Honey

18 Aterrissagem


Notas iniciais
Boa leitura, vejo vocês lá embaixo!

-Atenção, senhores passageiros. Favor manter os cintos afivelados até que a luz de sinalização se apague. Desliguem seus celulares, iPods, notebooks e todo dispositivo com tecnologia Wireless. Dentro de cinco minutos estaremos iniciando a manobra de pouso no aeroporto Stansted em Londres, horário local 17:37. O tempo na capital inglesa encontra-se chuvoso com previsão de chuva pelo restante da noite e pancadas de neve. Nós da British Airways agradecemos a preferência e desejamos uma boa noite.

Allen empertigou-se na cadeira tirando os fones de ouvidos e viu pela janela as nuvens pesadas carregarem o ambiente.

Uma repentina ansiedade tomou sua barriga e ligeiramente teve a sensação de que poderia vomitar. Começou a dobrar o fone de ouvido e guardar o livro que trazia em mãos, cujas páginas apenas serviram como plano de fundo para seus pensamentos mais íntimos.

Após passar um certo tempo remoendo suas atitudes no aeroporto e corando com tudo que aconteceu, Allen vez ou outra desviava o olhar para o elástico em seu pulso, vendo nele um polo irradiador de calma.
Prender o cabelo com ele acabou transmitiu-lhe segurança.

Foi o tempo de guardar seus pertences na bolsa e sentiu a aeronave tombar, fazendo seu estômago flutuar. Pelas falhas entre as nuvens podia-se ver a paisagem típica de qualquer livro de história.

E realmente, de cima, a Inglaterra parecia congelada no tempo.

A predominância do cinza que tomava a cidade dava-lhe um aspecto mórbido e bonito. O mar que rodeava a ilha não parecia destoar daquele quadro e talvez até as nuvens acompanhassem o espectro de cores.

A manobra para aterrissagem começou a ser efetuada e as nuvens cúmulos se faziam um obstáculo para aquele Airbus. As luzes da cabine foram apagadas e a voz da aeromoça surgiu avisando que estavam passando por uma zona de turbulência.

O engraçado é que não parecia uma "zona de turbulência" até ela falar. O aviso sempre soava como um gatilho e segundos depois o corpo do avião começava a chacoalhar de tal forma que as asas pareciam de massinha.

Allen suspirou vindo diante do sobe e desce que era feito pelo piloto a fim de quebrar a barreira das nuvens. Chegou a apertar as mãos no encosto de braço, e dizia para si mesmo que aquele não era um sinal de que ele não deveria estar ali.

Afinal, isso acontecia com qualquer voo, certo??

“-Você não quer almoçar comigo? É nosso último almoço, Moyashi. ”

As palavras de Kanda ecoaram por sua mente e revirou os olhos em desgosto. Ainda naquela montanha-russa e com a cabeça começando a reclamar, Allen voltou-se novamente para a janela, a boca rachando um pequeno espaço por onde saiu o ar surpreso.

Já estava a poucos metros do solo e nem parecia!

A pista de aterrissagem estava logo abaixo e o albino pegou-se contando, com ansiedade, os segundos que levariam para o trem de pouco encostar o asfalto.

E quando veio, um sorriso se formou em seus lábios.

Aquela era sua parte preferida em uma viagem de avião! Seu medo era totalmente dissipado assim que sentia-se em terra firme.

No instante em que a aeronave pousou no solo, começou a frear e aquele movimento era tão forte que prensava o garoto contra o cinto.

Parecia um carro de corrida com asas!

Ao seu redor, podia-se ver outras aeronaves, trabalhadores e malas em carrinhos que iam para todos os lugares. Novamente a aeromoça se pronunciou com o pedido de todos permanecerem sentados até a parada definitiva da aeronave, mas, ironicamente, todos levantaram naquela hora a procura de suas bagagens.

Allen achou aquilo uma falta de respeito e aproveitou para continuar observando a ostentação do aeroporto.

Suas paredes eram espelhadas e ele não parecia ser tão gigantesco.Sentia nervosismo? Sim. Medo? Receio? Vergonha de sua própria mãe? Com toda certeza. Londres parecia uma completa desconhecida aos olhos prateados, mas isso não impedia uma sensação prazerosa em seu estômago. Como se houvesse amadurecido o pouco que fosse naqueles poucos 70 minutos de voo.

Uma fila foi formada no corredor e Allen levantou-se. A cabine foi despressurizada e o murmúrio de pessoas falando ao telefone e aparelhos avisando a chegada de mensagens tomou o ambiente.

Teve que ser rápido para enfiar-se na fila e, ajeitando a bolsa nos ombros, agradeceu a viagem às comissárias de bordo com um belo sorriso.

O vácuo no estômago e o cheiro diferente do aeroporto causava um sorriso bobo nos lábios do albino e o garoto percorreu toda a ponte de ligação até a plataforma de embarque sentindo-se um estrangeiro visitante.

Foi necessário seguir as placas e descer algumas escadas rolantes para achar onde pegaria suas malas e enquanto esperava a esteira bagageira, mandou uma mensagem para Mana avisando sua chegada e que mais tarde ligaria.

Avistou sua mala vindo e rapidamente digitou um "Hey, London!!" no chat que tinha com Kanda, Lena, Lavi e Alma.

Em seguida, guardou o aparelho no bolão traseiro e aguardou sua mala chegar até si, retirando-a da esteira e puxando a alça. Conforme o procedimento, checou o número da bagagem e depois virou-se para a parede de vidro que separava a sala de desembarque do saguão do aeroporto.

Respirou fundo, as pernas um pouco bambas. Aqueles primeiros passos foram os mais difíceis. Era como se suas pernas fossem ceder e deixá-lo estatelado no chão.

Mas, bem, não foi o que houve.

Saiu da sala privada com rapidez e foi pedindo "excuse me" num inglês em desuso até achar uma parte com boa visão do local.
Teve que ficar na ponta dos pés e olhar acima das pessoas procurando a cabeleira loira.

Ah... Como se não houvesse loiros ali!!

Bufou e levou a mão à bunda, procurando o celular para ligar para sua mãe, entretanto o toque em seu ombro deixou claro que não era preciso.
—Allen!! – Uma voz fina e meiga soou e o menor virou-se já dentro de um abraço.


Antes de poder sequer retribuir, avistou um homem alto e moreno acenando para si. Sorriu pequeno e enlaçou a cintura da mulher.

—Oh, Allen, meu filho, meu filhinho! Eu estava com tanta... – Ela interrompeu o contato e beijou a bochecha do garoto, retomando o abraço com mais força. – Tanta saudade, Allen!!

O albino só conseguiu rir enquanto sentia seus cabelos serem acariciados por unhas grandes. As lágrimas foram apenas um bônus vindo com o cheiro de mãe que não sentia há tempo.
—Oi, mãe. Senti saudades...

A voz estava quebradiça, mas o coração parecia completo apesar do nervosismo. Precisava lembrar-se de conta a Kanda que não foi tão horrível como pensou.

—Oh, meu bebê! Como cresceu, Richard, olhe! – Ela desfez o contato e Allen buscou os olhos azuis de sua mãe. Continuavam lindos e ainda mais brilhantes do que se lembrava.

O albino sabia que sua mãe não era feliz com Mana e mesmo que, às vezes, sentisse certo vazio, contentava-se em vê-la feliz.

—Oh, Allen!! – E retomou os beijos, arrancando risadas dos dois homens presentes.

— Christina, você vai sufocar a criança! As duas! – O moreno riu largo e era um sorriso tão sincero que Allen teve que retribuir.

Aparentemente ele era uma boa pessoa.

—Ora, Richard, por favor! Você sabe como estou emotiva! – Allen riu da birra que a mais velha vez e reconheceu a si mesmo nela.

Christina revirou os olhos, mas logo sorriu pequeno, agarrando com força em um dos braços do filho, como se quisesse mantê-lo preso ali.

— Vamos, vamos indo para conversarmos melhor! Rich, as malas...

Logo o homem tomou a mala de Allen, mesmo sobre os protestos deste e em poucos minutos viam-se correndo para dentro do carro, fugindo do vento congelante da Inglaterra.

Como já havia imaginado, o clima de Londres era denso, pesado e era um pouco difícil de se respirar devido à umidade. De perto, a arquitetura parecia ainda mais antiga, porém trazia uma autenticidade exuberante. Walker fazia algumas anotações mentais para poder contar tudo para seus amigos mais tarde e observava com paixão a estrutura daquela cidade, mesmo que alguns pingos de chuva embaçassem seu vidro.

—Ai, estou tão animada! – A mulher virava para trás a cada instante e Allen só podia responder com sorrisos e vergonha. Em determinado momento, ela jogou uma mão para trás e o albino a segurou, permanecendo naquele contato enquanto ia narrando como foi o voo e olhando a paisagem passar nostálgica.

—Eu fiz guisado com pães e patê para jantarmos! Lembro que você adorava! Você almoçou? Está cuidando bem da saúde? Almoçou?

—Jesus Cristo... – Rich resmungou lá da frente e acabou levando um tapa leve no ombro.

Allen riu, as bochechas vermelhas devido ao frio mais intenso do que esperava. Talvez tivesse que comprar mais agasalhos, já a França não era tão fria assim.

— Não, não almocei, mãe, imaginei que você teria feito alguma coisa.

—Allen! Que irresponsabilidade! Você sabe que tem que cuidar bem da sua saúde! Está tomando sol regularmente? – A loira virou-se com olhar inquisidor e só com a expressão do filho ela sabia a resposta. – Oh, Deus! O que Mana vem fazendo com o meu filho?? Eu vou ligar para ele e quero só ver!

— Mãe, meu pai ainda bastante ocupado com o trabalho e eu também estou passando o dia inteiro fora, não é culpa dele. – Tratou logo de se explicar, antes que Christina viesse com o papo de "vou trazer você para Londres porque não dá para você viver com o irresponsável do seu pai!". Papo esse que virou rotina no período de separação de ambos.

Allen tinha pouca idade, quatro a cinco anos, quando Mana e Christina decidiram seguir rumos diferentes. Mais por ela que por ele.

A mãe de Allen era bailarina. Seu pai, na época em que se conheceram, apenas um estudante de direito. O primeiro contato entre eles ocorrera numa apresentação da escola em que sua mãe dançava. A turnê passava pela França quando Mana foi assistir a um espetáculo de Ballet e viu-se inteiramente atraído pela bailarina secundária da peça.

Encorajado pelos amigos, foi até o backstage e encontrou-se com a loira.

Claro que Christ ficou assustada, porém os bons modos e a beleza inegável daquele jovem dois anos mais novo a conquistaram.

Duas semanas na França foi o suficiente. Logo Christina voltou para Londres, e esqueceu-se de sua paixão de verão.

Por três meses, apenas.

Foi um susto para todos quando a bailarina viu-se frequentemente doente, com dores e mal estar. Foi inacreditável quando o teste de gravidez deu positivo. E foi surreal para Mana recebeu uma carta intimativa avisando-lhe de sua paternidade.

O resto dos acontecimentos passou como um flash para ambos os lados. Mana pegou o primeiro avião para Londres e Allen nasceu. O bebê, até seus cinco meses, precisou ficar na UTI Neonatal por causa de sua frágil saúde derivada do albinismo. Foi justamente aquele período de tempo que aproximou os jovens pais e deram-lhe a doce ilusão de que poderiam criar uma família.

De repente, Mana via-se morando em Londres. Trabalhava como auxiliar do professor da faculdade para a qual se transferiu e conseguia mais dinheiro fazendo bicos cozinhando para uma lanchonete perto de casa. Christina sofria, pois tinha que deixar Allen com Mana enquanto viajava com a companhia de dança. E por mais que soubesse que aquela situação era pesada para ambos os lados, ela não podia largar seu emprego, pois era a única fonte confiável de renda.

O mais desgastante, porém, era a falta de carinho, de companheirismo. Ali eram apenas duas pessoas desconhecidas ligadas por um lindo bebê. O sexo era a única coisa que os unia e muitas vezes era motivado pela frustração e somente.

Ninguém soube dizer quando aquilo tornou-se insuportável porque nunca houve “aquilo”. Entretanto as queixas de Mana sobre ter que dar conta de tudo sozinho misturaram-se com a sede de carinho de Christina. Ela queria alguém que a apoiasse e, por mais que não pudesse reclamar de Mana, sentia que ele não a amava.

Na verdade, os dois apenas forçaram o amor e tentaram prolongar uma relação que não daria certo.

Quando o pequeno Allen já andava, falava, comia sozinho e dançava Jazz fofamente, Christina e Mana decidiram que não poderiam continuar juntos. O pior dessa decisão foi a guarda do filho. Nenhum dos dois queria expor a criança à uma disputa judicial e, depois de muito choro por parte da mulher, Allen ficou com o pai.

Fora uma decisão tomada em conjunto pelos dois. Christina não tinha condições, na época, de cuidar de uma criança, pelo simples fato de que vivia em turnês pelo mundo. Mana, em contra-partida, havia aprendido a ser um pai nos cinco anos que se passaram desde o nascimento de Allen. Foi ele que segurou as pontas, que acordou para ninar um bebê com cólica, que correu para o hospital quando o filho tinha complicações respiratórias.

Nenhum dos dois culpou o outro. Eram apenas dois jovens tendo que cuidar de um bebê não planejado. Mas ambos culparam a si próprios.

Christina sentia a amargura de ter perdido o crescimento de seu primeiro filho e, em seu âmago, sentia a necessidade de fazê-lo com a pequena que estava a caminho. Como uma redenção.

Para Mana, os primeiros anos na França não foram fáceis. Por incrível que pareça, foi o período em que houve mais brigas. Christ ligava diariamente e qualquer coisa era motivo de discussão e de ameaças. A loira ameaçava tomar Allen caso uma gripe não estivesse curada em uma semana ou caso soubesse que o albino tinha contato com a má influência de Cross Marian.

—Ocupado?? Ele tem que se ocupar com você! – Christ falou e Allen viu Richard coçar a cabeça.

—Querida, o Mana precisa trabalhar... – O homem tentou amenizar as coisas, mas logo acabou puxando a conversa para sua pessoa.

—Até você, Richard? – A mulher olhou incrédula. – Oh, eu não acredito! Allen me contraria e você também?

E o discurso se reiniciou, a chuva caindo com força e abafando a voz da mulher.

O albino desviou-se do assunto, que agora rodava em torno de hormônios e sensibilidade, e pôs-se a encarar a paisagem novamente.

O vento lá fora estava forte, balançava toldos de construções e o vidro embaçado dava uma ideia do frio intenso típico do inverno britânico.

—Já nevou por aqui? – Allen interrompeu a conversa e então virou o foco das atenções.

—É, o inverno começou mais cedo esse ano! – Richard comentou, alegre por ter sido livre do discurso quilométrico da esposa.

—É verdade, está mais frio do que os outros anos! – Christina respondeu, esquecendo-se completamente do que reclamava antes. – Você trouxe agasalhos suficientes?

—Acho que vou precisar comprar alguns, na França o clima está bem mais ameno. – Respondeu, rindo de ladinho ao sentir o celular vibrar no bolso. Seria Kanda respondendo sua mensagem no grupo?

—Ah, a França! Nunca fui lá... – O homem respondeu, virando em uma rua e fugindo do engarrafamento.

—Sério? – O albino perguntou mais por não ter nada para falar enquanto desbloqueava seu celular e ia até o aplicativo de conversa.

—Sim, ainda pretendo comer os brioches franceses! – Os olhos do homem brilhavam.

—Rich, já falei que não tem nada demais. – Christ falou, revirando os olhos e Allen ia desmentir, porém assustou-se com o celular tocando em sua mão, antes que pudesse responder a mensagem de Alma.

Atendeu o aparelho no desespero.

—Heyy, Allen!! Chegou vivo? – Alma gritou do outro lado e o Walker teve que afastar o telefone para poupar os tímpanos.

—Oi, Alma... – Riu. – Sim, estou vivo.

—Okay, mas mais importante... O que aconteceu entre você e o Yuu??? – Gritou e Allen enrubesceu rapidamente.

—Siimm!! – A voz de Lena soou e lá no fundo estava a risada de Lavi.

—Meu Deus! – Allen exclamou e rapidamente abaixou o volume do telefone, agradecendo pela conversa entre sua mãe e seu padrasto.

As risadas foram histéricas do outro lado.

—Eu nem cheguei em casa ainda, depois eu falo com vocês! – Enrolou, pois era impossível tocar naquele assunto, nem que fosse para brigar com as criaturas.

—Ahh Allen-chan, nem vem!! O Yuu foi embora todo bobo, estamos curiosos! — Lavi parece ter tomado o telefone de Alma e, pela primeira vez, o ruivo falou algo que prestasse.

O albino sentiu uma batida falha no coração e ficou mais vermelho com as risadas dos amigos.

—O-olha, eu falo com vocês depois, okay? T-tchau. – E desligou. 10 segundos de ligação e nada mais.

Foi só após desligar o celular que percebeu o silêncio no carro e sua mãe com olhos brilhantes para si. A cor de suas bochechas não mentiam, mas Allen arriscou um sorriso amarelo para a mulher.

—São seus amigos, filho?! – Ela perguntou animada e Allen se sentiu desconfortável com a pergunta.

—Sim... – Ajeitou-se no banco, enquanto desbloqueava a tela do celular com o único objetivo de desviar os olhos dos da loira.

—Ah, é? Como eles chamam? Vocês são amigos há quanto tempo? – Christ estava sentada de lado no banco, observando o filho dos pés a cabeça. Ele havia crescido tanto! Estava orgulhosa e nostálgica ao lembrar do pequeno bebê que Allen era.

—Ah... A Lena eu conheço a minha vida toda. – Explicou, mas achou que a mulher talvez ficasse triste e logo emendou. – Quer dizer, desde que nos mudamos. O restante eu conheço há seis meses...

—Lena? Como eles chamam? Como são? – Ela repetiu a pergunta. O Walker pareceu entender a necessidade que ela tinha de ser uma mãe, ou pleo menos tentar cumprir o papel de uma.

—A Lena chama Lenalee. Ela fazia Jazz comigo e agora fazemos Ballet juntos. – Allen comentou, vendo os olhos azuis de Christina brilharem. Por telefone, havia contado à mulher que estava praticando a dança e tinha certeza que mais tarde sofreria um interrogatório. Mas continuou – O Lavi e o Alma eu conheci esse ano. Eles são legais, exceto o Lavi que fica dando em cima da Lena o tempo inteiro. O Alma é muito divertido, eu gosto dele. E... – Travou, mergulhando no olhar profundo da mãe. Iria por Kanda no Hall de amigos. Por que era isso que ele era, certo? – E tem o Kanda...

—Kanda? Ele é japonês?

—Não, el – Porém não pode continuar, Rich o interrompera.

—Querida, chegamos. – Avisou, enquanto diminuía a velocidade e subia a rampa da garagem de uma pequena casa, no subúrbio de Londres.

Allen girou a cabeça, olhando pela janela e seguindo até o fim da rua com o olhar. Era um bairro calmo, as casas de família eram todas muito parecidas. O albino entendeu imediatamente o que sua mãe tinha dito quando avisou que iria se mudar para um lugar mais propício para o bebê.

Assim que Richard saiu do carro para ajudar Christ com sua grande barriga de sete meses, Allen abriu a porta e foi recebido com o vento congelante. Respirou o ar tão pesado típico da Grã-Bretanha e teve a certeza de que não pertencia àquele lugar.

Enquanto seu padrasto tirava sua mala do bagageiro, o albino ficou parado na frente da casa, observando tudo ao seu redor. Os jardins bem aparados, os carros de famílias. Tudo muito... certo.

Allen prensou os lábios sem saber o que sentir. Sua mente comparava cada detalhe que via.

O asfalto, bem feito, contrastava com o asfalto com alguns buracos que levava até o Noah´s. Os jardins bem tratados tinham a beleza diferente, e o albino viu-se preferindo o jardim japonês da Mansão do Kanda. E sim, ali eram casas pequenas, confortáveis e de família. Estava acostumado com uma mansão vazia, enorme, na qual apenas um ser solitário vivia.

Respirou fundo com o próprio pensamento. Julgou-o muito cruel e mordeu o lábio inferior novamente. Allen estava pegando a mania de mordê-los o tempo inteiro.

—Filho, entre! – Christ gritou da porta enquanto Richard voltava para o carro e ia guardá-lo na garagem com agilidade.

Allen olhou para a cena. A loira voltando sorridente para dentro, seu padrasto guardando o carro, o céu cinzento tão diferente da França e aquela rua vazia e sem vida.

Seu subconsciente gritava e ele tentava suprimir porque era um pensamento ruim. Mas inevitável.

Não era o seu lugar e já morria de saudades da França.

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Ao entrar na casa, o choque de realidades foi maior. Era uma pequena casa de apenas um andar, que contrastava com o local onde morava com Mana. Os móveis estavam sendo preparados para receber uma criança, já que estavam espaçados e não eram pontiagudos. Haviam um tapete fofo e claro, a sala era conjugada com a cozinha, e havia um corredor que provavelmente levaria até os quartos e ao banheiro.

Allen olhou tudo ainda parado no meio da sala, com as mãos no bolso e enrolando os dedos em nervosismo. Queria ter prestado mais atenção no local, em como a madeira do chão era bonita, ou na janela grande que tinha na sala e dava para a rua.

Porém sentia que a cada detalhe mais bem observado era uma pancada mais forte. Viu-se olhando para cima duas ou três vezes, como se, subitamente, um andar a mais se materializasse e ele, quem sabe, não se sentisse mais confortável.

—Rich, venha até aqui esquentar essa comida, vou mostrar ao Allen o quarto dele! – Sua mãe gritou da cozinha para o homem que havia acabado de entrar pelo corredor enquanto vinha até si enxugando as mãos frias em um guardanapo. – Vamos, querido, por aqui.

A loira pegou o braço do filho com carinho, querendo ficar o mais próximo dele e seguiu pelo corredor. Allen lhe deu um meio sorriso e sentiu-se mal por não poder contribuir com sinceridade.

—Eu escolhi o quarto mais bonito para você. – Ela comentou, alegre. – Claro que a pequena aqui terá um quarto tão bonito quanto, mas o seu já está pronto e eu posso dizer que é o mais bonito. – Sorriu enquanto acariciava a barriga. – É a última porta à esquerda, entre primeiro.

O albino teve o braço solto e olhou para a mulher com quase sua altura.

—Vá em frente. – Ela exclamou, quase como uma criança animada. Ali, Allen sentiu-se obrigado a retribuir todo aquele carinho. Ele devia isso à sua mãe.

Foi com a convicção de não decepcioná-la que abriu a porta do quarto e adentrou nele.

Christ não havia mentido. Era um quarto bem espaçoso, a julgar o tamanho da casa, e também era iluminado por uma janela tão grande quanto a da sala, porém voltada para o pequeno jardim. Próximo à janela, uma poltrona. Do lado direito a cama e uma pequena cômoda com um abajur. O guarda-roupa ficava colado à parede perpendicular à parede da cama. Do lado esquerdo, uma televisão suspensa, a porta do que parecia ser um banheiro e na parede...

Na parede haviam quadros de fotografia de Allen com Christina. Fotografias de um pequeno bebê mais branco que o normal e de sua mãe loira com aspecto cansado após o parto. De um mini Allen arrumado para seu primeiro dia no Jazz. Do albino abraçado com a mãe quando foi vê-la após um espetáculo e ela ainda estava com o figurino.

—Oh, mommy... — Ele nem se deu conta do tratamento, que deixou a mulher surpresa. Apenas aproximou-se daquele quadro com uma sensação estranha, uma dor e saudade apossando-se do seu ser.

Observou detalhadamente cada foto, algumas vezes deslizando o dedo por alguma delas. Eram muitos retrados espalhados por toda a parede. Uns quinze a vinte, ordenados de forma aleatória e que deixava uma decoração autêntica.

—Eu... – A voz de Christ, pela primeira vez, soou quebrada e baixinha. – Eu achei que seria criativo usar as fotos porque... – Allen virou-se para a mulher sentindo a mudança súbita de humor da mesma. Acabou pegando-a limpando aquilo que pareceu lágrimas. – Eu me dei conta de que não sabia muito sobre você então eu só achei que...q-que... Seria legal... – Sua última pronuncia quase não foi ouvida e o albino apressou os passos até a mulher, abraçando-a automaticamente.

Ela continuou.

—E-eu... Eu deixei a parede vazia e fui comprar algo para decorar e eu não achei nada porque eu não sei nada sobre o meu próprio filho! – E então desabou em lágrimas.

Aquela era uma verdade tão profunda que Allen duvidou que o acesso de choro fosse somente por causa dos hormônios, afinal, decorar um quarto de um filho adolescente com fotos de quando ele era bebê era um claro sinal de desespero e de desejo de manter o tempo estagnado.

—Shii, está tudo bem, você não tem culpa... – Enrolou em um inglês com sotaque francês e aquilo serviu para piorar o estado emocional da mãe. Allen começou a se desesperar. Ela estava forçando toda aquela alegria desde o aeroporto? – Vamos ter tempo ainda, não... não se preocupe, mãe...

—Christ, você comprou o vinh – Rich veio pelo corredor e estagnou ao ver a mulher chacoalhando nos braços do albino, que olhava para si com o olhar desesperado. – Oh, querida, mais um ataque de hormônios? – Sorriu fraquinho, indo até o corpo da esposa e abraçando-a. Allen afastou-se alguns passos, não querendo interromper o momento de família. – Vamos deixar o Allen se acostumar primeiro, tudo bem? Vamos deixar ele conhecer a casa, tomar um banho e depois a gente conversa, quando você estiver melhor, tudo bem? – Ele disse, dirigindo o olhar para o albino na última frase. Vendo-o assentir, começou a guiar a mulher para a sala.

Assim que o casal se afastou, um marido tentando acalmar uma loira desconsolada, Allen fechou a porta, e deixou escapar todo o fôlego que segurava.

Aquilo que havia dito, “não foi tão ruim”, não estava correto. Não havia nem uma hora que estava ali e aquele turbilhão de emoções se apossara de si.

O Walker via-se desprotegido.

Após passar a mão pelo rosto, em um claro sinal de aflição, Allen voltou o olhar para a cama, e deu uma rápida olhava pelo quarto. Teria que passar dias dormindo ali, num lugar totalmente entranho, e, sinceramente, não conseguia imaginar-se pregando os olhos naquele cômodo.

Algo dizia-lhe que aquele quarto pertencia a um Allen que não era ele e aquilo deixava-o extremamente desconfortável.

Com a respiração pesada, caminhou até sua mala, que havia sido deixada ali por Richard e abriu, pegando a primeira roupa que viu. Deixou a muda de roupa nova e o casaco em cima da cama. Em seguida pegou o celular e rumou até o banheiro.

Na verdade, não havia necessidade nenhuma em tomar um banho, mas o garoto quis ter o prazer de sentar-se na privada, com as pernas apoiadas na parede, enquanto respondia as mensagens.

Não ache que vai escapar do interrogatório!!” – Alma avisava, enquanto Lavi ria estupidamente e Lena apoiava a situação.

Não era possível que Alma também estava se tornando um péssimo exemplo!! Porém sorriu com o pensamento e o digitou no grupo.

Em seguida, era a vez de responder ao seu pai.

Como foi a viagem, filho? Sua mãe te achou rápido? Vai precisar de dinheiro extra para comprar agasalhos? Saiu na televisão que vai ter neve por ai. Te ligo mais tarde, manda um oi para a Christina.

Mana, como sempre, mostrou-se um amor. Allen respondeu-lhe com carinho, destacando que estava se sentindo desconfortável, mas que, sim, ela havia sido bem carinhosa.

Foi terminar de responder que seu celular vibrou com mais mensagens. Dessa vez era Lena.

Allen, está aí? Vou te ligar

Okay

Respondeu com rapidez e ficou com o telefone em mãos para atender a chamada. Entretanto, após dois minutos, a chamada não veio.

Lena?” – Digitou, porém não houve sinal de que ela lera. Allen se levantou e se olhou no espelho. Soltou o cabelo do pequeno rabo de cavalo em que estava preso e viu-se observando o elástico negro.

Kanda viajaria dali a algumas horas.

Kanda...

Quando sua mãe perguntou no carro sobre seus amigos, por que se sentiu tão desconfortável ao encaixá-lo na categoria? E o que diria a ela sobre ele? Porque ele era simplesmente... indescritível.

Sim, o que ele diria a ela?

Kanda era um cara rude, grosso, briguento. Tinha capacidade de ser intragável, mandão, esnobe e, incontestavelmente, atraente. De uma beleza exótica e com tendências a querer beijar sua boca.

Allen prensou os lábios, abaixando a cabeça e respirando muito. Havia pensado muito a respeito do beijo que trocaram no aeroporto.

Yuu foi tão gentil, tão calmo... tão não ele. Não parecia nem um pouco o cara que lhe agarrou à força no banheiro de um bar e... Oh, sim. Kanda não parecia o tipo de cara bonzinho e aquele beijo que Allen furtou no aeroporto não era do feitio dele.

Mas por que pensar nisso agora?? Por que lembrar da força que o moreno tem e em como ele o imobilizou facilmente na parede do banheiro do Noah´s?

—Oh meu Deus, não, não e não!! – Allen afastou-se da pia ao sentir uma fisgada no baixo ventre. Não era possível! Tinha acabado de se libertar de Tikky e agora essa??

Se envolver com Kanda era, no mínimo, burrice!

Mas... Alma havia dito que ele saiu abalado do aeroporto, assim como Allen passou a viagem toda preso a seus pensamentos e em como Kanda tinha capacidade de dar beijos diferentes. Beijos de banheiro e de quadra em oposição aos beijos de aeroporto.

Sua cabeça estava uma confusão e tratou logo de abrir o boxer do banheiro e jogar-se debaixo do chuveiro. A água quente, entretanto, não ajudou a dispersar os seus pensamentos e agilizou mais o banho ao notar seu celular tocando em cima da bancada. Era Lenalee.

Retirou o sabão do corpo, ouvindo o toque cessar, e enrolou-se na toalha.

Em seguida, mais um toque e o pequeno apressou-se até o aparelho.

—Oi, Lena. –Respondeu, apoiando o celular no ombro e no pescoço enquanto tentava arrumar a toalha na cintura.

—É o Kanda, Moyashi. – A voz rouca, profunda e inconfundível soou e um arrepio subiu a coluna do jovem albino. Pelos lábios rosados e finos, escapou um ofego de surpresa, mas o Walker logo tentou consertar.

—A-ah... Ka-kanda – Riu nervoso. – Oi... – Respondeu, segurando o celular contra o ouvido e esquecendo completamente da toalha, agora caída no chão.

Oi. – Ele respondeu, e, caramba, Allen não sabia que a voz do Mestre era tão rouca daquele jeito. Ou talvez não reparasse naquilo antes... – Te disse para me ligar.

A-ah... Sim, m-me desculpe, eu acabei de chegar e também mandei uma mensagem no grupo, você não viu? – Perguntou, encostando-se na parede do banheiro e tentando falar com firmeza.

Não vi, desativei as notificações para o grupo. – Ele respondeu e, em determinado momento, a voz ficou distante, como se ele estivesse ocupado ou algo assim, como fazer as malas.

Allen riu da petulância, um sorrisinho bobo, que ele não viu por não ter olhado para o espelho a sua frente.

—Então você é especial e não podemos ter sua exímia presença no nosso grupo? – Ironizou, com um sorrisinho debochado.

Correto, Moyashi. Mas se você pedir com carinho eu abro uma exceção para você.

Oh.

Allen emudeceu no mesmo instante, e apertou os lábios com força. Ele tinha noção do quão erótica sua voz soara?

Okay, Allen, não, chega. Isso com certeza era porque há tempo não se aliviava e pensar essas coisas é completamente normal.

Mas não com o Kanda!!! Era o Kanda!!

— Moyashi? – A voz soou e o albino teve que se recompor.

—O-oi...

Você parece estranho... Algum problema? – Oh, Allen podia jurar que ele tinha um sorriso esboçado no rosto.

—N-não, Bakanda, nenhum problema. – Respondeu de cara, numa clara provocação, ainda com a voz um pouco baixa.

Hm... Tem certeza? – Ele repetiu, a voz mais lenta, mais rouca. Allen mordeu os lábios e olhou para baixo quando sentiu uma nova fisgada em seu pênis.

—Você está me provocando. Isso tudo só por causa de um beijo? – O albino sorriu maléfico, entretanto estava na defensiva.

A risada de Kanda soou no aparelho.

Eu só fiz uma pergunta normal, Moyashi. – E muito provavelmente os lábios do francês com ascendência japonesa se moveram com uma lentidão tortuosa.

Não existe pergunta normal para você. – Afirmou baixinho, olhando para baixo e sentindo-se envergonhado.

Tem certeza? Não seria você o único a procura duplos sentidos na frase?

O- o quê? – Allen se exaltou, as bochechas infladas. – C-claro que não! Olha só! Você mesmo acabou de admitir que a frase tem duplos sentidos! Que absurdo! – Se defendeu.

Calma, Moyashi, foi só uma pergunta. Não se exalte. – E riu de novo, fazendo o Honey revirar os olhos e se arrepender de ter considerado aquele homem um homem desejável.

—Você ligou só para me provocar? – Perguntou, já bravo e com o rosto vermelho.

Já irritado?

Ai, Kanda, Cala a boca! Se não tem nada a me falar, eu vou desligar! – Ameaçou, porque Kanda não tinha jeito e seria impossível classificá-lo em outra categoria que não fosse a de “conhecido-inimigo”

Mais uma risadinha nasalada e o moreno se pronunciou.

Mais tarde é meu voo e eu queria saber como está o tempo. – Perguntou lentamente, com um timbre gostoso de se ouvir.

O tempo? Você é louco? Eu estou em Londres, seu idiota! – Allen disse o óbvio, já imaginando se Kanda estava entorpecido ou algo do tipo.

Afinal, tudo espera-se de Lavi, e quem podia garantir que o ruivo não estava com seu Mestre, juntamente de bebidas e mulheres?

Ahh... Se isso estivesse acontecendo...

-Eu sei, estúpido Moyashi. Apenas me diga como está o tempo aí. — Kanda bufou lá do outro lado. O moreno sabia, claro que sabia, que seu Honey não estava no mesmo país que você.

—Você é retardado. – O albino retrucou, saindo do banheiro com a toalha tampando suas partes íntimas de forma desajeitada. Parou em frente à janela e narrou o que viu. – Aqui está chovendo e o céu está daquela cor de cobre. Talvez porque também está escurecendo. Chove tão forte que parece que o céu vai desabar. – O menor riu para si mesmo com sua própria afirmação tão clichê e o Mestre gostou de ouvir aquela risadinha – E acho que mais tarde, ou de madrugada, começa a nevar. – Finalizou.

Hm... – Kanda resmungou. Naquele exato momento, na França, o japonês olhava pela sua janela com desânimo. O céu francês estava limpo e não havia começado a escurecer ainda.

Como havia pensado, o tempo era uma forma de dizer que ele e seu Honey estavam separados. E podia dizer por si mesmo, aquela mansão nunca fora tão vazia como estava sendo. Nem mesmo a França.

Tudo parecia incompleto.

—Por que quer saber? – O de olhos prateados perguntou com curiosidade.

Por nada, Moyashi curioso. Agora me deixe terminar de fazer as malas.

— Quê? Mas foi você que ligou! Eu que deveria reclamar por você não me deixar vestir uma roupa! – Reclamou e Kanda achou aquilo interessante.

Então quer dizer que você está nu por minha causa? Bom saber.

Allen enrubesceu com a petulância do bastardo.

—Olha viu só, depois fala que eu que penso besteira!

Não fui eu que pensou besteira em uma frase simples. Essa sua frase é claramente maliciosa.

Você está bem espertinho hoje, não é mesmo? Estou adorando. – Allen riu forçadamente em deboche e vergonha.

Se não gosta, desligue o telefone. – Desafiou.

Oh.

Pela segunda vez, o albino se calou. Na verdade, tinha um “Tudo bem, tchau” na ponta da língua, mas não conseguiu proferir. E quando voltou a falar, sua voz estava quebrada e bem baixinha. Não era uma voz do consciente. Era uma voz que Allen nunca tinha usado.

A voz do coração.

—Kanda...P-por que você está fazendo isso comigo? – Perguntou num sussurro confuso, segurando firme os fios brancos com a mão livre. A toalha novamente no chão e a chuva começando a engrossar lá fora. O céu escurecia rapidamente com a chegada das nuvens condensadas.

Yuu ficou calado do outro lado, e agora encostava a cabeça no vidro da janela de seu quarto gigante naquela mansão mais gigante ainda.

—Aonde você quer chegar? – Walker perguntou enquanto jogava o cabelo para trás, a voz fraca e o coração acelerado. Sentia que podia desabar a qualquer momento, mas queria uma resposta, precisava de uma. – O que você quer, Kanda?? Me responde! Não fique calado e jogue tudo em cima de mim!

Um suspiro alto foi ouvido e Allen fechou os olhos, seu coração batia tão descontroladamente que chegava a causar falta de ar.

O que você quer que eu fale, Allen? — Kanda chamando-lhe pelo nome não ajudou em nada, pior, o mais novo soltou um gemido de dor e encostou a testa na janela de seu quarto.

Sentia-se como sua mãe! Em um momento trocava espinhos com Yuu e agora via-se refém de qualquer e toda palavra que saia dos lábios finos do japonês.

Allen não sabia o que queria, só que o que fizesse seu coração parar de doer, como havia ocorrido tão subitamente. Mas ainda assim pediu pela resposta que, ele sabia, ia destruí-lo por completo.

—Quero sinceridade, seja sincero comigo. – Pediu, a voz com um timbre suave ainda infantil.

Kanda respondeu segundos depois.

—Quero o mesmo de quando eu pus o brinco em você. – Respondeu num tom mandão e o albino sentiu as pernas tremerem com a voz profunda.

—Oh Yuu... – Não se sabia se aquele era um tom triste, alegre, surpreso, aliviado. Era tudo ao mesmo tempo e muito mais. – Seja mais claro, por favor...

O moreno pensou que seu Honey chorava devido ao tom estremecido, mas continuou. Allen esperava a responda com os lábios prensados com força, os olhos prateados escondidos pelas pálpebras e a mão livre apoiada no vidro da janela.

—Eu quero você. — Foi o suficiente para o garoto soltar um ofego desejoso, como se sua mente tivesse deletado o quão problémtico Kanda era. Irônico, não? Mas ele continuou, para o desespero emocional do albino.

Agora e comigo. Eu fui claro? – Questionou e Allen perguntou-se se era aquele tom que ele usava quando ia negociar com agentes da Lune. Autoritário, poderoso e dominante.

T- transparente. – Um sussurro baixinho que fez Kanda sentir-se um homem sortudo.

Então o sorriso mais lindo da vida de um pequeno garoto foi dado e apenas uma janela, um jardim e um céu que ameaçava desabar presenciaram aquele evento magnífico, lindo e único.

Um sorriso com amor, com companheirismo e, principalmente, um sorriso que agradecia com alegria, a dor.

Afinal, era isso que Kanda lhe trouxe. Aterrissou em seu coração antes da hora do Check-in e foi, inicialmente, barrado pelos seguranças. Mas ficou tanto tempo na detenção que, quando Allen percebeu, já fazia parte do lugar.

Agora o albino lhe dava permissão para decolar, mesmo sabendo que tinha medo de aviões, mesmo sabendo do perigo das turbulências. Ele autorizou porque uma das melhores coisas dentro de um avião, é a aterrisagem. Assim como uma das melhores coisas dentro da vida, é o amor.

Notas finais
Olá, meus queridos leitores! Primeiro gostaria de pedir desculpas pela demora e ainda não ter respondido aos comentários. Acontece que eu deveria ter escrito esse capítulo logo depois que postei o 17, mas na mesma semana eu fiz uma tatuagem no pulso e resolvi esperar a tatuagem cicatrizar, já que não estava conseguindo digitar com ela. Disso, eu acabei tendo que me concentrar nos testes e minhas dores de cabeça continuaram crescente. O tempo passou rápido e eu não percebi a demora. Essa semana planejei ler honey inteira e escrever o capítulo para ir preenchendo falhas na fanfic, afinal, acho que você já sabem que eu mudei o plot da história. Mas não consegui, porque estou doente. Não consigo me concentrar por causa da dor e tenho erupções na pele, o que coça e me deixa com tanto nojo de mim mesma... Ah, a semana está horrível, mas assim que eu melhorar e conseguir digitar direito, vou responder todos os amáveis comentários! Por favor, não desistam de mim! Eu juro que respondo tudo! E, bem, obrigada por comentarem e peles novos favoritos! Me deixa muito feliz! Esse capítulo eu escrevi antes de ontem, quando a minha doença não estava a ponto de me matar. Me digam a opinião de vocês! Obrigada por tudo, amo vocês e até o próximo!