Honey

20 Coisas estranhas


Notas iniciais
Olá!! Boa tarde! Antes de tudo, muito obrigada pelos muitos comentários no último capítulo! Fiquei super feliz com a recepção de vocês! Também vi que tenho novos favoritos tanto aqui como em Prayer!! Ah, eu comecei a responder os comentários dos capítulos anteriores e espero não ter deixado passar nenhum. Ainda não respondi todos os do capítulos 19, mas vou terminar logo! De toda forma, vocês são incríveis, fico muito feliz por todos as lindas palavras que você me deixam! Vou deixá-los ler primeiro, mas peço encarecidamente que leiam as notas finais. Um grande beijo e espero que gostem.

Allen acorda atordoado no outro dia, como se alguém tivesse empurrado seu peito para baixo de uma só vez, o fazendo abrir a boca ofegante. Seu corpo parecia afundado no colchão, compacto como se tivesse ingerido toneladas de chumbo sólido. Também suas pernas pareciam imóveis, o que era um pouco desesperador, pois fisgadas de câimbra subiam e arrepiavam seus poucos pelos claros.

O pior de tudo, porém, era sua cabeça pesada, como se não houvesse tido um minuto sequer de descanso durante toda a noite. Sua mente o atormentou a madrugada inteira com sonhos impróprios e tudo parecia tão real que apenas pensar naquilo fazia seu rosto esquentar.

Okay, okay. Aquilo era normal, era coisa de adolescente. Acontecia.

Foi quando sentiu seu corpo gelado, apesar do aquecedor, e quando foi puxar o cobertor, sua mão esbarrou em algo molhado perto de sua barriga.

Foi instantâneo. Seu tronco subiu de uma vez e agora ele se encontrava sentado, vendo o caos em cima de sua cama. O cobertor grosso que o cobria estava chutado para a extremidade do colchão e a poça que molhava seus dedos parecia ser uma mistura de hidratante com…

Gozo?

Levou imediatamente a mão limpa à boca, incrédulo. Estava completamento nu, o peito gosmento e reluzindo. O frasco de hidratante de morango estava aberto e jogado na cama, ameaçando derramar caso fosse pressionado. Estava tudo manchado, bagunçado e aquilo certamente seria um problema enorme mais tarde, porém a única coisa em que sua mente nublada focava era no celular ao seu lado.

Oh. Meu. Deus

Seu rosto ficou tão quente, e sua visão embaçou tão rápido que Allen só pode deixar seu corpo cair para trás.

Vergonha, pavor, medo, aflição, ansiedade; tudo lhe invadiu tão rapidamente que faltou ar para oxigenar o seu cérebro. Os olhos claros tentavam focar o teto acima de si e tudo que sua mente gritava era que ele havia sido muito, muito, irresponsável!

Não havia dúvidas do que havia acontecido ali! A sensação dolorida de seu quadril, suas pernas grudentas.

Meu. Deus.

Uma insanidade, ele se deu conta, havia acontecido de verdade quando finalmente as coisas pareciam andar nos trilhos, e então tudo desceu pelo ralo. Àquela altura, tinha certeza, havia perdido toda a sua dignidade e muito provavelmente todo o respeito e autoridade que havia conseguido de Kanda.

O albino não era muito de xingar, havia sido bem educado. Mas naquele instante onze das dez palavras que vinham em sua mente eram algum xingamento e ele se sentia tão, tão irritado! E quase duplamente envergonhado!!

Céus!

A responsabilidade, a razão voltava à si e ficou tão jogado em sua cara que tudo o que aconteceu naquela madrugada foi resultado de uma explosão de frustração sexual adolescente que ele vinha guardando desde que tudo aquilo começou! Pior, frustração essa que só foi atiçada quando tudo com um homem que conhecia há anos se acabou…

Kanda era bonito, sim, com certeza. Allen tinha uma… relação? Com ele, sim. Pode se dizer que sim. Duas certezas estranhas revertidas pela adrenalina e excitação da puberdade, bem como por sentimentos de solidão, incapacidade e ansiedade, transformaram um simples sonho em algo real.

Algo cujas memórias eram nubladas, confusas; porém reais.

Mas é claro. A mente de Allen queria perder o controle por alguns instantes, sua cabeça envolta pelo sono e por sentimentos íntimos e reprimidos o impediram de pensar na merda que fazia naquela hora. Pelo contrário, todos os seus poros pareceram adorar a voz possessiva do outro, como se pudessem confiar tudo a ela.

Genuinamente, ele acreditava na voz real do moreno, mas aquela que ele havia usado, definitivamente, não era a que ele conhecia. Não mesmo.

O Walker nunca havia ouvido Kanda daquele jeito. Tão lascivo e superior, tão sujo daquele jeito. Não parecia ele, tinha certeza. Yuu era mais do tipo calado, ranzinza, que impunha suas vontades com apenas um olhar e não palavras nojentas como aquela.

Vadia?

Allen estava surtando naquele momento. Não era para nada daquilo ter acontecido! Entretanto, em momento algum passou pela sua cabeça que o moreno era o culpado. Na realidade, ele que se sentia culpado. Todos os limites, todas as regras, todo o avanço que tinha feito naquele desafio chamado Kanda Yuu estavam pisoteados por um ato inconsequente e impensado.

Ele estaria decepcionado? Kanda estaria decepcionado? O que ele estava pensando daquela postura tão…

O pequeno puxou seus cabelos com força, decepcionado consigo mesmo. Um bico triste fez-se entre seus lábios finos e sua cabeça maquinava saídas para aquela situação constrangedora.

Sentiu vontade de chorar e choramingou porque as coisas estavam indo tão bem e ele tinha que estragar tudo! Bufou irritado, frustrado e triste, tudo ao mesmo tempo. Então pelos próximos minutos, onde ele desconfiava que ainda estaria amanhecendo, ficou em um completo silêncio, onde sua consciência o culpava e fazia previsões não muito promissoras.

Uma parte de si dizia que Kanda voltaria a ser um babaca consigo, mas outra particularmente maior recusava cogitar aquela hipótese. Querendo ou não, havia desenvolvendo uma confiança nele, uma esperança que não o fazia desistir dele. E pensar que aquela confiança poderia ser quebrada num momento de tamanha fragilidade como aquele não era muito saudável.

Foi assim que seu celular vibrou e automaticamente Allen o tomou na mão com um pulo.

O fato de o nome do mais velho piscar na tela lhe avisava que as coisas mudariam bruscamente. Kanda nunca mandava a primeira mensagem.

“Estou voltando mais cedo.”

Não um “Bom dia”, não um “Precisamos conversar”. Ele disse em poucas palavras sóbrias a única forma de lidar com aquilo, e o albino conseguia entender o que ele quis transmitir com aquilo.

O Walker estava começando a tentar entendê-lo, começando a lidar com ele. Por esse mesmo motivo, não poderia se dar ao luxo de deixar todo o seu esforço com ele ir por água abaixo. E alguma coisa lhe dizia que estava na hora de passar para a próxima fase.

Talvez exatamente o fato de ele ter mandado primeiro a mensagem, se preocupado o suficiente para isso.

Foi com uma vozinha insistente repetindo-lhe isso que ele começou a arrumar as suas malas, pronto para ir para Londres e resolver tudo, por mais difícil que fosse. Até lá, poderia pensar mais calmamente, arrumar uma solução e propô-la a Kanda.

Por hora, era só isso que poderia fazer, enquanto tentava manter sua mente livre de coisas constrangedoras e se esforçava para limpar a bagunça que fizera nos lençóis.

—--K&A---

O aeroporto estava relativamente cheio aquele dia. Muitas pessoas andavam para lá e para cá e um ruído longínquo de conversas e choro de bebê tomava a mente do albino. Ele estava em pé, próximo ao portão de desembarque internacional. Os olhos fundos e inchados, as olheiras escuras e o cabelo brilhoso de sujeira denunciavam o inferno mental que os últimos dias haviam sido.

De uma forma surpreendente, tentar lidar com Kanda lhe queimava os neurônios. Pior, ter passado noites tentando traçar planos para levar aquela relação para algum lugar estava exigindo muito do seu ser. Até porque abandonar o barco já não era uma solução – muito menos algo que faria – , uma vez que Allen havia admitido para si mesmo que gostava da presença de Kanda, gostava de seu cheiro e de sua voz.

Era uma admiração e paixão que nasceu de uma forma torta, mas que estava ali. Em meio de muito caos, imperceptível mas corrosiva, ela estava.

Agora Allen tinha as mãos geladas no bolso de seu suéter, a cabeça baixa e os lábios comprimidos, enquanto esperava o voo de Kanda liberar as bagagens. Caso levantasse a cabeça e forçasse o olhar através do vidro da porta, ele conseguia ver o moreno. Yuu estava do outro lado da porta, próximo à esteira, braços cruzados, cabelo preso em um coque e postura rígida.

Talvez fosse impressão, mas o albino podia jurar que ele estava incomodado com algo. Talvez com a demora das bagagens…?

De qualquer forma, vê-lo pela primeira vez depois daquilo não foi como ele esperava. Entretanto, mesmo que quisesse fugir por pura vergonha, ele se mantinha ali, pois estava na hora de se enfrentarem cara a cara, coisa que, até o momento, nunca fizeram.

Além disso, a sensação que teve quando viu o corpo alto aparecer ao longe foi que, mesmo tendo estado juntos durante meses, eles se desconheciam. Sim, isso mesmo. Foi necessário ambos fazerem uma loucura no meio da madrugada para isso vir à tona no pensamento do garoto.

Querendo ou não, Allen e Kanda eram desconhecidos. Desconhecidos que conviveram juntos, que sabem parcamente ler a expressão do outro, que frequentam a mesma escola e inclusive já dormiram na mesma cama. E… bem.

Mas ainda desconhecidos.

E aquilo era insano! Porque Allen tentara, certo? Desde o começo ele tentou fazer aquela convivência dar certo. Ele lutou, bateu de frente, quebrou regras e preconceitos e fez de tudo para ser o Honey de Kanda Yuu. Para ser aquele que se orgulhava de dizer isso.

Mas… Deus, agora tudo parecia tão óbvio! Foi preciso embarcarem naquele trem desgovernado que era uma relação amorosa (?) entre pessoas que não se conheciam para se tocar que, não, ele não tinha que ser o Honey perfeito! Eles não eram robôs para seguirem o que aquele sistema ditava!

Foi um erro! Foi um erro que se passou como solução! Que se mascarou através de conversas “normais”, pessoas elogiando como Allen estava “mudando” Kanda. Como se os dois fossem clausulas de contrato! Como se ambos fossem apenas um negócio.

As conversas eram forçadas, ele devia ter percebido. Ele sabia que era assim com aquela classe. E Yuu não precisava mudar – bem, talvez em algumas coisas – , precisava, acima de tudo, de alguém que o aceitasse e o amasse.

Aquela era a verdade. Era o motivo para o fracasso daquilo tudo entre ambos.

Mas agora, quando vê-se apaixonado por um desconhecido-conhecido, parece-lhe que todo o seu esforço foi jogado no lixo. Porque estava tudo errado, tudo.

Suspirou cansado, passando a mão pelos cabelos oleosos e erguendo o olhar. Ele parecia exausto, era como Kanda o via. Mas Allen também pensava a mesma coisa do moreno.

Ambos derrotados, adolescentes. Jogados na lama que era a convivência forçada pelo sistema Honey.

Culpados, desorientados, derrotados. Adolescentes. Isso era um ponto que até o momento, todos pareciam esquecer. Kanda e Allen eram adolescentes impulsivos, extremamente parecidos, que tomaram responsabilidades de adultos e tentaram cuidar um do outro. Mais Allen que Kanda, na verdade.

Entretanto, que culpa eles tinham? Como eles poderiam saber que forçavam algo que não daria certo? Que solução duas crianças, que nunca tiveram relacionamentos verdadeiros, poderiam encontrar?

O importante é que eles tentaram. Erraram, mas tentaram. Porque errar é humano, e ser humano, lidar com a situação que tinham em mãos, e amadurecer com isso era um desafio para eles agora. Era uma nova prova.

Kanda que sempre esteve no mundo dos negócios, rodeado de dinheiro, garotas, futilidades. Sem saber o que era amor verdadeiro, o que era companheirismo. Que descontava muito em bebidas e achava que tudo se resumia a contato carnal.

Allen que entrou no mundo dos negócios devido à uma atração carnal por um homem bem mais velho. Que sempre quis as melhores notas, sempre foi gentil, nunca explodiu com ninguém, sempre seguia as regras.

O resultado era óbvio para qualquer um que visse. O problema, porém, é que apenas crianças na mesma situação viam. O problema era que esse tipo de relacionamento forçado e romantizado era normal na vida das pessoas com quem conviviam.

Nesse momento Kanda estava ali, na sua frente. E pareciam tão distantes. Era um abismo sentimental entre eles.

Como ninguém percebeu isso antes?

Ele lhe esquadrinhava o rosto, correndo as orbes num tom azul escuro, quase preto. Eram orbes carregadas, confusas. Rolavam de um lado para outro, o lábio fino tão branco em sua tez pálida. Procuravam respostas, aflitos. As muralhas de areia estavam ali, parecendo tão frágeis e destruídas!

Allen se identificou. Eles eram parecidos, sim. Um tentando sobrepor o outro. Batalhando como se aquilo fosse uma corrida. Aprendendo a ler o outro apenas para vencer, para conseguir um troféu quebrado há muito tempo.

O contato visual entre eles demorou. Ambos calados, o clima sufocante. Ambos com mãos escondidas, provavelmente querendo não mostrar o nervosismo que fazia tremular os dedos.

O crucial eles nunca tiveram. O contato, o entendimento, o companheirismo. Eles nunca tiveram sequer uma conversa decente.

—Nós precisamos conversar. — E nunca uma frase saiu da boca do albino de forma tão carregada.

As palavras pairaram no ar, como se criassem uma bolha de isolamento daquele lugar tumultuado e só restassem os dois. Kanda&Allen. Allen&Kanda.

Foi visível o quão rígidos os ombros do moreno ficaram. Foi quase em câmera lenta que seu olhar se apagou e Allen prendeu a respiração, porque sabia sim o que ele estava sentindo: culpa e medo. A mesma coisa que havia rondado suas horas anteriores.

Yuu continuou encarando-o. Os olhos bem abertos, opacos e escuros. Os lábios agora também foram comprimidos e um pequeno aceno de cabeça, quase imperceptível, foi dado.

Nósprecisamosconversarnósprecisamosconversarnósnuncaconversamos

Ele foi o primeiro a se mover, como se tivesse se forçado a lidar com a situação e pôr um ponto final àquilo. Seus sapatos retumbaram no chão polido do aeroporto e Allen nem sabia como havia ouvido, pois seus ouvidos pareciam cheios de sangue e transmitiam em uma altura absurda as batidas de seu coração.

O moreno passou por si, a cabeça baixa, os ombros duros, e deixou o seu típico perfume de lótus para trás. Andou três passos de costas para o menor, sozinho, enquanto o albino permanecia no mesmo lugar, o coração alto martelando contra sua caixa toráxica, a garganta sendo sufocada por alguma coisa.

Por que você não viu isso? Por que aceitou? Isso não é, nem de longe, amor.

Os passos pararam.

—Honey. — Sua voz grossa e profunda soou baixa e, Deus, aquilo começava a sangrar.

Honey, sim. Era óbvio. Você que não percebeu. Ele que não tinha sido ensinado a esperar nada melhor que uma relação como aquela. Vocês que foram enganados.

Logo, o menino virou-se e seguiu as costas largas que já voltavam ao movimento. Sentiu-se pequeno, insignificante e distante. Estúpido, talvez. Culpado, bastante. Constrangido, seu sobrenome.

Seguiram em silêncio. Ao saírem pelas portas automáticas, dois carros estavam na porta. Uma Rover, onde as malas de Kanda eram postas, e a Mercedes, onde entraram. Yuu no banco do motorista, Allen no carona. Fecharam as portas suavemente, num baque surdo e carro partiu silenciosamente, alimentando a tensão entre eles. As ruas, a movimentação exterior, tudo não passava de um borrão, e o cheiro dele misturado com o climatizador moía o coração do albino aos pouquinhos.

Não seria hipócrita, mas ele queria abraçar Kanda até juntar os pedacinhos. E queria ser abraçado porque seu cacos estavam vazando pelo chão.

Não agora. Não entre duas pessoas tão distantes.

—Podemos ir a algum restaurante. — A voz baixinha do Walker soou, e foi tão suave que o som pareceu fazer parte do carro, sumindo aos pouquinhos entre o estofado de couro caro do veículo. Kanda nada disse, permanecendo calado e compenetrado, o maxilar travado enquanto dirigia.

O inconsciente do menor gritava que ele era o culpado por aquele silêncio. Gritava que estava tudo bem simplesmente seguir com aquela relação deturpada, mas não! Não estava!

Qual era a cor preferida dele?

Novamente, eles se entregaram à bagunça que estavam suas terminações nervosas.

Yuu continuou a dirigir quase no automático, seguindo para um restaurante pequeno, simples e reservado, ainda que requintado. Em meio aos seus pensamentos turbulentos, ele achou que Allen fosse se sentir mais à vontade ali, para o que quer que fosse.

Naquele momento, ele só queria voltar no tempo e ter desligado o telefone quando encontrou o garoto naquela...situação. As coisas estavam finalmente andando e um ato impulsivo jogou tudo fora.

Agora era como se Allen estivesse novamente escorregando como areia por entre seus dedos e doía, doía mesmo. Novamente, mesmo tentando, ele havia agido com impulsividade para cima do garoto. Havia sussurrado coisas sujas, como fazia anteriormente com todas as outras. Foi algo fora de seu controle, claro, mais ligado à puberdade em si do que qualquer outra coisa, mas não deixava de ser verdade.

O que Allen pensava dele agora? Por tê-lo tratado daquela forma? Por ter se deixado levar por toda a excitação do momento? Ele poderia ter entendido as coisas errado, poderia ter sentido nojo, desprezo por aquele comportamento que para Kanda era normal, quando com suas Honeys.

Não tinha sido por querer, não tinha. E por mais que parecesse que estava fazendo uma tempestade em copo d´água, ele se sentia culpado. Ele tinha medo de ter errado e não conseguir mais consertar.

Allen era o único que o fazia querer consertar algo.

Nunca pensou que diria isso, mas tudo que queria era apagar aquela madrugada de sua vida.

O carro foi estacionado e ambos pareceram seguidos pelo fracasso quando desceram. O Walker esperou que o outro travasse o carro e o encarou, como se dizendo para ir na frente. Yuu tomou a dianteira, arrumando seu colete cinza sobre a camisa social preta. Subiram os pequenos degraus do restaurante, cuja frente era composta por paredes de vidro fumê, e logo Allen foi tomado por um aroma de noz, bacon e vinho. Passando o olho rapidamente, ele notou a iluminação baixa e dourada. As mesinhas de madeira pareciam gentis arrumadas com toalhas brancas e apenas isso. O climatizador estava numa temperatura aconchegante e haviam poucas pessoas ali, confirmando a suspeita do mais novo de que aquele era um lugar reservado.

Kanda não esperou ninguém vir atendê-lo e começou a se dirigir para uma mesa ao canto, mas que ainda era adornada pelo vidro da frente, o qual dava uma visão acolhedora da rua de paralelepípedos. Quando o abino se deu conta, estavam frente a frente, silenciosos e distantes.

Perdidos em si próprios.

Houve uma coceira em sua garganta e a necessidade de falar primeiro. Em suma, ele não fazia ideia do que falaria, pois o discurso que tinha em mente fugiu pela porta e nunca mais foi encontrado, então apenas abriu a boca e deixou as palavras fluírem enquanto apertava os próprios dedos uns nos outros.

—Não acho que aquilo que fizemos foi certo… — Sussurrou aleatoriamente e logo sua respiração engatou. Kanda fechou os olhos com força, suspirando pesado logo depois. O silêncio parecia ter costurado sua boca. Allen continuou porque provavelmente aquilo seria um monólogo e, porra, ele poderia sentir raiva do idiota em sua frente se não fosse a situação. — Na verdade, eu não acho que tudo isso — gesticulou entre os corpos — começou de maneira correta.

E, bem. Ele sabia que Yuu esperava por um Drop e, realmente, aquela situação poderia facilmente levar à um. Todavia, não era isso que o menor queria. Ele queria ficar, verdadeiramente. Mas queria ficar por vontade própria e não por um brinco.

Livrar-se do objeto seria impossível, mas a responsabilidade que ele trazia podia muito bem ser reciclada.

Allen respirou fundo e começou a despejar tudo num fôlego só.

— Eu preciso que você me ouça… Preciso que se coloque no meu lugar. — Pediu baixinho, encarando a mesa vazia. O pano maravilhosamente limpo. — Nós nos conhecemos numa situação tão… — Sorriu tristemente e ousou levantar o olho para um moreno enrijecido.

Algumas coisas bombardearam a sua mente em velocidade recorde, rugas se fazendo entre as sobrancelhas de Allen, e ele voltou a encarar o branco, seu coração parecendo vazar para seu estômago e uma sensação horrível se apoderando dele.

—A primeira vez que eu vi você… — Começou, sem saber muito como faria aquilo e esperando que ele entendesse tudo de sua voz rouca e contida. Nada do habitual agudo que tinha na voz dele e isso, inconscientemente, preocupava o mais velho. — Você tinha machucado o Alma e estava quase cometendo um assassinato. — Uma tentativa falha de brincadeira e então o albino decidiu se manter verdadeiramente sério. — Eu fiz pose, rebati, mas quer saber? Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, eu só sentia raiva da sua prepotência e do seu olhar superior.

Yuu se remexeu na cadeira, desconfortável.

—Eu não fazia ideia do que ia acontecer, mas então você agiu daquele jeito e quando eu percebi já estava com isso. — Apontou para o brinco e fez uma cara de desgosto. — Você foi horrível naquele dia e nos dias seguintes. Eu realmente deveria ter ido embora.

Então olhou para ele a tempo de vê-lo vacilar no olhar e engolir em seco.

—Você não foi. — O moreno finalmente disse, a voz dura, como se tivesse acusando de algo, porém Allen soube que aquilo era um mecanismo de defesa.

—Tem razão. — Levantou os ombros, numa expressão leviana. — Eu fiquei porque eu quis. Não porque o Alma pediu, ou por causa da bolsa. Pensando agora, eu realmente poderia ter te deixado.

Àquela altura, uma atendente havia feito a menção de se aproximar, mas ao notar a conversa séria em que aquele cliente da casa se encontrava, recuou.

Ambos se encararam, confusos e envergonhados, de certo modo. No entanto, Yuu não contestou, como se preparado para aceitar um adeus, então o Walker continuou num ímpeto de coragem.

—Isso, porém, não muda o fato de você ter sido um babaca. — Arqueou a sobrancelha e o moreno crispou o lábio, como se mordesse a própria língua. Resolveu atiçar mais, para arrancar algo dele e, quem sabe, aliviar a atmosfera. — Você deveria me agradecer, sabe?

E, bem, sim. Digamos que Kanda tinha consciência disso, mas ninguém precisava saber.

—Diga logo o que veio dizer, Moyashi! — Se irritou, uma carranca em seu rosto que, ufa, pareceu aliviar tudo.

— O que eu quero dizer… — O albino tentou controlar o sorriso desafiador ao olhar para ele, então resolveu abaixar os olhos e voltar ao tom de voz anterior. Manso e cauteloso. — É que tudo começou de um jeito errado entre nós.

Assim, Yuu quase revirou os olhos, porque daquilo ele sabia! E aquela tortura para o que aconteceria estava matando-o aos poucos.

—Nós estivemos presos a um contrato e acho que eu esqueci o que realmente importava… Esqueci que somos humanos, dois adolescentes, e que eu, supostamente, deveria lembrar você disso.

Dessa vez o pequeno não pode prestar atenção na reação do outro, porque sua cabeça rodou ao final da frase e tudo em que podia prestar atenção era no nervosismo e ansiedade que o consumia. O que se seguiu foi tudo numa lufada de ar.

—Eu fiquei com raiva, com ódio de você. Eu quis te provar que eu não era qualquer um e que você não conseguiria me dobrar às suas vontades! Eu quis que você soubesse quem era Allen Walker, quis que ninguém me subjugasse com o olhar… — Respirou fundo e então soltou doloridamente. — Então eu decidi ficar com você.

Aquilo não havia sido um completo choque para Yuu, no entanto. Allen admitir que ficou mais por seu orgulho que por si já era esperado.

—Eu soube que as outras Honeys fizeram o Drop, mas eu queria ser diferente. E cada vez que eu olhava para você, eu conseguia ver, nem que um pouco, o tanto que você guardava dentro de si.

Oh, aquilo sim havia chocado.

—Eu sei que nós começados errado e que nós dois erramos, seja por orgulho, seja por personalidades fortes, mas eu estou aqui agora! Veja! — Sua voz aumentava gradativamente, talvez por desespero, talvez por falta de ar. Ele levou ambas mãos ao próprio peito e o coração de Yuu falhou uma batida quando levantou os olhos para o olhar aflito do pequeno.

Allen, ao perceber seu estado, cobriu os olhos com a franja e mordeu o lábio inferior. O moreno também desviou o olhar.

Primeiro ele sentia vontade de vomitar só de pensar em olhar nos olhos dele, porém agora ele queria que o moreno lhe desse toda atenção e ouvisse cada mínima palavra, porque estava sendo difícil proferi-las .

—Eu estou… — Sussurrou — Mas não podemos continuar assim.

Um peso tomou o corpo do mais velho e ele fechou os olhos, os punhos apertados sobre a mesa.

—Nós não podemos continuar assim. Eu ainda não sei lidar com você e acho que apressamos as coisas. Sabe? Isso não é um livro de romance. — Voltou a tentar fazer piada, mas o outro logo cortou.

—Você também não é fácil.

Allen ergueu o olhar e sorriu leve por alguns segundos, gostando da observação dele.

—Não sou… — Admitiu e voltou a encarar a mesa. Abriu a boca, decidido a falar logo, pois estava sentindo falta de respirar decentemente. Mas nada saiu.

Nenhum dos dois arriscava olhar para o outro e a presença de Kanda estava tão distante que era desconfortável. Apenas o perfume dele denunciava sua estada, pois era como se ele estivesse se diminuindo, se encolhendo como uma criança indefesa mesmo dentro daquela postura alta e forte.

Ali estava, Kanda Yuu tomado pelo medo, de cabeça baixa, os punhos tão apertados que os nós dos dedos estavam brancos.

—Fale comigo, Bakanda… -O albino arriscou, o coração explodindo em sua caixa torácica.

Ele o olhou, tudo parecendo trancado lá dentro. Allen sentia dor.

—Fale alguma coisa… Me ajude… — Perguntou, os olhos ardendo, a garganta seca.

No entanto, mesmo usando de sua voz de persuasão, ele não o olhou. Novamente abaixou o olhar e, Deus, aquilo irritou muito Allen. O mais novo aguardou boquiaberto, tomado de emoções dolorosas e agoniantes, mas quando viu que não viria nada dele, explodiu.

Kanda não era assim! Ele poderia não saber tudo sobre ele, mas ele não era assim!

—Kanda, olhe para mim. — Tentou deixar a voz mais firme, mesmo que suas pernas tivessem virado geleia. — Por favor. Eu estou tentando, mas é tão confuso! Uma hora você é o ser superior da terra e em outra você está assim e… — Mordeu os lábios e o que veio depois não estava em seu script. — Eu estou aqui, não estou? Por favor…

O mais velho se sentia pressionado. Obviamente queria o menor perto de si, pois, de um jeito ou de outro, ele liberava novas sensações em seu corpo. No entanto, falar aquilo em voz alta era uma tortura. Yuu nem mesmo sabia se falaria as coisas certas. No fim, Allen quem tomava partido de tudo, quem se entregava para tudo, nunca questionando abertamente, porém controlando tudo por trás dos panos. Kanda não sabia fazer isso. Apenas, inconscientemente, tomava posse do falso controle que o albino lhe dava e aquilo em si bastava.

Mas ser questionado, assim abertamente? Ele não era um livro para ser aberto.

Assim, os dedos longos e gelados do francês foram até um vinco formado entre suas sobranceçhas, esfregando ali como se o ato pudesse retirar os demônios que voltaram com tudo para lhe atormentar. Ninguém precisava saber, também, que o que comandava aquele inferno em seu interior estava bem ali, na sua frente, encarando-o com olhos mergulhados em um turbilhão de emoções que Kanda não conseguia identificar.

— O que você quer que eu faça, Allen? — Por fim perguntou num suspiro impaciente e confuso, subindo a franja com os dedos e se encostando no estofado da cadeira. Um cansaço enorme abateu-lhe e Yuu quis dormir, fechar os olhos e deixar tudo o engolir.

O menor o encarou, tentando achar alguma coisa em seu rosto. Dias atrás Allen podia dizer que conseguia ler algumas expressões corporais dele, mas naquele momento não conseguiu. Talvez por não conseguir dizer o que sentia, quem dirá dizer o que se passava pela cabeça do outro.

Acabou por gaguejar no começo.

—Eu… — Mordeu os lábios e a essa altura, eles estavam inchados e avermelhados de tanto serem mordidos. Kanda teria passado mais do que três segundos encarando-os se não fosse a situação. — Eu quero recomeçar. Eu realmente acredito que o que aconteceu foi uma prova disso. Você ainda está preso ao sistema, eu estou preso a você, estamos os dois… Nisso e eu… Eu acho… — Allen acabou se enrolando e ergueu os olhos perolados pedindo por socorro.

A confusão era mútua mas, ah, mas ali estava uma certeza: Kanda gostava muito daqueles olhos para deixá-los irem embora.

Então o silêncio reinou durante segundos que poderiam ser anos, séculos quem sabe. Ambos se encarando, mordendo os lábios inferiores sem nem notar. Quem visse de fora acharia que aquelas duas crianças de cinco anos estavam veemente lidando com uma situação onde uma cidade japonesa seria atingida por uma bomba, de tão tensa que a atmosfera estava.

Afundados nos olhos um do outro, dois tons de azul tão diferentes, um quase chegando ao preto, outro na linha do prateado. Havia uma confiança mútua escondida pela vergonha, pelo receio e pelo medo de arriscar algo tão grande para dois adolescentes. Porém havia também a excitação, a vontade de encontrar alguém que pudesse rir das situações pelas quais passaram e aguardasse animada pelas quais ainda viriam.

Sem saber como iam seus pensamentos, Kanda simplesmente se viu diante de outro questionamento: o que eles faria amanhã, caso decidissem apagar tudo o que passaram e recomeçarem?

Foi nesse preciso momento que descobriu que já havia passado por cima de seu orgulho, lutado contra a parte de si que dizia que iria ser deixado sozinho novamente, esperado alguns segundos e observado um Allen nervoso e batendo a perna.

—Essa vai ser a segunda vez que vamos recomeçar algo. — Com a voz extremamente baixa, aquelas palavras saíram arranhando sua garganta e ousaram ditar um relacionamento impensável para duas pessoas tão jovens.

Imediatamente, um Allen surpreso iluminou seus olhos e claro que Yuu torceu os lábios porque sentiu-se aliviado com aquele sorriso meio estúpido dele. Novamente, não era como se alguém precisasse saber.

O menor então sentiu uma dúzia de coisas que deveria dizer como o fato de não querer mais ser chamado de Honey, bem como os ciúmes e a desconfiança desnecessários do mais velho para com ele. Coisas que explodiriam seu pequeno corpo caso não fossem postas em palavras altas e em bom tom. Porém naquele momento, mesmo com todas aqueles novos passos que agora davam juntos, Allen só conseguia sorrir, mantendo um sorriso aliviado e satisfeito que Kanda amaldiçoava em sua mente. O Walker realmente ainda diria muitas coisas para o moreno e, silenciosamente, já pensava em quais situações poderia fazer isso.

Yuu, porém, agora ostentava as sobrancelhas juntas, como se soubesse que por dentro daquela cabecinha se passava algum plano que não era transmitido pelo brilho maravilhoso dos olhos dele. Era perigoso? Com toda certeza, mas ele não pôde levantar e ir embora.

Antes mesmo que pudesse questionar, a atendente aproximou-se, talvez julgando uma boa hora para abordá-lo, uma vez que o sorriso gigante do outro poderia ser considerado um bom sinal. Ela já o conhecia, o mais novo pontuou, pois chegou e apoiou a mão no encosto de Kanda. Cumprimentos foram trocados e os olhos prateados observavam aquela interação, aguardando que alguma atenção fosse lhe dada.

—E esse belo rapaz? — Ela perguntou e Allen observou que, apesar da aparência nova, ela possuía rugas de cansaço ao redor dos olhos. Ele sorriu e ia apresentar-se, porém ela continuou. — Theo disse mesmo que havia boatos na empresa de que você estava experimentando um Honey homem. — Não havia maldade em sua voz, não. Foi apenas algo que saiu de sua boca, porém o albino abaixou levemente o olhar, desfazendo o sorriso para morder a parte interna da bochecha como se ponderando se falaria algo. Antes, no entanto, de chegar a uma responda educada, mas que desfazesse aquela impressão horrível, Kanda falou.

—Theo está entretido com as fofocas da Lune? — Estalou a língua e remexeu-se na cadeira descruzando os braços. — Lilith, esse é o meu Ho- Cortou-se confuso no meio da premissa, deixando um ar confuso com sobrancelhas franzidas, porque o simples olhar que o pequeno lhe deu o impossibilitou de concluir o raciocício fácil. Óbvio que não havia uma explicação lógica. — É Allen...ele está comigo.

—Ah, olá! — Os olhos dela eram bem escuros e a pele levemente bronzeada lhe lembrava alguém que passava dias em casas de praia. — Eu sou Lilith, e fui babá do Yuuzinho por um tempo. — Ela sorriu travessa e Allen viu, boquiaberto, Kanda se emburrar e fazer um bico para o lado da janela.

—Ahh… — O Walker soltou surpreso, mas no fim do som, sua voz parecia carregada de malícia. — A babá… — Sim, malícia. Kanda revirou os olhos e se negou a olhar para o pequeno.

—Lilith, o cardápio. — Rugiu baixinho e o outro pôs a mão nos lábios o encarando com um olhar de denúncia e divertimento.

Allen era um monstrinho.

A morena deu de ombros, e colocou dois cardápios na mesa. Yuu imediatamente passou a olhar o seu, mesmo que já soubesse de cor o que pediria. Allen, entretanto, parecia perdido e talvez, só talvez ele fingisse olhar para dar tempo à escolha do menino.

—Tem pimenta nesse aqui? — O pequeno perguntou, com o dedo apontado para algum prato. Seus olhos ergueram para a moça e ela começou a explicar os ingredientes, bem como a culinária mediterrânea que serviam naquele estabelecimento.

Rapidamente, o moreno se perdeu e sua visão desfocou do cardápio. Aparentemente, aquela seria a primeira vez que almoçaria com Allen e a conversa de minutos atrás rodava sua cabeça, como se procurasse algum espaço onde pudesse se instalar. Era tudo muito novo para ele, mas o simples fato de ele ter ouvido tudo que o menor disse e não deixado escapar pelo outro ouvido já era um avanço que o albino conseguira há um bom tempo.

—Ah, eu não sei! — Kanda foi tirado de seus pensamentos quando Allen choramingou, emburrado na sua frente. Lilith parecia verdadeiramente preocupada.

—Você pode tentar o talharim… — Ela tentou, e ver o de olhos prateados fazendo birra por comida era muito interessante aos olhos do mais velho.

—Eu já comi curry…Poderia pedir esse aqui... — E novamente uma discussão foi iniciada.

Allen a olhava de baixo, seus cabelos platinados estavam atrás da orelha e uma franja se dividia pela sua testa. Enquanto Lilith falava, ele assentia e seus lábios finos estavam levemente separados. Kanda observou tudo aquilo e quase, quase sorriu leve ao vê-lo fazer bico pelo que a moça fazia.

Mas não. Não.

Pigarreou e os dois lhe deram atenção. Sua feição estava perfeitamente clara.

—Traga dois do de sempre. — A moça olhou para Allen, que não teve reação. Acabou por anotar o pedido e durante isso Yuu olhou para o olhar interrogativo do outro. — E uma porção de batatas à moda da casa. — Finalizou, Allen tombando a cabecinha para o lado.

—Vinho? — Ela perguntou, sabendo do acompanhamento.

—Duas taças.

—Você está dirigindo, e o que você pediu? — O Walker franziu as sobrancelhas, mas Kanda o ignorou prontamente.

Ela fez o pedido e saiu. Allen, por sua vez, depois que percebeu que não teria uma resposta, começou a falar sobre sua viagem antes mesmo de Yuu processar sua mudança de humor. Para sua sorte, porém, o almoço chegou antes que ele pudesse questionar sobre a Rússia.

Kanda estava bem em ouvi-lo apenas.

Comeram em silêncio, não um forçado, mas um silêncio em que os pensamentos passavam pelo outro e refletiam na bolha em que ambos estavam. Não era necessário uma palavra para que os dois soubesse que o outro estava ali, ao contrário, parecia necessário absorverem aquela situação e não estragá-las com um monólogo de Allen e o silêncio de Kanda.

A conversa que tiveram, de repente, pareceu pertencer a outro tempo, mesmo que o moreno tivesse total conhecimento de que ela não estava terminada. Todavia, a necessidade da pausa se fez mais alto, ambos poderiam sufocar na atmosfera pesada que eram capazes de criar sem nem perceber e, por hora, era melhor recuperar-se do afogamento de emoções que tomou seus corpos.

—Eu quero passar esses últimos dias de recesso com você. — O albino disse e parou tudo o que estava fazendo, olhando-o determinado. Kanda pensou que ele havia pensado algo no segundo anterior e já falava como se fosse a descoberta do século. Arqueou as sobrancelhas para ele. — Não me venha com essas sobrancelhas, bakanda! Só cale a boca e me pegue lá em casa amanhã. — Ele sorriu grandiosamente e o moreno apertou os olhos para aquilo. Ali tinha coisa.

Allen sorriu para as batatas fritas restantes que devorava. Ele aparentemente havia gostado. Kanda inconscientemente sentiu certo alívio, mas sua mente estava concentrada olhando o olhar travesso do outro.

—O que você está tramando? — Rangeu os dentes, mas apesar da postura, como se estivesse com raiva de não ter a devida atenção, não estava realmente bravo.

O mais novo quase rasgou as bochechas quando tentou aumentou o sorriso, e apoio o cotovelo na mesa, seguido do queixo na mão. Um brilho curioso passou por suas orbes enquanto o sorriso diminuía e ele se preparava para falar. Sua barriga parecia uma gaiola de borboletas com fome.

Kanda cruzou os braços, desconfiado. Assim que abriu a boca para agilizar a mente lerda do Moyashi, ele falou, com uma voz falsamente inocente.

—Estava escolhendo os sabores de sorvete que você vai ter que me pagar quando sairmos daqui por ter me feito passar tanta raiva.

E a risada dele ecoou pelo restaurante quando viu a carranca do mais velho. Só que diferente do que Yuu pensou, ele não se importou com as pessoas os encarando, e acabou demorando alguns segundos para responder.

—Não conversamos tudo ainda… — As palavras saíram num tom incerto e o moreno franziu o cenho para sua própria postura. O sorriso do albino diminuiu, mas não se apagou.

—Podemos terminar amanhã, quando você for me buscar. — Seu olhar avaliou o rosto perfeito do mais velho e logo depois ele voltou a sorrir grande, já se levantando. O azul escuro de Kanda seguiu o movimento dele. — Eu quero aqueles sabores mistos.

Porém Kanda só conseguiu processar os dedos dele apertando rapidamente o seu ombro e depois escorrendo para longe. Fez uma careta enquanto colocava o dinheiro dentro da comanda, Allen já saindo pela porta. Os prateados notaram o mais alto se levantando com uma expressão de poucos amigos e riu em provocação. Yuu cogitou seriamente ter perdido a alma naquele toque no seu ombro, pois sentia como se caminhasse com extrema leveza e aquilo era tão estranho!

Raiva, possessão, ciúmes, orgulho, esses eram sentimentos normais para o mais velho. Porém o albino despertava algumas coisas estranhas em seu ser que eram desconhecidas. Mais estranho ainda era o fato de sua mente repetir em loops infinitos a risada dele, pois aquilo era a confirmação de que Kanda Yuu estava enlouquecendo por Allen Walker.

De repente tudo o que ele queria saber era que horas seria o encontro no dia seguinte.

"Não me deixe...
Aceito seus erros,
Sua sincera confusão.
Seus olhos expressam tudo que há em seu coração" — JahS.

Notas finais
Bom, como eu disse no capítulo anterior, eu esqueci o meu amor por Honey e está sendo extremamente difícil continuar, mas eu estou tentando. De toda forma, eu errei no último capítulo e isso ficou bem claro para algumas leitores. Acabei agilizando as coisa, por desespero em querer acabar logo essa fanfic, mas acontece que eu acabei estragando tudo que eu tinha feito. Eu errei no último capítulo ao colocar aquela masturbação e entrei em pânico quando percebi isso. Algumas leitoras notaram e foram muito gentis em me dizer isso e eu, com todo o meu coração, agradeço pela sinceridade e pela dica. Aconteceu então que virei noites tentando reparar o meu erro até que saiu isso. Espero que tenha ficado claro, mas eu fiz do meu erro, um erro deles e acabou que encaixou até bem. Isso me faz pensar que Honey é extremamente movida por comentários, pois querendo ou não eu tento fazer o melhor para vocês e os comentários me direcionam. Claro que acho que nunca vou fazer uma fanfic perfeita como as que eu leio, mas eu estou tentando. Realmente espero que não tenham ficado decepcionados, não acho que pude reparar tudo, mas eu tentei. E assim como os personagens, sou humana e adolescente e acabei descobrindo que sou péssima em evoluir relacionamento. De toda forma, muito obrigada pelos comentários, espero que vocês tenham se agradado com esse capítulo. Um beijos a todos e um agradecimento especial à todas as críticas construtivas que tive. Sou sempre aberta a dicas e opiniões. Esse capítulo é dedicado às leitoras fofas que me ajudaram no último capítulo e à minha beta, que me ajudou no desespero. Até a próxima att. Ps; Gente, ganhei um poema para Honey!!!! Socorroo!! Que coisa maravilhosa! Coloquei um trechinho nesse capítulo, depois vou mostrando mais! Portando, dedico o capítulo à JahS, que num poema expressou toda a confusão dos amorecos! Muito obrigada, babe!!!