Homo Sapiens
5 Grigor
Era sua terceira noite em Koldovstoretz. Era setembro e estava um pouco frio para o mês – ou talvez fosse porque ele não estava acostumado àquela parte do país – e os alunos do primeiro ano de sua casa estavam todos reunidos no salão comunal, alguns em grupos, outros em duplas, e outros sozinhos, como Arseni estava. Ele ainda estava acanhado, embora já tivesse percebido que ninguém ali lia mentes – exceto o zelador, fato que foi dito pelo diretor antes do banquete de recepção, mas ele ainda não o havia encontrado.
Então um dos alunos, um tal de Vadim Ivanovich, sugeriu que eles brincassem de um jogo trouxa. Ele, que era filho de pais trouxas, tinha muito contato com a cultura deles, e decidiu que aquele era um bom jogo para quebrar o gelo, por assim dizer.
O jogo consistia em rodar uma garrafa no chão, dentro do círculo formado pelas pessoas sentadas. As duas pessoas “selecionadas” pela boca e pelo fundo da garrafa deveriam se beijar; se se recusassem a fazê-lo, deveriam contar um segredo sobre si mesmas.
Arseni quis protestar: não queria jogar aquele jogo. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma garota o arrastava pelas mangas das vestes até o círculo, formado por onze ou doze alunos, os que ainda estavam fora da cama àquela hora da noite.
A garrafa girou. As duas partes dela pararam em garotas. Elas, parecendo enojadas pela ideia, se recusaram a se beijar, e contaram seus segredos: uma roubava dinheiro dos pais para trocá-lo por drogas mágicas e a outra havia, ainda que sem querer, assassinado o animal de estimação que era uma relíquia de família.
Alguns riram, outros pareciam impressionados. Arseni revirou os olhos, nem entretido nem impressionado.
A garrafa girou outra vez. Parou em uma garota e um garoto. A garota parecia menos tímida do que ele, e o puxou para um beijo longo, com línguas e saliva, que fez o resto dos alunos – exceto Arseni – baterem palmas e dar vivas.
Da próxima vez que a garrafa foi girada, ela parou em Arseni. Em Arseni e um outro garoto. Ele engoliu a saliva, sentindo as mãos ficarem subitamente frias. O garoto se ajoelhou no centro do círculo, uma expressão impassível no rosto, e fez um gesto com a mão:
— Ora, — disse — venha logo.
Arseni hesitou por um momento. Olhou ao redor e viu os outros cochichando, dizendo algo sobre o par de Arseni ser um maluco sem pudor. Arseni então, subitamente imbuído de coragem, foi ao centro do círculo e beijou o garoto nos lábios, invadindo sua boca com a língua.
Os murmúrios viraram quase gritos, alguns de nojo, outros de surpresa. O beijo continuou por alguns segundos, e quando eles se separaram, Arseni viu o garoto sorrir; um sorriso de dentes muito brancos e caninos longos como presas.
Foi seu primeiro beijo. O garoto era Grigor Vladmirovich Filienkov, que viria a ser seu namorado anos mais tarde.
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