O vento sussurrava entre as árvores, frio e úmido, carregando o cheiro da chuva e da fumaça distante.

Stein corria sem rumo, os pés afundando na lama, o corpo ferido e coberto de cinzas.

Cada passo parecia ecoar dentro de si — o eco da perda.


Quando finalmente parou, exausto, caiu de joelhos perto de um riacho.

A água refletia sua imagem: o rosto irregular, as cicatrizes que o fogo não consumira, os olhos dourados que tremiam entre o medo e a culpa.

Pela primeira vez, Stein não reconheceu o que via.


— “Aberração...” — murmurou para o próprio reflexo, lembrando-se das vozes dos aldeões.

Mas então, em sua mente, ecoou a voz de Gregor:


> “Você é o que o mundo esqueceu de ser.”


As mãos tremeram. Ele mergulhou o rosto na água fria, tentando apagar as lembranças, mas era inútil.

Gregor estava morto ou perdido — e ele, sozinho, era o que restava de tudo o que haviam construído.


Os dias se tornaram longos e silenciosos.

Stein construiu abrigo entre raízes antigas, coberto de folhas e galhos.

Aprendeu a pescar com pedras, a caçar coelhos, a reconhecer o som do perigo.

Mas o que mais o assustava não eram os lobos nem o frio —

era o vazio.


Certa manhã, enquanto observava a névoa subindo do vale, viu uma família de cervos beber água.

A mãe se aproximava com cuidado, o filhote tropeçando atrás.

Stein ficou imóvel, temendo assustá-los.

Mas quando o filhote olhou para ele, não fugiu.

Apenas o observou, curioso.

O coração do homúnculo se apertou.

Era assim que Gregor o olhara na primeira noite — com curiosidade, não com medo.


Ele abaixou a cabeça e murmurou, com a voz rouca:

— “Eu... não quero ser monstro.”


E naquele instante, um som o interrompeu.

Cascos. Passos pesados, rítmicos.

Alguém se aproximava da floresta.


De volta ao vilarejo, o armazém era agora um esqueleto de madeira queimada.

Entre os destroços, homens vasculhavam com lanças e cães.

No centro, um homem de capa longa e chapéu de couro observava em silêncio.

Tinha um olhar duro e uma cicatriz atravessando o rosto.


Chamavam-no Elias Krane, o caçador de maldições.

Diziam que já enfrentara vampiros no norte e bestas feitas de ferro no oeste.

Agora, havia sido contratado por três vilas vizinhas — todas aterrorizadas por relatos de um homúnculo que devorava animais e crianças.


Ele abaixou-se diante de uma pegada funda na lama.

— “Não é animal,” — murmurou, passando os dedos sobre a marca. — “Nem homem. Algo... entre os dois.”


Um dos aldeões, o velho Havel, se aproximou.

— “Ele estava aqui. O velho Gregor o criou, escondido no porão. O demônio matou todos!”


Elias ergueu o olhar para ele.

— “E você viu isso com seus próprios olhos?”

Havel hesitou. — “N-não... mas todos dizem—”

— “O medo faz o homem mentir até pra si mesmo,” — interrompeu o caçador. — “Mas se o que dizem for verdade, então o que nasceu aqui não é um monstro comum. É uma criação que aprendeu a sentir.”


Os homens se entreolharam, sem entender.

— “Sentir?” — perguntou um deles.

Elias olhou para o horizonte, onde a floresta se erguia densa e escura.

— “E isso o torna mais perigoso que qualquer fera. Porque o que sente... também pode odiar.”


Naquela mesma noite, Stein observava o céu entre as árvores.

As nuvens se afastavam devagar, revelando uma lua cheia — tão clara que parecia feita de vidro.

Ele se lembrava da lamparina do porão, da risada de Gregor, do primeiro sorriso que dera.


Mas o silêncio da floresta o envolvia como um túmulo.

De repente, algo quebrou o sossego:

o estalar de um galho.

O som metálico de uma trava sendo puxada.


Stein se virou rápido — e viu uma sombra entre as árvores.

Um homem, alto, com uma espingarda de cano duplo apontada para o peito dele.

Os olhos frios e calculistas.


Elias Krane.


Por um instante, os dois apenas se observaram — o caçador e a criação.

A lua banhava ambos com a mesma luz, revelando o paradoxo cruel:

um via o outro como um erro, mas nenhum dos dois era inocente.


O caçador falou primeiro:

— “Você tem nome, criatura?”


Stein hesitou, depois respondeu com a voz grave e serena:

— “Stein.”


Elias apertou o gatilho levemente, testando a tensão.

— “Então, Stein... me conte. Foi você quem matou os homens das vilas vizinhas?”


O homúnculo baixou o olhar.

— “Não. Eu não quero... matar ninguém.”


O caçador observou-o por um momento, surpreso pela clareza das palavras.

Depois murmurou:

— “Veremos.”


E sem aviso, disparou.


O tiro ecoou pela floresta, espantando pássaros e fazendo o rio estremecer.

Mas quando a fumaça se dissipou, Stein já não estava lá.

A bala havia rasgado apenas o tronco atrás dele.


Do alto das árvores, o homúnculo observava, respirando pesado.

Agora ele sabia:

o mundo não iria apenas temê-lo —

iria caçá-lo.


A chuva havia cessado há três dias, mas o cheiro de fumaça e carvão ainda impregnava o ar.

O antigo armazém de Gregor era agora um esqueleto de madeira queimada, cercado de cinzas e silêncio.

Entre os destroços, os aldeões encontraram o velho — vivo, mas ferido, com o corpo coberto de queimaduras e a alma partida.


Agora ele se recuperava na pequena enfermaria do vilarejo, deitado em uma cama de lençóis ásperos.

A cada amanhecer, o som das carroças passando pela rua lembrava-lhe da vida que seguia sem ele — e do vazio deixado por Stein.


Gregor tossiu, sentindo o gosto metálico do remédio.

Na mesinha ao lado, repousava o medalhão de ferro que usava desde jovem, manchado de fuligem.

Ele o girava entre os dedos, como se o objeto pudesse lhe devolver o tempo que perdeu.


Mas naquela manhã, o som de passos leves ecoou no corredor.

Um murmúrio de vozes, depois o ranger da porta.

E então, ela entrou.


Era jovem — talvez vinte e poucos anos — vestida com um manto de seda escura, botas de viagem cobertas de poeira e um capuz que escondia o rosto.

Mesmo assim, havia algo na postura — no jeito como se movia, serena e segura — que denunciava sua origem nobre.


Gregor tentou se erguer, mas ela levantou a mão.

— “Por favor, não se mova.”


A voz dela era suave, mas firme.

Ela se aproximou da cama e puxou uma cadeira.

— “Meu nome é Elara von Lysenne,” — disse, retirando o capuz. — “Sou filha do duque de Helvath. Ou, ao menos, era.”


Gregor a observou com atenção. O rosto delicado, os olhos azuis marcados por cansaço e culpa.

— “O que uma moça de sangue nobre vem fazer neste fim de mundo?” — perguntou, a voz rouca.

— “Vim por causa do homúnculo.”


Gregor empalideceu.

— “Você… sabe sobre ele?”

— “Ouvi histórias. Que o senhor o protegeu, que ele fugiu, e que o povo o chama de monstro.”


Ela fez uma pausa.

— “Mas eu não vim para caçá-lo, Gregor. Eu vim porque… acho que o conheço. Ou melhor, acho que ele conheceu ela.”


— “Ela?”


Elara suspirou, e por um momento seus olhos se perderam nas lembranças.

— “Anos atrás, antes de meu pai ser deposto, um de nossos alquimistas criou algo. Uma menina feita de barro e sangue, nascida em silêncio, com olhos da cor do cobre derretido. Eu a chamei de Seraphine.”


O nome soou leve, mas carregado de tristeza.

Gregor fechou os olhos, murmurando:

— “Então havia outros…”


Elara assentiu.

— “Eu a escondi em meu quarto, ensinei-lhe a ler e a cantarolar pequenas melodias. Ela era curiosa, doce... quase humana. Mas o castelo não é lugar para segredos. Quando descobriram o que ela era, o povo exigiu que fosse destruída. Eu tentei impedir, mas...”


A voz da princesa falhou.

Gregor completou, em tom grave:

— “Eles a caçaram.”

Ela assentiu lentamente.

— “E ela reagiu. Matou os soldados que vieram levá-la. Fugiu na tempestade. Desde então, ouvi rumores de vilarejos atacados, de corpos sem alma. E agora… dizem que um homúnculo está matando homens e animais. Eu temo que seja ela.”


Silêncio. Apenas o crepitar distante da lareira.


Gregor recostou-se, sentindo o peso da revelação.

— “Então Stein está sendo acusado pelo que Seraphine faz.”


Elara o fitou, surpresa.

— “Stein?”

— “Esse era o nome dele. Eu o encontrei entre fogo e fúria, e vi bondade onde todos viram aberração. Ele não era assassino, princesa. Só queria entender o que era ser vivo.”


Ela abaixou o olhar, pensativa.

— “E se Seraphine também quis isso, mas o ódio a moldou diferente?”


Gregor suspirou fundo.

— “Então ela é o espelho quebrado de todos nós. A criação que aprendeu o medo antes do amor.”


Por um momento, Elara tocou o medalhão em seu pescoço — o mesmo símbolo alquímico que Gregor reconheceu instantaneamente.

— “Você também estudou as artes proibidas, não é?” — perguntou ela.

— “Um pouco,” — respondeu Gregor. — “Mas nunca para criar vida. Até Stein... eu não sabia o preço que se pagava por tentar ser Deus.”


Elara levantou-se, o olhar firme.

— “Se Stein ainda vive, preciso encontrá-lo. Se ele e Seraphine se cruzarem, pode ser o fim de ambos — ou o começo de algo pior.”


Gregor tentou se erguer, apoiando-se no travesseiro.

— “Você fala como alguém que ainda acredita que pode mudar o destino.”

Ela olhou pela janela, onde a luz pálida da manhã filtrava-se entre as nuvens.

— “Talvez eu não possa mudar o destino… mas posso tentar curar o que restou dele.”


Horas depois, quando a princesa deixou a enfermaria, o vento soprou forte, carregando o cheiro de terra molhada e folhas quebradas.

Gregor ficou sozinho, o olhar perdido na parede.

Entre a dor e a esperança, murmurou:

— “Stein… se estiver me ouvindo, há mais como você. E o mundo está prestes a queimar outra vez.”


Do lado de fora, o som de cascos ecoava ao longe — o cavalo de Elara desaparecendo estrada afora, rumo à floresta onde as sombras e os pecados da alquimia ainda respiravam.


E, em algum ponto distante, entre os galhos escuros e o luar, Stein abria os olhos novamente, ouvindo ecos de uma voz feminina que não conhecia,

mas que soava estranhamente próxima do que restava de sua alma.


A floresta amanheceu coberta por uma névoa densa, que se arrastava pelo chão como uma respiração viva.

Stein caminhava entre as árvores, o corpo cansado, mas a mente inquieta.

Há dias sentia algo diferente — uma pulsação estranha sob a pele, uma energia que fervia nas veias como se o próprio barro de que fora feito quisesse se moldar novamente.


Parou diante de um lago imóvel, espelhado pela luz fria do amanhecer.

Seu reflexo o encarava — a pele cinza, as marcas fundas, os olhos dourados.

Mas conforme se concentrou, tentando lembrar o rosto dos homens que vira em seu caminho, o reflexo começou a mudar.


Primeiro, a cor da pele.

Depois, as feições.

O brilho dos olhos se apagou, tornando-se castanho, comum.

E, num sopro, o monstro desapareceu — dando lugar a um homem de aparência simples, com cicatrizes discretas e cabelos escuros.


Stein caiu de joelhos, tremendo.

A água ondulou ao redor, e uma gargalhada confusa escapou de seus lábios.

— “Sou... humano?” — murmurou, a voz trêmula. — “Ou apenas... uma mentira com pele?”


A brisa passou, fria, e o lago respondeu com o próprio silêncio.

Naquele instante, ele compreendeu o que Gregor sempre tentara ensinar — que o que define um homem não é o corpo, mas o peso do que carrega dentro.

E se ele podia esconder o monstro... talvez pudesse andar entre os humanos sem ser caçado.


Mas, ao mesmo tempo, uma lembrança o atingiu: as histórias contadas pelos aldeões, as mortes, o medo.

E, de repente, tudo se encaixou.


> “Ela faz o mesmo...”

— Seraphine.


Ela também devia ter aprendido a esconder sua verdadeira forma.

E era assim que entrava nas vilas — como uma de nós — antes de transformar amor em massacre.


Na estrada de barro que cortava o vale, Elias Krane cavalgava em silêncio, o rifle preso ao ombro e o olhar fixo nas trilhas úmidas do caminho.

O rastro de pegadas terminava no riacho — e ali, algo chamara sua atenção:

duas marcas distintas.

Uma pesada, profunda, de pés maiores — de Stein.

Outra, leve e graciosa, mas com o mesmo traço irregular de um ser criado, não nascido.

Seraphine.


— “Então é verdade,” — murmurou, tocando a terra. — “Dois deles.”


O som de cascos atrás dele o fez virar rapidamente, arma em punho.

Mas o que viu o fez baixar o rifle.


Uma mulher desceu do cavalo, o manto azul escuro tremulando sob o vento.

Elara.

Os olhos dela estavam cansados, mas firmes.


— “Caçador Krane,” — disse ela, em tom sereno. — “Achei que o encontraria antes do pôr do sol.”

Elias montou novamente.

— “Está me seguindo, alteza?”

— “Seguindo a verdade,” — respondeu ela. — “A mesma que o senhor procura.”


Ele a observou por um momento, avaliando se aquela mulher era uma aliada ou um obstáculo.

— “Se veio por curiosidade, volte para o castelo. O que está caçando aqui não pertence ao mundo dos homens.”


Elara se aproximou, com calma.

— “O que o senhor chama de ‘isso’... eu chamo de ela.”

Elias franziu o cenho.

— “Então sabe da criatura.”

— “Seraphine,” — completou Elara, olhando para o horizonte. — “Eu cuidei dela. Antes de tudo isso.”


Um silêncio pesado pairou entre os dois.

Os pássaros cessaram o canto.

Elias desmontou do cavalo, apoiando o rifle no chão.

— “Se é verdade, então devia saber que o que protegeu já não é mais o que conheceu.”

Elara respirou fundo. — “Ela foi feita para ser amada, não odiada. E o que o mundo deu a ela foi o contrário.”


Elias caminhou alguns passos, olhando para o leste, onde o sol se escondia atrás das montanhas.

— “O amor não muda o que algo é, princesa. Só adia o momento em que precisamos aceitar.”


Elara, no entanto, não desviou o olhar.

— “Então me ouça: se a encontrar primeiro, não a mate. Dê-me a chance de falar com ela.”


O caçador ficou em silêncio, analisando-a.

Depois, com um suspiro cansado, assentiu.

— “Uma chance. Só uma.”


O crepúsculo pintava a floresta de tons alaranjados quando os dois seguiram juntos, em silêncio, pelas trilhas cobertas de folhas secas.

O vento trazia o som distante de algo... suave.

Uma voz.

Uma melodia quebrada.


Elara parou, o coração disparado.

Ela conhecia aquela música.


Era uma canção infantil — a mesma que cantava para Seraphine quando ela era pequena, feita de barro e alma.


Os dois se abaixaram entre os arbustos.

E então a viram.


Entre as árvores, à luz do entardecer, uma jovem mulher caminhava lentamente, os cabelos longos e brancos como cal, o vestido manchado de terra.

Tinha um cesto nas mãos e colhia flores selvagens com uma calma quase sobrenatural.

Os aldeões próximos acenavam de longe, sem medo algum.

Ela sorria de volta.


Mas Elara sabia.

Aquele sorriso era falso — como um espelho rachado.

Aquela não era uma mulher.

Era Seraphine —

a primeira criação.


As flores nas mãos dela estavam manchadas de sangue fresco.


Elara estremeceu, e as palavras escaparam de seus lábios num sussurro que o vento levou:

— “Ela aprendeu a fingir ser humana…”


Elias engatilhou o rifle, mas Elara segurou o cano com força.

— “Não. Ainda não.”


Do outro lado da clareira, Seraphine levantou o rosto, como se tivesse ouvido algo.

Os olhos dela — âmbar e profundos — cruzaram o olhar de Elara por um instante.

E nesse breve segundo, entre o passado e o presente, duas almas se reconheceram:

a criadora e a criação.


Mas o que havia no olhar de Seraphine não era amor.

Era lembrança —

e ódio.


O vento soprou forte, levando pétalas vermelhas pelo ar.

Elara deu um passo à frente, o coração batendo como um tambor.

Elias a segurou pelo braço.

— “Ela viu você. Não há mais volta agora.”


No horizonte, a floresta engoliu a figura de Seraphine.

E quando a noite desceu, o mundo pareceu conter a respiração.


O caçador, a princesa e o homúnculo —

três caminhos destinados a se cruzar sob a lua,

onde amor e criação deixariam de ser bênçãos

e se tornariam maldição.