Um dia ele ouviu dizer que os pais são o modelo de relacionamento que você leva para o resto da vida. Arseni não teve isso.

Sequer conheceu a mãe: apenas sabia que ela era uma puro-sangue, e que não gostava de se misturar com gente feito ele e seu pai. Gavríl nunca lhe contou como eles se conheceram e como chegaram a ficar juntos, apenas que era para abaixar a cabeça perto de gente como ela. Ele claramente não acreditava que as duas partes de um relacionamento tinham o mesmo peso, e ensinou isso a Arseni. Por serem mestiços, por serem pobres, por serem eles mesmos, eles deviam abaixar a cabeça para quem importava mais.

Ele começou a namorar quando tinha treze anos. Foi com uma garota, em Koldovstoretz. Ela era um ano mais velha, e por isso pesava mais no relacionamento – a ele também foi ensinado a respeitar os mais velhos, não importava o quão mais velhos fossem. Ele não tinha muita ideia do que fazer com ela. Dava-lhe beijos quando pedia e presentes em datas comemorativas. Em seu aniversário, deu-lhe uma caixa com livros, chocolates, um ursinho de pelúcia e ainda um buquê de flores. Ela se dizia lisonjeada, mas era claro que não tinha o mesmo interesse que ele. Na verdade, ele mesmo não tinha o interesse que demonstrava. Ele a respeitava, mas não a amava. Não chegaram a oficializar o término do namoro: ele não mais se considerou como namorado dela quando a viu beijando um garoto de outra casa.

Seu segundo relacionamento foi aos quatorze anos. Com um rapaz da idade dele, da mesma casa que ele. Mas ele não gostava da maneira em que o garoto o tratava. Quando se questionava a respeito, o termo que lhe vinha à cabeça era “pano de chão”. Não tinha certeza da razão, mas sentia que era assim que o garoto o tratava. Ele era ciumento e cruel, e sempre brigava com Arseni quando o via olhando outras pessoas – “Eu não sou o bastante para você?” e pegava um dos braços dele com força. Um dia ele cravou as unhas no rosto de Arseni, exigindo atenção. Ele tinha olhos escuros, e Arseni conseguia se ver refletido neles, o terror no rosto, as marcas de unha e sangue. Depois desse dia, ele passou a evitar o menino, mesmo que isso significasse levar uma surra dele no final do período letivo.

O relacionamento com Matviei não aconteceu realmente. Aconteceu somente em sua cabeça, em seus sonhos, em suas fantasias. Matviei era mais velho do que ele – vinte e três anos mais velho – e, em qualquer situação, Arseni abaixaria tanto a cabeça enquanto falava com ele, que beijaria o chão. Mas não foi assim. Eles dividiam cigarros e vodca. Dividiam histórias e sorrisos. E, para Arseni, aquilo era amor.

Mas Matviei o rejeitou. Rejeitou-o ao ponto de sair de seu cargo e pedir que nunca mais lhe escrevesse. A dor de um coração partido era algo novo para Arseni, e ele desejava – e como desejava – ter as unhas de Grigori em seu rosto outra vez a ter que experienciar aquela dor.

Era pior do que ter os ossos quebrados numa partida de quadribol. Era pior do que as surras de seu pai. Era chorar constantemente a qualquer lembrança, era evitar qualquer ponto de encontro porque sabia que não suportaria ficar ali sem se sentir com ânsia, sufocado com saudade. E ele soube que aquela dor era a pior dor de todas porque ela não ia embora. Ela nunca ia embora, mesmo depois de anos. Mesmo depois de tê-lo encontrado de novo. Talvez por ter que fingir que nada tinha acontecido. Talvez por ter que lidar com a paixão outra vez.

E agora que moram juntos em outro país, precisa encará-lo todos os dias. Forçar um sorriso todos os dias para que ele soubesse que tudo está bem, que seu coração havia se curado, que a proximidade não tinha perigo.

Mas é tudo mentira.

Agora, Arseni pensa que não é digno de amor. Talvez nunca tenha sido. Talvez a falta de interesse, a surra e a rejeição fossem um aviso: ele não era digno de amor.