Homophobie
3 Kapitel Drei - Halten versuchen.
Notas iniciais
Tô meio desanimada, mas espero de coração que estejam gostando da história.
Boa leitura.
Sexta-feira, melhor dia da semana, onde poderiam dormir tarde, ir para festas após a aula, procrastinar a lição de casa e ter um humor melhor. A manhã amanhecera com um sol raro para as temperaturas que estavam fazendo, deixando o clima mais agradável na cidadezinha.
Porém, qualquer sombra de felicidade foi-se embora quando Teito abriu os olhos e a primeira coisa que sentiu foram os cortes que fizera na noite passada. Se amaldiçoando a cada lembrança do dia anterior que lhe assolava a mente, sentiu vontade de se punir novamente.
Gay. Nojento. Pecador.
Gay.
Controlando seus impulsos, obrigou-se a se arrumar para a escola, querendo mesmo só ficar em sua cama para não olhar para Hakuren. Não aguentaria a rejeição que teria do amigo, gostava tanto dele para, a essa altura de sua amizade, estragar desse jeito? Era a pior pessoa do mundo.
Saiu de casa e rezou para que os metrôs se atrasassem, mesmo sabendo que era inútil desejar aquilo em seu país certinho idiota. Mas todos estavam lá, os quatro da estação chegariam no horário, segundo o visor. Teve certeza de que tudo estava contra ele naquele dia quando os fiscais apareceram no metrô, como há muito tempo não faziam, e pediram seu ticket, que pela primeira vez havia esquecido por culpa de seu medo de chegar logo na escola.
Fora obrigado a descer do transporte e fazer o percurso todo a pé até sua escola. Querendo ir o mais devagar possível, teve que reprimir esse desejo também e apertar o passo se não quisesse chegar atrasado. Sua única sorte era que estava a apenas duas estações da escola. Mas ainda assim conseguiu chegar atrasado, recebendo uma bela de uma detenção e só entrando na segunda aula.
– Teito! Onde estava? Achei que não viria! Está tudo bem? Foram os fiscais? – Mikage, assim que se encontraram no corredor pra segunda aula, o bombardeou de perguntas, segurando o amigo pelos ombros e olhando fundo em seus olhos, arrumando seus cabelos – já que ele não o fizera antes de sair de casa.
– Tá tudo bem, Mika.
– Tem certeza? Você tá com olheiras enorm... – interrompeu-se, entendendo na hora o que havia acontecido – Me dê seus braços.
Contra sua vontade, Teito viu Mikage levantar suas blusas e encontrar o escrito ainda não cicatrizado. Achando que ganharia um olhar reprovador, enganou-se quando Mikage o olhou triste e perguntou o porquê daquilo.
– O que aconteceu ontem, hein, Teitei? – usando o apelido que o chamava quando era criança, temendo pela saúde do amigo novamente.
– Mika... Podemos falar sobre isso depois? – perguntou e viu Hakuren passar pelos dois em direção a sala, sem olhar para os lados.
Mas ele vira a cena toda. Sentiu o peso do mundo em suas costas quando viu aquela palavra pejorativa no braço do amigo, sabendo que era culpa sua se ele estava daquele jeito. Queria poder consertar o que fizera, mas não sabia como e nem o que falar.
Teito parecia estar tão tristinho... Sentou-se em sua carteira e observou os dois sentarem-se logo após. Não teve coragem de olhar nenhum deles nos olhos. Teito, por saber que se ele estava daquele jeito, era culpa sua; Mikage, porque não aguentaria o olhar de traição que receberia, como se tivesse tirado o amigo do conforto de seus cuidados para fazê-lo se mutilar ainda mais.
Amaldiçoando-se mais do que achou possível, o fez quando notou que sentia também um pouco de inveja de Mikage. Por mais que Teito fosse problemático e fechado, de certa forma, ele não hesitou ao mostrar os machucados para o amigo. Mikage também sabia do motivo deles, o que lhe deixou ainda mais chateado. Nunca chegaria aos pés da amizade que os dois tinham.
As aulas passaram estranhamente silenciosas para os três. Alguns até estranharam, mas não ousaram perguntar o que havia acontecido, pois se nem Mikage estava conversando, era porque era algo sério.
Mas quando o sinal para o intervalo bateu, Hakuren não pôde mais evitar, precisava falar com Teito. Guardou suas coisas de qualquer jeito dentro da mochila e ficou na frente do amigo, não ousando olhar em seus olhos.
– Teito... – chamou baixinho, segurando a manga de sua blusa quando ele simplesmente se levantou e não lhe deu satisfações – Me desculpe... Eu não queria... Ontem...
Não conseguiu formar uma frase com sentido. Não sabia o que dizer, sabia que poderia estar sendo repudiado a cada palavra. Sentir os olhos de Mikage em cima de si, cobrando uma explicação, também não o ajudava em nada. Mas precisava se retratar, agora com os dois.
– Olha pra mim – pediu, segurando agora sua mão e tentando fazê-lo virar para si.
– Não toque em mim, Hakuren! – exclamou, olhando-lhe angustiada e tristemente, deixando as lágrimas caírem. Afastou-se quando o loiro lhe soltou, assustado com sua reação. Saiu da sala correndo, tentando impedir as lágrimas de caírem.
Droga, Hakuren! Por que tão bom? Por que ele não poderia simplesmente ser como todos os outros e ignorar sua presença, afastar-se de si, sentir nojo e lhe repudiar? Seria muito melhor do que saber que ele se preocupava a ponto de lhe pedir desculpas por algo que nem mesmo havia feito!
Saiu chutando as latas de lixos, sem se importar com os olhares curiosos sobre si. Não queria que o amigo ficasse perto, não queria que ele, logo nos primeiros meses naquela cidade, fizesse amizade com um gay problemático como ele. Não queria ter de aprofundar essa amizade e revelar o motivo pelo qual se cortava. Era vergonhoso.
Não podia deixar que ele se aproximasse mais que isso. Precisava se afastar antes que ele o fizesse quando descobrisse o quão sujo Teito era, não aguentaria ser afastado; era melhor afastá-lo. Gostava demais de Hakuren para isso. E por isso o ignorou pelo resto do dia.
– Hakuren, espera aí – chamou Mikage, impedindo-o de sair da sala. Hakuren esperou que ele falasse alguma coisa, não querendo olhar nos olhos preocupados do mais alto.
Mikage andou até ele e o virou para si, fazendo-o sentar numa das mesas, de frente para ele. Inquiriu-o com o olhar sobre o que havia acontecido, mas notou que ele estava mais perdido e desolado do que Teito. O abraçou, assim como sempre fizera com Teito quando ele precisava de ajuda e não queria falar o motivo.
– Desculpe, Mika, eu fiz isso com ele, não mereço ser amigo de vocês – disse, com a voz baixa e triste, que cortou o coração de Mikage.
– Não precisa se desculpar, Haku – deu alguns tapinhas nas costas do amigo, sentindo que ele afrouxava sua blusa do aperto anterior – Não estou bravo com você pelo Teito estar assim, se é isso que está pensando, ok?
– Mas...
– Não, sem essa. Acho que posso imaginar o que aconteceu. Vocês foram à praia, não foram? – Hakuren acenou positivamente com a cabeça, enquanto Mikage sentava-se na mesa da frente novamente – Acho que daí você pode tirar uma conclusão do que se passa na cabeça do Teito, mas não se culpe por isso, falou? Ele é problemático, admito. Se irrita fácil, mas nunca é com o que achamos que ele está irritado. Pode ter certeza de que ele está com mais raiva de si mesmo pelo o que aconteceu do que de você, seja lá o que tenha feito.
– Mas... Ele escreveu aquilo no braço – disse, buscando apoio ao olhar no rosto compreensivo de Mikage – Foi porque eu o olhei daquela forma... Eu sou péssimo, deixei essa droga de preconceito ir além da nossa amizade.
– Não deixou, não. Se o olhou diferente foi apenas por choque. Se o preconceito fosse maior, você não teria pedido desculpas hoje.
– Mas agora que eu já estraguei tudo? – suspirou, lembrando-se das lágrimas que viu em Teito – Ele pediu pra eu me afastar dele.
– Ele não quis dizer isso, vai por mim – disse Mikage, que já passara por situação parecida com o amigo – Ele estava olhando por você. Não queria que tivesse que ser amigo de alguém como ele.
– Como alguém como ele? O que tem de errado nele?!
– Para nós, nada. Mas ele acha que os problemas que tem vão afastar a todos, então ele prefere ele mesmo afastar as pessoas antes que elas descubram o que tem e se afastem por si só.
– Mas meu Deus, o que ele tem? O que tem de mais em ser gay? Ele ainda não aceitou, é isso?
– O buraco é mais embaixo, cara – levantou-se e rumou para a porta, sabendo que teria que encontrar Teito antes que ele fizesse alguma loucura – Se ele não te contou ainda, não sou eu que vou revelar.
– Mikage – chamou, antes que ele saísse – O que eu faço?
– Mostra pra ele que você não vai desistir da amizade assim tão fácil – falou como se fosse a coisa mais simples do mundo – Dê um jeito, sei que vai conseguir.
Hakuren apenas acenou com a cabeça e voltou para seu lugar, enquanto Mikage corria pelos corredores, procurando por Teito. Novamente sentiu inveja do tanto que Mikage conhecia Teito, perguntando-se se algum dia ele o conheceria mais ainda do que ele. Sabia que para isso, precisava passar por esse obstáculo agora, a amizade precisava continuar.
Isso, para muitos, era um defeito, mas Hakuren sempre conseguiu as melhores e mais profundas amizades sendo exatamente daquele jeito: apegado. Se tinha um novo amigo ou uma namorada mesmo, se apegava facilmente e era difícil desistir do relacionamento antes que desse completamente certo. São raras as pessoas que ele parou de falar, podia contar em uma mão quem não falava mais por briga ou por falta de contato, somente.
E com Teito não seria diferente; se ele achava que não era digno de uma amizade, Hakuren mostraria o contrário, o faria ver que ele é gente boa e que vale a pena ser seu amigo, sim.
Tinha tais pensamentos em mente, mas executá-los era mais difícil. Tombou a cabeça na mesa e dormiu até o sinal bater novamente. Teito voltou para a sala, mas sentou-se numa cadeira vaga lá na frente, bem longe dos dois. Mikage apenas deu de ombros, como se dissesse que, naquele momento, não tinham nada a fazer.
Ao final do dia, Teito foi o primeiro a sair da sala, dando ao professor a desculpa que cumpriria detenção. Hakuren não conseguiu descobrir onde ele estava, então, se odiando por isso, foi para casa. Ligou para Mikage e perguntou quanto tempo aquela detenção duraria, recebendo apenas a informação de que somente lá para as seis da tarde Teito estaria em casa.
E foi até lá quando deu 7 horas em ponto. Bateu em sua porta, sendo recebido por Fea. Perguntou se podia entrar, mas foi logo avisado de que Teito fora para a casa de sua mãe, do outro lado da cidade. Agradeceu a gentileza e foi embora, levemente desconfiado do timbre trêmulo do escritor. Estaria ele... Mentindo?
Chutou-se mentalmente ao não notar isso antes. Chegando em sua casa não fez nada além de dormir, planejando ver Teito de um jeito ou de outro, nem que precisasse arrancar de Fea o suposto endereço de sua mãe.
Pensou no que faria no dia seguinte se Teito realmente não fosse encontrado. Mas adormeceu antes de pensar em alguma coisa, tendo sonhos esquisitos com correntes e amarras. E sangue, muito sangue para todos os lados.
Acordou sobressaltado no dia seguinte. Agradeceu não ser tão tarde, não queria perder tempo. Tomou um banho rápido e mal comeu alguma coisa antes de sair, fazendo sua mãe ralhar consigo, mas antes que ela terminasse de falar, já estava saindo de seu apartamento, rumando os quarteirões necessários para chegar na casa de Teito.
A ideia de manter a amizade estava pregada em sua mente, não conseguia mais pensar em nada, nem mesmo quando se forçou a pensar em alguma desculpa para Fea por ter aparecido lá tão cedo. Só conseguia pensar em como faria para ele e Teito voltarem a se falar.
Mas por sorte – ou não – Fea o recebeu com um olhar esperançoso, jogado em cima de uma expressão desesperada.
– Hakuren, tire-o de lá, por obséquio – pediu antes mesmo que o loiro tivesse a chance de dizer alguma coisa. Não se deu ao trabalho de ser polido com Fea, já que o mesmo parecia tão alarmado quanto ele.
Subiu os degraus para o quarto de Teito de dois em dois, e forçou a porta de seu quarto a abrir. Surpreendeu-se ao encontrá-la destrancada, porém não o viu em lugar algum. Mas uma luz advinda de seu banheiro o chamou atenção. Confirmou suas suspeitas quando a porta não abriu e não adiantou forçá-la. Era lá que Teito estava preso.
Tentando agir racionalmente – pois irracionalmente estava pensando em realmente arrombar aquela porta –, procurou alguma coisa que pudesse lhe ajudar a destrancar a porta. Chamou por Teito algumas vezes antes disso, não recebendo resposta, o que lhe desesperou. Mexeu em todas as coisas de Teito que pudesse haver algum grampo, se frustrando ao não encontrar.
– Do que precisa? – perguntou Fea, que o observava da porta desde que ele entrara.
– Um grampo, clips, qualquer coisa fina e firme!
E assim foi feito, Fea tirou um grampo de seus cabelos castanhos, deixando uma franja curta cair em seus olhos. Jurou que viu uma luz celestial por trás daquele ato, pegando o grampo e forçando a fechadura.
Os dois ficaram apreensivos nos momentos que se seguiram, Hakuren usando e abusando de seus meses num acampamento em que precisava abrir dispensas para conseguir comida. Ouviram um clique e os corações se aceleraram.
Hakuren abriu a porta levemente, temendo o que encontraria. Milhares de suposições passaram em sua mente, mas quase desmaiou ali mesmo quando localizou Teito. Precisou fechar a porta para pensar com racionalidade. A primeira coisa que pensou que precisava fazer, era tirar Fea dali. Sabendo o quanto ele amava seu filho, vê-lo naquele estado poderia ser mais do que traumatizante.
– Cuide dele por mim, Hakuren, eu imploro.
– Ele vai ficar bem, senhor Fea, eu prometo – não sentiu a firmeza na voz que as palavras demandavam, mas sorriu trêmulo para o pai de seu amigo.
Quando se viu sozinho no quarto, não se demorou ao entrar naquele banheiro que lhe cegava de tão claro e branco. Se aproximou de Teito, mas não obteve reação por parte do amigo, que tinha o olhar desfocado olhando para o nada.
E lá ele estava, pareceria calmo e relaxado se não fosse o olhar desfocado, com a cabeça pendendo para o lado. Os braços estavam pendurados na borda da banheira, com os machucados recém-formados virados para cima. Em um deles, a palavra pejorativa “viado” parecia estar mais ressaltada do que no dia anterior. E no outro, “shame” fora escrito.
O sangue escorria para o piso branco, deixando um caminho manchado por onde passava. A água, que era para estar tão cristalina, estava com filetes de sangue por toda sua extensão, advindas dos machucados nos braços e, alarmando o loiro ainda mais, machucados nas coxas também eram visíveis.
Saiu de seu transe ao pensar que o amigo poderia ter sérios problemas caso perdesse mais sangue. Pegou um roupão que encontrou pendurado atrás da porta e o deixou em cima da pia.
- Vamos, Teito, levanta daí – pediu, porém sabia que era inútil. Era como falar com um cadáver; estremeceu.
Segurou o amigo por debaixo dos braços e o levantou, sem se preocupar em molhar e manchar sua roupa de sangue. O abraçou para poder tirá-lo de dentro da banheira e, ainda o segurando com um só braço, pegou o roupão e o enrolou.
Agradeceu quando Teito ficou em pé por si só, aliviando-se por ter alguma reação do amigo. Colocou um braço após o outro dentro do roupão e amarrou na cintura. Olhou para seu rosto ainda sem expressão, sentindo uma pontada forte em seu peito. Tentou levá-lo para o quarto, mas cada passo era mais doloroso de se olhar do que se ele estivesse amarrado com arame farpado.
Aproveitando que seu corpo era pequeno, o segurou nos braços e o levou, colocando-o delicadamente na cama, temendo machucá-lo ainda mais. Enrolou seu corpo num dos cobertores que lá encontrou e sentou-se ao seu lado, desconcentrando-se novamente ao olhar a expressão do baixinho.
– Desculpe, Teito, me desculpe – pediu, segurando sua mão e apertando-a em seu rosto. Mas então, Teito acariciou seu rosto, olhando para si debilmente, limpando lágrimas que nem notou que havia deixado cair.
– Por que tá chorando? – perguntou numa voz fininha, que quase fez Hakuren derramar ainda mais lágrimas, era um tom lacerante.
– Não quero te ver assim – disse e acariciou seus cabelos, querendo abraçá-lo, mas tendo que conter-se ao perceber que poderia machucá-lo ainda mais. E, seguindo este pensamento, precisou sair de perto de Teito para procurar bandagens para que ele pudesse cuidar dele – Eu já volto.
Desceu as escadas correndo, procurando Fea com o olhar. O encontrou apreensivo no sofá, mas levantou no exato momento em que ouviu os passos urgentes do loiro.
– Aqui tem algum kit de primeiros-socorros?
– Para quê?!
– Teito... Ele acabou se cortando – não mentiu exatamente, mas também não disse o que acontecera.
Foi para a cozinha sem falar mais nada, pegando uma caixinha branca no armário. Entregou para Hakuren, que quis logo subir para cuidar do amigo, mas foi impedido pela voz embargada de choro de Fea.
– Eu sei o que ele faz, Hakuren, eu já vi – declarou – E me amaldiçoo por não poder cuidar dele. Meu próprio filho.
Hakuren sentiu o coração apertar ao ouvir aquele timbre trêmulo, mas sabia que precisava cuidar de Teito antes que ele piorasse. “Não é culpa sua” foi a única coisa que conseguiu dizer no estado de choque em que se encontrava, sentindo-se a pior pessoa do mundo, mas precisava cuidar de Teito antes de qualquer coisa.
– Pode me acompanhar? Vou precisar de ajuda pra cuidar dele – pediu meio embolado, não sabendo se corria logo pra cima ou se preocupava em não ser mal educado com o pai de seu amigo.
Acenando positivamente, os dois subiram rapidamente e Hakuren aliviou-se ao chegar no quarto e ainda encontrá-lo embrulhado na cama, como o deixara. Por algum motivo, no fundo de sua mente, achou que ele correria para o banheiro para se cortar novamente.
Tentou ignorar quando viu o estado que Fea ficara quando encontrou o próprio filho em estado de choque, com o cobertor sendo manchado de sangue. Procurou manter o sangue frio e sentou ao lado de Teito, indicando o outro lado da cama com a mão para que Fea se sentasse.
O descobriu e encontrou o roupão encharcado de sangue, mas continuou, desamarrando-o e tirando com cuidado do corpo ferido de seu amigo. Fea olhou horrorizado, não acreditando no que estava escrito em seus braços e nos ferimentos de pernas e membro.
– Fea, seja forte, ele precisa de você agora – pediu com a voz firme, olhando nos olhos do escritor, percebendo que ele estava à beira de um colapso.
Abriu o kit de primeiros socorros e procurou por gazes, encontrando um rolo pequeno e temendo que não fosse o suficiente.
– Não tem mais?! – exclamou para Fea, que, incapaz de responder, mostrou outro compartimento na caixinha que continha outros medicamentos fechados e outros rolos de gazes. Começou a enrolar em todo o braço de Teito, não economizando ao ver os outros rolos – Pegue esse outro – jogou uma caixinha fechada para ele – Enrole o braço dele.
– Não é necessária uma limpeza posterior?
– O que? – perguntou, alheio ao que ele estava falando pela concentração em estancar logo o sangramento – Não, não, precisamos estancar logo isso aqui. Ele já deve ter perdido muito sangue para isso, se está nesse estado.
E, associando sua frase, olhou para Teito, que ainda estava em semiconsciência, provavelmente com taquicardia também.
– Já vai passar, tá, Teito? Vai ficar tudo bem – disse, tentando sorrir para o amigo, mas sua voz saíra trêmula e embargada pelo choro que continha – Daqui a pouco você sai dessa.
Terminou de enrolar o braço e rumou para as coxas do amigo, colocando sua perna numa posição em que pudesse atuar mais rapidamente. Logo Fea também enfaixava a outra coxa, tão cortada quanto os braços, deixando Hakuren um pouco mais tranquilo ao ver os quatro fluxos de sangue contidos, pelo menos agora.
– Fale com ele – pediu Hakuren baixinho – O tranquilize, não o deixe dormir, tudo bem? – e assim foi feito, Fea começou a dizer palavras boas para seu filho, que pareceu surtir efeito, pelo menos Teito estava agora tentando manter os olhos abertos.
Hakuren percebeu, com muito pesar, que em seu membro também havia cortes e, pegando novamente o rolo, não se inibiu ao tocá-lo. Por sorte notou que não eram tão profundos, apenas alguns arranhões, então pôde tratar como um ferimento comum, desinfetando e colocando band-aids logo após.
– Voltou a sangrar, ultrapassou – alertou Fea, com o olhar desesperado. Hakuren o instruiu para continuar colocar outra camada de gazes, fazendo o mesmo.
Quando terminaram, Hakuren mediu o pulso de Teito, constatando que estava normalizando. Pediu para colocarem outra camada de gaze, apenas por precaução, mesmo que o sangue não estivesse mais ultrapassando.
– Tem algum outro cobertor? – perguntou, mais concentrado em tirar o roupão debaixo de Teito para não esfriá-lo. Mal notou quando Fea saiu para pegá-lo, mas pediu mentalmente para que ele fosse rápido. Quando ele voltou, o embrulhou com o cobertor que trouxera e o que antes usava o embrulhou por cima, para impedir que ele sentisse o molhado de seu sangue e se resfriasse.
– Teito? Você tá bem? Tá quentinho? – perguntou, tirando os cabelos da testa suada do amigo – Tá tudo bem agora, ok?
Não obteve respostas, mas se aliviou ao ver o olhar agora totalmente focado do amigo lhe olhando. Pelo menos saíra do estado de choque.
– Como sabe de tudo isso? – perguntou Fea, referindo-se ao “atendimento” que dera a Teito.
– Minha mãe é médica, então sempre peço para ela me ensinar algumas coisas. Sempre achei útil – sorriu para Teito, sabendo que não fora perda de tempo os meses que passou estudando até grego com sua mãe para aprender como tratar melhor alguém que precisasse.
– Muito obrigado, Hakuren – disse sinceramente, beijando Hakuren na testa – Eu sempre escrevo as situações mais desesperadoras, mas nunca consigo executá-las. Obrigado por salvar meu filho.
– Você fez parte deste salvamento, não se esqueça – sorriu para o pai do amigo e então prestou sua total atenção em Teito e em como ele estava se recuperando.
– Hakuren... – ouviu Teito lhe chamar baixinho e os dois lhe devotaram total atenção – Eu não... Te culpo... A culpa é toda minha... Desculpe por... – tossiu um pouco antes de continuar, fazendo Hakuren pedi-lo para não se esforçar – Não, me deixa... Te falar... Naquele dia, eu não... Quis fazer aquilo...
– Acho que está em boas mãos agora, filho – disse Fea, não querendo de forma alguma deixá-lo, mas sabendo que os dois precisavam conversar sobre o que acontecera. Sozinhos, infelizmente. – Vou deixá-los conversar.
– Você me ajudou bastante, obrigado – agradeceu, fechando os olhos – Mas não quero que você sofra do meu lado. Vai... Vai embora, Haku. – pediu, mas sua voz dizia exatamente o contrário.
– Não vou, Teito – disse, decidido – Você precisa de cuidados, além de companhia.
– Mas...
- Não, para com isso – pediu – Eu sei que você se culpa por coisas que eu posso imaginar e por outras que eu não posso também, mas eu peço para que não faça isso. Olha onde você chegou, Tei...
Teito suspirou e sentiu-se fraco demais para argumentar.
– Vai me contar
– Não – disse automaticamente, bem antes de associar o que ele dissera – Ah, Hakuren, eu não... Tenho coragem.
– Então, tudo bem. Mas eu vou ficar aqui, ok? – disse, deitando ao seu lado. Teito se afastou, deixando-o mais confortável – Tenho que cuidar de você, não é?
Teito sorriu, sentindo o coração se acalentar ao ver o quanto o amigo estava se preocupando. Mas se entristeceu novamente quando percebeu que, se ele não se afastasse, teria que contar-lhe logo o que acontecia consigo e correria o risco de perder aquela ótima amizade.
Hakuren ficou lá, feliz por tê-lo ajudado, mesmo com o coração apertado por ver e vivenciar o quão longe ele iria com aquela loucura. Estremeceu ao pensar o que aconteceria com o amigo se ele não tivesse chegado a tempo.
Sua curiosidade passou a ser uma questão de poder ou não ajudá-lo propriamente. Mesmo que chegasse a ser inconveniente, perguntaria e descobriria seus motivos. Conseguia imaginar o que era, mas precisava de uma confirmação. Sua teoria era absurda, não conseguia acreditar que Teito fazia mesmo aquele tipo de coisa por um motivo tão... Supérfluo.
Ele era homossexual e se punia por isso. Pior do que sofrer preconceito dos familiares ou amigos, ele era quem o condenava por ter aquela preferência. Eram milhares de vezes pior. Hakuren também sentia que, estando perto dele, poderia agravar esse quadro uma vez que tivera a confirmação que o amigo sentia, sim, algum tipo de atração por ele.
Ainda lhe causava certo estranhamento saber que seu próprio amigo o desejava. Era fora de sua realidade, algo que não estava e nunca estaria acostumado. Mas não podia e não conseguia deixar o preconceito ser maior que seu senso de proteção para com o baixinho, que aparentava ser tão fraco e problemático. Precisava ajudar aquele menino, sentia isso no fundo de seu coração, e não deixaria nenhum valor ser maior que isso.
Viu quando a cabeça de Teito pendeu para o lado, denunciando-o que dormira. Não viu quando seus olhos ficaram tão pesados que adormeceu também, com a cabeça apoiada na do amigo.
Teito acordou no meio da tarde, tentando se lembrar do que acontecera. Lembrou-se de tudo em poucos segundos, assim que botou os olhos em Hakuren dormindo ao seu lado. Sorriu por ver que ele era, assim como achou no início, um ótimo amigo e procurou não pensar no que teria de fazer quando ele o abandonasse. Acabou dormindo novamente.
Quando já era tarde da noite, o celular de Hakuren tocou, o que acabou acordando os dois. Era a mãe do garoto lhe perguntando quando voltaria. Ele disse para ela não se preocupar, que não estava longe, e que daqui a pouco iria.
– Tem mesmo que ir? –Teito perguntou com a voz baixinha de sono, fazendo Hakuren bagunçar seus cabelos.
– Sim, não quero preocupar o pessoal lá em casa – espreguiçou-se e sentiu os efeitos de ter dormido numa posição ruim – Mas antes me deixe ver seus ferimentos.
Teito corou como nunca antes. Tinha vergonha de fazer o que fizera com seu corpo e ter de mostrá-los para alguém era mais do que incômodo, mostrá-los para Hakuren era quase inconcebível. Mas engoliu a vergonha ao olhar para um Hakuren preocupado, que cuidaria de si antes de lhe julgar. Suspirou e tirou os cobertores de cima de si.
– Talvez eu possa trocar isso... – Hakuren comentou consigo mesmo, referindo-se às gazes, que não estavam mais encharcadas, o que significava que o sangramento havia parado e que estava na hora de trocá-las.
Sem nem mesmo comunicar o amigo do que faria, pegou a caixinha e deixou-a em seu colo enquanto tirava-lhe as gazes usadas. Viu que os ferimentos ainda não haviam cicatrizado, então precisaria limpar, mas ficou com medo de fazê-lo porque talvez fosse abri-los novamente. Então simplesmente enrolou novas gazes, enquanto dava instruções a Teito sobre como e com o que limpar os ferimentos quando trocasse as gazes.
– Porque você vai continuar usando-as, ouviu bem?
Fez o mesmo processo no outro braço, vendo que aquele estava mais crítico, pois fora ali que Teito ressaltou o escrito anterior, cortando por cima do antigo corte. Deu mais instruções de como proceder, fazendo Teito rodar os olhos com a preocupação excessiva.
Porém...
– Er, Hakuren...? – chamou cautelosamente – Olha, acho que eu posso fazer isso, não precisa...
– Fica quieto, Teito.
– Não, é sério, tira a mão daí, cara – sentou-se. Hakuren estava agora tirando as gazes de sua coxa, o que era extremamente constrangedor para alguém que estava completamente nu – Porra, Hakuren, eu vou ficar de pau duro!
Como se recebesse um balde de água fria, Hakuren parou tudo o que estava fazendo e se afastou. Tal movimento repentino fez Teito questionar-se se não seria por causa do preconceito do amigo e se entristeceu novamente, mas preocupou-se primeiro em se cobrir.
Trocou as gazes debaixo do coberto, corando tudo o que não corara antes quando notou onde Hakuren colocara um band-aid, não acreditando no amigo. Resolveu não mexer ali e fingir que não viu, seria menos constrangedor.
Hakuren quis fazer algum comentário irônico sobre a vergonha do amigo, mas qualquer coisa que cruzava sua mente tinha a ver com “como você é viado” ou “já vi tudo que tá aí”. E esses definitivamente não ajudariam em nada a situação.
– Pronto.
– Ótimo, pode limpar as coxas igual os braços – disse – Mas não se esqueça de limpar devidamente depois, Teito, pelo amor de Deus.
– Ai, tá, relaxa.
– E... Não se corte de novo, tudo bem?
Porém, antes que Teito pudesse responder, Fea adentrou o quarto com uma bandeja com algum prato de comida, sorrindo ao encontrar os dois acordados.
– Como está, filho? – perguntou, antes de qualquer coisa, deixando a bandeja em cima do criado-mudo – Está melhor?
– Sim, papai, muito.
– Sente dores? Quer algum remédio? – perguntou, mas os dois olharam para Hakuren, que fazia um barulho de negação com a língua.
– Melhor ele não tomar nada agora.
– Virou médico, pô? – emburrou-se Teito, que estava pronto para pedir um Ponstan – Posso jantar, pelo menos?
– Deve.
Colocou a sopa de legumes que seu pai fizera em seu colo e jurou que nunca tinha comido algo mais gostoso, agradecendo seu pai.
– Bom, gente, eu preciso ir – informou Hakuren com muito pesar, queria ficar lá e policiar Teito de perto, mas também não queria preocupar sua família – Senhor Fea, pode... Abrir a porta para mim?
Queria conversar com o pai do amigo em particular, para ser mais exato. Mas Teito nem se tocou, continuando a apreciar sua sopa. Fea jurou que não demoraria e os dois desceram.
Hakuren primeiro alertou sobre as possíveis reações que ele poderia ter caso o ferimento abrisse novamente, como cuidar e limpá-los, o que poderia e não poderia fazer depois de todas aquelas agressões.
– Mas não o deixe sozinho, eu imploro – disse – Durma com ele, o acompanhe de cima em tudo o que ele fizer. Se for preciso, reviste seus bolsos para tirar possíveis lâminas.
– Eu o farei. Dedicar-me-ei completamente a ele a partir de agora, obrigado pelos conselhos, filho.
Se despediram de modo sóbrio, Fea correndo para cuidar de seu filhote e Hakuren querendo mais era fazer o mesmo, mas teve de ir para casa. O que sentiu quando chegou foi estranho, como se tivesse fazendo algo contra seus valores.
Porque seu valor, depois daquele dia, tornou-se cuidar de Teito, não importa a circunstância.
Notas finais
Btw, minha gente, o Nyah! fez o favor de cortar todos os travessões do cap. Tentei consertar, mas não sei se vai funcionar, então se acharem algo sem (ou se posteriormente ficar completamente sem) me avisem, ok? :3 Obrigada, Moyashi, por avisar! ♥3
Esse cap foi meio monótono, admito f~çlasdjf Mas ah, deem um desconto, tá no começo ainda. Falando nisso... Já estamos no capítulo três e, bem, como eu posso dizer? Um pessoal do cap 1 não tá mais aparecendo, tô vendo que uns tão lendo e não comentando e tudo o mais. Isso me desanima muito, sabe >: I mean, eu me esforcei por semanas pra criar algo legal ~pra vocês~ e não ter feedback é tão broxa ;3;
Então, me digam o que acharam! Enredo, personagens, gramática, qualquer coisa! E btw, gostaram da nova regência? 8D Minha marida diva Moyashi começou a betar, deem a ela as boas-vindas. Muito obrigada, gatona!
Beijão, até semana que vem!
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