Homophobie
2 Kapitel Zwei - Beschämende Realität.
Notas iniciais
Essa semana quase não passa, queria muito postar logo x3
Boa leitura~~
No dia seguinte, Hakuren e Teito não se largaram um só instante. Tinham muito assunto desde o dia anterior, já que Hakuren passara a noite inteira em companhia de Teito em sua casa.
Ele sentiu-se culpado por tê-lo deixado abatido com a questão da praia, então resolveu acompanhá-lo até sua casa, fazendo-o companhia até de noite, até depois do jantar, até o vídeo-game pós janta e até depois.
Sim, levou uma bronca quando chegou em casa, quase às duas da manhã, mesmo tendo avisado, mas valeu a pena, pois pôde passar o tempo com um bom amigo. Apesar da casca sincera e falastrona, por dentro Teito era bastante companheiro e, eu diria, até sensível.
Jogaram muito vídeo-game, ouvindo suas bandas nórdicas favoritas, mostrando músicas um para o outro, descobrindo novos vícios e compartilhando naquele mesmo momento. Tudo regado a muito brigadeiro de panela, que me pareceu que Teito fazia quase todos os dias.
Mas principalmente conversaram. Sobre tudo, sobre como Teito conhecera Mikage ou quando tiveram sua primeira briga de verdade; assuntos meio pesados para uma noite amigável, mas pendeu para esse lado quando Hakuren contou que nunca fez amizade muito facilmente.
– Isso é porque você é tímido – concluiu, como se fosse a verdade mais simples do mundo – Só tá conversando com a gente por causa do Mika.
– Devo agradecê-lo, então? – perguntou, enquanto tentava matar um dragão montanhês em Skyrim.
– Nah, ele ia falar pra você parar de ser besta – deu de ombros – Foi assim comigo também, sabe? Eu não costumava fazer amizade fácil aos cinco anos de idade, mas o Mika chegou e começou a brincar comigo num parquinho, sem perguntar nada. Lembro daquele dia como se tivesse sido ontem.
Hakuren sorriu, imaginando se teriam a mesma conversa dali a alguns anos e Teito se lembraria de como se conheceram.
– Vocês tem uma amizade tão forte – comentou, pois realmente os dois eram muito amigos e queria acentuar isso para eles – Mikage tem facilidade pra atrair essas coisas, acredito eu.
– Sem dúvidas. Ele deve ser o cara mais popular daquela escola, não tem um infeliz que ele ainda não tenha conversado – Teito riu, caçando mentalmente alguém que nunca tenha falado com Mikage e realmente não encontrando – É ótimo saber que eu sou o melhor amigo dele.
– Tudo bem, isso é algo para se orgulhar – riu, ficando em cima do muro em relação a estar sendo sarcástico ou não – E ele é tão calmo, vocês já brigaram?
Teito suspirou, colocando uma colher cheia de brigadeiro na boca: – Muitas vezes, a maioria delas por minha causa.
– Você é meio esquentado mesmo – jogou verde, imaginando se teria tocado em alguma ferida ao ver a expressão magoada do amigo – Me conta? – perguntou, pausando o jogo e devotando sua total atenção a Teito.
– Vai por mim, cê não vai querer saber. Eu e Mikage já brigamos inúmeras vezes por isso e não quero que isso aconteça com a gente – suspirou novamente ao notar o olhar ansioso de Hakuren.
– Tem haver com hoje cedo?
– Tem – disse simplesmente – Quer mais? – perguntou, empurrando a panela de brigadeiro para ele.
– Não, obrigado – negou rapidamente, voltando ao assunto – Olha, não vou forçar a barra, mas se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, vou fazer o possível pra te ajudar, sem julgamentos, ok?
– Valeu, Haku – deu um soquinho no braço do amigo, sorrindo de verdade – Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar da...
– ...filmadora TekPix! – completaram juntos, rindo as tripas logo após. O climão de contar coisas íntimas foi embora assim como veio, sem que percebessem. Hakuren concluiu que aquele era o motivo de Teito se cortar, mas como dissera: não ia forçar a barra. Não naquele momento.
Conversaram sobre o boom de idiotices que apareceu na internet a partir daí e descobriram que ambos escreviam para um blog. Hakuren, para um típico blog nerd com as nerdisses de hoje em dia, com mais outros dois amigos de Munique. Já Teito, escrevia poemas e postava, alegando receber muitas visitas.
– Que isso, Teito, eu te passei meu endereço, quero o seu agora!
– Quem sabe um dia, Hakuren – riu da expressão indignada do amigo, dando de ombros – Você ainda não está pronto para ver o quão perturbado eu sou, sabe?
– Alguns diriam que você mais perturba do que o contrário, sabia? – Teito o olhou feio e ele riu, bagunçando seus cabelos – Alguns, eu não.
– Ah, não enche – dizendo isso, levantou-se e abriu uma porta de seu guarda-roupa, puxando uma caixa preta aparentemente pesada, que fez Hakuren olhá-lo ansioso. Resolveu ajudá-lo antes que ele se machucasse, segurando a caixa no exato momento em que ela ia cair para trás e derrubar o baixinho.
– O que tem aí? – perguntou, não contendo a curiosidade enquanto Teito remexia lá dentro, aparentemente procurando alguma coisa.
– São meus poemas – disse – Tem alguns que você pode ver.
– Os do blog não?
– Não.
Hakuren fez um bico e Teito revirou os olhos, lhe entregando um caderno surrado de capa mole. Abriu e surpreendeu-se com a contracapa, que dizia ser aquele “o perfeito mundo dos Klein”.
– Que profundo – comentou sarcasticamente, o que lhe rendeu um “cala a boca”. Sentaram na cama e Hakuren começou a ler o que o amigo havia escrito – Faz quanto tempo?
– Esses? Ah, não sei... – pegou o caderno novamente, vendo algo na última folha – São de dois anos atrás.
– São muito bons, Teito – elogiou verdadeiramente, olhando-o nos olhos – Já pensou em publicá-los?
– Ah, só no blog... – comentou baixinho, encolhendo os ombros e se tornando um garoto tímido que Hakuren ainda não havia visto.
– Mas sério, tipo livro mesmo, nunca? – perguntou, se apaixonando pelas palavras que Teito escolhia para descrever seus personagens fictícios e fantasiosos.
– Não... Mas tenho certeza que o Seu Fea iria adorar.
– Então! Aproveita que seu pai é escritor e segue carreira. O essencial você já tem: Talento. Muito.
Teito cada vez mais se encolhia em sua cama, fazendo Hakuren começar a se preocupar com o tom de escarlate que ele havia adquirido. Não sabia que ele ficava assim quando elogiado; achou fofo – para o garoto marrento que conhecia.
– Vai pensar nisso? – perguntou, rindo da expressão envergonhada do amigo. Ele apenas acenou positivamente com a cabeça, sem olhá-lo – Legal. Como criou esses personagens?
– Eles são do meu pai, sabe – informou, olhando novamente nos olhos claros de Hakuren, permitindo-o ver o orgulho que sentia de cada coisa que era relacionada ao seu pai – Ele escreve as aventuras; eu faço os poemas.
– Vocês dois são abençoados! – exclamou, indignando-se com o talento deles. Quer dizer, ainda não vira o que Fea escrevia, mesmo conseguindo ter uma ideia pela escolha de palavras que ele usava para falar, mas se o mestre fosse tão bom quanto o aprendiz, então eles realmente eram abençoados.
– A Respeito de Amroth e Nimrodel? – perguntou, quando leu uma página que apenas isso estava escrito.
– É, são dois personagens do meu pai – explicou, enquanto Hakuren folheava as folhas seguintes – São meus favoritos. As páginas seguintes só têm poemas deles.
– O que eles são? – perguntou, interessado no que lia nos poemas.
– Amroth foi um rei, Nimrodel sua esposa.
– Que... Incrível! – exclamou, após apenas passar os olhos por um dos primeiros poemas do casal –
Seu manto branco foi cercado com ouro,
seus sapatos, de cinza-prata.
A luz banhava seu cabelo,
como o sol sobre um ramo de ouroem Lórien, o justo.
Seu cabelo era longo, sua pele era branca.
E justa ela era, e livre.
Sua voz como a prata caindo, caiu
na piscina brilhante.
Onde agora ela vagueia ninguém pode dizer,
na luz do sol ou na sombra;
Um navio élfico em um paraíso cinza
aguardou-a por muitos dias.
E Amroth contemplou
a margem de seu desvanecimento
e amaldiçoou o navio que o levara
para longe de sua Nimrodel.
O mar o viu saltar
e mergulhar em águas profundas,
o vento estava em seu cabelo esvoaçante,
o orvalho sobre ele brilhou.
E, de longe, o viram forte e justo
cavalgando como um cisne.
Mas no oeste, nenhuma palavra a alcançou.
E na costa daqui
o povo élfico não teve notícias
de Amroth nunca mais.
Recitou a parte do poema que lhe intrigou, fazendo Teito corar ainda mais por ter seu trabalho lido em voz alta por outra pessoa. Nunca alguém se interessara assim por eles, a não ser, é claro, seu pai, que amava suas interpretações poéticas de seus personagens.
– É sério, cara, você é muito bom – disse, folheando o caderno – Posso ficar com ele?
– O que? Não, ah, não, Haku.
– Por favoooor? – pediu, sabendo que ele estava apenas envergonhado com o fato de alguém estar lendo algo que escrevera. Ainda não sabia bem como se portar em frente àquele Teito, mas isso só o fez gostar mais ainda do novo amigo.
– Pra que você quer?
– Oras, como para que?
E assim, uma pequena discussão sobre direitos autorais, amor próprio, sentimentos expostos e mais um monte de besteiras que Teito inventou, surgiu. No final, ele acabou cedendo não um, mas três de seus cadernos, cada um representando um dos livros de seu pai.
– Gosto de me interessar pelo o que meu pai escreve, sabe? – respondeu à pergunta de Hakuren sobre o porquê de escrever aqueles poemas para os livros de seu pai – Ele ainda não tem muito reconhecimento, mesmo tendo muito talento, então quero que ele veja que eu o acho, e ele é, o melhor escritor do mundo e que nunca desista do seu sonho.
– Isso é admirável, Teito.
– Meu pai faz tanto por mim... Acho que é o mínimo que eu posso fazer por ele. O mínimo. – explicou – E agora que ele conseguiu fechar com uma grande editora pra sua nova trilogia, quero que ele dê o melhor de si. Vou fazer o possível para o nome Fea Kreuz ser reconhecido e respeitado na literatura fantástica.
Hakuren, a partir dali, se encantou pelo orgulho que Teito sentia de seu pai e de sua carreira. Felizmente, logo em seguida, teve a chance de conhecer melhor o Seu Fea, que os chamou para o jantar.
– Venho da Bavária, senhor, Munique – respondeu Hakuren, assim que Fea perguntou de onde viera. Estavam num jantar agradável, preparado com carinho pelo pai de Teito.
– Chame-me de Fea, pequeno – respondeu com toda sua graciosidade, sorrindo para Hakuren, que prendeu a respiração com tamanha leveza na voz e nos atos – Teito ainda cobra-me a viagem para vermos a famosa Oktoberfest, mas não tivemos a chance ainda. Perdoe-me novamente, filho.
– Está tudo bem, papai – respondeu sorrindo bobamente – Se foque nos livros agora, eu vou ficar bem – sorriram cúmplices e Hakuren notou o contraste de sua personalidade na presença do pai, achando interessante, porém plausível, uma vez que, conversando com Fea, era impossível ser o mínimo de inconveniente.
– O que acha de acompanhar-nos quando formos, Hakuren? – perguntou sorrindo – Assim divertir-nos-íamos e ainda teríamos um adorável guia.
Hakuren corou antes de responder, sentindo-se desajeitado e desmerecedor de estar na presença daquela pessoa tão encantadora.
– Eu adoraria.
A noite passou rápida a partir dali, com o jantar proporcionando-lhes uma boa conversa. Agradecendo, os dois subiram novamente para o quarto de Teito e lá ficaram assistindo alguns filmes aleatórios que passavam na tevê, apenas comentando a atuação, produção, roteiro, mas mais rindo do que, de fato, fazendo comentários sérios.
– Mas o que! Já é essa hora? – exclamou, assim que esbarrou com um relógio na televisão.
– Que hora? Que horas são?
– Quase duas da manhã!
– Sério? – mais comentou, em meio a um bocejo, do que realmente se interessou – Quer dormir aqui?
– O que? Ah, não, valeu, falei pro meu pai que voltava hoje.
– Ok, te levo até o Tengelmann – disse, levantando-se do pufe na frente da tevê, cambaleando de sono.
– Não, tudo bem – levantou-se também e pegou sua mochila – Você tá quase dormindo em pé. Eu vou sozinho.
– Tem certeza?
– Absoluta. Só abre lá a porta, por favor – comentou, olhando em volta pra ver se não tinha esquecido nada.
Desceram as escadas silenciosamente, temendo acordar Fea. Teito realmente estava quase dormindo em pé, mas terminaria de assistir o filme se Hakuren ficasse mais um pouco. Mal trancou a porta, após um “falou, cara, boa noite”, e caiu no sofá, roncando.
Talvez eu devesse fazer uma ressalva de que ele acordou depois e não se controlou ao ver sua lâmina, cortando-se por ser tão imbecil e atrapalhar a vida dos amigos. Mas não agora. Os momentos de aflição de Teito estão longe de acabar, não há por que ter pressa, não é?
Hakuren realmente não morava longe, em poucos minutos chegara. Ouviu uma bronca de alguns minutos de seu pai, mas não ligou muito, estava mais preocupado em não cochilar em pé, ali mesmo.
O resultado desta pequena imprudência foi os dois no dia seguinte mal mantendo os olhos abertos. As quatro primeiras aulas foram ótimas para repor as forças, dormiram como nunca antes em sala, principalmente Hakuren. Mikage não perdeu tempo em jogar bolinhas de papel e borracha em Teito, começando a jogar em Hakuren também, mas nem isso os despertou.
Mas no intervalo, assim que marcaram de sair novamente após a aula, despertaram de vez. As últimas aulas passaram conversando qualquer asneira enquanto faziam as lições.
E quem, na real, gostou muito disso, foi Mikage. Não que não gostasse de Teito ou algo assim, amava seu amigo como um irmão, mas às vezes ele era carente demais, não o deixava conversar com outras pessoas, não por ciúmes, mas por monopolizar sua atenção, de certa forma. Agora, com Hakuren, podia falar mais livremente com o resto da sala, sem medo de pensar que estava abandonando Teito.
Mesmo os dois ainda sendo os que ele mais falava, estava feliz por agora poder conversar com sua amiga, Lazette, que ele gostava bastante. Até ouviu Hakuren perguntar quem era ela e Teito falar que ele lambia o chão que ela passava, mas não era verdade. Ele só era apaixonado. Desde a sexta série. Mas não vem ao caso contar as lamúrias de Mikage por não conseguir o coração de Lazette, prima de Castor.
Porque, na verdade, ela também gostava dele, só queria ver o quanto ele gostava dela. Amor jovem, vai entender.
– Mano, mas cê precisa conhecê-la depois, falou? – disse Teito a Hakuren – A Lazette é muito firmeza, leva a gente pros melhores rolês.
– Que interesseiro.
– Não, sem zoar, ela tem sempre algum lugar daora pra ir, aí sempre acaba convidando eu e o Mika. E mais um pessoalzinho estranho que ela anda, mas eu nem ligo.
– Quem sabe eu não deixe de ser o novato pra sempre e possa ir, não é?
– Aff, que drama.
Não que Hakuren, de fato, ainda se sentisse como o novato, mas o tanto de gente que ainda tinha que conhecer denunciava o fato de que ele ainda não se entrosara realmente. Mas até que considerava aquele um bom avanço, em menos de uma semana, dois bons amigos.
Após uma aula particularmente monótona sobre imigração turca com a prof. Chiara, o sinal do final do dia, enfim, tocou e eles puderam ir para suas casas. Os três saíram e ficaram conversando na porta da escola, antes de decidirem o que fariam.
– Então, faz o seguinte: A gente compra a cartolina e depois te dá, pode ser? – propôs Hakuren, tentando resolver o problema de Mikage, que precisava comprar cartolina para fazer um mural para seu irmão mais novo, mas tinha que ir ao dentista antes.
– Tudo bem mesmo, não vai atrapalhar?
– Para de viadagem, Mikage, depois só dá o dinheiro – disse Teito, fazendo uma expressão que claramente chamava o amigo de bobão.
– Só por isso vai ter que deixar na minha casa, firmeza?
– Nem fodendo, se quiser vai buscar na casa do Haku.
– Eu deixo lá, Mika – interveio Hakuren, dando um “pescotapa” em Teito, que o xingou sem rodeios – Só me passa o endereço depois.
– Ok, valeu, Hakuren – enfatizou o nome, olhando feio para Teito. Se despediram e cada um foi para um lado, Hakuren e Teito juntos, e Mikage cutucando o braquete solto com a língua.
Foram para um café que Hakuren não conhecia, por recomendação de Teito. Era um lugar agradável, melhor do que o outro, onde só tinha xadrez para todos os lados. A decoração era sóbria e fria, com tons de azul e bege, que lembravam o mar e a areia da praia. E foi isso o que levou Hakuren a perguntar:
– Teito, podemos ir à praia?
Instantaneamente, os machucados que fizera na noite passada começaram a coçar e incomodar, fazendo-o lembrar de seu fardo. Forçou-se a sorrir, afinal, não queria que Hakuren achasse que ele não gostava, de fato, da praia. Não tinha nada contra aquele lugar, adorava ir pra lá. Mas o que sempre acontecia quando ia era o que lhe chateava.
– Você nunca foi, não é?
– Não... – respondeu, observando as reações do baixinho, que parecia estar menos desesperado com assunto que ontem, ao menos – A parte da minha mãe na família é albina, então nós nunca fomos por respeito mesmo, sabe? Ela nem aproveitaria. Ainda bem que eu não puxei muito dela.
– Entendo – disse – E vieram morar justo numa cidade de praia, hein?
– Era uma proposta irrecusável, mamãe não quis que meu pai negasse – explicou rapidamente – Nem precisamos ficar muito, só quero ao menos sentir o mar. Com a mão mesmo.
– Tá tudo bem, ontem eu tava de TPM – brincou, fazendo um gesto com a mão. Ficou levemente nervoso, mas repetiu para si mesmo diversas vezes “É só dessa vez, não vai demorar, não vai acontecer nada. É só dessa vez, não vai demorar...” – Mas se você nunca viu o mar e eu sou o guia, avante avengers!
Hakuren riu e se entusiasmou. Parou de se preocupar por um tempo com o problema de Teito e se empolgou com a ideia de praia, do mar, areia... Poderia aproveitar propriamente agora. Saíram do café, após uma maravilhosa torta de frutas vermelhas, e resolveram ir andando para o mar, já que não era muito longe.
– Você realmente está empolgado com isso, não é?
– Mas é claro que estou! – exclamou, gargalhando – Experimenta passar dezoito anos sem ir à praia. Isso deixa meio pancada, cara.
– Mas é... Só isso, né?
Hakuren o olhou, tentando entender onde ele queria chegar. O entendimento lhe veio quando os olhinhos inseguros de Teito encontraram os seus, fazendo-o sorrir carinhosamente.
– Já disse que não vou te forçar a dizer nada, quando achar que é hora de eu saber, é só me contar – bagunçou os cabelos negros do baixinho, fazendo-o lhe dar um soco de leve no braço – Isso tudo é por causa da praia, eu juro!
– Não conhecer a praia é fácil – sorriu sacana, olhando para Hakuren – Quero ver é passar cerol na mão e mostrar que é tigrão.
– Você faz isso?! – perguntou alarmado, segurando suas mãos e olhando confuso para Teito quando as encontrou em perfeito estado.
– Lógico que não, né, tonto – deu um tapa em sua cabeça com a mão que ele segurava – É a letra de uma música latina, brasileira, eu acho, sei lá. Os caras botam tipo uns tigres pra rugir de fundo, é mó brisa.
– Aff, sério? – começou a rir ao imaginar como a música seria – Depois me mostra, não esquece.
– Tem coreografia até, mano!
Ficaram rindo até chegar a seu destino, com Teito falando a letra e dançando a coreografia para Hakuren, que só faltou rolar de rir.
– Então martela, martela, martelo, martelão... – Teito estava cantarolando baixinho, apenas observando Hakuren correr para chegar logo à areia. Precisou apressar o passo para impedir que ele entrasse no mar com os sapatos, que realmente era o que ele queria fazer – Para de ser idiota, vai entrar no mar de sapato?
– Ah, é – gargalhou, se afastando das ondas que avançavam. Teito revirou os olhos e se concentrou em Hakuren e em sua felicidade por estar vendo o mar, evitou olhar ao redor.
Hakuren se agachou, olhando para o horizonte e não se surpreendeu quando não conseguiu parar de sorrir. Tocou a água gelada com a ponta dos dedos quando as ondas avançaram novamente em sua direção, molhando superficialmente seus sapatos. Pensou em jogar água em Teito, mas a ideia de que talvez ele tivesse algum trauma com água lhe surgiu e desistiu na hora.
– E aí, feliz?
– Sim! – disse, levantando-se – Queria mesmo é poder entrar, mas eu congelaria antes de mergulhar, certeza.
– É uma pena que esse outono esteja tão frio – comentou, voltando-se para areia e sentando-se, sem se importar em se sujar. Hakuren o acompanhou e os dois ficaram sentados, apenas observando o mar – Mas no verão a gente pode voltar.
– Talvez eu me arrisque antes. Só vou precisar que você me espere aqui fora com uma toalha térmica, no mínimo.
– Não acho que vai rolar.
– Eu sou bem resistente, falou?
– Não duvido. Eu é que não vou voltar aqui depois de hoje.
Hakuren sentiu sua língua coçando para perguntar o porquê, mas conteve-se. Teito notou a repressão do amigo e agradeceu mentalmente, voltando a apenas olhar para o horizonte.
Porém... O pior aconteceu.
– Mano, sente esse cheiro de sal e água – comentou Hakuren, tirando o casaco que usava – Eu achava que o pessoal exagerava quando dizia que dava para sentir o cheiro da praia.
Estava sentindo-se sortudo por poder levar o amigo a praia e não ter nenhum “surto”. Ia até mesmo propor que eles andassem um pouco, poderia levá-lo perto da montanha, onde o horizonte era estranhamente mais bonito, mas não concluiu seus intentos.
– Dá vontade de correr, sabe? – continuou falando, alheio ao surfista que parara na frente dos dois, após sair da água – Acho que vou tirar meu sapato, cê vem? – Teito não respondeu, ficando cada vez mais focado em não prestar atenção no mundo – Pronto, vambora!
E o que estava acontecendo piorou quando Hakuren tirou os sapatos e parou na frente de Teito, perguntando-se por que ele estava parecendo tão vidrado.
Vidrado no surfista que saíra da água e começara a tirar sua roupa de mergulho, mostrando um corpo malhado e levemente bronzeado, coberto apenas por uma sunga vermelha que realçava seu traseiro avantajado, suas coxas fartas, sua cintura fina. Ele tinha cabelos castanhos na altura do pescoço que balançavam com o vento que batia em sua face, deixando-o com um ar sonhador.
Indo totalmente contra as vontades de Teito, suas partes baixas reagiram àquela imagem. Agradeceu por estar sentado, então não poderiam ver se não olhassem diretamente, mas suou frio ao voltar ao mundo real e perceber que Hakuren estava à sua frente, empolgado com alguma coisa que não prestara atenção.
- Cê não vai vir? Vai, levanta logo! – disse e Teito notou que ele estava descalço. Levantou-se rapidamente, não querendo que o amigo notasse o que estava sentindo – Na boa, vou tirar a blusa.
Teito olhou alarmado para o corpo de Hakuren, notando que se ele tirasse a blusa ficaria seminu, já que não estava com nenhuma outra além da camiseta branca do colégio. E foi o que o amigo fez, ainda alheio ao desespero de Teito para que ele não percebesse que ficara excitado com o surfista e que, assim que ele levantou a camiseta, pregou os olhos no corpo magro do loiro e não tirou até ter certeza de que analisara tudo.
– Teito...?
Mas ele não ouvira, estava preocupado demais com sua excitação que só crescia ao analisar os traços alheios. Ele era magro, sim, mas tinha uma definição rara, com seis gomos de abdome, e peitos e braços bem marcados.
A roupa íntima que ele usava estava sendo torturantemente mostrada, branca e de marca, servindo perfeitamente para marcar o famoso “caminho da felicidade” do loiro, que era bem fincado, diga-se de passagem. Desceu os olhos até chegar à parte baixa do corpo do amigo, pela primeira vez notando quão apertada era a calça jeans que ele estava usando, delineando as coxas fininhas, entre outras coisas mais.
Hakuren estava confuso e corado com a análise do amigo. Ficou ainda mais vermelho quando percebeu que ele tinha um volume entre as pernas, querendo sair correndo dali. Não por vergonha, mas por descobrir que o amigo era gay. Era o que lhe bastava, seu possível melhor amigo era boiola.
– Teito? – perguntou novamente, forçando sua dicção a ir contra seu estado de espírito, fazendo a pergunta sair quase como uma bronca – O que foi?
– Hakuren... – chamou debilmente, querendo sair daquele transe, mas perdendo-se nos olhos violeta do amigo, pela primeira vez notando seus traços finos e andróginos, como o cabelo moldava perfeitamente seu rosto fino.
– O que foi, saco?!
Seu timbre irritado fez Teito olhá-lo novamente nos olhos, parando de desejar seus lábios finos, levemente assustado com o que acabara de fazer. Droga. Estava secando o amigo na cara dura, sem pudores. Sentiu-se um monstro da pior espécie.
O chão clamou por seu olhar quando notou que ele o olhava irritado, não aguentando aquele tipo de reprovação. Olhou novamente para seu amigo e não teve dúvidas do que tinha de fazer: Correu. Sem dar satisfações, sem se importar com o que pensariam dele, apenas correu o mais depressa que pôde, sentindo lágrimas de raiva e tristeza escorrerem por seu rosto.
Hakuren continuou sem entender nada, mas tinha certeza do que havia visto. Teito o desejara por alguns instantes e aquilo lhe deu tanta repulsa quanto lhe deu raiva. Por que ninguém havia contado que ele era a droga de um viado?! Essa não é uma informação importante se está começando uma amizade?
Hakuren sempre foi tranquilo com tudo. Homossexuais não lhe incomodavam, de fato. Sabia que sua raiva contra eles só lhe traria dor de cabeça, então nunca se importou em ser homofóbico. Não se importava se gays se casassem, tivessem filhos ou o que quer que fosse, mas que fizessem isso longe dele!
Já tivera amigos gays, é claro. Mas o mínimo que sempre pediu foi sinceridade, se ele tivesse correndo o risco de se tornar objeto de desejo alheio, gostaria ao menos de saber – para se prevenir. Mas nunca se afastou de ninguém por isso. Talvez alguma repulsa a mais do que normalmente sentiria, mas sua áurea tranquila não lhe deixava fazer mais que isso.
Mas ali, com Teito, sentiu-se traído. Por que ele não lhe dissera? Ou por que ele não o impedira de tirar a blusa, se é que lhe secaria daquele jeito? Bufou em irritação e recolocou a blusa e os sapatos, perdendo o pique de aproveitar a praia.
Foi para sua casa naquele dia sem vontade de ser amigável, rumando para seu quarto e se perdendo nos livros, estudando e ocupando a mente com o que quer que fosse. E, se Hakuren sentira-se traído por seu amigo, a situação de Teito era muito pior, pois sentira que fora traído por si mesmo.
Não conseguiu se controlar. Deixou aquela maldição tomar conta de si novamente. Estava evitando sair e ver muitas pessoas e, justo quando achou que tinha se curado, teve aquele acesso. E o pior de tudo: Com Hakuren, um cara que estava começando realmente a gostar e considerar seu amigo.
Estragou tudo de vez, viu como ele lhe olhou, com toda aquela repulsa que ele também sentia de si mesmo. Não aguentaria se perdesse aquela amizade, entre tantas outras, por causa daquela praga que lhe seguia.
Detestava seu corpo, detestava as reações que tinha quando via algum garoto bonito. Detestava ainda sentir-se reagir indevidamente só de lembrar do corpo do amigo, daquele surfista idiota também.
Diversas vezes mutilara-se, de diferentes formas, formas que nem mesmo tenho coragem de citar, só para ver se aquilo parava. Já procurara a igreja, mulheres, muitas mulheres, freiras, amigas, qualquer um que se dispusesse a ajudá-lo. Tinha certeza de que não era isso que queria para si, então só podia ser algum tipo de influência externa que só algum curandeiro tiraria. Mas não era isso que eles diziam, não conseguiam lhe curar.
Para sempre amaldiçoado, era assim que se sentia. Para sempre um gay.
Nem mesmo falou com seu pai quando chegara, rumando para o banheiro de seu quarto, tirando toda sua roupa e sentando-se em sua banheira, seu local sagrado para punição. A lâmina estava lá, meio turva pelas lágrimas que ainda caíam, mas lá estava ela, esperando que ele a usasse como meio de punição e, achava ele, salvação.
Não que fosse um cristão fanático. Não era de Deus que tinha medo, era de si mesmo. Não sabia o que poderia fazer, o que poderia acontecer se continuasse com aqueles desejos. Tinha nojo, sabia que era errado. Mas não conseguia refrear-se.
Então, ligou a água e pegou sua lâmina, com toda a repulsa que viu nos olhos de Hakuren refletidas em si mesmo, talvez ainda mais.
V.
A dor lhe causava alívio, sabia que pelo menos estava forçando seu cérebro a associar aqueles desejos insanos com dor e sofrimento, não podia sentir aquele tipo de coisa.
I.
Fez o traço fundo e grande, sentindo lágrimas silenciosas caírem. Estava fazendo por cima de tantas outras cicatrizes que tinha, mas ficava feliz sempre que algum tipo de “dor extra” aparecia. Era como se o destino quisesse que ele sentisse aquilo.
A.
Mas era apenas ele que se proporcionava aquele tipo de coisa, não era o destino, não era a religião. Sua religião era sua justiça e seu nojo pelos gays.
D.
Fazia aquilo desde que aceitara sua condição. Viveu por anos na negação, sabendo que seu nojo não poderia ser menor que seu desejo. Mas era, não conseguia negar que eram os meninos que lhe faziam sentir melhor, então a solução que achou fora aquela: Se punir por desejar meninos e não meninas.
O.
E, mesmo tendo assumido para si mesmo que era gay, nunca aceitaria aquilo. Sabia que era, mas se odiava por isso. E como forma de punição, se mutilava. Não, nunca contaria aquilo para ninguém – ninguém exceto Mikage, que foi quem lhe disse o que ele era pela primeira vez. Ninguém precisava saber o quão asqueroso ele era, não é? Ele já se julgava o suficiente para aguentar julgamento alheio também.
Porque era aquilo que acontecia quando alguém descobria. Lhe olhavam com nojo e irritação, e não aguentava aquilo. Já tentou “parar de ser gay”, mas seu corpo pensava algo diferente de sua mente e isso sim o irritava e lhe dava nojo.
Com o braço já marcado com o que ele era, para sempre se lembrar de nunca gostar de si mesmo, teve de punir seu principal inimigo também: seu membro. Era por culpa dele que sentia essas nojeiras. E, sem delongas, a lâmina cortou a pele sensível, fazendo um fino filete de sangue escorrer e as lágrimas caírem com mais violência na água da banheira, que já se enchia.
Cortou-se, querendo mesmo é que alguma das doenças que Mikage falava lhe pegassem e o arrastassem para o inferno. Que alguma veia se rompesse sem querer, que uma infecção lhe debilitasse. Assim não sentiria desejos mundanos e poderia, ao menos, tentar ser feliz.
Porque, por mais que tentasse, infelizmente não conseguia mudar sua realidade.
Notas finais
Deixa eu falar logo: O poema lá em cima foi retirado do livro Unfinished Tales, de J. R. R. Tolkien, e foi traduzido por mim. Não quis pegar a versão em português porque queria primeiramente interpretá-lo da minha maneira e também queria que ficasse mais com "a visão do Teito". Não manjo muito de poema, mas tentei deixar a construção como o original, então relevem.
Eu até ia mudar o nome dos personagens pra não parecer que o pai do Teito faz a histórias do Tolkien (ou é o próprio Tolkien! Juro que nunca foi minha intenção fazer com que os dois sejam minimamente comparados), mas com essas regras do Nyah! de autoria e plágio que ninguém entende, fica complicado. Então, sim, botei o poema "original", sem alterações, apenas traduzido, mas os créditos tão aí, são tudo do Tolkien.
Eu queria mesmo era colocar A Balada de Lúthien e Beren, que é um poema e história lindissíssississimos, mas sei lá, se alguém comparasse o significado do poema pro Tolkien com a fic talvez ficasse meio chato porque... Ah, não é como se alguém quisesse mesmo saber disso faksjdf
Sei lá, foi legal escrever esse capítulo, mas não sei se gostei exatamente dele. Pelo menos agora vocês sabem por que o Teitei se corta :D
Enfim, digam-me o que acharam, estou realmente curiosa u_u Não se acanhem, sou marota e não mordo.
Então, até sexta que vem, gentens! Beijones! ♥
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