incidente no banheiro e em como aquilo parecia coisa de filme. Levou o dedo ao brinco e subitamente pensou que havia se acostumado com ele ali, não era mais um peso.
Parecia parte de si.
Depois, lembrou do inferno que viveu nos primeiros dias, do quanto ele parecia um carrasco e de Alma implorando por ajuda, ali mesmo, naquela sala.
Continuava algo surreal.
Lenalee foi carregada com a maré, se enfureceu e acabou descobrindo um pouco do passado do moreno. Não fez o Drop e viu o estado derrotado que ele estava quando entrou no quarto, naquele dia que desistiu de seguir a vida sozinho.
Sentiu-se no poder quando viu o Mestre a seus pés, acatando seus pedidos. Sentiu-se importante quando viu o esforço dele nos Jogos Drop. Sentiu-se feliz quando viajou com ele para a Holanda, e viu-se desejando ver o “Kanda Lisa”.
Em contrapartida, Tiky havia sumido. Desde que resolvera ficar como Honey, não tinha notícias do homem de olhos dourados. E o japonês estava tão mais presente em sua vida que acabava esquecendo-se do mais velho por boa parte do dia.
Aquilo lhe abatia, pois realmente gostava do Mikk, mas ao mesmo tempo a mudança se mostrava necessária. Além de mais velho, o Noah sempre assumira uma postura de pai ou tutor. Era um sentimento forte, sim, aquele que sentia pelos olhos dourados, mas Allen também não conseguia pensar que boa parte daquelas emoções ainda estavam ligadas ao garoto de catorze anos que fora.
Ainda lembrava-se de quando conheceu o moreno.
Naquele lugar hostil, Tiky era uma luz dourada e atraia de tal forma que o garotinho de olhos prateados não pôde resistir.
Nunca havia conversado com um homem seminu num bordel e nunca havia pensado que gostaria de um homem daquele tipo.
Aconteceu.
As coisas acontecem quando menos esperamos. Assim como Kanda.
O restante foi como uma bola de neve. De repente se via cada vez mais atrás de Cross, queria ir aos lugares onde o ruivo se encontrava com o restante da laia, porque sabia que o misterioso estaria lá. Infiltrou-se, observou, participou e, por último, com a saída de um dos membros, ocupou um lugar no Clã Noah.
Teve que ler vários livros de administração, negócios, lia New York Times o tempo inteiro e teve algumas noções de outras línguas para tentar acompanhar as notícias em tempo real. Os livros de direito que seu pai tinha o ajudaram a entender as leis e a aplicá-las no mercado. Tudo isso sozinho, com o objetivo único de ficar cada vez mais perto de Tiky Mikk.
Claro que durante tudo, nunca pensou em dizer algo. O simples fato de estar perto do maior o deixava satisfeito. Sabia que o amor que Tiky tinha por si era fraternal e não se sentia no direito de querer algo mais, até porque não fazia ideia se o que sentia era amor mesmo ou só atração sexual.
Talvez fosse crueldade deixar adolescentes terem que lidar com assuntos como “gostar de alguém”.
Doía, por mais racional que a pessoa fosse.
Allen suspirou pesadamente, retirando os pés de cima da poltrona, onde anteriormente estava encolhido. Sua cabeça estava uma pilha e queria dormir.
Subiu para seu quarto, pegando o travesseiro e a coberta, e logo seguiu para o quarto de seu pai. Cheiros lhe acalmavam. O de Mana era um deles.
O de Kanda também?
Mordendo o lábio inferior, deitou-se, e se cobriu. O blackout deixava o quarto escuro. Desbloqueou o celular, e foi até o aplicativo de conversas. Buscou o nome, cuja conversa estava mais abaixo na lista de contatos.
“Preciso falar com você. Onde você está?”
Confusão mental é um dos piores problemas humanos. Muitas vezes você sabe o que está errado em você, mas não sabe como resolver. É aí onde está o ponto da questão.
Deitou a cabeça no travesseiro, sufocando-se por alguns segundos. No entanto, não permaneceu muito tempo ali, porque logo seu celular vibrava com uma mensagem e rapidamente foi lê-la.
“Ouvi de Cross que vai viajar para a Inglaterra. Desculpe o sumiço. Viajei para resolver algumas coisas para o Conde. Neah está de volta. Também acho que precisamos conversar. Pode vir aqui à noite?
Pronto, aquela mensagem pareceu uma boa saída. Independente de resultados bons ou não, tinha que ir ao Noah´s naquela noite. Neah estava de volta, como Cross havia gritado no dia anterior. Muitas coisas teriam que ser solucionadas antes de embarcar para a Inglaterra.
Sim. Ali estava um planejamento que fora completamente ignorado com a correria do dia a dia. Estava de viagem marcada para Londres havia três meses, iria ver sua mãe no recesso, que seria no próximo fim de semana, e comemorar seu aniversário com ela.
Ninguém sabia, a não ser ele e Mana, e agora Cross e Tiky.
Fechou os olhos, sentindo um leve dor de cabeça. Seu sexto sentido lhe avisava que seria uma conversa e tanto e que seria bom descansar antes de encarar tudo.
Até meses atrás, tudo parecia límpido e claro para Allen Walker, mas foi só Kanda aparecer e desfazer todas suas certezas, que sua rotina desandou. Agora a vida escancarava tudo de uma vez, exigia uma resolução e Tiky parecia não se encaixar no caminho a ser escolhido.
“A vida é uma caixinha de surpresas. Uma caixinha cheia de fios emaranhados lá dentro. E assim é o mundo. Cada fio tem um destino, um cruzamento, e cada vida se cruza num destes. No entanto, alguns fios, às vezes, precisam ser arquivados.”
As coisas estavam exatamente como se o tempo não houvesse passado. Skinn Bolic continuava na frente da parede negra do bar, irritado com a movimentação. Naquela noite, porém, aparentemente o público do bar era mais adulto, pois não havia tanta movimentação de adolescentes.
Allen vinha andando pela avenida, capturando tudo com o olhar. O toldo vermelho lhe pareceu desconhecido por um momento e apenas pode rir fracamente.
—Décimo quarto! Já não adianta dizer que você está sumido. – O maior disse com a voz rouca e sem desviar o olhar. Impassível como sempre.
—Não tenho argumentos para me defender. – O albino deu uma risadinha, dando duas batidas no braço do outro.
Bolic abriu espaço para ele passar e recebeu alguns olhares de desaprovação do público que esperava do lado de fora. Mas também não era como se o segurança se importasse.
Odiava aquele trabalho.
Allen entrou e lembrou-se da última vez que pôs os pés no local. Não havia nada fora do lugar. A mesma madeira do chão, o mesmo balcão gigante, o teto de cúpula decorado com vitrais e o lustre. As mesinhas bem organizadas com flores roxas e amarelas.
— Olha só... O décimo quarto! – Devit sorriu sarcástico, enquanto enxugava um copo.
—O quê? Allen? Allen está aqui? – Uma coisa loira, vestida extravagantemente com retalhos malucos, surgiu de debaixo do balcão. Os olhos pareciam surpresos e trazia na cabeça uma coroa de testa bem simples, feita de um material fino e escuro decorado com sete cruzes na frente.
Allen reparou que Devit também usava uma e perguntou-se qual era o tema daquela noite.
— Olá, Jas, Devit! – Sorriu, acenando e se aproximando no balcão. Vestia-se de forma despojada, não como um Noah.
—Allen!! Por onde andou?? – A loira deu a volta no balcão, jogando um pano pelo ombro e indo até o menor.
—Pelo chão, obviamente. – Devit, como sempre, revirou os olhos e foi até um cliente enquanto resmungava.
—Mas esse desgraçado não sabe tomar conta da própria vida?! – Voltou-se possessa para o irmão, que somente a ignorou. Allen deu uma risadinha que a fez dar-lhe atenção. – Me responda!
—Tive alguns compromissos e mudanças de rotina. – Coçou a nuca, envergonhado. Jasdero às vezes lembrava-lhe uma mãe.
—Ah, mas isso eu sei! A sobrinha do Tiky vive falando que você parece ter outras prioridades. Por acaso de esqueceu da gente? – Questionou, cruzando os braços.
Allen ficou sem saber o que dizer. Abriu a boca uma ou duas vezes em vão, e agradeceu por ela ter tomado a fala novamente.
—Olha o Tiky ali! Acho que ele quer falar contigo, mas depois volte aqui! – Avisou, apontando para trás de Allen e voltando para seu lugar no balcão.
O albino respirou fundo antes de voltar-se para o ponto mostrado e logo teve a visão que esperava ter.
Tiky continuava a transbordar sensualidade por onde passava. Assim como os balconistas, trazia na testa uma coroa de sete cruzes e a pele mais amorenada. Vestia-se com terno e luvas, elegante como sempre, e cumprimentava algumas pessoas conforme passava pelas mesas.
O Walker aproximou-se e recebeu um sorriso de canto do outro.
—Vamos nos sentar ali. – Mikk colocou a mão esquerda nas costas do menor, guiando-o até uma mesa mais reservada, que já estava preparada com o suco de Allen e com o Whisky do Noah.
Sentaram-se e Tiky logo tomou a palavra.
—O motivo do meu desaparecimento, antes que pergunte, é que eu estava resolvendo algumas coisas para o Conde. – Começou, tirando as luvas e ficando na típica pose de segurar o próprio rosto.
—E você aproveitou para tomar banho de sol? – Sorriu, mesmo que sem verdade. O ato não passou despercebido pelo moreno, mas também não nada foi feito.
—Claro. – Respondeu, mantendo sua pose a avaliando o garoto com o olhar. Mikk conhecia Allen e para fazê-lo falar sabia que não precisava cutucar, era só esperar. – O que te traz aqui? Sei que anda ocupado... – Sorriu de canto, desafiador. Allen olhou-o por segundos e depois desviou o olhar.
Deu alguns segundos para o albino observar seu suco e brincar com a condensação que dava-se no vidro.
—Fiquei sabendo que Neah está de volta. O Cross deu uma crise ontem.
—Deu? – Tiky sorriu grande. A relação do Marian com Neah era complicada, mas igualmente interessante. – Sim, ele voltou no começo da semana, mas o Conde está alugando ele. Sabe como é, o Conde é louco por Neah.
—É, acho que daí veio a obsessão dele por mim... – Allen riu baixinho tomando um gole de seu suco. Como sempre, estava uma delícia.
—Não acho, acho que ele gosta de você por você ser quem é. Prova disso é que ele vai abrir uma exceção para você.
O albino ergueu os olhos rapidamente.
—O que?
—Isso mesmo, se você veio aqui pedir “demissão”, sinto informar que o Conde já arrumou um lugar para você. – O moreno sorriu, estalando os dedos. O menor estava de boca aberta. – É claro que Neah vai retomar seu lugar de décimo quarto, mas o Conde não vai te deixar ir tão fácil.
—Mas eu... – Walker estava desnorteado. – Eu não sei se... Meu Deus!
Tiky franziu as sobrancelhas.
—Não sabe o que? Você vem fazendo um bom trabalho até agora.
—Não é isso, é que... não vou ter mais o tempo necessário e tem o fim do ano e faculdade e...
—Allen. – O mais velho interrompeu e pareceu sério. O albino engoliu em seco, sabia o que viria a seguir, mas não era sua intenção entrar naquele assunto. — Isso nunca foi desculpa para você. Não seria mais sincero dizer que agora você tem outras prioridades?
O menor fechou os olhos, respirando fundo. O dia com certeza não estava bom. Acordara irritado e ali estava, tendo um conversa que há anos esteve apenas guardada em sua cabeça.
Kanda parecia ser o atual motor da vida de Allen.
—Road te contou tudo, né? – Bingo. Assim os Noahs agiam.
—Obviamente.
—E o que acha de tudo isso?
—Quer mesmo saber?
—Você sabe que sua opinião é importante para mim, Tiky. – Allen suspirou, passando a mão pelos cabelos.
—Não parece. Eu te mandei uma mensagem no dia que você decidiu tudo e você simplesmente ignorou.
É, Tiky tinha habilidade por ser um Noah. Allen mordeu os lábios.
— Eu não sabia o que fazer...
—Você sabia, sim. Mas decidiu tudo sozinho. Estou decepcionado. – Ele sorriu de lado – Você geralmente não voltava atrás com suas palavras.
—Eu fiz o que achei que era certo. – Allen deixou de brincar com o copo e mordeu o lábio inferior enquanto erguia o olhar para o outro. – Pedi sua opinião e não o seu julgamento, Tiky.
Ambos se encararam. Mantinham a conversa em tom de voz baixo, olhavam-se com tristeza, compreensão e um pouco de ansiedade.
—Eu acho que isso é uma merda. – Riu fraco, tomando um gole de sua bebida. – Nunca pensei que você iria se envolver com aquele moleque.
—Bom, nisso eu concordo com você. – O albino deu de ombros, levantando os ombros e voltando a brincar com o copo, já que percebeu que a conversa seguiria. – Eu também não imaginava que tudo isso aconteceria, então não me culpe.
—Oh,culpo sim, shounen. – Tiky alfinetou e novamente recebeu o olhar prateado. O maior respirou fundo e assumiu uma postura “não posso fazer nada, falo a verdade.” – Eu disse que era para você sair dessa e você me ignorou. Eu tentei te proteger, mas você recusou a ajuda.
—Não. – Allen sorriu, um sorriso de recusa. – Você não tentou me proteger, você tentou me prender, Tiky.
Oh.
Tiky observou o menor e pensou em quais peças do tabuleiro mexeria.
—Eu achei que você gostava da proteção. – Empurrou o copo vazio para o centro da mesa, mas nenhum garçom se atreveria a entrar naquela atmosfera.
Allen esfregou os olhos e respirou fundo. Agora tinha um brilho desconhecido no olhar.
—Eu não gostava da proteção, eu gostava de você e você sempre soube disso.
O Mikk abriu os lábios ligeiramente em surpresa. Arqueou as sobrancelhas, como se não imaginasse que o outro falaria algo do tipo. Olhou para os lados e bagunçou o cabelo, negando com a cabeça.
Allen observou tudo, cada mínimo detalhe e algo dentro de si quebrou. Sentiu vontade de chorar.
—Touché.¹ — O Noah, por fim, respondeu. E agora carregava um sorriso triste.
Sim, sempre soube que o albino muito provavelmente nutria por si algo a mais. Era bem óbvio até, pois os olhos prateados brilhavam de um jeito diferente para si.
No entanto admitir para si mesmo e por as cartas nas mesas, eram coisas completamente diferentes. Ambos sabiam que aquela conversa era antiga, e que muitas coisas ali mudariam a partir daquele momento.
—Então nós finalmente vamos ter essa conversa. – Tiky assentiu com a cabeça. A sensação de perder algo não era das melhores, mas algo o impelia de tentar segurá-lo. Suspirou pesado e gesticulou com a mão para Allen tomar a palavra.
—Sim... Chegou a hora dessa conversa... Eu estava me sentindo com um peso nas costas até agora...
—Bom... Agora você pode se livrar disso.— Disse e Allen soube, pelo tom de voz usado, que ali havia mais significados do que se podia imaginar.
Varreu os olhos pelo local, observou os rostos dos clientes alheios àquele desabafo. Prendeu-se um pouco em Jasdero, que chamava a atenção de Devit, deixando-o envergonhado. Por fim, começou a falar quando olhava para os vitrais no teto. Havia encontrado ali a coragem necessária, e, por incrível que pareça, sentia-se mais leve, mesmo diante daquele rompimento.
—Eu não sei quando e nem como decidi que gostava de você e muito menos em qual intensidade seria. Só... aconteceu. Eu vi você naquele quarto e então nós conversamos e no fim, eu só pensava em estar perto de você. – Sorriu para o nada.
Naquela época, aos catorze anos, não pensava em nada demais, apenas em ser notado pelo maior.
Digno de um adolescente, demorou algum tempo para dar conta de que o que sentia não era simples. Sentiu raiva de si mesmo, e principalmente de Cross. Se não fosse pelo filho da puta, não teria entrado em um bordel e dado de cara com Tiky Mikk.
A memória daquele dia ainda era fresca em sua mente. Estava buscando por Marian, que estava sumido há alguns dias. Mana e ele estavam procurando onde estava o irresponsável com base em recibos de contas e o albino dera o azar de ficar encarregado por procurar em um bairro não muito longe de sua casa – por questão de segurança – mas que era famoso pelos bares.
Vasculhou muitos lugares e poderia se ter uma ideia do nível dos estabelecimentos pelo simples fato de deixarem uma criança entrar sem pedido de identidade.
Enquanto tentava abrir espaço, sentia os respingos das bebidas em si e erguia o rosto para tentar buscar ar. Agradeceu quando viu uma escada que levava ao segundo andar e não hesitou em subir por ela.
Foi ali que seu caminho foi traçado.
Enquanto batia nas portas a procura de Marian e se assustava com o que acontecia lá dentro, encontrou, pela primeira vez, Tiky Mikk.
Ele atravessada de uma porta para outra no corredor, apenas de boxer vermelha e com uma garrafa de champagne em mão. Os cabelos longos e suados estavam jogados para trás, mas não impediam que algumas mechas caíssem pelo lado. A pele bronzeada destacava-se no ambiente escuro e o inocente garoto comparou-o como um anjo no meio daquele local.
Entretanto,bem, o único anjo ali era Allen Walker e Tiky não demorou em perceber isso.
Aproximou-se e sorriu diante das bochechas coradas. O famoso sorriso não saiu da cabeça do pequeno nas primeiras semanas.
Para piorar, o moreno preocupou-se com a criança ali, e seu instinto paterno aflorou. E se fosse Road naquela situação? Sem pensar muito, levou o pequeno para um dos quartos e enxotou uma loira, a qual estava só de calcinha, do quarto.
Allen estava travado, não sabia como reagir, apenas acatava os pedidos do outro com o rosto em chamas. Acabou sendo guiado para uma poltrona, que ficava de frente à cama onde o maior estava.
O Mikk lhe ofereceu alguns amendoins e se preocupou com as vestimentas do menino, perguntando se não queria tirar a camisa suja de cerveja. No entanto, em nenhum momento pensou nele mesmo e continuou apenas de cueca, com as pernas cruzadas, avantajando o próprio membro.
Ficaram ali conversando – Tiky falava e Allen morria de vergonha – e aquela situação mais parecia uma brincadeira do que a vida real. Primeiro o moreno acalmou o outro, ou pelos achava que tinha o feito, e depois levou o garoto para casa, apresentando-se à Mana e explicando que era conhecido de Marian e que estava trabalhando na boate.
Depois daquele dia, a relação deles ficou mais próxima. Allen ameaçou Cross e disse que contaria o paradeiro do tio – que passou todo o fim de semana com Neah – para seu pai caso não ajudasse-o a entrar em contato com o moreno. Acabou entrando na Noah´s Ark apenas para ficar perto do mais velho, e estava tudo indo bem, inclusive achava que estavam até mais íntimos com os beijos e tudo mais, até que Kanda Yuu desestabilizou tudo.
Agora estando ali, frente a frente com sua paixão adolescente, Allen pensou que ainda amava aquele homem, mas era um amor do passado, uma relação viva somente no passado.
Já não tinha mais espaço para nenhum dos dois no presente do outro.
— Eu queria ficar perto de você e eu adorava quando você pegava no meu cabelo e me chamava de "shounen" e... — Allen cobriu os olhos com a mão, não queria encarar o outro enquanto despejava anos de sentimentos.
Sua voz foi abaixando gradativamente enquanto confessava aquele amor e batia os pés em ansiedade. Não era sua intenção falar sobre aquilo com Tiky, mas diante dos fatos, sentia necessidade de expulsar tudo. Queria se sentir livre.
— Você sabia, não sabia? Você sempre soube. Eu sabia que você sabia, também. — Deu uma risadinha. — Não sei nem se isso está fazendo sentindo, sabe? — Mordeu os lábios.
Cada ato seu era minuciosamente avaliado pelo outro.
— Eu sabia que não tinha motivos para sentir o que sentia, porque você sempre me tratou mais como filho do que qualquer outra coisa. O jeito que você me abraçava era muito paternal, até mesmo quando você me beijava! — Ergueu os ombros, como se mostrasse que tudo era muito claro. — Mesmo assim, eu tinha a burrice de nutrir algo a mais. Não foi culpa sua, mas eu odiava saber que você nunca me corresponderia e ainda ter esperanças. Você entende, Tiky?
O moreno mordeu os lábios. Mikk se mostrava atento e olhou para os lados antes de responder. Respirou fundo.
—Vamos lá para fora. – Disse e já foi se levantando. Allen quis questionar, mas no fim apenas o seguiu. Atraíram alguns olhares, mas nenhum dos dois parecia se importar. Saíram pelos fundos e Allen se viu no mesmo beco do dia em que conheceu Kanda.
Deu uma pequena risadinha, tentava conter algumas lágrimas que vinham caindo assim que levantaram da mesa. Ambos encostaram nas altas paredes úmidas do muro.
— Pode falar agora. — A brisa batia contra o rosto das duas criaturas.
— Eu sabia desde o início. Mas eu te mantive perto, porque sempre quis proteger você deste mundo, da Noah´s Ark. Não queria que ninguém machucasse meu garoto. – Suspirou. Sentia um carinho enorme pelo menor. Mas era apenas carinho.
— Mais do que você machucou? — A voz quebrou no meio da frase, e o garoto deixou as lágrimas rolarem. Tiky riu tristemente.
— Você talvez possa levar isso como um treinamento.
— Não sei se vou conseguir lidar com isso. – Já passava as costas da mão no rosto. Não era um choro compulsivo que atrapalhava sua fala. As lágrimas simplesmente desciam como se limpassem aqueles sentimentos.
—É um dos motivos para querer sair da Noah´s?
—Sim... Um dos... Preciso de um tempo para superar e esquecer tudo isso...
— Esquecer toda a minha existência? – Tikky olhou para o garoto, os olhos dourados atentos aos fios brancos que estão sendo amarrados e dão bela visão às lágrimas que vêm descendo.
— Não... Isso seria impossível. – Allen alargou os lábios por um segundo, mas depois fungou e mordeu o lábio inferior. Seu celular vibrou no bolso, mas ignorou. – Você sempre vai estar em mim, vai ser uma memória fixa de uma boa parte da minha vida... – Disse quase suspirando.
— Então não tem como me esquecer? Fico feliz com isso. – O maior sorriso e voltou a olhar para o céu, como fazia antes.
— Não... Eu acho que sempre vou te amar... Todas as suas pequenas coisas... – Travou quando sentiu sua garganta apertar dolorosamente e teve que respirar rapidamente algumas vezes. A voz voltou quebrada. — Você me odeia por isso?
Os lábios avermelhados tremiam e Tiky não pensou duas vezes para abraçar forte aquele garotinho, cobrindo-o com seu corpo e pressionando o menor contra o muro.
— Não, shounen... – Respondeu com a voz compreensiva. Fechou os olhos enquanto aspirava profundamente o cheiro das madeixas claras. – Eu sempre soube. E você me odeia por não te corresponder?
Allen riu fraco, mas as lágrimas aumentaram de volume quando sentiu o cheiro tão familiar daquele homem. Os braços dele eram reconfortantes. Seu peito tremia.
Rompimentos nunca são fáceis.
— C-claro que não... – Um suspiro pesado e continuaram naquele contato por alguns segundos.
Ambos precisavam de um tempo ali.
—Vou falar com o Conde sobre sua decisão, mas não garanto nada...
—Okay...
— Shounen, quero que saiba que você é da família. Sempre pode vir aqui... — Ele sussurrou, beijando o topo da cabeça do menor e se afastando. Tiky retirou a coroa da própria testa e virou-se de frente para o garoto. — Se acontecer algo com o outro, é só me avisar, entendeu?
— Uhum... — Allen engoliu em seco enquanto Tiky afastava seu cabelo e encaixava a coroa ali, na sua testa. Podia-se se ter uma boa vista do rosto do Walker e das sete cruzes, uma vez que seu cabelo estava preso em um pequeno rabo de cavalo.
— Você pode usar isso como um símbolo de que ainda é da família. Não se esqueça de nós. – Segurou no rosto do outro e passou os polegares pelas bochechas inchadas. O albino fechou os olhos momentaneamente.
— Jamais... – E respondeu baixinho.
— Venha nos visitar também. E se você tiver que trazer o Herdeiro junto, é só avisar que eu preparo uma jaula para colocá-lo enquanto conversamos. — Allen riu e Tiky se sentiu menos culpado.
— Acho que está na hora de deixar você ir. – O Noah expirou forte e se afastou.
— Acho que já passou da hora... – Allen lhe encarou, limpando os resquícios de lágrimas e presenteando-o com um sorriso leve.
— Eu só queria ter certeza que você não está se forçando a conviver com o japonês para tentar me esquecer. – Perguntou, enquanto olhava para a saída do beco.
— Podemos não colocá-lo na conversa? — Allen tombou a cabeça adoravelmente. Aquilo era algo que teria que pensar, mas por hora, preferia apenas aproveitar a sensação de liberdade que tinha.
— Não, não podemos. Não posso ignorar que esse rompimento tem dedo dele. Ou ele é inocente? — Sorriu de canto.
As coisas talvez pudessem ser arrumadas com o tempo.
Allen riu fraco.
— Acho que inocente é a última coisa que ele poderia ser... – Seguiu o olhar do maior, fitando o asfalto que lhe esperava.
Ficaram em silêncio.
— Quer que eu te leve em casa? – Perguntou, vendo que ele mexia na carteira e pegava o celular.
Allen abriu a caixa de mensagem. O outro viu a surpresa e o meio sorriso que surgiu nos lábios do pequeno e sentiu uma pontada no peito, mas não disse nada.
—Eu... Ahn... Não precisa, eu vou sozinho... – Umedeceu os lábios e ainda olhou para o visor alguns segundos até desligá-lo e guardar o aparelho novamente. Fungou mais uma vez, limpando o nariz na manga e fitou os olhos dourados.
—Até mais, Tiky.
—Até mais, shounen.
Ambos sorriram pequeno e não mais se tocaram. Allen ainda ficou um pouco vermelho e foi o primeiro a se mover, indo para a saída do beco. O moreno o observou , com ambas as mãos no bolso. Assim que a figura desapareceu pela rua, passou uma mão pelos cabelos e retornou para o estabelecimento.
Já o Walker, bem, assim que virou o beco notou o carro parado ali.
A mensagem que havia recebido era de Kanda, que lhe mandara um foto dele e Tiky no bar. Foto daquele dia, muito provavelmente. Claro que o albino ficou surpreso, mas não deixava de ser engraçado. Iria tirar satisfação depois, mas, novamente, apenas queria aproveitar a sensação de leveza em seus ombros.
Tiky jamais seria esquecido. E também não havia mágoas ali, entretanto quando um fio se desgasta, não adianta tentar remendar. Perder um amigo, um amor é terrível, mas possuir as memórias boas é o melhor presente. Em seu passado, na linha do tempo de seu coração, o Mikk sempre estaria marcado e Allen sempre o admiraria, Allen sempre se lembraria da comida preferida dele e de como ele gostava de borboletas. Não se assustaria caso pegasse algumas manias dele, como gostar de poemas e olhar a vida com outros olhos. Eram ensinamentos que não podiam jogar fora. Ainda o amaria, mas não como antes. Agora, sem o moreno, seguiria em frente.
Abriu a porta do carro e encontrou Kanda observando-o fixamente. O japonês notou as bochechas inchadas, os olhos lubrificados, as marcas de lágrimas e travou a mandíbula. Deu partida no carro e foi só aí que ouviu a voz melodiosa.
—Me desculpe por hoje de manhã... Minha cabeça começou a pensar em algumas coisas loucas... – Riu baixinho, enquanto colocava o cinto.
Yuu o olhou desconfiado. Não havia gostado nada da foto que Road tinha lhe mandado. A maldita só sabia lhe atentar. E Alma também! Afinal, não basta mandar somente para si, tinha que mandar para o Karma, que infernizou sua cabeça para buscar seu Honey no bar.
—Hm... Estava chorando por que? – Perguntou, sem rodeios. Isso mesmo. Seu Honey.
-Nada de mais. – Allen tocou as pontas dos dedos na coroa e não a tirou. Depois olhou para o motorista e o avaliou da cabeça aos pés. – Mas você deveria se sentir responsável. Ultimamente, você é a causa de todas essas loucuras.
No mesmo instante, Yuu virou a cabeça e pegou o menor lhe observando. Nenhum dos dois desviou o olhar até que o sinal onde estavam parados abrisse.
O japonês voltou sua atenção para o trânsito com um sorriso de canto e seu acompanhante virou o rosto a fim de observar os postes da cidade.
—Não quero voltar para casa agora... Pode me levar em alguma sorveteria?
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