O vento soprou frio sobre o vilarejo de Dunwold, carregando o cheiro agridoce de fumaça e ferro.

A lua estava alta — uma lâmina prateada cortando o céu escuro.

Gregor, apoiado em sua bengala, caminhava com dificuldade entre as casas silenciosas, observando as janelas fechadas e as portas trancadas.

Desde que fora acusado de abrigar um monstro, vivia exilado ali, longe da vila onde crescera, tentando reconstruir a vida entre pedaços de lembranças e dor.


O armazém que agora possuía era menor, mas nele havia o mesmo cheiro de madeira e óleo que o antigo — e, todas as noites, ele acendia uma lamparina e deixava um prato de comida no porão, mesmo sabendo que Stein nunca mais voltara.


Mas, naquela noite, algo mudou.

Os cães começaram a uivar.

Os sinos da capela soaram, e gritos ecoaram do outro lado da rua.


Gregor largou a bengala e correu — ou tentou correr — mancando em direção à praça central.

As luzes das tochas tremulavam, e o caos se erguia como uma muralha de fogo.


Corpos caíam.

Portas eram arrombadas.

E no meio da fumaça e do desespero, uma figura feminina caminhava lentamente, os cabelos brancos dançando como fios de prata.

A cada passo, o chão se tingia de sangue.


Ela parecia deslizar entre as chamas — o vestido rasgado, as mãos cobertas por um brilho avermelhado, pulsante.

Os olhos — âmbar, profundos — refletiam o fogo das casas queimando.


Seraphine.


— “Parem! Parem, pelo amor de Deus!” — gritou Gregor, tentando se aproximar. — “Essas pessoas não têm culpa!”


Ela virou o rosto em sua direção.

Por um instante, seu olhar suavizou.

Aquela voz...

Algo dentro dela reconheceu.


Mas o instinto logo venceu a lembrança.

— “Você... é como ele,” — sussurrou ela, a voz distorcida, quase metálica. — “O homem que brincava de ser Deus.”


Gregor levantou as mãos, tremendo.

— “Eu não sou seu inimigo! Eu só quero entender!”


Seraphine começou a andar em sua direção.

O chão tremia a cada passo.

As paredes se deformavam com o calor, e o vento trazia cinzas.


— “Homens constroem monstros e depois choram por medo deles,” — ela disse, com um sorriso que era ao mesmo tempo triste e cruel. — “Você chora por um, não é? Pelo seu pequeno erro...”


Gregor tentou responder, mas uma sombra o envolveu.

O corpo dela se moveu com velocidade inumana, os olhos agora completamente dourados.

Ele mal teve tempo de se proteger.


Mas antes que o golpe o alcançasse, um som cortou o ar —

um rugido profundo, quase animal.


E de dentro da fumaça, algo colidiu com Seraphine, arremessando-a contra a parede de pedra.


O impacto fez as chamas estremecerem.

Gregor caiu de joelhos, tossindo com a fumaça, e ergueu o olhar.


Entre ele e o monstro estava um homem.

De feições firmes, pele pálida e olhar penetrante.

Mas havia algo no modo como ele se movia — preciso, hesitante, dolorosamente familiar.


— “Não...” — murmurou Gregor, a voz embargada. — “Stein?”


O homem virou-se lentamente.

Os olhos dele — dourados por um breve instante — confirmaram o impossível.


— “Gregor...” — disse Stein, e seu tom era sereno, humano, carregado de um calor que antes não existia.

— “Você... está vivo,” — Gregor gaguejou. — “Mas... como...?”


Stein se abaixou e o ajudou a se levantar.

— “Eu aprendi,” — respondeu. — “A esconder o que sou. A parecer um de vocês.”

Ele olhou para Seraphine, que se erguia entre os destroços, o olhar agora tomado por fúria.

— “Mas ela... ela não quer se esconder.”


Seraphine avançou, as mãos se contorcendo, as unhas se transformando em lâminas escuras.

— “Você é igual a mim!” — gritou. — “Feito de carne emprestada e mentira! Por que os defende?”


Stein a encarou, os olhos ardendo com uma luz dourada.

— “Porque ele acreditou que eu podia ser mais.”


As palavras caíram como um trovão.

Gregor o olhou — e naquele instante viu, enfim, um homem diante de si, não um erro.


Seraphine gritou e se lançou contra eles.

Stein a interceptou, e os dois colidiram no meio da praça, o choque fazendo o chão rachar.

As chamas dançaram ao redor deles, projetando sombras monstruosas nas paredes.


A luta foi breve, mas brutal —

Stein, movido pelo instinto de proteger, pela lembrança de Gregor, pela primeira centelha verdadeira de emoção humana:

o medo de perder alguém.


Seraphine foi jogada contra uma carroça em chamas, mas antes que ele pudesse capturá-la, ela se dissolveu em névoa e desapareceu entre os becos, deixando apenas o eco de sua voz.

— “Você traiu sua própria carne, Stein... e por isso, morrerá como um deles.”


O silêncio caiu sobre Dunwold, quebrado apenas pelo crepitar do fogo.


Stein ficou parado, o peito subindo e descendo rapidamente, o rosto coberto de fuligem e lágrimas que ele nem sabia que podia derramar.

Gregor se aproximou, mancando, e tocou o ombro dele.


— “Você... chorou.”

Stein olhou para ele, confuso. — “É isso que os homens fazem... quando doem por dentro?”

Gregor sorriu, com um orgulho triste. — “Sim, meu filho... é isso.”


O sol começou a nascer, tingindo as nuvens de vermelho.

Stein o observou, e pela primeira vez sentiu o peso e a beleza da vida — e o terror de saber que algo igual a ele estava lá fora, matando.


E assim, entre o fogo e a aurora, dois sobreviventes — o homem e o homúnculo — voltaram a respirar lado a lado.

Mas no horizonte, a névoa ainda se movia, e nela um par de olhos dourados observava em silêncio.

Seraphine estava viva.

E o que começara como criação e carinho agora se transformava em guerra entre monstros com alma.


A estrada era longa, cortando o campo úmido onde o nevoeiro repousava como véu sobre o solo.

O sol nascia tímido, filtrando-se entre as nuvens baixas e revelando, aos poucos, os contornos da cidade de Valden.

Gregor e Stein seguiam em silêncio, as rodas da carroça rangendo a cada curva, o som misturando-se ao murmúrio distante de corvos despertando nas árvores.


O velho olhava de tempos em tempos para o jovem ao seu lado.

Stein, agora em sua forma humana, parecia outro — a pele pálida coberta por fuligem e poeira, os olhos castanhos que às vezes, sob a luz certa, cintilavam em dourado.

Mas o olhar dele... o olhar ainda era o mesmo: curioso, intenso, melancólico.


— “Você parece cansado,” — disse Gregor, quebrando o silêncio.

Stein demorou a responder. — “Não sei o que é isso. Mas acho que sim.”

Gregor riu baixo. — “Bem-vindo à humanidade.”


Quando chegaram a Valden, o vilarejo já acordava.

O cheiro de pão recém-assado escapava pelas janelas, e o som dos martelos ecoava nas oficinas.

Gregor guiou Stein até uma hospedaria simples perto do riacho.

A dona, uma mulher idosa de cabelos brancos, olhou para Stein com certa desconfiança, mas aceitou as moedas sem perguntas.


No quarto modesto, Gregor acendeu uma lamparina, cuja luz amarelada tingia o espaço de um calor acolhedor.

— “Podemos ficar aqui por uns dias. Até o barulho lá fora morrer,” — disse, tirando o casaco pesado.


Stein observava a chama.

Aquela dança viva de luz o hipnotizava — o calor, o movimento, o brilho que parecia respirar.

Ele estendeu a mão e aproximou-se, sentindo a pontada de dor ao tocar o vidro quente.

Recuou, surpreso.


Gregor riu. — “É assim que aprendemos. Alguns saberes só vêm com a queimadura.”

Stein olhou o dedo avermelhado e murmurou:

— “Dói... mas é real.”


O velho se aproximou e colocou diante dele uma tigela fumegante.

— “Sopa de cebola. Coma, antes que esfrie.”


Stein levou a colher à boca, hesitante.

Ao sentir o sabor quente e salgado, algo o atravessou — uma sensação estranha de prazer, conforto, e ao mesmo tempo, uma vontade de chorar.

Gregor percebeu e sorriu.

— “Isso, meu rapaz. Agora você entende o que é estar vivo.”


Stein ergueu o olhar.

— “Estar vivo... é sentir dor e calor ao mesmo tempo?”

— “Sim,” — respondeu Gregor. — “E mesmo assim continuar querendo existir.”


Enquanto isso, a quilômetros dali, o Hospital de Brinweld exalava o cheiro de álcool e ferro.

O vento frio soprava pelas janelas entreabertas, fazendo as cortinas tremularem suavemente.


Elara abriu os olhos com dificuldade.

O ombro enfaixado latejava, e cada movimento parecia pesar uma eternidade.

No canto da sala, Elias Krane apoiava-se em uma cadeira, o rosto coberto por cortes e o peito envolto em ataduras.

Os dois haviam sobrevivido — por pouco.


O silêncio era espesso.

As lembranças voltavam em flashes: a noite, o sangue, o disparo que Elara desviara, a voz de Seraphine ecoando como um lamento antigo.


Elias foi o primeiro a quebrar o silêncio:

— “Por que fez aquilo?” — perguntou com a voz rouca. — “Ela ia matar você. E mesmo assim... você a protegeu.”


Elara desviou o olhar, olhando para o vidro molhado da janela.

— “Porque ela não nasceu para matar. Nós é que a fizemos assim.”


O caçador bufou, incrédulo. — “Nós? Eu nunca toquei em alquimia.”

Ela o encarou. — “Não falo de você, Elias. Falo de nós... dos que criaram, dos que permitiram, dos que ficaram calados.”


Ele se endireitou. — “Então fale. Chega de segredos.”


Elara respirou fundo.

As palavras que guardara por tanto tempo agora pesavam demais para continuar presas.

— “Você sabe o nome do alquimista que deu início a tudo, não sabe?”

— “Eldran,” — respondeu Elias. — “O homem que brincou com a vida.”


Ela assentiu, lentamente.

— “Mas Eldran não agiu sozinho. Sem Vernik, o ferreiro, ele não teria moldado os corpos, nem dado forma à carne. Um trazia o sopro... o outro, o invólucro.”


Elias a observava, intrigado.

Elara continuou, a voz trêmula, mas firme:

— “Mas havia mais. Homens que os ajudaram. Que financiaram. Que tinham algo a perder... ou a recuperar.”


Ela fitou o chão.

— “Gregor era um deles.”


Elias estreitou os olhos. — “O mesmo Gregor que viveu com o homúnculo?”

— “Sim.”


Ela se aproximou, o tom mais baixo.

— “Ele perdeu a filha para uma febre que devastou a vila. E quando Eldran e Vernik prometeram que poderiam devolver a alma à matéria, Gregor não hesitou. Ofereceu o corpo da menina... e o sangue dela foi usado na primeira tentativa. Dessa união nasceu Seraphine.”


O caçador se afastou um passo, incrédulo. — “Então a criatura que massacra vilas carrega o rosto da filha dele.”

Elara assentiu, lágrimas contidas nos olhos.

— “E ele nunca superou isso. Por isso abrigou Stein — porque viu nele a chance de se redimir do que fez à primeira.”


Elias ficou em silêncio, as mãos trêmulas.

Elara respirou fundo.

— “E quanto a Vernik... ele também perdeu alguém. O irmão, morto em uma explosão nas forjas. Eldran prometeu que poderia trazê-lo de volta, e o ferreiro entregou sua própria alma à ciência. O corpo de Stein foi moldado por Vernik, usando o sangue de seu irmão e o barro transmutado de Eldran.”


O som da chuva intensificou-se.

O que antes era um sussurro tornou-se uma torrente contra as janelas.

Elias ficou olhando o chão, o olhar perdido.

— “Então... eles não são monstros. São tentativas. Falhas. Restos do amor que não soube morrer.”


Elara assentiu, a voz embargada. — “E agora essas tentativas caminham entre nós. Uma tentando entender o que é sentir... e a outra, destruindo tudo o que lembra o que foi tirado dela.”


De repente, algo chamou a atenção de Elias.

Na janela, um vulto imóvel, recortado pela chuva.

Olhos dourados.


Ele ergueu o rifle, mas Elara o impediu, segurando o cano da arma.

— “Não. Ela só quer que a vejam.”


Quando olharam de novo, o vulto já havia desaparecido na neblina.


Elias abaixou lentamente o rifle, a expressão grave.

— “Para onde ela vai agora?”

— “Para o norte,” — respondeu Elara. — “Eldran construiu o laboratório original lá. É onde tudo começou.”


Ela olhou pela janela mais uma vez, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.

— “E é lá que tudo vai terminar.”


Naquela mesma noite, sob o teto da hospedaria, Gregor dormia em silêncio, enquanto Stein permanecia acordado diante da janela.

O luar refletia em seus olhos humanos, e o som distante da chuva batendo no telhado o fazia pensar no que significava “vida”.


Ele tocou o peito — sentia o ritmo irregular de algo que pulsava ali dentro, como um coração imperfeito tentando aprender o compasso.

Gregor havia chamado aquilo de “emoção”.

Mas para Stein, era mais que isso:


— era o medo de perder, e o desejo de continuar.


Lá fora, a tempestade rugia.

E muito longe dali, nas montanhas, Seraphine caminhava sob o mesmo céu, os cabelos colados ao rosto, os olhos ardendo em ouro.

Ela sussurrava um nome que o trovão engolia:


— “Gregor...”


E nas sombras, o passado começava a se mover outra vez.


O vento soprava frio sobre os campos de Brinweld, onde a noite escondia mais do que o escuro — escondia o pecado.

No alto da colina, uma mansão antiga erguia-se como um vulto de pedra, suas janelas tremeluzindo com o fogo das lamparinas.

Lá dentro, o som do metal e do vidro se misturava a murmúrios de fórmulas antigas e gritos abafados.


Era o Laboratório de Eldran, o alquimista que sonhava dominar a alma.


I – A Promessa de Eldran


Gregor entrou hesitante.

O cheiro do lugar era denso: enxofre, sangue seco e vinho derramado.

Eldran o esperava diante de uma mesa coberta de anotações e frascos de cores impossíveis.

Os cabelos prateados do alquimista refletiam a luz da lamparina como um halo profano.


— “Você veio,” — disse Eldran, com um sorriso lento.

Gregor apertava nas mãos uma fita dourada — o único objeto que restara da filha, Seraphine.


— “Você disse que... que podia trazê-la de volta.”

— “E posso,” — respondeu Eldran, virando-se para uma enorme cuba de vidro, onde um líquido escuro fervia. — “Mas o retorno exige sacrifício. A carne precisa de uma nova forma... e a alma, de um receptáculo que a aceite.”


Gregor deu um passo à frente. — “O corpo dela ainda está preservado. Fiz como mandou.”

Eldran assentiu, satisfeito. — “Um pai obediente. O amor é o ingrediente mais poderoso da transmutação.”


Enquanto falava, desenhava círculos no chão com um pó brilhante. Símbolos antigos queimavam à medida que ele pronunciava palavras em uma língua esquecida.

Do teto pendiam correntes, e sobre uma mesa coberta por lençóis brancos, repousava o corpo de uma jovem — o rosto sereno, como se dormisse.


Gregor ajoelhou-se, as lágrimas caindo sobre o chão.

— “Seraphine...”


Eldran pousou a mão em seu ombro.

— “O que foi tirado de ti será devolvido. Confie em mim, Gregor. A alquimia é a ponte entre a perda e o eterno.”


O som do trovão rompeu o silêncio quando Eldran acendeu os selos.

Luz e fogo envolveram o corpo da menina, e um grito — que não era humano — ecoou pelas paredes.

Gregor recuou, aterrorizado.

A forma diante dele contorceu-se, a pele rasgando e se refazendo, os olhos se abrindo num brilho dourado.


O corpo se ergueu.


Mas não era mais a filha que ele conhecia.

A voz que saiu dos lábios dela era rouca, quebrada, como se o ar cortasse ao sair:


— “Pai...?”


Gregor cambaleou.

Os olhos dourados o fitavam com ternura e desespero.

Mas por trás deles havia algo a mais — um vazio, uma ausência que não pertencia a nenhum ser vivo.


— “O que... o que você fez?” — ele sussurrou.


Eldran observava fascinado. — “Ela voltou. A alma respondeu. A ponte foi cruzada!”


Mas Gregor via o contrário.

O ser diante dele tremia, confuso, tentando entender o mundo que não a queria.

Ela tocou o próprio rosto, depois a pele do pai.

Os dedos estavam frios.


— “Pai... dói existir.”


Gregor recuou, horrorizado.

A criatura cambaleou, as lágrimas misturando-se à fumaça que saía de sua pele.

Ela gritou — um som de dor e desespero que fez o alquimista sorrir e o pai cair de joelhos.


— “Não é ela!” — Gregor berrou. — “Isso é uma blasfêmia!”


Mas Eldran respondeu, extasiado:

— “Não, Gregor. Isso é a perfeição. A prova de que o homem pode ser Deus.”


II – O Segundo Experimento


Dias se passaram.

Gregor abandonou o laboratório, levando o coração despedaçado e o peso de um erro irreversível.

Eldran, no entanto, via sucesso.

A criação — Seraphine — vivia. Andava. Respirava.

Mas não sorria.


Ela vagava pelos corredores, tocando as paredes e perguntando por um nome que ninguém mais pronunciava.

“Pai”, ela dizia. “Onde está meu pai?”


Eldran, obcecado, decidiu repetir o feito.

Desta vez, com a ajuda de outro homem: Vernik, o ferreiro.


Vernik era rude, de ombros largos e mãos queimadas do trabalho.

Eldran o encontrou diante da forja, onde o calor era tanto que o ar tremeluzia.


— “Perdeu alguém, não foi?” — perguntou Eldran, direto.

Vernik o olhou, desconfiado. — “Meu irmão. Um acidente nas forjas. O calor o tomou antes que eu pudesse puxá-lo de volta.”

Eldran assentiu. — “Eu posso devolvê-lo.”


O ferreiro largou o martelo.

— “Você está brincando comigo.”

— “Não brinco com dor, Vernik. Ela é o que alimenta minha arte.”


O alquimista o levou até a mansão.

Seraphine observava da escada, os cabelos dourados caindo sobre o rosto, os olhos vazios.

Vernik sentiu um arrepio.

— “Que tipo de coisa é essa?”

Eldran sorriu. — “A primeira vitória da ciência.”


Dias depois, o segundo experimento começou.

Dessa vez, Eldran combinou a forja de Vernik com sua transmutação.

O corpo foi moldado no metal vivo — ossos reforçados, pele de barro alquímico, alma invocada do sangue do irmão morto.


A figura começou a tomar forma dentro da cápsula de vidro.

Mas antes que a alma se completasse, o som de vidro quebrando ecoou pelo salão.

Seraphine estava ali, os olhos ardendo em fúria.


Ela caminhou até Eldran.

— “Você mentiu,” — disse. — “Eu não sou viva. Eu sou o resto.”


Eldran tentou contê-la, mas era tarde.

Com um movimento rápido, ela o lançou contra a mesa de fórmulas.

O fogo espalhou-se, os frascos explodindo.


Dentro da cápsula, o ser inacabado — Stein — abriu os olhos.

Eldran, ferido e ensanguentado, aproximou-se, estendendo a mão.

— “Não... você é minha maior criação...”


Mas Stein não compreendia nada daquilo.

O primeiro gesto que aprendeu foi o da sobrevivência:

ele agarrou Eldran pelo pescoço e o ergueu no ar.

O alquimista tentou pronunciar uma palavra final — mas o som foi engolido pelo estalo seco de sua morte.


Stein fugiu, atravessando o fogo e o vidro, desaparecendo na floresta sob a chuva.

Seraphine ficou parada, olhando o corpo morto de Eldran, o homem que a fizera existir sem lhe dar razão para viver.

Ela olhou o fogo consumindo as anotações e sussurrou:


— “Agora estamos sozinhos.”


III – O Fardo dos Sobreviventes


Dias depois, o vilarejo de Brinweld descobriu o que restava da mansão.

As pessoas se reuniram na praça, enfurecidas, apontando lanças e tochas.

Seraphine estava ajoelhada na lama, o corpo coberto de sangue e fuligem, sem reagir.


— “Monstro!” — gritaram.

— “Profanação!”


As pedras começaram a voar.

Ela não se defendia — apenas olhava, perdida.


Foi então que Elara, filha do Duque de Brinweld, surgiu com um grupo de guardas.

Ao ver a criatura, sentiu primeiro repulsa... depois piedade.


Ajoelhou-se diante dela, ignorando os gritos.

— “Quem fez isso com você?” — perguntou baixinho.

Seraphine levantou o rosto e sussurrou:

— “Meu pai.”


Elara olhou para o povo em volta e ergueu a voz:

— “Ninguém a toque! Por ordem do castelo, essa criatura é de interesse real!”


Os guardas dispersaram a multidão.

E assim, sob a chuva fria, Elara levou Seraphine para o castelo, envolta em um manto negro.

Não sabia ainda que levava consigo a ruína e a redenção de um império.


Enquanto isso, nas florestas distantes, Gregor encontrou o ser ferido e confuso — o que um dia seria chamado Stein.

Os olhos dele eram dourados, mas havia neles algo humano.

Gregor o olhou, reconhecendo ali a ironia do destino:


— aquele que nasceu do pecado de outro homem agora lhe oferecia uma segunda chance de amar.


E foi ali, sob o mesmo céu tempestuoso, que a história começou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.