Homúnculo: Um Ser de Esperança
2 Vozes do Medo
A noite em Valdric tinha um silêncio diferente — denso, quase palpável. As chaminés das casas soltavam filetes de fumaça que subiam preguiçosos até se perderem na névoa. O vento frio carregava o cheiro de lenha e pão assado, misturado a sussurros distantes.
No porão do armazém, Stein estava acordado. Deitado sobre o cobertor gasto, observava o teto de madeira e ouvia o ranger dos ratos nos cantos. Gregor dormia no andar de cima, e o som de seu ressonar pesado era o único lembrete de que ele não estava sozinho.
Mas, naquela noite, Stein sentia algo diferente dentro do peito — um chamado suave, quase um instinto.
O desejo de ver o mundo lá fora.
Com cuidado, ele se levantou. Suas passadas eram leves, mas o assoalho ainda gemia sob seu peso. Subiu as escadas devagar, como quem teme o próprio som. A porta estava trancada, mas Gregor sempre deixava uma fresta na janela dos fundos para o vento circular.
Stein passou por ela, espremendo o corpo largo com esforço. Quando saiu, o ar frio o atingiu como um soco.
Pela primeira vez, sentiu o cheiro da noite viva — o perfume das folhas molhadas, da terra e da lenha queimando.
A lua pairava acima das nuvens, enorme e pálida. Stein ergueu o rosto, e a luz prateada revelou sua pele marcada, seus olhos dourados brilhando como brasas suaves. Por um instante, ele não se sentiu uma aberração, mas parte daquilo tudo.
— “Bonita...” — murmurou, e a palavra saiu como um sussurro reverente.
Andou pelas vielas desertas, maravilhado com as pequenas coisas — o som distante de um riacho, o brilho de uma lamparina balançando, o eco dos sinos da igreja ao longe.
Então, parou diante de algo que o fez prender a respiração:
Três crianças, do outro lado da praça, riam enquanto tentavam pegar vaga-lumes com potes de vidro. As luzes piscavam entre suas mãos, dançando como pequenas estrelas.
Stein se escondeu atrás de uma carroça e observou.
Cada risada delas era um som novo, quente, impossível de descrever.
— “Rir...” — sussurrou. — “Coração leve.”
Lembrou-se das palavras de Gregor.
Por um instante, quis sair da sombra e se aproximar. Quis sentir o que elas sentiam. Mas quando deu um passo, uma das crianças soltou um grito.
— “Ei! Tem alguém ali!”
Stein recuou, assustado. O medo retornou como uma lâmina fria. As crianças correram, e uma janela se abriu. Uma mulher apareceu com uma lamparina, iluminando a rua.
— “Quem está aí?!”
O homúnculo fugiu. Correu pelas vielas, o coração pesado, as mãos trêmulas. Voltou ao armazém antes que o sino da meia-noite soasse. Entrou pela janela e desceu para o porão, ofegante.
Minutos depois, Gregor desceu as escadas com a lamparina em punho, a barba desgrenhada e os olhos sonolentos.
— “Stein? Que diabos aconteceu? Ouvi barulho.”
O homúnculo tremia.
— “Eu... vi o céu. Vi... a lua. E... as crianças.”
Gregor suspirou, colocando a lamparina sobre a mesa. A chama tremulou, revelando o rosto cansado do velho.
— “Você não pode sair, garoto. Ainda não. As pessoas têm medo até do que veem todo dia. Imagine do que não entendem.”
— “Mas... eu quero entender eles,” — disse Stein, a voz embargada. — “Quero rir... quero viver.”
Gregor olhou para ele, e algo nos olhos do velho se partiu.
— “Eu sei, garoto. Eu também quis isso por muito tempo.”
Ele se sentou na beira do colchão improvisado e passou a mão pela testa de Stein, num gesto quase paternal.
— “Mas o mundo lá fora é cruel com quem é puro demais.”
O silêncio ficou pesado, até que Gregor se levantou e caminhou até um baú velho. De lá, tirou algo embrulhado em tecido: um livro de capa gasta, ilustrado com raios e um castelo no topo de uma colina.
— “Este é o filme que te deu o nome, Stein. Frankenstein.”
Ele mostrou a capa, onde um homem de olhos tristes e pele pálida olhava o horizonte.
— “O monstro... só queria ser amado. Mas ninguém o entendeu.”
Stein tocou o desenho com os dedos rachados.
— “Ele... morreu?”
Gregor assentiu.
— “Morreu tentando provar que merecia viver.”
O homúnculo ficou em silêncio, olhando para o livro como quem vê o espelho do próprio destino.
— “Então... talvez eu não deva sair.”
Gregor respirou fundo.
— “Não ainda. Mas um dia... o mundo vai ter que te ver.”
No dia seguinte, o sol mal tinha nascido quando Vernik, o ferreiro da vila, apareceu no armazém. Era um homem de ombros largos e olhar desconfiado.
— “Gregor,” — disse, cruzando os braços. — “Ontem à noite, alguém viu um vulto perto da praça. Disseram que os olhos brilhavam.”
Gregor manteve a calma.
— “Vultos são o que mais tem em Valdric, Vernik. O vento, as sombras... a imaginação.”
O ferreiro o encarou de perto.
— “Você anda estranho ultimamente. Sempre trancado nesse armazém, falando pouco. Não tá escondendo nada, tá?”
Gregor sustentou o olhar por alguns segundos antes de responder:
— “Só escondo minha paciência, Vernik. Agora, quer comprar algo ou veio só espalhar medo?”
O homem bufou e foi embora, mas não sem olhar uma última vez para a janela trancada.
Gregor esperou ele desaparecer na esquina, então desceu rapidamente ao porão. Stein o aguardava, os olhos apreensivos.
— “Gregor... eles sabem?”
— “Ainda não, garoto. Mas vão começar a procurar.”
O velho se ajoelhou e segurou os ombros do homúnculo.
— “Se te encontrarem, Stein... prometo que vou lutar por você. Até o fim.”
A chama da lamparina os iluminava — o homem e a criação, unidos por um segredo que logo não poderia mais permanecer nas sombras.
Lá fora, o sol nascia sobre Valdric, e com ele, os primeiros rumores de uma nova caçada.
A névoa voltara a cobrir Valdric, espessa e fria como um véu de morte.
Nas ruas, as pessoas sussurravam. As lamparinas pareciam mais fracas, os olhares, mais desconfiados.
O vento trazia histórias de longe — histórias que pesavam como pedras.
Diziam que em vilas vizinhas, animais estavam sendo encontrados mortos, dilacerados. Diziam que duas pessoas desapareceram, e que alguém jurara ter visto uma figura de pele acinzentada caminhando pela floresta durante a noite.
O povo chamava essa presença de “O Homúnculo”.
No armazém, Gregor lia em voz alta, sentado em uma cadeira de madeira enquanto Stein, ajoelhado no chão, observava cada movimento dos lábios do velho.
— “Letra A... som de ‘ah’.”
— “Ah,” — repetiu Stein, devagar, a voz mais firme que semanas atrás.
Gregor sorriu.
— “Isso. Agora... B.”
— “Bê.”
— “E juntos?”
Stein hesitou. — “Ab... como... abrir?”
O velho riu, batendo levemente no ombro dele. — “Você aprende rápido, garoto.”
Na mesa, um pequeno rádio chiava. Era o único contato com o mundo fora da vila. Gregor o mantinha baixo, mais por hábito que por interesse. Mas naquela manhã, a voz do locutor atravessou o ar abafado do porão como um golpe:
> “Notícias vindas de Hollford. Três fazendeiros foram encontrados mortos. Os corpos... apresentavam sinais de experimentos alquímicos. Autoridades locais acreditam que o responsável seja uma criação humana — um homúnculo.”
Stein arregalou os olhos dourados.
— “Homúnculo... como eu.”
Gregor desligou o rádio imediatamente. O silêncio caiu como um peso.
— “Não é você, Stein. Entendeu? Isso é outra coisa. Alguém... ou algo... está por trás disso.”
— “Mas... eles vão achar que sou eu.”
— “Deixe que pensem o que quiserem. Aqui, ninguém vai te encontrar.”
Gregor tentou soar firme, mas a sombra do medo já se formava em seu olhar.
Nos dias seguintes, Valdric mudou. O medo se espalhou mais rápido que a peste.
Portas se trancavam mais cedo. A patrulha local começou a rondar as noites com tochas e cães.
E entre os aldeões, um nome começou a ser sussurrado: Gregor.
— “Ele anda estranho há meses.”
— “Desde que aquele incêndio aconteceu no laboratório do velho Eldran.”
— “Dizem que ele tem um segredo no armazém... algo que trouxe das ruínas.”
E quem espalhava os rumores com mais fervor era Vernik, o ferreiro.
Uma tarde, Gregor tentava descarregar sacos de farinha quando ouviu a voz grossa de Vernik ecoando pela praça.
— “Vocês acham que é coincidência? O laboratório queimou, Eldran morreu e depois disso... Gregor começou a se isolar. Aposto que esconde o monstro lá dentro!”
Alguns homens o escutavam, hesitantes, divididos entre a raiva e o medo.
Gregor avançou, suando, as mãos trêmulas de raiva.
— “Cuidado com o que diz, Vernik. Palavras podem queimar mais que o fogo.”
O ferreiro riu, cuspindo no chão.
— “Então prova! Abre o armazém. Mostra o que esconde.”
O velho parou, encarando os rostos ao redor. Todos o observavam com expectativa — alguns com pena, outros com ódio.
Gregor sentiu o sangue ferver, mas respirou fundo.
— “Nada aqui além de farinha e silêncio. Mas o que vocês querem ver... é o próprio medo.”
E, sem dizer mais nada, virou as costas e entrou, trancando a porta atrás de si.
Do lado de dentro, as mãos tremiam.
No porão, Stein o esperava, tenso.
— “Ouvi... eles.”
Gregor desceu os degraus, largando o casaco sobre uma cadeira. Seu rosto estava pálido.
— “Estão com medo, Stein. E o medo faz os homens ficarem cegos.”
— “Eles... querem me matar.”
— “Querem matar o que não entendem,” — respondeu Gregor, sentando-se pesadamente.
Stein o observou, os olhos dourados refletindo a chama da lamparina.
— “Por que... defende algo como eu?”
O velho ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, falou baixo, como quem confessa algo a um fantasma:
— “Porque eu também já fui o que você é agora — algo que o mundo queria apagar.”
Stein se aproximou, curioso.
— “Você?”
Gregor assentiu, os olhos marejados.
— “Perdi tudo uma vez. Minha esposa... minha filha. O povo disse que era castigo, que Deus tirou porque eu duvidava da fé deles. Passei a viver entre caixas e sacos... mas você me deu um motivo pra lembrar o que é cuidar.”
O homúnculo abaixou a cabeça, as mãos apertadas.
— “Quero ser... digno disso.”
— “Já é,” — respondeu Gregor, com voz rouca.
Mas a paz durou pouco.
Naquela mesma noite, batidas fortes ecoaram na porta do armazém. Gregor subiu as escadas em silêncio e abriu uma fresta. Do outro lado, estavam Vernik e dois guardas.
— “Temos ordens pra revistar o local,” — disse um deles, segurando uma tocha. — “O Conselho suspeita que o monstro possa estar aqui.”
Gregor tentou disfarçar o tremor na voz.
— “Revistar meu armazém? Sem mandado, sem provas?!”
Vernik deu um passo à frente.
— “Não precisa de mandado quando o sangue inocente tá sendo derramado.”
A tensão era um fio prestes a romper. Os guardas olharam um para o outro, hesitando.
Gregor fechou a porta.
— “Voltem amanhã, quando o sol nascer. Se eu for mentiroso, a luz vai mostrar.”
E trancou por dentro, o coração disparado.
Desceu ao porão com pressa. Stein já o esperava, o olhar alarmado.
— “Eles vêm?”
Gregor assentiu.
— “Amanhã. E se entrarem, não podem te ver.”
O silêncio tomou conta. Stein olhou para o velho, com medo e culpa.
— “Gregor... se eu for embora, eles param.”
— “Não! Se for, eles te caçam. E o mundo lá fora... é muito maior que o ódio dessa vila.”
Gregor o encarou fixamente.
— “Não vou deixar te levarem. Nem por mentira, nem por medo.”
A chama da lamparina tremia com o vento que passava pelas frestas. Lá fora, os passos dos guardas se afastavam lentamente.
Mas os rumores não parariam.
E nem o verdadeiro monstro — que, nas sombras de outra vila, sorria ao saber que seu rastro estava sendo seguido por um inocente.
Fale com o autor