Notas iniciais
Olá! Dei uma sumidinha, mas já estou de volta. Tive algumas coisas por aí e eu foquei em mim mesma. Não tenho muita coisa para dizer, só que eu gostei desse capítulo e gostei do rumo que Honey está tendo. Ah, queria dizer que sinto falta de algumas leitoras que simplesmente desapareceram. Eu sei que cada um tem seus motivos, mas, é... Só quis falar isso mesmo. Espero que gostem do capítulo! Boa leitura! Ps: Algum Larry shipper por aí?

“A vontade de te ver já é maior que tudo e não existem distâncias no meu novo mundo.” – C.B.J

— Pai, onde está aquela bota de plástico marrom?? – Allen gritou com a cabeça enfiada dentro do closet.

Seu quarto estava uma zona. Havia roupas jogadas pelo chão e enfeitando a cama. Pares de sapatos eram cobertos por tecidos aleatórios, tornando-se um perigo à transição no recinto. Além disso, carregador para celular, um livro, artigos pessoais, perfume e outros estavam separados num cantinho próximo a uma pequena bolsa.

Não havia nada organizado e Allen culpava-se por não ter feito a mala antes. Acabara perdendo tempo demais procurando alguns casacos e agora não sabia onde estava a maldita bota!!

—Que bota? – Mana apareceu no quarto e olhou indignado para o estado do cômodo.

—Aquela que o tio Cross me deu dinheiro para comprar! – Ele tirou o rosto do guarda roupa, sentando-se sobre os calcanhares e passando as mãos nas costas.

Na verdade, Marian havia subornado o garoto para que não contasse à Mana o que fazia nas poucas noites em que o mais velho pedia-o para cuidar do filho.

— Não sei, Allen. Não está aí? – Perguntou, as sobrancelhas franzidas enquanto cutucava algumas peças de roupa do filho. – Vai precisar disso? – Ergueu uma peça aberta demais para se usar na chuvosa Inglaterra.

—Não está! Já procurei em todo lugar! – O albino coçava a cabeça desesperado e irritado. Viajaria no dia seguinte e não havia posto nada na mala! Pior, eram quase onze da noite e queria apenas dormir!

—Allen, não tem como não estar! – O Walker andou até o filho tentando achar um lugar pisável no chão. Acabou grunhindo quando pisou em algo que identificou ser um cinto e logo pôs as mãos na cintura com irritação. – Dá para você colocar o que já está pronto na mala?

O filho levantou revirando os olhos e bufou enquanto catava as peças do chão com rudeza.

—Não tem como você achar alguma coisa com o closet nesse estado! – Mana bateu as mãos na coxa enquanto via o amontoado de roupas e cadernos e livros, tudo jogado dentro do móvel.

—Pai, por favor! Eu só quero achar essa bota e ir logo dormir! – Reclamou, puxando alguns fios e se irritando com o tamanhão dos mesmos. Acabou prendendo o cabelo num rabo de cavalo que mal podia ser contido, fato que deixou algumas mechas delinearem seu rosto aparentemente mais maduro.

—Já avisei que deixar as coisas para a última hora não dá certo! – Mana derrubou alguma coisa e foi sua vez de se ajoelhar e ir procurar o objeto, possivelmente de vidro, em que havia esbarrado. – Mas que droga... – Murmurou.

—Eu não tive tempo!

A verdade era que nos últimos dias nem vira o tempo passar. Ia da escola para a casa de Kanda, muitas vezes acompanhados por Lavi, Lena e Alma. Todos concordavam que tinham que estudar, uma vez que os professores faziam questão de mandar dezenas de trabalhos e marcar provas justo na última semana antes do feriado natalino!

Passar os dias atarefado acarretou num albino morto ao fim da noite e a única coisa que fazia era dormir.

Para ser sincero, também acabou se esquecendo de sua visita à Londres. Quando se assustou, já era o dia anterior à viagem e o desespero o acompanhou até terminar de estudar para um teste e ter tempo livre para arrumar suas coisas.

—Achou?

—Já olhou na sapateira? – O pai levantou, o rosto demonstrando cansaço e sono.

—Já, não está lá! – Respondeu, checando sua carteira e seus documentos. Seu voo na manhã seguinte era logo depois da escola e teria pouco menos de duas horas para rumar ao aeroporto, portanto tinha que deixar tudo organizado.

—Se tiver lá, eu vou esfregar na sua cara!! – Mana sentenciou e saiu do quarto.

O garoto começou a sentenciar alguns xingamentos e pegou uma roupa qualquer para usar na viagem. Deixou-a em cima da cômoda e terminou de fechar a bolsa de mão, observando que nada faltava.

—Olha essa bota aqui! – Avistou o mais velho entrar pelo quarto, quase afundando o calçado em seus olhos.

Allen sorriu torto e irritado, agradecendo cinicamente.

—Você ligou para seu tio?

—Claro que não, pai, eu não tive tempo nem para respirar! – Correu ao banheiro e quando voltou, o outro já tinha o telefone ao ouvido. – Pai, já falei que não precisa! O Kanda disse que vai me levar!

O descontentamento foi sonoro e logo o moreno passava o celular para o filho, que não teve outra opção quando ouviu uma voz do outro lado. Mana saiu do quarto num gesto de boa noite.

—Boa noite, tio. – Atendeu com claro desânimo, surpreendendo-se com uma voz não bêbada do outro lado.

—Alô? Quem fala?

Automaticamente, retirou o celular da orelha, checando o visor e vendo que não, o pai não havia ligado para o número errado.

Alô? Você quer falar com quem?

—Quem está falando? – Sentia que a voz era conhecida, mas não estava se recordando bem.

—Aqui é Neah.

Oh.

O garoto se deteve por um instante e sentou-se em uma pequena parte vazia da cama.

—Ah, oi! Tudo bem, Neah? Aqui é o Allen.

—Oi! Allen, quanto tempo! Desculpa, não tinha reconhecido sua voz! — Ele deu a típica risada debochada.

—Não tem problema! Como vai? – Questionou, por pura questão de educação e curiosidade.

Aliás, o tempo excessivo que passava com Kanda Yuu, fazia Allen se sentir meio cretino, já que começava a aceitar a ideia de que nem tudo é questão de cavalheirismo e, sim, Allen também podia explodir como uma pessoa normal.

Não que Kanda fosse normal, mas...

Eu vou bem, e você?— Aparentemente o assunto “Noah´s Ark” seria ignorado, mas não era como se o albino estivesse com tempo e paciência para isso.

O sono pesava tanto que era capaz de jogar tudo para o alto e esperar as roupas se arrumarem na mala sozinhas.

—Eu sigo atarefado, tenho uma viagem amanhã.

Ah, que ótimo! Aproveite bem as férias! Seu aniversário também está chegando, certo? Eu lembro que é perto do Natal, por causa das festas do Conde...

—Sim, é no Natal... Pretendo aproveitar, sim, obrigado! Eu queria falar exatamente sobre isso com o Cross, ele está por aí? – Foi logo cortando a conversa que, obviamente, apenas mantinha convenções sociais.

—O Cross está dormindo. Passou o dia bebendo e dormiu há não muito tempo...

Sem pensar muito, Allen duvidou que o cansaço do ruivo era só devido ao álcool. Mas logo que deu-se conta dos pensamentos impuros que teve, corou e ficou sem jeito.

—A-ah, sim...

Você quer que eu dê recado quando ele acordar? Se for urgente, eu também posso chutá-lo até ele acordar...

Neah, sempre um exemplo de delicadeza e prestatividade.

—Ah, não, não precisa... – Riu baixinho, pensando em que tipo de relação seu tio estava.

Claro que não se preocupava nem um pouco com Marian, mas...

—Tem certeza?

—Tenho sim, não se preocupe! – Levantou-se da cama. – Vou desligar, tenho que fazer minhas malas...

OK! Boa viagem! Aviso o Cross que você ligou.

— Oh, Thanks... Boa noite, Neah!

Night!

Logo a ligação foi desfeita e Allen apressou-se pegando roupas com cores que lhe agradavam mais e separando para dobrá-las. Mesmo que com as pálpebras pesadas, forçou-se a terminar toda a arrumação, ficando acordado até depois da meia noite.

Minutos após deitar, o albino já dormia. E, em um tempo que pareceu segundos, estava acordando com bolsões roxos abaixo dos olhos.

Desvantagens de brancura excessiva: qualquer marca parecia um espancamento.

Arrastou-se para fora da cama, seguindo para o banheiro e fazendo todas as suas necessidades em menos de quinze minutos. No modo automático, desceu para a cozinha, onde Mana já tomava o café.

Allen estava atrasado, mas o cansaço não lhe dava espaço para preocupar-se com horário.

—Seu tio atendeu ontem? – O Walker mais velho perguntou enquanto abaixava o jornal e tomava seu chá.

—Ele não pode me levar... Bom dia... – Resmungou, sentando na mesa e abaixando a cabeça entre os braços. Poderia muito bem dormir na mesa.

—Bom dia, filho. – Mana levantou-se e serviu chá e frutas para seu filho. Aquela seria a última vez que o veria, até que ele retornasse da Inglaterra dentro de dez dias. – Não dormiu bem? – Afundou seus dedos na cabeleira branca do menor, fazendo carícias.

—Estou ansioso, parece que nem preguei os olhos... – O garoto murmurou, erguendo a cabeça e provando do líquido adocicado. Sorriu.

—As malas estão prontas?

—Sim, vou checar tudo mais uma vez quando voltar da escola.

O pai suspirou.

—Desculpe não poder te levar. – Sentia-se culpado por deixar seu filho ir sozinho ao aeroporto.

—Está tudo bem, pai. Já disse que o Kanda vai me levar. – Fechou os olhos devagarinho, ouvindo um estalar de língua.

—Até nisso ele está me substituindo... – Grunhiu e o menor riu baixinho.

Mana vinha implicando com Kanda sempre que podia, já que Allen passava cada vez mais tempo em companhia do outro.

E realmente, enquanto o pai ficava cada vez mais atarefado, o moreno parecia disponibilizar tempo ilimitado ao seu menino.

—Pai, não tem nada disso... Isso é normal já que somos amigos...

Amigos. Uma palavra que Allen não imaginava que usaria para descrever o moreno.

A questão é que os últimos dias foram recheados de situações onde Kanda se mostrava uma pessoa melhor do que aparentava.

O albino descobriu ser possível manter uma conversa banal com ele e inclusive arrancou algumas risadas do rosto impassível do Mestre. Sentia uma harmonia gostosa entre ele e o japonês e aquilo também parecia contribuir consideravelmente para o humor enfezado que Yuu tinha.

Podia-se dizer que Allen já tinha liberdade para fazer piadinhas retardadas e brincadeiras toscas com Kanda e, por incrível que parece, algumas vezes ele sorria e o menor descobria-se deslumbrado pelo seu jeito sutil e verdadeiro de subir os lábios.

Em outras situações, pegou a si mesmo observando descaradamente o rosto do moreno enquanto ele dormia em uma aula de relações internacionais.

Viu-se traçando padrões imaginários nas bochechas lisas e sorrindo com o tamanho dos cílios dele.

De pertinho, Kanda Yuu parecia inofensivo.

E, bem, nos últimos dias, Allen realmente não percebeu quando se aproximou dele ao ponto de poder chamá-lo de amigo.

-Preciso ir, tenho que chegar mais cedo na delegacia. – Mana avisou e Allen virou logo a xícara, levantando-se quando seu pai se aproximou.

—Tome cuidado na viagem, certo? – Recebeu uma confirmação. – Me ligue assim que chegar lá. Ande sempre com um guarda-chuva, você conhece bem o clima de Londres. Se precisar de dinheiro me avise e... – Ele pausou, ainda segurando os ombros do filho. – Se divirta, mande um oi para sua mãe.

—´kay, daddy... – Esfregou a bochecha contra os braços do pai e sorriu pequeno.

—Tudo bem, vou sentir saudades. – Mana beijou sua testa e puxou-o para um abraço apertado, Allen aproveitando para gravar a fragrância de seu amado pai.

—Também vou.

Após alguns minutos de contemplação, Mana saiu da cozinha com o pensamento de que, sim, seu filho estava crescendo e só agora estava percebendo.

Saíram quase na mesma hora, uma sensação de separação cutucando o coração de ambos. Cada um seguiu um caminho diferente e oposto, porém tinham a certeza de que logo iriam estar juntos novamente, afinal, eram apenas férias.

Típico do inverno, as árvores não possuíam folhas e um clima cinzento cobria a França. Longe do que se esperava, porém, a cidade continuava movimentada e o garoto nem percebeu quando chegou à escola, tão perdido estava em seus próprios pensamentos.

Entrar no Kugeka virara rotina, e uma rotina bem vinda. Começava a se sentir aceito naquele lugar, não mais como um Honey qualquer, mas como uma pessoa. A Classe Especial também parecia ter se acostumado à ideia de que Kanda estava entrando na linha. Claro que, vez ou outra, Allen via-se o centro de olhares tortos, mas logo passava, afinal não tinha que dar satisfação a ninguém.

As escadas do grande prédio já não pareciam tão altas e tortuosas, e as brancas paredes tornaram-se um ponto de calmaria.

Talvez sentir-se em casa era a sensação adequada.

Não demorou muito a adentrar na sala com um sorriso no rosto, que servia também para disfarçar a ansiedade para a viagem dali a algumas horas.

—Bom diaa! – Lena veio abraçá-lo com extremo bom humor. Quer dizer, férias faziam bem à todos.

—Hey, Lena, bom dia! – Allen respondeu pondo a mochila no banco e avistou a de Kanda ali. – Kanda foi comer?

—Foi, ele chegou não tem muito tempo. – Alma saiu de seu lugar e veio se sentar no banco de Lavi. – Bom dia! – Sorriu, ao que Allen retribuiu com um hi five.

Ambos, o Walker e o Karma, vinham se dando maravilhosamente bem. Já combinavam encontros para antes das férias acabarem e dividiam doces e sorrisos como melhores amigos. Allen gostava disso, afinal em toda sua vida só havia Lenalee. Além de Tiky, o albino não tinha um melhor amigo, no masculino.

Ele e Alma tinham muitas coisas em comuns e mesmo quando acabava o assunto, concentravam-se em falar sobre Kanda e rir da cara dele enquanto dormia na sala.

Aliás, Kanda dormir na sala vinha virando rotina. E Allen sempre reclamava disso. Vez ou outra, o japonês aparecia com olheiras e todos sabiam que ele perdera horas de sono com assuntos da Lune. Por vezes, o albino brigou com o Mestre, e inclusive ameaçou ligar para o irresponsável do pai que deixa o filho tomar conta de assuntos que assessores deveriam estar cuidando.

Falando nele, lá vinha entrando na sala com uma bandeja em mãos. Todos concordavam que ver Kanda trazendo sua própria comida era, no mínimo, estranho, para não dizer surreal.

Mas é o que é.

Allen sorriu, sibilando um bom dia mudo e recebendo apenas um aceno cansado com a cabeça.

E o relacionamento que o Walker tinha com o Mestre continuava sofrendo mudanças palpáveis.

Em surpreendentes cincos dias, a sintonia entre os dois aumentou espantosamente. Agora, apenas com um olhar, ambos sabiam o que se passava na cabeça do outro.

Claro que essa aproximação não passou despercebida aos olhos de Lavi, que sempre fazia comentários indecentes que deixam Allen vermelho e puto da vida. Já Alma permanecia mil sorrisos e Lena, apesar da cara de anjo, soltava alfinetadas do quanto Kanda era bonito.

Mas, bem, não era como se o passado fosse voltar e eles começassem a se beijar assim! E outra, Kanda havia mudado e não demonstrava nenhuma intenção carnal em si.

O que era maravilhoso, certo?! Sim... Maravilhoso...

Bem...

Não. Acontecia que Allen agora poderia dizer que, sim, confiava em Kanda. Ele se mostrava prestativo em muitas ocasiões e, mesmo que desconfiasse de algo, nunca pedia nada em troca, nem mesmo um agradecimento.

No dia que rompera com Tiky, o moreno apenas lhe pagou sorvete e ficaram ambos sentados, sob a brisa noturna, calados. Parecia que Kanda sabia que o melhor naquele momento era deixar Allen absorver a situação e,bem, ele acertou na decisão.

Kanda também vinha acertando em trazer dangos para Allen quando pegava seu café da manhã. E naquela manhã não fora diferente.

Os olhos prateados seguiram o mais velho com ansiedade, dando-lhe espaço para se sentar.

—Dormiu bem? – Perguntou, já se ajoelhando no banco e pegando o espetinho com dangos que lhe era oferecido. Sorriu infantilmente. – Yey, obrigado!

—Se você considerar duas horas e meia como uma boa noite de sono... – Respondeu e o japonês falando uma frase extensa já não era novidade.

Allen forçava-o a falar com seu jeito e suas perguntas. Mas também sabia que, às vezes, era bom deixá-lo sozinho, refletindo.

—Kanda-kun, você deveria dar uma pausa! – Lena preocupou-se com as olheiras fundas que marcavam a face leitosa do outro.

Foi respondida com um simples estalar de língua, já que apenas se via na obrigação de responder Allen. Quer dizer, se não o fizesse, sabia que ia ser infernizado até que o outro arrancasse palavras de sua boca.

—Não seja mal agradecido! – Allen murmurou sentado na mesa, os pés no banco. Tinha as bochechas cheias de doce e inutilmente tentava fazer uma carranca de repressão.

—E você não fale de boca aberta, Moyashi. – Desviou o olhar, sabendo que mais um segundo olhando-o, renderia em uma bochecha albina sendo mordida com força.

Allen emburrou-se, cruzando as pernas inconscientemente.

Os dois fixaram a atenção em seus respectivos alimentos, ignorando os olhares dos amigos e logo a aula passou mais rápido do que se esperava, levando consigo o último teste do semestre. Passaram o recreio na sala, conversando sobre os planos para as férias e logo viam-se na saída.

Quando Allen contou sobre sua estadia na Inglaterra, surpreendeu-se ao descobrir que Kanda viajaria no mesmo dia para a Rússia e ficaria por dois ou três dias a mais fora do que ele. Lenalee iria para o interior e Alma aparentemente viajaria para os EUA, mas nada confirmado. Só Lavi mesmo que passaria as férias na cidade, e, presuma-se, com muitas festas e bebedeira.

Aquilo era algo que Allen não gostava, afinal, Lena aparentemente mostrava interesse no ruivo. E aquele assunto era um assunto que definitivamente não gostava de entrar.

—Eu ainda acho que a Lena-chan devia me levar para a casa dos avós dela! – Lavi vinha pendurado no ombro de Alma, enquanto carregava a bolsa da garota, que só sabia mexer com os próprios dedos.

O albino revirou os olhos e bufou.

—Podia mesmo. O Komui surtaria e mataria você logo de uma vez. Problema resolvido.

Alma riu daquilo e Lena tentou repreender o amigo. Kanda só ouvia.

—Eu não entendo essa sua rixa comigo, Allen-chan! Eu te adoro tanto! – Ele veio para o lado do albino cantarolando, mas logo se afastou ao ver a mão albina erguida em um sinal de “não se aproxime mais”.

Claro que o olhar que Kanda lançou para o outro Mestre não teve nada a ver com o recuo.

—É só olhar no espelho e você entende, peste. – O moreno murmurou, destravando o carro e colocando a mochila no bolso de trás. Allen repetiu, enquanto dava língua para o falso drama que o outro fez.

—Ouch!! Vocês dois se merecem!! Agora entendi porque o Allen-chan ficou tão demoniozinho! É convivência com o Kanda. – Zombou, enquanto seu motorista vinha abrir a porta para que ele e Lena entrassem.

Alma já passava com seu carro, acenando do banco traseiro e sumindo pela rua.

—Se catar, Lavi!! – Allen gritou antes de entrar no carro.

—Até, Allen-chan! – Lena acenou e todos entraram em seus carros. Haviam combinado de se encontrar no aeroporto, já que o voo do albino sairia em menos de uma hora e meia.

Assim que fechou a porta, ouviu a voz grave falar e virou-se a tempo de vê-lo apertar o botão de ligar o carro.

—Sua mala já está pronta?

—Sim, é só pegar. – Respondeu, colocando o cinto.

— Que horas é seu voo mesmo? – Kanda sabia até os segundos restantes que tinham, mas queria apenas confirmar.

—Cinco e quinze.

—OK, podemos almoçar no aeroporto. – O carro já estava em movimento e tudo passava numa correria que Allen sentia-se incapaz de conseguir acompanhar.

—Ah, não, não precisa, Kanda, minha mãe com certeza deve ter me preparado algo.

Os olhos negros desgrudaram da avenida e as sobrancelhas foram erguidas para o albino.

—Você não quer almoçar comigo? É nosso último almoço, Moyashi.

O Walker sentiu-se congelar no banco. Um sentimento ruim e amargo preencheu sua boca e de repente sentiu seu peito apertar.

Kanda falando assim era como se um deles fosse morrer.

E, caramba, aquele era um pensamento horrível.

—Não, Kanda, Jesus Cristo! Falando assim parece que nunca mais vamos nos ver! – Passou as mãos nos braços, como se querendo tirar o arrepio ruim que lhe subiu a espinha.

—Não foi isso que eu quis dizer.

—Sim, mas soou horrível. Não fale assim, vão ser poucos dias e logo almoçaremos juntos de novo.

Nenhum dos dois dava-se conta da intimidade que exalava daquela conversa.

Nenhum dos dois se quer cogitava mudar aquele ar.

—Isso quer dizer que você não quer almoçar?

—Acho desnecessário.

—Você, Moyashi? Achando desnecessário comer? – Sorriu de canto, querendo tirar de sua mente a ideia que o Honey havia implantado: se separarem para sempre.

Fazia tempo que o moreno tivera uma conversa tão leve com alguém como tinha com o albino. E desde que soube que estariam longe por alguns dias, uma sensação incômoda vinha tomando seu corpo.

—Você não perde a oportunidade, né? – Recebeu uma língua e fez uma nota mental que dar a língua havia se tornado normal para o Honey.

E, incrivelmente, achou aquilo interessante ao ponto de deixar um sorriso bufado escapar de seus lábios, enquanto voltava a prestar atenção no caminho e segurava o volante com apenas uma mão.

Allen relaxou quando viu os lábios delineados e não pôde evitar sorrir um pouco, não notando que, por alguns segundos, se perdera na imagem do Mestre dirigindo concentrado, com a cabeça apoiada na mão esquerda, cujo braço pressionada o vidro do carro.

Logo virou-se para a janela, observando as pessoas muito bem agasalhadas andando pela rua e tentou se lembrar de como era Londres.

Quando viu, já deixava as palavras saírem por sua boca.

—Eu não sei o que vou sentir quando vê-la... sabe? – Perguntou retoricamente, remexendo-se no banco quando soube que Yuu virou a cabeça para si, como uma confirmação, e voltou a dirigir quando o sinal abriu. – Não sei, acho que me acostumei só com meu pai e agora vocês. Eu sinto saudades e não sinto ao mesmo tempo... Isso é errado? – Virou-se para o moreno, que apenas lhe deu os ombros. Allen bufou, decidido a desabafar enquanto voltava a fitar através da janela.

—Minha mãe casou de novo e da última vez que eu falei com ela, ela me disse estar grávida. Eu fiquei feliz por ela, mas meio que acho que vou me sentir um intruso lá... Tipo, ela já tem uma família e eu tenho meu pai e você e Lena e... – Parou de falar, nem se dando conta do olhar um pouco arregalado do Mestre. – Estou com medo... Acho que não vou saber reagir... O que você acha?

Kanda saiu de seu transe assim que os olhos perolados lhe encararam e ele voltou a se concentrar na direção, ainda atordoado com o fato de que Allen o considerava família.

Em seguida e antes do mais velho responder, o carro virou numa rua, a qual Allen reconheceu ser a sua. O Honey tirou o cinto e não falou mais nada, como se já não esperasse uma resposta, ou como se já tivesse achado uma resposta, ou talvez ao menos suprimido a dúvida.

—Já venho. – Anunciou, enquanto saia do carro com rapidez e subia os degraus da entrada em um pulo.

Yuu observou aquela criatura trancar-se dentro do imóvel e desligou o carro enquanto encostava a testa no volante. Respirou fundo enquanto fechava os olhos e acabou sentindo o perfume doce de Allen misturado ao cheiro de estofado.

Ficar próximo dele vinha melhorando seus dias. Acabava deixando todo o trabalho para a noite somente para que suas tardes fossem livres.

Nem viu quando, mas de repente o Honey já tinha posse de sua casa. Já parecia parte do ambiente.

As cozinheiras viviam comentando pelos cantos sobre o “doce garoto” e o jardineiro parecia cuidar melhor das flores sempre que Allen as elogiava.

As tardes na mansão Kanda estavam acostumadas à presença da criatura branca e toda vez que ele ia-se, tudo parecia morto.

Pensar por esse lado fazia o moreno sentir-se retardado e não demorou muito para que ele erguesse a cabeça, irritado consigo mesmo.

Ao mesmo tempo que queria se aproximar do menor, sentia medo. Uma parte irracional o impulsionava a prender o garoto a si e a outra gritava desesperada que, qualquer movimento, assustaria sua ...

Sua o quê?

“Presa”, foi o que mostrou para Alphonse. Mas Kanda já deixava de considerá-lo uma caça, ou um troféu, ou uma vingancinha besta de alguém que não sabe conviver e nem manter pessoas perto.

O forte que havia construído por todos aqueles anos estava no chão, como areia de praia. E o albino se levantava por sobre aquele monte de grãos, engrandecia-se azul, brilhante, deixava suas ondas bater contra a areia.

O que é a praia sem o mar?

Talvez Kanda que fora laçado e apenas agora dava-se conta.

Estava totalmente aos pés de Allen Walker.

Levou um susto quando dois soquinhos no vidro lhe despertaram. O Honey estava do lado de fora, já arrumado e com uma mala na porta de casa.

—Pode me ajudar?? – Ele gritou do lado de fora e Kanda abriu o porta mala, saindo do carro.

Ainda aéreo, o moreno subiu os poucos degraus e levou a mala até a traseira do carro. Allen riu.

—Você está tão bonzinho, Kanda, nem parece você! – Comentou divertido, o que fez o japonês revirar os olhos.

—Não se acostume, Moyashi. – Rosnou, pois não gostava nada de ceder àquele albino, mesmo que estivesse começando a admitir que já havia cedido há tempo.

—Não faça pose! Você é meu motorista agora! – O menor gargalhou quando o Mestre fechou o porta malas com força. Logo se desencostou da lateral do carro e deu a volta, buscando ir até a porta do passageiro, porém antes que se quer cogitasse olhar para os dois lados da rua, sentiu seu braço ser agarrado. O aperto foi tão desesperado que Allen voltou dois passos desajeitado e arregalou os olhos quando foi virado bruscamente e se viu encarando o azul escuro de Kanda.

Demorou alguns segundos para a mente albina voltar ao ar e parar de emitir o alerta “você ia morrendo atropelado!!”.

—Opa... – Sussurrou, a garganta ficando seca de repente quando percebeu que não, não era um carro, nem nada do tipo.

O mais velho segurava em seus bíceps e mantinha o olhar pesado vagando entre os olhos e a boca do Honey. Claro que o Walker reparou e acabou passando a língua entre os lábios em nervosismo.

Quando o moreno pausou os olhos na carne de sua boca, Allen sentiu seu rosto ficar quente e abaixou-o com vergonha.

—K-Kanda... vamos nos atrasar... – Sussurrou mais uma vez, as pernas um pouco bambas, sem saber como reagir àquela investida.

Fazia tempo que Kanda não investia.

Foi sendo solto aos poucos e o primeiro a se mover e entrar no carro foi Yuu. Allen o fez alguns segundos depois e ninguém ousou falar nada naquele silêncio pesado.

Ambos estavam quase morrendo sufocados com a atmosfera presente no veículo quando chegaram ao aeroporto.

O trajeto inteiro o albino manteve o rosto virado para a janela, a cabeça em chamas enquanto mordia o canto do lábio inferior e agora andavam lado a lado, ainda calados, até o local de Check-in.

Não foi preciso muito para avistarem a cabeleira chamativa de Lavi e logo todos estavam reunidos. O Walker se livrou do clima enquanto ficava na fila e despachava sua bagagem, perdido em pensamentos. Chegava a bater a perna em nervosismo.

Depois andaram os cinco até a parte de embarque do aeroporto e, enquanto todos comentavam sobre o quão libertador as férias eram, duas cores opostas mantinham-se caladas.

Silenciosamente Alma trocou olhares com Lenalee e a garota, sem pensar muito, soltou um “Allen, lembra que você tem dores de ouvido no avião?? Vem, vamos comprar chiclete para evitar!!”.

E ali estavam.

—Olha não adianta mentir para mim, pode contar o que aconteceu! – Lena andava atrás do amigo, que tentava ao máximo fugir daquele interrogatório.

—Lenalee Lee, já falei que não aconteceu nada. Só estou nervoso com a viagem. – Ele disse pela terceira vez, entrando em um corredor avulso que só tinha perfumes caros que nenhum deles compraria.

—Allen-kun, a minha identidade insiste em dizer que eu não nasci ontem! Pode parar de me esconder as coisas? E por que estamos nesse corredor?? – Ela se irritou e tomou a dianteira do amigo, parando ali com ambas mãos na cintura.

O albino bufou.

—Eu achei que vínhamos comprar chicletes!

—E vamos! Depois que você me contar porque você e o Kanda-kun estão tão estranhos. – Allen chegou a abrir a boca, mas um dedo indicador se ergueu no ar e a amiga franziu as sobrancelhas. – Se você mentir ou omitir mais uma vez, a gente corta a amizade.

Silêncio.

Duas sobrancelhas claras se ergueram em descrença.

—Jesus, eu não acredito. – O Walker exclamou, passando a mão pelos cabelos e depois secando a palma em sua calça.

Estava vestido com uma calça de tecido justo preta, um tênis cinza, e uma camisa social clara um pouco larga, com as mangas compridas dobradas até os cotovelos.

—Anda, Allen-kun! – Lena bateu o pé e o outro revirou os olhos, desistindo e deixando os ombros caírem.

—Okay, Lenalee, okay! Mas como eu disse, não aconteceu nada! – Gesticulou com as mãos enquanto a menina parecia não acreditar. – Ele só...

—Ele... – Incentivou.

—Ele só... – Allen apertou os olhos como se buscasse as palavras certas. – Acho que ele ia me beijar, mas depois desistiu e então estamos nessa. Só. – Cuspiu tudo e a morena teve que forçar o cérebro para entender de primeira.

Allen não esperou e seguiu para o corredor de comida, enchendo a cestinha que tinha no antebraço com coisas que talvez pudessem canalizar sua ansiedade.

—O quê? Como assim ia beijar e não beijou? – Ela correu até o lado do albino.

—Então... – Allen fixou o olhar nos doces e chocolates da prateleira como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. – Digamos que ele pareceu querer me beijar, mas depois me soltou e pronto.

—Como assim “pareceu querer”? Seja mais claro, pelo amor de Deus! – A garota parecia a ponto de surtar.

—Ah, Lenalee. – O albino reclamou, pegando dois chocolates, uma cartela de chicletes e um pacotinho de cookies. – Sabe quando a pessoa te encara e meio que vocês ficam naquela coisa?

A Lee fez uma cara confusa, mas pareceu raciocinar enquanto andavam para a fila.

— Sim, mas e você?

—Eu o quê? – Os olhos prateados se arregalaram, ficando maiores do que já eram.

—Se você queria, lerdeza! – Ela falou com tom óbvio e assistiu satisfeita o rosto branco tingir colorações quentes.

—E-eu?? Ma- Lenalee, você é louca??

—Só fiz uma pergunta! – Ela ergueu as mãos em falsa inocência, mantendo um sorrisinho sacana no rosto. Allen ficou ainda mais sem graça.

—E-eu não sei, que-quer dizer, óbvio que não, pff... – Despejou toda a comida no balcão se atrapalhando para pegar a carteira.

—Aham... – Ela ironizou e decidiu não queimar os neurônios do garoto enquanto ele passava o cartão.

Assim que saíram da loja, Lena retomou.

—Qual o problema em beijá-lo? – Perguntou em um tom infantil.

—Meu Deus! Como assim você me pergunta isso? É óbvio o problema! – Allen andava com passos rápidos.

—Mas você já se beijaram antes!! Allen-kun, não corre assim, vão achar que estamos assaltando algum lugar.

—Se eu for preso, a culpa é sua! E nós nos beijamos em outras circunstâncias que não vem ao caso! – Foi logo se defendendo.

—E em novas circunstâncias isso não poderia acontecer?

Touché.

Allen até abriu a boca para retrucar, mas nada saiu. De certo, os mesmo argumentos que usara para rejeitar Kanda no passado não cabiam mais ao presente.

—E-eu... – Até tentou e, ao ver o estado caótico que deixou o amigo, Lena se sensibilizou e parou-o no meio do corredor para abraçá-lo.

—Você tem todos os motivos para estar retraído, Allen-kun... Mas já não tem nada que te prenda, certo? Tiky... Bem, você sabe... E o Kanda-kun parece ter melhorado, não? Quer dizer, acho que ele não te beijou por respeito...

O garoto mordia o lábio inferior e ouvia as palavras sem saber o que fazer com elas.

Lena acabou se perdendo ao notar a ânsia por resposta que seu amigo demonstrava.

—B-bom...Eu s-só queria saber se estava tudo bem e... Okay...

Ficaram calados e ambos decidiram voltar a andar rapidamente, como se fugindo da verdade.

—Nossa, Honey-chan!! Para que tudo isso?? – Lavi brincou quando os dois amigos chegaram ao portão de embarque, mas foi totalmente ignorado.

—Você fica nervoso em aviões, Allen? – Alma perguntou, notando que o albino mantinha a cabeça baixa e Kanda parecia achar o teto muito interessante.

—Sim! – E acabou rindo com nervosismo. – Eu sempre penso que quando um deles cai, quase ninguém sobrevive...

—Moyashi, a probabilidade de um avião cair-

—Eu sei, Bakanda, é baixa, mas você pode me deixar sofrer por isso? – Opa. Foi no impulso e assim que deu-se conta do que tinha falado, Allen voltou a corar a manteve a cabeça baixa. Kanda apenas bufou resignado, passando uma mão no pescoço, que estava exposto devido ao coque em que os fios negros estavam presos.

Alma assistiu aquilo sem saber o que fazer, mas, novamente, uma troca de olhares com a morena, o fez cúmplice do que viria a acontecer.

—Ahn... – Começou, ainda tentando decifrar o olhar da morena, mas logo voltou-se para Allen. – Allen, que horas sai seu voo?

O albino deixou de mexer desnecessariamente em sua bolsa e deu atenção ao amigo, olhando no visor do celular.

—Acho que já vou entrar, disseram que era meia hora antes.

—Ahh, sim, então você se importa se eu já for indo? Eu preciso resolver algumas pendências para... Ahn... – Allen enrugou os olhos. – A vi-viagem para os... Estados Unidos! Isso! Então eu vou indo, certo?? – Alma foi logo abraçando o albino, desejando boa viagem e falando atropeladamente, como que para impedir o outro de retrucar.

—Eu vou com o Alma, Allen-kun!! – Lena ergueu o braço com agitação e logo veio lhe abraçar e despedir-se da mesma forma.

Àquele ponto, Allen já sacara tudo e quis simplesmente jogar Lenalee da escada rolante que tinha ali perto.

—Okay, okay, então a gente já vai indo, okay? – Alma disparou a andar, Allen sentindo seu sangue borbulhar e Kanda ignorando tudo.

—O quê?? Eu não to entendendo nada!! – Lavi se desesperou e não sabia a quem seguir.

—Vem, Lavi!! – Lena gritou já um pouco distante, como se o repreendesse e logo o trio de traidores desaparecia com rapidez enquanto cochichavam.

Oh, Allen estava enfurecido!!

Enfurecido!!!

—Eu não acredito!! – Bateu com as mãos na coxa, chamando a atenção de Kanda, que permanecia avulso a tudo.

— O que? Esqueceu alguma coisa? – Yuu pareceu preocupado de repente, e aquilo quase fez o Honey rir, mas a ideia de que Lenalee estava... Lenalee... Arghh!!!

—Não, não, não é nada. – Bufou, pegando sua bolsa de ombro, onde havia um livro, fones e suas comidinhas.

—Já está na hora? – A voz grossa soou e os olhos do mais velho procuraram pelo relógio mais próximo. Antes que um deles pronunciasse algo, uma voz feminina soou pelo aeroporto, chamando os passageiros para o voo em direção à Londres.

Allen sorriu fraquinho.

—Sim, acho que sim... – Mordeu o lábio inferior, enquanto subia os ombros e mantinha um sorriso sem graça no rosto. – Então... É...

Kanda apenas observava tudo muito atento, vagando os olhos negros pelo corpo albino. E aquela mania não facilitava as coisas.

—Então tchau... – O menor aproximou-se receoso, e não soube com que coragem, mas pôs-se nas pontinhas dos pés e lançou seus braços para cima, enquanto prendia a respiração e sentia seu coração falhar uma batida.

Era um abraço, por mais desajeitado que fosse. Yuu era alto demais e não ajudava muito o albino ter o celular em mãos e a bolsa pesando no ombro.

Ainda assim, Allen abriu a boca num ofego silencioso quando sentiu os braços fortes enrolarem sua cintura e costas depois de uns segundos sem retribuir o contato. Ouve uma pressão gostosa e o menor sentiu que se ele apertasse mais um pouquinho, o esmagaria.

De repente, veio-lhe a ideia de que Kanda pudesse estar malhando ou algo do tipo porque...

—Boa viagem, Moyashi. – Opa, o que Allen estava pensando mesmo? O tom baixo e rouco usado, juntamente com o carinho presente nos braços daquele homem, foi o suficiente para deixar a mentezinha albina em branco.

O Walker nem se quer respondeu, apenas assentiu com a cabeça, enquanto sentia seu coração martelar abafado contra o peito.

—Não se perca e cuidado para não comer até explodir. – Ele continuou, fazendo o Honey experimentar o frio na barriga de quem pula de paraquedas. – Me ligue quando chegar lá. Tchau.

E aos pouquinhos, o contato foi sendo desfeito e o menor queria dar pulinhos para espantar a tremedeira nas pernas.

—Okay. – A euforia fê-lo responder rápido demais e evitar olhar por mais de dois segundos para o outro. – Tchau. – Sorriu bem esquisito e deu as costas, enquanto Kanda enfiava as mãos no bolso.

Allen andava meio torto, sem pensar muito, o coração parecia pulsar na cabeça e não soube explicar quando suas pernas simplesmente se recusaram a andar.

A andar para frente, no caso. A meia volta foi feita na velocidade da luz, e não soube qual caminho fazia, já que muitas pessoas vinham em sua direção. Porém, o fato é que quando notou estava de frente para Yuu.

E mais rápido ainda, tocou os lábios numa rapidez tão grande que seria cômico se ver de fora. Pareceu um beijo de criança, daquele que é tão leve que se questiona a existência.

E aquilo fora tão louco!!!

Allen poderia gargalhar de euforia, e Kanda assistiu fascinado o sorriso gigante infantilizar o rosto de seu Honey, e quase foi capaz de rir daquela alegria fofa e contagiante, porém assim que viu o ser branco voltar a se enfiar no meio da multidão, um pânico tomou conta de si.

Não podia perdê-lo agora!! Era um medo irracional, mas não podia!! Tira esperado tempo demais e vê-lo indo embora, mesmo que por pouco tempo, era de uma dor imensa.

Como se houvesse uma lei de atração fundamental entre seus corpos, Yuu foi capaz de, dentro todos os pulsos naquele aeroporto, achar justamente o pulso que queria. E logo era como se estivessem em uma bolha só deles.

—Ei, ei, não fuja, Moyashi!

—Kanda, eu preciso ir! – Gritou e riu ao mesmo tempo. Ele parecia louco! Mas era tão bom... – Você vai me fazer perder o voo... – Ele sussurrou e Kanda novamente foi pego de surpresa, sem saber o que esperar daquela criatura. Mas dessa vez, ao menos teve tempo de retribuir o segundo selo.

Allen grudou os lábios ali, ainda mantendo um sorrisinho no rosto, e ele parecia não se importar – pelo menos não agora – com toda a plateia do aeroporto. E Kanda já até imaginava a matéria nas revistas, afinal, era o herdeiro da Lune ali.

No entanto, logo também deixou de pensar e apenas concentrou-se em sentir as mãos dele, macias e geladas, não muito pequenas, ao redor de seu rosto. Os dedos envolviam as orelhas e roçavam um pouco na nuca, onde começava os fios.

Não houve aprofundamento, apenas vários selinhos umedecendo ambos lábios, como se, diferente do outro beijo, quisessem reconhecer a presença um do outro.

Naquele momento, Kanda, que desde cedo pensava seriamente em não comparecer àquela despedida por motivos óbvios, não arrependia-se nem um pouco de estar ali.

Também Allen parecia agradecer sua presença.

O ósculo foi rompido com a voz da moça que novamente avisava o embarque para Londres. No entanto, por alguns segundos, mantiveram as testas juntas.

Yuu se concentrava em absorver o cheiro do shampoo do pequeno e aproveitar o toque do garoto que, pela primeira vez durante um beijo, não lhe afastava. Já Allen... Bem, sua cabeça já havia queimado todos seus neurônios há algum tempo então...

A única besteira que se passava na mente albina era que deveria haver vários Allenzinhos correndo para lá e para cá, bagunçando hormônios e queimando algumas funções, pois naquele momento sentia um choque de sentimentos, algo inexplicável.

Não podia dizer com toda certeza que aquilo era bom, mas estava longe de ser ruim. A única certeza é que não estava em seu normal, mas... Fazer o quê.

A última vez que fora beijado pelo maior fazia tempo e fora uma sensação completamente diferente ter os lábios dele por pura luxúria e não por imposição. Sentir-se no comando fê-lo sorrir ainda mais entre o "beijo".

Kanda estava em suas mãos e aquilo era uma delícia!

Devagar, descolou os lábios, mas manteve as mãos no rosto do moreno. Tinha razão. Como sempre pensou, o beijo de Kanda era diferente. Não sabia explicar. Mesmo agora, o selo trazia uma sensação desconhecida, que misturava euforia, ansiedade, medo e poder. Assim como nos primeiros contatos. Entretanto, agora, além da possessão, havia um certo companheirismo, que Allen não sabia se era retribuído ou não. Mas não deixou de sorrir. Conservou os rostos próximos e esfregou os dedos nas bochechas, tendo os olhos azuis fixados em sua pessoa. Em sua cabeça, os olhos de Kanda mudavam de acordo com os sentimentos dele. No início de tudo, eram profundas e assustadoras bolas negras. No entanto, naquele momento, Allen só captou uma limpidez que nunca havia visto. Ele parecia curioso e surpreso. E era bonito. Corou sem saber, abaixando o rosto. Lenalle estava certa. Ele não era a mesma pessoa.

—Vai me deixar ir embora agora? – Perguntou abrindo os olhos e sorrindo ao notar admiração no rosto do mais velho.

—Acho melhor não perguntar, Moyashi... – Ele sussurrou e as testas foram desgrudadas. Allen riu.

—Avise quando estiver no avião e quando chegar à Rússia.

—Já com possessividade? – Kanda riu de canto, colocando as mãos no bolso agora que estavam afastados.

—Não, ainda não temos nada, certo? Só estou devolvendo a sua exigência. – O albino deu língua enquanto piscou um olho e Yuu arqueou as sobrancelhas com a ousadia. – Ah, e eu fico com isso...

Os curiosos que observavam a cena apenas viram vários fios negros e compridos rodearem o rosto do japonês.

Allen havia roubado o elástico de cabelo de Kanda e agora atravessava todo o saguão enquanto puxava seus documentos. Em questão de segundos fora revistado e entrou na área restrita para embarque.

Chegou a olhar para trás, mas ele não estava lá. E não foi motivo para desfazer o sorriso que levava no rosto. Em seu coração, parecia bem claro que Yuu não o seguiu porque sentia uma vontade incontrolável de mantê-lo. E porque não queria ver seu Honey ir embora.

Notas finais
Prontinho, não tenho mais nada a dizer ahahaha Espero que tenham gostado, vou responder todos os comentários com carinho, prometo! Quem quiser me adicionar no Snap, fique a vontade, me manda uma mensagenzinha lá dizendo que lê! Beijos !! Snap: karolisqs