Homúnculo: Um Ser de Esperança
3 Rostos da Mentira
O vento sussurrava entre as árvores, frio e úmido, carregando o cheiro da chuva e da fumaça distante.
Stein corria sem rumo, os pés afundando na lama, o corpo ferido e coberto de cinzas.
Cada passo parecia ecoar dentro de si — o eco da perda.
Quando finalmente parou, exausto, caiu de joelhos perto de um riacho.
A água refletia sua imagem: o rosto irregular, as cicatrizes que o fogo não consumira, os olhos dourados que tremiam entre o medo e a culpa.
Pela primeira vez, Stein não reconheceu o que via.
— “Aberração...” — murmurou para o próprio reflexo, lembrando-se das vozes dos aldeões.
Mas então, em sua mente, ecoou a voz de Gregor:
> “Você é o que o mundo esqueceu de ser.”
As mãos tremeram. Ele mergulhou o rosto na água fria, tentando apagar as lembranças, mas era inútil.
Gregor estava morto ou perdido — e ele, sozinho, era o que restava de tudo o que haviam construído.
Os dias se tornaram longos e silenciosos.
Stein construiu abrigo entre raízes antigas, coberto de folhas e galhos.
Aprendeu a pescar com pedras, a caçar coelhos, a reconhecer o som do perigo.
Mas o que mais o assustava não eram os lobos nem o frio —
era o vazio.
Certa manhã, enquanto observava a névoa subindo do vale, viu uma família de cervos beber água.
A mãe se aproximava com cuidado, o filhote tropeçando atrás.
Stein ficou imóvel, temendo assustá-los.
Mas quando o filhote olhou para ele, não fugiu.
Apenas o observou, curioso.
O coração do homúnculo se apertou.
Era assim que Gregor o olhara na primeira noite — com curiosidade, não com medo.
Ele abaixou a cabeça e murmurou, com a voz rouca:
— “Eu... não quero ser monstro.”
E naquele instante, um som o interrompeu.
Cascos. Passos pesados, rítmicos.
Alguém se aproximava da floresta.
De volta ao vilarejo, o armazém era agora um esqueleto de madeira queimada.
Entre os destroços, homens vasculhavam com lanças e cães.
No centro, um homem de capa longa e chapéu de couro observava em silêncio.
Tinha um olhar duro e uma cicatriz atravessando o rosto.
Chamavam-no Elias Krane, o caçador de maldições.
Diziam que já enfrentara vampiros no norte e bestas feitas de ferro no oeste.
Agora, havia sido contratado por três vilas vizinhas — todas aterrorizadas por relatos de um homúnculo que devorava animais e crianças.
Ele abaixou-se diante de uma pegada funda na lama.
— “Não é animal,” — murmurou, passando os dedos sobre a marca. — “Nem homem. Algo... entre os dois.”
Um dos aldeões, o velho Havel, se aproximou.
— “Ele estava aqui. O velho Gregor o criou, escondido no porão. O demônio matou todos!”
Elias ergueu o olhar para ele.
— “E você viu isso com seus próprios olhos?”
Havel hesitou. — “N-não... mas todos dizem—”
— “O medo faz o homem mentir até pra si mesmo,” — interrompeu o caçador. — “Mas se o que dizem for verdade, então o que nasceu aqui não é um monstro comum. É uma criação que aprendeu a sentir.”
Os homens se entreolharam, sem entender.
— “Sentir?” — perguntou um deles.
Elias olhou para o horizonte, onde a floresta se erguia densa e escura.
— “E isso o torna mais perigoso que qualquer fera. Porque o que sente... também pode odiar.”
Naquela mesma noite, Stein observava o céu entre as árvores.
As nuvens se afastavam devagar, revelando uma lua cheia — tão clara que parecia feita de vidro.
Ele se lembrava da lamparina do porão, da risada de Gregor, do primeiro sorriso que dera.
Mas o silêncio da floresta o envolvia como um túmulo.
De repente, algo quebrou o sossego:
o estalar de um galho.
O som metálico de uma trava sendo puxada.
Stein se virou rápido — e viu uma sombra entre as árvores.
Um homem, alto, com uma espingarda de cano duplo apontada para o peito dele.
Os olhos frios e calculistas.
Elias Krane.
Por um instante, os dois apenas se observaram — o caçador e a criação.
A lua banhava ambos com a mesma luz, revelando o paradoxo cruel:
um via o outro como um erro, mas nenhum dos dois era inocente.
O caçador falou primeiro:
— “Você tem nome, criatura?”
Stein hesitou, depois respondeu com a voz grave e serena:
— “Stein.”
Elias apertou o gatilho levemente, testando a tensão.
— “Então, Stein... me conte. Foi você quem matou os homens das vilas vizinhas?”
O homúnculo baixou o olhar.
— “Não. Eu não quero... matar ninguém.”
O caçador observou-o por um momento, surpreso pela clareza das palavras.
Depois murmurou:
— “Veremos.”
E sem aviso, disparou.
O tiro ecoou pela floresta, espantando pássaros e fazendo o rio estremecer.
Mas quando a fumaça se dissipou, Stein já não estava lá.
A bala havia rasgado apenas o tronco atrás dele.
Do alto das árvores, o homúnculo observava, respirando pesado.
Agora ele sabia:
o mundo não iria apenas temê-lo —
iria caçá-lo.
A chuva havia cessado há três dias, mas o cheiro de fumaça e carvão ainda impregnava o ar.
O antigo armazém de Gregor era agora um esqueleto de madeira queimada, cercado de cinzas e silêncio.
Entre os destroços, os aldeões encontraram o velho — vivo, mas ferido, com o corpo coberto de queimaduras e a alma partida.
Agora ele se recuperava na pequena enfermaria do vilarejo, deitado em uma cama de lençóis ásperos.
A cada amanhecer, o som das carroças passando pela rua lembrava-lhe da vida que seguia sem ele — e do vazio deixado por Stein.
Gregor tossiu, sentindo o gosto metálico do remédio.
Na mesinha ao lado, repousava o medalhão de ferro que usava desde jovem, manchado de fuligem.
Ele o girava entre os dedos, como se o objeto pudesse lhe devolver o tempo que perdeu.
Mas naquela manhã, o som de passos leves ecoou no corredor.
Um murmúrio de vozes, depois o ranger da porta.
E então, ela entrou.
Era jovem — talvez vinte e poucos anos — vestida com um manto de seda escura, botas de viagem cobertas de poeira e um capuz que escondia o rosto.
Mesmo assim, havia algo na postura — no jeito como se movia, serena e segura — que denunciava sua origem nobre.
Gregor tentou se erguer, mas ela levantou a mão.
— “Por favor, não se mova.”
A voz dela era suave, mas firme.
Ela se aproximou da cama e puxou uma cadeira.
— “Meu nome é Elara von Lysenne,” — disse, retirando o capuz. — “Sou filha do duque de Helvath. Ou, ao menos, era.”
Gregor a observou com atenção. O rosto delicado, os olhos azuis marcados por cansaço e culpa.
— “O que uma moça de sangue nobre vem fazer neste fim de mundo?” — perguntou, a voz rouca.
— “Vim por causa do homúnculo.”
Gregor empalideceu.
— “Você… sabe sobre ele?”
— “Ouvi histórias. Que o senhor o protegeu, que ele fugiu, e que o povo o chama de monstro.”
Ela fez uma pausa.
— “Mas eu não vim para caçá-lo, Gregor. Eu vim porque… acho que o conheço. Ou melhor, acho que ele conheceu ela.”
— “Ela?”
Elara suspirou, e por um momento seus olhos se perderam nas lembranças.
— “Anos atrás, antes de meu pai ser deposto, um de nossos alquimistas criou algo. Uma menina feita de barro e sangue, nascida em silêncio, com olhos da cor do cobre derretido. Eu a chamei de Seraphine.”
O nome soou leve, mas carregado de tristeza.
Gregor fechou os olhos, murmurando:
— “Então havia outros…”
Elara assentiu.
— “Eu a escondi em meu quarto, ensinei-lhe a ler e a cantarolar pequenas melodias. Ela era curiosa, doce... quase humana. Mas o castelo não é lugar para segredos. Quando descobriram o que ela era, o povo exigiu que fosse destruída. Eu tentei impedir, mas...”
A voz da princesa falhou.
Gregor completou, em tom grave:
— “Eles a caçaram.”
Ela assentiu lentamente.
— “E ela reagiu. Matou os soldados que vieram levá-la. Fugiu na tempestade. Desde então, ouvi rumores de vilarejos atacados, de corpos sem alma. E agora… dizem que um homúnculo está matando homens e animais. Eu temo que seja ela.”
Silêncio. Apenas o crepitar distante da lareira.
Gregor recostou-se, sentindo o peso da revelação.
— “Então Stein está sendo acusado pelo que Seraphine faz.”
Elara o fitou, surpresa.
— “Stein?”
— “Esse era o nome dele. Eu o encontrei entre fogo e fúria, e vi bondade onde todos viram aberração. Ele não era assassino, princesa. Só queria entender o que era ser vivo.”
Ela abaixou o olhar, pensativa.
— “E se Seraphine também quis isso, mas o ódio a moldou diferente?”
Gregor suspirou fundo.
— “Então ela é o espelho quebrado de todos nós. A criação que aprendeu o medo antes do amor.”
Por um momento, Elara tocou o medalhão em seu pescoço — o mesmo símbolo alquímico que Gregor reconheceu instantaneamente.
— “Você também estudou as artes proibidas, não é?” — perguntou ela.
— “Um pouco,” — respondeu Gregor. — “Mas nunca para criar vida. Até Stein... eu não sabia o preço que se pagava por tentar ser Deus.”
Elara levantou-se, o olhar firme.
— “Se Stein ainda vive, preciso encontrá-lo. Se ele e Seraphine se cruzarem, pode ser o fim de ambos — ou o começo de algo pior.”
Gregor tentou se erguer, apoiando-se no travesseiro.
— “Você fala como alguém que ainda acredita que pode mudar o destino.”
Ela olhou pela janela, onde a luz pálida da manhã filtrava-se entre as nuvens.
— “Talvez eu não possa mudar o destino… mas posso tentar curar o que restou dele.”
Horas depois, quando a princesa deixou a enfermaria, o vento soprou forte, carregando o cheiro de terra molhada e folhas quebradas.
Gregor ficou sozinho, o olhar perdido na parede.
Entre a dor e a esperança, murmurou:
— “Stein… se estiver me ouvindo, há mais como você. E o mundo está prestes a queimar outra vez.”
Do lado de fora, o som de cascos ecoava ao longe — o cavalo de Elara desaparecendo estrada afora, rumo à floresta onde as sombras e os pecados da alquimia ainda respiravam.
E, em algum ponto distante, entre os galhos escuros e o luar, Stein abria os olhos novamente, ouvindo ecos de uma voz feminina que não conhecia,
mas que soava estranhamente próxima do que restava de sua alma.
A floresta amanheceu coberta por uma névoa densa, que se arrastava pelo chão como uma respiração viva.
Stein caminhava entre as árvores, o corpo cansado, mas a mente inquieta.
Há dias sentia algo diferente — uma pulsação estranha sob a pele, uma energia que fervia nas veias como se o próprio barro de que fora feito quisesse se moldar novamente.
Parou diante de um lago imóvel, espelhado pela luz fria do amanhecer.
Seu reflexo o encarava — a pele cinza, as marcas fundas, os olhos dourados.
Mas conforme se concentrou, tentando lembrar o rosto dos homens que vira em seu caminho, o reflexo começou a mudar.
Primeiro, a cor da pele.
Depois, as feições.
O brilho dos olhos se apagou, tornando-se castanho, comum.
E, num sopro, o monstro desapareceu — dando lugar a um homem de aparência simples, com cicatrizes discretas e cabelos escuros.
Stein caiu de joelhos, tremendo.
A água ondulou ao redor, e uma gargalhada confusa escapou de seus lábios.
— “Sou... humano?” — murmurou, a voz trêmula. — “Ou apenas... uma mentira com pele?”
A brisa passou, fria, e o lago respondeu com o próprio silêncio.
Naquele instante, ele compreendeu o que Gregor sempre tentara ensinar — que o que define um homem não é o corpo, mas o peso do que carrega dentro.
E se ele podia esconder o monstro... talvez pudesse andar entre os humanos sem ser caçado.
Mas, ao mesmo tempo, uma lembrança o atingiu: as histórias contadas pelos aldeões, as mortes, o medo.
E, de repente, tudo se encaixou.
> “Ela faz o mesmo...”
— Seraphine.
Ela também devia ter aprendido a esconder sua verdadeira forma.
E era assim que entrava nas vilas — como uma de nós — antes de transformar amor em massacre.
Na estrada de barro que cortava o vale, Elias Krane cavalgava em silêncio, o rifle preso ao ombro e o olhar fixo nas trilhas úmidas do caminho.
O rastro de pegadas terminava no riacho — e ali, algo chamara sua atenção:
duas marcas distintas.
Uma pesada, profunda, de pés maiores — de Stein.
Outra, leve e graciosa, mas com o mesmo traço irregular de um ser criado, não nascido.
Seraphine.
— “Então é verdade,” — murmurou, tocando a terra. — “Dois deles.”
O som de cascos atrás dele o fez virar rapidamente, arma em punho.
Mas o que viu o fez baixar o rifle.
Uma mulher desceu do cavalo, o manto azul escuro tremulando sob o vento.
Elara.
Os olhos dela estavam cansados, mas firmes.
— “Caçador Krane,” — disse ela, em tom sereno. — “Achei que o encontraria antes do pôr do sol.”
Elias montou novamente.
— “Está me seguindo, alteza?”
— “Seguindo a verdade,” — respondeu ela. — “A mesma que o senhor procura.”
Ele a observou por um momento, avaliando se aquela mulher era uma aliada ou um obstáculo.
— “Se veio por curiosidade, volte para o castelo. O que está caçando aqui não pertence ao mundo dos homens.”
Elara se aproximou, com calma.
— “O que o senhor chama de ‘isso’... eu chamo de ela.”
Elias franziu o cenho.
— “Então sabe da criatura.”
— “Seraphine,” — completou Elara, olhando para o horizonte. — “Eu cuidei dela. Antes de tudo isso.”
Um silêncio pesado pairou entre os dois.
Os pássaros cessaram o canto.
Elias desmontou do cavalo, apoiando o rifle no chão.
— “Se é verdade, então devia saber que o que protegeu já não é mais o que conheceu.”
Elara respirou fundo. — “Ela foi feita para ser amada, não odiada. E o que o mundo deu a ela foi o contrário.”
Elias caminhou alguns passos, olhando para o leste, onde o sol se escondia atrás das montanhas.
— “O amor não muda o que algo é, princesa. Só adia o momento em que precisamos aceitar.”
Elara, no entanto, não desviou o olhar.
— “Então me ouça: se a encontrar primeiro, não a mate. Dê-me a chance de falar com ela.”
O caçador ficou em silêncio, analisando-a.
Depois, com um suspiro cansado, assentiu.
— “Uma chance. Só uma.”
O crepúsculo pintava a floresta de tons alaranjados quando os dois seguiram juntos, em silêncio, pelas trilhas cobertas de folhas secas.
O vento trazia o som distante de algo... suave.
Uma voz.
Uma melodia quebrada.
Elara parou, o coração disparado.
Ela conhecia aquela música.
Era uma canção infantil — a mesma que cantava para Seraphine quando ela era pequena, feita de barro e alma.
Os dois se abaixaram entre os arbustos.
E então a viram.
Entre as árvores, à luz do entardecer, uma jovem mulher caminhava lentamente, os cabelos longos e brancos como cal, o vestido manchado de terra.
Tinha um cesto nas mãos e colhia flores selvagens com uma calma quase sobrenatural.
Os aldeões próximos acenavam de longe, sem medo algum.
Ela sorria de volta.
Mas Elara sabia.
Aquele sorriso era falso — como um espelho rachado.
Aquela não era uma mulher.
Era Seraphine —
a primeira criação.
As flores nas mãos dela estavam manchadas de sangue fresco.
Elara estremeceu, e as palavras escaparam de seus lábios num sussurro que o vento levou:
— “Ela aprendeu a fingir ser humana…”
Elias engatilhou o rifle, mas Elara segurou o cano com força.
— “Não. Ainda não.”
Do outro lado da clareira, Seraphine levantou o rosto, como se tivesse ouvido algo.
Os olhos dela — âmbar e profundos — cruzaram o olhar de Elara por um instante.
E nesse breve segundo, entre o passado e o presente, duas almas se reconheceram:
a criadora e a criação.
Mas o que havia no olhar de Seraphine não era amor.
Era lembrança —
e ódio.
O vento soprou forte, levando pétalas vermelhas pelo ar.
Elara deu um passo à frente, o coração batendo como um tambor.
Elias a segurou pelo braço.
— “Ela viu você. Não há mais volta agora.”
No horizonte, a floresta engoliu a figura de Seraphine.
E quando a noite desceu, o mundo pareceu conter a respiração.
O caçador, a princesa e o homúnculo —
três caminhos destinados a se cruzar sob a lua,
onde amor e criação deixariam de ser bênçãos
e se tornariam maldição.
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