Honey
2 Esqueça o passado...
Notas iniciais
Não havia se passado nem um dia desde o evento de sábado. Aquilo lhe deixou tão atordoado que nem dormir até mais tarde conseguiu. Inferno. Eram 07 da manhã e Allen se via inutilmente jogado na cama, assistindo qualquer porcaria na TV a cabo enquanto pensava em formas de tirar aquela maldição que pesava em sua orelha. Cogitava até em mandar arrancá-la, porque até agora nada funcionara. Até ajuda para o pai tinha pedido! Ele usou um alicate. Um alicate. E ainda não obtiveram sucesso.
Não adiantava, não saia por nada. O Joalheiro 24 horas que foram ontem à noite também não tinha conseguido serrar o brinco. O albino começou a achar que aquilo não era prata e sim Adamantium.
O pior de tudo: era inaceitável que ficasse naquela angústia em plenas férias! Como se o maldito samurai burro pudesse estragar seus dias com um simples... beijo.
Passou a mão no celular, tratando logo de digitar o número. Ele sabia de cor até.
Lenalee era a única criatura viva que estaria apta a acordar cedo, por vontade própria, em pleno domingo e nas férias. O telefone tocou algumas vezes e ela atendeu. Sem voz de sono, nem nada. Perfeitamente preparada para seu dia.
Invejável.
—Bom dia, Lena. – Cumprimentou, um meio sorriso quase vindo.
— Bom dia, Allen-kun. Tudo bem com você?
— Exatamente por isso que liguei. Não estou nada bem.
— Percebi.— Deu uma risadinha. – Pra você me ligar cedo, no domingo de manhã, a coisa deve estar feia.
—Nem me fale. – Rolou na cama. – Tem tempo pra conversar? Ou está atrasada?
— Tenho tempo sim...espere um segundo...minha meia calça...
—OK. – O telefone ficou mudo e se podia ouvir apenas alguns amassos de lençol e uns rangidos.
—Pronto! – A voz animada voltou a soar. – O que aconteceu, Allen-kun?
— Ahh, Lena... – Manhoso. – Estou com um problema desgraçado! É complicado porq...
—Lenalee!!!!! – Opa, não era a voz da Lena. – Nii-san! O que foi?? – Pobre, Lena. – Você está falando com quem? – Uma voz mais longe.— Com o Allen-kun, nii-san. O que??? Desligue logo esse telefone!! Esse garoto quer se aproveitar de você!!! Nii-san, o Allen-kun é meu amigo!! Não misture as coisas!! — Allen só ouvia. – Me dê esse telefone aqui!! – Barulhos, talvez Komui tivesse pegado o telefone da Lena. – Bom dia, Allen-kun.
— Er...B-Bom dia, Komui-san.
—Diga-me, quais são suas intenções com a minha Lenalee?? – Ao fundo— Nii-san! Pare com isso!!
—Ahn...Komui-san, eu só queria conversar um pouco com a Lena. – Sorriu para o teto. Não podia negar que também gostava muito do Komui (achava que a única pessoa que seria impossível gostar era aquele moreno dos infernos), apesar do complexo de irmão dele. Talvez o gosto viesse pelo fato de que eram ambos complexados. Allen, inglês, ele, irmão coruja.
Acontece que Komui era cientista e toda vez que o albino ia à casa da Lenna, ele estava de jaleco e pantufas. Achava o máximo! Ele também queria usar pantufas de coelho no futuro trabalho.
—Nii-san! Me dê o telefone! O Allen-kun está com problemas!! — O aparelho ficou meio surdo, abafado. – Ah é? Que tipo de problemas, Lenalee Lee?? Uma ereção matinal??— Allen não evitou corar com a ideia um tanto muito depravada. – Nii-san!!!!
E só o que pôde ouvir foi o tun,tun,tun do outro lado.
Pobre Lena, já arrumara um problemão pra ela logo de manhã cedo.
Pôs o celular no travesseiro e se virou de lado, encarando-o e arrumando o cobertor macio em cima do próprio corpo. Suspirou uma ou duas vezes, afundando-se na depressão matinal pós-brinco.
O lado bom é que, em hipótese alguma, cairia na sala de um daqueles. Até porque ele era da turma “normal”.
O telefone tocou e nem precisou olhar no visor. Atendeu antes do primeiro toque acabar.
—Desculpe, Allen-kun! Já tranquei o Nii-san do lado de fora. – Allen até podia ouvir as batidas fortes na porta do outro lado da linha. – Nii-san você vai quebrar a porta! Pare com isso e vai fazer o café!! – Riu baixinho, mexendo-se novamente na cama.
— Ahnn... Lena, você não quer falar comigo mais tarde? Deve estar atrasada...
—Não se preocupe, o Ballet só começa 08:30 e hoje o Nii-san vai me levar. – Ela deu uma pausa, e parecia se acomodar na cama. – Agora diga, o que houve?
— Espere um pouco...vou te mandar um foto... – Ouviu a confirmação dela mesmo com o telefone afastado do ouvido, tirou uma foto da orelha e quando estava para mandar, travou.
Simplesmente se viu incapaz de contar a ela que um cara totalmente desconhecido tinha lhe forçado um beijo e pior, lhe dado um brinco. Era muito, muito estranho.
—Allen- kun? — Lena pareça preocupada com a demora do amigo. Allen parou com o telefone em mão, pensando no que fazer. Na verdade, sentia vergonha por algo assim ter acontecido consigo. – Tudo bem, Allen-kun?
—E-er... – Engoliu em seco, enquanto sentava na cama e procurava algo para falar. – E-eu... – Mas claro que tinha que falar algo que justificasse a ligação uma hora daquela da madrugada. – Fui beijado... – Soltou quase que num sussurro e tratou de acrescentar. – E acabei perdendo um lado do brinco que me deu... – Afinal tinha que justificar a ausência de um dos brincos. Qualquer coisa era só falar que comprara aquele.
—O que?— Sentiu-se inútil quando ela denunciou que não havia ouvido nada de sua auto tortura psicológica.
—Me beijaram, Lena. – Falou mais alto. – E eu perd... – Mas um grito agudo cortou a linha telefônica, obrigando Allen a afastar o aparelho.
—Mentira!! — Ela exclamou e, Ah, como queria que fosse. – Ai meu Deus, Allen-kun!! Meus Deus! Foi o Tikky??— Não evitou de arquear ambas as sobrancelhas com essa. Meu deus, como assim o Tikky??
—NÃO! Não! Não! Jesus, Lena!! – Tratou logo de desfazer o mal entendido, e balançou as mãos em negação como se ela, do outro lado da cidade, pudesse ver.
—Ai meu Deus! Foi um desconhecido!! Quem é ele?? – Era provável que a última vez que Lena tinha dado aquela crise fora quando ele a tinha apresentado para Tikky, e ele fez questão de tratá-la como se estivesse num castelo britânico e o próprio fosse o príncipe. Revirou os olhos com o pensamento. O Tikky, um príncipe?Pff...
— Bem, foi um c... – Sobressaiu-se na mesma hora. – EI!! Quem disse que foi homem?? – Indignado! Onde estava a fé na sua masculinidade?? Ouviu a menina rir.
—Por favor, Allen-kun. Você está me ligando às sete da manhã e quer que eu acredite que todo esse desespero foi porque uma garota te deu um selinho?? Aliás, duvido que tenha sido um selinho. – De santa, a peste só tinha cara mesmo.
—Deixa o Komui te ouvir falando isso. Vou fazer questão de ir aí ver o escândalo dele. – Sentenciou, emburrado e quase desejando que virasse realidade. Ela só riu alto.
—Claro! – E mais algumas risadinhas que cresceram seu bico. – Agora me diga, quem foi o cara? – A voz dela adquiriu um tom sério e curioso.
— Então... – Remexeu a boca, tentando cuspir as palavras. – Foi um cara que eu conheci só de vista... brigando lá no bar... – Terminou, mexendo nas dobras que o lençol fazia. Ela deu outro ataque histérico.
— Aahhhh!!! Eu sabia que você gostava dos malvados!!— Allen enrubesceu imediatamente, os olhos do tamanho de um prato. Como ela podia??
—Lenalee!! – Chamou a atenção da menina, que agora só ria escandalosamente do outro lado . – Não diga uma coisa sem pudor dessas!! – Agora estava com o rosto quente e o bico tinha voltado. Deus, olha as coisas que a menina imaginava!
—Ai, Allen-chan!! – E caiu de novo na risada. Era quase possível vê-la se rolando na cama.
—Nunca mais falo nada pra você... – Se emburrou. Podia não admitir, mas a conversa tinha lhe tirado de todo aquele poço de pessimismo. Já tinha até reprimido algumas risadas pela sem vergonhisse alheia.
—Nãaao!! – Ah. Agora prestava a devida atenção, não é? Allen riu. – Sem graça... Termina logo de falar.
— Então...foi isso... – Continuou, temendo a reação dela.
—Não! Eu quero mais detalhes! Como foi, onde e quando! Detalhe o cara! – Deus! Allen revirou os olhos. Apesar de ela fazer da situação uma graça, não era muito agradável relembrar os acontecimentos da noite passada. Mas tinha que responder. Afinal, já tinha se safado de falar do brinco.
— Ahnn... – Parecia se recusar a falar, e logo soltou um longo suspiro ao imaginar a cara ansiosa da morena. – Foi ontem, no banheiro, foi meio... horrível... ele era alto, moreno, cabelo grande e tinha um olhar macabro. – Terminou com um gosto estranho na boca. Até passou a mão para ver se estava tudo bem.
—Meu Deus, Allen-kun. – Apesar de querer parecer séria, Allen percebeu que ela achava tudo muito engraçado. – Falando assim parece que você foi estuprado! – E riu de novo.
—Mas foi quase!! – Interrompeu antes que ela caísse no poço da filha putagem. – Ele me forçou!! Com direito a segurar as mãos e tudo!! Deve até ter ficado marca... – Avaliava o próprio pulso, buscando uma mínima mancha roxa.
—Nossa...— Agora sim ela parecia a par da situação. – Sério?
—E eu mentiria por quê?
—Minha nossa... – Um pouco de silêncio e talvez ela tivesse posto uma mão na boca. – Não fica assim não, Allen-kun. Ele era um babaca, tenho certeza! Você não teve culpa! – A Lena conselheira estava de volta! Uhul. – Apesar de eu achar que sua aparência contribuiu para isso. — E riu de novo.
—Lenalee! Que coisa horrível! Culpando a vítima! – Estava indignado, o que havia com sua aparência??
—Só brincando, só brincando! – Ela logo se justificou. Allen voltou aos pensamentos depressivos. – Mas é verdade. Você não tem culpa, só esquece isso. – A voz dele tinha ficado mais grave.
—Hm... – Assentiu, meio sem saber o que falar. Não era como se estivesse se sentindo culpado, mas foi tudo tão...
Quando percebeu, o silêncio tinha ficado incômodo.
—Agora me diga, mulher... – Mudou o tom, tentando sair da atmosfera e se lembrando de algo interessante. – Quem era o ruivo contigo ontem lá no Noah´s?? Pensa que eu não vi? Deixa o Komui-san saber disso!! – Riu malvado, até imaginava a cara dela. Ah, doce vingança...
—A-allen-kun!! Não diga isso com essa voz!! – Ela, com toda certeza, estaria vermelha. Viu como é bom?
— Desculpa, Lena. Não resisti! – Riu mais ainda quando viu que ela havia gaguejado. Entretanto não era tão mal como a dita cuja era. – Mas então... Eu não sou burro. Era aquela cara da turma especial, não é? – Não podia impedir o estômago de se revirar. Na verdade, sabia muito bem quem era.
— Lavi, o nome dele. – Ela respondeu, confirmando suas suspeitas. – É meu vizinho.
— Isso... Lena, na verdade, eu... – Ela lhe interrompeu, assustada.
—Allen!
—O que? – Deu um pulo pelo susto.
— Meu Ballet!! – Ela exclamou, e o albino podia ouvir os pés dela batendo no chão de madeira da casa.
—Viu só? Fica rindo dos outros! – Allen ria. – É castigo.
— Credo, Allen-kun, você tamb..— Um barulho alto e... Aquilo foi uma porta sendo arrombada?
—Lenalee! Saia desse telefone e vamos embora! Mas... Agora! Allen-kun!!
— Lena!! – Aumentou a voz, segurando a risada pelo desespero da criatura.– Eu passo aí mais tarde!!
—Tud – E mais uma vez o telefone fora desligado na sua cara.
Respirou fundo enquanto largava o celular. Era um covarde mesmo. Não teve coragem de lhe contar toda a história.
Como se descontasse a frustração, levantou-se da cama e jogou o telefone na mesma, para logo em seguida parar no meio do quarto, fitando a parede com as mãos na cintura. Claro, a parede tinha total culpa dessa merda toda.
Um frio percorreu pela sua espinha. Um mau pressentimento, talvez. Ele tinha mesmo que tirar o maldito brinco!
Pôs-se a andar de um lado pro outro no quarto, tentando pensar em uma solução. Não lhe surpreenderia se um buraco estivesse sendo feito no chão, a força com que estava o esmagando era bem capaz disso. Andou, andou e voltou a sentar-se na cama.
Eram 8:15. Remexeu a boca para todos os lados possíveis.
Ahhhhhhhhh!!!!!– O nervosismo já estava roendo o garoto, assim como o mesmo já havia ruído as unhas. Em segundos seu pai brotou na porta do quarto, todo desgrenhado e assustado.
—Allen! O que houve?? – Ok, segurou muito a vontade de rir. Ele tinha até a marca da baba no queixo. Allen deu um sorrisão.
—Bom dia, pai. – Foi até ele e lhe deu um abraço. Mana pareceu bem mais tranquilo.
—O que houve? – Acariciou a cabeça branca. O filho podia ter tido um pesadelo ruim. Mana odiava pesadelos.
—Hmm... nada... só pensando aqui... sobre vida e tudo mais. – Respondeu, empurrando-se mais no peito do homem e implorando para que a carícia continuasse. Era tão bom.
—Quer um calmante natural? – Ele se afastou e encarou o rosto do filho. Allen negou com a cabeça, encantado com a beleza do pai.
—Não precisa... – Sorriu de novo – Me desculpe por te acordar, só acho que vou dar uma saída. – Disse, mesmo que não tivesse planejado nada. Fora algo que surgiu em sua mente.
—Agora de manhã? – Ele parecia incrédulo, mas o albino duvidava que fosse lhe impedir. Vez ou outra Mana implicava por Allen ficar dentro de casa.
—É, vou até o Ballet da Lenna e depois tomo café em alguma padaria. Tudo bem? – Fez aquela carinha natural que amoleceu o corpo inteiro do pai.
—Claro, filho. – Um mínimo sorriso. – Vou pegar o dinheiro. – Disse, indo para o corredor.
—Ok! – Fez com o polegar enquanto ele se retirava. Correu até banheiro e se enfiou na água fria. O clima estava ameno, mas sua apreensão tinha feito-o suar. Nem percebeu quando o pai entrou no banheiro.
—Aqui fil--
—AhhhhI!! Pai!! – Puxou a toalha desesperadamente para tentar se cobrir, uma vez que o box era de vidro. O pai o encarou com a sobrancelha arqueada. – Espere eu sair pelo menos!! – O rosto branco meio corado e irritado. Não era por mal, mas né...
—Deixa disso menino! Te vejo pelado desde pequeno! Já limpei sua bunda e você não tinha vergonha. Até ria. – Saiu tranquilamente do banheiro abanando as mãos, como se estivesse falando de regar a horta. E sim, eles tinham uma.
—Pai! Não diga isso como se fosse normal! – Allen retirou a toalha da frente do corpo e terminou o banho em segundos. Saiu para o quarto já enrolado na toalha e foi até guarda-roupa. Seu pai sentado na cama.
—Aqui o dinheiro. – Olhou pra ele, aquele cabelo castanho até o ombro.
—50 reais?? Por que tudo isso? – Arregalou os olhos.
—Ora, Allen, e você come pouco? – Perguntou irônico. O garoto enrubesceu. Poxa, pai.
—Não precisa jogar na cara. – Se enfiou dentro do guarda-roupa, um biquinho surgindo.
—Vou voltar a dormir. Tome cuidado e mande um abraço pra sua amiga. – Levantou-se.
—OK, Daddy! Sleep well.
—Thanks... – A voz deve já estava longe no corredor. O garoto tratou de pegar uma calça jeans clara e uma camiseta preta. Bagunçou um pouco o cabelo a fim de cobrir o brinco, pôs o dinheiro e o celular no bolso. O all star estava perto da porta.
Em segundos se encontrava na rua. O Ballet da Lena não era muito longe e não era como se ele fosse desconhecido lá. Pôs o fone de ouvido, escolheu uma musica animada, que combinasse com a manhã, e foi andando no ritmo da batida.
As ruas estavam calmas, poucas pessoas andavam e era bonito ver algumas lojas abrindo e exalando a alegria da vida. Parou na padaria debaixo do prédio de arquitetura antiga rosa salmon e comprou uns três sonhos e um capuccino com chantilly. Com a fome que estava, desnecessário dizer a rapidez em que engoliu a comida, deixando, porém, um sonho pra Lena.
Sem mais delongas entrou na portinha que tinha uma plaquinha sobre si com os dizeres “La Rose Bianca” e subiu as escadinhas estreitas. Saudades daquelas escadinhas.
Na verdade, Allen conhecia aquele lugar muito bem.
Logo depois que se mudaram pra França, seu pai lhe matriculou nas aulas de Jazz que tinha no lugar, isso porque o garotinho já fazia em Londres. Allen devia ter uns 5 anos quando seus pais se separaram, e ele optou por ficar com Mana perante o juiz. Não porque não gostava da mãe, mas sim porque sempre foi mais apegado ao pai. E também sua mãe casara-se de novo e agora já devia ter filhos. Ela ficou em Londres então não é como se não pudesse vê-la. Ele até ia, mas de uns tempos pra cá tinha se ocupado demais e acabou se descuidando.
É, tinha que ir visitá-la nas próximas férias.
Assim, com aulas de Jazz, conheceu Lenalee. Foi num dia em que a professora queria alguém pra fazer par numa pecinha de teatro musical e acabou que, como ela também dava a aula de Ballet, ela foi escolhida e virou seu par. No fim, as aulas ficaram por pouco tempo, no máximo um ano. As pessoas já não se interessavam tanto e a classe foi desfeita. Porém, até hoje, o albino visitava o lugar então sabia o mapa do prédio com maestria. Em poucos segundos se viu na porta da sala de Lena e lá estava ela apoiada numa barra com uma expressão de dor. Sorriu tristemente quando seus olhos se encontraram.
—Allen Walker!! – Aquela voz conhecida. A mulher vinha em sua direção de braços abertos, vestia um colan preto que deixava definido seu majestoso corpo, uma sapatilha de ponta da mesma cor amarrada até o meio das finas canelas e o cabelo todo repuxado e machucado entre uma redinha. Impecável.
—Mrs. Anita! Que saudades! – Abraçou-a forte, o cheiro de perfume francês doce invadindo suas narinas.
—Você cresceu, rapaz! Ficou mui belo! Típico de um inglês. – Deu tapinhas no peito do albino, secando o garoto por inteiro. Allen sorriu sem graça, nunca sabia como reagir frente a elogios. Ainda mais vindo de uma pessoa tão bonita como ela.
—Ér... O-Obrigado, Mrs. Anita – Coçou a nuca, numa clara demonstração de vergonha e começando a voltar o olhar para Lenalle.
—Sim, sim! – A mulher deu de ombros, como se não fosse nada, e virou-se séria para as meninas, mandando-as descansar. As garotas foram ao chão. – Veio ver a Lenalee Lee? – Perguntou ainda mantendo o olhar nas alunas, como se reprovasse todo aquele cansaço. Ora, era um domingo! Todas deveriam estar dispostas.
—I-Isso... – Afirmou com a cabeça – Depois vamos tomar café juntos... Também aproveitei para matar a saudade do lugar... – E passeou os olhos pela madeira do teto. Dava-lhe uma sensação nostálgica de quando deitava-se no chão, depois de um sessão de Jazz, para recuperar a respiração.
— Não engorde minha pupila, Allen Walker. – Ela disse meio baixo e rude, deixando uma interrogação no albino, para logo depois aumentar a voz, chamando a atenção de todas. — Mas veio em boa hora! – E virara-se para encarar o menino com as orbes em brasa.
—Ahn... – Ah, Allen sabia o significado daqueles olhares. Eram os mesmos que abriam as temporadas de ensaios semanais, que mais pareciam uma amostra do inferno.
Antes que pudesse dizer algo, ela lhe puxou pelo braço, obrigando-o a ficar no centro da sala, todas as garotas com olhos curiosos fixos nele.
—É assim, Walker. – Aquela voz de “Eu dito o jogo” – No dia dos namorados vamos fazer uma apresentação do Lago dos Cisnes. E eu preciso de um homem habilidoso para fazer o Príncipe Siegfried. – Insira um olhar descarado e algumas mocinhas abrindo a boca, surpresas.
Anita se calou, nem pediu nem nada, apenas olhando para o albino inquisidoramente. Na verdade, aquilo era uma ordem.
—M-mas... Anita-san ! – Se desesperou, as mãos negando na frente do corpo – A senhora não acha que eu estou fora de forma?? Há tempos eu não danço! E mais, eu não sei Ballet! Sei Jazz! – Sim, sim, ela devia achar outro! Era o lógico!
—Ah, não tem problema! – Os olhos de Allen aumentando. – A gente dá um jeito! E Jazz também é bem próximo de Ballet! – O sorriso que ela lhe deu foi tão ofuscante e perverso que arrancou todas os argumentos da boca. Virou-se para as garotas. – Meninas! Já temos o nosso príncipe!!
Um suspiro de alívio e alegria inundou o lugar e agora Allen se sentia incapaz de recusar. Talvez pela alegria das alunas, ou pela ameaça silenciosa da mulher que, por sinal, já foi ex de Cross Marian.
Como eles tinham se conhecido? Melhor não.
—Odette, venha cá!! – Gritou e Lenalee se levantou, pondo-se à frente de ambos. O albino não segurou um mínimo sorriso. Ao menos isso, os velhos tempos!. – Palmas para nosso casal!! – E bateu palminhas frescas e silenciosas.
Depois que tudo estava muito bom, muito feliz, o diabo se mostrou e Allen fora forçado pelo resto da aula a se alongar, como se a última aula que teve de Jazz não tivesse sido há quase 10 anos. A cada vez que era empurrado sem dó nem piedade em uma abertura no chão, rogava a Deus que aquela tortura acabasse. E durante todo o processo, o cansaço, o esforço e a dor serviram para manter um certo moreno longe de sua cabeça, e aquilo por si só estava de bom tamanho.
A aula terminou às 10 da manhã, sofridas uma hora e meia. Enquanto estava largado no chão, sem sentir as pernas e jurando que havia distendido algum nervo, esperou Lenalee se trocar e saíram arrastados do prédio.
—Vai ser como nos velhos tempos! – Ela se agarrou ao seu braço, visivelmente animada. Allen andava estranho, muito ocupado com o sonho que havia guardado e garota recusara.
—Hmmuhmhufuhm!!
—Engula primeiro, Allen-kun. – Tampou a boca num risinho. O albino engoliu a massa que desceu arranhando pela garganta.
—Você é louca?? Aquela mulher quis me matar! Foi uma clara tentativa de homicídio! – Balançou os braços no ar, ela tinha que ver a gravidade da situação.
—Ah, não se preocupe, aquela calça que a Mrs. Anita te deu não ajudou muito! – Ela deu uma risadinha da cara indignada do menino e sentou-se no banco da praça em que caminhavam. Lenalee estava com a meia calça rosa do balé, uma sapatilha preta e uma blusa envelhecida de tricô que ia até o meio das coxas. O cabelo preso nas redinhas de forma mais gentil que a da professora, formando um coque perfeito. – Você dá conta. – Terminou com um sorriso gentil do tipo “Para de falar dobre dor, se não você vai aumentar a minha”.
—Espero... – Sentou a seu lado no banco da praça onde estavam, dando a última engolida no sonho. Permaneceram em silêncio por uns segundos, o suficiente para Allen se dar conta de que, realmente, tinham destroçado seus nervos. – Meu Deus, isso dói!! – Reclamou , encolhendo as pernas e as abraçando. Lena riu.
—Isso vai ser como nos veeelhos tempos!! – Ela olhou pro céu azul, sentindo os raios amenos que o sol emanava. Allen se perdeu naquele gesto, pensava que talvez fosse uma boa hora para mostrar o pesinho na sua orelha. O sorriso e a cor dos olhos dela era confiáveis o suficiente para revelá-lo.
— Sim... – Respondeu, imerso em sentimentos, apoiando as mãos atrás e ficando na mesma posição que a amiga. Chegou a levar a mão no cabelo, bagunçar os fios, raspar levemente no objeto prateado com a flor. E quando ia, finalmente, abrir a boca, ela foi mais rápida.
—Aproveitando que é o começo das férias, você devia ler a peça e nós podemos fazer compras!! – Declarou animada, batendo as mãos na coxa e balançando os pezinhos. Allen se assustou por um momento, mas logo riu. Era exatamente a mesma coisa quando encenaram João e Maria na infância. Aquela alegria do figurino, aflição do público e o sorriso dos pais.
— A peça é ano que vem, Lena! – Bateu sem força nos ombros dela, e, sem perceber, deixou a maré levar as angústias e a indecisão. Não tinha problema, né?
— Ai, Allen-chan! – Ria pouco. – Estou dizendo que precisamos de roupas decentes para você treinar! – Adquiriu um tom falsamente sério, e apontava-lhe o dedo indicador, como uma avó velha. O albino conseguia ver a Lenalee de cinco anos com a carinha emburrada por não conseguir fazer um plié perfeito.
—Claro, claro, vovó! – Brincou com o tom envelhecido que ela usara.
—Humf, idiota! – Ela se levantou, fingindo brabeza e Allen foi atrás, ainda sorrindo da infantilidade da moça.
Já não pensava em lhe contar sobre brinco, ou ameaças de multiplicidade.
Não que estivesse com medo, ou talvez exatamente por isso. Era medo de deixar aquilo levar suas férias de si? De deixar sua mente apodrecer com os péssimos pressentimentos da tempestade que viria? Talvez.
Mas por hora, só precisava dos raios do sol, de acariciar a chegada da primavera, Lena rindo e lhe passando roupas de ballet afeminadas. Sim, Allen Walker não precisava lembrar de nada, só queria continuar andando.
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