A fogueira iluminava os arredores do acampamento e tornava o ambiente do meio da floresta mais agradável de se ficar, o grupo encontrou uma clareira no meio de seu caminho pouco tempo depois que o sol se punha. O lugar não estava completamente limpo, mas, com a ajuda de todos a limpeza não foi difícil, cerca de dez zumbis. Nenhum deles pôde dormir no interior do carro, pegaram seus sacos de dormir e os deixaram ao redor da fogueira, não possuiam barracas — o que dificultaria o conforto na hora de dormir — e também não haviam conseguido caçar se quer um veado ou coelho. Estavam de mãos vazias, sem carne alguma para dar um gosto a mais no jantar, tiveram que recorrer a comer apenas o que haviam trazido: água com acompanhamento de ervilhas enlatadas, feijão enlatado e arroz de um pacote de ração humana.
– Será que um dia vamos poder jantar numa mesa novamente, reunindo toda a família e rindo com qualquer coisa? — disse em voz alta e triste, Suellen.
– Qual é, Sue! É claro que vamos, não se preocupe. — Juan aproximou-se dela e abraçou-a amigavelmente. — Tudo vai ficar bem, você vai ver...
Ben parou de comer e olhou para o céu, deitou-se calmamente e colocou um braço apoiando a cabeça como travesseiro e o outro em cima de seu peito. Pensamentos, ideias e planos explodiram em sua cabeça deixando-o com diversas metas que ele acreditava serem necessárias cumprir para que um dia a civilização, a humanidade pudesse voltar a ser o que era antes. Sentia que precisava tomar uma atitude, iniciar uma nova comunidade, reunir mais e mais pessoas para conseguir transformar um condomínio de casas abandonado em uma comunidade inteira.
– Amor, no que está pensando? — Samara aproximou seu saco de dormir perto do dele e deitou-se ao seu lado.
– Na vida, querida... O que a Suellen disse me fez pensar: Será que nós conseguiremos reestabelecer a civilização? Talvez consigamos encontrar um condomínio de casas ou algo do tipo e...
– Calma, Ben. A gente vai conseguir fazer isso, mas, precisamos ser pacientes. — ela o interrompeu. — Tudo que nós precisamos é de paciência.
Ben apenas observou-a e percebeu novamente depois de vários dias de dificuldades que aquela mulher era e sempre seria perfeita para ele. Sempre o acompanhou e o ajudou, mesmo antes do apocalipse onde ele passava por dificuldades financeiras e precisava de ajuda, ela sempre esteve com ele. Nunca o abandonou, nunca o deixou e nem mesmo pensou nisso. Ele sorriu para ela e ela respondeu com outro sorriso. Os dois beijaram-se por alguns segundos e deitaram-se para dormir.
– Boa noite. — disse, Ben.
– Boa noite, amor. — respondeu.
Juan soltou Suellen e a deu um beijo na testa, abraçou-a novamente e voltou para seu saco de dormir. Suellen sentia-se segura quando estava perto de seu irmão, ainda não tinha tido tempo para confiar em Benjamin e Samara. Acomodou-se em seu lugar e fechou os olhos, deixou-se levar por seus pensamentos e em pouco tempo adormeceu. Todos adormeceram.
* * * * *
Um barulho lento e estranho vinha da mata ao redor do grupo, não era possível avistar nada. Poderia ser um animal selvagem vagando pelo meio da floresta em busca de algo ou não. As folhas secas no chão e alguns galhos quebravam-se a cada nova pisada que ia ecoando pela floresta. A lua cheia iluminava as copas das árvores, mas a luz não conseguia atravessar profundamente essas folhas. Um destes barulhos chegou muito perto e causou um barulho alto que acordou, Samara. Ela acordou discretamente Ben e informou-o dos barulhos. Ele permaneceu deitado, fingindo ainda estar dormindo e convenceu Samara a fazer o mesmo. Se alguma coisa aparecesse iria passar reto por eles, não iriam vê-los. Ben fechou os olhos por alguns segundos tentando escutar o som que sua esposa havia lhe alertado, mas, ele não ouviu nada. Nenhum barulho sequer.
Os ruídos foram ficando cada vez mais agressivos, Samara não conseguia fechar os olhos sem imaginar diversas possibilidades para o que estava espreitando. Chegou a um ponto em que ela não aguentou-se mais e o pesar do sono a fez dormir novamente. Não demorou muito para que o barulho se tornasse enlouquecido e logo diversos homens surgiram do meio da mata, eles formaram um círculo e cercaram o grupo enquanto ainda dormiam. Alguns dos homens retiraram cordas de mochilas que carregavam e começaram a amarrar nos pulsos e pernas das duas mulheres e dois homens imobilizaram com facas Ben e Juan.
– Fica bem quietinho ou a gente corta sua garganta e mata suas acompanhantes. — sussurrou ameaçadoramente o homem que segurava Benjamim.
– Merda. — foi o que Ben pensou naquele momento. Estavam a poucos passos da morte por culpa de um erro que ele julgava ser dele mesmo.
Samara e Suellen foram amarradas em duas árvores diferentes, uma do lado da outra. Os homens tiveram exímia cautela e conseguiram fazer todo o processo sem acordar as duas. Uma das pessoas do grupo retirou uma pistola de seu coldre e deu um disparo para o céu acordando as duas garotas que ainda estavam dormindo. O homem surgiu por detrás de alguns capangas de seu grupo e sorriu amigavelmente.
– Muito prazer, eu me chamo Douglas! — um homem branco de corpo musculoso, cabelo pequeno em corte militar preto como seus olhos, usando um moletom preto com algumas manchas de sangue, uma calça larga e uma bota preta. Ele abrius seus braços como alguém que sauda um velho amigo de muito tempo. O silêncio manteve-se por um tempo, os homens carregavam em seus rostos sorrisos macabros e perversos. Ben observou Douglas enraivecido. — Ora, para quê essa cara feia, amigo? — disse Douglas dando um soco leve e amigável no queixo de Ben.
Ele cospiu em seu rosto na tentativa de mostrar-se superior ao invasor. Douglas apenas limpou a saliva de seu rosto e deu uma cotovelada em seu nariz, fazendo-o sangrar incontrolavelmente. Outro homem chegou atrás de Benjamim e segurou o outro braço dele, tornando a força que continha Ben maior ainda.
– Desgraçado. Eu não queria começar minhas apresentações batendo em vocês, mas, pelo que já vi você é o líder desses covardes imundos. Pois bem, parece que vou ter que bater um papo com você e o resto do seu grupo. — Douglas fez uma pausa dramática, respirou fundo e iniciou seu discurso. — Eu e meu grupo estamos aqui com um único propósito: brincar com vocês. Nossa comunidade está passando por certas dificuldades e nós estamos com falta de recursos, munição e tudo mais. Porém, estamos principalmente sem mulheres conosco! Isso está deixando a mim e meus homens muito frustrados e com uma vontade tremenda de... Como vocês dizem por estas bandas? "Afogar o ganso", certo?
Um frio percorreu a espinha de Juan quando ele tomou conta do que estava prestes a acontecer, ele está imobilizado por um homem e uma faca estava apontada para sua garganta, ele não podia movimentar-se direito, mas, ele nunca deixaria sua irmã sofrer nada enquanto ele assistia. Juan esperou pelo momento certo enquanto Douglas respirava e olhava ao redor e pisou com toda a força no pé do homem que o segurava, ele deixou a faca cair no chão e Juan correu na direção de Douglas, tentando chegar até ele sem que percebessem e matá-lo. Uma tentativa desesperada que gerou em um erro fatal, Douglas virou-se rapidamente e desferiu rapidamente um chute com sua perna esquerda na bochecha de Juan. Ele foi jogado no chão, mal dera problemas para o líder do grupo invasor.
– Parece que seu amigo tentou dar uma de herói. Fiquem sabendo que se fizerem isso de novo alguém aqui vai morrer. — ameaçou. — Bom, como eu ia dizendo... Nós estávamos fazendo uma de nossas rondas noturnas em busca de alimento e munição para nossas armas, mas, por sorte nossa e azar de vocês nós encontramos vocês. Deixe-me dizer o que vai acontecer: Nós vamos fazer algumas coisas com suas duas belas moças, pegamos seus mantimentos e se tiverem armas de fogo, levamos também e vamos embora. Não faremos mal algum a vocês! E então, o que me dizem? Vão fazer por bem ou por mal? — perguntou, Douglas, dirijindo a pergunta para Ben.
– Vai se fuder. — disse, Benjamim com o sangue escorrendo de seu nariz até os arredores de sua boca. Gotas de sangue pularam de sua boca quando ele proferiu essa frase, aquilo não o incomodava, a adrenalina em disparada no seu corpo não o permitia sentir dor alguma.
– Tudo bem, será por mal. — Douglas olhou para Samara e Suellen e observou-as, tentando definir quem seria a primeira a ser estuprada. Algum tempo passou e ele continuava indeciso. — Mas que porra do caralho. Não consigo me decidir! — disse em alto e bom som com um sorriso no rosto. Seus homens riram junto com ele.
– Tenho uma ideia, vou deixar que esse cara aqui escolha por mim. Ele já deve ter pegado essas duas gostosas aí. — Douglas aproximou-se novamente de Ben. — Então camarada, quem vai ser? A loirinha ou a morena? — Douglas sorria como um psicopata até que olhou para sua mão esquerda e percebeu que ele usava uma aliança. — Ah, não! Não me diga que você é casado?! Deixa eu adivinhar, pelo modo como você e a moreninha estavam dormindo então vocês dois são o casal desse grupo. — ele gargalhou como se tivesse descoberto algo significativamente ótimo. — Isso é perfeito! Vamos ver quem você vai escolher, sua esposa ou a sua amiga? Quem vai ser?
Ben apenas ficou calado, uma lágrima percorreu seu rosto e um abalo mental o fez cair. Não estava apto a fazer mais nada, aquele era o fim da esperança de Benjamim de conseguir viver em paz um dia, ele nunca conseguiria viver com a culpa de ter que escolher uma das duas garotas do seu grupo para serem violentadas até provavelmente morrerem. Ele apenas balançou sua cabeça em negativo e abaixou-a, olhando para o chão. A vergonha era tanta que ele não conseguia olhar nos olhos nem de seu inimigo.
– Ora, parece que vou ter que escolher... Mas, antes quero dar uma olhada no material. Jefferson, Carlos, por favor façam as honras e retirem as roupas dessas duas moças.
Os dois se separaram e começaram a arrancar do corpo as roupas que protegiam as duas mulheres. Deixando-as apenas com suas roupas íntimas. Samara estava toda de preto e Suellen usava apenas branco. As duas estavam em ponto de bala para matar todos ali e também para caírem em lágrimas.
– Nossa, que achado! As duas tem corpos lindos, devo dizer. Não é todo dia que encontramos duas moças tão bonitas como vocês duas. — ele riu. — Bom, vou começar com você. — ele apontou para Suellen e com toda a calma do mundo retirou o pouco que restava de suas roupas intímas, deixando-a completamente nua. Seu corpo era belo e escultural, seus seios eram redondos e avantajados e seu abdomem era definido.
Douglas retirou suas calças e começou a penetrar a moça sem medo, seu desejo seria saciado depois de tanto tempo de espera. Juan estava louco, enfurecido, descontrolado como um animal selvagem que está prestes a sofrer de um destino pior que a morte. Ele debatia-se como um esquisofrênico e ameaçava morder a tudo e a todos num ato de raiva pura. Ben estava transformando a areia abaixo dele em lama com suas lágrimas, ele não iria olhar para aquela cena terrível. Samara tentou conter seu olhar, mas, os agressores não permitiram-na negar a assistir a cena.
Logo os dois homens que seguravam Ben agiram da mesma forma que o homem que segurava o rosto de Samara, eles levantaram seu olhar e o forçaram a assistir a cena também, a lembraça daquela terrível cena ficaria marcada para sempre em suas recordações.
O grupo gritava e urrava em êxtase com a cena dramática e Douglas estava fazendo uma algazarra incentivando seus companheiros. Ao longe, talvez a 300 metros dali estava um grupo de zumbis seguindo em direção a luz da fogueira e do barulho que os loucos estavam emitindo. Seus passos eram lerdos e eles não seguiam uma rota linear, mas, aos poucos o grupo de poucos ia aumentando e se tornando um grupo de muitos.
– Para com isso, filho da puta! — gritava, Juan tentanto escapar das mãos que o seguravam.
– Parar? Por que eu pararia?! — disse, Douglas, atiçando a furia de Juan.
Douglas continuou realizando sua macabra cena até que ele parou ao ouvir um som estranho vindo do interior da floresta. Ele sabia que o tiro iria trazer zumbis para o encalço deles, mas, não achava que seria tão depressa. O grupo aumentava a cada passo que dava e ia juntando-se a outros grupos. Os passos da horda pareciam a marcha de um exército e logo todos os outros, inclusive o grupo de Ben começaram a ouvir o barulho.
– Douglas, vamos embora! Não vai dar tempo. — gritou um dos homens de Douglas, amedrontado.
– É verdade... Que merda! — Douglas enlouquece por não poder terminar seu serviço, mas, sua mente era tão consumida pela loucura que ele fez com que seus homens desamarrassem Suellen e levassem-na junto com eles. Douglas não queria deixar aquilo por menos e também queria uma dolorosa morte para todos daquele grupo, então, soltou todos os três e levou consigo, Suellen.
– O que você está fazendo, Douglas?! Vai soltar esses doidos? — perguntou um homem armado com um machado.
– Sim, eu quero que eles sobrevivam e carreguem a culpa de terem deixado uma de suas amiguinhas ser estuprada e levada comigo. — Douglas foi até Samara. — Você tem sorte, mas o que é seu está guardado bem aqui na minha calça. Em breve você vai sofrer assim como sua amiga vai sofrer comigo.
O grupo encontrou o carro do grupo de Ben ainda com as chaves dentro, eles saquearam uma boa quantia dos recursos deles e roubaram o carro. Ele nem sequer levantou, ele ficou de joelhos no chão, chorando e culpando-se. Juan havia levado alguns socos antes de ser solto para que não tentasse nenhuma loucura e ainda estava se recompondo no chão. Samara colocou novamente suas roupas, envergonhada e abraçou Benjamim fortemente, tanto para sentir-se protegida como para trazê-lo de volta a realidade.
Juan levantou-se, ainda louco por ver sua irmã ser violentada e agora também por ter sido sequestrada. Ele avançou para cima de Benjamim, empurrou Samara para longe e começou a desferir diversos socos no rosto dele. O nariz de Ben havia parado de sangrar a pouco tempo e com os socos de Juan ele voltou a sangrar novamente, seu rosto estava manchado com sangue e agora as mãos de Juan também estavam, até que ele percebeu que aquilo não resolveria nada. Levantou-se e apenas conteu as lágrimas que desejavam molhar seu rosto.
– Você não precisava parar, para quê eu ainda vou viver? Liderei-nos até essa merda e agora veja como estamos, levaram sua irmã, Juan! E eu não fiz nada. Eu, eu... Eu não fiz nada. — lamentou-se.
– Vamos, não foi culpa sua. Você não podia fazer nada a respeito, se fizesse podiamos todos ser mortos. — disse, Samara.
– Isso não importa agora, Ben. Temos que esquecer isso e encontrar a Sue.
– Juan tem razão, precisamos partir agora. Tem vários zumbis chegando e agora nós estamos a pé.
Samara e Juan ajudaram Ben a levantar-se, ele estava com a visão embaçada, mas, conseguiria recompô-la em breve. Os três pegaram suas mochilas e guardaram tudo que podiam dentro delas, os sacos de dormir teriam que ser carregados por fora.
– Vamos embora. Eu quero vingança, e ela não vai sair barata. — disse Ben, enquanto caminhava junto de seu grupo de volta para a estrada de terra.
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