Holocausto Zumbi
9 Capítulo 9
O medidor de combustível já estava próximo de zerar e o grupo de Douglas acelerava cada vez mais na esperança de que o combustível que eles ainda tinham fosse suficiente para eles chegarem em seu acampamento. Suellen acordara a pouco mais de dois minutos depois de ter sido atingida com um forte soco no rosto que a fez desmaiar. Os pulos da caminhonete faziam seu corpo pular e todo o resto balançava. Alguns dos homens que sentaram na traseira do carro ficavam observando o corpo esbelto da moça pela vidraçaria que protegia o lado de dentro do de fora.
Ela não sentia vergonha, aquilo já havia passado. Tudo que sentia era um misto de raiva, ódio e medo. Ela havia sido amarrada pelos pés e mãos, ficando totalmente imobilizada. Estava tentando arquitetar um plano para fugir, mas, nas condições em que estava ela nunca conseguiria fugir, não sem lutar. Até que a sorte sorriu para si: Um dos homens não resistiu a tentação e resolveu ir para a traseira onde ela estava e tentar ter algum prazer com ela, mas, antes que pudesse fazer algo ela deu-lhe um chute nas partes íntimas, fazendo-o cair no chão. Ninguém o ajudou, não sabiam que aquilo estava saindo do controle e pensaram que era apenas mais uma artimanha do rapaz para tentar excitar a moça.
Pegou a faca do bolso do homem com as mãos ainda amarradas e começou a libertar-se, lentamente ela começou a cortar a corda que prendia suas mãos e conseguiu libertar seus punhos. Era hora de livrar suas pernas, assim o fez. Libertou-se por completo. Suas roupas estavam ao seu lado e facilmente ela pegou tudo e tentou vestir-se discretamente, porém, enquanto vestia sua roupa um dos homens olhou para trás para tentar ver um pouco do que estava acontecendo e encontrou o companheiro chorando no chão, como uma criança repreendida pelos pais.
Ele abriu a vidraça e começou a esgueirar-se para sair, o espaço era estreito e seu corpo era robusto demais para passar pelo buraco, enquanto passava seu peito pelo espaço ele entalou. Não conseguia terminar de sair ou voltar para dentro, era uma boa oportunidade para ter um pouco de vingança contra dois dos homens. Desferiu chutes no rosto do grandalhão até que seu rosto começou a ficar inchado pelos golpes. Num último chute que ela daria com a perna esquerda, o homem que havia caído no chão segurou sua perna, desestabilizando-a e fazendo-a cair no chão.
Suas costas ficaram marcadas pela textura irregular do piso, mas, logo que caiu tentou levantar-se e desferiu um último chute nos dois homens, fazendo-os enfim desmaiar.
Faltava-lhe vestir seus tênis. Calçou o par de meias pretas que usava e colocou seus tênis brancos de corrida. O grupo já estava alertado do que havia acontecido, mas, não podiam fazer praticamente nada com aquele carro. Se parassem no meio da estrada e desligassem o motor, era possível que um grupo grande de zumbis o cercassem e todos morressem. O único jeito de sobreviverem era continuar na estrada em alta velocidade e esperar chegar a tempo no acampamento deles.
O carro estava a quase 150km/h e saltar naquela velocidade poderia trazer consequências escambrosas para os ossos e todo o corpo de Suellen, o melhor seria esperar que eles diminuissem a velocidade ou então conseguir a posse do carro de volta e matar de vez todos os malditos que roubaram o carro.
Não se passaram muitos minutos para que o grupo parasse o carro. Uma luz emanava de um ponto entre a floresta, a luz era fogo e lançava no céu uma fraca coluna de fumaça que se estendia e espalhava por todo o céu. Suellen não conseguia ver ninguém, mas, obviamente os planos de Douglas era de entrar naquele possível acampamento e saquear tudo que conseguisse e provavelmente estuprar mais mulheres e sequestrá-las.
Ela abaixou-se na carroceria do carro, tentando fazer com que eles esquecessem que ela estava ali, mas, os planos do grupo de Douglas eram precisos e bem elaborados. O motorista da caminhonete ajudou o grandalhão preso na vidraça e retirou-o da mesma. Um dos homens que estava sentado ao lado do gigante saiu do carro e, seguindo as ordens de Douglas, arrastou Suellen junto com eles até o acampamento.
– Vambora, vadia! Hoje você vai conhecer os seus novos "amigos". — disse, Douglas, dando ênfase nos parenteses de amigos.
A caminhada até o acampamento foi rápida e ao chegarem na entrada do mesmo, a moça deparou-se com um alto muro feito de carros empilhados. O portão era feito com uma espécie de telhado de ferro para casas e era aberto manualmente. Douglas apenas assobiou rapidamente e o portão começou a ser aberto. Por trás daquele portão estava uma cidade improvisada com trailers.
– E aí, Douglas, trouxe carne fresca hoje? — gritou um dos homens que abriu o portão, usava óculos, tinha um cabelo longo e era gordo.
– Pode crer! Essa daqui tá em ótimas condições e já sei quem vai ter a honra de saciar-se com ela.
Douglas agora carregava sua prisioneira e estava levando-a para uma das poucas casas daquele acampamento. Era apenas uma casa em cores branco e preto, uma janela grande em sua frente e a porta da frente. O telhado era uma espécie de laje, não haviam telhas cobrindo. Douglas foi até a porta e bateu na porta como um louco bate nas paredes, antes que alguém abrisse a porta, Douglas retirou as cordas que agora prendiam os braços de Suellen em suas costas. Poucos segundos passaram e a porta abrira e um jovem de pouco mais de dezenove anos apareceu, seu rosto estava pálido e tinha cara de que acabara de acordar. Tinha cabelos curtos em um corte militar, um pequeno topete, era moreno de olhos castanhos. Usava uma camisa de Star Wars preta e uma calça branca, seus pés estavam descalços.
– O que é? Eu já fiquei de guarda ontem, vai me mandar para lá de novo?
– Não, está vendo essa moça aqui?
– Sim, estou. Prazer em conhecê-la, nova por aqui? — disse ele amigavelmente enquanto estendia a mão para cumprimenta-la.
Infelizmente a resposta que teve não foi boa, Suellen apenas cospiu em seu rosto, demonstrando uma intensa selvageria.
– Mas que porra? Tu trouxe uma louca pro acampamento?! — esbravejou enquanto limpava seu rosto.
– Não, calma. Ela apenas não está gostando muito de estar aqui. — no momento em que ele disse isso, o rapaz conseguiu ver os hematomas que estendiam-se pelo seu corpo. Conhecendo Douglas, ele sabia que aquilo só podia significar que ela era uma prisioneira. — Quero que ela fique na sua casa por enquanto.
– Que seja. Ela não tem roupas ou qualquer coisa extra? — perguntou.
– Não, apenas as roupas do corpo. Nada mais.
– Tudo bem. Vem aqui... — ela entrou na casa do garoto e fingindo não estar interessada visualizou a decoração da casa.
Ele pegou duas canecas e colocou café dentro delas. Estava quente e seu aroma contaminava toda a casa.
– Aceita uma xícara de café? — disse já oferecendo a xícara para ela.
Suellen ficou em silêncio e apenas pegou a caneca de forma ignorante e bebeu.
– Está quente. — soprou um pouco e deu uma golada. — Então, qual o seu nome? — encostou-se na mesa e ficou apenas observando-a por um tempo.
Encarou-o com cara de poucos amigos e logo ele entendeu que ela não estava ali por vontade própria.
– Então, o que o Douglas fez com você? Te maltratou? Roubou seus suprimentos?
– Fui extuprada e separada do meu grupo, meu irmão estava nesse grupo. — disse ainda receosa da procedência do rapaz.
– Nossa, deve ter sido barra pesada... Bom, eu me chamo, Pedro. E você?
– Meu nome é Suellen, mas pode me chamar de Sue.
– É um nome interessante, apesar de que uma moça bonita como você deveria ter um nome mais bonito.
– Eu sei. Na verdade eu não iria me chamar Suellen, iria me chamar... — ela parou de falar e riu baixo.
– Então, eram apenas você e seu irmão no grupo, ou tinha mais alguém?
– Éramos quatro pessoas, eu, meu irmão e um casal...
Os dois prosseguiram por horas com a conversa, como se eles se conhecessem a anos. Compartilharam experiências que viveram, riram e se consolaram. A intimidade que conseguiram em poucas horas de conversa era maior do que eles haviam conseguido em vários anos de conversa.
Contavam piadas e riam como dois loucos, quem passava por perto corria em desespero.
– Não rio tanto assim desde que... — ela parou de falar, abaixou a cabeça e forçou seus olhos para não chorar.
– Desde que... O quê? — perguntou.
– Desde que meus pais e meu namorado morreram.
– Nossa, que barra. Meu pai ainda está vivo, mas, não gosto muito dele... — disse como alguém que não queria nada. — Minha mãe morreu quando eu ainda era uma criança.
– Sinto muito... — respondeu.
– Não sinta, já faz muito tempo.
Os dois fizeram um silêncio por um tempo e apenas ficaram olhando para os lados tentando evitar contato olho por olho. A situação havia tornado-se trágica, passar de boas piadas para um ar fúnebre. Então, Pedro quebrou o gelo:
– Então... Sua opinião sobre mim mudou nessas últimas horas? — ela não respondeu. — Vi que você estava realmente me odiando quando chegou aqui e odiando estar aqui, mas, depois de tudo isso... Você continua com a mesma opinião?
– Não. Para mim você é diferente, não é como eles, mas, mesmo assim minha opinião sobre este lugar é a mesma.
– Entendo. Eu também não gosto daqui, mas, não posso sair.
– E por que não?! — levantou o tom de voz bruscamente.
– Porque... Bom, não é fácil dizer isso, mas... — ele riu envergonhado. — Sabe o Douglas? — disse.
– Sei, o filho da puta que me estuprou.
– Bom, ele não me deixa sair daqui, diz que sou muito importante para o lugar, etc..
– Que droga, então por que você não foge?
– Não quero fugir. Eles irão atrás de mim e aqui eu pelo menos tenho segurança, energia e pessoas que conheço.
– Entendi... — respondeu desanimada com a resposta que recebera. Ela queria alguém lhe ajudando a fugir, Pedro seria a melhor opção.
* * * * *
Ben pegou seu binóculo e olhou atentamente para um muro feito inteiramente de carros empilhados, haviam alguns homens na frente do portão improvisado que portavam armas de alto poder de fogo: escopetas. Uma ideia bateu na cabeça de Benjamim, mas, ao mesmo tempo o fazia pensar que era uma péssima ideia. Eles encontraram aquele lugar seguindo a trilha de pneus que a caminhonete deles deixara para trás, o único modo de saber se Suellen estava lá era entrando escondidos e verificando tudo que era lugar.
– Será que ela está aqui? — perguntou, Samara.
– Não sei... Não vamos conseguir entrar por aquele portão, não com aqueles dois ali. Só tenho uma bala na minha pistola, seria muita sorte matar os dois com um tiro.
– Não interessa, temos que ir lá dentro! Caraca, Ben... É a Sue! Minha irmã! Não vou deixá-la naquela bosta, sem que eu faça nada.
– Calma, Juan. Não podemos ir para lá assim, como loucos, morreríamos facilmente. Quantos devem estar armados lá dentro?
– É verdade... — disse, Samara.
– Não vou ficar aqui. Eu vou até lá! — Juan começou a descer o morro no qual eles se encontravam e guardou todas as armas que possuía, precisava entrar lá dentro pacificamente e depois matar todos.
– Ei, quem é você? — perguntou um dos homens armados. Usava um boné vermelho, uma camisa de botões xadrez branca e preto e uma calça jeans.
– Calma aí, vocês tem abrigo nessa comunidade para um cara solitário?
– Calma nada. Levanta as mãos e ajoelha! — ele gritava alto como o rúgido de um leão.
– Ok, ok... — Juan tinha um sorriso sarcástico no rosto, suas intenções eram outras e bastava que um deles chegasse para que ele pudesse dar o bote.
O homem aproximou-se com a arma apontada para o rosto de Juan. Era visível que ele não possuía nenhuma habilidade no manuseio de armas, visto que segurava a arma com as mãos trêmulas e quase deixando-a cair. Ele cutucou de leve a cara de Juan e num breve segundo de distração o golpe foi dado. O rapaz deu vários tiros na esperança de que um deles acertasse em cheio o visitante, mas, Juan bateu no cano da arma, fazendo com que a mira fosse perdida; retirou uma faca de seu bolso e fez o homem de refém.
– Abaixa a arma! — gritou e assim foi feito. — Agora abre o portão e me deixa entrar.
* * * * *
Um grupo de homens armados corria em direção ao portão principal onde vários disparos foram feitos. Douglas bateu de casa em casa pedindo que todos se acalmassem e como um bom líder, conseguiu persuadir todos. Suellen olhou com a pouca visão que tinha da janela para o portão a agitação que ocorria, mas, logo viu-se cega novamente quando o grupo cercou o portão.
– O que será que aconteceu ali? — perguntou.
– Não sei, mas, se você quer realmente fugir o momento é este.
– O quê? Agora?!
– Sim, agora. Tem um portão do outro lado daquele lá, se você for rápida pode conseguir chegar nesse portão, abri-lo e escapar.
– Não, eu... — ela parou de falar, lembrando da conversa que tivera com seu novo amigo, preferiu ficar.
– Você vai ficar aqui então? — seu rosto ficou alegre.
– Eu... Acho que vou sim.
Pedro aproximou-se lentamente de Suellen fingindo que iria observar os arredores da casa pela janela, mas, pegou-a desprevenida e beijou-a. Suas mãos quentes percorreram suas costas e vagarosamente foram puxando-na para junto do corpo de Pedro, ela resistiu por pouco tempo quando sentiu que ela gostava daquilo e queria aquilo a algum tempo.
* * * * *
– Puta merda, larguem as armas antes que ele me mate! — ele dava gritos roucos por causa de Juan, que forçava-lhe o pescoço fazendo sufocar levemente.
Antes que os homens de Douglas pudessem soltar suas armas no chão um tiro foi disparado por uma pistola no meio da multidão... Era Douglas.
– Que merda tá acontecendo aqui? — gritou enfurecido.
Não foram necessárias explicações, ele confirmou o que suspeitava com os próprios olhos: Juan havia feito um de seus homens de refém.
– Solta a arma ou eu mato esse desgraçado aqui. — gritou, Juan.
– Mata. Pode matar. — disse com extrema frieza.
– O quê? — Juan fingiu não ter ouvido direito, ele sentiu um arrepio passando por todo seu corpo quando ouviu Douglas tratar um de seus companheiros como um completo inútil.
– Mata! Eu não ligo se você vai matá-lo ou não, ele é um inútil, posso substituí-lo mais rápido do que você pode matá-lo.
Os homens que cercavam Juan ficaram surpresos e assustados com a reação de seu líder. A maioria dos moradores da comunidade desconhecia a personalidade agressiva, psicopata e louca de Douglas; pensavam que ele era mais um dos que sobreviveu, porém, que tinha calma e sanidade mental suficiente para comandar uma resistência.
– Eu vou matar ele, olha que eu aperto esse gatilho e espalho os miolos dele por todo o lugar! — Juan ameaçava Douglas na esperança de que ele tentasse propor algum trato ou se assustasse.
– Mate-o! Eu não vou repetir novamente, se você não o fizer eu o farei. — seus olhos denunciavam a verdade: ele não estava blefando.
– Te dou três segundos para me deixar sair daqui com minha irmã ou eu vou matar ele de verdade. Não estou brincando! — gritou para Douglas enquanto ele tentava se retirar.
Douglas ficou irritado com aquela situação, não aguentava mais as brincadeiras tolas de Juan e logo virou-se com a pistola em mãos e mirando no peito de seu soldado, deu apenas um tiro que atravessou o seu coração e por azar atravessou seu corpo, tendo força suficiente para ainda atingir o lado direito do peito de Juan. A arma que ele empunhava escapou de suas mãos, o aperto que ele fazia com seu braço direito no pescoço do homem foi ficando mais fraco até que ele o soltou. O homem caiu no chão como uma tábua e seu sangue foi derramando na areia grossa sem parar. Juan caiu devagar, no fundo ele sabia que o tiro não tinha acertado seu coração, mas, por outro lado sabia que ia morrer. Seus pensamentos foram resumidos em uma única lembrança: O aniversário de 10 anos de sua irmã, na época ele tinha onze anos, aquela foi para ele a lembrança mais feliz que teve junto com sua irmã pelo curto período de tempo que teve para escolher no que pensar. Uma pequena nuvem de poeira levantou ao redor do corpo dele quando ele caiu no chão de costas e que logo foi dissipando-se.
– Limpem esta merda. Não quero gente se decompondo na minha área. — gritou, Douglas enquanto virava-se e saia tranquilamente da cena do assassinato.
Fale com o autor