Honey
1 Brinco
Notas iniciais
A vida é uma caixinha de surpresas. Uma caixinha cheia de fios emaranhados lá dentro. E assim é o mundo. Cada fio tem um destino, um cruzamento, e cada vida se cruza num destes.
Allen sabia disto. Sabia dos cruzamentos e dos fios e cuidada muito bem de ambos. Tinha plena consciência de que a vida nada era sem os fios e muito menos sem os cruzamentos. Sabia também que, uma hora,sua vida se cruzaria com outra e talvez seguisse o rumo desta. Só não imaginava que a caixinha seria tão traiçoeira.
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Era começo de férias de verão. Allen teria quase um mês de férias e já havia preparado o roteiro de cada dia minuciosamente.
Primeiro dia: Acordar, ajudar Mana, tocar piano, almoçar, dormir a tarde, ir para o Bar Noah's às 18:00 e permanecer lá até as 00:00.
Segundo dia: Acordar, ajudar Mana, tocar piano, almoçar, dormir a tarde, ir para o Bar Noah's às 18:00 e permanecer lá até as 00:00.
Terceiro dia: Acordar, ajudar Mana, tocar piano, almoçar, dorm..
Mas, ora, por que aquele garoto de 17 anos se dispunha tanto a trabalhar nas férias? Quando poderia muito bem ficar apenas deitado o dia todo?
Novamente, Allen se importando com os fios. Tiky era um deles, um muito importante. Encontrara aquele homem na situação mais impensável e até hoje estavam juntos. Por isso, não se importava em trabalhar para poder ficar ao lado dele.
Mana, Tiky e Lenna eram seus fios mais queridos.
E também tinha o Noah's que, com certeza, era o bar mais requintado da cidade. E sem mas.
O Noah´s era um espaço grande, redondo. Uma cúpula. Na parte de fora, começava com uma pequena porta coberta por um toldo comprido vermelho e um tapete da mesma cor. Quem visse jurava que as paredes todas negras pertenciam à uma boate. Mas não, era apenas um bar. Ao redor da cúpula, em forma de meia lua e de frente para o pequeno palco,havia um grande balcão de madeira escura. Lá estava o Bar. As diversas garrafas expostas nas estantes e iluminadas por luzes amarelas não muito fortes. No centro da cúpula havia mesinhas também de madeira mas estavam cobertas por uma toalha branca e fina. Haviam copinhos com duas rosas vermelhas dentro enfeitando-as. Os vitrais que formavam o ápice da cúpula eram coloridos e bem no meio deles, suspenso por tiras de metal, estava o lustre de velas falsas.
Era um ambiente magnífico, decoração requintada, tudo muito a cara de Tiky.Muito britânico. E Allen amava o lugar, amava passar as noites lá.
A única coisa que detestava ( e olha que eram poucas) eram as noites de sexta. Não que não gostasse de sexta, muito pelo contrário. Só que nessas noites o bar ficava especialmente cheio. Quase como um local de encontro particular. A atmosfera mudava totalmente e o clima ficava pesado. Por conseguinte, seu temperamento também, afinal ver seu tão adorado lugar sendo tomado pela arrogância impregnada no ar era desprezível.
O pior mesmo era saber que esses fregueses eram alunos de sua mesma escola, a “Classe Especial”.
Todos falavam dela, mas Allen nunca deu a devida importância, afinal eles ficavam numa parte restrita, a qual ninguém da “Classe Normal” podia entrar. Sem problemas, certo? Presos em suas riquezas não faziam mal a ninguém.
Bem, era o que pensava.
Andava pelo local com a postura perfeita, os sapatos batendo calmamente no chão de mogno escuro bem polido que lembrava casca de árvore. Tentava ignorar a atmosfera que os corpos exalavam e que lhe sufocava. Os olhares que eles ostentavam, as conversas, os risos, tudo era muito forçado, triste. E cheirava a álcool. De todos os tipos, de batidinhas até o vinho francês mais caro , que , aliás, devia custar mais que seu fígado. Por isso, mesmo desastrado, Allen devia concentrar-se apenas em sua tarefa e tomar muito cuidado com qualquer movimento, até por que se quebrasse qualquer coisa aqui estava definitivamente ferrado.
E não importava se o dono do estabelecimento era ou não seu amigo. Na verdade, por conhecê-lo sabia o que aconteceria consigo caso quebrasse algo.
Justamente por este motivo, sua vontade agora era de voar no cabelo do moreno a frente. Encarava-o tentando devolver seu olhar. Impassível, frio e negro. Profundamente negro.
Allen Walker. Dezesseis anos, indo para o terceiro ano do ensino médio. Bolsista de uma das melhores escolas. Inglês, albino, e vivia com meu pai, Mana Walker, a quem amava e ainda ama muito. Um sonho? Ser médico e ajudar pessoas, afinal o mundo já estava repleto de idiotas como aquele que levavam tudo na base da violência.
Revirou as orbes prateadas, praguejando o sumiço do dono do bar.
Já não fazia ideia de quanto tempo estavam naquela situação e encarava o corpo alto. Entretanto, devia admitir que era um tanto... intimidador. O garoto ruivo que estava com ele apenas observava com um brilho no olhar que Allen não pôde distinguir. Mas o nome ele sabia: Lavi Bookman.
Sim, o conhecia, mas ele não podia dizer o mesmo de si. Na verdade, surpresa era saber quem não o conhecia. Walker podia até fazer um breve relato da vida do ruivo baseado somente em boatos de escola. Ponto máximo: era o maior pegador de todos os tempos. Ou pelo menos da sua breve vida na Ordem Negra.
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Tudo bem, fomos longe demais. O maior era seu tio, Cross, mas o cara do tapa-olho podia muito bem ser o segundo. Era requisitado em todo canto do colégio, mesmo na Classe Normal. Aliás, ele era o da Classe Especial que mais sabia sobre. Os outros eram desconhecidos.
Não deixou de pensar no que faria se tivesse toda essa capacidade de sedução igual o rapaz. Devia ser horrível não ser deixado em paz um minuto se quer. Mas alegrava-se ao saber que nem chegava aos pés do outro. Ainda mais levando em conta sua aparência levemente, atente-se, levemente , afeminada. Mas que não seja por isso, o problema é que tudo em si era estranhamente diferente. E não leve para o lado da “Aborrecência”. Odiava essa palavra. Voltando.
Cabelos platinados, ohos cinzas, pele extremamente branca, baixa estatuta (tinha que admitir, fazer o que) e corpo meio esguio. Sem contar o maldito complexo cavalheiresco que assustava um pouco as pessoas. Só Lena mesmo pra gostar. Aliás, Lena... Adorava Lenalee! Sua melhor amiga desde que se conhecia por gente. Melhor amiga, e, por um tempo, friendzone.
Até Allen descobrir, da pior forma possível, que se sentia atraído por homens. “Pior” porque até hoje morria de vergonha da situação passada, mas isso é assunto pra outra hora. De qualquer forma, não atraia atenção de ninguém e agradecia por isso.
No presente momento, trocou o peso das pernas e passava a mão direita nos cabelos, suspirando com calma. Ou tentando mantê-la. Acontece que o indivíduo moreno se recusava, veja bem, se recusava a largar o caco de vidro. Um caco de vidro? Você pergunta. Sim, um caco de vidro, especificamente de uma garrafa que, num passado não tão distante, abrigara vodka.
Estava prestes a gritar, mas não achava que seria o melhor. Sentia que se o fizesse o assassinato seria consigo.
— Por favor, senhor, solte o vidro. Estamos em um lugar público, o senhor não pode agir como bem entender aqui.
Sentia todos os olhares do bar se voltarem. Já era a segunda vem que dizia algo e o moreno nada falava. Percebeu a movimentação do corpo caído atrás de si, virando os olhos por cima do ombro. As queixas de dor, possivelmente seria um maxilar deslocado. O soco do moreno foi intenso o suficiente para isso.
— Tsc e quem é você para me ditar as regras? – Pela primeira vez ouvia sua voz, grossa e firme. – Não me atrapalhe e saia logo da frente.
— De maneira alguma,senhor. – Rebateu, imediatamente. Ele estava louco se achava que Allen Walker iria deixá-lo ferir um garoto já nocauteado. – Já disse, e pretendo não repetir. Largue o caco de vidro. Se quer brigar, faça-o lá fora. Aqui não é lugar para brincadeirinhas de criança. – Ah, sim. Estava começando a se irritar. Disse a última frase quase rosnando, mas procurando manter as boas aparências.
Allen via seus olhos faiscarem, nem imaginando como estavam os seus. O ruivo ao lado apenas riu brevemente enquanto o ser largava o caco, raivosamente, e o batia contra o balcão. O barman apenas encarava, assustado, a situação. Não o culpava. Era um lugar muito calmo. Não devia estar acostumado com esse tipo de situação.
Ah, como queria poder dizer o mesmo. “Não estou acostumado com brigas” . Culpa de Cross e as puladas de cerca das mulheres com quem ficava.
Seu corpo pesou do lado direito, era o garoto de maxilar inchado se apoiando alguns segundos para levantar-se.
— Yuu... – Procurou dizer. A aura do grandão aumentando e escurecendo.
—Não me chame pelo primeiro nome. – Trincava os dentes, a frase arrancada da garganta tomada em ódio. Ora, eles se conheciam? Allen vagava de um corpo a outro, ainda com o outro apoiando-se em si.
— Isso não encerra nossa conversa. – Terminou, a voz calma, mansa, o nariz coberto por uma cicatriz e os cabelos curtos. Bancar o apaziguador já estava cansando o albino, e aquela atmosfera explosiva também. Tinha medo de respirar e se intoxicar com a raiva que o japonês exalava.
— Se precisam tanto conversar, se retirem, por favor, e terminem isso lá fora. – A voz já começara a acalmar, parecia o fim da discussão. Encarou o ruivo, que mantinha o olhar fixo em sua pessoa. Ele sorriu assim que o moreno que estava acompanhando passou por Allen, esbarrando em seu ombro e resmungando alguma coisa. O outro de cicatriz foi atrás. Estava afim de levar umas belas porradas, só pode. O Bookman foi o último a se retirar e sussurrou próximo ao ouvido do albino. Allen não sabia se era só safadagem ou se era porque agora tinham voltado a aumentar o som.
—Nos vemos em breve.
O hálito do ruivo era alcoólico e misturado com menta. Rolou os olhos quando se lembrou do outro ruivo, a multidão se dissipando aos poucos. Voltou-se para pegar a bandeja que estava largada sobre uma mesa qualquer, vítima do seu desespero ao ouvir o tumulto, e retornou ao trabalho.
Serviria os jovens mestres até o fim da noite.
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Tiky entrou no lugar ao fim do expediente e manteve-se calado até que o albino tivesse vestido a blusa branca de manga comprida adequadamente.
— Ouvi sobre o caso de mais cedo. – Cortou o silêncio – Fiquei intrigado. – O menino terminando de casar os botões do moletom.
—Eu também, já os vi exaltados, mas aqui nunca foi um lugar de briga. – Um dos motivos que escolhera trabalhar/ajudar no Noah´s. Não era apenas um bar, era um local cultural que aos sábados tinha apresentações de Jazz, Indie e muita música bacana.
E também tinha ele, claro.
—Sim, te agradeço por ter interrompido, garoto. – Sorriu pequeno. Allen gostava do Tiky na mesma intensidade que gostava da Lenna. Ele não era nenhum estranho apesar de seis anos mais velho. Era doce, e seus olhos dourados lhe atraiam constantemente. Não em conotação sexual, mas em calor mesmo. Gostava mesmo dele, ainda que vez ou outra ele exibisse um ou dois sorrisinhos sádicos.
— Ora, Tiky, o que eu não faria por você? – O albino deu um de seus sorrisos bobos,um que dava só pra ele, feliz por voltar ao normal. – Estou indo. – Pegou a bolsa de lado que estava sobre uma cadeira e bateu as mãos sobre as coxas cobertas com o jeans claro.
— Tome cuidado. – Ele se levantou e o abraçou. Allen engasgou, sempre se envergonhava com o abraço dele, desde aquele dia. Ruborizava só de lembrar. Ele riu sacana enquanto desfazia os braços e notava um albino enrijecido. – Ainda não esqueceu daquilo?
— T-Tiky!! – Exclamou, soltando-lhe de seus braços e tentando esconder a vergonha. Ele riu sensual, como sempre.
— Desculpe, não resisti. – Passou as mãos no cabelo – Vou te dever um carona, realmente tenho que ficar até mais tarde. Sabe como é,né? Aquelas reuniões de planejamento. – Outro torcer de lábios.
—Sim, sim, não se preocupe – Assentiu rápido e despreocupadamente, os olhos meio fechados. Tiky lhe levava em casa, mas hoje estaria ocupado. – Agora vou indo, se não perco o ônibus pra casa. – O moreno pareceu tocado, mas Allen ignorou e abriu a porta dos fundos. – Bye bye, Tiky, até amanhã.
— Bye bye, Allen, cuide-se. – Fechou a porta, a figura mais velha sumindo pelo vão, mexeu no cabelo e pôs a mão nos bolsos da blusa de frio. O tempo tinha esfriado, agora o beco parecia tão assustador quanto acolhedor.
Andou calmo, pisando no chão cinzento meio deformado. Em algumas partes havia poças de água que poderiam dar a idéia de chuvas passadas. As paredes pontiagudas e sujas eram altas, e tinham musgo até um ou dois metros. Acima de si , tinham um céu escuro sem lua, poucas estrelas e muitas nuvens. Quando chegou ao final daquele pequeno mundo e assim que dobrou a esquina, deparou-se com alguns indivíduos a três metros, no máximo.
Inconscientemente congelou. Eles pareciam discutir avidamente, uma boa chance pra fugir. Podia voltar correndo pro bar, o que era a opção mais segura. Porém o corpo se recusava a mexer-se rapidamente e os segundos que perdeu junto da respiração pesada foram suficientes para se dar conta de que os reconhecia.
O ruivo e os dois morenos.
O primeiro só observava a exaltação, bem encostadinho numa parede. A coisa estava feia, Allen podia ver as veias do maior estouradas na testa enquanto encurralava o cara da cicatriz na parede suja de algum lugar. Os punhos cerrados e o encolhimento, porém não recuo, do menor, que parecia jogar-lhe umas verdades na cara. Aproximou-se, sem saber o por quê, e viu o exato momento em que o punho de “Yuu” se movia.
Em suas visitas à casa de um Cross bêbado, havia ficado muito bom em prever movimentos e se salvar de garrafas voadoras. E, graças a isso, conseguiu parar o soco bem a tempo de outro inchaço no rosto do...cara.
O ruivo Bookman soltou uma gargalhada, estava se divertindo.
—Ora Kanda, errou? – Debochou. Allen ainda segurava o pulso dele. O tal do Kanda. Ele virou mortal e encarou os olhos claros. O albino devolveu, não na mesma fúria, mas numa quase reprovação.
— Não se cansa de bater nos outros? Não tem nada que te alegre mais? É um idiota mesmo. – Não se segurou. Estava voltando ao normal, abaixando os níveis de estresse, e o desgraçado estragara seu humor. Pela segunda vez no dia.
— Você... – Parecia tentar lembrar, ou por estar com muita raiva, mas Allen se ofendeu por não lembrar do rosto da pessoa a quem causou problemas. – O garçom do bar... – Cerrou os olhos e puxou a mão, rude. – E você não se cansa de atrapalhar os outros? Ou quer levar uma também? – Ele ameaçava. Qualquer um sentiria medo, mas, bem, era Allen, sobrinho de Cross Marian.
O albino pôs uma das mãos no casaco e , ignorando-o, tocou com a outra , calmamente, no maxilar do moreno menor. Quase da sua mesma altura, talvez dois ou três centímetros a mais. Ele grunhiu. Allen sorriu desgostoso. – Terá que ir ao hospital, seu maxilar está deslocado. Eles te darão analgésicos. – Mais que óbvio, mesmo assim ele gostava de cuidar. O outro pareceu surpreso com o tom de voz doce. O sorriso do Walker aumentando.
—Ok. – Murmurou, a dor devia estar atrapalhando. Allen preparou pra sair, o olhar do ruivo já estava fincando sua alma e aquilo incomodava. Porém antes de girar 180 fora impedido pelas mãos frias do outro chamado Kanda em seu braço, puxando-o para encará-lo.
—Allen. – Respondeu, fitando as pelotas negras. – Allen Walker. Caso queira dizer algo.
O ruivo se endireitou, surpreso, mas nem tanto.
—Allen? – Agora os olhos claros estavam em sua direção e ele tomou como confirmação. – Ahh! Bem que eu achei que te conhecia!! Você é o albino da escola! – Exclamou, parecendo puxar bem lá do fundo da memória. Kanda o encarou.
— S-sim... – Realmente tinha surpreendido um cara daquela fama saber sobre si. – Como sabe? – Olha, era conhecido. Que loucura.
— A Lenalee me disse. Ela é sua amiga, certo? – Allen podia sentir sua alma se esvaindo. Desde quando a Lenalee... E por que ela não lhe disse? Traição.
—Sim... De ond... – Estava curioso, mas antes que pudesse diferir algo ouviu um desgosto ser posto em palavras.
—Tsc, pare de tagarelar,Lavi. – Kanda havia soltado seu braço, que, até então, agarrava com força desnecessária. – Vamos embora.
— Ahn...mas tava tão legal, Yuu... – Arrastou a voz. Allen achou graça, foi proposital.
—Já disse pra não me chamar pelo nome, seu puto. – Rosnou, a aura voltando a ficar carregada.
—Ainda não, Kandinha, aceito teu elogio quando estivermos na cama. – Imediatamente o rosto do menor esquentou. Nossa, tinha sido pego de surpresa. Lavi percebeu e riu. – Inocente? Bem que sua cara não nega. – Allen ficou aéreo por uns instantes e antes que pudesse revidar, o outro se despediu. – Vamos indo, seguirei seu conselho e levarei Alma para o hospital.
— Não conte comigo. – O metido a samurai sentenciou.
— Dor de corno. – Alma falou, baixinho enquanto passava por si, e só Allen pareceu ouvir, pois os outros já caminhavam em direção a um carro preto.
Ficou parado, as criaturas se distanciando pela rua deserta até um carro parado.. Até que eles não pareceram tão...tudo aquilo que gente rica aparenta. O carro se foi, e, como nenhum foi para o lado do motorista, imaginou que houvesse um. Ignorando, deu a volta e correu para avenida, que de tão a vista estava que não podia cumprir a proeza de se perder.
Por sorte, pegou o ônibus. Sentia saudades do chocolate quente do Mana, um mimo que o pai sempre fazia nas sexta. Tinha certeza que ele tinha lhe preparado um.
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Allen ainda lamentava porque não pôde ir contra o Tiky. Aquele maldito arrastou-o para dentro dos próprios problemas quando uma atração revelou que não poderia comparecer ao local. E quem se ferrou? Acertou.
Era um sábado, e, graças a Deus, ainda no começo das férias. Suspirou, como se o ar pudesse afastar o nervosismo que sentia. O desgraçado tinha tudo preparado. Seu piano branco sobre o palco, e o local relativamente cheio.
Sentia as mãos suarem. Não que fosse a primeira vez, mas agora podia ver algumas pessoas que estariam na escola consigo e isso lhe dava um certo...receio.
— Está suando como um porco. – Tiky sussurrou e assoprou em seu pescoço. Allen deu um pulo, o coração na boca.
—T-Tiky!! Quer me matar? – Gritou baixo, deixando de espiar pelas cortinas. – Jesus.. Estou nervoso... – A mão no peito, como se pudesse segurar o próprio coração.
—Estou vendo. – Ele riu, sarcástico, uma das sobrancelhas erguida enquanto ainda se mantinha meio abaixado para acompanhar a altura do menino.
— Para, Tiky! Tudo isso é culpa sua! – Choramingou, e ele se fez de ofendido.
—Nossa, pois eu nunca mais conto contigo! – Se virou. Ele sabia fingir estar bravo, aquela postura malvada. O albino sorriu com o pensamento e abraçou-o por trás. De alguma forma, ele sabia como lhe acalmar.
—Ah, não seja bobo. – Sorriu mais envergonhado quando ele lhe encarou por cima dos ombros e retribuiu o sorriso, delineando os lábios com um olhar devastador.
—Vá e faça o seu melhor, como sempre. – Assentiu. – Eu confio em você. – Assentiu, as mãos de Tiky em seu rosto. – Você é o melhor, Allen. – Assentiu, era relaxante. – Vai se entregar para mim, garoto? – Assentiu, era maravilhoso quand... o quê?
Corou em milésimos de segundos e sua boca fez um círculo perfeito. Tinha o pegado de surpresa, o bastardo! E agora não conseguia revidar devido à sua lentidão para rebater quando estava com vergonha. O moreno se adiantou.
—Viu só? Se acalmou. – Ah... Tiky Mikk não podia ser verdade.
— Oh, God... – Suspirou novamente, já recomposto. E bem mais calmo, aliás. – Se você não fosse você eu pedia um beijo agora. – Sorriu amarelo, coçando a nuca. Era um beijo no rosto, só para constar. Mas Mikk sabia, certo? – Era o que Mana faria se pudesse vir. – O olhar prateado apresentou uma pitada de desapontamento enquanto rodava pelo chão. O pai tivera uma urgência no trabalho e ligara mais cedo para avisar. Tiky, por sua vez, gargalhou.
—Jesus, Allen! Mesmo não querendo, você ainda é a inocência em pessoa!! – O menor o olhou emburrado, a risada soando. – Não seria mais apropriado você me roubar um? – O moreno indagou após a crise, com o rosto um pouco próximo demais. O albino corou. E ele riu de novo, bagunçando seus cabelos. – Vá, já vai começar. – E enquanto se afastava, resmungava alguma coisa entre risadinhas e incredulidade.
Não tinha como entender o homem, afinal.
Encaminhou-se para o palco, as gotas de suor ainda desciam pelas costas, porém agora também sentia uma firmeza, talvez coragem. Teria que agradecer o outro mais tarde, pensou e sentou-se no banquinho antes que as cortinas negras se abrissem, contrastando diretamente com sua pele. Respirou fundo e, quando ela foi erguida aos poucos, sentiu as pessoas lhe olharem.
Era uma tática, Allen não olhava para elas, apenas para as teclas à sua frente. Procurando dissipar os pensamentos negativos, ajeitou as luvas, alongou os dedos, abriu o piano e os posicionou.
A primeira nota soou, podia sentir a vibração em seu interior. E o resto fluiu como água. Os dedos moviam-se em terreno conhecido com tamanha liberdade que dava ao garoto, sozinho no palco, um toque angelical. Continuou por minutos e, envolto na magia que o som proporcionava, nem percebeu que meia hora já se passava.
Quando deu-se conta seus dedos já formigavam e os ombros doíam pelo tempo na mesma posição. Olhou meio desesperado para os bastidores e lá estava Tiky com um sorriso. Após a última nota, as cortinas desceram e Allen derreteu no banco, alguns fios brancos colados na testa.
— Que prodígio no piano. – Encarou o mais velho, cansado. – Tem 15 minutos de descanso. – Concordou, ainda calado. A sensação era tão boa que apenas sorriu largamente, muito feliz. Levantou meio mole e foi até o banheiro. Jogaria uma água no rosto e beberia algo, sua garganta estava seca.
Em segundos, seu celular vibrou no bolso e retirou-o para ler a mensagem.
“Está maravilhoso, Allen-kun! Até senti suas emoções flutuarem no ar!! Toca Mad World pra mim !”
Sorriu com a certeza de que Lenalee estava na plateia. Tinha mandado uma mensagem pra ela avisando da travessura de Tikky e lembrava bem de sua resposta.
“Claro que vou! Perder sua demonstração inglesa?? De maneira alguma.”
Achava que ela tinha alguma tara com ingleses... Vai saber...
Molhou o rosto umas duas vezes, encarando-se no espelho. Ele gostava de se olhar depois de fazer algo desgastante. Sentia-se bonito, talvez orgulhoso.
Limpou o rosto e sentou-se na parte da pia que não estava molhada, bebendo alguns goles da garrafa de água que Tiky havia lhe dado.
—Nada mal para um pirralho como você. – Arqueou as sobrancelhas para a figura encostada à parede divisória que escondia a porta. Tão silencioso que possivelmente nem teria notado-o ali se ele não tivesse se pronunciado.
—Acho que isso é o máximo que chega perto de um elogio vindo de você,certo? – Deu outro gole. – Mas obrigado mesmo assim. – Sorria desafiador, limpando o canto da boca com a mão. Balançava os pés distraidamente enquanto ele parecia lhe fuzilar com o olhar e Allen apenas o encarava com o breve sorrisinho.
— Você é muito bocudo, sabia? Alguém deveria costurar sua boca. – O moreno devolveu o risinho na mesma hora, enquanto o Walker fechava a cara. – Quem sabe um dia eu não possa fazê-lo. Tome cuidado.
—Nossa, estou me tremendo todo. – Encarou-o com o seu protótipo de olhar frio. Sentia-se ultrajado pelas atitudes alheias, que falta de respeito!
—Devia mesmo. – Ele virou-se para o espelho ajeitando o rabo de cavalo, deixando duas mechas soltas a modular seu queixo. Allen riu debochado.
—Alguém já te falou que você parece uma garota? – Voltou a aumentar a curvatura da boca.
—Pensei que isso só valesse pra você. – Oh. O tom de voz dele engrossou.
Kanda andou até si em passos pesados, mas Allen continuou sentado, pois lhe dava uma sensação de altura.
-Olha só pra você! Naquele dia, achei que você fosse uma garota. Com esse rosto fino, quer o que? – Segurou forte o maxilar do menor, exibindo uma expressão orgulhosa. Allen trincou os dentes, batendo em sua mão.
—Solta! – Virou a cara para o lado, as sobrancelhas franzidas em desagrado. Aparentemente, ele tinha a capacidade de estragar o seu humor.
—Oh... – Surpreso? Allen queria ver se iria ficar surpreso quando lhe desse um chute no saco, babaca... – Você usa brinco... – O albino acompanhou o olhar negro passar de raivoso para um brilho desconhecido.
Era verdade, usava brinco. Mas não aqueles horrorosos de pérolas. Falta de bom gosto. Na verdade, só furara a orelha porque Lena lhe dera um brinco de prata pura no seu aniversário. Talvez ela ainda não percebera que era homem, ou se o fez, ignorava completamente. Acontece que o brinco foi caro e nem era tão extravagante. Dava para camuflar com o cabelo. Eram duas bolinhas pratas de aproximadamente 1 cm. Ela trouxe da viagem que fez pra Suíça, junto com um monte de chocolate. E, bem, como queria que ela continuasse lhe trazendo coisas gostosas e comestíveis de suas andanças por aí, resolveu furar.
E era de graça na farmácia.
— Uso, algum problema? – Encarou com os olhos cerrados. Ele sorriu. Jesus, aquilo era...
—Nenhum...Muito pelo contrário, facilita as coisas. – Ok, agora ficara confuso. Tentando sair do clima e tendo em vista o horário, pulou de cima da mesa, dando-lhe as costas para jogar a garrafa de água vazia no lixo.
— Bom, não sei o que você quer dizer mas... – Cesta! Ok, não tinha porque dizer isso. Odiava basquete por um motivo um tanto óbvio. – Eu tenho que voltar para...
Deu de cara com o peito dele, e... Desde quando ele estava tão perto? Seu estômago diminuiu consideravelmente com o susto e todo seu corpo ficou em alerta.
Olhou para cima assim que deu dois passos para trás e quando já ia despejar reclamações e, quem sabe, alguns xingamentos, porém foi surpreendido com mãos grandes em seu pulso. Dali em diante, sua voz morrera e apenas voltou a raciocinar quando sentiu a parede gelada contra suas costas.
Ele havia lhe prensado contra a parede, e agora segurava seus braços de forma cruzada em frente ao seu peito. Imobilizou-lhe totalmente e ainda riu sacana.
—Que fruta você gosta, Moyashi? – Perguntou, com uma voz rouca, assustadora e...sexy.
—Moyas.. – Ora, ia indagar que merda era aquela de que ele estava lhe chamando e diria com todo o prazer que sua fruta favorita era morango.
Ia, no pretérito perfeito. Porque nem se quisesse podia fazer alguma coisa.
Kanda pressionara, numa rapidez impressionante, os lábios contra os seus. Allen, por sua vez, arregalou os olhos. O contato entre os lábios era estranho demais e ele era um desconhecido! E estava sendo forçado! O que estava acontecendo? Ele tinha veneno na boca pra querer lhe matar daquele jeito?
Tentou se desvencilhar de suas mãos, e falar para lhe largar, mas da boca só saiam resmungos. O moreno empurrava a língua contra Allen, queria que ele abrisse a boca, e como viu que não o faria, deu um jeito de segurar suas duas mãos com uma só e pressionar o queixo, apertando-o com força até que o albino soltasse um gemido de dor e entreabrisse os dentes.
Colocou a língua pra dentro e inconscientemente Allen fechou os olhos com força, tentando expulsá-lo e xingá-lo.
Impossível, ele era mais forte e a língua do menor já estava cansando, assim como o ar já lhe faltava. Kanda passeava por toda sua extensão bucal, causando repugnância, e ele estava paralisado, sem poder fazer nada.
Mas que droga! Por que não ouvira seu pai quando ele disse que podia lhe colocar em alguma luta para aprender a se defender?
Cansado, abriu a boca o máximo que pôde para tentar pegar ar, já estava sem oxigênio e suas pernas tremiam. Kanda percebeu que Allen havia deixado de tentar empurrar-lhe e já tinha o rosto completamente corado.
O Walker não era bom em lidar com o calor. Facilmente desmaiava e sem fôlego piorava a situação. Era uma condição de saúde e mesmo assim Yuu riu. Simplesmente riu. Riu de seu estado, como se não estivesse ligando para a dor que provavelmente os pulmões albinos sentiam. Também não lhe largou, mesmo separando o beijo.
— Que moleza... – Sussurrou, deslizando a boca pelo queixo alheio, roçando os lábios na pele mais que branca do menor. Allen não fazia ideia do que estava acontecendo, tentava mover as mãos, porém não tinha força alguma. Suas pernas tremiam de medo e repugnância, os olhos ardendo com a vontade de chorar.
Reprimiu um gemido doloroso, proveniente de sua garganta fechada pelas lágrimas, quando sentiu a boca dele chupar seu lóbulo.
—Você merece saber que eu sempre devolvo tudo... – Uma mordiscada que fez subir um arrepio desconfortável pelo corpo do garoto. – Dez vezes mais como punição. – Sussurrou profundamente, encarando o Walker em seguida. Os belíssimos olhos claros tomados por lágrimas presas , enquanto tentava buscar forças para tentar empurrá-lo.
—S-seu...Argh... M-me solt... – Apertava os olhos com raiva e tristeza, como se dali pudesse tirar forças.
Queria gritar, fugir dali. Começava a se culpar por não ter saído do banheiro quando tivera a oportunidade. Devia ter saído dali quando se sentiu ameaçado! Foi tão burro, tão idiota!!
O moreno desviou o olhar do pequeno e levou a mão ao bolso da calça jeans que usava, buscando algo. Allen tentou usar aquele momento para torcer os dedos, as mãos, qualquer coisa que machucasse a pele dele e desse tempo para correr. Quis chutá-lo, mas ele deixara o peso do corpo todo contra as pernas do garoto, impossibilitando-a de mexê-las.
Concentrado em sentir raiva e desespero e com a visão escurecida, Allen só voltou a si quando sentiu uma pressão incomoda no lóbulo direto e logo depois um barulhinho de algo batendo no azulejo surgiu. Não pôde nem racionar quando sentiu ele, com a boca, colocar algo em si e um “Clic” soou. Perto demais. Quase dentro do próprio ouvido.
Mais uma lambida e Kanda se afastou, ainda segurando as mãos pálidas. Sorriu sacana, lhe olhando com pura superioridade. O albino estava perplexo, sem fôlego, tremendo de medo, angústia e raiva. Os olhos pareciam mais claros devido às lágrimas que começaram a cair aos poucos.
—Quanto a sua moleza, é até bom você não contestar muito. Não vai dar em nada mesmo. – Finalmente se viu livre. Continuou encostado na parede, encarava assustado o chão enquanto abraçava os próprios braços doloridos. O que havia se passado ali?
Levei a mão até a boca, trêmulo, pronto para sufocar algum gemido de dor que provavelmente acompanharia as lágrimas que desciam por suas bochechas rosadas. O coração batia abafado, como se tivesse sido enrolado em várias camadas de pano, pronto para sufocá-lo. As pernas pareciam prestes a ceder a qualquer momento.
—O...o que... – Sussurrou tão baixo que ele possivelmente não ouviu. Seu corpo inteiro formigava e a cabeça pulsava como se todo o sangue tivesse sido concentrado nela.
—Se eu fosse você, me apressava e ajeitava essa aparência logo, seu show já vai começar. – E desapareceu pela porta do banheiro, ignorando o garoto completamente sem chão que chorava silenciosamente encostado contra a parede.
Allen ficou alguns segundos sem conseguir se mexer, sentindo uma dor absurda no estômago. Respirava fundo, limpava as lágrimas, contava até as linhas do chão a fim de se acalmar, e foi quando viu um brinco de bolinha no chão. Apressou-se, mesmo sentindo que poderia cair, e pegou o brinco, a mão extremamente trêmula.
Ele havia tirado seu... Por que ele...? Instintivamente levou a mão até sua orelha direita. E nela tinha um...
Correu até o espelho e se debruçou sobre a pia, aproximando-se até doer a barriga.
Agora, no lugar de um dos brincos da Lena, havia outro. Também de prata, mas com um formato de argola, um pouquinho grosso, e nele estava talhado uma flor. Uma flor de lótus.
—Garoto!! – Tiky gritou quando invadiu o banheiro, impedindo qualquer início de pensamento. – O que está fazendo aí parado?? Vamos!! – Puxou-o pelo braço sem perceber o rosto marcado por lágrimas secas e correu com o garoto até o palco.
As cortinas iam ser abertas.
Allen estava tão desnorteado que nem respondeu o incentivo que ele lhe deu, e sentou-se com certa dificuldade no banquinho branco acolchoado. As paredes insistiam em dançar em círculos, e a cortina preta parecia se colorir de bolas verde musgo que cresciam de tamanhos diferentes.
O pano subiu e se pegou encarando as teclas. Mas não parecia. Sua mente estava vagando no espaço entre um moreno e um maldito brinco.
Sentia tanta dor!
Demorou alguns segundos para retornar à realidade, os olhos ainda ardendo, e viu que tinha que tocar.
Tentou se concentrar na mensagem de Lenalee, mas agora estava incapacitado até de contar até 10.
Tentou repetir o nome da música como um mantra, como se aquilo fosse ajudá-lo a tocar. Mais do que esperado que errasse a terceira nota da música. Parou na mesma hora, o coração a ponto de um infarto, as mãos tremendo absurdamente. A aflição que vinha dos ouvintes parecia ter dobrado. E dessa vez não pôde se controlar.
Allen olhou diretamente para a plateia e seus olhos aflitos e confusos correram a procura dele. Praticamente ignorou o sorriso de Lena, que estava acompanhada de um ruivo qualquer, focando na figura negra no canto da sala assim que a encontrou.
Ele estava sentado num banquinho do bar e o mesmo sorriso estava lá. Um sorriso desafiador e pequeno. E, dessa vez, a luz amarela que tinha nas extremidades do lugar ajudou a refletir algo que tinha passado despercebido antes.
O cabelo, agora preso num coque baixo, dava visão a sua orelha esquerda, e lá estava. Um brinco. A mente de Allen entrou em pane. Na sua cabeça vinha a imagem certa, como se aproximasse-se do moreno e focasse no brinco, e bem delineada da flor de Lótus.
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